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Estado, sociedade e meio ambiente no Brasil em 200 anos de Independência

Abstract

Este artigo intenta apresentar uma visão panorâmica da complexidade histórica das relações entre sociedade, estado e meio ambiente no Brasil. Argumenta que a genealogia dessas relações evidencia uma trajetória não linear, multifacetada e conflituosa. Há diversas tradições no palco dos confrontos políticos atuais: o Brasil se destaca por uma longa história de destruição, que remonta ao início da colonização do território, mas também por uma fértil tradição de pensamento conservacionista, significativas lutas socioambientais, e pelo pioneirismo nas pautas globais em prol do ambiente. Recuperar e valorizar a complexidade das relações entre sociedade e ambiente pode ser um ato decisivo na construção de caminhos futuros diversos para a questão socioambiental no Brasil, projetando e demonstrando a riqueza e o vigor de diferentes atores e práticas dissonantes.

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Estado, sociedade e meio ambiente no Brasil em 200 anos de Independência

Author: Horta Duarte, Regina
Year: 2022
DOI: 10.12795/araucaria.2022.i51.15
Source: https://idus.us.es/bitstreams/a41811b3-2f59-4595-af4c-4aa15eba32df/download
A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51.
Te ce cua imes e de 2022. Pp. 347-371. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.15
Es ado, sociedade e meio ambien e no B asil
em 200 anos de Independência1
S a e, Socie y and En i onmen in B azil in
200 Yea s o Independence
Regina Ho a Dua e2
Uni e sidade Fede al de Minas Ge ais (B asil)
ORCID: h ps://o cid.o g/0000-0003-0808-5435
Recibido: 30-04-2022
Acep ado: 26-05-2022
Resumo
Es e a igo in en a ap esen a uma isão pano âmica da complexidade his ó ica
das elações en e sociedade, es ado e meio ambien e no B asil. A gumen a que
a genealogia dessas elações e idencia uma aje ó ia não linea , mul i ace ada
e con li uosa. Há di e sas adições no palco dos con on os polí icos a uais: o
B asil se des aca po uma longa his ó ia de des uição, que emon a ao início da
1 A au o a ag adece ao CNPq (p ocesso 305599/2020-8) e à FAPEMIG (p ocesso CHE-
PPM-00401-17)
2 ([email p o ec ed]). Licenciada em His ó ia pela Uni e sidade Fede al de Minas
Ge ais (1985), mes e e dou o a em His ó ia pela Uni e sidade Es adual de Campinas (1988 e 1993,
espec i amen e). A uou como p o esso a i ula -li e da Uni e sidade Fede al de Minas Ge ais, e hoje
é p o esso a pe manen e do P og ama de Pós-G aduação em His ó ia na UFMG. Tem expe iência na
á ea de His ó ia, com ên ase em His ó ia do B asil República, his ó ia e na u eza, his ó ia da biologia
na P imei a República, his ó ia dos animais. In eg ou a di e o ia da Associação Nacional de His ó ia
(ges ão ago 2007-jul 2009, ANPUH nacional), na qual a uou como edi o a che e da Re is a B asilei a
de His ó ia. Em 2008, ocupou aga de P o esso a Residen e no Ins i u o de Es udos A ançados
T ansdisciplina es da UFMG. Pa icipou da undação da Sociedade La ino Ame icana Y Ca ibeña de
His o ia Ambien al (SOLCHA), e oi elei a pa a a p imei a Jun a Di e i a, ges ão 2006-2010, en idade
à qual pe ence como memb o e e i o. Pe maneceu na Jun a Di e i a dessa en idade como edi o a-
che e da e is a HALAC, en e 2011 e 2014. Foi Edi o a Che e da e is a Va ia His o ia en e janei o
de 2015 e dezemb o de 2017. É memb o do Edi o ial Boa d da Hispanic Ame ican His o ical Re iew.
É coo denado a do Cen o de Es udos sob e os Animais (CEA), na UFMG. A ualmen e pesquisa os
zoológicos na Amé ica La ina no século XX, e p oduz o canal You ube As 4 Es ações, dedicado à
di ulgação da His ó ia Ambien al pa a o público amplo. www.you ube.com/c/AsQua oEs ações. São
publicações ecen es: Dua e, R. H. “El zoológico del po eni -: na a i as y memo ias de nación
sob e el Zoológico de Chapul epec, Ciudad de México, siglo XX”. His o ia C i ica, . 21, p. 93-113,
2019; Dua e, R. H. “Ne wo ks o Na u al His o y in La in Ame ica”. In: H.A. Cu y; N. Na dine; J.A.
Seco d; E. Spa y. (O g.). Wo lds o Na u al His o y. 1ed.Camb idge: Camb idge Uni e si y P ess,
2018, . 1, p. 484-495; Dua e, R. H. Noi es Ci censes, 2a edição e is a e ampliada. 2. ed. Belo
Ho izon e: Fino T aço, 2018. 248p.
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colonização do e i ó io, mas ambém po uma é il adição de pensamen o
conse acionis a, signi ica i as lu as socioambien ais, e pelo pionei ismo nas
pau as globais em p ol do ambien e. Recupe a e alo iza a complexidade das
elações en e sociedade e ambien e pode se um a o decisi o na cons ução de
caminhos u u os di e sos pa a a ques ão socioambien al no B asil, p oje ando e
demons ando a iqueza e o igo de di e en es a o es e p á icas dissonan es.
Pala as-cha e: meio ambien e no B asil, socioambien alismo, Es ado e
ambien e no B asil, his ó ia e na u eza.
Abs ac
This a icle in ends o p esen a pano amic iew o he his o ical
complexi y o B azil's ela ions be ween socie y, s a e, and en i onmen .
I a gues ha he genealogy o hese ela ionships shows a non-linea ,
mul i ace ed, and con lic ing ajec o y. The e a e se e al adi ions on he
s age o cu en poli ical con on a ions: B azil s ands ou o a long his o y
o des uc ion, which da es back o he beginning o he colonisa ion o he
e i o y, bu also o a e ile adi ion o conse a ionis hough , signi ican
socio-en i onmen al s uggles, and i s leade ship in global guidelines o he
en i onmen . Reco e ing and aluing he complexi y o he ela ions be ween
socie y and he en i onmen can be decisi e in cons uc ing di e en u u e
pa hs o he socio-en i onmen al issue in B azil, p ojec ing and demons a ing
he ichness and igou o di e se ac o s and dissonan p ac ices.
Keywo ds: en i onmen in B azil, socioen i onmen alism, S a e and
en i onmen in B azil, his o y and na u e
Em 7 de se emb o de 2021, na comemo ação de 199 anos de
Independência, espe áculos insóli os oma am as uas de cidades b asilei as.
Em São Paulo, ce ca de 125 mil pessoas lo a am a a enida Paulis a, em apoio
ao go e no de Jai Bolsona o. Os mani es an es es iam oupas com as co es
da bandei a e empunha am ca azes. O discu so do p esiden e oi o acionado
po uma mul idão sem másca as de p o eção con a a COVID, com g i os de
o dem como “eu au o izo”, em alusão a uma desejada in e enção mili a e
ompimen o da o dem democ á ica. Jo nalis as o am ag edidos. Em B asília,
g upos bolsona is as in adi am a Esplanada dos Minis é ios. Pelo país, ou as
capi ais e cidades ambém o am palco de mani es ações exp essi as, eunindo
amílias com seus idosos e c ianças, mo oquei os, u alis as, colecionado es
de a mas de ogo, pas o es e angélicos e seus iéis, polí icos, en e ou os
g upos. Assim, amplos se o es da sociedade ci il a aca am o es ado b asilei o
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egido pela Cons i uição de 1988. Mesmo se o es libe ais conse ado es da
sociedade denuncia am o pe igo la en e naqueles e en os3. No mesmo dia,
g upos de esque da o ganiza am o “g i o dos excluídos”, adicionalmen e
ealizado na da a há mui os anos. A adesão a essas mani es ações oi menos
exp essi a, apesa da o e c í ica ao go e no e da cla a sensação de co osão
das ins i uições democ á icas.
Poucos meses depois, em B asília, no dia 09 de ma ço de 2022, g upos de
a is as, indígenas, quilombolas e o ganizações ambien alis as o ganiza am o
“A o pela e a”. O e en o compôs a onda de p o es os con a o desmon e não
apenas das ins i uições democ á icas, mas ambém das ins i uições de p o eção
ambien al. En e as á ias ações do go e no, os pa icipan es c i ica am o
p oje o que egulamen a a mine ação em e as indígenas, o chamado “o paco e
da des uição”, o PL 191/2020. A PL p e ê ainda cons ução de hid elé icas,
es adas e in odução de cul i os ansgênicos em e as indígenas. Mas ambém
se p o es a a con a os p oje os 490/2007 (g ande obs áculo à dema cação de
e as indígenas), 6.299/2022 ( acili ado do egis o legal de ag o óxicos),
PL 510/2021( “PL da g ilagem”), assim con a o ag essi o desman elamen o
dos ó gãos de iscalização ambien al. Os mani es an es se encon a am, na
ocasião, com o p esiden e do Senado e do Sup emo T ibunal Fede al – pode es
cons i ucionais na mi a de a aque da ul adi ei a – com a en ega de um
mani es o (Va gas, 2022, B8).
O que os dois e en os demons am é a complexidade da elação en e
es ado, sociedade ci il e meio ambien e no B asil con empo âneo. E idenciam
ainda como há di e sas adições no palco dos con on os polí icos a uais: o
B asil se des aca po uma longa his ó ia de des uição, que emon a ao início da
colonização do e i ó io, mas ambém po uma é il adição de pensamen o
conse acionis a, signi ica i as lu as socioambien ais, e pelo pionei ismo, em
alguns momen os, nas pau as globais em p ol do ambien e.
Às éspe as das comemo ações do bicen ená io da Independência, no
p óximo 7 de se emb o de 2022, e da la gada pelas eleições p esidenciais pa a
o go e no no pe íodo 2023-2026, as ensões se ap o undam, num clima de
ameaça a al ao meio ambien e no B asil, com udo o que essa pala a engloba
e mescla do meio na u al e da sociedade.
Es e a igo in en a ap esen a uma isão pano âmica da complexidade
his ó ica das elações en e sociedade, es ado e meio ambien e no B asil.
A gumen a que a genealogia dessas elações e idencia uma aje ó ia não
linea e, sob e udo, mul i ace ada e con li uosa dessas elações, numa na a i a
his ó ica al e na i a a ou as que ão somen e ela am o a anço da des uição
3 “Edi o ial: Os p essupos os da Independência”, Es ado de São Paulo, 07 de se emb o de 2021, p.
A3. “A os i am apos a de al o isco do p esiden e”, Es ado de São Paulo, 07 de se emb o 2021, p.
A6; “Edi o ial: O dia seguin e”, Es ado de São Paulo, 08 de se emb o 2021, p. A2.
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desde a chegada dos colonizado es. Recupe a e alo iza a complexidade das
elações en e sociedade e ambien e pode se um a o decisi o na cons ução
de caminhos u u os di e sos pa a a ques ão socioambien al no B asil,
p oje ando e demons ando a iqueza e o igo de di e en es a o es e p á icas
dissonan es.
Gigan e pela p óp ia na u eza
Nação independen e de Po ugal em 1822, o B asil o ganizou-se como
mona quia cons i ucional. Além dos pode es Execu i o, Legisla i o e Judiciá io,
o pode Mode ado exis iu como cha e de oda a o ganização polí ica do Es ado
Impe ial B asilei o, que concilia a o cons i ucionalismo libe al com ó mulas
do An igo Regime. Sag ado, in iolá el, inimpu á el, o Impe ado eina a pela
g aça de Deus e unânime aclamação dos po os. Concen a a o exe cício dos
pode es Execu i o e Mode ado , assim como lide a a a Ig eja no e i ó io
nacional, man endo o egime de pad oado da an iga me ópole po uguesa. Ao
eme gi como Es ado-nação mode no, o B asil independen e não oi concebido
como Es ado ins i uído po um pac o social si uado na empo alidade his ó ica.
O Es ado ap esen ou-se como agen e an e io à sociedade, p ecedido apenas
pela on ade di ina e pela na u eza g andiosa. A P oclamação da República em
1889 não al e ou adicalmen e as bases dessa concepção. A despei o do ca á e
laico e libe al do no o egime, e da e e ência ao pac o social na Cons i uição
de 1891, man e e-se a ideia do Es ado demiu go, cuja ação impedi ia iscos
de agmen ação e i o ial, p omo e ia a o mação de um po o e, sob e udo,
ga an i ia a con inuidade e o alecimen o da essência ag á ia e ex a i is a
a ibuída pelas eli es dominan es à nação b asilei a. Nas ep esen ações da
on ade di ina, da na u eza e do Es ado como agen es me a ísicos cons i uin es
do B asil, o oman ismo do pe íodo impe ial oi seguido pelo u anismo, com
lou o es e cân icos à g andeza do e i ó io, às suas belezas e iquezas, à na u eza
p i ilegiada, en im (Chauí, 2010, 32-53).
En e os símbolos ado ados pela República Fede a i a do B asil, a no a
bandei a azia o e de das ma as, o ama elo do ou o, e o C uzei o do Sul.
Esses elemen os, he dados da bandei a do Impé io, não aludiam aos aspec os
his ó icos, polí icos ou sociais do país. O no o hino man inha a melodia do hino
do Impé io, mas ganhou no a le a que celeb a a o B asil como “gigan e pela
p óp ia na u eza”. O imaginá io de uma “na u eza b asilei a” – esplendo osa,
di e sa, luxu ian e, supos amen e e e na, imu á el e in indá el – oi impo an e
no p ocesso de iden idade nacional. O p óp io nome, B asil, alude ao pau-b asil
(Caesalpinia echina a), á o e da qual se ex aía o co an e come cializado pela
co oa Po uguesa nos p imó dios do século XVI (Ca alho, 1990, pp. 109-
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Te ce cua imes e de 2022. Pp. 347-371. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.15
28; Pádua, 2019). A comunidade imaginada assumia assim, aspec os mui o
peculia es.4
A República b asilei a em sido ma cada po o e ins abilidade
ins i ucional. Desde 1889, o país e e seis di e en es cons i uições. Regimes
di a o iais ou de exceção domina am ce ca de um qua o do pe íodo, en e
golpes e es ados de sí io. Nos úl imos anos, nossa ágil democ acia passa
po um p ocesso co osi o. No seio de an as u bulências, ês emas são
decisi os pa a comp eende mos as elações en e Es ado, sociedade e
ambien e no B asil.
Em p imei o luga , há si uações pa adoxais en ol endo ideias de
conse ação e p og esso e – dos anos 1940 em dian e – conse ação e
desen ol imen o. O meio na u al no B asil é, epe idamen e, ão elogiado quan o
p e e ido em a o de in e esses econômicos. Em segundo luga , a expansão
sob e o e i ó io ganhou impulso especial ao longo do século XX, em ondas
di e sas, como a descobe a dos se ões na P imei a República, a “ma cha pa a
o oes e” du an e a E a Va gas, o plano de in eg ação nacional du an e a di adu a
ci il-mili a iniciada em 1964. Nas úl imas décadas, a expansão do ag onegócio,
com des aque pa a o cul i o de soja, em de e minado a des uição implacá el
de la gas ex ensões de ce ado e a ualmen e se di ige ao chamado MATOPIBA,
nos es ados de Ma anhão, Tocan ins, Pa aíba e Bahia.
Finalmen e, a ocupação e i o ial desencadeou iolen os con li os
sociais com populações adicionais. En e mui as dispu as, a ques ão
indígena se ap esen a como um pon o ulc al. Essas populações, suas e as e
suas cul u as es ão sob cons an e ameaça pelo a anço de a i idades ag ícolas,
mine ação, ex ação de madei a, ga impei os, cons ução de es adas,
e o ias, hid elé icas, e mesmo pela ação de pas o es e angélicos que
en am nos e i ó ios indígenas isando aumen a o núme o de seus iéis.
Assim, o impasse a ual em o no da já ci ada PL191/2020 é mais um capí ulo
desse con li o secula na his ó ia da sociedade b asilei a.
Em busca das adições
A busca da adição, quando se ap esen a como cons ução de uma o igem,
pode se uma a madilha pa a o his o iado . Tan as adições são in en adas
pa a o alece posições polí icas do p esen e, c iando alsas con inuidades,
cons uindo icções de undação, echando possibilidades de encon o com
a al e idade do passado (Bloch, 1964, p. 29-34; Foucaul , 1977, p. 139-164;
Hobsbawn, 1983, p. 1-15). En e an o, o concei o de adição pode se ope ado
isando a e omada de a os e p á icas dissonan es obscu ecidos, agmen ando
4 Sob e o concei o de nação como comunidade imaginada, e Ande son (2003).

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A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51.
Te ce cua imes e de 2022. Pp. 347-371. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.15
ce ezas es abelecidas sob e o passado, o p esen e e o u u o de uma sociedade
(A end , 2006, pp. 17-40; S a ling 2018, p. 273-276).
A cul u a polí ica e a his ó ia b asilei a o am an as ezes eduzidas
às na a i as da e iginosa conquis a do e i ó io a e o e ogo e da apa ia
da sociedade desde a chegada dos Po ugueses (Dean, 1977). En e an o, há
uma plu alidade de acon ecimen os dissonan es que podem se iden i icados
em con ex os polí icos, sociais e cul u ais de en en amen o social. Eles
e idenciam a plu alidade do passado e a inexis ência de um caminho linea
ou p é-de e minado pa a as elações en e essa sociedade e o meio ísico.
Recupe a esses con li os e as descon inuidades é ambém a gumen a que, em
cada momen o do passado, o u u o e a inde e minado. A his ó ia se az no
de i do empo, no choque dos en en amen os polí ico-sociais, no jogo en e
necessidades e acasos.
Pádua iden i icou uma linhagem igo osa de pensamen o conse acionis a
no B asil en e ins do século XVIII e o início da República, em 1889. Nesse
pe íodo, cen o e cinquen a li os e olhe os o am publicados po cinquen a
au o es, com análises e p opos as de endências cien i icis as, isioc a as e
p og essis as pa a a conse ação da na u eza. Tais ob as ale a am sob e as
consequências do uso imp e iden e de lo es as, solo, minas e ios.P opunham
mudanças de cos umes, écnicas e p á icas de explo ação econômica (Pádua
2000, pp. 255-87; Pádua 2002).
En e esses au o es, al ez enha sido José Boni ácio de And ada e Sil a
(1763-1838) a alcança o maio impac o. Quase semp e lemb ado como
“pa ia ca da Independência” e de enso adical da mona quia, Boni ácio oi
um g ande na u alis a e legou impo an es esc i os denunciando a des uição
da na u eza no B asil, a gumen ando a u gência de explo á-la acionalmen e.
Boni ácio ep esen ou o igo dos in elec uais o mados na
Uni e sidade de Coimb a que, e o mada em 1772, o nou-se um locus de
i adiação do pensamen o iluminis a e cien í ico. Mas sua igu a ambém
oi e e ência pa a ge ações u u as no B asil Impe ial, especialmen e ao
de ende o im do abalho esc a idão como condição sine qua non pa a uma
eal ans o mação cul u al. A despei o da quan idade e qualidade de seus
esc i os, ele e ou os au o es não log a am in luencia polí icas públicas de
conse ação da na u eza, en e ao pode das classes senho iais esc a is as.
A ua am de o ma quase semp e agmen ada, em di e en es con ex os
polí icos ao longo de mais de um século, em egiões di e sas do ex enso
e i ó io b asilei o. É ainda impo an e essal a que suas concepções sob e
o meio na u al e isões de nação inham an as semelhanças quan o ma izes
ele an es (Pádua 2002).
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A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51.
Te ce cua imes e de 2022. Pp. 347-371. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.15
P imei a República: populações, na u eza e e i ó io
A cons i uição epublicana de 1891 inaugu ou a sepa ação en e Es ado
e Ig eja, num egime p esidencialis a. A despei o das expec a i as nu idas
po alguns g upos epublicanos numa no a o dem democ á ica, a hegemonia
polí ica das eli es ag oexpo ado as con o mou a ins i uição de um es ado
libe al oligá quico que excluiu a a maio pa e da população de seus di ei os
polí icos, po meio da ecusa do di ei o de o o aos anal abe os e mulhe es.
A aude elei o al gene alizada, po sua ez, o na a inú il a pa icipação dos
cidadãos nos plei os (Ca alho, 1987, pp. 44-5).
O iun o do ede alismo oi especialmen e a iculado po es ados
expo ado es de p odu os, como São Paulo, p odu o de ca é pa a o me cado
mundial. O “boom” de explo ação de bo acha ambém bene iciou a economia
de es ados como Pa á e Amazonas. No cen o sul do país, a chegada maciça
de imig an es o ganizada pelo go e no b asilei o p omo eu uma p o unda
ans o mação demog á ica. A ação go e namen al oi ambém decisi a na
p omoção de p oje os de in aes u u a, incluindo concessões e a ação de
in es imen os in e nacionais pa a a cons ução de e o ias, po os, na egação
de ios. Tudo isso al e ou paisagens e biomas, com consequen e p essão sob e
ege ações e ida sil es e.
A ausência de leis de con ole da explo ação de á eas na i as a o ecia o
a anço das a i idades de ex ação de madei a, ou mesmo as queimadas pa a
“limpeza” dos e i ó ios pa a expansão de azendas. A ocupação das e as
de olu as oco eu po meios audulen os, com sua pos e io o malização como
p op iedade p i ada. A iolência en ol ida na ocupação do e i ó io ap o undou
a pob eza das comunidades u ais de pequenos la ado es, e inc emen ou o
ex e mínio de mui as populações indígenas, que iam sendo compulso iamen e
concen adas em pequenos aldeamen os onde di icilmen e pode iam se man e
como sociedades cul u almen e di e enciadas. A explo ação de iquezas mine ais
no sobsolo oco ia sem qualque legislação especí ica. Pelo B asil a o a, animais
sel agens o am caçados implaca elmen e pa a come cialização de penas e
peles, mesmo que na u alis as apelassem pa a os go e nos es aduais e ede ais
em a o de leis que egulassem essas a i idades (Dean, 1977, pp. 214-5; Cunha
1992, p.16; Cons i uição 1891, a igo 72 §171; Dua e, 2014, p. 270-301).
Enquan o o libe alismo da Cons i uição de 1891 jus i ica a a ação
mínima do es ado em alguns se o es, á eas c uciais pa a o sucesso do modelo
ag oexpo ado ecebe am in e enções o es e decisi as. A imig ação oi
uma delas: la gamen e subsidiada, causou p o undas impac os demog á icos,
é nicos, cul u ais e ambien ais. Cidades como Rio de Janei o e São Paulo
assis i am ao c escimen o da indus ialização e di e si icação de se iços,
com aumen o do consumo de p odu os básicos (como alimen os e lenha), mas
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A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51.
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ambém de bens impo ados de luxo pa a as eli es. O B asil se inse iu ainda
mais p o undamen e na ede global de populações humanas, plan as, animais,
pa ógenos, com p o undas consequências pa a o meio na u al.5
Todas essas mudanças o am acompanhadas do ag a amen o de doenças,
com impac os na saúde pública, le ando o es ado a p o e assis ência às
populações humanas. Em 1899, uma epidemia de pes e bubônica o iginá ia na
Ásia alcançou o po o de San os, em São Paulo, local es a égico da expo ação
de ca é. As au o idades oma am medidas i mes e imedia as pa a con ola
o con ágio, c iado o Ins i u o Fede al So o e ápico no Rio de Janei o, pa a
p odução de acinas e so os, assim como pa a o es udo de doenças opicais.
Oswaldo C uz di igiu a ins i uição nos p imei os anos, o ganizou e o mas
sani á ias em cidades e po os, a uando ainda no con ole da malá ia du an e
a cons ução da e o ia Madei a-Mamo é no co ação da lo es a amazônica.
Ou a ins i uição c iada oi o Ins i u o Bu an ã, pelo go e no de São Paulo, pa a
p odução de so os, des acando-se especialmen e no a amen o de picadas po
cob as e ou os animais peçonhen os, e en os cada ez mais comuns à medida
que o e i ó io des lo es ado a o ecia encon os en e se es humanos, cob as,
a acnídeos a o ecia encon os en e se es humanos, cob as e a acnídeos.
Após consolida -se como cen o de pesquisa biológica, o Ins i u o
Oswaldo C uz lide ou expedições cien í icas pelo in e io do país. Memb os do
Ins i u o conduzi am abalhos de campo e implemen ação de p ocedimen os
pa a o con ole de inse os ansmisso es de malá ia, eb e ama ela, dengue,
leishmaniose, doença de Chagas, en e ou as ações. Eles ambém a alia am o
e ei o de endopa asi as nas populações humanas u ais, e o papel dos animais
domes icados nos ciclos de con aminação. Semp e sob o apoio do es ado
b asilei o, o Ins i u o p opôs medidas de saúde pública, desc e endo o B asil
como um “imenso hospi al” (Lima, 1999, pp. 55-126).
Ou a inicia i a pa a a explo ação do e i ó io oi a “Comissão Es a égica
de Linhas Teleg á icas do Ma o G osso ao Amazonas”, c iada em 1907 na
p esidência de A onso Pena. Além do mapeamen o e i o ial, ocupação e
de inição de on ei as, as missões lide adas po Cândido Rondon ga an i am
a sis ema ização de conhecimen os geog á icos, an opológicos, bo ânicos
e zoológicos, ab angendo as as á eas a é en ão habi adas po populações
indígenas, num p ocesso que adicionou uma dimensão inédi a na cons ução
nacional. Mui os na u alis as do Museu Nacional acompanha am Rondon,
e e dadei amen e se o ma am em expe iências decisi as i idas nessas
expedições. Nessas andanças, sen iam-se como no os descob ido es do
B asil, cons uí am conhecimen os sob e populações humanas e não humanas.
Adqui i am ambém uma expe iência polí ica, ao es emunha a iolência nas
on ei as de ocupação, o desma amen o absu do, a caça desen eada. Cole a am
5 Como oco eu ambém em ou os países da Amé ica La ina (McCook, 2011, p.11-31).
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Es ado, sociedade e meio ambien e no B asil em 200 anos de Independência
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ma e iais di e sos que en iquece am as coleções do Museu que, po sua ez,
alimen a am as in es igações de bo ânicos, zoólogos, geólogos e an opólogos.
Segundo Edga Roque e-Pin o, di e o do Museu, a iagem com Rondon em
1912 mudou sua isão sob e o B asil, seu e i ó io e po o.
No Museu Nacional, desen ol eu-se um g upo a iculado e a i is a em
o no da ques ão da na u eza, compos o po Roque e-Pin o, F ede ico Hoehne,
Albe o Sampaio, Mello Lei ão, Be ha Lu z, Heloisa Albe o To es, en e
ou os. Suas ações mescla am p odução de conhecimen o, nacionalismo,
p essão sob e au o idades po medidas legais de conse ação e p oje os
educa i os. Jun o à Academia B asilei a de Ciências, unda am a Rádio
Sociedade, em 1923, com p og amas de di ulgação cien í ica. Inaugu a am,
em 1927, o Se iço de Assis ência ao Ensino de His ó ia Na u al, ol ado pa a
alunos de escolas públicas. Alguns deles in eg a am o mo imen o da Escola
No a, a iculados com os p incípios de ensino laico, uni e sal e público de
Anísio Teixei a. Cons uí am uma sala de cinema no Museu, mon a am
labo a ó ios pa a p odução de ilmes educa i os pa a o g ande público.
Es i e am en ol idos na undação da Sociedade dos Amigos das Á o es
(1931), na Sociedade dos Amigos de Albe o To es (1932), na o ganização da
P imei a Con e ência B asilei a de P o eção à Na u eza (1934). Mello Lei ão,
Sampaio e Roque e-Pin o esc e e am o an ep oje o do Código de Caça e
Pesca, em 1932, pa a o Minis é io da Saúde e Educação. Sampaio pa icipou
da esc i a do an ep oje o do Código Flo es al, na mesma época. Publica am
li os e a igos cien í icos, a icula am-se com a comunidade cien í ica
in e nacional. Sob e udo, sua concepção de conse ação da na u eza incluía
deba es sob e saúde e educação, sob e o papel do Es ado nessas á eas, sob e o
papel dos cien is as na ques ão social. Apos a am no pode da di ulgação do
conhecimen o. Uma ez o alecidos po polí icas de saúde, e ans o mados
pela educação, os b asilianos comuns – que i essem no campo ou nas cidades
– ama iam e p o ege iam lo a, auna, ios e solos (Dua e, 2016).
A e a Va gas: na u eza, nacionalismo e desen ol imen o
O mo imen o de 1930 e a omada do pode al e ou o jogo de o ças das
eli es oligá quicas. O no o go e no de endeu um es ado cen alizado e o
es ei amen o da au onomia das unidades da ede ação, a e e i a ocupação do
e i ó io nacional, e a p omoção da educação e da saúde pública como obje o
de polí icas do es ado. Nesses p oje os, a a a-se de o ma uma população
saudá el, educada pa a o abalho, a sal o dos pe igos da ideologia bolche ique
(nas cidades), ou do bandi ismo e da ebeldia milena is a (nas á eas u ais).
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Os se inguei os em lu a a aí am a a enção e o apoio de o ganizações
in e nacionais, in elec uais, jo nalis as e de di e en es a o es polí icos que en ão
se mo imen a am na cena b asilei a. Eles p opunham soluções ans o mado as
que concilia am abalho u al e p ese ação ambien al, p oje ando um no o
ipo de á ea de conse ação, a ese a ex a i is a, na qual o abalho cole i o
explo a ia a lo es a de o ma sus en á el, em e as da União (Almeida 2004,
Sed ez 2014). Su gi am lide anças comba i as, en e as quais se des acou
Chico Mendes. F ancisco Al es Mendes Filho nasceu em Xapu i, em 1944,
e abalhou como se inguei o desde a in ância. Nos anos 1970, passou a a ua
no sindicalismo de abalhado es u ais, o nando-se um dos g andes líde es
na de esa da lo es a. Se ia assassinado em 1988, o nando-se um emblema
dos mo imen os socioambien ais na Amazônia b asilei a (Ga dne , 1993;
Rod igues, 2007; Ven u a 2003).
Ou o megap oje o lançado na di adu a mili a oi a cons ução da
Hid elé ica de I aipu, lançado em 1973. O a anço econômico daqueles anos
exigia o aumen o da p odução ene gé ica. A inaugu ação da hid elé ica, em
1982, euniu os di ado es João Figuei edo e Al edo S oessne . O echamen o
das compo as, iniciando os abalhos, subme giu 43.000 hec a es de lo es as
na i as e as Ca a a as Se e Quedas. Cen enas de ambien alis as p o es a am,
acampados nas imediações, ealizando um i ual indígena, o Qua up, em
con as e com a ce imônia o icial. Se os p oje os iniciais em 1973 apenas
se gaba am das p omessas de desen ol imen o con idas na cons ução da
hid elé ica, o clamo con a a des uição ambien al assinala a as no as
sensibilidades ecológicas eme gen es no B asil e o su gimen o de mo imen os
sociais ambien alis as (U ban, 2001, p. 94-124, Oli ei a e Flo en in 2018).
Em 1971, su giu a Associação Gaúcha de P o eção do Ambien e Na u al
(AGAPAN), lide ada pelo ag ônomo José Lu zenbe ge . A associação iniciou
seus p o es os em o no do co e de á o es em Po o Aleg e, e c esceu com a
mobilização con a a emp esa Celulose Bo egaa d, cujos esíduos poluen es
e am um g ande isco à saúde da população. Lu zenbe ge o nou-se ainda uma
das ozes mais espei adas no B asil con a o uso dos ag o óxicos. Em 1976,
publicou o Mani es o Ecológico B asilei o, que se o nou uma e e ência cha e
pa a os ambien alis as no B asil, sis ema izando uma é ica ecológica na qual
de endeu a necessidade de ede ini o concei o de p og esso. Lu zenbe ge
desempenha ia ainda um impo an e papel na de esa da Amazônia como
minis o do Meio Ambien e, en e 1990-1992, já no pe íodo democ á ico
(Pe ei a, 2016)6.
A indus ialização a ançou acele adamen e no pe íodo do “milag e
econômico”, especialmen e no cen o sul do B asil. Algumas á eas indus iais
6 Sob e Lu zembe ge , consul a ainda o canal do You ube Lu z Global h ps://www.you ube.
com/c/Lu zGlobal

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concen a am indús ias pe oquímicas, side ú gicas, cimen o, au omó eis,
equipamen o, e bens de consumo du á eis. Não ha ia egulamen ações
ambien ais pa a con ole de emissões a mos é icas ou esíduos indus iais, e
a con aminação do a e da água ge ou imensas p essões ambien ais em mui os
luga es, en e os quais a cidade de Cuba ão oi al ez o mais g a e exemplo. Nas
cidades, o c escimen o demog á ico oi alimen ado pela mig ação de populações
u ais, expulsas pelo ag essi o a anço do ag onegócio, ca apul ando o consumo
de água e ge ação de esgo os, ge ando uma c ise de is es consequências, num
quad o assus ado pa a a saúde pública (Dua e, 2015).
Mui os mo imen os da sociedade ci il se le an a am con a essa si uação.
Em 1973, em São Paulo, o a is a Miguel Abellá lide ou o Mo imen o A e e
Pensamen o Ecológico (MAPE). O MAPE ealizou pe o mances nas uas da
cidade de São Paulo, p o es ando con a a poluição a mos é ica. En e 1978
e 1988, publicou a e is a Pensamen o Ecológico, omen ando o deba e e o
engajamen o de um público c escen e pa a o ema (U ban, 2001). Em Belo
Ho izon e, em 1978, su giu a Associação Minei a de De esa do Meio Ambien e,
o mada po es udan es e in elec uais. O can o Be o Guedes, in eg an e do
mo imen o musical Clube da Esquina, es ou ou nas pa adas de sucesso, em
1981, com a canção Sal da Te a, que e oca a o mais boni o dos plane as,
mal a ado po dinhei o. F en e a isso, Guedes con oca a odos a se em “o
sal da e a”, e ocando as pala as de Jesus aos seus discípulos, na missão
de ans o ma o mundo. Com a anis ia polí ica, em 1979, mui os exilados
polí icos ol a am com uma no a pe spec i a sob e as ques ões ambien ais,
como Fe nando Gabei a, Ca los Minc e Al edo Si kis, cons i uindo uma
lide ança in elec ual e polí ica de a i ismo ecológico no país. Assim, hou e
c í icas à c escen e des uição ambien al, mesmo que a ep essão e o con ole
da imp ensa pela di adu a impedissem a di ulgação das c í icas.
Assim, a agenda ambien al g ada i amen e se impôs no cená io dos
deba es nacionais. Alguns e en os p opicia am o ala me da opinião pública e
au o idades de saúde. Em 1980, um su o de anence alia na cidade de Cuba ão,
São Paulo, oi iden i icado como deco ência da emissão descon olada de
poluen es e subs âncias al amen e óxicas pelas indús ias locais. Qua o anos
depois, um azamen o químico causou um incêndio que a ingiu oda uma
izinhança de Cuba ão, a Vila Socó, deixando um as o de des uição, mo e e
do . Fica a e iden e a negligência das au o idades esponsá eis.
Além das oposições in e nas, ques ões elacionadas à Amazônia, à Se e
Quedas e lo es as inundadas po I aipu e à poluição a mos é ica o am ópicos
de ques ionamen o di igidos ao go e no b asilei o du an e a Con e ência de
Es ocolmo, em 1972. Du an e o e en o, ep esen an es do B asil a aca am as
ecomendações de egulamen ação ambien al como uma ameaça à sobe ania
nacional. O go e no mili a deu cla as ecomendações aos ep esen an es
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sob e as posições es a égicas a se em de endidas po eles, semp e se opondo
a qualque medida que pudesse se um obs áculo ao desen ol imen ismo.
(Figuei edo, 1972, p. 4-10; Guima ães, p. 157-9; Lago, 2006, p. 115-44).
Uma pa e da opinião pública b asilei a, gozando a eu o ia do c escimen o
econômico, aplaudiu a pos u a da delegação em nome da sobe ania nacional.
Tan as ques ões ilus am as ensões en e desen ol imen ismo e
conse ação, nacionalismo/globalismo, es ado cen alizado /ausência de
egulações ambien ais. Mesmo ado ando uma pos u a i me na Con e ência,
o go e no acabou c iando a Sec e a ia do Meio Ambien e (SEMA) em 1973.
Paulo Noguei a-Ne o – cien is a enomado e undado da FBCN, como imos
acima –acei ou a p esidência da SEMA en e 1974 a 1986. Seu empenho e
espei abilidade cien í ica iabilizou a c iação de 3,2 milhões de hec a es de
á eas p o egidas em di e en es ecossis emas no B asil (Noguei a-Ne o, 2010; p.
153-7; Guima ães, 1991, p. 143-171). Ainda no plano ins i ucional, impo an es
conquis as oco e am. A c escen e impo ância da ques ão ambien al na
opinião pública p essionou a ap o ação da Lei de Polí ica Nacional do Meio
Ambien e, em 1981 (Lei 6.937) e a c iação do Conselho Nacional de Meio
Ambien e (CONAMA, com g ande pode de deba e e delibe ação). A es u u a
ins i ucional desse ó gão inaugu ou expe iências de pa icipação democ á ica,
incluindo memb os da sociedade ci il.
Ainda no pe íodo mili a , abalhado es u ais o ganizados unda am o
Mo imen o dos T abalhado es sem Te a (MST), num encon o em Casca el,
Pa aná, em 1984. A mode nização ag ícola inha des uindo unidades amilia es
de p odução, e inc emen ando o êxodo u al. F en e ao p ocesso de c escen e
exclusão do pequeno ag icul o , o MST passou a lide a a lu a pelo acesso à
e a. Mas ambém ques ionou o mas de cul i o, p opugnando cuidados com a
p ese ação do solo e da água em p oje os de ag icul u a amilia e o gânica, em
con aposição aos usos p eda ó ios nos g andes la i úndios ag oexpo ado es.
Numa pla a o ma polí ica que combina ei indicações de e o ma ag á ia e
p á icas de ag oecologia, o MST, desde en ão ques iona o modelo hegemônico
de ag icul u a no B asil (Le e e Medei os, 2014, p. 111-135; Pádua, 2012,
456-473).
A edemoc a ização e a cons ução de uma agenda ambien al
Em 1985, o país e e suas p imei as eleições, mesmo que po sis ema
indi e o. O no o go e no c iou o Minis é io do U banismo e Meio Ambien e.
Ambien alis as de di e en es pa es do B asil unda am, em 1985, a
Coo denação In e es adual de Ecologis as pa a a Assembléia Cons i uin e
(CIEC) com o obje i o de p essiona po uma agenda ambien al a se
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de endida pelos candida os. O CIEC publica a “lis as e des” com nomes de
candida os comp ome idos com emas socioambien ais. Po úl imo, mas não
menos impo an e, o Pa ido Ve de su giu em janei o de 1986 (Pádua, 1991,
p. 135-61). A Cons i uição de 1988 con ém um capí ulo especial sob e o meio
ambien e e, jun o com a undação do Ins i u o B asilei o do Meio Ambien e e
dos Recu sos Na u ais Reno á eis (IBAMA) em 1989, es abeleceu uma no a
ase da egulamen ação ambien al no B asil (D ummond and Ba os-Pla iau,
2006: 83-110). O IBAMA a ua na p ese ação e conse ação do pa imônio
nacional, con ole e iscalização do uso de ecu sos na u ais, assim como
concede ou não licenças pa a emp eendimen os, numa a aliação écnica de
seus impac os ambien ais. Quase duas décadas depois, em 2007, o Minis é io
do Meio Ambien e –en ão ocupado po Ma ina Sil a, uma pionei a mili an e
do mo imen o dos se inguei os na Amazônia – c ia ia ainda o Ins i u o
Chico Mendes de Conse ação da Biodi e sidade (IMCBio). Nesse no o e
complexo quad o polí ico, ins i ucional e social, o en en amen o de in e esses
ganhou no os pa âme os e possibilidades de a uação de uma sociedade ci il
c escen emen e sensí el à ques ão ambien al. Todos esses ó gãos passa am a
con a , ao longo dos anos, com quad os expe ien es, do ados de conhecimen os
écnicos, cien í icos e sociológicos.
Em 1992, a Ea h Summi oi sediada no Rio de Janei o, a Rio-92. A
Con e ência oi c ucial pa a o alece o a i ismo socioambien al na sociedade
b asilei a. Os ela ó ios inais econheciam a insepa abilidade en e as ques ões
ambien ais e sociais. P opugna am ambém a necessidade de mudanças que
combinassem p opos as econômicas al e na i as, ambien ais e de jus iça social.
Esses emas e am pa icula men e con o e sos em empos da ascendência
de endências neolibe ais e maio inse ção do país nos me cados mundiais.
Di e sos con li os socioambien ais em odo o e i ó io b asilei o en ol e am
po os indígenas, se inguei os, comunidades quilombolas, comunidades
a ingidas pela cons ução de ba agens, pescado es ibei inhos, abalhado es
u ais e ou as comunidades adicionais (Acsel ad, 2004).
O ambien alismo ganhou o ça e p o issionalização. Agências
in e nacionais es abelece am esc i ó ios no B asil, como o Wo ld Wild Fund
(WWF, 1990), Conse a ion In e na ional (1990), G eenpeace (1991), The
Na u e Conse ancy (1994). Su gi am o ganizações nacionais ele an es
como a SOS Ma a A lân ica (1986), Fundação Biodi e si as (1989), Ins i u o
Sociambien al (1994), en e cen enas de ONGS espalhadas po es ados
di e sos b asilei os. Hou e ainda um o alecimen o do a i ismo da sociedade
ci il e a i mação do ca á e holís ico da ques ão ambien al, com en ol imen o
de p o issionais de múl iplas á eas do conhecimen o e expe ise, e p og essi o
es ímulo à o mação de quad os compe en es pa a a ua nas ONGS e ó gãos
go e namen ais (Pádua 2016, p. 129; Alonso and Maciel, 2010).
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A eme gência da emá ica da jus iça ambien al desco ina um quad o
mui o mais complexo, com a ascensão de agudos con on os socioambien ais.
Em 2001, mais de 100 o ganizações popula es c ia am a Rede B asilei a pa a
Jus iça Ambien al, em Ni e ói, Rio de Janei o. O encon o esul ou ainda na
di ulgação de um Mani es o, que ques iona a o modelo de desen ol imen o
dominan e no B asil e as injus iças ambien ais dele deco en es. O Mani es o
denunciou a pe manência da concen ação de pode na ap op iação dos ecu sos
ambien ais nas mãos de alguns poucos em de imen o de abalhado es u banos
e u ais, í imas de exclusão e i o ial e social. Nas pe i e ias da cidade,
abalhado es i em sem saneamen o, ameaçados po enchen es, po lixo,
al a de acesso a água e a pu o, em condições de abalho insalub es. No meio
u al, populações so em deslocamen os compulsó ios, expulsões po g andes
p oje os hid elé icos e iá ios, a anço da ag opecuá ia e explo ação mine al e
madei ei a, p ejudicadas ainda pela p oibição de sua p esença nas unidades de
conse ação ambien al.
Pesquisado es e a i is as que ope am o concei o de jus iça ambien al
a gumen am que o acesso aos ecu sos na u ais é in insecamen e con li i o,
dado o seu con ole e monopólio po g andes in e esses econômicos.
Denunciam a despoli ização do deba e ambien al pelo chamado ambien alismo
de esul ados. De endem a ees u u ação p o unda da sociedade u bano-
indus ial-capi alis a, e lu am pelo di ei o de au onomia e decisão sob e o
p óp io des ino pelas di e sas populações a ingidas po injus iças ambien ais
(Acsel ad 2004; Zhou i, Lasche ski e Pe ei a, 2005; Zhou i e Lasche ski, 2010).
Mesmo go e nos democ á icos como os de Lula e Dilma Rousse o am
du amen e c i icados como man enedo es da lógica desen ol imen is a,
ea i ando p oje os es u u ais de al o impac o socioambien al, como a
cons ução da Hid elé ica de Belo Mon e e a ansposição do São F ancisco,
e p opondo no os, como as ba agens no Rio Madei a, além do amplo apoio
ao ag onegócio (Zhou i 2010). En im, o campo de en en amen o em o no
das ques ões ambien ais no B asil es a a longe de se esol ido e coloca a em
oposição g andes in e esses econômicos e as comunidades exis en es na e a
dos p oje os de desen ol imen o. Mais ecen emen e, desas es como a up u a
das ba agens de ejei os da mine ação em Ma iana (2015) e B umadinho, em
Minas Ge ais (2019), mos am como a jus i ica i a de luc os c iou si uações
de inac edi á el i esponsabilidade e dano ambien al, em agédias mais que
anunciadas (Acsel ad, 2017; Espindola, Noda i e San os, 2019). Ques iona
o desen ol imen ismo signi ica desbanca a ideia de que essa é a única opção
pa a a sociedade b asilei a, econhece a p imazia da sociedade ci il e do
campo polí ico pa a a de inição de no os umos (Sachs 1998, p. 161-3).
Sem ques iona o ca á e decisi o de polí icas públicas elacionadas
à ques ão socioambien al, é p eciso semp e lemb a que o es ado não é um
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guia demiú gico, mas o esul ado de con on ações sociais e his ó icas. O
o alecimen o das associações ci is semp e oi e, mais que nunca, se mos a
indispensá el pa a a lu a ambien alis a no B asil.
Desa ios no Bicen ená io: gado, g ãos, miné io e a mas
Eis que as eleições de 2018 no B asil escanca a am a insa is ação das eli es
com os limi es impos os po décadas de lu as ambien ais aos seus p oje os de
desen ol imen o. As chamadas bancadas do boi, da bala e da bíblia apoia am
o emen e o candida o elei o, Jai Bolsona o. Pa a o ag onegócio, desa a am-
se empecilhos aos usos e comp as de ag o óxicos, mui os deles p oibidos em
mui os países, como o he bicida gli osa o. A expansão das on ei as ag ícolas
oi ca apul ada com sucessi as ações do Minis é io do Meio Ambien e. Pa a
os in e essados na libe ação de enda de a mas há, além dos luc os p ome idos
nesse no o me cado, a possibilidade de posse e po e de a mas po p op ie á ios
u ais, o que ce amen e ap o unda a iolência no campo e ameaça a ágil
exis ência de comunidades indígenas, quilombolas, ex a i is as, e a i is as
ambien ais. Pa a a bancada da Bíblia, ep esen an es das ig ejas e angélicas
no B asil, a ques ão da na u eza é comp eendida pela isão an opocên ica de
um mundo c iado ão somen e pa a que o homem dele disponha a é o im dos
empos que, assegu am, es á p óximo.
O B asil i e um momen o de aci amen o de con li os, da ascensão do
pode de g andes in e esses econômicos ligados à expo ação de ca ne, soja,
miné io. O desman elamen o dos ó gãos ambien ais e o ho izon e de e ocessos
o am denunciados num encon o de oi o ex-minis os do Meio Ambien e,
ealizado no Ins i u o de Es udos A ançados da Uni e sidade de São Paulo, em
maio de 2019.7 Uma des uição do meio ambien e sem p eceden es encon a-se
em cu so no B asil.
Nessa enc uzilhada, é p eciso na a a his ó ia dos mo imen os ambien ais,
com seus discu sos e p á icas de ciência, a e, cul u a e jus iça ambien al, assim
como a his ó ia da ins i ucionalização de egulamen os ambien ais pelo Es ado
b asilei o. Vi emos um pe íodo decisi o, no qual an as ques ões es ão em jogo.
As comemo ações do bicen ená io se ão ma cadas, p o a elmen e, pelo gos o
das ince ezas, num momen o cha e pa a os umos ambien ais da sociedade
b asilei a, com udo o que ela engloba: populações humanas di e sas, animais,
ios, solos, cidades, li o ais, manguezais, plan as, a mos e a e mon anhas. Pois
que odos coexis em.
7 O ídeo do deba e se encon a disponí el em: h p://www.iea.usp.b /midia eca/ ideo/
ideos-2019/encon o-dos-ex-minis os-de-es ado-do-meio-ambien e

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