scieee Science in your language
[en] (orig)

Com a Força que as Palavras na Matéria Exercem: Posfácio a Toda a Violência, de Abraham Guerrero Tenorio

Author: Seiça, Álvaro
Publisher: Zenodo
DOI: 10.5281/zenodo.17669689
Source: https://zenodo.org/records/17669689/files/toda-a-violencia_tenorio_posfacio_forca-palavras-materia_seica_contracapa_2025.pdf
TODA A VIOLÊNCIA
ABRAHAM GUERRERO TENORIO
POSFÁCIO
COM A FORÇA QUE AS PALAVRAS NA MATÉRIA
EXERCEM
Foi po acaso que, no e ão de 2021, p ocu ando po
li os de Fede ico Ga cía Lo ca, ao es aca na mon a da
Lib e ía Manuel de Falla, em Cádis, depa ei-me com uma
cin a e melha e uma o og a ia de um poe a gadi ano,
Ab aham Gue e o Teno io. O í ulo ca i ou-me: Toda la
iolencia1. Já não po acaso, decidi en a e olhea os seus
poemas. Mais a de, ao lê-los na cama, à mesa, ou na p aia,
com o meu “b aço den o da boca húmida de um ig e”,
es emeci po di e sas ezes.
A poesia de Teno io não é compos a ao acaso. Em
“Esc e e ”, o poe a e e e “que habi o num mundo de
hemis íquios, que i o / con ando sílabas”. Es e mesmo
igo composicional, que eme e pa a e sos alexand inos
e pa a a ponde ação g a e de cada sílaba, ai desagua
numa es u u a p ecisa e equilib ada. O li o Toda la
iolencia es á di idido em cinco pa es, que são nomeadas
como “cinco iolências”. A p imei a e a quin a iolências
con êm seis poemas cada, enquan o a segunda, e cei a
61
1 Nascido em 1987, em A cos de la F on e a, Cádis, Ab aham Gue e o
Teno io publicou o seu p imei o li o de poesia em 2018, Los días
pe os (La Isla de Sil olá). Toda la iolencia, a sua segunda coleção de
poemas, ecebeu, en e ou os, o P émio Adonáis 2020, endo sido
edi ada pelas Ediciones Rialp (2021). En e an o, o au o publicou Las
luces de Hanno e ( icção, El Paseo, 2023) e Pol o y ie a (poesia, Isla
Ele an e, 2024).
e qua a con êm cinco poemas cada. No o al, Teno io
compõe in e e se e poemas que pau am oda a iolência
do li o.
A iolência é explo ada ema icamen e em cinco pa es
ou núcleos dis in os: a amília, o amo , a mo e, a esc i a e
o capi alismo, a a és do con ex o sociopolí ico espanhol.
Tendo como pano de undo o escaldo de uma década de
ecessão económica e desemp ego, a c í ica ma xis a e
an ipa ia cal de Teno io ao neolibe alismo, à globalização
capi alis a e à es u u a social espanhola é alice çada nas
insc ições de cada núcleo. Assim, cada núcleo de poemas
ab e com uma epíg a e que deixa en e e a elação en e
o g au e o ema de iolência, com ci ações das poe as
andaluzas Au o a Luque e E ika Ma ínez, do ilóso o
ancês Vladimi Jankélé i ch, do esc i o a agonês Túa
Blesa e do ilóso o mexicano Da id Pa ón-Cuélla .
A poé ica de Teno io é elacional. É uma poesia
dialogan e que se cons ói com o seu con ex o, os seus
in e ex os e as suas e e ências li e á ias, a ís icas,
musicais, eó icas e popula es. Pa a além disso, há epíg a es
em á ios poemas que e elam ambém a impo ância de
ou as poé icas enquan o pon os de pa ida: F ancisco
de Que edo, Julio Ma iscal e Isabel Pé ez Mon albán.
E ocando Mon albán, Teno io es abelece um diálogo com
as ami icações da poesia espanhola social e poli icamen e
comp ome ida do pós-1990 — uma poesia de esque da que
p e ende comba e pelos mo imen os sociais e engend a
uma c í ica poé ica ao capi alismo e à desmemó ia,
à qual já se chamou “poesía de la conciencia” (poesia
da consciência), e que não se á alheia à poesia social
an i anquis a do pós-gue a.
As causas da iolência e os e ei os que exe ce — na
amília, no amo , na mo e, na esc i a e no indi íduo den o
da sociedade — são abalhados não só na o ma ísica
como eme ge, se ê e se sen e, mas ambém na o ma como,
subme sa, se dilui nos dis in os co pos de modo quase
in isí el, seja a a és da iolência psicológica, da pe da,
ou do impac o elado nas elações pessoais. Po exemplo,
a consciência do e lexo e p opagação da iolência no
seio amilia , a a és das ge ações, é bem pa en e na
e i a ol a ulminan e do poema “He ança”. Ou, na
iolência conjugal e machis a denunciada em “Mulhe es
cansadas”. Ou, ainda, no ema e de “O e enda”, que expõe
a p eca iedade da ge ação que passou à maio idade após a
ecessão económica de 2008.
Como al, a epíg a e inicial do li o, do sociólogo
no ueguês Johan Gal ung, é undamen al pa a pensa a
génese do labo poé ico em o no da emá ica da iolência
es u u al e dos seus lancos isí eis e in isí eis. Já a
epíg a e do úl imo núcleo, ou “quin a iolência”, é ulc al
pa a comp eende a génese do í ulo do li o, is o que
Teno io ap op ia uma ci ação de Pa ón-Cuélla que eme e
pa a uma lei u a ma xis a-lacaniana, segundo a qual, ace à
b u alidade capi alis a, é i al dize a e dade2. O capi alismo
nu e-se da ex ação e da acumulação. Pa a al, somen e
pela iolência ex ema que exe ce, ao explo a a pob eza e
o ce co da classe, consegue sob e i e e p opaga -se. O a,
segundo a psicologia c í ica de Pa ón-Cuélla , o capi alismo
6362
2 De Da id Pa ón-Cuélla , leia-se, po exemplo, “Ma x in Lacan:
P ole a ian T u h in Opposi ion o Capi alis Psychology”, Annual
Re iew o C i ical Psychology, 2011, pp. 70-77.
não só subme e a me cado ia à explo ação, mas ambém o
indi íduo e a sua p óp ia subje i idade, sendo a undação
de “ oda a iolência”.
Con udo, a busca de uma “ e dade p ole á ia” em
Teno io é poli alen e, já que i e na ensão en e o que
o sujei o pe ceciona se a iolência exe cida pelo sis ema
na ansmissão de uma amília de classe abalhado a
pa a a classe média e as suas e lexões enquan o sujei o
já de classe média, ampu ado pelo desemp ego e pela
desespe ança. Es e sujei o i e a e ado não só pelo
icoche e da sua amília, mas ambém pelo seu luga num
mundo neolibe al globalizado, no con ex o da p imei a
ecessão do e cei o milénio. Em “Miúdos de bai o”,
abo da-se como os ilhos de ope á ios b inca am na
ua, numa p aça o nada cen o de um mundo in an il
abandonado. Po sua ez, já jo em adul o, o desalen o
que en en a o sujei o da no a classe média no pós-2008
não é uni e sal, ainda que disseminado, mas e elado da
condição pa icula do esc i o nas suas e en es labo al,
social e polí ica. Um esc i o que se p eocupa com a al a
de emp ego, a emig ação o çada, o exílio de si e da língua
(“B2”), e a busca de ho izon es segu os, mas ambém
alienan es, como a es am as e e ências aos abalhos
p ecá ios e, nos poemas “Esc e e ” e “Emp eende ”,
aos exames de “oposiciones” — de di ícil adução pa a
po uguês, mas que co espondem à compe ição pa a
ing essa na ca ei a e e i a do se o público espanhol.
Se a aus e idade económica linchou a duamen e a
ge ação que inicia a a i idade labo al na década de 2010,
o poema “Após o epas o” e ela como a condição não
p o issional de a is a, em pa icula de esc i o e poe a, é
ainda mais débil. Rodeado do sucesso dos amigos de classe
média que comen am o bem-es a — bons emp egos,
salá ios, é ias ideais e o c escimen o da p ole —, o sujei o
en en a a ausência de emune ação pelo seu abalho
especializado e a incapacidade de e e uma si uação
social digna. Ac esce ainda o con as e no que diz espei o
a pode des u a , com a sua pa cei a, da libe dade de e
c ianças.
O compu ado , enquan o e amen a de abalho,
na es ei a de Robe o Bolaño, ep esen a aqui a
ma e ialização da esc i a e da emune ação pelo o ício
poé ico, mas ambém a solidão do esc i o sem p ole:
“como um a ol que ilumina os seus os os / pa a sal á-los
do nau ágio (…) esc e endo / com os joelhos ó ãos / (…)
ab indo caminho / a é ao cen o escu o do meu pei o” (“A
luz azul”). Esse mesmo eceio pessoal e social de ince eza,
desp o eção e p eca iedade eme ge no poema “Esc e e ”,
que demons a como Teno io consegue a a os emas
mais mundanos e isce ais da sob e i ência humana com
uma on alidade, aspe eza e e nu a o íssimas:
É espe a
a quime a de um p émio,
o dinhei o p eciso que con e a o poema
num o denado,
núme os pa a exibi aos meus amigos
pa a que ac edi em que há labo
no meu silêncio,
(…)
6564

Po ém, du an e a mad ugada,
quando os dedos pálidos do medo
me aca iciam a nuca e me impedem de do mi ,
esc e e é i a a queda da men i a
ixamen e nos olhos,
es ica os lençóis e, ágil, ape á-los
con a o meu co po,
al ez em busca
de algo que me p o eja.
A e nu a e o amo e guem-se como an ído os à
iolência e à desumanização, ou, epassando a imagem
da luz que guia no desno e — e que eapa ece no poema
cen al —, “como dois a óis indo em con amão”. Já
a busca pela sensualidade — “O oque de uma língua
ub a” — e pela pa ilha amo osa ai p opo ciona uma
das e i a ol as mais e icazes e memo á eis do li o, ao
echa , qual cha e de ou o, o poema cen al e homónimo
“Toda a iolência”. Se á, de ac o, um pad ão es ilís ico de
Teno io o uso da cha e li e á ia em o mas b e es, como
sín ese e e i a ol a, no sen ido clássico de um golpe inal
que des e e espan o e econhecimen o.
Ou a ca ac e ís ica da poé ica eno iana é a
musicalidade e o i mo. Reg essando ao acaso, não e á
sido po acaso que ou o poe a andaluz, embo a não
nomeado, se islumb e em ce as imagens, mas ambém
no i mo, poé ica e polí ica de Teno io: Lo ca. No dia em
que p ocu a a Lo ca, encon ei Teno io. E se á excessi o
pensa que, em Teno io, se encon a Lo ca? É Teno io
quem esc e e, em “Re a o de uma amília que oi”: “A
noi e ap essa-se na janela / e ado mece os co pos com
suas mãos de azei e”. Ressoam, pois, algumas pala as e
imagens lo quianas de Romance o gi ano (“noche”, “acei e”),
assim como epe ições musicais e síncopes. É jus o, no
en an o, a i ma : mais do que Lo ca, é uma poé ica de
c ueza dos anos 1990 que assoma nos seus poemas.
Há poemas que se lêem e se escoam pelo alo do empo.
Há ou os que nos azem en a numa e iginosa espi al
de água e nos le am consigo. Há ou os ainda que, ao
nos aga a em no emoinho, nos deixam sai , pa a logo,
quando e omados, nos gal aniza em de no o. Pa ece se
essa espi al o az, de água e e a, de a e en o, de noi e e
dia, que a poesia de Teno io nos con ida a pa ilha . É uma
dança ei a de iolência e sensualidade. Po ém, mui os dos
seus poemas não êm alo, deixando-nos pe pe uamen e
a odopia , es on eados, com a o ça que as pala as na
ma é ia exe cem.
Be gen, ou ub o de 2021 , e is o em ma ço de 2025
ÁLVARO SEIÇA
6766
ÍNDICE
PRIMEIRA VIOLÊNCIA
BARRO .......................................................................................................... 9
A MINHA AVÓ E HOLOFERNES ........................................................... 11
O HOMEM QUE VAI MORRER ............................................................. 12
A MINHA MÃE ..................................................................................... 14
RETRATO DE UMA FAMÍLIA QUE FOI .............................................. 16
HERANÇA .................................................................................................. 17
SEGUNDA VIOLÊNCIA
MULHERES CANSADAS ......................................................................... 21
TODA A VIOLÊNCIA ............................................................................... 22
AVE DE RAPINA....................................................................................... 23
BIOGRAFIA DAS SAPATILHAS ............................................................ 24
WELCOME ................................................................................................. 25
TERCEIRA VIOLÊNCIA
VARANDA .............................................................................................. 29
A CARÍCIA ............................................................................................. 30
OCO .......................................................................................................... 31
PILATES .................................................................................................. 32
TREME .................................................................................................... 33
QUARTA VIOLÊNCIA
ESCREVER .............................................................................................. 37
A BOCA DE UM TIGRE ........................................................................ 39
OS OLHOS DE BORGES ....................................................................... 40
PUBLICAÇÕES DESTA EDITORA
um á abe é um á abe, é um á abe, um á abe (b e e an ologia
de poesia á abe) / iluminação do eu (an ologia de poesia
hispano-ame icana) / ocando dóla es po cên imos (alguma
poesia no e-ame icana) / um pouco do meu sangue (an ologia
de poesia i aliana) / uga in empes i a ( e nando es e es
pin o) / pelos nossos co ações passa a linha de ogo (an ologia
de poesia islandesa) / descida b usca de empe a u a (alguma
poesia suíça) / sonhado de ini i o e pe pé ua insónia (uma
an ologia de poemas su ealis as esc i os em língua ancesa)
/ o des ino da á o e é ans o ma -se em papel (an ologia de
poesia sueca) / ans e sões (poemas eesc i os em po uguês)
/ o mundo ado mecido espe a impacien e (an ologia de poesia
inlandesa) / é po isso que a aleg ia é mais al a / (poemas
ussos dos séculos in e e in e e um) / um b asil ainda em
chamas (an ologia de poesia b asilei a con empo ânea) / os
eus lábios a ua língua (an ologia de poesia dinama quesa) / e
nenhuma e igem nos a ec a (an ologia de poesia no ueguesa)
/ as ped as êm en anhas? (an ologia de poemas pales inianos)
/ eneziana (amadeu bap is a) / sol de bolso (benjamin pé e )
/ obai i z ( ozes emininas da poesia p o ençal) / oldulogia
o o-ocula (saguenail) / po alguma azão (an ologia de poesia
a gen ina) / oldulogia on al (saguenail) / oldulogia pineal
(saguenail) / nea ka ala, nea ka ala ( ede ico ma inho) /
a economia polí ica do mi o (ped o le i bisma ck) / música
dos séculos (mil anos de poesia alemã) / comp eendo que
sou mudo e que me escu am (yannis i sos) / cade no de
alamanca (emil cio an) / e a espi ada (anxo pas o )
A LUZ AZUL ........................................................................................... 42
APÓS O REPASTO ................................................................................. 43
QUINTA VIOLÊNCIA
MIÚDOS DE BAIRRO ........................................................................... 47
CECEIO ................................................................................................... 49
B2 .............................................................................................................. 51
EMPREENDER ....................................................................................... 53
TESTE DE GRAVIDEZ .......................................................................... 55
OFERENDA ............................................................................................ 56
POSFÁCIO
COM A FORÇA QUE AS PALAVRAS NA MATÉRIA EXERCEM ........ 61
[email p o ec ed]
edcon acapa.blogspo .com