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SOBRE A IDENTIDADE BRASILEIRA
ON BRAZILIAN IDENTITY
IC - Re is a Cien í ica de
In o mación y Comunicación
2010, 7, pp. 321-330
Resumo
Na condição de sujei os de um pa imônio ci iliza ó io colonial, as eli es
b asilei as semp e en a am pau a -se po pad ões de iden i icação
cole i a a inados com a Eu opa, o con inen e da ci ilização b anca. A
b anqui ude é o pa adigma an opológico hegemônico. En e an o, a
miscibilidade ou i ude da mis u a é a es a égia que dá ma gem aos
discu sos de conciliação das di e enças de classe e de pad ão eno ípico. As
ábulas do “homem co dial”, da “con i ialidade”, do “ca á e pací ico” e
da “consciência não- acis a” e e em-se a ep esen ações sensí eis e
imagens do mundo deco en es dessa es a égia iden i á ia.
Abs ac
As subjec s o a colonial ci ilizing he i age, he B azilian eli es always ied o
ep esen hemsel es by means o collec i e iden i ica ion models bo owed
om Eu ope, he con inen o whi e ci iliza ion. “Whi eness” and he hegemonic
an h opological pa adigm. While “mix u ism” o he i ue o mix u e is he
s a egy ha gi es occasion o discou ses o concilia ion o class and
pheno ypic pa e n di e ences. The ables o “co dial man”, “coexis ence”,
“paci ic cha ac e ” and “non- acis consciousness” e e o sensi i e
ep esen a ions and images o he wo ld s emming om his iden i y s a egy.
Palab as cha e
Iden idade / B anqui ude / Miscilibidade / P econcei o
Keywo ds
Iden i y / B azil / Na ional his o y / C ea o o souls.
Muniz Sod é
(Uni e sidad Fede al de Rio de Janei o)
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«
Fui a bo do e a esquad a pa i . Mul idão. Con a o pleno com
meninas a is oc á icas. Na p ancha, ao emba ca , a ninguém pediam con i e,
mas a mim pedi am. Abo eci-me. Encon ei Juca Flo es a. Fiquei omando
ce eja na ba ca e sal ei. É is e não se b anco». (Ba e o, 1956, p. 130).
Esse mis o de is eza, e gonha e mágoa é u o de um auma
an opológico (ou é ico), capaz de le a à disc iminação do en e ma e no,
como acon ece com o pe sonagem Isaías Caminha: «Embo a minha mãe
i esse mo ido ha ia alguns meses, eu não inha sen ido senão uma le e e
ligei a do (...) Tinha ei o chega a mim uma espécie de e gonha pelo meu
nascimen o, e esse exame me eio diminui em mui o a amizade e a e nu a
com que semp e en ol i a sua lemb ança (...) julga a-me a meus p óp ios
olhos mui o di e so dela, saído de ou a es i pe, de ou o sangue e de ou a
ca ne». (Ba e o, 1960, p. 130)
Que emos sus en a , aqui, inicialmen e, que é possí el ence a
seg egação acial ( al como se deu nos Es ados Unidos e na Á ica do Sul,
po exemplo), mas, di icilmen e, o p econcei o. Po que es e pe sis e sob a
plena igência de uma mode nidade libe al do me cado e da mídia, que é
apa en emen e indi e en e à qualidade de seus con eúdos? São á ios,
aliás, os au o es que assinalam a incompa iblidade da sociedade
ecnológica e me cadológica com o elho p econcei o acial. Gil oy (2000),
po exemplo, sus en a que:
aspec os de ‘ aça’, como em sido en endida no passado, já
es ão conju ados pelas no as ecnologias do sel e da espécie
humana (...). As elhas e mode nas economias ep esen acionais,
que ep oduzi am a ‘ aça’ subde mica e epide micamen e, es ão
sendo hoje ans o madas de um lado pelas mudanças cien í icas
e ecnológicas que se segui am à e olução na biologia
molecula , e de ou o po uma ans o mação igualmen e
p o unda nos modos como os co pos são pos os em imagem.
Ambos êm ex ensi as implicações on ológicas (pp. 42-43).
Apesa dessa apa en e e idência, é possí el mani es a alguma
dú ida quan o à possibilidade de que se possa e e i amen e sai do
p econcei o, en endendo-se po p econcei o, em sen ido la o, uma o alidade
plausí el de julgamen os que se e de base pa a que possamos c e em
alguma coisa. É o que asse e a Wi gens ein (1969): «Nós não ap endemos a
p á ica do julgamen o empí ico, ap endendo eg as; o que nos é ensinado são
julgamen os, assim como seu laço com ou os julgamen os». O pensado , pa a
quem o abalho ilosó ico consis e essencialmen e em elucidações, es á-se se
e e indo a qualque ipo de p econcei o, seja socialmen e posi i o ou
nega i o.
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No caso de Lima Ba e o, apenas a ques ão acial es á em jogo,
mas o p econcei o em ge al em aízes ainda mais undas e mais ex ensas,
po que ele az pa e de oda ope ação de conhecimen o, do modo como
adqui imos um sabe qualque . Assim é que, especulando sob e como
chegamos a dize que sabemos ou emos ce eza de alguma coisa,
Wi gens ein (1969) mos a que « oda e i icação do que se admi e como
e dade, oda con i mação ou in alidação acon ecem no in e io de um
sis ema (...). O sis ema não é an o o pon o de pa ida dos a gumen os
quan o o seu meio i al» (p. 57).
Ele oma como exemplo o adul o que diz a uma c iança já e
es ado em de e minado plane a. C édula, a c iança ejei a a p incípio
ou os a gumen os con á ios, mas, dian e de uma ce a insis ência, pode
e mina se con encendo da impossibilidade de al iagem. O ilóso o
indaga en ão se a ei e ação não é exa amen e a manei a de se ensina
uma c iança a c e ou não c e em Deus, e daí, a pa i de qualque uma
das c enças, se p oduzi em azões apa en emen e plausí eis.
Wi gens ein (1969) não es á, de modo nenhum, a ibuindo
qualque alo cogni i o à es é ica (en endida como a dimensão do sensí el
e po ele iden i icada com a é ica). Mas pa a começa mos a c e em
alguma coisa, diz, é p eciso que uncione aquele ‘meio i al’ dos
a gumen os, que não consis e de uma p oposição isolada, mas de um ‘in ei o
sis ema de p oposições’, mu uamen e apoiadas, de al manei a que «a luz
se expanda g adualmen e sob e o odo» (p. 51). O que az ixa -se a
c ença não é uma qualidade in ínseca de cla eza da p oposição, mas a
solidez do sis ema. Não se a a, po an o, de sabe o que se diz sabe , e
sim de acei a como solidamen e ixado aquilo que já se sabe.
E po que esse sabe se ixa? Po con iança na au o idade das
on es, po aquilo que se ansmi e de uma ce a manei a, is o é, no in e io
de uma o alidade, um meio, ido como i al, po se on e de azoabilidade
e a e o, logo, de con encimen o. Diz ele: «É assim que eu c eio em a os
geog á icos, químicos, his ó icos, e c. É assim que eu ap endo ciências. E
cla o, ap ende apóia-se na u almen e em c e » (p. 63). Dize que se sabe
alguma coisa equi ale a e a coisa como ce a, mas a ce eza es á em
quem c ê, logo numa dimensão inde inida ou obscu a, e não no undamen o
acionalis a e anspa en e da c ença.
Des e modo, uma iolência his ó ica como a seg egação acial
pode acaba , mas deixando in ac o o ‘meio i al’, uma espécie de manei a
ou jei o social, onde p ospe a um ce o ipo de sensibilidade que alimen a
as c enças sob e a in e io idade humana do Ou o, seja o neg o ou
qualque ou a con igu ação da di e sidade humana. Num abalho sob e
iden idade nacional, p ocu amos incula o jei o b asilei o à ein e p e ação
his ó ica de uma o ma social c is alizada na Península Ibé ica e aqui
ansplan ada pelo Es ado po uguês. Rein e p e a-se no e i ó io b asilei o
a es u u a do luso-pa imonialismo o iginá io, não necessa iamen e de
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modo lógico ou cien í ico, e sim do modo como os homens p e e encialmen e
o denam a sua expe iência i ida, is o é, em o mas na a i as a ualizadas
em mi os, lendas, ela os his ó icos e ob as li e á ias.
O es amen o pa imonialis a que di ige o país desde a sua undação
em na ado uma his ó ia sob e a nação b asilei a, em que es a úl ima apa ece
ca ac e izada po aços de uma mesma o ma social. Nela, udo pa ece
conco e pa a a hib idização ou a mes içagem de elemen os he e ogêneos.
Numa empo alidade e e nizada, ípica da lógica pa imonial, ein e p e am-se
ce os aços (documen os, ex os, idéias, o mas de sensibilidade) como uma
ligação é ica en e passado e p esen e. Na a iedade dos ela os, a solução de
comp omisso, a ansigência, cons i uem um pólo de c is alização de iden idade
nacional. Subjazem à consciência dessa his o icidade ex os, mas ambém a e os,
pulsões, in luências eligiosas e coisas não-di as.
De onde em essa ansigência?
De o ma mani es a, da miscibilidade, a i ude da mis u a, p esen e
no pa imonialismo po uguês. De o ma la en e, mui o p o a elmen e, do
espí i o de comp omisso e ansigência da dou ina co ânica (e não islâmica),
que imp egnou as o mas de ida na Península Ibé ica du an e mui os séculos.
Pe ence a esse espí i o a acei ação de isi as à eligião do ou o, sem que isso
aca e e julgamen os de in idelidade, po que a ansigência não se a alia po
é ica, mas po me a ísica ou po es é ica. O a o co ânico e a de anca
abe u a pa a linhas-de- uga, pa a ou as p á icas sócio- eligiosas.
O pa imonialismo b asilei o é a ein e p e ação sócio-polí ico-
cul u al desse e hos de ansigência e pe meação, ansmi ido po aços
mani es os e la en es na dinâmica in e ge acional dos sujei os do pa imônio.
O ‘jei inho’, a p opalada con i ialidade são o mas socialmen e sensí eis
dessa ein e p e ação. Mas es e pano de undo his ó ico o nece apenas um
quad o in e p e a i o pa a o enômeno. Se á semp e necessá io de e mina
conc e amen e como esse e hos ( ei o de hábi os, ges os, paixões) imp egna
e modela os luga es, as elações e, e iden emen e, o que se passa no ní el
pe cep í el da ida social.
As ábulas do ‘homem co dial’, da ‘con i ialidade’, do ‘ca á e
pací ico’, da ‘consciência não- acis a’, do ‘jei inho’ e e em-se a ep esen ações
sensí eis, imagens do mundo e de suas elações. Não são concei os, e sim
insc ições de compo amen os mais coe en es no plano do apa ece do que do
se , is o é, na manei a de e elação da o ma. Implica, po an o, como a
dimensão da sensibilidade, uma escu a especial da ala do ou o. En a no jogo
do jei o sensí el é p es a -se à in e p e ação daquilo que no ou o se ap esen a
socialmen e como inde e minado, is o é, como alguma coisa aquém e além das
g ades de sen ido que a no ma socie á ia aplica à ‘socialidade’, ao que es á a
meio caminho en e in aes u u a e supe es u u a. Daí esul a um imaginá io
cole i o, mas igualmen e um ‘meio i al’ pa a os a gumen os sob e a
b asilidade, onde a iden idade cole i a é igu ada como um ese a ó io de
o mas simbólicas capazes de ‘azei a ’, as es u u as sócio-econômico-cul u ais.
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Do pon o de is a do po o comum, udo isso soa, em p incípio, como on e de
au o-es ima. Do lado do pode cons i uído, como es a égia des inada a o na
acei á el o peso de ins i uições o mais com as quais, na maio ia das ezes, o
sujei o da ida conc e a nada em a e .
Essa a mos e a a e i a é incompa í el com a seg egação acial (a
despei o de uma cla a seg egação espacial nos g andes cen os u banos,
po inexis ência de polí icas habi acionais democ á icas), nos e mos em que
es a se conc e izou nos Es ados Unidos ou na Á ica do Sul. Mas é
pe ei amen e compa í el com o p econcei o de ânsi o ácil nas
ep esen ações sob e os descenden es de a icanos, p esen es no ‘meio
i al’. Encobe o pela ca na alização das nossas elações sociais, esse
p econcei o é mais silencioso do que alan e e, al ez po is o, demande
pe e samen e como con apa ida o silêncio do Ou o, po an o a sua
‘inocência’, no que diz espei o à dimensão acial das desigualdades sociais.
Na pequena classe média, nos segmen os icos da população, em
cí culos in elec uais de esque da ou de di ei a, en a-se semp e ecalca a
e idência dessas desigualdades, que anspa ece na imedia ez dos a os
sociais ou nos discu sos que algumas lide anças neg as p oduzem sob e a
condição his ó ica do a odescenden e. Ce ca de meio século a ás, o
sociólogo Cos a Pin o (1988), au o de um celeb ado es udo sob e o neg o
no Rio de Janei o, iden i ica a qualque mo imen o social a o-b asilei o
como ‘ acismo às a essas’. Dizia ele: «Du ido que haja biologis a que
depois de es uda , digamos, um mic óbio, enha is o esse mic óbio oma
da pena e i a público esc e e sandices a espei o do es udo do qual ele
pa icipou como ma e ial de labo a o io» (p. 99). Em ou as pala as, o
neg o não de e ia sai da inocência, não de e ia seque ala sob e si
mesmo, pa a não queb a o impe a i o do silêncio que pesa sob e odo
bom obje o de ciência.
Pa a quem possa a gumen a que es e é um discu so do passado,
eja-se a ala de um jo nalis a e in elec ual de esque da no ano de 2003:
«Não somos nem b ancos nem neg os –– somos mes iços. Biológica e
cul u almen e mes iços. Aqui, mais do que em qualque ou o luga , a
en a i a de cons i ui uma iden idade baseada na ‘ aça’ é especialmen e
eacioná ia. A a i mação, que an as ezes já ou i, de que o B asil é o país
mais acis a do mundo, é uma pa é ica mani es ação do nosso espo e
nacional a o i o –– ala mal de nós mesmos» (Benjamin, 2003, p. 25).
São ce amen e bem di e en es as ci cuns âncias his ó icas em que
se p oduzem esses dois enunciados. O li o de Cos a Pin o da a de uma
época em que escolas pa icula es ainda excluíam abe amen e c ianças
neg as, con o me denúncia, em 1950, do depu ado Jonas Co eia na
Câma a dos Depu ados de São Paulo. Em 2003, isso já não é mais possí el,
pelo menos em e mos ão abe os, de ido à popula ização das dou inas
de ansigência (Gilbe o F ey e, Jo ge Amado e ou os) e, p incipalmen e,
ao a anço conside á el da mo imen ação a o-b asilei a no país. No
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en an o, a cons i uição de uma iden idade baseada na ‘ aça’ (quando es e
concei o já en ou em desc édi o gené ico e an opológico) é a o co en e
na imp ensa: o ex o jo nalís ico cos uma iden i ica pessoas pela co da
pele apenas quando se a a de neg os. O sujei o de pele cla a não é
jamais e nicamen e iden i icado. É, assim, di ícil sabe quem é neg o ou
quem é b anco? Pois bem, consul e-se a p á ica de edação dos jo nais,
obse em-se os c i é ios de seleção p o issional das emp esas, ou en ão se
pe gun e a um po ei o de edi ício de luxo quem ele manda ia en a pela
po a dos undos, se não hou esse a ‘Lei Caó’. Es a, pelo menos, é a solução
que qualque pensado neop agma is a da ia ao impasse.
En e an o, a ala do jo nalis a e in elec ual de esque da é a
mesma de ou as, o iciais ou não, como a do p esiden e Fe nando Hen ique
Ca doso na abe u a das comemo ações dos cinco séculos de exis ência do
B asil: «Somos al ez a maio nação mul i acial e mul icul u al do mundo
ociden al, senão em núme o de habi an es, na capacidade in eg ado a da
ci ilização que undamos. Essa di e sidade e sua mes içagem cons i uem a
ma ca do nosso po o, o o gulho de nosso país, o emblema que sus en amos
no pó ico do século».
O B asil não é, e iden emen e, o «país mais acis a do mundo»,
nem exis e a pola ização neg o-b anco, que é undacional num país como
os Es ados Unidos. Con ém, po ém, e em men e a obse ação de Tze e an
Todo o de que «o acismo não p ecisa da exis ência de aças». Do pon o
de is a do indi íduo de pele escu a, é e iden e a exis ência de um mal-
es a é ico e an opológico, que nenhum discu so denega ó io, seja ele de
esque da ou de di ei a, consegue ocul a . Mas como o discu so é p á ica (em
ní eis conscien e e subconscien e) des inada a na u aliza e ixa os
signi icados de um ‘meio i al’ em posições a ins às elações de pode , sua
o ien ação ideológica não é nada e iden e pa a quem já nasce com o
‘pa imônio’ da pele cla a, o undo de p econcei os esponsá el pela
o alidade de julgamen os que p oduz a c ença em alguma coisa. A c ença,
po exemplo, de que não há acismo no B asil e de que, po an o,
logicamen e, não se de e le an a a ques ão. Wi gens ein (1969), uma ez
mais: «O que não pode se di o, de e-se cala ».
O que em sido his o icamen e calado é o discu so sob e a
dimensão ci iliza ó ia, mais do que a cul u al, na ques ão do neg o.
Ci ilização, uma espécie de ‘en idade cul u al mais ampla’, é o concei o
pa a odo pad ão de conquis as ma e iais (econômicas, cien í icas,
ecnológicas, e c.), alcançado po po os ou países ag upados segundo
ances alidade, his ó ia, eligião, cos umes e alo es comuns. A ci ilização,
po sua ampli ude, ap esen a-se como mais echada e menos mu á el do
que a ‘cul u a’, en endida como dinâmica das ocas, dos emp és imos e das
mudanças. Toda cul u a é, no limi e, ‘an opo ágica’, is o é, enden e a
abso e o Ou o que lhe ape ece e não apenas a b asilei a, como
p oclama am os nossos mode nis as.
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Acon ece que as eli es b asilei as, sujei os de um pa imônio
ci iliza ó io colonial, semp e en a am pau a -se po pad ões de
iden i icação cole i a a inados com a Eu opa, o con inen e da ci ilização
b anca. A b anqui ude é o pa adigma an opológico hegemônico, é como se
a pele b anca cons i uísse uma espécie de Ociden e absolu o. Como udo
is o ansco e num ‘meio i al’ a a essado pela cul u a da conciliação e da
ansigência pa imonialis as, ese ou-se um luga pa a a mis u a dos
enó ipos (a co da pele), pa a a coop ação mi igada do Ou o da co .
Coop am-se os indi íduos, mas a ilusão ci iliza ó ia (a idealidade
eu ocên ica) ica p ese ada. É como se o sujei o de pele cla a dissesse:
esse Ou o (o neg o) es á en e nós, mas não é um de nós. Nos Es ados
Unidos, o impasse esol eu-se em sepa a ismo, a pa i de uma linha de
di e ença sanguínea es abelecida pelo sis ema chamado Jim C ow: o Ou o
não é ‘um de nós’, mas é alguma coisa -neg o, hispano, e c.- a se apenas
man ida à dis ância. Na solução b asilei a ( ansigen e, uma ez que o
sepa a ismo não en ou no ajus e ci iliza ó io), p oclama-se a p oximidade
do Ou o, mas sem ealmen e deixá-lo se enquan o al, econhecê-lo como
singula , como um qualque , do ado de ala p óp ia. Pode-se de ec a o
ge me dessa condição na An iguidade g ega, onde o esc a o podia
con i e com o cidadão, memb o da es i pe hegemônica, mas sem e
cidadania. Po que? Po que e a aneu logou, is o é, desp o ido de pala a.
O esc a o, o es angei o podiam ala a língua g ega, mas não possuí-la, o
que e a apanágio da eli e. A disc iminação e a, assim, ao mesmo empo,
polí ica e es é ica, no sen ido adical des a úl ima pala a –uma a aliação
sensí el sob e a di e ença.
Um ou o pad ão
Se aqui não se ac edi a, e com azão, nessa a sa essencialis a
chamada ‘ aça’, ac edi a-se, en e an o, na ‘ elação acial’, is o é, a elação
social em que se hie a quizam desde o nascimen o as an agens pa imoniais,
segundo a g adação da co da pele, do mais escu o pa a a sublimidade do
mais cla o. Ten a-se, ao mesmo empo, ocul a a dissime ia, impedindo o
neg o de mani es a -se como cole i o di e encian e, o a da es e a lúdica.
Ocupando pela ala o espaço público, o a odescenden e pode indica a
exis ência de um ou o pad ão ci iliza ó io, não dominan e, mas p edominan e
nas o mas de ida do po o nacional. Ressoa ainda hoje a ase do
abolicionis a Joaquim Nabuco: «Os neg os de am um po o ao B asil».
Esse ou o pad ão chegou aqui com a diáspo a esc a a, po an o.
Reco demos. Do século XVI a é o seguin e, o am p incipais em Sal ado ,
en ão Capi al do B asil, os po os do g upo lingüís ico ban o. P o inham
majo i a iamen e da Á ica subequa o ial os ambundo e os bacongo, que
p edomina am na Bahia, enquan o que os o imbundo inham p esença mais
o e em São Paulo, Minas Ge ais e Rio de Janei o. São inequí ocas as
ma cas cul u ais deixadas pelos ban o em i mandades ca ólicas, em
eligiões adicionais sin e izadas nos candomblés Angola e Congo, em
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es as popula es e no ca na al, assim como na di usão da capoei a e do
samba.
Mas a pa i da segunda me ade do século XVIII, quando o á ico
p i ilegiou a Á ica supe equa o ial (Cos a da Mina, baía do Benim e ou os),
p edomina am en e a massa esc a a os con ingen es humanos o iginá ios das
egiões hoje co esponden es a pa es da Nigé ia e Benim (ex-Daomé), po
onde se es endiam ‘nações’ ou ‘cidades-es ado’ conhecidas como Anagó, Oyó,
Ijexá, Ke u, I é e ou as. Tudo isso cons i uía um complexo ci iliza ó io,
designado al e na i amen e pelos gené icos ‘yo uba’, ‘nagô’ ou ainda
‘sudanês’ ( ale lemb a que a pala a Sudão em do á abe ‘assuad’, que
signi ica neg o) cujos e lexos cul u ais ica am mais bem delineados na Bahia.
Esse complexo assinala a sup emacia dos po os jejes (Fon) e nagôs.
Apon a igualmen e pa a o p ocesso de a icanização de Sal ado , isado
po á ios c onis as es angei os. Em meados do século XIX, o iajan e A é
Lalleman obse a a que:
poucas cidades pode ha e ão o iginalmen e po oadas como
a Bahia. Se não se soubesse que ela ica no B asil, pode -se-ia
sem mui a imaginação omá-la po uma capi al a icana,
esidência de pode oso p íncipe neg o, no qual passa
in ei amen e despe cebida uma população de o as ei os
b ancos pu os. Tudo pa ece neg o: neg os nas p aias, neg os
na cidade, neg os na pa e baixa, neg os nos bai os al os.
Tudo o que co e, g i a, abalha, udo o que anspo a e
ca ega é neg o.
Mas a di a sup emacia nagô não elide a ma ca ci liza ó ia o e
de odas as ou as e nias a icanas: as ea os ‘ban uísmos’ que se
mul iplicam na ala b asilei a é depa a com é imos p o enien es de línguas
como quicongo, quimbundo, umbundo, quioco, onga e ou as. Candomblé,
designação gené ica pa a os cul os a o- b asilei os, é uma pala a ban o.
Na e dade, os ‘candomblés’ ou comunidades li ú gicas ma iciais,
aquelas que de am o igem à p o usão e à popula ização dos cul os a o-
b asilei os, o am esul ado de uma aglu inação eli is a, ca ac e izada pela
pa icipação undacional de al os digni á ios e sace do es do milena cul o
aos o ixás, azidos ao B asil na condição de esc a os, em conseqüência das
gue as in e é nicas e das incu sões gue ei as dos esc a agis as no Con inen e
a icano. A cidade-es ado de Ke u, como se sabe, oi conquis ada e a asada
pelo ei Ghezo, que endeu le as de ca i os aos po ugueses.
Mas a expe iência da cul u a jeje-nagô-ke u e le e exempla men e a
ances alidade e a isão-de-mundo ca ac e ís icas da ci ilização a icana. Em
o no da amília-de-san o ou das comunidades li ú gicas de o igem a icana,
popula men e conhecidas como candomblés, c iou-se um modelo singula de
o ganização social da gen e neg a. Os aços semp e isí eis dessa
Sob e a iden idade b asilei a
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singula idade ci iliza ó ia i adia am-se pa a ou as egiões nacionais, semp e
no quad o do que pode íamos chama de pac o simbólico –ou seja, uma ede
de signos e de alianças legi imado as do consenso in e cul u al (en e as
di e sas e nias de o igem a icana) e anscul u al (neg os com b ancos)–
his o icamen e es abelecido na conjun u a de o mação da sociedade nacional.
Nada dis o pode se en endido pela pu a abo dagem cul u alis a ou
olclo is a, uma ez que o pac o simbólico deco e de um agi polí ico g upal,
de na u eza ci iliza ó ia. A polí ica es á na mobilização dos ecu sos pa a a
consolidação das alianças in e nas ao g upo e nas á icas de ap oximação
com a sociedade global hegemônica. Há de a o um singula agi polí ico na
ansmissão pa imonial da li u gia neg a. Nenhum pa imônio cul u al
socialmen e ope a i o se ansmi e como um paco e ine e, um es oque de
a i os dados pa a semp e, e sim como algo que é p eciso einse i na His ó ia
p esen e, a ibuindo-lhe no os con o nos, e i i icando-o.
No caso da comunidade li ú gica neg a, aquilo que se ansmi e é o
pac o simbólico em o no da A khé, is o é, um consenso quan o a pode es
mí icos e ep esen ações que se p oje am na linguagem –a uada, p o e ida,
can ada– da comunidade e nos modos a e i os ( é, c enças, aleg ia) de
a iculação das expe iências. A khé não é o nos álgico an igo, nem qualque
apelo subs ancialis a ao p imal, mas aquilo que se sub ai às en a i as
pu amen e acionais de ap eensão, enquan o algo de undamen al de que
não se eco da, que al a, mas que se simboliza no cul o aos p incípios
cosmológicos (os o ixás, as di indades) e aos ances ais que p esen i icam os
p incípios inaugu ais.
Em e mos mais conc e os, a memó ia da A khé consis e de um
epe ó io cul u al de in ocações, saudações, can igas, danças, comidas,
lendas, pa ábolas e símbolos cosmológicos que se ansmi e inicia icamen e no
quad o li ú gico do e ei o e, no âmbi o da sociedade global, expande-se
nas desc ições e nas in e p e ações esc i as ou li escas. A ein e p e ação
a o-b asilei a dessa memó ia semp e oi, ao mesmo empo, é ico- eligiosa e
polí ica. A adição neg a inse iu-se his o icamen e na o mação social
b asilei a pa a o ien a os umos ci iliza ó ios do esc a o e seus descenden es.
Os símbolos, os desdob amen os cul u ais de um pa adigma (a A khé
a icana, mani es ada num sis ema axiológico, em que se a iculam alo es é icos,
ce imônias, sac i ícios e hie a quia) e am e são ep esen ações capazes de a ua
como ins umen os dinâmicos no jogo social de es a os economicamen e
subal e nos. De na u eza polí ica e a, assim, a lu a pa a ins i ui e aze acei a a
ealidade in e p e ada ou aduzida, que se isibiliza a como a é nos p incípios
cosmológicos, as en idades sag adas ou assim como nos ances ais ilus es.
A sociedade o icial, as in e p e ações acadêmicas cos umam
in e p e a odo esse p ocesso de ajus e ci iliza ó io como um ‘sinc e ismo’,
a o ecido pelo ca á e supos amen e benigno da ocupação colonial e pelo
espí i o de ansigência das eli es di igen es. Sinc e ismo (do g ego syn-ke ami,
‘mis u a jun o com’) implica oca de in luências, uma a e ação ecíp oca en e