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Com a Força que as Palavras na Matéria Exercem: Posfácio a Toda a Violência, de Abraham Guerrero Tenorio

Seiça, Álvaro

Abstract

PT Este ensaio constitui o posfácio à edição de Toda a Violência, de Abraham Guerrero Tenorio, traduzida do castelhado para o português por Álvaro Seiça e publicada pela Contracapa em 2025. EN This essay is the afterword to Abraham Guerrero Tenorio's Toda a Violência, translated from Spanish to Portuguese by Álvaro Seiça and published by Contracapa in 2025.

Full text

TODA A VIOLÊNCIA ABRAHAM GUERRERO TENORIO POSFÁCIO COM A FORÇA QUE AS PALAVRAS NA MATÉRIA EXERCEM Foi por acaso que, no verão de 2021, procurando por livros de Federico García Lorca, ao estacar na montra da Librería Manuel de Falla, em Cádis, deparei-me com uma cinta vermelha e uma fotografia de um poeta gaditano, Abraham Guerrero Tenorio. O título cativou-me: Toda la violencia1. Já não por acaso, decidi entrar e folhear os seus poemas. Mais tarde, ao lê-los na cama, à mesa, ou na praia, com o meu “braço dentro da boca húmida de um tigre”, estremeci por diversas vezes. A poesia de Tenorio não é composta ao acaso. Em “Escrever”, o poeta refere “que habito num mundo de hemistíquios, que vivo / contando sílabas”. Este mesmo rigor composicional, que remete para versos alexandrinos e para a ponderação grave de cada sílaba, vai desaguar numa estrutura precisa e equilibrada. O livro Toda la violencia está dividido em cinco partes, que são nomeadas como “cinco violências”. A primeira e a quinta violências contêm seis poemas cada, enquanto a segunda, terceira 61 1 Nascido em 1987, em Arcos de la Frontera, Cádis, Abraham Guerrero Tenorio publicou o seu primeiro livro de poesia em 2018, Los días perros (La Isla de Siltolá). Toda la violencia, a sua segunda coleção de poemas, recebeu, entre outros, o Prémio Adonáis 2020, tendo sido editada pelas Ediciones Rialp (2021). Entretanto, o autor publicou Las luces de Hannover (ficção, El Paseo, 2023) e Polvo y tierra (poesia, Isla Elefante, 2024). e quarta contêm cinco poemas cada. No total, Tenorio compõe vinte e sete poemas que pautam toda a violência do livro. A violência é explorada tematicamente em cinco partes ou núcleos distintos: a família, o amor, a morte, a escrita e o capitalismo, através do contexto sociopolítico espanhol. Tendo como pano de fundo o rescaldo de uma década de recessão económica e desemprego, a crítica marxista e antipatriarcal de Tenorio ao neoliberalismo, à globalização capitalista e à estrutura social espanhola é alicerçada nas inscrições de cada núcleo. Assim, cada núcleo de poemas abre com uma epígrafe que deixa entrever a relação entre o grau e o tema de violência, com citações das poetas andaluzas Aurora Luque e Erika Martínez, do filósofo francês Vladimir Jankélévitch, do escritor aragonês Túa Blesa e do filósofo mexicano David Pavón-Cuéllar. A poética de Tenorio é relacional. É uma poesia dialogante que se constrói com o seu contexto, os seus intertextos e as suas referências literárias, artísticas, musicais, teóricas e populares. Para além disso, há epígrafes em vários poemas que revelam também a importância de outras poéticas enquanto pontos de partida: Francisco de Quevedo, Julio Mariscal e Isabel Pérez Montalbán. Evocando Montalbán, Tenorio estabelece um diálogo com as ramificações da poesia espanhola social e politicamente comprometida do pós-1990 — uma poesia de esquerda que pretende combater pelos movimentos sociais e engendrar uma crítica poética ao capitalismo e à desmemória, à qual já se chamou “poesía de la conciencia” (poesia da consciência), e que não será alheia à poesia social antifranquista do pós-guerra. As causas da violência e os efeitos que exerce — na família, no amor, na morte, na escrita e no indivíduo dentro da sociedade — são trabalhados não só na forma física como emerge, se vê e se sente, mas também na forma como, submersa, se dilui nos distintos corpos de modo quase invisível, seja através da violência psicológica, da perda, ou do impacto velado nas relações pessoais. Por exemplo, a consciência do reflexo e propagação da violência no seio familiar, através das gerações, é bem patente na reviravolta fulminante do poema “Herança”. Ou, na violência conjugal e machista denunciada em “Mulheres cansadas”. Ou, ainda, no remate de “Oferenda”, que expõe a precariedade da geração que passou à maioridade após a recessão económica de 2008. Como tal, a epígrafe inicial do livro, do sociólogo norueguês Johan Galtung, é fundamental para pensar a génese do labor poético em torno da temática da violência estrutural e dos seus flancos visíveis e invisíveis. Já a epígrafe do último núcleo, ou “quinta violência”, é fulcral para compreender a génese do título do livro, visto que Tenorio apropria uma citação de Pavón-Cuéllar que remete para uma leitura marxista-lacaniana, segundo a qual, face à brutalidade capitalista, é vital dizer a verdade2. O capitalismo nutre-se da extração e da acumulação. Para tal, somente pela violência extrema que exerce, ao explorar a pobreza e o cerco da classe, consegue sobreviver e propagar-se. Ora, segundo a psicologia crítica de Pavón-Cuéllar, o capitalismo 6362 2 De David Pavón-Cuéllar, leia-se, por exemplo, “Marx in Lacan: Proletarian Truth in Opposition to Capitalist Psychology”, Annual Review of Critical Psychology, 2011, pp. 70-77. não só submete a mercadoria à exploração, mas também o indivíduo e a sua própria subjetividade, sendo a fundação de “toda a violência”. Contudo, a busca de uma “verdade proletária” em Tenorio é polivalente, já que vive na tensão entre o que o sujeito perceciona ser a violência exercida pelo sistema na transmissão de uma família de classe trabalhadora para a classe média e as suas reflexões enquanto sujeito já de classe média, amputado pelo desemprego e pela desesperança. Este sujeito vive afetado não só pelo ricochete da sua família, mas também pelo seu lugar num mundo neoliberal globalizado, no contexto da primeira recessão do terceiro milénio. Em “Miúdos de bairro”, aborda-se como os filhos de operários brincavam na rua, numa praça tornada centro de um mundo infantil abandonado. Por sua vez, já jovem adulto, o desalento que enfrenta o sujeito da nova classe média no pós-2008 não é universal, ainda que disseminado, mas revelador da condição particular do escritor nas suas vertentes laboral, social e política. Um escritor que se preocupa com a falta de emprego, a emigração forçada, o exílio de si e da língua (“B2”), e a busca de horizontes seguros, mas também alienantes, como atestam as referências aos trabalhos precários e, nos poemas “Escrever” e “Empreender”, aos exames de “oposiciones” — de difícil tradução para português, mas que correspondem à competição para ingressar na carreira efetiva do setor público espanhol. Se a austeridade económica linchou arduamente a geração que iniciava atividade laboral na década de 2010, o poema “Após o repasto” revela como a condição não profissional de artista, em particular de escritor e poeta, é ainda mais débil. Rodeado do sucesso dos amigos de classe média que comentam o bem-estar — bons empregos, salários, férias ideais e o crescimento da prole —, o sujeito enfrenta a ausência de remuneração pelo seu trabalho especializado e a incapacidade de reter uma situação social digna. Acresce ainda o contraste no que diz respeito a poder desfrutar, com a sua parceira, da liberdade de ter crianças. O computador, enquanto ferramenta de trabalho, na esteira de Roberto Bolaño, representa aqui a materialização da escrita e da remuneração pelo ofício poético, mas também a solidão do escritor sem prole: “como um farol que ilumina os seus rostos / para salvá-los do naufrágio (…) escrevendo / com os joelhos órfãos / (…) abrindo caminho / até ao centro escuro do meu peito” (“A luz azul”). Esse mesmo receio pessoal e social de incerteza, desproteção e precariedade emerge no poema “Escrever”, que demonstra como Tenorio consegue tratar os temas mais mundanos e viscerais da sobrevivência humana com uma frontalidade, aspereza e ternura fortíssimas: É esperar a quimera de um prémio, o dinheiro preciso que converta o poema num ordenado, números para exibir aos meus amigos para que acreditem que há labor no meu silêncio, (…) 6564 Porém, durante a madrugada, quando os dedos pálidos do medo me acariciam a nuca e me impedem de dormir, escrever é fitar a queda da mentira fixamente nos olhos, esticar os lençóis e, frágil, apertá-los contra o meu corpo, talvez em busca de algo que me proteja. A ternura e o amor erguem-se como antídotos à violência e à desumanização, ou, repassando a imagem da luz que guia no desnorte — e que reaparece no poema central —, “como dois faróis indo em contramão”. Já a busca pela sensualidade — “O toque de uma língua rubra” — e pela partilha amorosa vai proporcionar uma das reviravoltas mais eficazes e memoráveis do livro, ao fechar, qual chave de ouro, o poema central e homónimo “Toda a violência”. Será, de facto, um padrão estilístico de Tenorio o uso da chave literária em formas breves, como síntese e reviravolta, no sentido clássico de um golpe final que desfere espanto e reconhecimento. Outra característica da poética tenoriana é a musicalidade e o ritmo. Regressando ao acaso, não terá sido por acaso que outro poeta andaluz, embora não nomeado, se vislumbre em certas imagens, mas também no ritmo, poética e política de Tenorio: Lorca. No dia em que procurava Lorca, encontrei Tenorio. E será excessivo pensar que, em Tenorio, se encontra Lorca? É Tenorio quem escreve, em “Retrato de uma família que foi”: “A noite apressa-se na janela / e adormece os corpos com suas mãos de azeite”. Ressoam, pois, algumas palavras e imagens lorquianas de Romancero gitano (“noche”, “aceite”), assim como repetições musicais e síncopes. É justo, no entanto, afirmar: mais do que Lorca, é uma poética de crueza dos anos 1990 que assoma nos seus poemas. Há poemas que se lêem e se escoam pelo ralo do tempo. Há outros que nos fazem entrar numa vertiginosa espiral de água e nos levam consigo. Há outros ainda que, ao nos agarrarem no remoinho, nos deixam sair, para logo, quando retomados, nos galvanizarem de novo. Parece ser essa espiral voraz, de água e terra, de ar e vento, de noite e dia, que a poesia de Tenorio nos convida a partilhar. É uma dança feita de violência e sensualidade. Porém, muitos dos seus poemas não têm ralo, deixando-nos perpetuamente a rodopiar, estonteados, com a força que as palavras na matéria exercem. Bergen, outubro de 2021 , revisto em março de 2025 ÁLVARO SEIÇA 6766 ÍNDICE PRIMEIRA VIOLÊNCIA BARRO .......................................................................................................... 9 A MINHA AVÓ E HOLOFERNES ........................................................... 11 O HOMEM QUE VAI MORRER ............................................................. 12 A MINHA MÃE ..................................................................................... 14 RETRATO DE UMA FAMÍLIA QUE FOI .............................................. 16 HERANÇA .................................................................................................. 17 SEGUNDA VIOLÊNCIA MULHERES CANSADAS ......................................................................... 21 TODA A VIOLÊNCIA ............................................................................... 22 AVE DE RAPINA....................................................................................... 23 BIOGRAFIA DAS SAPATILHAS ............................................................ 24 WELCOME ................................................................................................. 25 TERCEIRA VIOLÊNCIA VARANDA .............................................................................................. 29 A CARÍCIA ............................................................................................. 30 OCO .......................................................................................................... 31 PILATES .................................................................................................. 32 TREME .................................................................................................... 33 QUARTA VIOLÊNCIA ESCREVER .............................................................................................. 37 A BOCA DE UM TIGRE ........................................................................ 39 OS OLHOS DE BORGES ....................................................................... 40 PUBLICAÇÕES DESTA EDITORA um árabe é um árabe, é um árabe, um árabe (breve antologia de poesia árabe) / iluminação do eu (antologia de poesia hispano-americana) / trocando dólares por cêntimos (alguma poesia norte-americana) / um pouco do meu sangue (antologia de poesia italiana) / fuga intempestiva (fernando esteves pinto) / pelos nossos corações passa a linha de fogo (antologia de poesia islandesa) / descida brusca de temperatura (alguma poesia suíça) / sonhador definitivo e perpétua insónia (uma antologia de poemas surrealistas escritos em língua francesa) / o destino da árvore é transformar-se em papel (antologia de poesia sueca) / transversões (poemas reescritos em português) / o mundo adormecido espera impaciente (antologia de poesia finlandesa) / é por isso que a alegria é mais alta / (poemas russos dos séculos vinte e vinte e um) / um brasil ainda em chamas (antologia de poesia brasileira contemporânea) / os teus lábios a tua língua (antologia de poesia dinamarquesa) / e nenhuma vertigem nos afecta (antologia de poesia norueguesa) / as pedras têm entranhas? (antologia de poemas palestinianos) / veneziana (amadeu baptista) / sol de bolso (benjamin péret) / trobairitz (vozes femininas da poesia provençal) / foldulogia oto-ocular (saguenail) / por alguma razão (antologia de poesia argentina) / foldulogia frontal (saguenail) / foldulogia pineal (saguenail) / nea kavala, nea kavala (frederico martinho) / a economia política do mito (pedro levi bismarck) / música dos séculos (mil anos de poesia alemã) / compreendo que sou mudo e que me escutam (yannis ritsos) / caderno de talamanca (emil cioran) / erva respirada (anxo pastor) A LUZ AZUL ........................................................................................... 42 APÓS O REPASTO ................................................................................. 43 QUINTA VIOLÊNCIA MIÚDOS DE BAIRRO ........................................................................... 47 CECEIO ................................................................................................... 49 B2 .............................................................................................................. 51 EMPREENDER ....................................................................................... 53 TESTE DE GRAVIDEZ .......................................................................... 55 OFERENDA ............................................................................................ 56 POSFÁCIO COM A FORÇA QUE AS PALAVRAS NA MATÉRIA EXERCEM ........ 61 [email protected] edcontracapa.blogspot.com