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Sobre a Identidade Brasileira

Sodré, Muniz

Abstract

Na condição de sujeitos de um patrimônio civilizatório colonial, as elites brasileiras sempre tentaram pautar-se por padrões de identificação coletiva afinados com a europa, o continente da civilização branca.

Full text

Sob e a iden idade b asilei a IC - 2010 - 7 / pp. 321 - 330 ISSN: 1696 - 2508 321 SOBRE A IDENTIDADE BRASILEIRA ON BRAZILIAN IDENTITY IC - Re is a Cien í ica de In o mación y Comunicación 2010, 7, pp. 321-330 Resumo Na condição de sujei os de um pa imônio ci iliza ó io colonial, as eli es b asilei as semp e en a am pau a -se po pad ões de iden i icação cole i a a inados com a Eu opa, o con inen e da ci ilização b anca. A b anqui ude é o pa adigma an opológico hegemônico. En e an o, a miscibilidade ou i ude da mis u a é a es a égia que dá ma gem aos discu sos de conciliação das di e enças de classe e de pad ão eno ípico. As ábulas do “homem co dial”, da “con i ialidade”, do “ca á e pací ico” e da “consciência não- acis a” e e em-se a ep esen ações sensí eis e imagens do mundo deco en es dessa es a égia iden i á ia. Abs ac As subjec s o a colonial ci ilizing he i age, he B azilian eli es always ied o ep esen hemsel es by means o collec i e iden i ica ion models bo owed om Eu ope, he con inen o whi e ci iliza ion. “Whi eness” and he hegemonic an h opological pa adigm. While “mix u ism” o he i ue o mix u e is he s a egy ha gi es occasion o discou ses o concilia ion o class and pheno ypic pa e n di e ences. The ables o “co dial man”, “coexis ence”, “paci ic cha ac e ” and “non- acis consciousness” e e o sensi i e ep esen a ions and images o he wo ld s emming om his iden i y s a egy. Palab as cha e Iden idade / B anqui ude / Miscilibidade / P econcei o Keywo ds Iden i y / B azil / Na ional his o y / C ea o o souls. Muniz Sod é (Uni e sidad Fede al de Rio de Janei o) Muniz Sod é ISSN: 1696 - 2508 IC - 20 1 0 - 7 / pp. 321 - 330 322 « Fui a bo do e a esquad a pa i . Mul idão. Con a o pleno com meninas a is oc á icas. Na p ancha, ao emba ca , a ninguém pediam con i e, mas a mim pedi am. Abo eci-me. Encon ei Juca Flo es a. Fiquei omando ce eja na ba ca e sal ei. É is e não se b anco». (Ba e o, 1956, p. 130). Esse mis o de is eza, e gonha e mágoa é u o de um auma an opológico (ou é ico), capaz de le a à disc iminação do en e ma e no, como acon ece com o pe sonagem Isaías Caminha: «Embo a minha mãe i esse mo ido ha ia alguns meses, eu não inha sen ido senão uma le e e ligei a do (...) Tinha ei o chega a mim uma espécie de e gonha pelo meu nascimen o, e esse exame me eio diminui em mui o a amizade e a e nu a com que semp e en ol i a sua lemb ança (...) julga a-me a meus p óp ios olhos mui o di e so dela, saído de ou a es i pe, de ou o sangue e de ou a ca ne». (Ba e o, 1960, p. 130) Que emos sus en a , aqui, inicialmen e, que é possí el ence a seg egação acial ( al como se deu nos Es ados Unidos e na Á ica do Sul, po exemplo), mas, di icilmen e, o p econcei o. Po que es e pe sis e sob a plena igência de uma mode nidade libe al do me cado e da mídia, que é apa en emen e indi e en e à qualidade de seus con eúdos? São á ios, aliás, os au o es que assinalam a incompa iblidade da sociedade ecnológica e me cadológica com o elho p econcei o acial. Gil oy (2000), po exemplo, sus en a que: aspec os de ‘ aça’, como em sido en endida no passado, já es ão conju ados pelas no as ecnologias do sel e da espécie humana (...). As elhas e mode nas economias ep esen acionais, que ep oduzi am a ‘ aça’ subde mica e epide micamen e, es ão sendo hoje ans o madas de um lado pelas mudanças cien í icas e ecnológicas que se segui am à e olução na biologia molecula , e de ou o po uma ans o mação igualmen e p o unda nos modos como os co pos são pos os em imagem. Ambos êm ex ensi as implicações on ológicas (pp. 42-43). Apesa dessa apa en e e idência, é possí el mani es a alguma dú ida quan o à possibilidade de que se possa e e i amen e sai do p econcei o, en endendo-se po p econcei o, em sen ido la o, uma o alidade plausí el de julgamen os que se e de base pa a que possamos c e em alguma coisa. É o que asse e a Wi gens ein (1969): «Nós não ap endemos a p á ica do julgamen o empí ico, ap endendo eg as; o que nos é ensinado são julgamen os, assim como seu laço com ou os julgamen os». O pensado , pa a quem o abalho ilosó ico consis e essencialmen e em elucidações, es á-se se e e indo a qualque ipo de p econcei o, seja socialmen e posi i o ou nega i o. Sob e a iden idade b asilei a IC - 2010 - 7 / pp. 321 - 330 ISSN: 1696 - 2508 323 No caso de Lima Ba e o, apenas a ques ão acial es á em jogo, mas o p econcei o em ge al em aízes ainda mais undas e mais ex ensas, po que ele az pa e de oda ope ação de conhecimen o, do modo como adqui imos um sabe qualque . Assim é que, especulando sob e como chegamos a dize que sabemos ou emos ce eza de alguma coisa, Wi gens ein (1969) mos a que « oda e i icação do que se admi e como e dade, oda con i mação ou in alidação acon ecem no in e io de um sis ema (...). O sis ema não é an o o pon o de pa ida dos a gumen os quan o o seu meio i al» (p. 57). Ele oma como exemplo o adul o que diz a uma c iança já e es ado em de e minado plane a. C édula, a c iança ejei a a p incípio ou os a gumen os con á ios, mas, dian e de uma ce a insis ência, pode e mina se con encendo da impossibilidade de al iagem. O ilóso o indaga en ão se a ei e ação não é exa amen e a manei a de se ensina uma c iança a c e ou não c e em Deus, e daí, a pa i de qualque uma das c enças, se p oduzi em azões apa en emen e plausí eis. Wi gens ein (1969) não es á, de modo nenhum, a ibuindo qualque alo cogni i o à es é ica (en endida como a dimensão do sensí el e po ele iden i icada com a é ica). Mas pa a começa mos a c e em alguma coisa, diz, é p eciso que uncione aquele ‘meio i al’ dos a gumen os, que não consis e de uma p oposição isolada, mas de um ‘in ei o sis ema de p oposições’, mu uamen e apoiadas, de al manei a que «a luz se expanda g adualmen e sob e o odo» (p. 51). O que az ixa -se a c ença não é uma qualidade in ínseca de cla eza da p oposição, mas a solidez do sis ema. Não se a a, po an o, de sabe o que se diz sabe , e sim de acei a como solidamen e ixado aquilo que já se sabe. E po que esse sabe se ixa? Po con iança na au o idade das on es, po aquilo que se ansmi e de uma ce a manei a, is o é, no in e io de uma o alidade, um meio, ido como i al, po se on e de azoabilidade e a e o, logo, de con encimen o. Diz ele: «É assim que eu c eio em a os geog á icos, químicos, his ó icos, e c. É assim que eu ap endo ciências. E cla o, ap ende apóia-se na u almen e em c e » (p. 63). Dize que se sabe alguma coisa equi ale a e a coisa como ce a, mas a ce eza es á em quem c ê, logo numa dimensão inde inida ou obscu a, e não no undamen o acionalis a e anspa en e da c ença. Des e modo, uma iolência his ó ica como a seg egação acial pode acaba , mas deixando in ac o o ‘meio i al’, uma espécie de manei a ou jei o social, onde p ospe a um ce o ipo de sensibilidade que alimen a as c enças sob e a in e io idade humana do Ou o, seja o neg o ou qualque ou a con igu ação da di e sidade humana. Num abalho sob e iden idade nacional, p ocu amos incula o jei o b asilei o à ein e p e ação his ó ica de uma o ma social c is alizada na Península Ibé ica e aqui ansplan ada pelo Es ado po uguês. Rein e p e a-se no e i ó io b asilei o a es u u a do luso-pa imonialismo o iginá io, não necessa iamen e de Muniz Sod é ISSN: 1696 - 2508 IC - 20 1 0 - 7 / pp. 321 - 330 324 modo lógico ou cien í ico, e sim do modo como os homens p e e encialmen e o denam a sua expe iência i ida, is o é, em o mas na a i as a ualizadas em mi os, lendas, ela os his ó icos e ob as li e á ias. O es amen o pa imonialis a que di ige o país desde a sua undação em na ado uma his ó ia sob e a nação b asilei a, em que es a úl ima apa ece ca ac e izada po aços de uma mesma o ma social. Nela, udo pa ece conco e pa a a hib idização ou a mes içagem de elemen os he e ogêneos. Numa empo alidade e e nizada, ípica da lógica pa imonial, ein e p e am-se ce os aços (documen os, ex os, idéias, o mas de sensibilidade) como uma ligação é ica en e passado e p esen e. Na a iedade dos ela os, a solução de comp omisso, a ansigência, cons i uem um pólo de c is alização de iden idade nacional. Subjazem à consciência dessa his o icidade ex os, mas ambém a e os, pulsões, in luências eligiosas e coisas não-di as. De onde em essa ansigência? De o ma mani es a, da miscibilidade, a i ude da mis u a, p esen e no pa imonialismo po uguês. De o ma la en e, mui o p o a elmen e, do espí i o de comp omisso e ansigência da dou ina co ânica (e não islâmica), que imp egnou as o mas de ida na Península Ibé ica du an e mui os séculos. Pe ence a esse espí i o a acei ação de isi as à eligião do ou o, sem que isso aca e e julgamen os de in idelidade, po que a ansigência não se a alia po é ica, mas po me a ísica ou po es é ica. O a o co ânico e a de anca abe u a pa a linhas-de- uga, pa a ou as p á icas sócio- eligiosas. O pa imonialismo b asilei o é a ein e p e ação sócio-polí ico- cul u al desse e hos de ansigência e pe meação, ansmi ido po aços mani es os e la en es na dinâmica in e ge acional dos sujei os do pa imônio. O ‘jei inho’, a p opalada con i ialidade são o mas socialmen e sensí eis dessa ein e p e ação. Mas es e pano de undo his ó ico o nece apenas um quad o in e p e a i o pa a o enômeno. Se á semp e necessá io de e mina conc e amen e como esse e hos ( ei o de hábi os, ges os, paixões) imp egna e modela os luga es, as elações e, e iden emen e, o que se passa no ní el pe cep í el da ida social. As ábulas do ‘homem co dial’, da ‘con i ialidade’, do ‘ca á e pací ico’, da ‘consciência não- acis a’, do ‘jei inho’ e e em-se a ep esen ações sensí eis, imagens do mundo e de suas elações. Não são concei os, e sim insc ições de compo amen os mais coe en es no plano do apa ece do que do se , is o é, na manei a de e elação da o ma. Implica, po an o, como a dimensão da sensibilidade, uma escu a especial da ala do ou o. En a no jogo do jei o sensí el é p es a -se à in e p e ação daquilo que no ou o se ap esen a socialmen e como inde e minado, is o é, como alguma coisa aquém e além das g ades de sen ido que a no ma socie á ia aplica à ‘socialidade’, ao que es á a meio caminho en e in aes u u a e supe es u u a. Daí esul a um imaginá io cole i o, mas igualmen e um ‘meio i al’ pa a os a gumen os sob e a b asilidade, onde a iden idade cole i a é igu ada como um ese a ó io de o mas simbólicas capazes de ‘azei a ’, as es u u as sócio-econômico-cul u ais. Sob e a iden idade b asilei a IC - 2010 - 7 / pp. 321 - 330 ISSN: 1696 - 2508 325 Do pon o de is a do po o comum, udo isso soa, em p incípio, como on e de au o-es ima. Do lado do pode cons i uído, como es a égia des inada a o na acei á el o peso de ins i uições o mais com as quais, na maio ia das ezes, o sujei o da ida conc e a nada em a e . Essa a mos e a a e i a é incompa í el com a seg egação acial (a despei o de uma cla a seg egação espacial nos g andes cen os u banos, po inexis ência de polí icas habi acionais democ á icas), nos e mos em que es a se conc e izou nos Es ados Unidos ou na Á ica do Sul. Mas é pe ei amen e compa í el com o p econcei o de ânsi o ácil nas ep esen ações sob e os descenden es de a icanos, p esen es no ‘meio i al’. Encobe o pela ca na alização das nossas elações sociais, esse p econcei o é mais silencioso do que alan e e, al ez po is o, demande pe e samen e como con apa ida o silêncio do Ou o, po an o a sua ‘inocência’, no que diz espei o à dimensão acial das desigualdades sociais. Na pequena classe média, nos segmen os icos da população, em cí culos in elec uais de esque da ou de di ei a, en a-se semp e ecalca a e idência dessas desigualdades, que anspa ece na imedia ez dos a os sociais ou nos discu sos que algumas lide anças neg as p oduzem sob e a condição his ó ica do a odescenden e. Ce ca de meio século a ás, o sociólogo Cos a Pin o (1988), au o de um celeb ado es udo sob e o neg o no Rio de Janei o, iden i ica a qualque mo imen o social a o-b asilei o como ‘ acismo às a essas’. Dizia ele: «Du ido que haja biologis a que depois de es uda , digamos, um mic óbio, enha is o esse mic óbio oma da pena e i a público esc e e sandices a espei o do es udo do qual ele pa icipou como ma e ial de labo a o io» (p. 99). Em ou as pala as, o neg o não de e ia sai da inocência, não de e ia seque ala sob e si mesmo, pa a não queb a o impe a i o do silêncio que pesa sob e odo bom obje o de ciência. Pa a quem possa a gumen a que es e é um discu so do passado, eja-se a ala de um jo nalis a e in elec ual de esque da no ano de 2003: «Não somos nem b ancos nem neg os –– somos mes iços. Biológica e cul u almen e mes iços. Aqui, mais do que em qualque ou o luga , a en a i a de cons i ui uma iden idade baseada na ‘ aça’ é especialmen e eacioná ia. A a i mação, que an as ezes já ou i, de que o B asil é o país mais acis a do mundo, é uma pa é ica mani es ação do nosso espo e nacional a o i o –– ala mal de nós mesmos» (Benjamin, 2003, p. 25). São ce amen e bem di e en es as ci cuns âncias his ó icas em que se p oduzem esses dois enunciados. O li o de Cos a Pin o da a de uma época em que escolas pa icula es ainda excluíam abe amen e c ianças neg as, con o me denúncia, em 1950, do depu ado Jonas Co eia na Câma a dos Depu ados de São Paulo. Em 2003, isso já não é mais possí el, pelo menos em e mos ão abe os, de ido à popula ização das dou inas de ansigência (Gilbe o F ey e, Jo ge Amado e ou os) e, p incipalmen e, ao a anço conside á el da mo imen ação a o-b asilei a no país. No Muniz Sod é ISSN: 1696 - 2508 IC - 20 1 0 - 7 / pp. 321 - 330 326 en an o, a cons i uição de uma iden idade baseada na ‘ aça’ (quando es e concei o já en ou em desc édi o gené ico e an opológico) é a o co en e na imp ensa: o ex o jo nalís ico cos uma iden i ica pessoas pela co da pele apenas quando se a a de neg os. O sujei o de pele cla a não é jamais e nicamen e iden i icado. É, assim, di ícil sabe quem é neg o ou quem é b anco? Pois bem, consul e-se a p á ica de edação dos jo nais, obse em-se os c i é ios de seleção p o issional das emp esas, ou en ão se pe gun e a um po ei o de edi ício de luxo quem ele manda ia en a pela po a dos undos, se não hou esse a ‘Lei Caó’. Es a, pelo menos, é a solução que qualque pensado neop agma is a da ia ao impasse. En e an o, a ala do jo nalis a e in elec ual de esque da é a mesma de ou as, o iciais ou não, como a do p esiden e Fe nando Hen ique Ca doso na abe u a das comemo ações dos cinco séculos de exis ência do B asil: «Somos al ez a maio nação mul i acial e mul icul u al do mundo ociden al, senão em núme o de habi an es, na capacidade in eg ado a da ci ilização que undamos. Essa di e sidade e sua mes içagem cons i uem a ma ca do nosso po o, o o gulho de nosso país, o emblema que sus en amos no pó ico do século». O B asil não é, e iden emen e, o «país mais acis a do mundo», nem exis e a pola ização neg o-b anco, que é undacional num país como os Es ados Unidos. Con ém, po ém, e em men e a obse ação de Tze e an Todo o de que «o acismo não p ecisa da exis ência de aças». Do pon o de is a do indi íduo de pele escu a, é e iden e a exis ência de um mal- es a é ico e an opológico, que nenhum discu so denega ó io, seja ele de esque da ou de di ei a, consegue ocul a . Mas como o discu so é p á ica (em ní eis conscien e e subconscien e) des inada a na u aliza e ixa os signi icados de um ‘meio i al’ em posições a ins às elações de pode , sua o ien ação ideológica não é nada e iden e pa a quem já nasce com o ‘pa imônio’ da pele cla a, o undo de p econcei os esponsá el pela o alidade de julgamen os que p oduz a c ença em alguma coisa. A c ença, po exemplo, de que não há acismo no B asil e de que, po an o, logicamen e, não se de e le an a a ques ão. Wi gens ein (1969), uma ez mais: «O que não pode se di o, de e-se cala ». O que em sido his o icamen e calado é o discu so sob e a dimensão ci iliza ó ia, mais do que a cul u al, na ques ão do neg o. Ci ilização, uma espécie de ‘en idade cul u al mais ampla’, é o concei o pa a odo pad ão de conquis as ma e iais (econômicas, cien í icas, ecnológicas, e c.), alcançado po po os ou países ag upados segundo ances alidade, his ó ia, eligião, cos umes e alo es comuns. A ci ilização, po sua ampli ude, ap esen a-se como mais echada e menos mu á el do que a ‘cul u a’, en endida como dinâmica das ocas, dos emp és imos e das mudanças. Toda cul u a é, no limi e, ‘an opo ágica’, is o é, enden e a abso e o Ou o que lhe ape ece e não apenas a b asilei a, como p oclama am os nossos mode nis as. Sob e a iden idade b asilei a IC - 2010 - 7 / pp. 321 - 330 ISSN: 1696 - 2508 327 Acon ece que as eli es b asilei as, sujei os de um pa imônio ci iliza ó io colonial, semp e en a am pau a -se po pad ões de iden i icação cole i a a inados com a Eu opa, o con inen e da ci ilização b anca. A b anqui ude é o pa adigma an opológico hegemônico, é como se a pele b anca cons i uísse uma espécie de Ociden e absolu o. Como udo is o ansco e num ‘meio i al’ a a essado pela cul u a da conciliação e da ansigência pa imonialis as, ese ou-se um luga pa a a mis u a dos enó ipos (a co da pele), pa a a coop ação mi igada do Ou o da co . Coop am-se os indi íduos, mas a ilusão ci iliza ó ia (a idealidade eu ocên ica) ica p ese ada. É como se o sujei o de pele cla a dissesse: esse Ou o (o neg o) es á en e nós, mas não é um de nós. Nos Es ados Unidos, o impasse esol eu-se em sepa a ismo, a pa i de uma linha de di e ença sanguínea es abelecida pelo sis ema chamado Jim C ow: o Ou o não é ‘um de nós’, mas é alguma coisa -neg o, hispano, e c.- a se apenas man ida à dis ância. Na solução b asilei a ( ansigen e, uma ez que o sepa a ismo não en ou no ajus e ci iliza ó io), p oclama-se a p oximidade do Ou o, mas sem ealmen e deixá-lo se enquan o al, econhecê-lo como singula , como um qualque , do ado de ala p óp ia. Pode-se de ec a o ge me dessa condição na An iguidade g ega, onde o esc a o podia con i e com o cidadão, memb o da es i pe hegemônica, mas sem e cidadania. Po que? Po que e a aneu logou, is o é, desp o ido de pala a. O esc a o, o es angei o podiam ala a língua g ega, mas não possuí-la, o que e a apanágio da eli e. A disc iminação e a, assim, ao mesmo empo, polí ica e es é ica, no sen ido adical des a úl ima pala a –uma a aliação sensí el sob e a di e ença. Um ou o pad ão Se aqui não se ac edi a, e com azão, nessa a sa essencialis a chamada ‘ aça’, ac edi a-se, en e an o, na ‘ elação acial’, is o é, a elação social em que se hie a quizam desde o nascimen o as an agens pa imoniais, segundo a g adação da co da pele, do mais escu o pa a a sublimidade do mais cla o. Ten a-se, ao mesmo empo, ocul a a dissime ia, impedindo o neg o de mani es a -se como cole i o di e encian e, o a da es e a lúdica. Ocupando pela ala o espaço público, o a odescenden e pode indica a exis ência de um ou o pad ão ci iliza ó io, não dominan e, mas p edominan e nas o mas de ida do po o nacional. Ressoa ainda hoje a ase do abolicionis a Joaquim Nabuco: «Os neg os de am um po o ao B asil». Esse ou o pad ão chegou aqui com a diáspo a esc a a, po an o. Reco demos. Do século XVI a é o seguin e, o am p incipais em Sal ado , en ão Capi al do B asil, os po os do g upo lingüís ico ban o. P o inham majo i a iamen e da Á ica subequa o ial os ambundo e os bacongo, que p edomina am na Bahia, enquan o que os o imbundo inham p esença mais o e em São Paulo, Minas Ge ais e Rio de Janei o. São inequí ocas as ma cas cul u ais deixadas pelos ban o em i mandades ca ólicas, em eligiões adicionais sin e izadas nos candomblés Angola e Congo, em Muniz Sod é ISSN: 1696 - 2508 IC - 20 1 0 - 7 / pp. 321 - 330 328 es as popula es e no ca na al, assim como na di usão da capoei a e do samba. Mas a pa i da segunda me ade do século XVIII, quando o á ico p i ilegiou a Á ica supe equa o ial (Cos a da Mina, baía do Benim e ou os), p edomina am en e a massa esc a a os con ingen es humanos o iginá ios das egiões hoje co esponden es a pa es da Nigé ia e Benim (ex-Daomé), po onde se es endiam ‘nações’ ou ‘cidades-es ado’ conhecidas como Anagó, Oyó, Ijexá, Ke u, I é e ou as. Tudo isso cons i uía um complexo ci iliza ó io, designado al e na i amen e pelos gené icos ‘yo uba’, ‘nagô’ ou ainda ‘sudanês’ ( ale lemb a que a pala a Sudão em do á abe ‘assuad’, que signi ica neg o) cujos e lexos cul u ais ica am mais bem delineados na Bahia. Esse complexo assinala a sup emacia dos po os jejes (Fon) e nagôs. Apon a igualmen e pa a o p ocesso de a icanização de Sal ado , isado po á ios c onis as es angei os. Em meados do século XIX, o iajan e A é Lalleman obse a a que: poucas cidades pode ha e ão o iginalmen e po oadas como a Bahia. Se não se soubesse que ela ica no B asil, pode -se-ia sem mui a imaginação omá-la po uma capi al a icana, esidência de pode oso p íncipe neg o, no qual passa in ei amen e despe cebida uma população de o as ei os b ancos pu os. Tudo pa ece neg o: neg os nas p aias, neg os na cidade, neg os na pa e baixa, neg os nos bai os al os. Tudo o que co e, g i a, abalha, udo o que anspo a e ca ega é neg o. Mas a di a sup emacia nagô não elide a ma ca ci liza ó ia o e de odas as ou as e nias a icanas: as ea os ‘ban uísmos’ que se mul iplicam na ala b asilei a é depa a com é imos p o enien es de línguas como quicongo, quimbundo, umbundo, quioco, onga e ou as. Candomblé, designação gené ica pa a os cul os a o- b asilei os, é uma pala a ban o. Na e dade, os ‘candomblés’ ou comunidades li ú gicas ma iciais, aquelas que de am o igem à p o usão e à popula ização dos cul os a o- b asilei os, o am esul ado de uma aglu inação eli is a, ca ac e izada pela pa icipação undacional de al os digni á ios e sace do es do milena cul o aos o ixás, azidos ao B asil na condição de esc a os, em conseqüência das gue as in e é nicas e das incu sões gue ei as dos esc a agis as no Con inen e a icano. A cidade-es ado de Ke u, como se sabe, oi conquis ada e a asada pelo ei Ghezo, que endeu le as de ca i os aos po ugueses. Mas a expe iência da cul u a jeje-nagô-ke u e le e exempla men e a ances alidade e a isão-de-mundo ca ac e ís icas da ci ilização a icana. Em o no da amília-de-san o ou das comunidades li ú gicas de o igem a icana, popula men e conhecidas como candomblés, c iou-se um modelo singula de o ganização social da gen e neg a. Os aços semp e isí eis dessa Sob e a iden idade b asilei a IC - 2010 - 7 / pp. 321 - 330 ISSN: 1696 - 2508 329 singula idade ci iliza ó ia i adia am-se pa a ou as egiões nacionais, semp e no quad o do que pode íamos chama de pac o simbólico –ou seja, uma ede de signos e de alianças legi imado as do consenso in e cul u al (en e as di e sas e nias de o igem a icana) e anscul u al (neg os com b ancos)– his o icamen e es abelecido na conjun u a de o mação da sociedade nacional. Nada dis o pode se en endido pela pu a abo dagem cul u alis a ou olclo is a, uma ez que o pac o simbólico deco e de um agi polí ico g upal, de na u eza ci iliza ó ia. A polí ica es á na mobilização dos ecu sos pa a a consolidação das alianças in e nas ao g upo e nas á icas de ap oximação com a sociedade global hegemônica. Há de a o um singula agi polí ico na ansmissão pa imonial da li u gia neg a. Nenhum pa imônio cul u al socialmen e ope a i o se ansmi e como um paco e ine e, um es oque de a i os dados pa a semp e, e sim como algo que é p eciso einse i na His ó ia p esen e, a ibuindo-lhe no os con o nos, e i i icando-o. No caso da comunidade li ú gica neg a, aquilo que se ansmi e é o pac o simbólico em o no da A khé, is o é, um consenso quan o a pode es mí icos e ep esen ações que se p oje am na linguagem –a uada, p o e ida, can ada– da comunidade e nos modos a e i os ( é, c enças, aleg ia) de a iculação das expe iências. A khé não é o nos álgico an igo, nem qualque apelo subs ancialis a ao p imal, mas aquilo que se sub ai às en a i as pu amen e acionais de ap eensão, enquan o algo de undamen al de que não se eco da, que al a, mas que se simboliza no cul o aos p incípios cosmológicos (os o ixás, as di indades) e aos ances ais que p esen i icam os p incípios inaugu ais. Em e mos mais conc e os, a memó ia da A khé consis e de um epe ó io cul u al de in ocações, saudações, can igas, danças, comidas, lendas, pa ábolas e símbolos cosmológicos que se ansmi e inicia icamen e no quad o li ú gico do e ei o e, no âmbi o da sociedade global, expande-se nas desc ições e nas in e p e ações esc i as ou li escas. A ein e p e ação a o-b asilei a dessa memó ia semp e oi, ao mesmo empo, é ico- eligiosa e polí ica. A adição neg a inse iu-se his o icamen e na o mação social b asilei a pa a o ien a os umos ci iliza ó ios do esc a o e seus descenden es. Os símbolos, os desdob amen os cul u ais de um pa adigma (a A khé a icana, mani es ada num sis ema axiológico, em que se a iculam alo es é icos, ce imônias, sac i ícios e hie a quia) e am e são ep esen ações capazes de a ua como ins umen os dinâmicos no jogo social de es a os economicamen e subal e nos. De na u eza polí ica e a, assim, a lu a pa a ins i ui e aze acei a a ealidade in e p e ada ou aduzida, que se isibiliza a como a é nos p incípios cosmológicos, as en idades sag adas ou assim como nos ances ais ilus es. A sociedade o icial, as in e p e ações acadêmicas cos umam in e p e a odo esse p ocesso de ajus e ci iliza ó io como um ‘sinc e ismo’, a o ecido pelo ca á e supos amen e benigno da ocupação colonial e pelo espí i o de ansigência das eli es di igen es. Sinc e ismo (do g ego syn-ke ami, ‘mis u a jun o com’) implica oca de in luências, uma a e ação ecíp oca en e