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ZOFIA SAWANIEWSKA-MOCHOWA

Instituto de Estudos Eslavos da Academia Polaca de Ciências, em Varsóvia

ID ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2916-6736

ÁREAS DE INVESTIGAÇÃO: dialetologia, etnolinguística, lexicografia dialetal, língua polaca regional.

DOI: https://doi.org/10.35321/bkalba.2024.97.07

OS DIÁRIOS DE EMILIA WRÓBLEWSKA, NASCIDA BENIOWSKA, DOS ANOS 1850–1886, COMO FONTE PARA INVESTIGAÇÕES LINGUÍSTICO-CULTURAIS1

PALAVRAS-CHAVE: diarística, história das mulheres, século XIX, Lituânia, edição digital de fontes, língua polaca dos territórios do Nordeste.

NOTA

O artigo apresenta as diferentes perspetivas de investigação que o rico legado diarístico de Emilia Wróblewska, conservado na Secção de Manuscritos da Biblioteca da Academia Lituana de Ciências Wróblewski, em Vilnius, abre aos linguistas e aos historiadores da cultura. A produção escrita desta autora relativamente pouco conhecida da Lituânia do século XIX merece uma reflexão humanística multifacetada e ser integrada no amplo circuito científico. Esse é o objetivo do projeto documental e de investigação atualmente em curso: apresentar os manuscritos de Wróblewska numa edição digital acompanhada de estudo crítico e mostrar os aspetos ideológicos, linguísticos e literários da escrita íntima feminina produzida numa situação de partições.

1 O artigo foi elaborado no âmbito do projeto Egodocumentos de Emilia Wróblewska dos anos 1850–1886 – testemunho da vida e das posições ideológicas de uma polaca do meio intelectual de Vilnius. Edição digital de 7 diários com estudo crítico e e-monografia, financiado entre 2023 e 2028 no âmbito do programa denominado «Programa Nacional para o Desenvolvimento das Humanidades», n.º do projeto NPRH/F/SP/507578/2021/11, módulo «Fundamentos». São parceiros do projeto a Biblioteca da Academia Lituana de Ciências Wróblewski, em Vilnius, e o Centro de Competências Digitais da Universidade de Varsóvia. Este texto tem caráter exploratório e baseia-se numa excerção preliminar das fontes; por conseguinte, as reflexões e observações apresentadas não pretendem constituir um estudo completo com conclusões desenvolvidas. A análise linguística e estilística integral da produção escrita de Wróblewska só será apresentada na e-monografia coletiva que concluirá o projeto.

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RESUMO

O artigo apresenta as diversas perspectivas de investigação que se abrem aos linguistas e historiadores da cultura graças à análise do rico legado diarístico de Emilia Wróblewska, conservado no Departamento de Manuscritos da Biblioteca Wróblewski da Academia Lituana de Ciências, em Vilnius. Os escritos de uma autora relativamente pouco conhecida da Lituânia do século 19th merecem uma reflexão humanística multifacetada e uma divulgação mais ampla junto da comunidade científica. Assim, o objetivo do atual projeto de documentação e investigação é apresentar os manuscritos de Wróblewska sob a forma de uma edição digital com estudo crítico e mostrar os aspetos ideológicos, linguísticos e literários da escrita intimista feminina produzida no período das Partilhas e da dominação do Império Russo.

A escrita intimista feminina do século XIX desperta um interesse crescente, mas também polariza as opiniões sobre este género de produção escrita. Alguns investigadores consideram este tipo de criação uma fonte histórica marginal e uma literatura epigonal de valor artístico duvidoso; outros, pelo contrário, veem nos egodocumentos de mulheres um testemunho sincero da vida e da atividade das autoras, bem como um registo de acontecimentos apresentados pelo prisma dos sentimentos e da expressividade de quem escreve (Griškaitė 2012: 296). A escrita biográfica feminina da Lituânia do século XIX constitui uma fonte valiosa, embora insuficientemente explorada, para o estudo da língua, das opiniões e das aspirações das ativistas oriundas dos círculos da intelligentsia, do seu trabalho orgânico em prol da preservação de valores fundamentais (serviço à Pátria e à sociedade, fé em Deus, família, educação das mulheres, formação patriótica e cívica dos filhos) e da construção de estratégias de sobrevivência perante a derrota das insurreições de libertação nacional. As atitudes das mulheres e os seus dilemas relacionados com o envolvimento na atividade pública na viragem dos séculos XIX e XX são uma área cada vez mais presente na historiografia contemporânea, tanto polaca como lituana (ver, por exemplo: Kałwa 1997, 2014; Bairašauskaitė 2011; Żarnowska 2014 ou os estudos da série Kobieta i..., dirigidos por Anna Żarnowska e Andrzej Szwarc).

Neste breve esboço, pretendo apenas assinalar as interessantes perspetivas de investigação que o rico legado diarístico de Emilia, nascida Benjowska, Wróblewska abre aos humanistas e explicar por que razão vale a pena disponibilizar estes manuscritos aos investigadores sob a forma de uma moderna edição digital, como testemunho da vida, da língua e da esfera de valores de uma mulher da intelligentsia de Vilnius no período pós-insurrecional — uma mulher que se realizou em diferentes áreas: escritora amadora, mãe dedicada, professora, mas também pessoa pouco feliz no casamento, dilacerada interiormente entre ideais conserva-

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tywnego społeczeństwa (zob. Medišauskienė 2001) a potrzebą przekraczania granic ról społecznych i poszukiwania dróg osobistego rozwoju intelektualnego. Aspiracje edukacyjne i samokształceniowe kobiet na Litwie od końca XVIII w. do początku w. XX przedstawiła szerzej Olga Mastianica w książce pod znamiennym tytułem Praverus namų duris (Po uchyleniu drzwi domu), ukazując stopniowe ewoluowanie ich ról społecznych, od opiekunki domu i co najwyżej pomocnicy mężczyzny, ku aktywności intelektualnej i zawodowej (Mastianica 2012). Emilia Wróblewska nie należy do postaci, które są opisywane w podręcznikach historii czy literatury polskiej, jak i litewskiej, ale też nie jest to osoba przez badaczy zupełnie niedostrzegana. Jest wspominana w publikacjach na temat dawnej Biblioteki Wróblewskich w Wilnie (np. Białokozowicz 2002: 207–208), jej imię figurowało obok imienia męża w nazwie tej instytucji (Biblioteka im. Eustachego i Emilii Wróblewskich, obecnie Biblioteka Litewskiej Akademii Nauk im. Wróblewskich). Wzmiankowali o niej też biografiści jej męża, zesłańca, lekarza-homeopaty i społecznika, Eustachego Wróblewskiego (1826–1891), a zwłaszcza badacze życia, działalności i postaw ideowych jej synów, Tadeusza Stanisława Wróblewskiego (1858–1925), słynnego wileńskiego adwokata, bibliofila, działacza społecznego, zesłańca i Augustyna Aniceta Wróblewskiego (1866–po 1913), naukowca, biochemika, socjalisty, teoretyka i propagatora anarchizmu. O obecności diarystyki Wróblewskiej w wileńskich zbiorach archiwalnych informowała w 1999 r. również historyczka Tamara Bairašauskaitė, ale przedstawiła te źródła fragmentarycznie (Bairašauskaitė 1999: 36–37). Cenny walor informacyjny dla zainteresowanych XIX-wieczną diarystyką kobiecą mają dane archiwalne na temat dzienników Wróblewskiej wraz z syntetycznym streszczeniem ich zawartości, umieszczone w bazie elektronicznej Archiwum Kobiet2, opracowanej w Instytucie Badań Literackich w Warszawie.

A investigadora lituana Reda Griškaitė (2012, 2017) integrou mais amplamente a figura de Wróblewska no discurso histórico, apresentando em pormenor interessantes aspetos biográficos e a obra da diarista como fonte valiosa para a investigação literária e histórica. Apresentou também alguns registos da autora de diferentes anos; contudo, nenhum dos 7 volumes do legado diarístico de Wróblewska (com cerca de 1200 páginas) foi até hoje objeto de uma edição crítica.

2 http://archiwumkobiet.pl/autor/wroblewska-emilia [consultado em 2024 02 13].

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Os egodocumentos da diarista, nascida em 1830 na cidade de Kobryn, na província de Grodno, filha de Augustyna Kryńska (1809–1869) e do major Bartłomiej Beniowski (1800–1867), participante na Insurreição de Novembro e emigrado (Lewak 1935: 429), continuam a exigir um estudo aprofundado do ponto de vista linguístico e cultural, bem como a sua apresentação no contexto da escrita feminina e em articulação com o enquadramento biográfico, familiar e social. Criada nas tradições do patriotismo romântico, só conheceu o pai, emigrado após a Insurreição de Novembro e ativista no estrangeiro (Harris 2019), mais de 20 anos depois, em Londres. Admirava-o pela coragem, pela memória prodigiosa e pelos trabalhos científicos; no diário, escreveu sobre o pai exilado: «pois tudo podia encontrar em terra estrangeira, / mas em vão procuraria — ajuda, conselho, fama / todos lhe darão, mas um coração, será assim tão fácil encontrá-lo / e ainda por cima entre os ingleses» (DBW1, Wilno, 16 września 1851, k. 38r)⁳.

A tia materna de Emilia, Leokadia, nascida Kryńska Andrzejkowiczowa (1810–1882), também se envolveu na atividade independentista; dirigia em Vilnius um colégio feminino, encerrado após a Insurreição de Janeiro, em 1864. Graças à investigação arquivística pormenorizada da já referida R. Griškaitė (2017: 102–103), sabemos agora que Emilia Wróblewska era, para a época, uma mulher instruída. Recebeu educação em casa, depois nos melhores colégios femininos de Vilnius e no Instituto dos Nobres de Vilnius. Tinha aptidão para aprender línguas e conhecia francês, alemão, russo e inglês. Também se dedicava de bom grado à tradução de livros que trazia do estrangeiro. Traduziu do inglês para o polaco um trabalho científico do pai A Handbook of Phrenotypics for Teacher and Student (Londyn 1842)⁴ e, do francês, uma coletânea de meditações religiosas intitulada Les Paillettes d’Or (Okru

3 Nas citações dos diários de Wróblewska, mantenho as características linguísticas dos originais. Não adapto às normas ortográficas atuais as grafias usadas pela diarista, que podem refletir características da pronúncia regional e do uso linguístico das Terras Orientais e documentar processos ortográfico-fonéticos ainda em curso na língua polaca geral do século XIX. Não elimino do texto os elementos riscados pela própria autora. Atualizo apenas a pontuação e introduzo os sinais de pontuação necessários por razões sintático-lógicas. Considero um maneirismo gráfico o uso, pela autora, de hífenes ou traços mais longos em posição inferior. Por vezes, desempenham a função de ponto final, ponto e vírgula ou reticências, podendo também anunciar uma interpolação. Não excluo ainda que, desta forma, a autora assinalasse estados emocionais intensos (uma espécie de pontuação emotiva).

4 O manuscrito de 60 folhas desta tradução, com um prefácio de Wróblewska datado de 16 de novembro de 1886, conservou-se nas coleções da Biblioteca da Academia Lituana de Ciências Wróblewski (doravante abreviada como: BW LAN), cota F9–242. Ela terá trazido o livro do pai de Londres depois de 1855; o exemplar da obra de Beniowski encontra-se conservado na BW LAN, cota 41915.

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chos dourados. Um ramalhete de pequenos conselhos para santificar e tornar feliz a vida5). Em 1851, começou a trabalhar como professora de ensino primário no pensionato dirigido em Vilnius pela já mencionada tia Andrzejkowiczowa e pela mãe de Emilia, Augustyna, nascida Kryńska Beniowska. Também obteve autorização para dar aulas particulares de francês. Os diários documentam o apreço de Wróblewska pelo trabalho de base, que entendia como a educação das crianças (o aperfeiçoamento da força moral do caráter) e sua instrução; mostram também sua aptidão para a atividade científica e, por fim, seu empenho no autoaperfeiçoamento, por meio da escolha de leituras variadas para aprofundar conhecimentos em diferentes áreas e desenvolver a vida espiritual.

Wątkiem, który wymaga gruntownego zbadania jest podana przez R. Griškaitė (2017: 90) za biografami rodziny Wróblewskich i badaczami oświaty na Litwie w XIX w. (por. Romanowski 2003: 285) informacja o prowadzeniu przez Emilię przez 40 lat tajnej pensji dla dziewcząt w Wilnie, w której edukację początkową pobierały uczennice z najznakomitszych miejscowych rodzin. Sugeruje to inskrypcja „40 lat dzieci uczyła” umieszczona na nagrobku Wróblewskiej na cmentarzu na Starej Rossie. W samych dziennikach nie znajdujemy na ten temat informacji, być może był to ze strony autorki rodzaj autocenzury, by nie zdradzać szczegółów, które mogłyby zagrażać bezpieczeństwu uczennic i ich rodzin, gdyby trafiły w nieodpowiednie ręce. W jednym tylko wpisie, dokonanym prawdopodobnie w 1884 r., w Notatach różnych zatytułowanych Moje mysli (bardzo trudnych do odczytania), podzieliła się taką refleksją: „Jestem nauczycielką od 15 r. życia, a / teraz mam już lat 54. [nieczytelne], więc od lat zajmuję się pracą tak ciężką dla innych, a dla mnie tak miłą, kocham wiek dziecin[n]ny, młodociany” (NRW2, k. 17v), Z prostego wyliczenia wynika zatem, że niemal 40 lat Wróblewska zajmowała się nauczaniem u podstaw.

5 BW LAN, sig. F9–928, 929. Um dos cadernos contém traduções de duas coletâneas de meditações, identificadas por assinaturas distintas, num total de 155 folhas. O catálogo de manuscritos da BW LAN indica os anos 1871–1873; na própria fonte, a primeira coletânea é datada de 1868–1870, e a segunda, de 1871–1873. A informação catalográfica também menciona a publicação do manuscrito intitulado Złote okruchy (1877), pela tipografia de Józef Zawadzki. A edição, porém, não informa quem realizou a tradução. Na página de rosto figura apenas o subtítulo Zbiorek pierwszy, mas o livro contém ambas as coletâneas, como se pode verificar consultando o exemplar digitalizado de Złotych okruchów, proveniente da Biblioteca Paroquial de Liszki, ver https://polona.pl/item-view/056e4994-7432-4324-bd9d-3e2465385e0c?page=4 [acesso em 2023 12 01]. A comparação do manuscrito da tradução com o texto publicado demonstra sem margem para dúvidas que se trata de uma tradução de Wróblewska. Permanece, porém, enigmático o motivo pelo qual o nome da autora da tradução não foi revelado na publicação.

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A diarista realizou-se não só como escritora amadora e tradutora, mas também, como seus diários atestam de modo contundente, foi uma mãe profundamente ligada afetivamente aos filhos e empenhada na sua formação intelectual. Nas Notas pedagógicas redigidas em 1867, durante sua estadia em Londres, revelou que deveria aproveitar da melhor maneira possível o tempo que passava longe da família, estudando frenotipia6, lendo obras históricas, dominando a língua inglesa e «trabalhando <...> em tudo o que eu vir que possa ser útil aos meus filhos» (NPW, f. 1v).

Dos sete filhos dos Wróblewski, apenas dois filhos chegaram à idade adulta. Wróblewska sofreu a perda de três filhos (Władysław, Zygmunt e Kazimierz) e duas filhas (Stanisława e Maria). A filha Maria, para quem mantinha um diário, morreu antes de completar 18 anos. A diarista morreu aos 56 anos; escreveu entradas nos diários durante quase 30 anos de sua vida, com uma longa interrupção nos períodos de 1873–1877 e 1879–1883. Pertencia às mulheres que, como bem observou R. Griškaitė, «não podiam deixar de escrever» (Griškaitė 2017: 109).

O legado manuscrito de Emilia Wróblewska constitui uma fonte valiosa para pesquisas linguísticas de diferentes orientações. A língua polonesa é um valor constitutivo da axioesfera patriótica da família nobre; contudo, nenhum dos pesquisadores dos manuscritos da diarista até hoje se concentrou nas qualidades linguísticas, na grafia de seus registros e na diversidade estilística e genérica da produção escrita de Wróblewska, embora seus egodocumentos (não apenas diários, mas também cartas, traduções e resumos de leituras7) sejam valiosos

6 Frenotipia (em inglês, phrenotypics) foi o nome dado por Bartłomiej Beniowski à máquina que ele próprio construiu para aperfeiçoar a capacidade de memória e assimilar uma enorme quantidade de dados; sobre o assunto, ver: Griškaitė 2017: 98. A própria diarista chamava a invenção do pai de «imagens da memória», «maravilhas da memória» e, no prefácio à tradução da obra de Beniowski do inglês, escreveu: «A mente / inventiva dele buscava uma máquina motora <...>, que imprimisse na memória, cem vezes / mais depressa, essa imensidão / de conhecimentos que ele queria transmitir à sua / memória — e que, além da rapidez, tivesse / tal força que, uma vez impressos no cérebro, / os gravasse tão profundamente que se tornassem / com ele uma só — ou seja, uma unidade indissolúvel. Pensou, buscou, / examinou todos os sistemas da antiga / Mnemônica (ciência da memória) e, por fim, / mediante várias combinações, concebeu e criou com seu próprio / engenho essa máquina motora; montou suas rodas e eixos» (BW LAN, sig. F9–242, f. 2r–2v].

7 Wróblewska começou a resumir os livros lidos e a reunir notas sobre diferentes áreas do conhecimento (economia, história antiga, história e cultura de Vilnius, geografia) em 15 de novembro de 1871 (NRW1, f. 1r). Esses registros documentam a amplitude de seus interesses. No início do manuscrito Treść moich czytań, explicou o objetivo de seu trabalho: «Escrevo isto pensando na minha filha, querendo incentivá-la / a também, quando crescer, resumir cada obra / que ler-

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um testemunho do polonês do século XIX, usado na modalidade escrita por representantes intelectualmente ativos da intelligentsia de Vilnius.

A diarista tinha amplas competências linguísticas; sua obra caracteriza-se pela cultura da palavra e pela riqueza lexical, ao mesmo tempo que os registros de Wróblewska revelam diferentes tipos de oscilações, que podem indicar tanto a variação da grafia da época e a existência de um grafoleto específico, utilizado nos manuscritos, quanto o reflexo, na escrita, de traços da pronúncia da intelligentsia de Vilnius do século XIX. O colorido fronteiriço do polonês da diarista, já perceptível numa leitura preliminar de trechos dos diários, exige uma análise minuciosa, qualitativa e quantitativa, bem como uma comparação com a língua de textos de outros autores do século XIX oriundos da Lituânia e que escreviam em polonês, além das tendências gerais do polonês oitocentista. Só uma abordagem comparativa permitirá determinar a presença de fenômenos regionais na produção escrita de Wróblewska e de traços individuais de seu estilo.

Mesmo uma sondagem superficial das entradas da diarista de diferentes anos indica que a autora apresenta oscilações no uso das consoantes de três séries: sibilante (Z), chiada (Ź) e chiante (Ż), o que se manifesta graficamente em irregularidades no emprego dos diacríticos (pontos e traços). Irena Bajerowa (1986: 33) caracterizou o estado da ortografia dos manuscritos do século XIX quanto ao uso de sinais diacríticos como ainda não estabilizado e frequentemente descuidado. Wróblewska também omite os diacríticos com relativa frequência ou os representa de maneira desigual e inconsistente, tratando com bastante liberdade o uso de traços e pontos (exemplos serão apresentados adiante neste artigo). Por isso, é indispensável cautela ao reconstruir, com base numa grafia não estabilizada, a relação entre a unidade gráfica (grafema) e sua realização sonora. O objetivo da edição digital é transcrever os diários da diarista com a maior fidelidade possível ao original, preservando suas variantes gráficas, e depois realizar pesquisas comparativas que permitam avaliar o reflexo de traços da pronúncia na escrita. Com base nas cem páginas de manuscritos já transcritas, é possível assinalar a ocorrência, na escrita diarística de Wróblewska, de duas tendências opostas, provavelmente de origem articulatória: a omissão dos traços indicativos de palatalização das consoantes em posição final (tipo pa-mięć, odbyt, dziś, tydzień, bądź, wyraz «claro») e a indicação, na mesma posição, da palatalidade da consoante c (tipo pomóc). A presença de processos secundários de pa-

asse para si, pois só então lhe trará verdadeiro benefício. / Comecei tarde demais, mas nunca é tarde / para dar um bom passo» (NRW1, f. 1r).

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A palatalização e a despalatalização das consoantes em diferentes posições no polonês do tipo das Terras Fronteiriças do Norte não são, naturalmente, algo surpreendente, pois temos muitos testemunhos desses fenômenos em diferentes fases de desenvolvimento e variedades funcionais da língua polonesa da Lituânia (Kurzowa 1993: 237, 239–240).

É um fato de interesse para a pesquisa que uma pessoa do meio intelectual, culta, em contato com diferentes textos, conhecedora de línguas e responsável pela educação de outras pessoas, que empregava uma variedade elevada do polonês8, esteja, apesar de suas competências linguísticas, sujeita à influência do uso regional. Nesse contexto, convém mencionar a observação de Zofia Kurzowa, que considerou as perturbações na distribuição das consoantes das três séries «a característica mais evidente do consonantismo dos filomatas» e todo o conjunto de usos das consoantes das três séries «a única área em que os filomatas não souberam lidar com a fonética» (Kurzowa 1972: 47, 67; Bajerowa 1986: 125). Constata-se que essa área, situada na fronteira entre a grafia e a pronúncia, também causava dificuldades a Wróblewska, embora ela lidasse com elas muito melhor do que os filomatas. No entanto, modernizar a ortografia dos manuscritos da diarista segundo os padrões atuais e eliminar a variação que também caracterizava a ortografia e o sistema morfonológico da língua polonesa padrão do século XIX (Bajerowa 1986: 123–124) retiraria dessas fontes o valor de testemunho autêntico do polonês oitocentista usado em egodocumentos femininos da Lituânia. Vale acrescentar que as breves citações dos manuscritos de Wróblewska apresentadas na base de dados Archiwum Kobiet foram atualizadas, não possuindo, portanto, valor documental para o historiador da língua e o pesquisador do polonês regional. Apenas R. Griškaitė procurou preservar, nos trechos citados dos diários, a ortografia e a segmentação do original, mas não abordou as oscilações nos diacríticos, a presença de formas peculiares nem as condições regionais do polonês da diarista. De modo algum faço disso uma crítica, pois a pesquisadora se dedicava à análise do conteúdo dos documentos (que realizou com perfeição), e não a questões de grafemática, fonética ou morfonologia. Nossas

8 Tym terminem określam za Anną Zielińską (2002: 12) wariant polszczyzny używanej na Litwie przez inteligencję pochodzenia ziemiańsko-szlacheckiego. Określenie to, motywowane socjolingwistycznie, wydaje się adekwatne do dobrej znajomości języka polskiego Wróblewskiej jako przedstawicielki warstwy ziemiańsko-szlacheckiej, która zasiliła szeregi inteligencji wileńskiej. Trudno na wstępnym etapie badań wyrokować, jaki twórca mógł być dla piszącej inspiracją i wzorcem literackim do naśladowania, ale warto w przyszłości skonfrontować polszczyznę diarystki z językiem jej współczesnych popularnych autorów, np. Syrokomli (por. Trypućko 1955–1957; Karaś 2022), który przyjaźnił się z Eustachym Wróblewskim, mężem Emilii.

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leituras, como posso afirmar com base nas citações de manuscritos selecionados publicadas por R. Griškaitė (2012), são, aliás, em geral convergentes, embora ocorram algumas diferenças; por exemplo, eu interpretaria raźnych (Griškaitė 2012: 241) como różnych ‘diferentes’ (DWB1, f. 38r), porque o grafema z z com diacrítico assinalado de modo impreciso representa nos manuscritos de Wróblewska tanto o fonema [ž] quanto [ź], mas, neste caso, o contexto ajuda a compreender corretamente a forma, pois se fala de pessoas różnych wiekiem i narodem i stanem9; por sua vez, a leitura do późna (Griškaitė 2012: 275), comparada ao manuscrito, é sem dúvida do późna (DBW1, f. 7r); por fim, a grafia imprecisa chrescianki (Griškaitė 2012: 264), quando o manuscrito apresenta a forma chrześcjanki (DMW, f. 2r), com o alógrafo rz representando o fonema [ž]. Dadas as diferenças observadas na leitura da caligrafia da diarista, a melhor solução, tanto do ponto de vista da prática de pesquisa do linguista quanto do historiador, é preparar uma edição digital dos diários em acesso aberto, que apresente duas visualizações do manuscrito: a transcrição do original, complementada por uma rede de comentários interativos, e a representação visual do texto original.

Será então possível propor a correção das leituras sugeridas, conforme o quadro de referência utilizado, e manifestar-se sobre alguns registros problemáticos de Wróblewska, que se alteram com o passar dos anos. Como já mencionado acima, a realização gráfica do fonema [ž] é a mais variável: quando cuidadosa, é indicada como ž e rz; de modo menos cuidadoso, ou mesmo afetado, como z z, com um traço de comprimento variável colocado sobre a letra ou a uma distância considerável dela. Nos exemplos abaixo, represento esquematicamente esse último tipo de grafia como <ź>, para distingui-lo do sinal ź, que simboliza o som [ź], como, por exemplo, na palavra jeśli, que reflete a assimilação quanto à sonoridade (jeśli > jeźli). Os registros da diarista em que aparece a consoante z no lugar do esperado ž ou ź, e vice-versa, exigem uma interpretação mais completa e a busca de paralelos nos escritos de outros autores lituanos do século XIX. Determinar a frequência desses fenômenos em todo o material e examinar em detalhe as condições em que ocorrem é fundamental, pois permitirá identificar se estamos diante de efetivos

9 Emilia Kolinko, tradutora e editora da edição polonesa do texto de Griškaitė, introduziu a grafia moderna różnych, eliminando ao mesmo tempo o reflexo da fonética regional expresso pela alternância ó > o (Griškaitė 2017: 100). Também normalizou, de acordo com as regras ortográficas atuais, outras citações dos manuscritos de Wróblewska.

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fonetismos (isto é, reflexos da pronúncia das Terras Fronteiriças) ou de erros no emprego dos diacríticos, decorrentes tanto da fragilidade da norma quanto de descuidos da autora, que muitas vezes escrevia sob forte emoção. Os trechos a seguir, provenientes de diferentes manuscritos de Wróblewska, documentam a variação acima indicada no uso ou na omissão de sinais diacríticos:

Ah, como é grande / esta verdade: ‹źe o jugo do Senhor é doce e o seu fardo / leve. A donzela angelical Kazimiera contribuiu muito / para iluminar diante de mim o caminho da vida, para despertar / em mim maior amor pela minha profissão / e pelos meus deveres. Bo‹że, abençoa-a! e recompensa-a por aquilo que / fez por mim!

<...> pois para quê> nos foi dada a vida, senão para que por meio dela alcancemos o Céu. / Um mês de vida distraída, cheio de erros, / é um mês perdido para o Céu. É preciso trabalhar, é preciso / suar, pois o Reino dos Céus sofre violência, e os violentos o arrebatam. / (reflexões existenciais e religiosas, DBW1, Vilnius, 28 de janeiro de 1855, f. 86r).

Hoje, todos os meus exercícios / espirituais me indicavam o objetivo / da vida e o meu destino, / que é Deus; indicavam-me a maneira / mais perfeita de servi-Lo, / exercitando-me na Santa Indiferença, / isto é, estando pronta para tudo. / Meu coração foi tomado por esta / grande e fundamental verdade: ‹żem / fui criada para Deus e somente para isso / (meditações durante os exercícios espirituais, WEW, 1854, Dia I, f. 1v–2r).

A indiferença de Eustachy para / comigo, o completo esquecimento de mim [borrão em forma semelhante a uma lágrima], a vida dele / fora de casa, em suma, tudo isso que preservou / a atitude dele em relação a mim [rasura ilegível] / e que até agora tanto me afligia, / que era causa das minhas lágrimas, tornar-se-á para mim algo / natural, habitual. Enxugo as lágrimas, afasto a tristeza, / serei tranquila, sorridente, alegre, / pois cumprir a vontade de Deus com queixas eternas / e lamentos não é cristão (DBW3, f. 23r–23v).

Já que‹ż> nada me justificará na hora da morte e do Juízo, não / devo agora dizer / «não posso, é difícil para mim», pois essas / desculpas não me abrirão / o Céu, nem me protegerão do / Inferno (meditações durante os exercícios espirituais, WEW, 1854, segundo dia, f. 5v–6r].

Será que‹ż> esta leitura é uma lembrança / do pai; conhecer sua alma / deve ser para mim inútil [?] A visão desse grande espírito, / de suas ideias geniais, / essa ânsia de conhecimento, essa constante / busca da perfeição, essa / perseverança no trabalho elevam-me / e me enchem de orgulho, por assim / dizer, e mostram-me ao mesmo tempo quão valioso / é o tempo e como os momentos que desperdiço / miseravelmente como filha deste homem extraordinário eu poderia empregar / para aperfeiçoar ao menos uma / capacidade, que devo ter herdado de meu pai, / aperfeiçoá-la de modo / que possa beneficiar minha família / e ser útil à coletividade / (sobre o pai, Bartłomiej Beniowski, NPW, Londres, 1867, f. 2r–2v).

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Também se pode observar o polonês da diarista sob uma perspectiva etnolinguística, mais precisamente axiológico-linguística, pois, nos testemunhos pessoais, além do contexto histórico e dos costumes, revelam-se conceitos valorativos que podem ser reconstruídos com base na língua. Descobrir, por exemplo, a amplitude do conceito PATRIOTISMO nos escritos de Wróblewska exige inserir esse valor num complexo conceptual mais amplo (Bartmiński 2020: 109) e apresentá-lo em relação a outros valores importantes para ela e, de modo mais geral, para a intelectualidade da época, como PÁTRIA, DEUS, FAMÍLIA, TRABALHO, EDUCAÇÃO. Concordaremos que o amor à Pátria é a dominante semântica do conceito PATRIOTISMO, mas ele se traduz no funcionamento de diferentes modelos de patriotismo: heroico, romântico, positivista, nacional, cristão, local e outros (Karolak 1993; Brzozowska 2006, 2009). Guiada pelo pensamento filosófico da época e pela ideia do trabalho de base, Emilia Wróblewska escolheu uma estratégia de serviço à Pátria diferente daquela de seu meio. Apoia a ideia da insurreição, mas os diários documentam sobretudo seu patriotismo positivista, entendido como formação e aprofundamento da esfera intelectual, fortalecimento do espírito por meio de uma religiosidade fervorosa e da ética cristã, bem como cuidado com a preservação dos valores fundamentais na família. Expressam também um patriotismo local (do país), como atesta, por exemplo, a seguinte anotação da diarista, uma réplica à declaração da filha de um emigrante que voltou da França para o país:

não lhe agrada / depois da esplêndida Paris <ź>u nossa pobre Lituânia, com / seu pão preto, hotéis miseráveis, camponeses / oprimidos [?]. De passagem, vi países estrangeiros, / mas de P... digo: apesar de todo o conforto, / do bon genre e da civilização tão estrondosa e amplamente apregoada / do Oriente, prefiro meu pobre país! Amo tudo nele, / a terra, as pessoas e nosso céu nublado. / Concedei-me, Deus, semear e colher com estas pessoas, / viver com elas e com elas morrer! (DBW2, Vilnius, 23 de fevereiro de 1858, f. 42r).

Algumas anotações de Wróblewska incluídas no já mencionado caderno intitulado „Meus pensamentos” também têm caráter patriótico. Aqui, ela recorre ao conceito de vingador, caro ao patriotismo heroico, que se erguerá para reparar as injustiças infligidas à Polônia e restabelecer a justiça:

Równie te<ź> nie mamy prawa zrzec się ani / jednej z wiekowych naszych dą<ź>ności, gdy<ź> / nasi bohaterowie, nasi męczennicy, [skreślenie] rzuciliby / straszne przekleństwo na odstępców świętej sprawy. / Żyjemy! Nieprawdą jest, że P. w grobie. <...> świadczą o tem nasi wieszcze, nasi filozofowie / nasi malarze, nasi rzezbiarze, nasi pracownicy na ka<ź>dém polu // Żyjemy, bo groby naszych mę-

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res clamam em alta voz e recordam / à Europa uma nação valorosa — escudo da Liberdade! // Esses túmulos, esses ossos dos heróis da Polônia, são / nossa riqueza, a fonte do nosso futuro // Desses ossos surgirá um vingador! (NRW2, dezembro de 1883, f. 18r–18v).

A autora tem uma postura muito crítica em relação ao Império Russo, que considera uma „enorme prisão” (NRW2, f. 19v). „Esta nação, que se chama russa, que / julga ser não só civilizada, / mas até apóstola da civilização!, luta / habitualmente «em nome de Deus», «em nome de Cristo»” (NRW2, f. 19v). A diarista condena também o pan-eslavismo russo, que „seria ridículo, / se não estivesse suspenso como a espada de Dâmocles / sobre a cabeça dos povos de toda a terra” (NRW2, f. 20r). Às ações imperialistas da Rússia na Europa (como isso continua atual!) opunha a atitude dos poloneses, prontos a lutar pela independência de outras nações:

Assim, nós podemos orgulhar-nos. Sempre fomos / a vanguarda dos povos indepen- / dentes — e continuamos a sê-lo. // Disso dão testemunho as centenas de milhares de sepulturas, / onde estão enterrados nossos pais, nossos irmãos, / que pereceram numa luta interminável / contra esses bárbaros selvagens de vestes eu- / ropeias” (NRW2, f. 20r).

Wróblewska, como já foi mencionado, empenhava-se na educação patriótica e cívica dos próprios filhos, e os dois diários escritos para eles constituem um gênero literário peculiar — uma espécie de guias pelo mundo dos valores. No plano linguístico, são, por sua vez, um testemunho interessante do uso de um estilo materno marcado pela ternura e pela emoção (Masojć, Sawanie wska-Mochowa 2024: 38). A diarista dirigia-se com frequência aos filhos diretamente pelo nome, como futuros destinatários dos diários:

Maryjko, minha querida filhinha, hoje, no dia de Ano-Novo, / dou-te de presente este livro, que guardarás como lembrança de tua mãe, que te ama mais do que tudo na terra! (DMW, Vilnius, janeiro de 1865, f. 2r);

Lembra-te, / Tadziuniu, na vida futura, de que o sofrimento e a dor / começam no berço, de que todos têm de sofrer — aprende, / pois, meu filhinho, e acostuma-te desde a infância à coragem / e à paciência. Por isso também não te mimo e não / me desespero demais por tua causa [?], embora cada dor tua, por / menor que seja, encontre profundo eco em meu coração. Mas / não sei o que te espera na vida; talvez tenhas de suportar muitas coisas. Eu, ainda que quisesse proteger-te com o meu próprio peito contra todos os / projéteis, jamais suportaria que meu filho, por falta de coragem e firmeza, se desviasse / do caminho do dever, que, temendo o sofrimento, eu o tornasse / um filho ingrato da pátria, um mau cristão-

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FOT. 1. Meus pensamentos, cota F9–883 (NRW2, f. 20r). Fotocópia do corpus de fontes disponibilizadas pela BW LAN no âmbito do projeto.

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... e / cidadão. Sofre melhor, minha criança, sofre pelos outros / e em lugar dos outros, do que haverias de, em ignóbil tranquilidade, / cochilar e desperdiçar a vida! (DTW, Vilnius, 11 de junho de 1859, f. 17v);

Ao meu Augustynka // Meu querido filho, hoje começas o ano 21. / Daqui a um ano já serás maior de idade, e talvez eu / já esteja repousando na sepultura, ao lado da querida / Maryjka, cuja lembrança agora reviveu tanto em / teu coração e despertou uma saudade tão comovente, como dizes, / desse espírito fraterno, / que em vida te impelia, criança inconsciente, / ao sacrifício por aqueles que sofrem (DMW, Vilnius, 7 de julho de 1886, f. 46r).

Ao abordar nos diários temas existenciais e moral-religiosos, a diarista realiza quase regularmente um exame de consciência. Faz confidências sobre necessidades espirituais, a busca contínua de uma relação mais profunda com o sagrado e a vivência autêntica da fé. Do ponto de vista estilístico, é possível descobrir na estrutura de numerosas anotações diarísticas características constitutivas da linguagem da oração privada: agradecimentos, súplicas, meditações e manifestações de fé, pedidos de perdão pela própria imperfeição e natureza pecaminosa, exortações e, no plano lexical, vocabulário elevado de funções expressivas. Entre as palavras-chave do discurso religioso de Wróblewska estão: alma, pecado, Sua (de Deus) vontade, fé, virtude, Anjo, misericórdia, mas também orgulho e contrição. No plano sintático, chama a atenção a presença de frases longas e repetições.

As entradas de estilo religioso também se caracterizam por uma dialogicidade peculiar; o uso da segunda pessoa indica que a diarista mantém um diálogo interior consigo mesma e se dirige exortações:

Hoje, mais do que nunca, apega-te / a Deus, vive uma fé forte e simples, / não busques a felicidade aqui na terra, / mas somente na união mais estreita / com Ele, pois hoje vês com mais clareza / e nitidez do que nunca / como o homem sem Deus, ainda que seja o maior / gênio, nada é, e como, unido / a Ele, só então se torna verdadeiramente / grande (anotação após a morte do pai, NPW, Londres, 1867, f. 3r);

Também tu morrerás, não te preocupes / portanto excessivamente com as coisas / terrenas; faz o que deves, / faz o que está ao teu alcance, e / deixa o resto ao Senhor. Todos os dias / pensa na morte e organiza assim tua vida, / assim teus assuntos, para que ela nunca te / apanhe de surpresa. Que tua consciência, / teus assuntos, teus deveres estejam sempre em ordem, / que ninguém, depois da tua morte, se queixe de que não fizeste algo / que devias ter feito. Não deixes / para depois nada que possas fazer hoje, / pois a morte pode levar-te neste instante. Como cristã, / faz o que puderes enquanto viveres pela / tua alma. Aproveita cada / momento que te é dado para expiar / teus pecados — teme o pecado, não deixes passar nenhuma oportunidade de / cultivar a virtude ou de aperfeiçoar-te (como acima, NPW, f. 3v–4r].

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CONCLUSÕES

O legado manuscrito de Emilia Wróblewska aqui apresentado, necessariamente de forma seletiva, merece, em primeiro lugar, a realização de estudos grafêmicos aprofundados e a elaboração da forma mais clara possível de apresentar as especificidades do grafoleto da diarista. Em segundo lugar, abre diferentes perspectivas de conhecimento para os pesquisadores interessados na escrita íntima feminina, perspectivas que podem ser exploradas com o emprego de diversos instrumentos analíticos, como a história das mulheres, os estudos autobiográficos, a (axiol)linguística ou a genologia. Em terceiro lugar, a plena apreciação dos valores linguísticos, literários e documentais dos diários de Wróblewska requer que sejam situados no contexto das práticas diarísticas do século XIX e que, para fins comparativos, se considerem tanto os fenômenos linguísticos presentes nos escritos de autores e autoras da Lituânia do século XIX quanto as principais tendências de mudança ocorridas na língua polonesa geral oitocentista. Os registros da diarista refletem diversas tendências da língua polonesa geral da época, bem como do uso regional. Por um lado, nota-se a fragilidade da norma quanto ao emprego dos sinais diacríticos; por outro, diversos processos de despalatalização e palatalização secundária das consoantes, que, quando comparados às tendências de codificação da língua geral, deveriam ser interpretados, no mínimo, como regionalismos de frequência.

FONTES

DBW1 – Diário de Emilia Beniowska (Wróblewska) 1850–1855 (Diário dos tempos de solteira), BW LAN, ref. F9–183, 92 folhas.

DBW2 – Diário de Emilia Wróblewska, nascida Beniowska 1856–1859, BW LAN, ref. F9–272, 117 folhas.

DBW3 – Diário de Emilia Wróblewska, nascida Beniowska 1860–1870, BW LAN, ref. F9–236, 170 folhas.

DMW – Diário de Marja Wróblewska pela mãe Emilia Wróblewska, nascida Beniowska 1865–1878; entrada acrescentada com a data de 7 de julho de 1886, intitulada Ao meu Augustynka, escrita por ocasião do vigésimo primeiro aniversário do filho, BW LAN, ref. F9–152b, 47 folhas.

DTW – Diário de Tadeusz Wróblewski pela mãe Emilia Wróblewska, nascida Beniowska 1859–1886, BW LAN, ref. F9–149, 100 folhas.

NPW – De Emilia Wróblewska [ilegível] Sobre a organização do trabalho. Notas pedagógicas 1867 (apontamentos feitos em Londres), BW LAN, ref. F9–311, 56 folhas, em polonês e francês.

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NRW1 – Apontamentos diversos de Emilia Wróblewska 1871, BW LAN, ref. F9–902, 35 folhas.

NRW2 – Apontamentos diversos de Emilia Wróblewska “Meus pensamentos” 1883–1884, BW LAN, ref. F9–884, 56 folhas em mau estado.

WEW – Wrażenia Emilii Wróblewskiej, 1854, BW LAN, sygn. F9 – 998, 17 kart: Wrażenia i wynikające z nich uczucia i postanowienia z odbytych Rekolekcyi 1854 Gr 16 (opis przeżyć z sześciu dni rekolekcji).

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Gauta 2024-03-11

Priimta 2024-04-15

ZOFIA SAWANIEWSKA-MOCHOWA

T H E D I A R I E S O F E M I L I A W R Ó B L E W S K A, NÉE B E N I O W S K A, F R O M Y E A R S 1850–1886 A S A S O U R C E F O R L I N G U I S T I C A N D C U L T U R A L R E S E A R C H

S u m m a r y

The article initiates interdisciplinary research on the rich manuscript heritage of Emilia Wróblewska née Beniowska from the years 1850–1886, related to the preparation of a digital edition of her seven manuscripts. Reda Griškaitė was the first to introduce the intimate writings of this little-known author from 19th century Lithuania into the historical discourse. She drew attention to the literary and documentary values of Wróblewska’s diaries, which were important from the point of view of researching Lithuanian society of that day. However, the diary’s Polish as her primary language system has never been a subject of linguistic analysis. Wróblewska’s entire work (diaries kept for herself, for her son Tadeusz and daughter Maria, various notes, reading notes, translations of the texts from French and English) was created in Polish, so it constitutes a unique linguistic document of the era.

The article draws attention to the fact that the diarist’s Polish language requires researching from various perspectives, taking into account such aspects as: 1) the author’s grapholect and the diacritic variability; 2) frequency of regional phenomena and individual characteristics; 3) the presence of processes characteristic of

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the general language of the 19th century (especially recessive and expansive features), 4) stylistic and genre diversity of women’s diaries (the richness of expressivisms and emotionalisms, the use of elements of ‘maternal style’ in children’s diaries – a specific genre of intimate diaries, the use of constitutive features of the language of a private prayer).

The diary’s Polish language should also be looked at from an axiolinguistic perspective, since in addition to the historical and moral context, her personal testimonies reveal evaluative concepts that can be reconstructed on the basis of language. Discovering the capacity of the concept of PATRIOTISM in Wróblewska’s writing requires including this value in a broader conceptual complex and presenting it in relations with other values important for her and, more broadly, for the intelligentsia of that time, such as HOMELAND, GOD, FAMILY, WORK, EDUCATION. The semantic dominant element of the concept of PATRIOTISM is love for the homeland, but it translates into the functioning of various models of patriotism: heroic, romantic, positivist, national, Christian, local and others. Wróblewska’s diaries document her positivistic patriotism, understood as educating herself and deepening her intellectual sphere, refreshing her spirit through zealous religiosity and Christian ethics, and maintaining fundamental values in the family, as well as embracing local patriotism.

KEYWORDS: diaries, herstory, 19th century, Lithuania, digital edition of sources, Polish language from the former North-Eastern Borderlands.

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1850–1886 METŲ EMILIJOS BENIOVSKYTĖS-VRUBLEVSKIENĖS DIENORAŠČIAI – KALBOS IR KULTŪROS TYRIMŲ ŠALTINIS

S a n t r a u k a

Straipsniu inicijuojami tarpdisciplininiai Emilijos Beniovskytės-Vrublewskienės (1850–1886) turtingo rankraštinio paveldo, kurio pagrindu rengiamas skaitmeninis septy­nių jos dienoraščių leidimas, tyrimai. Šios mažai žinomos XIX amžiaus Lietuvos bajorės rankraščius į istorinio diskurso akiratį pirmą įtraukė Reda Griškaitė. Ji atkreipė dėmesį į moterų dienoraščių literatūrinę bei dokumentinę vertę

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ir jų svarbą tyrinėjant šio laikotarpio Lietuvos visuomenę. Tačiau diaristės vartojama lenkų kalba, kuri jai buvo gimtoji, iki šiol nebuvo lingvistinės analizės objektas. Visa Vrublevskienės rankraštinė kūryba (dienoraščiai, rašyti sau, sūnui Tadui bei dukrai Marijai, įvairūs užrašai, skaitytų knygų santraukos, tekstų vertimai iš prancūzų ir anglų kalbų) lenkų kalba, todėl yra svarbus šios epochos kalbinis dokumentas.

Straipsnyje atkreipiamas dėmesys į tai, kad į dienoraščio kalbą reikia žiūrėti iš įvairių perspektyvų, atsižvelgiant į tokius aspektus: 1) autorės rašybos grafines savybes ir diakritinių ženklų variantiškumą; 2) regioninių savybių ir individualių bruožų dažnumą; 3) XIX amžiaus bendrinei kalbai būdingų procesų (ypač nykstančių ir ekspansyvių bruožų) raišką; 4) moterų dienoraščių stilistinę ir žanrinę įvairovę (ekspresinės ir emocinės leksikos gausa, motinos stiliaus elementai dienoraščiuose, skirtuose vaikams, specifinis intymių dienoraščių žanras, privačiai maldos kalbai būdingos ypatybės).

Į dienoraščio kalbą reikėtų pažvelgti ir aksiolingvistiniu požiūriu, nes Vrublevskienės asmeniniai liudijimai, be istorinio ir moralinio konteksto, atskleidžia aksiologinius konceptus, kuriuos galima rekonstruoti remiantis kalba. Norint suprasti PATRIOTIZMO sampratos turinį Vrublevskienės kūryboje, reikia įtraukti šią vertybę į platesnį sąvokų kompleksą, nurodant ryšius su kitomis jai, o plačiau – to meto inteligentijai svarbiomis vertybėmis, tokiomis kaip TĖVYNĖ, DIEVAS, ŠEIMA, DARBAS, UGDYMAS. Semantinė PATRIOTIZMO sampratos dominantė yra meilė tėvynei, tačiau ji pasireiškia įvairiais patriotizmo modeliais: herojiniu, romantiniu, pozityvistiniu, tautiniu, krikščioniškuoju, lokaliniu ir kt. Vrublevskienės dienoraščiuose dokumentuotas jos pozityvistinis patriotizmas, kuris suprantamas kaip savęs ugdymas ir intelektinių aspiracijų gilinimas, dvasios palaikymas per uolų religingumą bei krikščionišką etiką ir pagrindinių vertybių šeimoje išsaugojimas. Vrublevskienės dienoraščiuose taip pat atspindimas lokalinis patriotiškumas.

ESMINIAI ŽODŽIAI: dienoraščiai, moterų istorija, XIX amžius, Lietuva, šaltinių skaitmeninimas, šiaurės rytų paribio lenkų kalba.

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