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Crise e território

Teles, Virgínia

Abstract

[Excerto] Entender a crise na sua relação com o território convoca-nos à compreensão das múltiplas relações que se podem estabelecer entre estes dois conceitos. Não obstante, falar de crise é por si só abrir um leque de possibilidades às suas múltiplas conexões. Usa-se e abusa-se da utilização do termo crise, nem sempre em contextos e significados coincidentes, o que dificulta a sua definição. A crise de valores, a crise económica, a crise da democracia, a crise energética, a crise climática e, atualmente, a crise pandémica assumem-se, entre outras, como partes compósitas do mosaico deste conceito. Contudo, é consensual que a crise é uma disrupção com a situação anterior, um bloqueio ou obstáculo, que se materializa numa nova realidade. As ameaças económicas, as tecnologias da informação, os conflitos bélicos e os desastres naturais são exemplos disso.

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C ise e e i ó io Vi gínia Teles P o esso a Auxilia do Depa amen o de Geog a ia (Ins i u o de Ciências Sociais da Uni e sidade do Minho). ORCID: 0000-0002-3088-4930 82 Sim, oi essa A p imei a misé ia, a dese ção Dos deuses. A segunda, a sua mo e, Já na mo e de Pã anunciada Pelo lamen o dos bosques, o clamo Lu uoso das ilhas do Egeu. Esse g i o o escu ou o ou o F ied ich, Dionysos de seu nome, o eu opeu, O anunciado , o que caminha Sob e águas es agnadas e pa ece, Ao a unda -se, desenha no lodo Um mapa pa a o qual não há lei u a. (Co eia, 2012, p. 24) En ende a c ise na sua elação com o e i ó io con oca-nos à comp eensão das múl iplas elações que se podem es abelece en e es es dois concei os. Não obs an e, ala de c ise é po si só ab i um leque de possibilidades às suas múl iplas conexões. Usa-se e abusa-se da u ilização do e mo c ise, nem semp e em con ex os e signi icados coinciden es, o que di icul a a sua de inição. A c ise de alo es, a c ise económica, a c ise da democ acia, a c ise ene gé ica, a c ise climá ica e, a ualmen e, a c ise pandémica assumem-se, en e ou as, como pa es compósi as do mosaico des e concei o. Con udo, é consensual que a c ise é uma dis upção com a si uação an e io , um bloqueio ou obs áculo, que se ma e ializa numa no a ealidade. As ameaças económicas, as ecnologias da in o mação, os con li os bélicos e os desas es na u ais são exemplos disso. Os desas es ou as ca ás o es na u ais ep esen am uma e dadei a ameaça ao desen ol imen o dos países, pois ao a e a em o e i ó io e a p óp ia população e ão, a médio e a longo p azo, consequências sociais, económicas e mesmo polí icas, de in ensidade a iá el. Os go e nan es e ão limi ada a capacidade de ges ão dos ecu sos enquan o as populações e ão aumen ada a sua ulne abilidade, podendo ins ala -se no seu seio es ados de alguma insegu ança. É nes e sen i de insegu ança e medo que as ques ões da segu ança de em se con empladas, mesmo que seja no seu sen ido mais clássico: o de ameaça ao Es ado. A segu ança dos países oi, a é aos anos 70, en endida exclusi amen e em e mos de ameaças mili a es, oda ia é-nos ago a ácil pe cebe que a segu ança de um de e minado e i ó io pode se comp ome ida po ameaças de ou a o dem: a) a globalização, com as suas in e dependências económicas; b) as dispa idades egionais, com os mo imen os mig a ó ios que o igina a ní el mundial; c) a desin eg ação de de e minados egimes polí icos e a mul iplicidade de Es ados, com delimi ação ainda ince a no sis ema polí ico in e nacional; d) a p opagação de doenças como o VIH/SIDA, Ébola (EVD), Dengue, COVID-19 (SARS-Co -2); e) o ganismos gene icamen e modi icados; ) des uição da camada de ozono; g) des lo es ação; h) desapa ecimen o de espécies animais e ege ais a as, são algumas delas. 83Sociedade e c ise(s) A ince eza e a insegu ança são ge adas po no os iscos, o que jus i ica que as sociedades a uais, di as pós-mode nas, se p eocupem, cada ez mais, com os iscos na u ais, os iscos ecnológicos, os iscos biológicos e os iscos económicos e sociais. A con empo aneidade ca ac e iza-se po um pe íodo de mudanças, ince ezas, ansição his ó ica a que Boa en u a Sousa San os (2008) chama de des egulação, de c ise. É a pensa nos concei os de isco e c ise que eco do os ensinamen os de Fe nando Rebelo (1999) sob e a “ eo ia do isco” (Faugè es, 1990), o ganizada em o no da sequência de ês concei os isco – pe igo – c ise. Pa a o au o exis e uma con inuidade empo al en e eles, o p imei o co esponde à p obabilidade de oco ência de um p ocesso pe igoso, o segundo ma ca, a a és de di e en es sinais, a iminência da mani es ação do isco e, o e cei o, o da mani es ação e e i a do isco a a és de um aciden e, de um desas e ou de uma ca ás o e. Quando a c ise se mani es a podemos dize que o isco se ma e ializou, passou do domínio do p o á el pa a o domínio do eal, momen o em que é necessá io desencadea os p ocessos de ges ão da eme gência, aciona os meios de soco o e nos casos mais g a es, po que mais in ensos ou de maio ab angência espacial, c ia as condições de ecupe ação económica e social. O es udo do isco analisa a p obabilidade de oco ência de um p ocesso pe igoso (pe igosidade ou haza d) num de e minado empo (p obabilidade) e num de e minado espaço (susce ibilidade) e as consequências p e isí eis sob e a sociedade, o ambien e e o e i ó io ( ulne abilidade) exp essa na exposição da população, no alo dos bens po encialmen e a e ados ou o g au de pe da dos elemen os expos os mas, ambém, no modo como a sociedade eage e ecupe a de uma si uação de c ise, ou seja, qual o g au de esiliência e capacidade de adap ação que ap esen a. In e essa aqui da des aque à ulne abilidade, impo a mo-nos, como diz José Gomes Cano ilho (2008), com os “con o nos sociais do isco, onde se incluem as pegadas dos dinossau os humanos, umas ezes assen es em éguas e esquad os dos mode nos plani icado es das ‘mediapolis’, ou as ezes inc us ados em i ências ágicas de pob eza”. Sem a in es igação da dimensão social do isco pouco mais conseguimos que uma “semân ica de isco”. É essencial conhece a ulne abilidade dos indi íduos, das comunidades e dos e i ó ios e, sob e udo, pe cebe o modo como as ca ac e ís icas económicas, sociais e cul u ais ajudam a en en a , esis i e ecupe a de uma c ise. Embo a se saiba que o ca á e comple amen e e e si o é pouco equen e no domínio dos iscos, quan o mais apidamen e se possam es abelece as condições iniciais, menos ulne á el é uma sociedade. E, sem dú ida, que a capacidade das sociedades em escapa , em esis i , ou em epa a os e ei os dos enómenos na u ais, passa pela ação dinâmica e a i a do o denamen o do e i ó io, do planeamen o e da ges ão da c ise. Exis em, na opinião de J. Fe ão (2015), “ao mesmo empo, egiões, g upos sociais e indi íduos que es ão desigualmen e expos os e e elam di e en es sensibilidades aos impac os de uma c ise, ou seja, o seu g au de ulne abilidade, e ambém a 84 sua capacidade de adap ação, são desiguais, o nando ainda mais complexa a comp eensão dos seus impac os”. Se pensa mos no e i ó io nacional, podemos cons a a , a di e en es escalas, que em aumen ado a assime ia en e e i ó ios e os g upos sociais que os ap op iam. O exemplo da dico omia u bano- u al pe mi e pe cebe que nos e i ó ios u ais de baixa densidade, os luga es mais emo os, o despo oamen o, o en elhecimen o, a pe da de equipamen os, são a o es de e minan es que azem baixa a exposição de pessoas e bens, não obs an e, azem aumen a a ulne abilidade dos que icam (Cunha, 2013). O e i ó io é uma cons ução, não é algo p ede inido ou es á el. A ideia de e i ó io ai-se cons uindo pelo conjun o de lei u as, ep esen ações, discu sos e deba es colec i amen e p oduzidos em o no daquilo que se ( e)conhece como qualque coisa de comum e que con e e sen ido à ealidade (Domingues & T a assos, 2015). É, ambém, o espaço ap op iado po uma de e minada elação social que o p oduz e o man êm a pa i de uma o ma de pode , e pelo ac o de possui limi es e on ei as, ona-se num espaço de con li ualidades (Ma ques, 2010). Há uma mul iplicidade de e i ó ios, na medida em que as elações sociais p oduzem, de modo con ínuo, no os espaços e no os e i ó ios de con o nos con adi ó ios, in e dependen es e con li uosos. Que se cons uam e i ó ios de esis ência pa a ence a c ise. Re e ências Cano ilho, J. G. (2008) . P e ácio: A p ocu a da segu ança pe dida. Re is a do Cen o de Es udos de Di ei o do O denamen o, do U banismo e do Ambien e. 22, 5. Co eia, H. (2012). A e cei a misé ia. Lisboa: Relógio D’Água. Cunha, L. (2013). Vulne abilidade: a ace menos isí el do es udo dos iscos na u ais. In L. Lou enço & M. Ma eus (Eds.), Riscos na u ais, an ópicos e mis os. Homenagem ao P o esso Fe nando Rebelo (pp. 153-165). Coimb a: Uni e sidade de Coimb a. h ps://doi.o g/10.13140/RG.2.1.4735.8802 Domingues, A. & T a asso, N. (Eds.) (2015). Te i ó io: Casa comum. Mo ologias e dinâmicas do e i ó io. Po o: Ci co de Ideias/FAUP. Faugè es, L. (1990). Les isques na u elles. Bulle in de l’Associa ion Géog aphie F ançaise, 89-98. 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