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MÁRCIA SIPAVICIUS SEIDE

Western Paraná State University (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), Brazil

ID ORCID: orcid.org/0000-0003-2859-1749

Áreas de pesquisa: Onomástica, Onomástica Comparativa, Teoria da Relevância.

DOI: doi.org/10.35321/all86-06

NOMES PESSOAIS FEMININOS LITUANOS COMO NOMES CULTURAIS DERIVADOS DE SUBSTANTIVOS COMUNS SOB A PERSPECTIVA DE FALANTES DE LITUANO COMO LÍNGUA DE HERANÇA¹

Nomes pessoais femininos lituanos como nomes culturais derivados de substantivos comuns sob a perspectiva de falantes de lituano como língua de herança²

¹ Agradeço ao excelente trabalho de revisão da tradução realizado pelo Professor Igor Antônio Lourenço da Silva (Universidade Federal de Uberlândia, ID ORCID: orcid.org/0000-0003-0738-3262), que recebeu financiamento do Programa de Apoio à Pós-Graduação (PROAP) da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Agradeço também o apoio oferecido pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (Linguagem e Literatura) (PPGL) da Unioeste, Brasil.

² Agradeço ao professor Igor Antônio Lourenço da Silva (Universidade Federal de Uberlândia, ID ORCID: orcid.org/0000-0003-0738-3262), que recebeu financiamento do Programa de Apoio à Pós-Graduação (PROAP) da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), pela excelente revisão da tradução. Agradeço também o apoio recebido do Programa de Pós-Graduação em Letras (Linguagem e Literatura) (PPGL) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Brasil.

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Lithuanian Female Personal Names as Cultural Names Derived from Common Nouns from the Point of View of Speakers of Lithuanian as a Heritage Language

ANOTAÇÃO

Há nomes pessoais femininos lituanos derivados de substantivos comuns, como, por exemplo, o nome Audra, que vem de audra (tempestade). Esse tipo de nome corresponde aos nomes pessoais femininos convencionais, e alguns deles são exclusivos da cultura lituana. Além disso, as informações precisas fornecidas pelo informante evidenciam que o conhecimento onomástico é parte integrante da competência linguística em lituano como língua de herança, demonstrando que também é interessante, para a onomástica, considerar os conhecimentos e as crenças populares sobre os nomes próprios pessoais.

PALAVRAS-CHAVE: Onomástica, Antroponomástica, nomes pessoais femininos lituanos, campo lexical, nome pessoal cultural.

ANOTAÇÃO

Alguns nomes pessoais femininos lituanos são derivados de substantivos comuns, por exemplo, o nome Audra é derivado de audra (tempestade). Esse tipo de nome corresponde aos nomes pessoais femininos tradicionais, e alguns deles são característicos apenas da cultura lituana. Além disso, as informações precisas fornecidas pelos informantes mostram que o conhecimento onomástico é parte inseparável do conhecimento da língua lituana como língua de herança, revelando que também é interessante, para a onomástica, abordar os conhecimentos e as crenças populares relacionados aos nomes pessoais.

PALAVRAS-CHAVE: onomástica, antroponímia, nomes pessoais femininos lituanos, campo lexical, nome pessoal cultural.

INTRODUÇÃO

Alguns nomes pessoais femininos derivados de nomes próprios foram anteriormente estudados como exemplos de nomes relacionados à natureza, isto é, como “nomes derivados de palavras que designam fenômenos naturais” (Gudavičius 2013: 144). Após consultar três fontes de nomes pessoais (isto é, um banco de dados de nomes pessoais de cidadãos lituanos de 1989–2010, um registro de cidadãos de Šiauliai nascidos entre 1999–2011 e vários dicionários), Aloyzas Gudavičius constatou que, embora esse tipo de nome tenha mudado em uso e popularidade ao longo do último século, “o componente natural ainda ocupa um lugar importante no sistema antroponímico lituano” (Gudavičius 2013:144) e faz parte de um repertório de nomes pessoais que constitui “a camada da onomástica nacional antiga” (citando Zinkevičius 2009: 134). De fato, nomes como os analisados neste artigo podem ser considerados nomes pessoais convencionais lituanos, pois compartilham as seguintes características: 1) integração na nomenclatura onomástica do país em determinado período

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de tempo, 2) escolha de acordo e em harmonia com o costume doméstico ou local e 3) conexão com a tradição nacional ou religiosa (Felecan 2014: 133).

Este artigo concentra-se em nomes pessoais femininos lituanos derivados de substantivos comuns, argumenta que esse tipo de nome pessoal evidencia as inter-relações entre língua, cultura e substantivos comuns e mostra que o conhecimento dos nomes pessoais faz parte do Conhecimento Onomástico dos falantes de lituano como língua de herança. Mais especificamente, visa a: 1. identificar nomes pessoais femininos lituanos derivados de substantivos comuns e organizá-los em campos lexicais, 2. demonstrar que os falantes de lituano como língua de herança possuem conhecimento desse tipo de nome pessoal e 3. mostrar que alguns desses nomes são nomes culturais. Seu ponto de partida foi a suposição de Coseriu de que “a cada atividade [linguística] corresponde um tipo separado e autônomo de conhecimento linguístico” (1985: 28) e a suposição de Preston de que “as crenças, reações e comentários sobre a língua por parte do que chamamos de ‘pessoas reais’ (isto é, não linguistas) são interessantes, esclarecedores e empoderadores dos pontos de vista etnográfico, linguístico e prático (ou da linguística aplicada)” (2002: 13).

Apesar da relevância dos nomes pessoais femininos derivados de substantivos comuns para o sistema antroponímico lituano, uma revisão recente da literatura recuperou apenas o artigo supracitado de Gudavičius (2013) como o mais estreitamente relacionado ao presente estudo. A pesquisa foi realizada pelo presente autor utilizando o DOAJ (Directory of Open Access Journals) em 11 de dezembroth de 2022. Os termos “personal”, “Lithuanian” e “names” foram usados como palavras-chave. Ao todo, foram encontrados 21 títulos, dos quais 15 pertenciam ao campo de interesse. As pesquisas se concentraram nas características da antroponímia feminina lituana diacrônica (Ragauskaitė 2021), na morfologia histórica dos nomes pessoais formados por raízes selecionadas (Sinkevičiūtė 2007, 2010, 2013), na grafia etimológica de nomes pessoais específicos (Zinkevičius 1981), na origem de um sobrenome nobre (Čiūnaitė 2002), na origem etimológica de nomes próprios poloneses e lituanos de migrantes em contextos migratórios nos dois países (Walkowiak 2017), na escolha do primeiro nome pela comunidade minoritária lituana na Polônia (Walkowiak 2019), na escolha de primeiros nomes em contextos migratórios lituanos no Brasil (Seide 2020) e na tradução de nomes pessoais estrangeiros para a língua lituana (Kvašytė 2018).

A presente pesquisa preenche essa lacuna, corrobora as conclusões de Gudavičius (2013) e as suposições de Felecan (2014) e propõe uma análise aprofundada que mostra que os nomes femininos derivados de substantivos próprios fazem parte do Conhecimento Onomástico do falante ideal

³ Como qualquer revisão da literatura está limitada por seus critérios de exclusão e inclusão, nem toda a literatura existente é recuperada em qualquer consulta. Pesquisas adicionais neste campo podem ser encontradas em Kuzavinis, Savukynas 1994; Sinkevičiūtė 2006; 2011; 2015 e Sinkevičiūtė, Griniūtė 2014.

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(Seide 2021) e que alguns deles podem ser considerados nomes pessoais culturais lituanos.

1. REFERENCIAL TEÓRICO

As discussões acadêmicas são abundantes acerca das características linguísticas dos nomes pessoais. Uma dessas discussões relaciona-se à questão de terem ou não significado. Enquanto Mill (1806–1873) afirma que os nomes próprios são desprovidos de significado porque servem apenas para fazer referência (Mill 2009: 38–40), seu contemporâneo Lower (1821–1876) sustenta que “todos os nomes eram originalmente significativos; embora, ao longo dos séculos, o significado da maioria deles possa ter desaparecido da memória da humanidade” (Lower 1849: 2).

Seguindo Lower, López-Franco (2014) investigou nomes pessoais derivados de substantivos comuns em uma língua árabe e em uma língua indígena mexicana. Ela analisou nomes árabes femininos como Jamāl (beleza) e Karima (generosa e nobre) e nomes femininos indígenas como Citlalli (estrela) e Tonatiuh (sol) na língua Náhuatl. Ela concluiu que nomes pessoais com significado transparente são a regra, e não a exceção (López–Franco 2014: 71).

A própria existência de nomes pessoais derivados de substantivos comuns parece ser uma evidência da suposição de López–Franco de que a transparência do significado é a regra em vários sistemas onomásticos. Mas isso suscita a pergunta: para quem esses nomes pessoais são transparentes? A noção de Conhecimento Onomástico do falante ideal parece ser útil para responder adequadamente a essa pergunta:

“Faz parte do conhecimento do falante; é o conhecimento acerca das características linguísticas dos nomes próprios em sua língua materna e de como eles são usados na comunidade linguística da qual ele/ela faz parte. Deve-se observar que esse conhecimento pode incluir ou não aqueles aspectos relacionados ao estudo do significado etimológico dos nomes próprios, mas certamente inclui as crenças e atitudes do falante em relação a esses nomes [...]. Enquanto as crenças dizem respeito à maneira como cada pessoa concebe o modo como os nomes deveriam ou poderiam ser e incluem critérios subjetivos responsáveis por avaliar nomes próprios (positiva, neutra ou negativamente), as atitudes indicam se os nomes próprios são vistos como semanticamente opacos ou transparentes, isto é, se têm algum significado ou se desempenham apenas uma função referencial” (Seide 2021: 213).

No caso dos falantes monolíngues, conhecer sua língua nativa significa saber o que a língua usa como nomes próprios, como eles são pronunciados e como são usados. Além desses nomes, pode haver algum conhecimento de alguns

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nomes estrangeiros. A tabela a seguir descreve o Conhecimento Onomástico do falante ideal.

TABELA 1. Conhecimento Onomástico do falante ideal

1. significado denominativo processual na linguagem cotidiana (como os nomes próprios são usados)

2. relação entre o nome e o referente conhecido ou mencionado na vida cotidiana (quais nomes as pessoas e os lugares têm, por exemplo)

3. repertório (conjunto e tipos de nomes próprios conhecidos; pode incluir nomes em outras línguas)

4. pronúncia de nomes conhecidos e regras presumidas para pronunciar nomes desconhecidos (como os nomes são pronunciados)

5. ortografia de acordo com as regras ortográficas da língua (pode incluir o conhecimento da grafia de nomes em outras línguas)

6. informações gramaticais (como gênero e número dos nomes próprios)⁴

7. constituição (número de nomes; pode referir-se, por exemplo, a um prenome ou a um topônimo)

8. significado associativo (forma-se de acordo com as experiências do falante com os referentes dos nomes)

9. significado emocional (presente, por exemplo, em hipocorísticos nos quais há uma conotação afetiva nos nomes)

10. fatores sociolinguísticos (pressupostos sobre a classe social e o gênero das pessoas associados aos nomes, por exemplo)

11. imaginários etnossocioculturais (pressupostos sobre as qualidades dos nomes, como a ideia de que nomes em inglês têm mais prestígio do que nomes em português na cultura brasileira)

12. processo de atribuição de nomes: quem dá o nome e quando (pode incluir aspectos legais da atribuição oficial do nome)

13. motivação para a atribuição do nome (conhecimento da história da escolha do nome, por que um determinado nome foi escolhido)

14. usos e valores dos prenomes no mundo ficcional (literatura, cinema, minisséries, telenovelas, jogos etc.)

15. significado etimológico e/ou histórico

Fonte: Seide (2021: 214).

Quando os nomes pessoais são derivados de substantivos comuns, tende-se a atribuir-lhes significado prestando atenção a ele. Os estudantes da antiga Šiauliai

⁴A informação gramatical depende da língua em questão. No caso de línguas flexionadas, como o lituano, há também informações sobre os casos e suas declinações.

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Universidade (Academia de Šiauliai da Universidade de Vilnius desde 2019) foram questionados sobre seus nomes. A resposta de uma estudante mostrou que ela conhecia o significado de seu primeiro nome por causa do significado dos substantivos comuns dos quais seu nome provém: “Minha mãe decidiu chamar-me de Raminta, pois esperava que eu fosse uma pessoa calma (1999 [o ano em que nasceu])” (Butkuvienė et al. 2021: 432).

Em contextos de mudança linguística em uma família e perda da língua materna nas gerações futuras, há casos em que o Conhecimento Onomástico da língua falada pelos pais se perde. Por exemplo, Reyes-Contreras (2020) nasceu em uma família de falantes de Mahazua. Segundo ele, a família decidiu não falar nem usar a língua indígena com seus descendentes para evitar preconceito linguístico e social. Quando era criança, era chamado por diferentes formas de seu nome Miguel: e Migue e ta Migue. Na época, pensava que era uma forma hipocorística de seu nome. Ao estudar a língua Mahazua na idade adulta, descobriu que essas formas eram simplesmente seu próprio nome adaptado à língua Mahauza (Reyes-Contreras 2020: 146).

Na presente pesquisa, os informantes são falantes adultos de lituano como língua de herança que possuem Conhecimento Onomástico dual ou bilíngue. É importante destacar que, no caso de nomes pessoais derivados de substantivos comuns, o conhecimento linguístico é um pré-requisito para o Conhecimento Onomástico. Partindo desse pressuposto, considerou-se que o léxico corresponde ao “conhecimento internalizado dos falantes da comunidade linguística sobre as propriedades lexicais das palavras”5 (Vilela 1994: 10).

A análise de nomes pessoais não é necessariamente morfológica ou sintática, mas sobretudo semântica, pois os nomes podem ser analisados de acordo com seu campo lexical. O nome Audra (“tempestade”), por exemplo, está associado ao campo dos fenômenos naturais. Na presente pesquisa, os nomes pessoais listados pelos informantes foram categorizados em campos lexicais, também chamados campos semânticos ou conceituais. Um campo lexical resulta da organização dos itens lexicais de acordo com seu significado: “É um paradigma que consiste na distribuição de um continuum de conteúdo (lexical) por diferentes unidades da língua [...]. As características comuns a todos os lexemas do campo constituem o arquissemema [...]; os campos lexicais são classes relativamente abertas” (Vilela 1994: 23).6 Uma determinada palavra associa-se a outras pelo significado e forma um campo delimitado por outros campos lexicais. Por exemplo, o nome “tempestade” pode relacionar-se pelo significado às palavras “chuva”, “ventoso” e “neblina”, que, juntas, fazem parte do campo “fenômenos naturais”. “Os relacionados

5 “Compreendemos o léxico como [...] saber interiorizado, por parte dos falantes de uma comunidade linguística, acerca das propriedades lexicais das palavras.”

6 “Se trata de um paradigma constituído pela repartição de um contínuo de conteúdo (lexical) por diferentes unidades da língua [...] Os traços comuns a todos os lexemas do campo constituem o arquissemema [...] os campos lexicais são classes relativamente abertas.”

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palavras e unidades multipalavras em qualquer campo lexical de uma determinada língua mostram-nos que a língua dividiu o espaço semântico” (McCarthy 1995: 21).

A organização do léxico em campos lexicais numa determinada língua depende da visão de mundo possibilitada pela própria língua, porque língua, visão de mundo e cultura estão inter-relacionadas. É importante destacar que a cultura é definida de maneiras diferentes conforme o campo de estudo do pesquisador. Neste artigo, ela não é entendida como um produto de realizações intelectuais nem como uma espécie de força que dita normas de comportamento social, mas antes como algo aprendido pelo indivíduo enquanto este se socializa em um grupo (Katan 2009: 74–75). Assim, esta pesquisa não considera a camada externa da cultura, que é “representada pelos costumes, normas de comportamento, artefatos e símbolos associados ao grupo”; o foco recai, antes, “nas camadas mais profundas ou internas, constituídas pelas crenças e pelos valores mantidos por um grupo” (Davies 2003: 68).

Recorrendo à metáfora do icebergue utilizada por Hall (1990) para definir a cultura, o foco não está nos elementos visíveis, mas abaixo da linha d’água, isto é, no nível que pode ser alcançado pela pesquisa de campos lexicais, uma vez que cultura e língua se correlacionam, ou seja, são sistemas interdependentes: “A cultura não pode existir sem a língua, e a língua não tem sentido a menos que se relacione com uma cultura” (Nida 2003: 423–424). Embora a língua faça parte da cultura, a cultura é influenciada e formada pela língua. Língua e cultura compartilham a função de simbolizar, representar e descrever “eventos, ideias, valores e nós mesmos” (Nida 2003: 423–424).

Cada língua possui itens lexicais que são organizados em campos lexicais ou semânticos de uma maneira particular, refletindo como a língua vê e categoriza o mundo.

“A categorização envolve processos pelos quais os seres humanos, ao usar a língua, identificam e classificam tudo o que podem perceber com os cinco sentidos (deveria mencionar-se também o sexto sentido, pois a dimensão sutil ou o mundo invisível das divindades e dos fantasmas é, de fato, verbalizado). Além disso, a categorização linguística (cognitiva) não deve ser confundida com a classificação científica. [...] Em outras palavras, o conceito de categorização explica como o mundo é estruturado na mente das pessoas que falam por meio de sua língua, mas não necessariamente com base em princípios científicos.” (Petrulionė 2015: 30)

A definição de Petrulionė (2015) é especialmente adequada aos substantivos comuns. Quanto aos nomes próprios derivados de substantivos comuns, ocorre uma recategorização (o substantivo comum torna-se um nome próprio). Nem todos os substantivos comuns são recategorizados, mas apenas alguns deles. Há um processo de seleção que coloca um foco cultural (Newmark, 1988: 94) naquilo que é considerado importante o suficiente para tornar-se um nome próprio.

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Isso não significa que todos os nomes próprios tenham um foco cultural; eles também podem ser interculturais ou aculturais. Enquanto os primeiros são nomes próprios que existem e são usados por várias culturas e línguas, os últimos “não são identificáveis como pertencentes a nenhuma língua ou cultura específica” (Davies 2003: 71). Nomes próprios culturais são aqueles peculiares e exclusivos de uma língua e/ou cultura. Para identificar se um nome próprio é cultural, é necessário realizar uma análise comparativa entre línguas. Nesta pesquisa, o repertório lituano de nomes femininos é comparado aos repertórios de duas outras línguas: inglês e português brasileiro.

O processo linguístico pelo qual um substantivo comum se torna um nome próprio é considerado uma espécie de tradução fraca de função. O termo e o conceito de tradução foram criados pelo linguista francês Lucien Tesnière por volta de 1940, com o objetivo de possibilitar uma análise sintática unificada, aplicável a várias línguas e servindo como parte de uma proposta teórica de Sintaxe Geral (Tesnière 1959: 380). Para exemplificar sua finalidade e objeto de investigação, o linguista cita e analisa um sintagma em três línguas: “Le livre de Pierre” (francês), “liber Petri” (latim) e “Peter’s book” (inglês).

Como mostra Tesnière, o sujeito é tratado de maneira heterogênea porque a gramática tradicional difere em cada língua. Na gramática francesa, o sintagma “Le livre de Pierre” é analisado considerando-se a função sintática da preposição “de”. O sintagma equivalente é analisado considerando-se a sintaxe do caso genitivo na gramática latina e o uso do genitivo saxônico na gramática inglesa. Entretanto, o uso do conceito de tradução unifica essas análises e as integra entre si: em todos os casos, ocorre o mesmo fenômeno, isto é, a tradução da função de uma palavra, ou seja, “Dans son essence, la translation consiste donc à transférer un mot plein d’une catégorie grammaticale, c’est à dire à transformer une espèce de mot en une autre espèce de mot. C’est à ce changement de nature syntaxique que nous donnons le nom de translation” (Tesnière 1959: 67).

Numa tradução, ocorre uma mudança de categoria resultante de uma mudança de função. Aplicando essa noção à mudança das subcategorias em questão, isto é, substantivo comum e nome próprio, há um tipo especial de tradução pelo qual um substantivo comum passa a funcionar como nome próprio. Tesnière estava ciente das diferenças entre substantivos próprios e comuns, mas não contemplou a possibilidade de tradução entre essas subcategorias. Limitou-se a afirmar:

“Os substantivos próprios têm a extensão mais limitada, pois se aplicam a indivíduos, mas, ao mesmo tempo, a compreensão mais ampla, pois esses indivíduos comportam um número infinito de qualidades. Os substantivos comuns têm uma extensão mais ampla, pois, como o próprio nome indica, são comuns

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a grupos de indivíduos mais ou menos importantes, mas, ao mesmo tempo, uma compreensão menos ampla, já que esses grupos têm em comum apenas um número menor de qualidades” (Tesnière 1959: 67).

A função de um nome como substantivo comum e como nome próprio foi considerada por van Langendonck (2007) em sua proposta de distinguir entre nome próprio como função e nome próprio como lema próprio, para explicar casos como os dos exemplos a seguir. Nesses exemplos, o uso dos nomes John e Napoleon em (3) e (4) faz com que funcionem como substantivos comuns, e não como nomes próprios:

(1) “John participou de uma reunião hoje. (2) O imperador Napoleon foi derrotado em Waterloo. (3) Você está falando de um John diferente. (4) Ele está se tornando um segundo Napoleon” (van Langendonck 2007: 11).

Com base na suposição de que a tradução entre subcategorias da mesma classe de palavras ocorre da mesma maneira que a tradução entre categorias, pode-se argumentar que, nas frases (3) e (4), os primeiros nomes foram traduzidos em nomes comuns por meio, respectivamente, dos elementos tradutórios “diferente” e “segundo”. O fenômeno de interesse neste estudo exploratório, contudo, é a tradução inversa, isto é, de nome comum para nome próprio, conforme ilustrado nas frases abaixo:

(5) Buvo titin galinga audra / A tempestade foi extremamente violenta. (6) Mano draugė Audra yra labai graži / Minha amiga Audra é muito bonita.

Enquanto em (5) o substantivo comum audra é usado como tal, em (6) ele funciona como nome próprio. Ao passo que, na linguagem escrita, o uso de letras maiúsculas ajuda a indicar quando um substantivo é um nome próprio, na linguagem oral essa percepção ocorre exclusivamente por meio da interpretação pragmática dos enunciados nos quais as palavras são usadas.

Na amostra analisada, há nomes próprios derivados de substantivos comuns que, por sua vez, são nomes traduzidos. Trata-se de adjetivos que foram convertidos em substantivos comuns e, após essa primeira tradução, tiveram sua função transferida para a função de substantivos próprios. Na língua lituana, há o nome pessoal Aušrinė, que, em sua origem, é um adjetivo que poderia ser literalmente traduzido como “pertencente ao amanhecer, matutino”.

Como argumenta Zymovets (2021), não há uma distinção nítida entre substantivos comuns e nomes próprios; eles diferem mais em grau do que em natureza. Por isso, existem processos de onimização (o processo de transferência de substantivo comum

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nomes a nomes próprios) e desonomização (o processo inverso, isto é, quando nomes próprios se tornam nomes comuns) em várias línguas. Esses processos evidenciam que “a semântica dos nomes próprios compartilha muitas características com os nomes comuns, com a distinção crucial de que os primeiros designam entidades únicas” (Zymovets 2021: 247).

Uma vez descrito o quadro teórico, a seção seguinte apresenta uma explicação dos procedimentos deste estudo.

2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Conforme afirmado na primeira seção, o primeiro objetivo desta pesquisa é identificar e organizar nomes lituanos derivados de nomes comuns, e o segundo é mostrar que os falantes de lituano como língua de herança possuem conhecimento onomástico (Seide 2021). Tendo ambos os objetivos em mente, os dados foram coletados por meio de uma pesquisa com falantes adultos de lituano em um grupo privado do Facebook com descendentes de lituanos nascidos em países de língua inglesa. Esses informantes são falantes bilíngues para os quais o lituano é uma língua de herança.

O terceiro objetivo deste artigo é evidenciar que alguns dos nomes pessoais mencionados pelos informantes são nomes culturais, isto é, mostrar a singularidade dos nomes de mulheres lituanos. Para esse fim, os nomes foram organizados em campos lexicais e então verificados quanto a correspondentes tanto no português brasileiro quanto no inglês; caso contrário, foram considerados nomes culturais, seguindo a metodologia da Antroponomástica Comparativa (Fernández Juncal, Seide 2021; Seide, Frai 2019; Seide, Petrulionė 2018; Seide, Petrulionė 2020).

No que diz respeito aos falantes de uma língua de herança em comparação com falantes nativos, é importante ter em mente que a aquisição da primeira língua em um ambiente monolíngue difere da aquisição de uma língua de herança em um ambiente bilíngue. Enquanto uma língua de herança é usada apenas por um determinado grupo de pessoas e para um número mais limitado de propósitos, em um ambiente monolíngue a língua é usada por todos e para todo tipo de finalidade. Esses tipos de limitações podem levar a insumos muito diferentes, resultando em produções diferentes. Balčiūnienė e Dabašinskienė compararam como falantes monolíngues de lituano residentes na Lituânia e falantes bilíngues sequenciais lituano–inglês da mesma idade (78 meses, em média), vivendo no Reino Unido, eram capazes de criar narrativas oralmente. Seus resultados mostraram que, embora as narrativas das crianças bilíngues em língua lituana fossem mais longas, as narrativas produzidas

7 Elas haviam aprendido o lituano como língua materna e, pouco depois, aprenderam inglês, tornando-se, assim, bilíngues.

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pelas crianças monolíngues apresentavam muito mais usos de recursos sintáticos que as ajudavam a criar coesão textual (Balčiūnienė, Dabšinskienė 2019: 5).

Como ponto de partida, o nome Audra foi apresentado como exemplo de nome feminino derivado de um nome comum. Após esse exemplo, perguntou-se aos membros do grupo se conheciam outros nomes pessoais desse tipo. Essa etapa de geração e coleta de dados durou quatro dias: de 01 a 04 de fevereiro de 2018.

Os critérios usados para avaliar as respostas dos participantes foram os seguintes: ser um primeiro nome feminino e possuir, na língua, um nome comum formal e semanticamente relacionado ao prenome informado, independentemente de sua origem etimológica. Para realizar esse exame linguístico dos nomes, foi utilizado o dicionário on-line Zodynas.lt. Esse dicionário foi selecionado porque apresenta, em abas diferentes, resultados para palavras que são nomes comuns – na aba Kalbų žodynas⁸ (dicionário de línguas) – e resultados para palavras que são nomes próprios – na aba Vardai (nomes pessoais). Embora os dicionários on-line possam não ser fontes precisas de informação, este dicionário foi considerado adequado para o propósito de encontrar evidências de uso tanto de nomes próprios quanto de nomes comuns. Se a pesquisa tratasse apenas de nomes próprios, poderiam ser utilizadas outras fontes de informação, como os dados disponíveis no site Vardai⁹. Exemplos de estudos realizados com esses dados podem ser encontrados em Seide e Petrulionė (2018, 2020).

É importante destacar que esta pesquisa não se concentra no conhecimento linguístico tal como descrito pela linguística lituana e por especialistas em língua lituana, mas sim no conhecimento onomástico dos falantes de lituano como língua de herança. Portanto, o que poderia ser visto como uma interpretação ingênua da origem dos nomes apresentada pelos respondentes é avaliado neste artigo como conhecimento legítimo da língua, conforme argumentado por Coseriu (1985) e, mais recentemente, por Preson (2002).

Independentemente da origem linguística do nome, avaliou-se se a mudança de nome comum para primeiro nome era transparente para o falante nativo. Um exemplo é o nome lituano Lilija, que se refere à flor “lelija” (lírio). Outro exemplo é o nome de seres mitológicos homônimos de nomes comuns, alguns dos quais com origens passíveis de outras interpretações. Sendo idênticos na forma, somente perguntar àqueles que escolheram os primeiros nomes permitiria saber se quem deu o nome pensou no significado do nome comum ou no do ser mitológico. Um exemplo disso é o nome Laima, que se refere tanto ao nome comum “laimė” (destino de alguém) quanto ao nome do ser mitológico Laimė e à sua variante Laima, um semideus pagão associado ao parto e à alegria (EB 2018).

⁸ Disponível em Žodynas internete – Teksto vertėjas | Žodynas.lt (Disponível em: https://www.zodynas.lt).

⁹ Vardai VLKK (Disponível em: http://vardai.vlkk.lt).

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Usando esses critérios, todos os nomes mencionados foram selecionados, isto é, 100% dos nomes sugeridos foram confirmados. Essa descoberta é indicativa do Conhecimento Onomástico dos informantes sobre o lituano. Após organizar os nomes pessoais em campos lexicais,10 foi realizada uma busca por seus nomes equivalentes, se houvesse, tanto em inglês quanto em português brasileiro. Se houvesse um equivalente para determinado nome, este nome era considerado um nome próprio intercultural; caso contrário, era considerado um nome próprio cultural.

3. ORGANIZAÇÃO DOS NOMES EM CAMPOS LEXICAIS

Como mostra a Tabela 2, os prenomes femininos mencionados pelos informantes provinham principalmente de 10 campos lexicais. O campo da flora (que inclui flores) possui mais itens lexicais que os demais, seguido pelos fenômenos climáticos, pelo tempo e pelos sentimentos. Os mais frequentes podem ser relacionados a ambientes naturais ou ecossistemas, na medida em que descrevem os arredores da vida rural tradicional na Lituânia.

TABELA 2. Análise quantitativa da amostra

Campos lexicais | Número de nomes flora (incluindo flores) | 10 fenômenos climáticos | 8 tempo | 7 sentimentos | 5 produtos do campo | 4 elementos clássicos | 4 pedras preciosas | 3 paisagem | 3 conceitos abstratos | 2 música | 2 outros | 6 total | 54

10 De acordo com a teoria dos campos lexicais, os itens lexicais são organizados em conjuntos de nomes semelhantes em significado em determinada língua. O conjunto de campos lexicais de uma língua e o número de itens de cada campo podem revelar quais partes da realidade a língua conceitualiza e destaca.

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3.1. Flora

Metade dos prenomes desse campo são nomes de flores: LILIJA, RAMUNĖ, ROŽĖ, SAULUTĖ e ŽIBUTĖ. Dar às meninas nomes de flores pode estar relacionado à visão de mundo cultural ocidental, segundo a qual a beleza e a sensibilidade são características femininas apropriadas. Como características culturais compartilhadas, alguns desses nomes têm equivalentes em outras línguas, isto é, a mesma flor também é usada para nomear mulheres em outras línguas. LILIJA equivale a “Lily” em inglês e a “Lílian” em português brasileiro. ROŽĖ equivale a “Rose” em inglês e a “Rosa” em português brasileiro. SAULUTĖ equivale a “Daisy” em inglês e a “Margarida” em português brasileiro. ŽIBUTĖ equivale a “Violet” em inglês e a “Violeta” em português brasileiro.

Quanto a RAMUNĖ, o equivalente comum é “camomila” em português brasileiro e “chamomile” em inglês, mas esses substantivos não foram traduzidos em nomes próprios nessas línguas. Os seguintes prenomes femininos também parecem ser exclusivos dos nomes femininos lituanos: EGLĖ (árvore de abeto), GILĖ (bolota), JORĖ (deusa da Natureza na primavera), JORŪNĖ (derivado de JORĖ) e RŪTA (arruda).

3.2. Fenômenos climáticos

O nome Audra foi apresentado como exemplo. Os resultados apontaram para AUDRONĖ, que é derivado do nome Audra, bem como para os seguintes nomes: MIGLĖ (neblina), RASA (gota de orvalho), SNIEGĖ (forma relacionada ao substantivo comum lituano “sniegas”, que significa neve), SNIEGUOLĖ (derivado de SNIEGĖ), VAIVA (palavra relacionada a “vaivorykštė”, que significa arco-íris) e VĖJŪNĖ (brisa). Apenas o último nome é usado em países anglófonos, mas muito raramente. Os demais não são usados de modo algum como prenomes em português brasileiro. É interessante notar que os nomes desse campo lexical estão relacionados às características climáticas do país, onde chove consideravelmente e o inverno é rigoroso.

3.3. Tempo

Os substantivos comuns relacionados ao tempo que foram traduzidos em nomes pessoais são: AUŠRA (aurora), AUŠRINĖ (derivado de AUŠRA), LIEPA (julho), RYTĖ (relacionado à forma “rytas”, que significa manhã), VAKARĖ (relacionado à forma “vakaras”, que significa noite), VASARA (que significa verão),

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e VASARĖ (relacionado à forma “vasaris”, que significa fevereiro).11 Tanto nos países anglófonos quanto no Brasil, os substantivos comuns correspondentes não são usados como nomes pessoais. Curiosamente, o nome relacionado Aurora existe em ambas as línguas, mas provém do nome latino da deusa da aurora e não é semanticamente tão transparente quanto em lituano.

3.4. Sentimentos

Seis nomes pessoais femininos foram citados neste campo lexical. Ele é composto pelos nomes GAILĖ (tristeza), VILTĖ (forma hipocorística do nome completo Viltautė, que significa esperança para a nação), TAUTVILĖ (com o mesmo significado de Viltautė), LAIMA (relacionado à forma “laimė”, que significa felicidade) e MEILĖ (amor). Nenhum deles existe como nome pessoal em inglês nem nos países de língua portuguesa. Embora dois deles (Viltautė e Tautvilė) estejam relacionados ao patriotismo, os outros parecem estar relacionados aos sentimentos da mãe ou da família em relação a um recém-nascido.

Esses nomes são, em sua maioria, eufóricos. O único disfórico é GAILĖ, que significa pesar e é um adjetivo neutro amplamente usado em exclamações. Em lituano, a exclamação “Gaila!” equivale à expressão inglesa “What a pity!”.

Também é interessante observar a sinonímia entre os nomes VILTĖ e TAUTVILĖ. O primeiro é hipocorístico de Viltautė. Em Viltautė, há primeiro a raiz da palavra “viltis” (esperança), seguida de “-taut” (raiz da palavra que significa nação em lituano) e “-ė” (morfema de gênero feminino). Em TAUTVILĖ, há primeiro o morfema “taut-”, seguido de “viltis” e do morfema de gênero feminino “-ė”. Portanto, em ambos os casos, há derivação por composição.

3.5. Produtos do campo

Os nomes a seguir referem-se a produtos do campo, seja por extração, seja por cultivo: BITĖ (abelha), MEDA (relacionado à forma “medus”, que significa mel), LINA (relacionado à forma “linas”, que significa linho ou fibra de linho) e RUGILĖ (centeio). Como BITĖ se refere à atividade da apicultura, o nome não foi considerado como pertencente ao campo dos animais, mas ao dos produtos do campo

11 Nos casos em que a forma relacionada é masculina, o morfema masculino terminado em -s é substituído por um morfema feminino terminado em -ė.

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porque está relacionado à produção e ao comércio de mel. Todos os nomes desse campo se referem à tradição rural da Lituânia. De fato, o linho e o centeio são produtos cultivados na Lituânia. Esse campo lexical não existe no português brasileiro nem no inglês.

3.6. Elementos clássicos

Os elementos clássicos são aqueles que os filósofos da Antiguidade consideravam as substâncias mais simples de que toda a matéria seria composta: VANDENĖ (relacionado à forma “vanduo”, que significa água), UGNĖ (relacionado à forma “ugnis”, que significa fogo), ŽĖMYNA (relacionado à forma “žemė”, que significa terra) e, por analogia, SMILTĖ (relacionado à forma “smiltys”, que significa areia). Assim como ocorreu com outros campos lexicais descritos acima, não há equivalentes no português brasileiro nem no inglês.

3.7. Gemas

Também presentes na natureza, as gemas formam um importante campo lexical. Ele inclui AUKSĖ (dourada), GINTARĖ (âmbar) e GINTA (forma hipocorística de GINTARĖ). Do ponto de vista de sua constituição química, o âmbar não é um mineral, mas foi classificado como uma joia porque essa matéria-prima é rara e utilizada na fabricação de joias. O âmbar é uma resina de árvore fossilizada encontrada em maior abundância na Lituânia. Com exceção do nome Amber em inglês, os demais nomes desse campo não são usados como nomes femininos em português ou em inglês.

3.8. Paisagem

Os nomes desse campo lexical incluem DANGUOLĖ (do céu), JŪRA (mar) e SAULĖ (sol). Eles descrevem uma paisagem costeira idílica e não têm equivalentes no português brasileiro nem no inglês.

3.9. Conceitos abstratos

Há duas ocorrências nesse campo: GUODA (honra) e DALIA (destino), sem equivalentes no português brasileiro nem no inglês.

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3.10. Música

Este é outro campo com duas ocorrências e sem equivalentes no português brasileiro e no inglês: DAINA (uma canção não religiosa) e DAINORA (aquelas que querem cantar, um nome proveniente do sintagma verbal “norinti dainuoti”12).

3.11. Outros

Por fim, a categoria “Outros” inclui ocorrências de nomes com apenas uma ocorrência em determinado campo lexical, a saber: AIDA (forma feminina de “aidas”, eco, do campo do som), AINĖ (descendente, do campo do parentesco), AUSTĖJA (tecelã, do campo da profissão), UNDINE (sereia, do campo dos seres mitológicos), SVAJONĖ (sonho, do campo dos fenômenos psíquicos), ŽYDRŪNĖ (azulada, do campo das cores) e ŽIEDĖ (forma feminina de “žiedas”, que significa anel ou flor, do campo dos objetos). Nenhum deles tem equivalentes no português brasileiro ou no inglês.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS: NOMES PESSOAIS FEMININOS COMO NOMES PRÓPRIOS CULTURAIS

Seguindo a categorização de Davies (2003), os nomes pessoais femininos sem equivalente em inglês e português foram considerados nomes próprios culturais. Com exceção de quatro nomes derivados de nomes de flores e de um nome derivado do substantivo comum amber, todos os 48 nomes restantes são nomes próprios culturais. Em outras palavras, são nomes peculiares e exclusivos do repertório lituano de nomes pessoais femininos. A quantidade e a diversidade desses nomes próprios culturais sugerem traços culturais. Esse é especialmente o caso dos campos lexicais relacionados ao estilo de vida rural.

Os nomes analisados neste artigo são convencionais e correspondem parcialmente ao senso comum (conhecimento leigo sobre nomes próprios pessoais) acerca do que é visto como uma característica do que significa ser lituano, conforme descrito, por exemplo, em um livro destinado a apresentar o país aos turistas:

12 Neste caso, primeiro houve uma transferência de função: o verbo transformou-se em substantivo comum e, depois disso, o substantivo comum tornou-se um nome próprio. O sintagma “norinti dainuoti” significa ‘eles querem cantar’.

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“Embora várias gerações tenham crescido em áreas urbanas, somos inseparáveis da terra: um verdadeiro lituano conseguirá plantar vários arbustos de batata até mesmo no parapeito da janela de seu arranha-céu” (Kairienė 2001: 5).

Além disso, a maioria dos campos lexicais se correlaciona com o ideal de lietuvybė (‘lituanidade’) descrito no mesmo livro:

“A base da cultura da Lituânia é o amor pela natureza, especialmente pelas árvores e pelas florestas [...] Sítios naturais históricos e excepcionalmente belos tornaram-se símbolos da Lituânia, ostentando quase o mesmo status que a bandeira, o emblema e o hino oficiais do Estado. As ondas do mar Báltico lançam pedaços de âmbar, conhecido como ouro do Báltico, à praia. Ele também é um símbolo da nossa identidade nacional e um símbolo da nossa originalidade, resiliência e força” (Kairienė 2001: 56).

Como as descrições das características culturais nacionais do povo lituano e o conteúdo semântico dos campos lexicais dos nomes pessoais femininos derivados de substantivos comuns convergem, a presente análise parece corroborar que nomes desse tipo são nomes próprios femininos convencionais em lituano.

Considerando a literatura incipiente sobre nomes pessoais femininos lituanos derivados de substantivos comuns (ver Gudavičius 2013), o presente artigo propõe-se a preencher essa lacuna. Sua análise corrobora a de Gudavičius (2013), ao indicar a existência, na antroponímia lituana, de uma categoria de nomes pessoais femininos derivados de substantivos comuns relacionados à natureza.13 Também confirma as suposições de Felecan (2014). Nomes desse tipo são 1) nomes femininos convencionais em lituano, 2) parte do Conhecimento Onomástico do falante ideal (Seide 2021) e, em certa medida, 3) nomes pessoais culturais da Lituânia.

Além disso, as informações precisas fornecidas pelo informante evidenciam que o Conhecimento Onomástico é parte integrante da competência cultural e linguística deles em lituano como língua de herança. No entanto, são necessárias pesquisas adicionais, especialmente levantamentos com falantes nativos de lituano e levantamentos que avaliem se os resultados variam de acordo com a idade e o nível de escolaridade dos informantes.

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13 If the masculine forms of those cultural names are used, the uniqueness of such first names should apply to them as well. However, further research is needed to confirm this. Please see two studies on masculine and feminine forms of first names, one in Brazilian Portuguese (Seide 2021a) and another in Peninsular Spanish (Fernández Juncal 2021).

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Lietuviški moterų asmenvardžiai kaip iš bendrinių daiktavardžių kilę kultūriniai vardai gimtosios lietuvių kalbos vartotojų požiūriu

SANTRAUKA

Straipsnyje analizuojami lietuviški moterų asmenvardžiai, kilę iš bendrinių daiktavardžių. Teigiama, kad šio tipo asmenvardžiai išryškina ryšius tarp kalbų, kultūrų ir bendrinių žodžių ir parodo, kad žinios apie asmenvardžius yra neatsiejama gimtosios lietuvių kalbos vartotojų onomastikos žinių dalis. Straipsnį sudaro šios dalys: po įžangos einanti pirmoji straipsnio dalis pateikia teorinį pagrindimą ir šio žvalgomojo tyrimo prielaidas; antrojoje dalyje aprašomi tyrime taikomi metodai; trečiojoje dalyje duomenys klasifikuojami pagal leksinius laukus, o ketvirtoji dalis apibendrina tyrimo rezultatus. Tikrinių žodžių analizė patvirtina, kad šio tipo vardai atitinka tradicinius moterų asmenvardžius ir atskleidžia, kad kai kurie iš jų yra būdingi tik lietuvių kultūrai. Be to, informantų pateikta tiksli informacija parodo, kad onomastikos žinios yra neatskiriama gimtosios lietuvių kalbos žinių dalis.

Įteikta 2022 m. sausio 2 d.

MÁRCIA SIPAVICIUS SEIDE Rua Rio Grande do Norte, 1363, Marechal Cândido Rondon, PR, 85960–970, Brazil [email protected]

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