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Crítica da etnofilosofia jurídica: limites da filosofia domesticada pelos juristas

Author: Araújo Costa; Alexandre; Alexandre Araújo Costa
Publisher: Zenodo
DOI: 10.5281/zenodo.17666887
Source: https://zenodo.org/records/17666887/files/691fac6eb2ed9.pdf
C í ica da e no iloso ia ju ídica:
limi es da iloso ia domes icada pelos ju is as
Alexand e A aújo Cos a
P o esso da Faculdade de Di ei o da Uni e sidade de B asília (UnB)
Pesquisado isi an e do Labo a oi e de Théo ie du D oi (LTD) da Aix-Ma seille Uni e si é (AMU)
1
Resumo: O a igo ealiza uma c í ica daquilo que denomina e no iloso ia ju ídica: a iloso ia do di ei o
p oduzida po ju is as, ol ada sob e udo a espelha e acionaliza o habi us do campo ju ídico, em ez
de exe ce uma unção p op iamen e c í ica. Pa indo da ensão en e a au oimagem dos ju is as e o
olha ex e no das ciências sociais e da iloso ia, o ex o analisa a ideologia de au onomia do di ei o à
luz de Bou dieu (campo, habi us, “ideologia da independência do co po judiciá io”) e de Wa a (senso
comum eó ico dos ju is as), mos ando de que modo o discu so ju ídico o mula uma iloso ia domes-
icada do di ei o, que na u aliza a pe spec i a in e na e deixa de unciona como ins ância c í ica dos
epe ó ios concei uais u ilizados na p á ica. Em seguida, discu e a me adogmá ica kelseniana e a pa-
adoxal ecepção da Teo ia Pu a do Di ei o pela comunidade ju ídica, pa a escla ece as elações en e
eo ia e iloso ia do di ei o. A pa i do deba e sob e e no iloso ia em Kwame Appiah e da dis inção en e
an opologia e iloso ia, o a igo sus en a que desc e e egimes ca ego iais ju ídicos não bas a pa a
cons i ui iloso ia do di ei o. Po im, em diálogo com Ro y, p opõe comp eende a iloso ia do di ei o
como polí ica dos epe ó ios ca ego iais: uma p á ica e lexi a que não se limi a a egis a os concei os
da cul u a ju ídica, mas os subme e a exame c í ico, inclusi e quando esse exame ameaça a p óp ia
posição dos ilóso os do di ei o no in e io do campo.
Pala as-cha e: iloso ia do di ei o; eo ia do di ei o; e no iloso ia ju ídica; campo ju ídico; senso co-
mum eó ico dos ju is as; c í ica do di ei o
Abs ac : The a icle unde akes a c i ique o wha i calls legal e hnophilosophy: a philosophy o law
p oduced by ju is s, aimed abo e all a mi o ing and a ionalizing he habi us o he legal ield, a he
han pe o ming a genuinely c i ical unc ion. S a ing om he ension be ween ju is s’ sel -image and
he ex e nal gaze o he social sciences and philosophy, he ex analyzes he ideology o he au onomy
o law in ligh o Bou dieu ( ield, habi us, he “ideology o he independence o he judicial co ps”) and
Wa a (ju is s’ heo e ical common sense), showing how legal discou se o mula es a domes ica ed phi-
losophy o law ha na u alizes he in e nal pe spec i e and ceases o unc ion as a c i ical ins ance o
he concep ual epe oi es employed in p ac ice. I hen discusses Kelsenian me adogma ics and he
pa adoxical ecep ion o he Pu e Theo y o Law by he legal communi y, in o de o cla i y he ela ions
be ween heo y and philosophy o law. D awing on he deba e on e hnophilosophy in Kwame Appiah
and on he dis inc ion be ween an h opology and philosophy, he a icle a gues ha desc ibing legal
ca ego ical egimes is no su icien o cons i u e a philosophy o law. Finally, in dialogue wi h Ro y, i
p oposes unde s anding he philosophy o law as a poli ics o ca ego ical epe oi es: a e lexi e p ac ice
ha does no me ely eco d he concep s o legal cul u e, bu subjec s hem o c i ical examina ion,
including when such examina ion h ea ens he e y posi ion o philosophe s o law wi hin he ield.
Keywo ds: philosophy o law; heo y o law; legal e hnophilosophy; legal ield; ju is ’s heo e ical com-
mon sense; c i ique o law
1
Ag adeço à FAPDF pela bolsa de pós-dou o ado concedida pa a inancia meu pe íodo como pesqui-
sado isi an e na AMU. Ag adeço ambém a Jean Capiez, pela e isão ap o undada e pelas di e sas
con ibuições que ele ez pa a o na o ex o mais cla o e incisi o. Es e a igo oi publicado o iginalmen e
na e is a Les Cahie s Po alis, juin 2023 N°11 (h ps://d oi .cai n.in o/ e ue-les-cahie s-po alis-2023-
1-page-177?lang= ).
1. O que é o di ei o?
Es a é a pe gun a em o no da qual se es u u a o campo de e lexões que cos uma-
mos chama de “ iloso ia do di ei o”. Po se a a de uma ques ão mui o ele an e pa a
os ju is as, é a o que eles se pe gun em se há sen ido em o mula al indagação
nesses e mos. Pa a as pessoas ime sas no campo ju ídico, a igu a-se i ial a ideia
de que o di ei o é um obje o que exis e no mundo e que, po an o, é cabí el in es iga
a sua “na u eza”, iden i icando as ca ac e ís icas que lhe são p óp ias.
Os ju is as, con encidos da impo ância de sua unção social e da ele ância seu ob-
je o de es udo, endem a mani es a uma essen ida incomp eensão dian e do a o de
se em bem a os os ilóso os que ese am em suas eo ias um luga de des aque
pa a o p ocesso de elabo ação e de aplicação do di ei o (Pe elman, 1962, p. 35). Em
ez de o e ece aos p o issionais do di ei o uma desc ição espei osa de suas a i ida-
des e dos concei os que eles cos umam maneja , o discu so ilosó ico ipicamen e lhes
ep o a an o a “ é simplis a em uma p e ensa submissão à lei” quan o a al a de e-
lexão c í ica (A ias, 2016, p. 53).
F en e a eo ias ilosó icas nas quais os ju is as não “encon am nenhum e lexo de
suas p á icas e de seus aciocínios” (T ope , 2011), é p e isí el que os ju is as endam
a elabo a suas p óp ias abo dagens, nas quais as suas p eocupações possam ocu-
pa uma posição de des aque. O céleb e jus ilóso o No be o Bobbio chegou a decla-
a que “en e as ob as que pesam na o mação do pensamen o ju ídico a ual, que me
o nece am inspi ação, de am suges ões, inci a am ao abalho, e que coloco de bom
g ado nas mãos dos es udan es, ejo exclusi amen e ob as de ju is as”, mo i o pelo
qual ele p opôs dis ingui mos os li os de iloso ia do di ei o “esc i os po ilóso os da-
queles esc i os po ju is as, ou, se se p e e i , a sepa a os ilóso os ju is as dos ju is as
ilóso os” (Bobbio, 1962, p. 5).
Conside o que, apesa de o iés de con i mação se um aço comum a odos os hu-
manos, causa espan o que pensado es con empo âneos conside em que a iloso ia
do di ei o ealmen e impo an e é aquela p oduzida po “ju is as ilóso os”, que sis e-
ma izam as ca ego ias u ilizadas no discu so dogmá ico, em ez de se i como ins-
ância c í ica desses modelos concei uais. Es e a igo pa e des e incômodo e analisa
a dis inção en e “ju is as ilóso os” e “ ilóso os ju is as”, sus en ando que a o mulação
dessa dico omia esul a de uma ensão en e a manei a como os ju is as enxe gam
sua p óp ia a i idade e as o mas como ou os a o es sociais obse am o campo ju í-
dico.
Como as o igens dessa con aposição es ão en aizadas nas concepções que os ju is-
as êm si mesmos, pa ece ú il obse á-la a pa i de um pon o de is a sociológico.
Pa a guia essa análise, u iliza emos o epe ó io concei ual de Pie e Bou dieu, es-
pecialmen e as ideias expos as em seu ex o A o ça do di ei o (1986) pa a apon a a
exis ência de uma mo i ação ideológica na manei a pela qual os “ju is as ilóso os” se
dedicam a desc e e ac i icamen e os epe ó ios concei uais que o ganizam suas
p óp ias p á icas.
Sus en a ei que a p e ensão de au onomia de uma iloso ia do di ei o que de e ia b i-
lha po si mesma, sem se apenas um espelho dos sis emas ilosó icos mais ge ais
(Bobbio, 1962, p. 3), baseia-se em uma “ideologia de independência” que, além de
injus i icada, p oduz um discu so incapaz de a ingi a ca ac e ís ica que ma ca a a i i-
dade ilosó ica: a c í ica e lexi a po meio da qual uma cul u a decide quais são os
concei os a man e ou a ans o ma (Cos a, 2024).
2. O di ei o in en ado pelos ju is as
A p óp ia exis ência do que os ju is as chamam habi ualmen e de di ei o nada em de
i ial. Tal como “espo e” ou “música”, “di ei o” é um ó ulo u ilizado pa a designa um
conjun o de obje os he e ogêneos que, em azão de con ingências his ó icas, são sub-
sumidos sob o mesmo concei o. Ainda que as a i idades de a ogados e juízes sejam
cons i uídas como o mas de p omo e a ealização do “di ei o”, elas são ão di e sas
que pode iam se conside adas como campos p o issionais au ônomos, apesa de
conexos. O a o de á ias p o issões se en elaça em em um sis ema não signi ica que
elas sejam espécies do mesmo gêne o nem que elas ope am o mesmo discu so so-
cial. Conside a a ad ocacia e a magis a u a como “a i idades ju ídicas” co espon-
de ia, g osso modo, a quali ica de “a is as” an o os músicos e pin o es como os p o-
du o es e os c í icos de a e.
Colonna d’Is ia diagnos ica que, apesa da g ande dispe são exis en e en e os enô-
menos di os ju ídicos, exis e uma espécie de “pulsão de uni icação” que nos le a a
“ aze a mul iplicidade das a i idades dos ju is as a uma unidade ideal, a uma coisa
inco pó ea do ada de exis ência p óp ia e que se ca ac e iza po a ibu os como a
no ma i idade e a o ça inculan e” (Colonna d’Is ia, 2021, p. 79). Assim, p o issionais
ão dis an es en e si quan o p o esso es e abeliães podem se classi icados como
pe encen es a um mesmo conjun o (os “ju is as”), na medida em que suas a i idades
são ap esen adas como exp essão de um mesmo sabe , cons i uído em o no de um
sis ema uni icado de no mas (o “di ei o”).
A unicidade desse obje o de conhecimen o, que se ia pa ilhado po p o issionais ão
di e sos, é uma cons ução idealizada. Pa a alcançá-la, o discu so ju ídico mode no
dedicou-se a desen ol e uma “ eo ia das on es”, ol ada a esgua da a unicidade
do di ei o en e ao econhecimen o de que os di ei os subje i os deco em p ocessos
bas an e dis in os (cos ume, lei, p eceden e, e lexão c ia i a dos dou inado es, e c.),
pelos quais o sis ema social a ibui di ei os e de e es às pessoas. Essa unicidade
ilusó ia pe mi e aos ju is as e e i -se ao di ei o, “essa cu iosa e inap eensí el en i-
dade” (A ias, 2009) cuja exis ência não é pos a em ques ão e cuja alidade não pode
se ques ionada sem ompe os limi es do p óp io discu so ju ídico (Fe az J ., 1980).
A ixação mi ológica dessa ca ego ia é undamen al pa a o ganiza a a i idade p á ica
de ais p o issionais. A ine i á el agueza de um concei o esul an e de um p ocesso
a i icial de uni icação pe mi e desen ol e um discu so p á ico compa í el com a
c ença ju ídica con empo ânea de que o di ei o se cons i ui como uma o dem no ma-
i a do ada de alidade obje i a (o “sis ema de di ei o posi i o”), cujos a ibu os essen-
ciais podem se desc i os po uma “ eo ia ge al do di ei o”.
Ch is ian A ias essal a que, “aos olhos dos ju is as, a ques ão de di ei o não es á
abe a”, pois eles p essupõem que há um sen ido obje i o a se descobe o pelo exe -
cício de uma écnica que “assume a ‘apa ência enganado a’ de uma ‘ciência aplicada’”
(2009, p. 16). Na e minologia de Bou dieu, essa c ença az pa e do habi us dos ju-
is as, po meio do qual os indi íduos in e nalizam os p incípios undado es das p á i-
cas sociais que in eg am, de al o ma que o compo amen o since o e in ui i o dos
indi íduos esul a na ep odução das ideologias p óp ias do campo ju ídico. Assim, a
iloso ia p oduzida pelos ju is as ilóso os é ine i a elmen e domes icada: po se ju-
is a an es de se ilóso o, esse pe sonagem não pode coloca em ques ão o núcleo
ideológico que de ine o ho izon e seu p óp io olha .
3. A ideologia da au onomia do di ei o
Os ju is as são ipicamen e apegados a um epe ó io ca ego ial idealizado, que Luis
Albe o Wa a chama a de “senso comum eó ico dos ju is as”: a concepção compa -
ilhada pelos memb os da comunidade ju ídica a espei o de suas p óp ias a i idades
(Wa a , 1994). Os qua o elemen os mais impo an es dessa concepção são as c en-
ças ela i as à exis ência de: (i) um “sis ema ju ídico” obje i amen e álido; (ii) uma
“ eo ia ge al do di ei o” que e ela a es u u a desse sis ema; e (iii) uma cu iosa “me-
odologia ju ídica” que iden i ica cien i icamen e os signi icados das no mas e, assim,
ans o ma magicamen e uma a i idade dogmá ica em (i ) uma “ciência ju ídica”. Tal
combinação é adicalmen e incompa í el an o com a iloso ia con empo ânea, cé ica
quan o a in e p e ações obje i as de enunciados linguís icos, quan o com os discu sos
cien í icos a uais, que êm po obje os apenas edes de enômenos empí icos.
“O di ei o no olha do leigo não pode se aquele is o pelo olha do ju is a” (Rou iè e,
2021, p. 117), pois a o mação especí ica dos ju is as se dedica à cons i uição de um
olha que se ap esen a como “p op iamen e ju ídico” na medida em que conside a o
di ei o como coe en e, ha monioso e p e isí el. Uma ez que ou os a o es sociais
ipicamen e pe cebem e c i icam a a i icialidade das na a i as p oduzidas pelo olha
dos ju is as, o na-se p e isí el que as pessoas en ol idas no campo do di ei o ipica-
men e não se econheçam nas desc ições que as ciências e as iloso ias azem da
es e a ju ídica, o que os es imula a desen ol e um ela o ju ídico au ônomo, que aça
jus iça à des acada posição que os ju is as a ibuem a si p óp ios.
Pie e Bou dieu chama de “ideologia da independência do di ei o e do co po judiciá io”
(A ias, 2009, p. 72), a p e ensão injus i icada pela qual os ju is as ap eendem o di ei o
de que alam “como um sis ema echado e au ônomo, cujo desen ol imen o só pode
se comp eendido segundo sua ‘dinâmica in e na’” (Bou dieu, 1986, p. 3).
Quando Ch is ian A ias a i ma que um ju is a sem e lexão c í ica sob e a p óp ia p á-
ica se ans o ma em um “in elec ual dos pode es de op essão” (2009, p. 72), os ju-
is as, em ez de dialoga com seus c í icos, ence am-se em sua p óp ia bolha, po
meio da p odução de discu sos in e nos que só azem sen ido pa a pessoas engaja-
das, de manei a i e lexi a, na p á ica dogmá ica do di ei o. Quando Jes az e Jamin
a i ma am que “a dou ina ancesa pe manece um pode aliado do pode ” (Jamin e
Jes az, 1997), a espos a não oi um diálogo cons u i o, mas um “belo escândalo”,
que e ela a que “a dou ina con inua ba icada em suas adições e iel à imagem
que p e ende da de si mesma” (Jes az, 2016).
4. A au onomia iccional do di ei o
O sucesso de Kelsen en e os ju is as al ez de i e do a o de que, “pela p imei a ez,
um ilóso o elabo a a uma eo ia que pa ecia con i ma a pe cepção que as p á icas,
an o do juiz como do p o esso , inham de si mesmas” (A ias, 2016, p. 53). Kelsen
cons uiu explici amen e uma me adogmá ica: uma eo ia cujos concei os de i a am
de uma análise dos discu sos p á icos dos ju is as, a qual Bou dieu conside ou como
“o limi e ul a-consequen e do es o ço de odo o co po de ju is as pa a cons ui um
co po de dou inas e de eg as o almen e independen e das cons ições e das p es-
sões sociais e encon ando em si mesmo o seu p óp io undamen o” (Bou dieu, 1986,
p. 3).
Apesa de uma ecepção ela i amen e posi i a, a Teo ia Pu a do Di ei o semp e e-
p esen ou um pon o de ensão, is o combina algumas posições apa en emen e con-
o á eis pa a senso comum dos ju is as com ideias di icilmen e assimilá eis po ele.
Na supe ície, o no ma i ismo de Kelsen pa ecia con e i uma ce a coe ência eó ica
ao legalismo que imp egna a a p á ica dos ju is as. Toda ia, múl iplas ace as da Te-
o ia Pu a pe manece am em desaco do com a ideologia dos ju is as, al como a con-
cepção decisionis a da a i idade judicial. Tampouco oi es ejado o monismo adical
de Kelsen, que o le ou a ecusa a adicional dis inção en e di ei o es a al e di ei o
in e nacional, bem como a ejei a o concei o de di ei o subje i o, conside ado como
uma ca ego ia idealizada e on ologizan e.
Essa mis u a de assimilação e descon o o es á p esen e com especial in ensidade na
ideia de no ma undamen al. Po um lado, a “G undno m” ep esen a a um econhe-
cimen o dos c i é ios de alidade p edominan es den o do p óp io discu so ju ídico,
colocando em suspenso qualque c í ica à ideologia do campo do di ei o. Po ou o
lado, Kelsen nunca se p opôs a undamen a obje i amen e a ideologia ju ídica, p e-
ensão que ele conside a a impossí el po ep esen a um sal o que desa ia a a dis-
inção humeana en e a os e alo es. Apesa de e ado ado uma pa cela do discu so
no ma i is a p opos o po Kelsen, a comunidade ju ídica se man e e iel ao discu so
subje i is a da adição ci ilis a e nunca assimilou a ese kelseniana de que a alidade
das leis e das sen enças não é uma ealidade obje i a, mas somen e o p essupos o
implíci o dos discu sos p á icos dos ju is as.
O ela i ismo de Hans Kelsen e dos posi i is as opunha-se ao cogni i ismo mo al de
uma cul u a ju ídica inculada a uma adição ilosó ica que, em ge al, não se in e oga
a espei o dos concei os implíci os nas na a i as ju ídicas, mas sob e a e dadei a
essência do di ei o. Ainda hoje, os ju is as que admi em a exis ência de uma “ eo ia
ge al do di ei o” endem a ala , como Be gel, de uma essência uni e sal do enômeno
ju ídico que pode ia se iden i icada po uma abo dagem “ enomenológica” (Be gel,
2012).
Edmund Husse l, p incipal e e ência da enomenologia, essal a a se possí el abo -
da os a os sociais numa pe spec i a na u alis a, que comp eende a unção do pes-
quisado como sendo a elabo ação de modelos desc i i os capazes de a icula

quan i a i amen e suas obse ações ex e nas dos a os (Husse l, 1989, p. 21). Essa
abo dagem, ípica das ciências obse acionais, pa ecia-lhe ão legí ima quan o limi-
ada, pois ela nada pode ia dize sob e o “sen ido” obje i o das p á icas sociais que
os pesquisado es obse am. O p incipal a gumen o de Husse l é o de que odos os
enômenos adicados na consciência (como a análise e a decisão) não se deixam
comp eende adequadamen e po uma abo dagem na u alis a, que não é capaz de
obse a modo como a p óp ia consciência humana ealiza as a i idades pelas quais
ap eende o sen ido das coisas e dos ex os e oma decisões p uden es.
O pon o de is a ex e no das ciências ende a ca ac e iza os sabe es ju ídicos como
complexas es a égias linguís icas de coo denação de compo amen os indi iduais,
que pe mi em aos ju is as ope a como se exis isse um sen ido obje i o dos ex os
no ma i os. Assim, o sociólogo do di ei o não con e e à alidade da cons i uição um
es a u o di e en e daquele que o sociólogo da eligião a ibui aos ex os bíblicos ou
édicos. Essas pe spec i as na u alis as são incompa í eis com a abo dagem “ eoló-
gica” de ju is as que não se ap esen am como sis ema izado es de concepções domi-
nan es ace ca dos di ei os poli icamen e con e idos às pessoas de uma cole i idades,
mas como in es igado es do e dadei o sen ido de ex os do ados de au o idade in-
con es á el.
Os ju is as não são educados pa a se pe gun a se a o dem no ma i a de que alam
e e i amen e exis e, mas apenas pa a indaga quais são os di ei os e de e es de cada
pessoa em cada si uação conc e a. Sublinhando que a ma ca especí ica do discu so
ju ídico é ala dos di ei os que emos (quid ju is?) num “jogo de linguagem” que p oíbe
ques iona a alidade da o dem no ma i a, Hans Kelsen c iou o concei o de no ma
undamen al pa a explica essa cu iosa p oibição: os ju is as a uam como como se
p essupusessem a exis ência de uma no ma cuja alidade não pode se comp o ada,
mas ampouco pode se ques ionada sem ompe a p óp ia o dem do discu so ju ídico
(2010).
Em sua ob a pós uma, Kelsen acabou po econhece que esse p essupos o não é
simplesmen e also: ele é pa adoxal, já que uma no ma undamen al de e ia se es a-
belecida po uma au o idade ju ídica supe io a si mesma (Kelsen, 1991, p. 256), o
que é absu do. Como uma no ma undamen al supõe a exis ência de uma no ma
ainda mais ele ada, a a-se de um concei o con adi ó io, o que az com que o axioma
sob e o qual se unda o discu so in e no do di ei o de e se conside ado uma au ên ica
icção. Não é apenas uma c ença compa ilhada ou um enunciado hipo é ico, mas
uma desc ição que admi imos apesa de sabe mos que ela não co esponde à eali-
dade (Kelsen, 1991, p. 256).
O ca á e iccional da alidade ju ídica az com que o engajamen o dos ju is as em
a o da p o eção desse dogma não possa se assumido de manei a a gumen ada e
explíci a, o que le a o discu so ju ídico a assumi a o ma especí ica de uma dogmá ica
(Fe az J ., 1980; Ly a Filho, 1982), na qual as ques ões que ende iam a descons ui
os p essupos os undamen ais da o dem discu si a são conside adas ilegí imas (De -
ida, 2005). Em ez de jus i ica o injus i icá el, o discu so ju ídico se limi a a e gue
mu os que impedem, po um silêncio o çado, a sua p óp ia descons ução.
5. Filoso ia ou eo ia?
Quando um ju is a pe gun a “o que é o di ei o?”, ele ge almen e que sabe quais são
os a ibu os essenciais que co esponde iam ao concei o de di ei o ao qual sua p á ica
es á poli icamen e inculada: o sis ema de di ei os e de e es que concebe as ob iga-
ções em igo pa a as pessoas. Esse espei o i ual aos dogmas es a i icados no
mundo ju ídico não pode se espe ado dos ilóso os e dos cien is as, que endem a
obse a a sociedade sem qualque comp omisso com as concepções e alo es que
cons i uem o uni e so simbólico es u u an e das elações en e os a o es em compe-
ição no “campo ju ídico” (Bou dieu, 1986, p. 4). Po essa azão, não su p eende que
in es igações ealizadas na década de 1990 po É ienne Baliba com p o esso es de
iloso ia (Baliba , 1997, p. 106) enham indicado que os ilóso os não econhecem
au onomia à iloso ia do di ei o po que, como esume Alain Sé iaux, “a iloso ia do
di ei o não é senão um aspec o da iloso ia em ge al” (T ope e Michau , 1997, p. 112).
Pa a os ilóso os, a iloso ia do di ei o não é um domínio mais au ônomo do que a
iloso ia da música, da en omologia ou do pecado. Pa a os especialis as em ciências
sociais, o di ei o ampouco apa ece como um campo de es udo au ônomo, uma ez
que a a i idade de uma bu oc acia judiciá ia de e se comp eendida como elemen o
de um sis ema polí ico mais amplo.
Como os “ ilóso os ju is as” não desen ol e am um ela o ilosó ico compa í el com o
habi us dos ju is as, os “ju is as ilóso os” desen ol e am um discu so ace ca das ca-
ego ias cen ais do discu so dogmá ico (no ma, in e p e ação, sanção, pessoa, es-
ponsabilidade e c.), ado ando em elação a elas uma abo dagem comp eensi a, ol-
ada a sis ema iza concei os que não são pe cebidos como elemen os de uma o dem
ju ídica posi i a, mas como pa es que compõem a expe iência ju ídica uni e sal.
Os ju is as que ado a am essa abo dagem seguem ipicamen e o exemplo de Hans
Kelsen, que eduzia a “ iloso ia do di ei o” a um discu so me a ísico sob e o p oblema
insolú el da jus iça. Pa a se dis ancia dessa pe spec i a on ológica, ele op ou po
quali ica seu discu so analí ico como eo ia ge al do di ei o, cujo obje i o “consis e em
analisa a es u u a do di ei o posi i o e ixa as noções undamen ais do conhecimen o
desse di ei o” (Kelsen, 1962, p. 131).
Embo a alguns au o es con empo âneos, como Be gel, insis am na dis inção en e
eo ia e iloso ia do di ei o (Be gel, 2012, p. 5), Michel T ope em azão quando sus-
en a a a i icialidade dessa di isão, que não co esponde ao emp ego e e i o dessas
exp essões, as quais de em se omadas como sinônimas, uma ez que oda in es i-
gação que e le e ace ca das ca ego ias ju ídicas undamen ais de e se classi icada
como ilosó ica (T ope , 2011).
6. A p e ensão injus i icada de au onomia
A p e ensão de au onomia da “ iloso ia do di ei o” e idencia o a o de que os ju is as
a am a ques ão da na u eza do di ei o como se osse semelhan e às an igas ques-
ões sob e a “jus iça” ou a “ e dade”, cujo ca á e ilosó ico pa ece indubi á el. En e-
an o, pa a os não ju is as, a ques ão “o que é o di ei o?” soa ão legí ima quan o a
pe gun a “o que é o pecado?”. O simples a o de pode mos nomea um obje o
( o migas, pecados ou di ei os) não signi ica que seja azoá el es abelece uma disci-
plina ilosó ica a seu espei o.
Nossa capacidade de nomeação é in ini a. Podemos ala de obje os exis en es (como
o plane a Te a e a Ca ed al de B asília) an o quan o de obje os inexis en es (como
unicó nios, quad ados edondos ou o esul ado da di isão po ze o). Falamos de en-
idades conc e as, mas ambém de ca ego ias abs a as, ais como “plane a” ou “pe-
cado”.
O a o de pode mos pe gun a “quais pecados come em as o migas?” não jus i ica
in en a uma “ iloso ia o mipecadológica”. O econhecimen o da exis ência de pala-
as cujos campos semân icos são con o e sos não signi ica que os deba es sob e o
signi icado desses e mos possam se quali icados como “ ilosó icos”. Nomea um do-
mínio e mul iplica ques ões on ológicas (“qual é a essência do pecado o micula ?”)
não bas a pa a unda uma disciplina ilosó ica: eligiões, ciências e as ologias am-
bém o mulam ques ões sob e o “se ” das coisas, dos deuses e dos signos, sem po
isso se o na em iloso ia.
A exis ência de um concei o de “a a eza” socialmen e es a i icado é insu icien e pa a
que denominemos o es udo desses se es como “a a ologia”. Enquan o pecado, a
a a eza pode se analisada pela eologia c is ã; enquan o aço de pe sonalidade, pela
“psicologia”. Po ém, se ia um an o es anho que os “a a ólogos” ap esen assem a
a a eza como um enômeno ão complexo e pa icula que não pode ia se de ida-
men e comp eendido senão median e uma análise conduzida po especialis as capa-
zes de combina abo dagens eológicas, é icas e psicológicas em uma e dadei a e
complexa “ eo ia da a a eza”.
A exis ência de uma ampla comunidade de especialis as de um dado obje o (como
di ei os, pecados ou a ô) pode o na con enien e a in enção de uma nomencla u a
especí ica pa a designa seu obje o de es udo, mas al con eniência nada indica
quan o a uma supos a au onomia ilosó ica de ais obje os ou pe spec i as.
7. O po encial c í ico da iloso ia
Embo a a iloso ia dos ju is as seja no malmen e dedicada à descobe a das essên-
cias co esponden es aos concei os ju ídicos, conside ados como elemen os in eg an-
es da es u u a de uma expe iência ju ídica uni e sal, alguns pensado es con empo-
âneos, como Michel T ope , conside am possí el desen ol e uma iloso ia do di ei o
desligada dessas hipó eses essencialis as (T ope , 2011). T ope suge e a adoção de
uma abo dagem indu i a, cons uída a pa i da obse ação eal dos concei os u iliza-
dos pelos legislado es, ais como con a os, casamen o ou p op iedade. Nesse caso,
a unção da iloso ia do di ei o não se ia escla ece as essências do enômeno ju ídico,
mas desc e e os sis emas ca ego iais u ilizados pelos o mulado es do di ei o e iden-
i ica os epe ó ios concei uais implíci os em ais na a i as. Na mesma linha, Colona
d’Is ia de ende uma iloso ia não me a ísica que “não p e ende ia p ecede os sabe es
ju ídicos posi i os, mas ao con á io esul a deles. Ela expo ia o alcance ilosó ico das
enunciações écnicas dos ju is as” (Colonna d’Is ia, 2021). Essas p opos as condu-
zem a uma edução da iloso ia a uma espécie de eo ia ge al, engajada na alidade
social do discu so que desc e e, mas sem a p e ensão de uni e salidade que possuía
em Kelsen ou Be gel.
Michel T ope a i ma que os jus ilóso os de em e ela a iloso ia inconscien e insc i a
nas p á icas dos ju is as. Essa concepção pa ece-me se a mesma dos pensado es
a icanos que ca ac e iza am os egimes ca ego iais das cul u as a icanas adicio-
nais como uma espécie de iloso ia implíci a. Kwame Appiah desc e eu essa abo da-
gem como uma o ma de “e no iloso ia” que, na in enção de alo iza os sabe es con-
idos em di e sas cul u as, chama de “ iloso ias” odos os epe ó ios concei uais de-
sen ol idos po uma cul u a (a icana, ju ídica, medie al e c.) (Appiah, 1993).
O p oblema dessa abo dagem é que uma an opologia pode se limi a a desc e e a
on ologia implíci a nos discu sos e p á icas de uma comunidade, como o az magis-
almen e Vi ei os de Cas o em sua ob a Me a ísicas canibais, em que analisa as
implicações on ológicas do pensamen o dos po os indígenas b asilei os (Vi ei os de
Cas o, 2009). Res a que o ilóso o não pode apenas ap esen a espei osamen e as
ca ego ias in eg adas nas moldu as de uma cul u a pa icula , pois a ma ca de uma
análise ilosó ica é p ecisamen e o seu olha c í ico sob e o pensamen o que analisa.
Quando se a i ma que os ju is as anceses ou a cul u a ban o êm uma iloso ia implí-
ci a, con unde-se um “ egime ca ego ial” com uma “ iloso ia”. Kwame Appiah chama a
a enção pa a o a o de que a exis ência de sis emas de pensamen o mui o complexos
não implica a p esença de uma iloso ia, po que di e sas cul u as não desen ol e am
uma análise c í ica dos limi es de suas p óp ias on ologias (Appiah, 1993). Assim,
quando nos dedicamos a sis ema iza o epe ó io concei ual dos ju is as, não ealiza-
mos uma análise ilosó ica (po que não se coloca em ques ão sua alidade) e não
analisamos um discu so ilosó ico (pois o discu so dogmá ico dos ju is as não é c í ico
em elação aos seus p óp ios concei os).
Exis e um po encial c í ico na iloso ia, que pode se i de ins ância e lexi a sob e as
ca ego ias e as p á icas desen ol idas po uma de e minada cul u a e que pode pa -
icipa do p ocesso de e isão cons an e que ma ca oda a i idade cul u al humana.
No en an o, pa a que os ju is as possam desempenha um papel impo an e nesse
p ocesso, p ecisam abandona o echamen o em elação aos discu sos sociais que
con es am seus dogmas. In elizmen e, a clausu a dos discu sos ju ídicos impede o
desen ol imen o de uma abo dagem que possa in e essa e in luencia an o os ju is-
as quan o os ilóso os e os pesquisado es em ciências sociais.
Todas as pessoas es ão cons an emen e en ol idas na eelabo ação dos modelos
desc i i os e explica i os que o ganizam nossas pe cepções e nossos compo amen-
os. Desde a iloso ia da linguagem e da he menêu ica, desc e emos esses modelos
como ho izon es de sen ido, que não são e dadei os nem alsos, na medida em que
êm ca á e cons i u i o dos p óp ios c i é ios de a ibuição de e acidade. Le a a
sé io o ca á e his ó ico de nossos modos de comp eensão exige econhece que a
iloso ia não é uma ciência igo osa das essências das coisas, mas uma a i idade
humana, como a polí ica e a pesquisa cien í ica.
P opomos segui a in uição de Ro y e conside a a iloso ia como uma espécie de
polí ica dos epe ó ios ca ego iais (Ro y, 2007). A iloso ia dos g egos an igos se