C ise e e i ó io
Vi gínia Teles
P o esso a Auxilia do Depa amen o de Geog a ia (Ins i u o de Ciências Sociais da Uni e sidade do
Minho). ORCID: 0000-0002-3088-4930
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Sim, oi essa
A p imei a misé ia, a dese ção
Dos deuses. A segunda, a sua mo e,
Já na mo e de Pã anunciada
Pelo lamen o dos bosques, o clamo
Lu uoso das ilhas do Egeu.
Esse g i o o escu ou o ou o F ied ich,
Dionysos de seu nome, o eu opeu,
O anunciado , o que caminha
Sob e águas es agnadas e pa ece,
Ao a unda -se, desenha no lodo
Um mapa pa a o qual não há lei u a.
(Co eia, 2012, p. 24)
En ende a c ise na sua elação com o e i ó io con oca-nos à comp eensão das
múl iplas elações que se podem es abelece en e es es dois concei os. Não
obs an e, ala de c ise é po si só ab i um leque de possibilidades às suas múl iplas
conexões. Usa-se e abusa-se da u ilização do e mo c ise, nem semp e em con ex os
e signi icados coinciden es, o que di icul a a sua de inição. A c ise de alo es, a c ise
económica, a c ise da democ acia, a c ise ene gé ica, a c ise climá ica e, a ualmen e,
a c ise pandémica assumem-se, en e ou as, como pa es compósi as do mosaico
des e concei o. Con udo, é consensual que a c ise é uma dis upção com a si uação
an e io , um bloqueio ou obs áculo, que se ma e ializa numa no a ealidade.
As ameaças económicas, as ecnologias da in o mação, os con li os bélicos e os
desas es na u ais são exemplos disso.
Os desas es ou as ca ás o es na u ais ep esen am uma e dadei a ameaça ao
desen ol imen o dos países, pois ao a e a em o e i ó io e a p óp ia população
e ão, a médio e a longo p azo, consequências sociais, económicas e mesmo polí icas,
de in ensidade a iá el. Os go e nan es e ão limi ada a capacidade de ges ão dos
ecu sos enquan o as populações e ão aumen ada a sua ulne abilidade, podendo
ins ala -se no seu seio es ados de alguma insegu ança.
É nes e sen i de insegu ança e medo que as ques ões da segu ança de em se
con empladas, mesmo que seja no seu sen ido mais clássico: o de ameaça ao
Es ado. A segu ança dos países oi, a é aos anos 70, en endida exclusi amen e em
e mos de ameaças mili a es, oda ia é-nos ago a ácil pe cebe que a segu ança
de um de e minado e i ó io pode se comp ome ida po ameaças de ou a o dem:
a) a globalização, com as suas in e dependências económicas; b) as dispa idades
egionais, com os mo imen os mig a ó ios que o igina a ní el mundial; c) a
desin eg ação de de e minados egimes polí icos e a mul iplicidade de Es ados,
com delimi ação ainda ince a no sis ema polí ico in e nacional; d) a p opagação
de doenças como o VIH/SIDA, Ébola (EVD), Dengue, COVID-19 (SARS-Co -2); e)
o ganismos gene icamen e modi icados; ) des uição da camada de ozono; g)
des lo es ação; h) desapa ecimen o de espécies animais e ege ais a as, são
algumas delas.
83Sociedade e c ise(s)
A ince eza e a insegu ança são ge adas po no os iscos, o que jus i ica que as
sociedades a uais, di as pós-mode nas, se p eocupem, cada ez mais, com os iscos
na u ais, os iscos ecnológicos, os iscos biológicos e os iscos económicos e sociais.
A con empo aneidade ca ac e iza-se po um pe íodo de mudanças, ince ezas,
ansição his ó ica a que Boa en u a Sousa San os (2008) chama de des egulação,
de c ise.
É a pensa nos concei os de isco e c ise que eco do os ensinamen os de Fe nando
Rebelo (1999) sob e a “ eo ia do isco” (Faugè es, 1990), o ganizada em o no da
sequência de ês concei os isco – pe igo – c ise. Pa a o au o exis e uma con inuidade
empo al en e eles, o p imei o co esponde à p obabilidade de oco ência de um
p ocesso pe igoso, o segundo ma ca, a a és de di e en es sinais, a iminência da
mani es ação do isco e, o e cei o, o da mani es ação e e i a do isco a a és de
um aciden e, de um desas e ou de uma ca ás o e. Quando a c ise se mani es a
podemos dize que o isco se ma e ializou, passou do domínio do p o á el pa a
o domínio do eal, momen o em que é necessá io desencadea os p ocessos de
ges ão da eme gência, aciona os meios de soco o e nos casos mais g a es, po que
mais in ensos ou de maio ab angência espacial, c ia as condições de ecupe ação
económica e social.
O es udo do isco analisa a p obabilidade de oco ência de um p ocesso pe igoso
(pe igosidade ou haza d) num de e minado empo (p obabilidade) e num de e minado
espaço (susce ibilidade) e as consequências p e isí eis sob e a sociedade, o
ambien e e o e i ó io ( ulne abilidade) exp essa na exposição da população, no
alo dos bens po encialmen e a e ados ou o g au de pe da dos elemen os expos os
mas, ambém, no modo como a sociedade eage e ecupe a de uma si uação de
c ise, ou seja, qual o g au de esiliência e capacidade de adap ação que ap esen a.
In e essa aqui da des aque à ulne abilidade, impo a mo-nos, como diz José
Gomes Cano ilho (2008), com os “con o nos sociais do isco, onde se incluem as
pegadas dos dinossau os humanos, umas ezes assen es em éguas e esquad os
dos mode nos plani icado es das ‘mediapolis’, ou as ezes inc us ados em i ências
ágicas de pob eza”. Sem a in es igação da dimensão social do isco pouco mais
conseguimos que uma “semân ica de isco”.
É essencial conhece a ulne abilidade dos indi íduos, das comunidades e dos
e i ó ios e, sob e udo, pe cebe o modo como as ca ac e ís icas económicas, sociais
e cul u ais ajudam a en en a , esis i e ecupe a de uma c ise. Embo a se saiba que
o ca á e comple amen e e e si o é pouco equen e no domínio dos iscos, quan o
mais apidamen e se possam es abelece as condições iniciais, menos ulne á el
é uma sociedade. E, sem dú ida, que a capacidade das sociedades em escapa , em
esis i , ou em epa a os e ei os dos enómenos na u ais, passa pela ação dinâmica
e a i a do o denamen o do e i ó io, do planeamen o e da ges ão da c ise.
Exis em, na opinião de J. Fe ão (2015), “ao mesmo empo, egiões, g upos sociais
e indi íduos que es ão desigualmen e expos os e e elam di e en es sensibilidades
aos impac os de uma c ise, ou seja, o seu g au de ulne abilidade, e ambém a
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sua capacidade de adap ação, são desiguais, o nando ainda mais complexa a
comp eensão dos seus impac os”. Se pensa mos no e i ó io nacional, podemos
cons a a , a di e en es escalas, que em aumen ado a assime ia en e e i ó ios e
os g upos sociais que os ap op iam. O exemplo da dico omia u bano- u al pe mi e
pe cebe que nos e i ó ios u ais de baixa densidade, os luga es mais emo os,
o despo oamen o, o en elhecimen o, a pe da de equipamen os, são a o es
de e minan es que azem baixa a exposição de pessoas e bens, não obs an e, azem
aumen a a ulne abilidade dos que icam (Cunha, 2013).
O e i ó io é uma cons ução, não é algo p ede inido ou es á el. A ideia de e i ó io
ai-se cons uindo pelo conjun o de lei u as, ep esen ações, discu sos e deba es
colec i amen e p oduzidos em o no daquilo que se ( e)conhece como qualque
coisa de comum e que con e e sen ido à ealidade (Domingues & T a assos, 2015).
É, ambém, o espaço ap op iado po uma de e minada elação social que o p oduz e
o man êm a pa i de uma o ma de pode , e pelo ac o de possui limi es e on ei as,
ona-se num espaço de con li ualidades (Ma ques, 2010). Há uma mul iplicidade
de e i ó ios, na medida em que as elações sociais p oduzem, de modo con ínuo,
no os espaços e no os e i ó ios de con o nos con adi ó ios, in e dependen es e
con li uosos.
Que se cons uam e i ó ios de esis ência pa a ence a c ise.
Re e ências
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