Nº 57 | VERANO 2022
ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733
h p://dx.doi.o g/10.12795/Ambi os.2022.i57.12
Os co pos da gue a: o og a ia e memó ia de
ex-comba en es mu ilados na Gue a Colonial1
The wa bodies: pho og aphy and memo y o ex-comba an s mu ila ed in he
Colonial Wa
Denise Guima ães-Guedes
Uni e sidade Es adual Paulis a - UNESP | A . Eng. Luiz Edmundo C. Coube 14-01, Bau u, SP, B asil
h p://o cid.o g/0000-0003-3040-6741 · guima ã[email protected]
Jo ge Ped o Sousa
Uni e sidade Fe nando Pessoa | P aça de 9 de Ab il 349, Po o, Po ugal
ICNOVA Ins i u o de Comunicação da NOVA | Campus de Campolide da Uni e sidade NOVA de Lisboa, Po ugal
h p://o cid.o g/0000-0003-0814-6779 · jpsousa@u p.edu.p
Fechas: Recepción: 24/02/2022 · Acep ación: 21/05/2022 · Publicación: 15/07/2022
Resumen
O ema dos ex-comba en es da Gue a Colonial ol a à pau a a a és do p oje o Despojos de Gue a, do o ojo nalis a
po uguês Leonel de Cas o. O p oje o az ao empo p esen e as cica izes dos ex-comba en es, bem como
suas his ó ias de ida, a a és de e a os a uais e memó ias indi iduais. As o og a ias, ealizadas com écnicas
analógica e de colódio úmido, ap esen am os ex-comba en es e as ma cas dos e imen os que in e ompe am suas
idas na ju en ude. Es e a igo p e ende, assim, e le i sob e a cons i uição das memó ias da mu ilação de gue a
po meio da o og a ia documen al e como essas memó ias dialogam com o empo p esen e. Baseia-se numa
análise quali a i a do discu so o odocumen al e das conside ações do idealizado do p oje o, Leonel de Cas o,
colhidas em uma en e is a, à luz de um e e encial eó ico cons uído a pa i dos con ibu os de Son ag, Cos a,
Baeza, Ba hes e Kossoy, que discu em os usos da o og a ia documen al, e de Biondi, sob e a ep esen ação da
do e do so imen o no o ojo nalismo. A pesquisa p opõe duas ca ego ias de análise das imagens o og á icas
de Despojos de Gue a, em que as na u ezas ma e ial e empo al se complemen am. Conclui-se que a o og a ia
documen al pe mi e que memó ias de a os an igos pe maneçam a uais a a és de sua ma e ialização em imagens
e, além disso, as escolhas dos elemen os cons i u i os da imagem o og á ica pelo o óg a o são undamen ais pa a
que de e minada mensagem seja ansmi ida. A análise das imagens, po an o, de e conside a as elações en e
ais elemen os.
Pala as-cha e: o ojo nalismo, o og a ia documen al, Gue a Colonial, Leonel de Cas o, Despojos de Gue a.
Abs ac
Ve e ans o he Po uguese Colonial Wa a e back on he media agenda h ough he p ojec “Despojos de Gue a”
1. Pesquisa inanciada pela Coo denação de Ape eiçoamen o de Pessoal de Ní el Supe io CAPES, e . p oc. 88881.623498/2021-
01. Es a in es igação é pa e da ese de dou o amen o de Denise Guima ães-Guedes e ealizada na e apa “sanduíche”, desen-
ol ida jun o à Uni e sidade Fe nando Pessoa, Po ugal, sob coo denação do p o esso Jo ge Ped o Sousa.
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OS CORPOS DA GUERRA: FOTOGRAFIA E MEMÓRIA DE EX-COMBATENTES MUTILADOS NA GUERRA COLONIAL
Denise Guima ães-Guedes & Jo ge Ped o Sousa
(Spoils o Wa ), by Po uguese pho ojou nalis Leonel de Cas o. The p ojec b ings o he p esen ime he sca s o
he e e ans, as well as hei li e s o ies, h ough cu en po ai s and indi idual memo ies. The pho og aphs, Using
a collodion p ocess, analogic, pho og aphs p esen e e ans and he ma ks o he wounds ha in e up ed hei
li es in hei you h. Thus, his s udy in ends o e lec on he cons i u ion o memo ies o wa mu ila ion h ough
documen a y pho og aphy and how hese memo ies dialogue wi h p esen ime. I is based on a quali a i e analysis
o he pho odocumen a y discou se and o he discou se o he c ea o o he p ojec , Leonel de Cas o, collec ed
in an in e iew, in he ligh o a heo e ical e e en ial buil om he con ibu ions o Son ag, Cos a, Baeza, Ba hes
and Kossoy, who discuss he uses o documen a y pho og aphy, and o Biondi, abou he ep esen a ion o pain and
su e ing in pho ojou nalism. The esea ch p oposes wo ca ego ies o analysis o he pho og aphic images o Despojos
de Gue a, in which ma e ial and empo al na u es complemen each o he . Conclusions poin ou he ideas ha
documen a y pho og aphy allows memo ies o old ac s o emain p esen h ough hei ma e ializa ion in images and,
u he mo e, ha pho og aphe ’s choices o he cons i u i e elemen s o he pho og aphic image a e undamen al o
a ce ain message o be ansmi ed. The analysis o he images, he e o e, mus conside he ela ions be ween such
elemen s.
Keywo ds: pho ojou nalism, documen a y pho og aphy, Colonial Wa , Leonel de Cas o, Despojos de Gue a.
1. In odução
A ideia des e a igo su giu da lei u a de o og a ias de Leonel de Cas o2, in eg an es de epo agem
publicada na e is a po uguesa JN His ó ia, pe encen e ao Jo nal de No ícias3, “Vidas moldadas
a e o e ogo”. O o óg a o po uguês egis ou, com a écnica do colódio úmido, um g upo de
soldados sob e i en es que o am e idos g a emen e du an e a Gue a Colonial, oco ida en e os
anos de 1961 e 1974, pa a o p oje o “Despojos de Gue a”, de sua au o ia. As o og a ias de Cas o
eme em a ou as imagens, publicadas em 1924, no li o “K ieg dem K iege!” (Gue a con a gue a!),
o ganizado pelo paci is a alemão E ns F ied ich. O li o possui 180 o og a ias, sendo que 24 delas
são de os os de soldados mu ilados sob e i en es da P imei a Gue a Mundial.
As duas publicações ap esen am imagens da gue a pouco usuais. O mais equen e é encon a mos
imagens dos campos de ba alha, cená ios de des uição, co pos anônimos e sem ida, além das ações
de con li o. Ao ap esen a sob e i en es e, acima de udo, soldados, as imagens e elam a gue a
sob um ou o iés, ou seja, daqueles que são, pela na u eza de sua a uação, p o agonis as, po ém,
ambém í imas. A a és da o og a ia, esses homens que coloca am suas idas a se iço da pá ia
ganham os os, iden idade, e expõem suas mais p o undas e dolo osas cica izes de gue a.
P e ende-se aqui disco e sob e o abalho “Despojos de Gue a”, publicado quase uma cen ena
de anos depois de “K ieg dem K iege!”, e que chama ao p esen e as do es e mu ilações do passado.
A o og a ia documen al, nesse aspec o, é essencial pa a que se açam conhece ou as ealidades e
pa a que a memó ia isual dos a os pe maneça i a.
O e e encial eó ico az e lexões dos au o es Susan Son ag, Joan Cos a, Bo is Kossoy, Roland
2. Leonel de Cas o é jo nalis a g aduado pela Escola Supe io de Jo nalismo e a ualmen e desen ol e pesquisa de
dou o amen o em Jo nalismo e In o mação, na Uni e sidade do Minho. É o ojo nalis a no Jo nal de No ícias desde 1996.
3. JN – His ó ia, n.º 35, dezemb o de 2021.
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Ba hes e Pepe Baeza, den e ou os, além de pesquisa da au o a Angie Biondi (2016), que ques iona
de que manei a o o ojo nalismo o na isí el o so imen o humano. A au o a p opõe algumas
ca ego ias de análise que inspi am a me odologia ado ada nes e a igo pa a análise das o og a ias
de Cas o, de manei a que, pa a analisa as imagens de “Despojos de Gue a”, são p opos as camadas
que ansi am en e elemen os obje i os e subje i os, le ando em con a as elações en e esses
elemen os. Além disso, ap esen a as e lexões do o ojo nalis a e idealizado do p oje o “Despojos de
Gue a”, colhidas em en e is a.
Po im, es e a igo con ida o lei o a uma e lexão sob e como a abo dagem do ema na o og a ia
documen al o na p esen es os enômenos do con inuum espaço- empo al (Cos a, 1994) e ins au a
memó ias du adou as de e en os his ó icos.
2. Memó ias (in) isí eis
Desde sua in enção, a o og a ia con ibui pa a cons ui a memó ia da humanidade e de udo o que
a en ol e. Tal como sus en a Reye o (2007), a imagem o og á ica pe mi e incula o passado ao
p esen e, p oduz memó ia, p óp ia ou cole i a, sendo nes e enquad amen o que aqui se conside a o
papel da o og a ia na cons ução da memó ia. A memó ia implica, como diz Jelin (2002), o que se
eco da e o que se esquece, na a i as e pe sonagens, a os, silêncios, ges os, sabe es, emoções, azios
e a u as. Po asladação ao uni e so o og á ico, o passado, seja da p óp ia o og a ia, seja das
pe sonagens, espaços ou ações ep esen adas no espaço o og á ico, eme ge da imagem o og á ica
no p esen e do a o do olha , o momen o em que a o og a ia é obse ada e in e p e ada, o momen o
em que ge a signi icado, den o de um con ex o cul u al especí ico e das i ências que o obse ado
expe imen ou.
A mensagem o og á ica, es u u ada in encionalmen e po um o óg a o, como acon ece no caso da
ob a o og á ica aqui es udada, p opõe signi icados sob e o passado, sob e pe sonagens cuja si uação
p esen e esul a do seu passado, po meio de ecu sos linguís icos especí icos que, em g ande medida,
êm uma lei u a cul u al, como sejam: a pose dos sujei os o og a ados; a p esença de obje os como o
es uá io (ou a sua ausência); o embelezamen o da imagem, po meio da iluminação ou ou os ecu sos
exp essi os; a adição de ca ga es é ica po meio da composição; a sin axe p oduzida pela associação
de imagens; e a uncagem (Ba hes, 1984a, 1984b). A imagem o og á ica exis e, po an o, como
um ex o isual susce í el de se analisado e in e p e ado, desde a sua p óp ia g amá ica, sim, mas
ambém à luz de um en o no cul u al, con o me Ba hes (1984a, 1984b) de endeu e ou os au o es
e o ça am (Dubois, 1994). Nesse sen ido, a imagem o og á ica p oduzida in encionalmen e, ainda
que ep esen e uma singula idade, um co e a i icial no con ínuo do espaço- empo, pe mi e ao
obse ado le o ien adamen e os agmen os do passado que são expos os ao seu olha , p oduzindo
memó ia jus amen e como es ígio do passado que e oca, como imp essão de uma coisa que deixou
a sua ma ca na o og a ia, como he ança do passado (F eedbe g, 1992; Edwa ds, 1999; Candau, 2000;
Kossoy, 2012).
Ainda que o ex o, po mais elabo ado e de alhis a que seja, en e econs i ui imagens e a os, a
o og a ia, como e lexo conc e o do mundo (F eund, 1983, p.96), en ega de alhes isuais e, mui as
ezes, com uma agudeza con umaz. Em 1924, um li o publicado pelo paci is a E ns F ied ich
ap esen a a ao público o og a ias da P imei a Gue a Mundial, a maio ia e i ada de a qui os
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mili a es e médicos da Alemanha, mui as delas censu adas. Den e as 180 o og a ias dos ho o es,
como a de as ação de cidades, soldados mo os e eículos des oçados, há uma seleção de 24 imagens
com os os de soldados sob e i en es. Son ag (2003) a i ma que, de odo o li o, são essas as páginas
mais “insupo á eis” e complemen a com a obse ação, na ase seguin e: “de pa i o co ação”.
Na época, após denúncias ao go e no, li os o am e i ados das li a ias em algumas cidades e o
o ganizado , p ocessado. O li o, ainda assim, oi eedi ado dez ezes e aduzido pa a ou os idiomas.
Quase um século depois, o o ojo nalis a Leonel de Cas o p oduziu uma sensí el sé ie de o og a ias
de soldados que sob e i e am à Gue a Colonial, oco ida en e os anos 1961 e 1974, du an e o egime
salaza is a. Os sob e i en es, e idos g a emen e du an e a gue a, mos am à câme a as cica izes
e sequelas pe manen es, que impac am di e amen e em sua qualidade de ida a é os dias de hoje.
As dezesse e o og a ias que compõem a epo agem publicada na e is a JN His ó ia azem pa e de
uma sé ie de e a os, p oje o em andamen o que le a o nome de “Despojos de Gue a”, abalho já
p emiado na ca ego ia Re a os, do P émio Pic u es o he Yea In e na ional, em 2021.
Sepa adas po dezenas de anos, as o og a ias o ganizadas po E ns F ied ich e as p oduzidas
po Leonel de Cas o possuem cong uências que as unem em um espaço comum, de homens que
es i e am em uma mesma posição de lu a pelo seu país. Nas p imei as, as o og a ias êm um cunho
quase cien í ico, de egis o das iolen as mu ilações nos os os dos soldados. Nas o og a ias de
Cas o, en e an o, a écnica e o igo na composição azem com que o ema denso seja comp eendido
em ou as es e as além da documen al. Em ambos, a pe manência de um es ado de con inuidade com
o qual odos de emos lida como espec ado es.
As imagens de “Despojos de Gue a” ap esen am mais um lado desumano da gue a: aquele que
sob e i e no co po dos ex-comba en es po décadas e não pode se econs uído. Ao mesmo empo,
as o og a ias e elam udo o que há de mais humano em cada um dos e a ados, a pa i das
cica izes que e idenciam o so imen o expe ienciado e a dignidade com que se mos am à câme a.
2.1. Leonel de Cas o e a his ó ia de “Despojos de Gue a”
O o ojo nalis a po uguês Leonel de Cas o con a his ó ias a a és das imagens. Bas a um olha
sob e seu abalho o og á ico, expos o em sua homepage na in e ne , pa a no a que suas o og a ias
azem pa e de algo ainda maio que uma boa epo agem o og á ica. Cas o cap u a, com maes ia,
algo que pala as não pode iam exp essa , mesmo em sua melho gênese. E ainda assim, as pala as
azem pa e de sua o og a ia, não como legenda, mas o complemen o de que necessi a na a e de
con a as his ó ias.
Em “Despojos de Gue a”, Cas o mos a que há mui as manei as de e . O p oje o, ainda em
andamen o, oi iniciado em agos o de 2020, du an e a pandemia. O desejo de o og a a os
ex-comba en es da Gue a Colonial, no en an o, exis e há mais empo. Segundo o o óg a o
(comunicação pessoal, Fe e ei o 1, 2022), ela os e his ó ias sob e a Gue a Colonial pelos jo nalis as
são a os. Enquan o que ou os países exibiam gue a, no adamen e a do Vie nã, em o og a ias
publicadas em e is as e jo nais, Po ugal, na ocasião, escondia o lado mais c uel da gue a. Isso
po que, du an e a di adu a, não e am pe mi idos jo nalis as nos con li os e as poucas o og a ias
exis en es são imagens p o ocola es, a exibi soldados em seus uni o mes, a mas e em momen os de
laze . Os ex-comba en es, sob e i en es e idos e mu ilados, e am escondidos pa a que não ossem
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um deses ímulo a ou os jo ens con ocados pa a a gue a4. Essa comunidade de ex-soldados é hoje
ep esen ada pela Associação dos De icien es das Fo ças A madas (AFDA).
A condição dos ex-comba en es le ou o o ojo nalis a a e le i sob e a impo ância de documen a
a his ó ia desses que i e am as idas in e ompidas aos 20 e poucos anos du an e a gue a. São
homens, en e 70 e 90 anos, que, a pa i dos e imen os, i e am que ein en a seu modo de ida.
Pa a o og a á-los, Cas o desca ou o mé odo mais a ual de cap u a o og á ica, a o og a ia
ele ônica (digi al), pois não o ag ada a a ideia de qualque esul ado que implicasse em uma o ma
de olha oyeu , explica. Mas al a a, de aco do com o o óg a o, encon a uma écnica que osse
adequada à abo dagem desejada e que unisse a o og a ia documen al ao senso de dignidade que o
o ojo nalis a que ia imp imi nas imagens. Além disso, a écnica e ia que se compa í el com as
ou as e apas do p oje o, que en ol e ambém o og a ia analógica em o ma o 9 x 125.
A escolha do colódio úmido deu-se como uma al e na i a ao imedia ismo da o og a ia digi al. O
colódio é, po sua na u eza, uma écnica len a, que eque p epa o de químicas, sensibilização do
supo e o og á ico, empo de exposição mais longo e e elação manual6. O esul ado o e ecido
pelo colódio oi ambém de e minan e pa a a escolha do o ojo nalis a. As ma cas deco en es
da manipulação das chapas de alumínio (supo e u ilizado) e da e elação ge am impe eições
es a egicamen e u ilizadas como linguagem, que, segundo Cas o, con ex ualizam o ema da gue a
e azem a ideia dos “es ilhaços” às composições. A écnica ma ca ambém a in e upção nas idas
dos ex-comba en es, mas ap esen a-os nos dias a uais.
3. A o og a ia documen al
O o ojo nalismo em o impo an e papel de documen a e mos a a ealidade em suas múl iplas
aces; sua p incipal ca ac e ís ica é o comp omisso com a e dade. O esul ado imagé ico, po ém,
se á semp e u o das in e ações en e o óg a o, obje o e meio écnico, como a i ma Cos a (1994).
O o óg a o pode, a pa i de suas escolhas, molda a manei a como a mensagem o og á ica se á
ansmi ida, desde a concepção a é a execução.
Na o og a ia documen al, e en e do o ojo nalismo, os emas podem se explo ados com maio
libe dade, an o em elação à exp essi idade do au o , quan o no que diz espei o aos p azos, o que
pe mi e o ap o undamen o em emas não ac uais. Os canais de di usão da o og a ia documen al
não es ão es i os às emp esas jo nalís icas, possibili ando sua di ulgação ambém em li os e
4. A gue a colonial deixou ce ca de 10 mil mili a es mo os nas ês en es de ba alha na Á ica (Angola, Moçambique e
Guiné-Bissau), 30 mil e idos g a es e mais de 120 mil pós- aumá icos (Ca los, 2019, 2021).
5. O p oje o p e ê ou as e apas, algumas delas já em execução, como a isi a de Leonel de Cas o aos locais em que os soldados
o am e idos e o le an amen o de in o mações ( o og a ias, epo agens) sob e a ida das í imas an es dos aciden es. Há ainda
as o og a ias analógicas, ealizadas em médio o ma o, de ex-comba en es ambém da Gue a Colonial, mas que lu a am na
gue ilha, em mo imen os independen is as, que ambém so e am aciden es e se o na am de icien es. Pa e dessas o og a-
ias oi publicada na Re is a Magazine, in eg an e do Jo nal de No ícias, em agos o de 2021, núme o 1524.
6. Leonel Cas o u ilizou empos de exposição de 8 segundos, em média, algo que só oi possí el de ido à iluminação de 8000
Wa s de po ência (a sensibilidade à luz é de ce ca de 0,75 ISO). Todo o p ocesso o og á ico le a em o no de 10 minu os pa a a
ealização de uma o og a ia. O equipamen o u ilizado - câme a e obje i a - é o iginal e oi adqui ido nas cidades de Ams e dã e
Alemanha.
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exposições (Baeza, 2001). Es as ca ac e ís icas, aliadas à consciência do o óg a o ace ca da ealidade
que o ce ca e o desejo de mos á-la azem da o og a ia documen al um eículo impo an e pa a que
a os ele an es, a uais ou não, possam se explo ados em p o undidade.
Sojo (1998) des aca que a o og a ia documen al pode compo um ensaio o og á ico com di e sas
o og a ias, em que a ideia p incipal es á p esen e em odo o abalho, mas não impede a iações
em o no do concei o o iginal. Nesse sen ido, a es u u ação do abalho é undamen al pa a que se
man enha a coe ência isual do p oje o.
No p ocesso de cons ução das imagens, o o óg a o es abelece c i é ios que não modi icam o
s a us documen al, no en an o, ac escen am camadas subje i as de in e p e ação na imagem. A
ob a o og á ica esul a á da pe sonalidade e da in encionalidade comunica i a e exp essi a do
o óg a o, a pa i de suas escolhas que, po sua ez, são baseadas em sua posição é ica, manei a
de concebe , ep esen a e e o mundo e suas capacidades exp essi as (Cos a, 1994). Cos a
(1994) des aca ainda que a o og a ia jo nalís ica p opo ciona maio quan idade de in o mação
po segundo, quando compa ada à desc ição o al ou esc i a de um mesmo acon ecimen o, além
de o e ece ao obse ado uma in inidade de explo ações di e sas, esul ado do g ande núme o de
elações in a icônicas.
4. Co pus de gue a - da na u eza ma e ial à análise subje i a
Há di e sas eo ias sob e a in e p e ação e análise de imagens, mas o que es e a igo p e ende é
ins iga a e lexão sob e a análise no campo da subje i idade, is o que a imagem o og á ica não
é a ealidade, mesmo que a p imei a segu amen e não exis i ia sem a segunda. Logo, a imagem é
uma ep esen ação e, po an o, a obje i idade é ambém ilusó ia (Cos a, 1994, p. 127). Além disso,
o gêne o documen al ap esen a linguagem, es ilo au o al e subje i idade p óp ios, como a i ma
Baeza (2001), de manei a que es abelece eg as de es ilo e códigos es i os é um isco de limi ação
da mensagem. Ademais, em análise de uma sé ie de imagens, como é o caso, mais que aplica
ó mulas de análise p é-concebidas, de e-se conside a as in enções comunica i as, ca ac e ís icas
es ilís icas, e e ências ou uso de ecu sos e ó icos, inalidades de uso e a análise do con ex o no qual
as imagens es ão inse idas. Baeza (2001, p. 171) a i ma ainda que a lei u a de uma imagem en ol e
odas as dimensões da in eligência humana, “e nela há que inclui , ademais, a sabedo ia emocional
pa a con e e a dialé ica em endimen o i al, em sín ese holís ica, globalizado a, da comp eensão
da imagem como emancipação da expe iência e do p óp io sen ido do mundo”.
Po sua na u eza, a o og a ia ans o ma a dimensão empo al em dimensão espacial, ao sepa a
um conjun o de in o mações do luxo dos acon ecimen os e ixá-lo em um supo e de ini i o (Cos a,
1994). A o og a ia, a i ma Cos a (1994, p. 127), “ ol a a aze p esen es coisas ausen es, que es ão ou
es a am nou o luga e nou o empo”. Nesse sen ido, as o og a ias de Despojos de Gue a azem
ao momen o a ual as do es i idas na Gue a Colonial po meio do “bloqueio da sequencialidade e
con inuidade do eal” (Cos a, 1994, p. 127) no egis o de um agmen o da ealidade que condensa em
si oda uma his ó ia. Nunca sabe emos o que aqueles co pos o og a ados expe iencia am e, embo a
as memó ias das mu ilações pe maneçam a i as nesses co pos, é a o og a ia que az o passado à
dimensão do empo p esen e. Po meio da o og a ia, as memó ias pe manecem i as.
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OS CORPOS DA GUERRA: FOTOGRAFIA E MEMÓRIA DE EX-COMBATENTES MUTILADOS NA GUERRA COLONIAL
Denise Guima ães-Guedes & Jo ge Ped o Sousa
Em pesquisa sob e a ep esen ação do so imen o no o ojo nalismo, Angie Biondi (2016) iden i icou
ês igu ações emá icas pa a o co po so edo na imagem o ojo nalís ica: o co po supliciado,
o co po assujei ado e o co po aba ido. As igu ações a endem, po sua ez, às ca ego ias ome,
ca ás o e, doença, iolência e aciden e, que se em de base pa a a análise de o og a ias jo nalís icas
selecionadas em sua ese. As ca ego ias p opos as po Biondi, embo a não sejam adequadas pa a o
es udo p opos o nes e abalho, inspi am a elabo ação da me odologia aqui desen ol ida.
O modelo ap esen ado pela au o a suge e a a i idade e lexi a a im de desa icula o p essupos o
da obje i idade con encional. Po es e mo i o, oi escolhido po adequa -se aos p opósi os des e
abalho, que enciona elabo a camadas de análise pa a que as imagens ap esen adas nes e a igo
sejam comp eendidas em sua subje i idade.
De aco do com Kossoy (2012) a o og a ia é “obje o-imagem”. Nesse sen ido, podemos apon a que
a o og a ia exibe um co po ma e ial, em que se podem “de ec a ca ac e ís icas écnicas ípicas
da época em que oi p oduzido” (Kossoy, 2012, p. 42). Nes e co po ma e ial, es ão p esen es os
elemen os cons i u i os da imagem.
An es mesmo de econs i ui os elemen os na a i os de suas no ícias, an es da o dem do
egis o his ó ico do seu e en o ou de uma ecupe ação biog á ica dos pe sonagens, o que
a o og a ia o e ece é uma composição ma e ial que con igu a um co po a a és de uma
ma é ia exp essi a que en ol e, em conjun o, uma plás ica isual; co es, enquad amen os,
iluminação, g anulação, planos, en im, que se ap esen am e se colocam pe an e o espec ado
lhe con ocando ce a o dem de a e os. (Biondi, 2016, p. 65)
Assim, a in e p e ação da imagem o og á ica, inicialmen e es u u ada pelo o óg a o, p opõe os
signi icados pa a compo a mensagem o og á ica po meio do uso de ecu sos isuais, elabo ados
nos di e en es ní eis de p odução da o og a ia. A o og a ia, a i ma Ba hes (1984b) é cons i uída
po uma mensagem deno ada, um análogo mecânico do eal, e uma mensagem cono ada, que ope a
ao ní el da ecepção, na manei a como a mensagem é lida e eque um exe cício de deci amen o a
pa i de códigos cul u ais. Nesse sen ido, aspec os como pose dos sujei os o og a ados, p esença
de obje os, uncagem, embelezamen o a a és do uso de ecu sos écnicos, sin axe e ucagem são
apon ados pelo au o como p ocessos de codi icação, mui as ezes com es u u a deno ada-cono ada.
Cos a (1994), po sua ez, a i ma que a imagem o og á ica é compos a de elemen os que, se analisados
sepa adamen e, ap esen am um quad o es á ico, p óximo de um in en á io de si uação. As elações
en e esses elemen os, no en an o, p oduzem ações e eações uns sob e os ou os, o que o au o chama
de in e ações. Essas in e ações es ão p esen es em odas as imagens, mas agem de manei a di e en e
em cada uma delas. Assim, em cada imagem pode ha e o p edomínio de um dos elemen os.
No caso do o ojo nalismo, bem como na p á ica documen al que o o iginou, Biondi (2016) des aca
sua concepção na eia de elações en e o óg a o, o og a ado e espec ado , de manei a que é p eciso
conside a essa eia pa a e le i sob e as pe spec i as da mensagem o og á ica, além dos códigos
con encionais. Nas análises con encionais, possi elmen e as ca ego ias comuns ossem emp egadas
sa is a o iamen e. Po ém, a ên ase no gêne o jo nalís ico pode ia es ingi a análise a si uações
isoladas, como a i ma Biondi (2016):
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OS CORPOS DA GUERRA: FOTOGRAFIA E MEMÓRIA DE EX-COMBATENTES MUTILADOS NA GUERRA COLONIAL
Denise Guima ães-Guedes & Jo ge Ped o Sousa
O econhecimen o dos códigos que ma ca am con encionalidades no modo de e o og a ias
de imp ensa apenas como egis o de a os oco idos (...) não é su icien e po que não es á
isolado ou independen e da si uação conc e a que lhe ca ac e iza - a expe iência do e . (p. 10)
An es, po ém, da elação com o espec ado , Cos a (1994) essal a a elação en e o óg a o, obje o e
meio écnico, elemen os que, combinados, são essenciais como linguagem e pa a o esul ado inal
da imagem. Po conseguin e, buscamos conhece a eia dessas elações a pa i des a íade, bem
como po meio da expe iência isual dos co pos nas o og a ias de Despojos de Gue a. Ressal a-se,
no en an o, que a análise não desca a os elemen os que compõem a imagem, bem como a écnica
o og á ica, a im de in eg a pa e do aciocínio subje i o. Ou o pon o impo an e é que, no âmbi o
da subje i idade, ap esen amos algumas in e p e ações que não se ence am em si mesmas, de
manei a que o abalho i ma-se como uma das inúme as possibilidades de análise.
Nesse sen ido, pa a análise das o og a ias de Despojos de Gue a p opõe-se como me odologia duas
ca ego ias que conside am a pe cepção da in encionalidade do o óg a o, con ex o e ca ac e ís icas
es ilís icas, al como suge e Baeza (2001). Os aspec os isuais ma e ializados na imagem - sejam
eles deco en es da écnica o og á ica ou do con eúdo, ambos esul ado da in encionalidade do
o óg a o, - compõem a dimensão espacial, denominada nes e abalho como na u eza ma e ial/
diálogos com a ma e ialidade. A segunda ca ego ia a a do supo e ma e ial e suas ca ac e ís icas.
No caso, a análise abo da os aspec os ela i os à empo alidade (ine en e ao a o em si), p esenciado
pela câme a o og á ica, e à a empo alidade p esen e na imagem, além das associações en e as
ques ões empo ais e o supo e ma e ial. Es a ca ego ia é aqui nomeada como na u eza empo al/
diálogos com a memó ia.
4.1. Na u eza ma e ial/ diálogos com a ma e ialidade
A o og a ia é compos a po um co po ma e ial que ca ega consigo os elemen os isí eis deco en es
da écnica e os concei os in encionados pelo o óg a o, “coisi icados”, inco po ados nessa supe ície
palpá el. Fon cube a (2020, p. 45) lemb a que a na u eza ma e ial da o og a ia nos passa
despe cebida, como um id o anspa en e de uma janela que nos sepa a do mundo lá o a e só é
pe cebido quando se ompe. Assim oco e ambém com a o og a ia na a ualidade. A acuidade e o
ealismo se sob epõem à pe cepção de que a ecnologia nos sepa a da ealidade e, des a o ma, as
imagens hipe eais são a “ ealidade”. “A câme a az o espec ado pa a pe o, pa a demasiado pe o;
com o auxílio de uma len e de aumen o — pois nes e caso as len es são duas —, a “ni idez e í el”
das imagens o nece in o mação desnecessá ia e indecen e” (Son ag, 2003, p. 20).
Nesse sen ido, a escolha da écnica do colódio úmido a as a a “ni idez e í el” de que ala Son ag
(2003) e, consequen emen e, es abelece a dis ância que sepa a obje o e ealidade. A pa i das
e lexões de Fon cube a e Son ag, é possí el iden i ica na écnica do colódio úmido a up u a de que
ala Cas o, ao busca uma écnica menos oyeu .
Em uma écnica udimen a como a do colódio úmido, a ma e ialidade da o og a ia é e o çada
pelo não ealismo das imagens. A lemb ança de que en e sujei o e espec ado há um mecanismo
é e o çada con inuamen e pelas ca ac e ís icas da imagem em colódio: o p e o e b anco, meno
ni idez, algumas anhu as e ugas na supe ície ma e ial e ma cas nas la e ais das o os, deco en es
do p ocesso de e elação. Ao op a pela écnica, Cas o e ela a his ó ia dos ex-comba en es ao
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mesmo empo em que os p o ege da exposição demasiada. Como a i ma Simões (2021, p. 41), “com
a abo dagem p opos a, a exposição das mazelas es á despida da c ueza oyeu is a, e en ualmen e
iolen a e iolen ado a, que pode ia esul a do uso da o og a ia digi al”.
A escolha da écnica suge e ainda ou as in e p e ações a pa i das ca ac e ís icas isuais, como as
impe eições na ex u a e acabamen o das o og a ias (semp e lemb ando que quando compa adas às
écnicas a uais, ex emamen e p ecisas em ní eis de ni idez, con as e e acabamen o). Po analogia,
podemos p opo que há um diálogo en e a imagem das í imas, hoje com seus co pos sob e i en es e
mu ilados, e o colódio que, po sua na u eza, en ega imagens que hoje são conside adas impe ei as,
se compa adas às mais ecen es.
A o og a ia é ambém um documen o his ó ico. E, como documen o, em ca ac e ís icas ma e iais
a pa i de elemen os que o mam a imagem, como enquad amen o, iluminação, elemen os em
cena, g ão, con as e e ni idez, den e ou os. Cada um dos elemen os não se á aqui analisado
sepa adamen e, como já expos o, pa a não inco e no isco de se demasiado educionis a e,
além disso, como essal a Cas o (comunicação pessoal, Fe e ei o 1, 2022), “a écnica não é o
mais impo an e e sim a in e p e ação que azemos dela”. Nesse sen ido, iniciamos a análise de
algumas o og a ias selecionadas, odas publicadas na epo agem da e is a His ó ia, com base nas
ca ac e ís icas isuais das memó ias, ma e ializadas po Cas o.
Há di e sos aspec os que são compa ilhados na sé ie de o og a ias que compõem “Despojos de
Gue a”. Em odas, no a-se que o enquad amen o a ia de aco do com a pessoa o og a ada. A
ên ase es á nas sequelas causadas pelos e imen os já cica izados ex e namen e e, como eg a, é
possí el dep eende que a p eocupação do o óg a o oi que as cica izes es i essem odas den o do
enquad amen o. Assim, há o og a ias em que é p io izado o bus o, nos casos de memb os supe io es
bi-ampu ados ( igu a 1) e há imagens em que odo o co po es á no enquad amen o, nos casos de
ampu ações em memb os in e io es e pa aplegia ( igu a 2). P edomina, nos enquad amen os, o
g ande plano, ca ac e izado, segundo Sousa (2002), po se mais exp essi o e sele i o, além de não
ap esen a mui os elemen os dispe si os em cena.
O ângulo em que os ex-comba en es o am o og a ados é no mal - à al u a dos olhos-, com a iações
mínimas de angulação, o que e o ça a isão obje i a sob e a cena (Sousa, 2002). Além disso, a posição
da câme a coloca o espec ado e o og a ado à mesma al u a, sinaliza pa a a igualdade e con ida à
empa ia.
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Denise Guima ães-Guedes & Jo ge Ped o Sousa
Son ag, Susan (2003). Dian e da do dos ou os. Companhia das Le as.
Sousa, Jo ge Ped o (2002). Fo ojo nalismo: uma in odução à his ó ia, às écnicas e à linguagem da o og a ia na
imp ensa. Biblio eca Online de Ciências da Comunicação. h ps://bi .ly/3 HTouN
Semblanza de los au o es
Denise Guima ães-Guedes é dou o anda no P og ama de Pós G aduação em Comunicação na UNESP, com bolsa
CAPES de dou o ado sanduíche na cidade do Po o, na Uni e sidade Fe nando Pessoa, no pe íodo de se emb o/2020
a e e ei o/2021.
Jo ge Ped o Sousa ob e e seu dou o ado em Jo nalismo na Uni e sidade de San iago de Compos ela (Espanha,
1997), onde ambém ealizou sua pesquisa de pós-dou o ado (1999/2000). Ag egou-se na Uni e sidade de T ás-
os-Mon es e Al o Dou o (2008), em Jo nalismo, e a ualmen e é p o esso ca ed á ico de Jo nalismo e Ciências da
Comunicação na Uni e sidade Fe nando Pessoa (Po o, Po ugal) e in es igado in eg ado do ICNOVA – Ins i u o
de Comunicação da NOVA. In es iga, p incipalmen e, sob e análise his ó ica do discu so jo nalís ico e his ó ia
do jo nalismo. A sua ob a mais ecen e in i ula-se Po ugal: pequena his ó ia de um g ande jo nalismo I (Li os
ICNOVA, 2021).