scieee Science in your language
[po] (orig)

Forum Sociológico (2013) N.º 23

Read accessible full text

Forum Sociológico (2013) N.º 23

Author: Nunes, João Sedas
Publisher: CesNova – Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa
Year: 2013
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/138419/1/2013_FS23.pdf
Sociológico
FORUM
CESNOVA – G.T. MUNDOS SOCIAIS, TRAJETÓRIAS E MOBILIDADES
SÉRIE II N.º 23

2013
Fundado Moisés Espí i o San o
Di e o João Sedas Nunes
Conselho de Redação Ana Alexand e Fe nandes | ISCSP-UTL; Pa ícia Pe ei a | FCSH-UNL; João
Ped o Sil a Nunes | DINÂMIA-CET; João Sedas Nunes | FCSH-UNL; José
Albe o Simões | FCSH-UNL; José Manuel Resende | FCSH-UNL; Miguel
Cha es | FCSH-UNL; Luís Vicen e Bap is a | FCSH-UNL; Ma ia Leono
Sampaio | FCSH-UNL; Luís Gou eia | FCSH-UNL
Sec e a iado Ví o Pi es de And ade
Luís Gou eia
Conselho Edi o ial Alain Bou din | IFU-Pa is 8; Ana Nunes de Almeida | ICS-UL; Anália
To es | ISCSP-UTL; An ónio Fi mino da Cos a | ISCTE; Ca los Miguel
Fe ei a | ULHT; G aça Índias Co dei o | ISCTE; Hugo Mendes | Min.
Educ.; Isabel Dias | FLUP; Joan Josep Pujadas | URV, Ta agona; João
Gonçal es | FCSH; João Teixei a Lopes | FLUP; Jose Luís Vei a | UDC, A
Co uña; Loïc Wacquan | Uni . Cali ó nia, Be keley-USA; Luc Bol anski | EHESS-
-GSPM, Pa is; Luís Rod igues | FCSH-UNL; Manuel Ca los Sil a | ICS-Uni .
Minho; Ma ia Alice Noguei a | FE-UFMG B asil; Ma ia Manuel Viei a | ICS-
-UL; Nicolas Dodie | EHESS-Pa is; Pa ick Rayou | IUFM-C é eil; Rui Telmo
Gomes | OAC-Lisboa; Tim Siebe | Uni . Massachuse s, Bos on-USA; Vi gínia
Coelho | FCSH-UNL
Logo ipo e Capa Ca olina Bas o
Re isão de ex o Anabela P a es Ca alho
Edi o CesNo a – Cen o de Es udos de Sociologia da Uni e sidade No a de Lisboa
G upo de T abalho: Mundos Sociais, T aje ó ias e Mobilidades
Edi ício I&D, A enida de Be na, n.º 26
1069-061 Lisboa
Tele one: 00351 21 790 83 00 (ex . 1488)
Fax: 00351 21 790 83 08
Email: [email p o ec ed]
Si e: h p:// o umsociologico. csh.unl.p
Apoios A publicação des e núme o oi apoiada pela Fundação pa a a Ciência e
a Tecnologia, a a és do p oje o es a égico 2011/2012 do CesNo a
FCSH/UNL.
Execução V. Albe o San os
Depósi o Legal N.º 64682/93
ISSN 0872-8380
Sociológico
FORUM
CESNOVA – GT MUNDOS SOCIAIS, TRAJETÓRIAS E MOBILIDADES
SÉRIE II N.º 23

2013
A e is a Fo um Sociológico oi undada em 1992, a a és da c iação do
Ins i u o de Es udos e Di ulgação Sociológica (IEDS), po inicia i a de alguns
p o esso es do Mes ado em Sociologia Ap o undada e Realidade Po uguesa,
en ão em cu so na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade
No a de Lisboa (FCSH-UNL). Uma p imei a sé ie oi publicada a é 1995 e inha
como p oje o edi a pequenos ex os ela i os a pesquisas em cu so, omen ando
discussões e deba es em o no de ques ões canden es das Ciências Sociais.
Após es e p imei o ciclo de publicações a e is a es e e ina i a du an e
ce ca de ês anos. No decu so do ano le i o 1998-1999, uma equipa eno-
ada de p o esso es e in es igado es mobilizou-se pa a a ea i a . Apesa das
di i culdades logís icas e i nancei as, oi possí el conc e iza es e p oje o, que
en oncou na c iação da Unidade de In es igação da FCSH-UNL Fo um Socio-
lógico – Cen o de Es udos.
A 2.ª Sé ie da e is a Fo um Sociológico, iniciada em 1999, man e e
os obje i os inicialmen e de i nidos e p opôs-se ainda acen ua o seu cunho
cien í i co, a ibu o undamen al pa a a sua a i mação pública. Es a sé ie co-
nhece ago a uma no a ase, susci ada pela usão ins i ucional em que emba -
cou a unidade de in es igação a que es a a ligada. A ualmen e, a e is a
é uma publicação do ecém-c iado G upo de T abalho Mundos Sociais,
T aje ó ias e Mobilidades do Cen o de Es udos em Sociologia da Uni e si-
dade No a de Lisboa (CesNo a) e sendo disponibilizada on-line no ende eço
h p:// o umsociologico. csh.unl.p .
A Fo um Sociológico pau a-se po habi uais pad ões in e nacionais de
edição, nomeadamen e subme endo as p opos as de publicação que lhe são
ap esen adas a á bi os cien í i cos ( e e ees) concei uados que a aliam a qua-
lidade dos a igos a publica .
P eside ainda à e is a a ideia de que se cons i ua como ó um pe manen e
de discussão, deba e e e l exão sob e a sociedade po uguesa mas ambém
sob e ou as sociedades, dando luga à c í ica cien í i ca e undamen ada. Nes e
sen ido, a e is a acolhe a igos assinados po in es igado es de múl iplas
o ien ações e i liações ins i ucionais e cien í i cas, que po ia do seu abalho
deem mos as de se comp ome e em com o p og esso da azão cien í i ca em
ciências sociais.
ESTATUTO EDITORIAL

ÍNDICE
Edi o ial ....................................................................................................................................
A igos
A igos
Es ado Social e Alimen ação Escola : c ia i idade na aus e idade
Mónica T uninge , José Teixei a, Ana Ho a, Síl ia Alexand e e Vanda A. da Sil a ....................
En e dons: i ine á io de pesquisa sob e solida iedades amilia es no desemp ego
Isabel Ma çano ...............................................................................................................
P á icas cul u ais dos jo ens das classes sociais dominan es: e l exões em o no do ecle ismo
cul u al
Ma ia Luísa Qua esma .....................................................................................................
No as pe spe i as sob e as iden idades de classe
José Ca alei o Rod igues ..................................................................................................
O luga do consumo na p oblemá ica iden i á ia con empo ânea
C is ina San os ...............................................................................................................
De lo só dido a lo in age, de la ma ginalización a la dis inción. Gen i i cación y ocio noc u no
en Cais do Sod é, Lisboa
Jo di No e .....................................................................................................................
Cidadãos, écnicos e polí icos: do que alamos, quando alamos de pa icipação pública?
Cecília Delgado ...............................................................................................................
A ipla ace da on ei a: e l exões sob e o dinamismo das elações on ei iças
a pa i de ês modelos de análise
Ca la Ladei a Pimen el Águas ............................................................................................
TIC no ensino secundá io: usos e mediações
Nuno de Almeida Al es, Ped o Ab an es, Ca la F. Rod igues e Paulo Coelho Dias .....................
As a es de aze o comum nos es abelecimen os de ensino: ou as abe u as sociológicas
sob e os mundos escola es
José Manuel Resende e Luís Gou eia .................................................................................
P ocessos no empo: uma e l exão sob e o alo que a his ó ia ac escen a à sociologia,
a pa i do magis é io de Vi o ino Magalhães Godinho
Augus o San os Sil a .......................................................................................................
7
11
21
31
41
51
59
69
77
87
97
107
EDITORIAL
7
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
p. 7
EDITORIAL
O
O
p esen e núme o – 23 – di e ge do o -
ma o edi o ial que em pau ado a Fo um
Sociológico desde que, em 1999, a
sua IIª sé ie oi inaugu ada. A no idade é que o
núme o não con ém dossiê, sendo in eg almen e
compos o po a igos a ulsos, p ecisamen e onze.
Es a especi i cidade, po ém, não signi i ca uma in l exão
“singula is a” da polí ica edi o ial da Fo um Socioló-
gico. Já no p óximo núme o e oma -se-á o modelo
que ecob iu os p imei os in e e dois núme os da
IIª sé ie.
A inexis ência de um dossiê, econheça-se:
semp e on e de (ac escido) conce o e consis ência,
p opiciou uma excecional plu alização do con eúdo
do núme o que o a se publica. No domínio dos
a igos, comp eende emas di e sos embo a não
a o con e gen es que quan o ao obje o a ado
(escola, classes sociais, p á icas cul u ais, e c.)
que quan o a pe spe i as de análise emp egues
(p eponde ando en oques cons u i is as). B e e-
men e, abo dam-se nes e núme o: os e ei os que
a e ação do Es ado Social em Po ugal exe ce
sob e as o mas ins i ucionais que se acomodam
na p o isão da alimen ação escola pública; o papel
suple i o das solida iedades amilia es à p o eção
social do Es ado pe an e o desemp ego; as p á icas
e as disposições cul i adas dos jo ens das classes
dominan es; a sob ede e minação “indi idualis a”
das iden idades de classe con empo âneas; a
cen alidade do consumo nas cons uções iden-
i á ias con empo âneas; a análise de p ocessos
de gen i i cação pola izados na es u u ação da
ludicidade u bana no u na; as (in)de e minações
da pa icipação pública e dos seus p o agonis as;
as insc ições semân icas e concep uais da noção
de on ei a e as suas po encialidades heu ís icas;
a di e sidade dos egimes de acção pedagógica
que en ol em as TIC (Tecnologias de In o mação
e Comunicação) acionados em con ex os escola es;
las bu no leas , a pene ação dos juízos c í icos
es udan is po g amá icas mo ais plu ais como meio
pa a es i ui cul u as escola es incomp eensí eis
à pe ceção adul a.
A pa des e conjun o de a igos o n.º 23 inclui
o ex o in eg al da con e ência de abe u a do ano
escola de 2011/12 da Sociologia da No a, p o e ida
po Augus o San os Sil a, in i ulada P ocessos no
empo: uma e l exão sob e o alo que a his ó ia
ac escen a à sociologia, a pa i do magis é io de
Vi o ino Magalhães Godinho, mui o jus amen e dedi-
cada a es e úl imo alecido em 26 de Ab il de 2011.
Di -se-á, com igo , mais um obje o a densi i ca a
he e ogeneidade que ca a e iza o núme o.
Mas não é só – ou an o! – pela o iginalidade
des acada que es e núme o é da maio impo ância
pa a odos aqueles que êm esponsabilidades na sua
edição. Há duas ou as azões que se lhe sob epõem.
Po um lado, es e é o núme o que põe a e is a
em dia – no seu momen o mais di ícil publicámo-la
quase com ês anos de a aso – ao mesmo empo
que auspicia o eg esso à pe iodicidade semes al
que que emos ainda es e ano (2013) conc e iza .
Po ou o lado, o n.º 23 cons i ui ambém –
impo a essal á-lo – o segundo a da à es ampa sem
quaisque condicionalismos (quan o a cus o de acesso
e di e imen o empo al) em h p://www.sociologico.
e ues.o g. Como se não osse mo i o bas an e de
egozijo, es a possibilidade de associação ao sí io
e ues.o g, p opo cionada po colabo ação p eciosa
com o p oje o/po al OpenEdi ion (h p://www.
openedi ion.o g/), a cuja equipa es amos de e as
g a os, pe mi e à e is a insc e e -se numa banda
de indexação bem mais ampla do que an es acon-
ecia. Além dos mo o es de busca ge ais (Google) e
cien í i cos (Google Schola , Base, OAIs e , Sci us), a
e is a passa a in eg a lis as de ligações especia-
lizadas (In u e, DOAJ) e bases de dados cien í i cas
nacionais e in e nacionais (Sudoc, Wo ldCa , EZB,
Jou nal TOCs). Ac esce a sua inclusão nos ca álogos
dos p es ado es de se iços a biblio ecas (Se ials
Solu ions, Ex-Lib is).
Es amos, aliás, em c e que o mais a da em
2014 ha e á (mais) no idades quan o à indexação
da e is a.
Es ão assim, c emos, c iadas as condições
logís icas pa a que a Fo um Sociológico se possa
i ma como um dos pe iódicos de ciências sociais
publicados em língua po uguesa de e e ência
in e nacional, a aindo lei o es exigen es e au o es
p es igiados.
Fica aqui o con i e a od@s pa a que nos isi em
e connosco colabo em, lendo a e is a, en iando
o iginais pa a publicação, ecensões c í icas ou
comen á ios, e dando a conhece os seus con eú-
dos a a és das edes cien í i cas e sociais em que
es ão inse idos.
João Sedas Nunes
ESTADO SOCIAL E ALIMENTAÇÃO ESCOLAR: CRIATIVIDADE NA AUSTERIDADE
15
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 11-19
os hábi os alimen a es de c ianças e amílias em
con ex os sociodemog á i cos di e enciados, o am
selecionadas oi o escolas do Ensino Básico público
(1.º, 2.º e 3.º ciclos) si uadas em zonas das egiões
de Lisboa, No e e Madei a, com pe i s con as an es
que obedece am aos seguin es c i é ios de escolha:
eco e u bano/subu bano; p oximidade de bai os
sociais com população mul icul u al; p oximidade de
á eas cujas amílias são ca ac e izadas po de e em
ele ados ní eis de capi ais económico, cul u al e
social; inse ção em p og amas de p omoção da
saúde escola ; di e en es ipos de con a ualização
das suas e eições (con eção local e com cozinha
p óp ia; ou com o se iço de e eições subcon a ado
a uma emp esa de ca e ing). O ma e ial empí ico oi
ecolhido en e No emb o de 2011 e Ab il de 2013,
o qual consis iu em en e is as com os p o esso-
es e pessoal de cozinha das oi o escolas. Fo am
ainda ealizadas en e is as com ep esen an es
dos se iços públicos de educação e saúde, das
câma as municipais com compe ência di e a sob e
a ges ão das e eições das escolas selecionadas do
1.º ciclo, com uncioná ios e memb os da di eção das
escolas, bem como com uncioná ios das emp esas
de ca e ing. As dimensões de análise cob i am as
opiniões sob e os hábi os alimen a es das c ianças
e e en uais mudanças com a en ada em igo de
inicia i as de p omoção de alimen ação saudá el;
os e ei os da c ise económica na o ganização da
alimen ação escola ; as p io idades p esen es e
u u as no que espei a à qualidade alimen a nas
escolas; os cons angimen os e limi es à ação pa a
a melho ia da alimen ação escola ; as inicia i as
e a anjos c ia i os nas escolas pa a con o na os
e ei os das es ições o çamen ais do Es ado. Todo o
ma e ial quali a i o ecolhido oi ansc i o e sujei o
a análise de con eúdo a a és do so wa e NVi o 10.
No p óximo pon o analisam-se di e en es
a anjos c ia i os alocados na ede de p o isão
es a al, bem como nas que eme gem de pa ce ias
en e es a e ou as edes, sob e udo a comuni á ia
e a domés ica. Es a análise não p e ende ap esen a
os esul ados empí icos em si, mas an es u iliza
exemplos dos dados ecolhidos pa a ilus a os á ios
a anjos c ia i os eme gen es.
C ia i idade descen alizada na ede
de p o isão es a al: l exibilização
e ap o ei amen o dos ecu sos ins i ucionais
No conjun o das en e is as ealizadas a
a o es-cha e do sis ema de e eições escola es
nas ês egiões do país em es udo, encon am-se
ela os sob e o aumen o do núme o de amílias
que ade em aos se iços p es ados nos e ei ó ios
escola es pa a aze ace à edução do seu pode
económico.
“(…) Não sei se é de ido à oika nem se
não, o que se no a ago a é que há mais enca -
egados de educação a solici a al e ação de
escalão, independen emen e de a Segu ança
Social lhes a ibui ou não essa al e ação…
(…) Eles alegam di i culdades económicas e
i nancei as.” (Responsá el dos se iços de
ação social escola , No e, Fe e ei o 2013.)
Algumas egiões êm ido di i culdades em asse-
gu a o pagamen o das e eições g a ui as dos alunos
com apoio da Ação Social Escola aos o necedo es,
de ido a a asos nas ans e ências de e bas po
pa e dos ó gãos cen ais do Es ado. Pe an e o ecu so
c escen e às edes es a ais e à agilidade da sua
espos a no a ual con ex o, e i i ca-se que algumas
escolas e au a quias locais êm desen ol ido a anjos
c ia i os pa a emedia p oblemas. Po exemplo,
o ala gamen o do pe íodo de uncionamen o dos
e ei ó ios du an e as é ias escola es de modo a
ga an i o acesso das c ianças mais ca enciadas a,
pelo menos, uma e eição quen e diá ia. Con udo, a
au onomia das au a quias e dos agen es do sis ema
educa i o é condicionada com base nos ecu sos
de que dispõem. O ela o de duas uncioná ias de
uma das câma as municipais (do a an e, Câma a
Municipal A) mos a que a espos a que os se iços
êm p ocu ado da não ep esen a uma solução
sis emá ica e cen alizada, mas an es o esul ado
da solida iedade e da c ia i idade dos p o i ssionais
en ol idos e de aco do com a au onomia que de êm.
“Nas in e upções le i as e nas é ias esco-
la es, desde que enhamos um mínimo de se e,
oi o c ianças, insc i as na componen e de apoio
à amília, man emos o e ei ó io a unciona
nas mesmas condições que du an e o ano
le i o. Is o não em compa icipação es a al.”
(Câma a Municipal A, No emb o 2011.)
Nes e caso, o desen ol imen o de soluções
socialmen e jus as pa e da inicia i a local e da sua
capacidade de in e enção cí ica, al como de endido
po Sulkunen (2009). Po ém, a descen alização da
espos a social e a ans e ência dessa esponsabili-
dade pa a os agen es ins i ucionais locais (au a quias
e escolas) pode p o oca assime ias e i o iais e
sociais, dependendo da capacidade de espos a des-
es agen es locais. Pa a ilus a es a possibilidade,
eja-se uma no ícia da imp ensa esc i a que dá con a
de uma si uação em que o olume das dí idas acu-
muladas pelos enca egados de educação e e en es
ao pagamen o da alimen ação escola conduziu a
di eção do ag upamen o a aze um ul ima o aos
pais que es a am em dí ida. O não pagamen o
des a dí ida esul a ia na p oibição dos espe i os
educandos de equen a em o e ei ó io, negando
assim o acesso a um se iço público3.

Mónica T uninge , José Teixei a, Ana Ho a, Síl ia Alexand e e Vanda A. da Sil a
16
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 11-19
Apesa dis o, é inegá el a exis ência de a anjos
c ia i os que eme gem da ede de p o isão es a al,
colma ando mui as ezes as necessidades imedia as
dos mais ca enciados. Os uncioná ios da mesma
Câma a Municipal apon a am que, quando são e e-
enciadas si uações de ca ência alimen a e/ou de
no as di i culdades económicas, a ges ão do apoio
municipal e da ação social escola na alimen ação
ende a se l exibilizada com o p opósi o de esol e
si uações pon uais ou imp e is as:
“Nós emos, de ac o, um sis ema mui o
acili ado em elação às ques ões da ca ência
(…). Ou seja, o mecanismo es á mui o agili-
zado pa a as amílias que enham qualque
pe calço pode em passa a escalões com
compa icipações mais diminuídas ou a cus o
ze o, como é o escalão A.” (Câma a Municipal
A, No emb o 2011.)
O mesmo ipo de l exibilização e ap o ei amen o
dos ecu sos ins i ucionais ambém se e i i ca nas
escolas, como se con i ma no exce o seguin e:
“Há casos em que os enca egados de edu-
cação êm solici a essa al e ação de escalão.
Nós alegamos semp e ‘– Ah, mas a Segu ança
Social ainda não al e ou, po an o, nós emos
que ponde a is o mui o bem’. Depois, eles
azem o pedido, nós analisamos e os dois en a-
mos euni in o mação pa a e se se jus i i ca,
ou não, essa al e ação de escalão. Quando o
p ocesso es á concluído, eme emos à di eção
e no malmen e é o conselho adminis a i o da
escola que, median e os nossos pa ece es,
diz sim ou não.” (Responsá el dos se iços
de ação social escola , No e, Fe e ei o 2013.)
Es a l exibilização deco e de uma maio ou
meno coo denação com as di eções e os se iços,
da sensibilidade da escola pa a es e ipo de p oble-
mas, e da sinalização de casos p oblemá icos a a és
da igilância nos e ei ó ios ei a po p o esso es e
uncioná ios:
“Nunca deixamos as c ianças sem almoça .
Mesmo quando há c ianças que se esquecem
de ma ca a senha e o p og ama não deixa
en amos semp e [deixá-los almoça ], inde-
penden emen e de eles não e em o p ocesso
comple o [em o dem].” (Responsá el dos
se iços de ação social escola da escola EB
2,3, No e, Fe e ei o 2013.)
“A gen e aqui sabe que há mui a (c ise),
po que nós conhecemos as c ianças odas
daqui, não é? Bas a nós mo a mos aqui nas
edondezas pa a conhece . Nós sabemos que
as c ianças […] êm di i culdades, os pais não
lhes… p on o, não os a am como de e se . (…)
Mas dize assim, que eles nos digam, ou… enho
ome po is o…não (…) se a gen e pe cebe que
eles [as c ianças] que em, somos capazes de...
olha, aze uma sandes…’” (Pessoal de cozinha,
Escola EB1, Lisboa Subu bano, Maio 2012.)
Es es “a anjos” c ia i os são assim p o isó ios,
não sendo pensados como soluções es a égicas
de i ni i as pa a os p oblemas que a escola ou a
au a quia en en am no seu dia-a-dia. São p ocessos
inacabados que se podem ea anja e ans o ma
consoan e as imp e isibilidades quo idianas.
Mas apesa de se possí el implemen a a an-
jos c ia i os den o dos limi es da ação ins i ucional
“jogando” com os ecu sos disponí eis, obse am-se
si uações em que as no mas que egulam o sis ema
de e eições escola es (e.g. higiene, segu ança
alimen a ) cons angem a au onomia das escolas
pa a esol e p oblemas de ca ência alimen a . Um
dos casos que ilus a bem es e cons angimen o é
a p oibição do uso das sob as das e eições. A ual-
men e, as emp esas o necedo as de se iços não
pe mi em que as sob as sejam ap o ei adas de ido
aos c i é ios ape ados de higiene e segu ança ali-
men a es que de em se cump idos no o necimen o
de e eições4.
“Não há um dia em que possa dize , hoje a
maio ia [dos alunos] comeu udo. [O despe -
dício] ai pa a o meio dos p a os, ai logo pa a
o lixo. (…) Os es os ambém, po exemplo,
às ezes dos miúdos que al am [….]. Isso ai
pa a o lixo.” (Pessoal de cozinha, Escola EB1,
Lisboa Subu bano, Maio 2012.)
Apesa das esis ências o e ecidas ela i amen e
ao ap o ei amen o das sob as, algumas escolas
disponibilizam, ao lanche ou ao i m do dia, o pão
que sob ou do almoço e/ou do lanche de modo a
emedia si uações de ca ência alimen a exis en es
em casa.
“(…) exis e alguma l exibilidade po pa e
das escolas, po que algumas con i em com
ealidades mui o di e en es, e há uma p eocu-
pação da escola. À saída mui os podem le a o
lanche ou ou a coisa que possa e sob ado.
Mui os já es ão iden i i cados que ão chega a
casa e não êm nada pa a come . Is o é uma
si uação que a ia mui o em unção do local
e da sensibilidade da escola.” (En e is a a
uma ep esen an e de um se iço público de
saúde, Madei a, Ma ço 2012.)
Re o ça-se aqui a impo ância das edes de
p o isão es a ais pa a ga an i o acesso a uma
ESTADO SOCIAL E ALIMENTAÇÃO ESCOLAR: CRIATIVIDADE NA AUSTERIDADE
17
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 11-19
alimen ação egula e adequada, pa icula men e
nos casos em que as edes de p o isão domés ica
são insu i cien es. Além disso, ambém se iden i i ca
um caso em que oi es abelecida uma pa ce ia en e
a escola e a amília pa a o o necimen o do lanche
à c iança, o qual não e a an es p o idenciado.
Uma ez que e a equen e sob a pão do almoço,
pediu-se aos pais pa a en ia em pa a a escola o
echeio do pão (e.g. doce), maximizando-se assim
o ap o ei amen o das sob as e a edução dos cus os
dos lanches pa a as amílias. Es e exemplo ilus a a
con a ualização en e as duas edes de p o isão:
a es a al e a domés ica.
A a és des as ilus ações empí icas, e i i ca-se
que a c ise económica es á a e um e ei o es i i o
no pode de comp a das amílias. Isso ep esen a
di i culdades no acesso aos ci cui os de me cado
e, em alguns casos, na o ganização da p o isão
alimen a domés ica. Pe an e essas di i culdades,
as amílias eco em mais às edes de p o isão
es a ais como, po exemplo, as e eições escola-
es. As es u u as go e namen ais que supo am
as edes de p o isão es a ais (e.g. o necimen o
de e eições escola es) ambém o am a e adas
pela conjun u a económica a ual, não obs an e,
desen ol eu-se um conjun o de inicia i as locais
pa a en en a essas agilidades. Ao não ep esen-
a em uma solução uni e sal, coadunam-se com
a isão de que a sa is ação do bem-es a cole i o
depende cada ez mais da au onomia, da c ia i i-
dade e da cidadania dos indi íduos, aplicada nas
es e as pessoal, pública e p o i ssional. As escolas,
as au a quias e as amílias, quando limi adas pelos
ecu sos que de êm, são mui as ezes ob igadas a
con a ualiza en e si soluções que eme gem do
con on o local com os desa i os. Des a o ma, su -
gem p á icas ino ado as que in e e em a i amen e
na o ganização dos mecanismos ins i ucionais que
ga an em os di ei os sociais.
C ia i idade cen alizada na ede
de p o isão es a al: pa ce ias
en e o Es ado e a comunidade
Na secção an e io analisa am-se os a anjos
c ia i os que deco iam da capacidade de au ono-
mia dos agen es ins i ucionais descen alizados
pa a ga an i o acesso das c ianças à alimen ação
escola . Nes a secção, ap esen a-se uma inicia i a
iden i i cada no deco e do abalho de campo, a
qual oi desen ol ida ecen emen e. Es a inicia i a,
ma e ializada num p og ama alimen a , em como
obje i o a enua as ca ências de c ianças comp o-
adamen e necessi adas a a és do o necimen o
do pequeno-almoço na escola.
Em No emb o de 2012, o Minis é io da Edu-
cação e Ciência implemen ou o P og ama Escola
de Re o ço Alimen a (PERA) com o obje i o de
disponibiliza a p imei a e eição do dia às c ianças
mais necessi adas e de sensibiliza as amílias pa a a
impo ância do pequeno-almoço. Es e p oje o esul a
de um conjun o de pa ce ias es abelecidas en e o
Minis é io da Educação e Ciência e á ias en idades
(e.g. Associação Nacional de Municípios Po ugueses,
sec o emp esa ial, escolas, edes locais de ação
social, Banco Alimen a con a a Fome ou ou as
IPSS) e não ep esen a uma solução uni e sal mas
sim um apoio social à p omoção da igualdade (MEC,
2012). Além disso, nes e p og ama, o o necimen o
do pequeno-almoço g a ui o é conside ado apenas
uma ase ansi ó ia, uma ez que o obje i o é
sinaliza esses g upos da população e desen ol e
uma in e enção que passa po disponibiliza em
casa e na escola os alimen os p o enien es das
pa ce ias es abelecidas. De aco do com o docu-
men o publicado sob e o PERA (MEC, 2012), em 364
escolas, ap oximadamen e 12 000 alunos oma am
o pequeno-almoço na escola e quase 50 % es a am
cobe os po es e p og ama em 2012.
Con a iamen e ao caso an e io , em que os
a anjos c ia i os su giam ao ní el da inicia i a
local e descen alizada (embo a den o das edes
de p o isão es a al), nes e caso conc e o o Es ado
cen al ino ou po meio de a anjos c ia i os pa a
a enua p oblemas de ca ência alimen a . Não
obs an e, es e p og ama sus en a-se no modelo
con a ualis a apon ado po Sulkunen (2009), e
como al ans e e esponsabilidades sociais, que
an es e am p o idenciadas pelo Es ado, pa a um
conjun o de en idades que a uam em di e en es
edes de p o isão alimen a (emp esas, bancos
alimen a es, IPSS, au o idades locais, e c.).
No en an o, segundo as o ien ações cons i u-
i as do PERA, es e p og ama não pode subs i ui
inicia i as simila es que já enham sido desen ol-
idas no âmbi o da au onomia local das escolas e
das au a quias (MEC, 2012). Como se pode e i i ca
nos exce os seguin es, pa a as escolas que es ão
inse idas nas egiões em es udo e que i e am
conhecimen o do PERA, es a inicia i a não oi mui o
ú il. Is o po que a maio ia já inha em cu so a anjos
c ia i os locais, como é o caso do o necimen o do
suplemen o alimen a .
“Já ou imos ala [do PERA] mas penso que,
na minha opinião pessoal, nós já o emos…
Quando a pessoa i que aquele menino eal-
men e p ecisa [do suplemen o alimen a ], az
o pedido e, a pa i daí, desencadeia-se odo
o p ocesso.” (Responsá el dos se iços de
ação social escola da escola EB 2, 3, No e,
Fe e ei o 2013.)
“Os ag upamen os, as di eções dos ag u-
pamen os, os di e o es, pelo menos há já ês,
qua o anos, que azem e o ços alimen a es
Mónica T uninge , José Teixei a, Ana Ho a, Síl ia Alexand e e Vanda A. da Sil a
18
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 11-19
a alunos que chegam lá e omam o pequeno-
-almoço pela manhã, é-lhes dado um e o ço a
meio da manhã e a meio da a de ou o e o ço,
pa a além do almoço que ambém passa a
se o almen e g a ui o.” (Rep esen an e da
Câma a Municipal C, Fe e ei o 2013.)
Apesa de o Es ado e desen ol ido um p o-
g ama cen al de apoio social, a maio ia das escolas
em análise já in e eio pa a a enua as ca ências
alimen a es das c ianças. Além disso, a conc e ização
dos obje i os des e p og ama eside no ap o ei-
amen o do capi al social do Es ado (no seu papel
de acili ado ) pa a aze a pon e en e as amílias
ca enciadas e as edes de p o isão comuni á ias.
Nes e caso conc e o, no a-se assim uma mudança
de papel do Es ado: de p o edo pa a acili ado .
Des e modo, p e alece a isão con a ualis a do
bem-es a social al como explici ado po Sulkunen
(2009) e Some s (2008). Is o é, numa si uação de
desman elamen o do Es ado Social, a p o eção dos
cidadãos é ans e ida pa a as amílias, a sociedade
ci il e o me cado, deixando de es a assegu ada
exclusi amen e pelas edes de p o isão es a ais.
Po ém, a p esença do Es ado con inua a se eque-
ida, mesmo que eduzido a um papel de acili ado
acionado po meio do seu capi al social.
Comen á ios i nais
Nes a análise e i i ca-se que, em Po ugal, o
ag a amen o da si uação económica das amílias
es á a aze que o seu consumo alimen a seja
cada ez mais dependen e, an o das edes de
p o isão es a al (acesso à alimen ação nas escolas
públicas), quan o das edes comuni á ias que se
o mam como al e na i a de acesso ao consumo
alimen a (PERA).
Pa indo dos deba es de Sulkunen (2009) e
Some s (2008) sob e o Es ado Social, e u ilizando
a ipologia de edes de p o isão de bens e se iços
p opos a po Ha ey e al. (2001), iden i i ca am-se
alguns a anjos c ia i os le ados a cabo em escolas
selecionadas de ês egiões do país pa a ga an i
a segu ança alimen a das c ianças. Nos exemplos
empí icos analisados, ilus ámos a c ia i idade (des)
cen alizada den o da ede de p o isão es a al. A
análise de inicia i as c ia i as pe mi iu obse a
di e en es o mas da sua exp essão nas edes de
p o isão es a al. Po um lado, e i i cou-se a exis-
ência de a anjos c ia i os descen alizados (ao
ní el local da au a quia e da escola pública) que
pe mi i am uma l exibilização e o ap o ei amen o
dos ecu sos ins i ucionais. Po ou o lado, iden i i -
ca am-se a anjos c ia i os cen alizados que o am
consolidados a a és de pa ce ias en e o Es ado
cen al e um conjun o de en idades que a uam em
di e en es edes de p o isão alimen a (emp esas,
bancos alimen a es, IPSS, au o idades locais, e c.).
Como se pôde e a a és do PERA, a p i a ização
e con a ualização dos se iços do Es ado colocou
o acesso a alguns bens e se iços sob uma maio
dependência das edes comuni á ias. No a-se aqui
uma mudança de papel do Es ado – de p o edo
a acili ado –, u ilizando o seu capi al social pa a
aze pa ce ias en e os indi íduos, as amílias, a
sociedade ci il e o me cado.
Conclui-se que, apesa da a ual agilização
do Es ado Social, as edes de p o isão es a ais
con inuam a se cen ais pa a p o idencia bens e
se iços, ais como a alimen ação escola , eco -
endo a a anjos c ia i os que en am colma a os
e ei os da c ise económica e das polí icas de eo
neolibe al. Pe an e is o, há um conjun o de ques-
ões pe inen es a explo a . A é que pon o é que
as dinâmicas empi icamen e ilus adas – an o nas
e eições escola es como no PERA – co obo am
o a gumen o em o no do desman elamen o do
Es ado Social (Sulkunen, 2009; Some s, 2008)? Is o
po que, apesa do seu desman elamen o, o Es ado
con inua a se equisi ado pa a ga an i a segu ança
alimen a na escola pública, ainda que endo, po
ezes, de econ i gu a o seu papel de p incipal
p o edo pa a acili ado . Que ou os exemplos se
podem encon a além da alimen ação escola de
a anjos c ia i os, semp e p o isó ios e em abe o,
pa a colma a as agilidades do Es ado Social? Se á
que a análise mais ap o undada des es a anjos
c ia i os nou as á eas de a uação do Es ado pode
con ibui pa a desen ol imen os eó icos sob e as
ins i uições (es a ais ou ou as) e a c ia i idade na
aus e idade? Es as são algumas pis as pa a u u as
in es igações e e l exões eó ico-empí icas.
Ag adecimen os
Es e a igo oi ap esen ado o iginalmen e ao
VII Cong esso Po uguês de Sociologia (19-22 Junho
2012). Ag adecemos à audiência os comen á ios e
c í icas ecebidos que ajuda am a e o mula subs-
ancialmen e o p esen e ex o. Ag adecemos igual-
men e os comen á ios cons u i os de dois e iso es
anónimos pa a a melho ia des e a igo. Es e abalho
bene i cia de i nanciamen o da Fundação pa a a Ciên-
cia e a Tecnologia [PTDC/CS-SOC/111214/2009].
No as
1 Nes e a igo, a exp essão “a anjos c ia i os” epo a-se
às á ias inicia i as de eo ganização das ins i uições
de o ma a esol e p oblemas com que lidam no seu
quo idiano. Es es a anjos nunca são de i ni i os, sendo
si uações p o isó ias e semp e em abe o, as quais exigem
l exibilidade e c ia i idade cons an es dos seus agen es.
2 Mais conc e amen e, e e imo-nos ao p oje o En e a
Escola e Família: conhecimen os e p á icas alimen a es das
c ianças em idade escola [PTDC/CS-SOC/11121/2009],
ESTADO SOCIAL E ALIMENTAÇÃO ESCOLAR: CRIATIVIDADE NA AUSTERIDADE
19
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 11-19
i nanciado pela Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia,
que em po obje i o analisa as á ias o mas de o ga-
nização da alimen ação escola em Po ugal, iden i i ca
di e sas inicia i as de alimen ação saudá el e as p inci-
pais p io idades das polí icas públicas nes e âmbi o, nas
escolas do Ensino Básico.
3 “Di e o a nega que c iança enha i cado sem come ”,
no ícia publicada no Exp esso a 17 de Ou ub o de 2012.
4 Apesa de a maio ia das emp esas de ca e ing a i ma que
não é pe mi ido o ap o ei amen o de sob as, iden i i cou-se
uma associação con a o despe dício alimen a (Da iaco -
da ) que desen ol eu, em conjun o com a Au o idade de
Segu ança Alimen a e Económica (ASAE), um manual
de boas p á icas. Es e manual possibili a a ecolha, o
anspo e e a dis ibuição de e eições ap o ei adas a
pa i das sob as alimen a es de es au an es, g andes
supe ícies e ou os o necedo es. O cump imen o des as
o ien ações possibili a que as sob as possam se legal-
men e dis ibuídas.
Bibliog a i a
COMISSÃO EUROPEIA (2012), The dis ibu ional e ec s
o aus e i y measu es: A compa ison o six EU
coun ies, Repo , Social Si ua ion Obse a o y.
COSTA, A. (2012),“Desigualdades Globais”, in Sociologia,
P oblemas e P á icas, 68, pp. 9-32.
CRUZ, I. (2011), “P á icas de consumo: o que az a
di e ença?”, Sociologia Online, 4, pp. 7-25.
DEVAULT, M. (1991), Feeding he amily: he social
o ganiza ion o ca ing as gende ed wo k, Chicago,
Uni e si y o Chicago P ess.
DOWLER, E. e D. O’Conno (2012), “Righ s-based
app oaches o add essing ood po e y and ood
insecu i y in I eland and UK”, Social Science &
Medicine, 74(1), pp. 44–51.
EVANS, B. (2010), “An icipa ing a ness: childhood,
a ec and he p e-emp i e ‘wa on obesi y’”,
T ansac ions o he Ins i u e o B i ish Geog a-
phe s, 35, pp. 21-38.
HARVEY, M.; A. McMeekin, e al. (2001), “Be ween
Demand and Consump ion: a amewo k o
esea ch”, CRIC Discussion Pape n. 40, Manches-
e , Uni e si y o Manches e .
LAMBIE, H. (2011), “The T ussell T us Foodbank
Ne wo k: Explo ing he G ow h o Foodbanks
Ac oss he UK”, Final Repo , Co en y, Co en y
Uni e si y.
LAMBIE-MUMFORD, H. e D. Ja is (2012), “The ole
o ai h-based o ganisa ions in he Big Socie y:
oppo uni ies and chalenges”, Policy S udies,
33(1), pp. 37-41.
MEC (2012), P og ama Escola de Re o ço Alimen a ,
Lisboa, Minis é io da Educação e Ciência.
MORGAN, K. (2011), “The coming c isis o school ood:
om sus ainabili y o aus e i y?”, Welsh Economic
Re iew, 22, pp. 32-35.
SANTOS, M. (2012), Quando Po ugal ba eu à po a da
sociedade de consumo, No as pa a a in e enção
no “Seminá io 30 anos da p imei a Lei de De esa
do Consumido ”, disponí el em h p://mo imen o.
idasal e na i as.eu/index.php/ emas-beja-
san os/4374-uma-sociedade-de-consumo-a-
po uguesa-po -ma io-beja-san os.h ml, acedido
pela úl ima ez a 20 de Ou ub o de 2012.
SOMERS, M. (2008), Genealogies o Ci izenship: Ma -
ke s, S a elessness and he Righ o Ha e Righ s,
Camb idge, Camb idge Cul u al Social S udies.
SULKUNEN, P. (2009), The Sa u a ed Socie y: go -
e ning isk and li es yles in consume cul u e,
Lond es, Sage.
TRUNINGER, M.; J. Teixei a, e al. (2012), A e olução
do sis ema de e eições escola es em Po ugal
(1933-2012): 1.º ela ó io de pesquisa, Lisboa,
Ins i u o de Ciências Sociais da Uni e sidade de
Lisboa.
UNICEF (2012), Measu ing child po e y: New league
ables o child po e y in he wo ld’s ich coun ies,
Repo , Flo ença, Innocen i Resea ch Cen e.
WARDE, A. (1992), “No es on he ela ionship be ween
p oduc ion and consump ion”. In R. Bu ows e C.
Ma sh (eds.), Consump ion and Class: di isions
and change, Lond es, Macmillan, pp. 15-31.

ENTRE DONS: ITINERÁRIO DE PESQUISA SOBRE SOLIDARIEDADES FAMILIARES NO DESEMPREGO
21
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 21-29
ENTRE DONS: ITINERÁRIO DE PESQUISA SOBRE SOLIDARIEDADES
FAMILIARES NO DESEMPREGO
Isabel Ma çano
In es igado a, Dou o ada em Sociologia. Mes e em An opologia Social e Cul u al e Sociologia da Cul u a (FCSH/ UNL)
([email p o ec ed])
Resumo
Ap esen a-se aqui uma e l exão sob e solida iedades amilia es no desemp ego em Po ugal. Pa -
indo do p incípio de que, na sociedade po uguesa, há espaço pa a oca e dádi a, es udámos as
suas mani es ações no desemp ego a pa i de ques ões colocadas em inqué i o mais as o sob e
i ências no desemp ego de 300 desemp egados na á ea da G ande Lisboa e 60 en e is as. O
inqué i o deco eu en e dezemb o de 2005 e janei o de 2006. O desemp ego ge a p i ação de
ecu sos ma e iais e disponibilidade de empo. Es e duplo aspe o p opo ciona e o ço de apoio e
ocas amilia es. As solida iedades amilia es desempenham papel undamen al como al e na i a
ou complemen o à p o eção social do Es ado. No con ex o do desemp ego é cla a a cen alização
na es e a p i ada po enciado a de ganhos na amília nuclea , com des aque pa a as solida iedades
emininas.
Pala as-cha e: desemp ego; “sociedade-p o idência”; “ amilismo amo al”; dom; solida iedade
Abs ac
This a icle p esen s he p elimina y ou come o amily solida i ies in unemploymen in Po ugal.
Assuming ha in he Po uguese socie y he e is place o sha ing and gi ing, we explo ed hei
mani es a ions on unemploymen using some ques ions o a su ey abou he expe ience o unem-
ploymen o 300 unemployed in he G ea e Lisbon a ea and 60 in e iews. The inqui y was ca ied
ou be ween Decembe 2005 and Janua y 2006. Unemploymen causes dep i a ion o ma e ial
esou ces and ime a ailabili y. This double unemploymen con ingency b ings he ein o cemen o
amily suppo and sha ing. The amily solida i y plays a key ole as an al e na i e o complemen
o he social p o ec ion o he S a e. In he con ex o unemploymen i is clea he cen e ing on
p i acy-enhancing gains in he nuclea amily, wi h emphasis on emale solida i y.
Keywo ds: unemploymen ; “wel a e-socie y”; “amo al amilism”; gi ; solida i y
B e es conside ações eó icas
Desemp ego
O desemp ego é, a ualmen e, um dos p o-
blemas incon o ná eis, p emen es e d amá icos,
cuja comp eensão se elaciona com a exis ência de
uma o ganização social economicamen e baseada
no p edomínio de elações sala iais no modo de
p odução capi alis a.
A disjunção en e empo de abalho des i-
nado a endimen o e empo de abalho p i ado
ou domés ico cons i ui uma das ca a e ís icas do
abalho assala iado. T a a-se de a i idade na es e a
pública e à qual é econhecida u ilidade aduzida
em endimen o e posição social.
A composição do olume de desemp ego é
bas an e di e enciada, acusando um desemp ego
a duas elocidades: desemp ego de ansição e
desemp ego de exclusão (Cla el, 2004). Se, no
p imei o, o cu o empo de a as amen o do me -
cado de abalho não comp ome e possibilidades de
einse ção, no segundo, ao p olonga -se, co po iza
a p eca iedade c ónica do desemp ego de exclusão.
Isabel Ma çano
22
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 21-29
Po ugal, em 2006, con a a nos Cen os de
Emp ego mais de 440 000 desemp egados, alo
sobejamen e aumen ado desde en ão.
P o eção no desemp ego, “sociedade-p o idência”
e “ amilismo amo al”
Na Eu opa, os Es ados-P o idência de i ni am
o desemp ego, o es a u o de desemp egado, e
desenha am “mediado es de compensação” (Gallie
e Paugam, 2000), como p o eções sociais aos
desemp egados pa a en en a em a p i ação de
emp ego. O egime de p o eção no desemp ego em
e ei o decisi o na p i ação i nancei a. As cobe u as
es a ais ap esen am g ande he e ogeneidade na
União Eu opeia (UE). O egime de p o eção mais
p óximo da ealidade dos países do Sul da Eu opa
é o “subp o e o ”, onde é maio a p obabilidade de
os bene i ciá ios se con on a em com di i culdades
i nancei as g a es ou i e em abaixo do limia de
pob eza com o es possibilidades de o desemp ego
se p olonga . Em Po ugal, em Agos o de 2009,
apenas 46 % dos desemp egados insc i os nos
Cen os de Emp ego (CE) ecebiam subsídio de
desemp ego. Em 2011 a cobe u a do subsídio de
desemp ego diminuiu (41,1 % no 4.º imes e),
o que dá ideia do ag a amen o da agilidade da
cobe u a da p o eção social.
No caso da sociedade po uguesa, as lacunas
de p o eção abe as pelo egime “subp o e o ”
encon am-se compensadas pela ação de uma
“sociedade-p o idência” (San os, 1995) onde as
edes de elações sociais subs i uem o Es ado – pela
eduzida “des-ins i ucionalização” do modelo de
amília adicional e pelos apoios amilia es (Loison,
2002), apesa do en aquecimen o da “sociedade-
-p o idência” nas úl imas décadas (Rod igues, s. d.).
As ocas in e ge acionais pe manecem uma
ealidade. No Sul da Eu opa e em Po ugal ende
a p edomina um pad ão amilia em que os i lhos
saem a diamen e de casa. Além disso, a adição
pa ece combina -se com di i culdades económicas
e a o ece um modelo de esidência amilia que,
embo a endencialmen e nuclea , e idencia alguma
dependência ex ensi a com “ins i ucionalização”
do modelo de amília adicional e apoios en e
amilia es.
O concei o de “ amilismo amo al” a icula
as noções de sociedade, me cado e Es ado e é
ca a e izado pela cen alização na es e a p i ada
com ganhos na amília nuclea desligados do bem
comum. O concei o em alidade pa a sociedades
o emen e desiguali á ias (Ban i eld, 1958; Elisa
Reis,1995). Tal hipó ese, que suge imos álida pa a
o con ex o po uguês do desemp ego, é alidada po
M. Villa e de Cab al (2002) a p opósi o do campe-
sina o pob e. É p o á el que os abalhado es mais
des a o ecidos e os desemp egados a ingidos po
ca ência económica se limi em a apoios e inicia i as
em ci cui o p i ado.
Solida iedade, dom e oca
A esponsabilidade ou dependência mú ua
en e duas ou mais pessoas na amília ca a e izam
a solida iedade amilia . Daí esul a a coope ação
e es ão p esen es elemen os de dádi a ou dom,
independen emen e da ecip ocidade. Es a pode
se di e ida.
G ano e e (1973) in oduziu no os concei os
de ede e classi i cou os laços sociais exis en es em
acos (weak ies), aqueles nos quais o in es imen o
é meno ou nulo (e.g., indi íduos pa icipan es de
um g upo ou associação) e o es (s ong ies),
nos quais os indi íduos empenham mais empo,
in ensidade emocional e ocas (e.g., cí culo amilia
e de amigos).
O mo imen o de dádi as e e ibuições oi
abo dado po Mauss (1923-1924) como enómeno
complexo e pa adoxal das sociedades di as p imi i as
ou a caicas. Em con apa ida, Lé i-S auss (1974
e 1978) assinalou a ealidade es u u al da oca.
No caso do desemp ego, é legí imo pe gun a se
oco em ocas e solida iedades, como oco em e
como são iden i i cadas pelos en ol idos.
Da , ecebe e e ibui é p óp io das elações
sociais. No con ex o amilia podem oca -se bens
de na u eza di e sa. O econhecimen o de neces-
sidades amilia es e a disponibilidade pa a ajuda
são duas condições básicas pa a conc e ização
de dádi as sob o mas di e sas. No ciclo de ida
amilia , á ias lógicas se en e ecem: “lógica da
necessidade”, “lógica da ecip ocidade” e “lógica
da complemen a idade” (A ias-Don u , 1998) po
e e ência ao da , ecebe e e ibui de Mauss.
As ocas oco em segundo elações de doação e
ecip ocidade (Raze o in Ti iba, 2004).1
En e amilia es os dons assumem, equen e-
men e, a o ma de ajuda ou apoio. O apoio social
em sido conside ado de di e en es o mas (Cobb,
1976; Thoi s, 1982; Wa , Jackson e Banks, 1982).
Dis inguimos dois ipos de apoio social (ins umen al
ou ma e ial e socioemocional) que conse am os
a ibu os de dádi a ou dom, são dinâmicos e mu u-
amen e pe meá eis na ci culação de bens, se iços
e a e os. Além disso, Casal (2005) p opõe que a
base de egulação da dádi a en e amilia es não se
baseia na no ma da ecip ocidade
2
mas no p incípio
da dí ida3. Essa dí ida ende a se posi i a, pois ge a
econhecimen o e sen imen o de ag ado pela dádi a
ecebida, não exigindo e ibuição e qui ação. Aqui
é usada a noção de elações de ecip ocidade no
sen ido do l uxo bila e al ou unila e al, sem aco do
do in e câmbio nem p oximidade empo al, con o me
Raze o, in Ti iba (2004).
ENTRE DONS: ITINERÁRIO DE PESQUISA SOBRE SOLIDARIEDADES FAMILIARES NO DESEMPREGO
23
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 21-29
Me odologia
Com o obje i o de iden i i ca se oco em o-
cas e solida iedades, como oco em e como são
iden i i cadas pelos en ol idos, o am inqui idos 300
desemp egados4 e analisadas ques ões colocadas
num inqué i o po ques ioná io mais as o. O inqué-
i o deco eu en e dezemb o de 2005 e janei o de
2006, complemen ado com a ealização de sessen a
en e is as a é julho de 2006.
Resul ados empí icos
Inqué i o po ques ioná io
P o eção social e si uação inancei a
A si uação i nancei a dos desemp egados
pe mi e escla ece os ní eis de p o eção social dos
inqui idos pa a en en a a p i ação de emp ego.
Como o ipo de egime de p o eção no desemp ego
em impo ância decisi a na p i ação i nancei a e
es a, po sua ez, pode á implica maio en ol-
imen o da ede amilia e social nos apoios no
desemp ego, es e oi um pon o p é io à análise das
ocas e solida iedades no desemp ego.
Quan o ao endimen o i nancei o dos ag egados
domés icos, ce ca de me ade dispõe de endimen os
supe io es a 749  mensais. No escalão de endimen-
os de 500  a 748  mês enquad am-se 23,2 %. O
des aque incide, no en an o, sob e inqui idos cujos
ag egados dispõem de endimen o mensal in e io
a 499  mês, suge indo condições de pob eza e
exclusão social pa a 17,6 %, com ealce pa a 2 %
com endimen o igual ou in e io a 150  mês.
Complemen ando es es dados com in o mação
ela i a à capacidade de poupança, e i i ca-se que
a sus en abilidade económica da gene alidade dos
ag egados se ca a e iza de p ecá ia (37,2 % gas am
odo o dinhei o disponí el, 40,1 % êm de p escindi
de bens necessá ios e 6,4 % chegam a endi ida -
-se). Somen e 16,3 % dos ag egados dão sinais de
es abilidade económica com capacidade de poupança.
Sob e a p o eção social, no a-se que a maio ia
dos inqui idos (86,2 %) bene i cia de subsídio de
desemp ego. En e os es an es (N=38), iden i i ca-se
assinalá el p opo ção de si uações de p eca iedade,
dado que, oco endo o desemp ego em mui os casos
po mo i os não impu á eis aos inqui idos, es es
não ecebem subsídio de desemp ego.
Quan o ao escalão de subsídio de desemp ego
e pensão, apa ece uma concen ação em o no dos
limi es in e io e supe io do salá io mínimo nacional
(37,2 % com subsídio en e 300  e 499  mensais
e 26,5 % en e 500  a 748  mensais).
Há que ealça ainda a pe cen agem de inqui i-
dos com subsídios in e io es a 299  mensais (13 %),
si uados assim em limia de pob eza e de exclusão,
conside ando, nomeadamen e, 2,3 % no escalão
mínimo de 0 a 150  mensais. Po con as e, 23 %
dos inqui idos au e em p es ação mais gene osa
( alo supe io a 749 ).
Tais dados assumem especial ele ância quando
se e i i ca que ce ca de
2
/
3
dos inqui idos êm como
p incipal on e de sob e i ência o subsídio. Des aca-
-se ainda a assunção da amília como impo an e
es u u a de sus en o e apoio pa a ce ca de 1/3 dos
inqui idos, onde cônjuge/companhei o(a) assim
como pais assumem pa icula des aque.
A p opósi o ainda dos aspe os económicos, a
g ande maio ia dos inqui idos (95 %) conco da em
e i cado com menos dinhei o após o desemp ego.
Ecologia habi acional e amilia
A ecologia amilia ap esen a ca a e ís icas
a o á eis à oco ência de ocas, como se e á.
Mais de me ade dos inqui idos eside em casa
p óp ia. Seguem-se si uações de esidência em
casa alugada e em casa dos pais, em pe cen agens
mui o p óximas. Meno pe cen agem eside em
qua o alugado.
Sendo a esidência em casa dos pais a o
impo an e da comunidade de ecu sos e sus-
en abilidade económica pe an e o desemp ego,
conside ou-se ele an e ap esen a uma ca a e-
ização da si uação amilia dos inqui idos em ais
condições (N=57). Ce ca de 2/3 dos esiden es em
casa dos pais são sol ei os; os es an es casados/
/união de ac o (19,3 %) ou di o ciados/sepa ados
de ac o (15,8 %).
Os inqui idos não se encon am em ci cuns-
ância esidencial de isolamen o, sendo que mais
de me ade i e com 2 ou 3 pessoas, 26 % com 4
ou mais pessoas e apenas 18,1 % com 1 pessoa.
Quan o à cons i uição do ag egado amilia ,
no a-se que quase me ade em o seu p óp io
ag egado amilia (mulhe /ma ido/companhei o/a
e i lhos). Ce ca de 20 % cons i uem amília nuclea
con i nada a cônjuges e 5 % apenas com i lhos. O
ag egado amilia de 20 % dos indi íduos é amília
ala gada a ês ge ações (pais/i mãos/a ós).
No e-se que, em ce ca de 1/4 dos ag egados
domés icos, coexis em mais pessoas à p ocu a
de emp ego, a o que ce amen e con ibui pa a
a agilização de au ossus en ação e equilíb io. O
ac o de 25 % dos cônjuges/companhei os(as) dos
inqui idos não abalha é digno de no a, pois pode á
cons i ui indicado de p eca iedade, insegu ança
e/ou di i culdade de sus en abilidade económica de
1/4 das amílias. Também o con ac o com pessoas
desemp egadas é comum na es an e es e a social
dos inqui idos (78,2 % êm ou os amilia es ou
amigos desemp egados).
Uma análise da p oximidade geog á i ca en e
amilia es mais di e os pe mi e a i ma que, no
Isabel Ma çano
24
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 21-29
ge al, exis e g ande p oximidade: quase 30 %
esidem na mesma eguesia e ce ca de 24 % no
mesmo concelho.
Sociabilidade amilia
Ao analisa a isi a en e amilia es, conclui-se
que a pe iodicidade diá ia ou semanal é a p á ica
mais comum (56,1 %), embo a 37 % exp essem
isi as pon uais ou a sua inexis ência. Uma mino ia
(6,8 %) exp essa uma p á ica mensal de isi as. A
p oximidade geog á i ca e os con ac os sociais en e
os amilia es mais chegados con i gu am p o eção
psicológica e in eg ação social ace ao desemp ego.
Solida iedade e ocas amilia es
Tendo como undo os dados an e io es, ana-
lisa am-se solida iedades amilia es e ocas en e
indi íduos em si uação de desemp ego.
Rela i amen e à ajuda de amilia es, a maio ia
(70 %) a i ma não ecebe qualque ipo de ajuda,
mas ainda assim é exp essi a a pe cen agem dos
que dela bene i ciam (30 %).
Quan o à ajuda, p edomina a i nancei a (53,4 %).
No en an o, a ajuda no alojamen o é ambém iden i i -
cada po bas an es inqui idos (21,9 %). Num e cei o
ní el e com exp essão análoga su gem duas ajudas:
cuida dos i lhos (12,3 %) e alimen ação (11 %).
Solida iedades e ocas amilia es o am anali-
sadas em en e is as complemen a es ao inqué i o,
sendo no ó io que ocupação do empo, ocas,
solida iedades e ajudas in e agem no con ex o do
desemp ego.
En e is as5
Da in es igação eme ge que no desemp ego
se pe dem a iá eis o ganizacionais de ges ão do
empo, embo a apa eçam ou os ma cado es, como
as ob igações pa a com o Es ado, ou se e o cem
de e es e ocas com a amília.
A maio ia dos homens op a po c ia o inas
que pe mi em sai de casa. Não só, pa a alguns,
po que a casa é o espaço adicional eminino, mas
po mo i os de isolamen o e de busca do con í io
social e de emp ego. As mulhe es, mesmo as mais
jo ens, endem a pe manece mais empo em casa
e a man e um sen ido social pelo cuida da casa,
i lhos, ne os ou pais idosos.
As mães êm em comum o ac o de pau a em
a ida pelas necessidades da p ole. O ma e ial das
en e is as e idencia pad ões empo ais e de ocas
comuns às idas de mulhe es, sob e udo ope á ias,
mas com a iação em unção da idade.
Mui as mulhe es, in l uenciadas pela adição ou
limi adas pela al a de ecu sos i nancei os ou po
ca ência de es u u as na sua á ea de esidência,
assumem o cuidado de i lhos e pais. Assim, e i am
ambém um ac éscimo das despesas. No global, as
mulhe es comungam da ealização de a i idades
no empo social amilia com a execução de a e as
di e sas. A desc ição des as a i idades é assinalada
pelas mulhe es das classes ope á ias e bu oc á icas
como ações que p eenchem os dias; não são po ém
des acadas pelas mulhe es de p o i ssões écnicas,
in elec uais e cien í i cas.
A pa i dos cinquen a anos su gem mais casos
de desemp egadas que assumem ou o papel de
apoio amilia ao oma con a de mães ou pais
idosos, si uação ele an e na economia domés ica,
que os pais pa ilhem ou não do mesmo ag egado
domés ico.
Em ge al, são poucos os homens que dedicam
empo a a i idades domés icas, embo a passem
mais empo em casa e dêem mais apoio a i lhos
ou ne os. De ac o, e compa a i amen e às mulhe-
es, os homens es ão menos p esen es no empo
amilia : menos cen ados e ocupados em casa e
mui o menos em a i idades domés icas, ainda que
alguns a i mem “da uma ajuda” ou cozinha . Pa a
mui os, se a casa é obje o de abalho, é-o enquan o
es u u a a melho a (pin u as, pequenos a anjos
ou g andes ob as), sublinhando alguns ela os o
con ibu o des e abalho pa a a economia amilia .
Vejam-se alguns exemplos de quem ecebe
ajuda.
A., com 22 anos, em uma i lha de in e e
qua o meses. Ope á ia ab il, apenas concluiu o 6.º
ano de escola idade. Desemp egada há dois anos,
não au e e subsídio. O ma ido abalha em o i cina e
ecebe o salá io mínimo nacional. Os pais i em na
mesma eguesia e as mulhe es e c iança dos dois
g upos domés icos encon am-se á ias ezes po
semana. Os a ós dão apoio à jo em amília: cuidam
da ne a quando necessá io, o e ecem alimen os da
ho a, p epa am e eições, sendo as ocas sob e udo
dinamizadas no eminino.
B., sol ei a sem i lhos, em 25 anos e o 12.º ano
de escola idade. Vi e com os pais e es á desemp e-
gada há ês meses. Tem alguma expe iência como
caixei a de loja, não au e e subsídio e con a com
o apoio i nancei o e de alojamen o po pa e dos
pais. É um dos casos a os que se dedica a algum
abalho de olun a iado (com idosos), pa a além
da p ocu a de emp ego.
C. é mulhe de 27 anos, engenhei a indus ial,
casada e sem i lhos. O ma ido é bancá io. Com
expe iência de abalho na á ea come cial, deseja
um emp ego na sua á ea p o i ssional. Desemp e-
gada há dois meses, em subsídio que du a á po
dez meses e ecebe apoio do ma ido. Cuida da casa,
p epa a e eições e p ocu a emp ego.
O subsídio não é mui o mas é impo an e
pa a as minhas despesas. Assim não i co com-
PRÁTICAS CULTURAIS DOS JOVENS DAS CLASSES SOCIAIS DOMINANTES: REFLEXÕES EM TORNO DO ECLETISMO CULTURAL
31
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 31-39
Resumo
Nes e a igo, p ocu a emos e l e i sob e as p á icas cul u ais dos jo ens “he dei os” que e-
quen am dois p es igiados colégios p i ados po ugueses, endo po base os esul ados de uma
in es igação de dou o amen o. Depois de p oblema iza mos as missões educa i as pe seguidas
po es as escolas, no eadas pela me a de uma o mação in eg al que alia à dimensão académi-
ca as dimensões cí ica, social e cul u al, incidi emos a nossa análise sob e as p á icas cul u ais
dos alunos, e l e indo a é que pon o elas es ão em elação homológica com a posição ocupada
no espaço social ou são exp essão de um ecle ismo “escla ecido” que se a i ma como um no o
ope ado de dis inção simbólica. Discu i emos ainda o papel da socialização amilia e escola na
o mação de disposições a o á eis aos consumos cul u ais “cul i ados”.
Pala as-cha e: colégios p i ados; p á icas cul u ais; classes dominan es
Abs ac
This pape ocuses on he cul u al p ac ices o you h ha a end wo o he mos socially ecognized
Po uguese p i a e schools and i is based on he esul s o a doc o al esea ch p ojec . Fi s ly,
we will analyse he educa ional p ojec s o hese schools – in which we i nd no only academic
goals, bu also ci ic and cul u al ones. Secondly, we will hink abou s uden s’ cul u al p ac ices
and we will discuss i we can alk abou a pu e homological ela ion be ween hese consump ions
and s uden s’ social posi ions o i we mus ha e o alk abou an “enligh ened” eclec icism as a
new o m o dis inc ion. Finally, we will discuss he ole o amilia and schola socializa ion in he
p omo ion o legi ima e cul u al consump ions.
Keywo ds: p i a e schools; cul u al p ac ices; uppe classes
Ma ia Luísa Qua esma
In es igado a do Ins i u o de Sociologia da Faculdade de Le as da Uni e sidade do Po o e P o esso a da Uni e sidad
Au ónoma de Chile ([email p o ec ed])
PRÁTICAS CULTURAIS DOS JOVENS DAS CLASSES SOCIAIS DOMINANTES:
REFLEXÕES EM TORNO DO ECLETISMO CULTURAL
Os colégios p i ados e a educação holís ica:
no as in odu ó ias
P oblema izando a pe inência do pa adigma
bou diano das homologias en e pe ença classis a
e p á icas cul u ais e con ocando as ecen es eses
em o no das me amo oses dos mecanismos da
dis inção (Coulangeon, 2011), p opomo-nos analisa
a abe u a à polic omia cul u al dos es udan es de
dois colégios p i ados si uados em Lisboa e e-
quen ados pelas classes dominan es, onde le ámos
a cabo uma in es igação de dou o amen o1 sob e
o sucesso educa i o no ensino pa icula . Realizado
num colégio laico e num eligioso, es e es udo e e
como en oque analí ico as ep esen ações sociais dos
di e en es agen es educa i os (di e o es, p o esso es,
alunos, ex-alunos e pais) sob e o sucesso educa i o
e as es a égias o ganizacionais pa a o alcança .
Acionámos um conjun o de écnicas de in es iga-
ção quali a i as e quan i a i as: en e is as semi-
di e i as a onze ep esen an es dos ó gãos cole-
giais, a eze pais e a seis ex-alunos; dois g upos
de discussão o a com p o esso es, o a com alunos
e duas en e is as de g upo a p o esso es; obse a-
ções di e as em con ex o escola ; análise de on es
documen ais, como P oje os Educa i os, Anuá ios,
Regulamen os In e nos; inqué i o po ques ioná io
aplicado a uma amos a ep esen a i a de 475
es udan es en e o 9.º e o 12.º ano, selecionada
a pa i de um uni e so de 874 alunos e endo po
base o sexo, o ano de escola idade e o ag upamen o
cien í i co.

Ma ia Luísa Qua esma
32
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 31-39
Num b e e e a o de ap esen ação dos colé-
gios em es udo, salien a íamos o ac o de es a mos
pe an e dois dos es abelecimen os de ensino de
maio enome em Po ugal, que pela sua longa
adição no campo da educação e da o mação das
eli es nacionais, que po uma imagem pública de
qualidade académica que a publicação dos ankings
escola es ajudou a consolida , con e indo-lhes uma
au a de “excelência” que unciona, pe si, como um
signo dis in i o no pano ama do uni e so escola
po uguês. A sele i idade sociocul u al do seu público
escola não deixa á ambém de con ibui pa a a
cons ução des a imagem, an o mais que, como
diz Van Zan en, ende a p e alece a pe ceção de
que a “qualidade da educação – no duplo sen ido
da ins ução e da socialização – (…) depende es ei-
amen e das ca a e ís icas do público dos alunos”
(2009: 26). O a, como a análise dos dados con i ma,
os dois colégios são equen ados po jo ens p o e-
nien es de classes com ele ados capi ais cul u ais
e/ou económicos: 41,9 % deles p o êm da Pequena
Bu guesia In elec ual e Cien í i ca (PBIC); 20,6 %
pe encem à Bu guesia Emp esa ial e P op ie á ia
(BEP) e 31,7 % à Bu guesia Di igen e e P o i ssional
(BDP). Apenas 5,8 % dos alunos são o iundos de
ou as ações de classes, den o das quais encon-
amos apenas duas com pe i l de baixa quali i cação
escola e de meno olume de capi al económico,
social e simbólico: Pequena Bu guesia de Execução
(1,6 %) e Ope a iado (0,2 %) (Tabela 1).
Bu guesia Emp esa ial e P op ie á ia 20,6 %
Bu guesia Di igen e e P o i ssional 31,7 %
Pequena Bu guesia In elec ual e Cien í i ca 41,9 %
Pequena Bu guesia Técnica e de Enquad amen o In e médio 3,1 %
Pequena Bu guesia de Execução 1,6 %
Pequena Bu guesia P op ie á ia e Assala iada 0,9 %
Ope a iado Plu iac i o 0,2 %
To al 100 % (N=451)
Tabela 1

 Luga de classe amilia dos alunos
A quase o alidade dos p ogeni o es des es
alunos concluiu um g au académico de ní el supe-
io : 38,1 % das mães comple a am a licencia u a,
23,8 % o mes ado, 12,1 % o dou o amen o e 9,8 %
o pós-dou o amen o, alo es que en e os pais
a ingem, espe i amen e, 33,2 %, 23,1 %, 17,9 %
e 10,6 % (Tabela 2).
“Elei os” po um público escola he dei o de
uma posição social e cul u al o emen e capi alizada,
com al as expe a i as no u u o e ele ados ní eis
de in es imen o no quo idiano académico, indis-
pensá eis pa a da con inuidade à he ança, es es
colégios encon am no p oje o de o mação in eg al
a espos a à dis in i idade almejada pelas classes
dominan es (Pinçon e Pinçon-Cha lo , 1998). Os “he -
dei os” des as amílias es a ão des inados a ocupa
posições dominan es e unções di as de au o idade
“(…) que, nunca sendo de i nidas (ou somen e em
apa ência) unicamen e pela sua dimensão écnica,
pedem «la gueza de is as», ap idões poli alen es,
isão de « elance», «cul u a ge al», ideias ge ais,
capacidades de sín ese, em suma, odas as i u-
des insepa a elmen e in elec uais e mo ais que os
ocupan es das posições dominan es nos di e en es
campos a ibuem a si p óp ios (…)” (Bou dieu, 1989:
210) – aquisições que, mesmo sem es a em expli-
ci adas no “cu ículo o i cial”, in eg am o “cu ículo
escondido” (Pe enoud, 1995) de escolas que, como
es as, es ão incumbidas de o ma as eli es u u as,
como admi em os alunos en e is ados.
Pai Mãe
1.º ciclo do Ensino Básico (4.º ano) 0,2 % 0,2 %
2.º ciclo do Ensino Básico (6.º ano) 0,5 % 0,2 %
3.º ciclo do Ensino Básico (9.º ano) 1,9 % 1,6 %
Ensino Secundá io (12.º ano) 9,4 % 11,4 %
Bacha ela o 3,3 % 2,6 %
Licencia u a 33,2 % 38,1 %
Mes ado 23,1 % 23,8 %
Dou o amen o 17,9 % 12,1 %
Pós-Dou o amen o 10,6 % 9,8 %
To al 100,0 % (N=425) 100,0 % (N=428)
Tabela 2

 Ní el de escola idade dos pais
PRÁTICAS CULTURAIS DOS JOVENS DAS CLASSES SOCIAIS DOMINANTES: REFLEXÕES EM TORNO DO ECLETISMO CULTURAL
33
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 31-39
Numa con i mação da escola p i ada enquan o
“comunidade de alo es” amplamen e pa ilhados
(Es ê ão, 1998), os P oje os Educa i os e os enun-
ciados discu si os dos di e en es ep esen an es
colegiais con e gem na a i mação dos alo es e
p incípios socializado es conside ados eixos es u-
u an es da espe i a ação educa i a e que os
alunos de e ão adqui i e a i a pa a se em dignos
ep esen an es do espe i o colégio ou, como nos
dizem os en e is ados, pa a pode em “ es i a
camisola da escola”. No colégio eligioso, é e iden e
a unanimidade dos agen es educa i os em o no
do ideal de o mação in eg al de i nido no espe i o
P oje o Educa i o e que in eg a ês dimensões
undamen ais: pessoal, aduzida na cons ução de
uma pe sonalidade incada e coesa; social, ma e-
ializada na educação pa a um se “de elação” com
a al e idade e pa a o “se iço dos ou os”, como
nos diz o Di e o do colégio; e eligiosa, pa en e no
acompanhamen o dos “(…) alunos no seu c escimen o
da Fé, cen ada em C is o (…)” (P oje o Educa i o),
na c ença de que o se humano só pode “(…) e
uma pe sonalidade o e ao se iço dos ou os se
o i ze em Deus” (Di e o do colégio eligioso). No
colégio laico, ambém sob essai das en e is as e
do inqué i o a mesma sin onia socializado a en e
os di e en es agen es educa i os e a di eção colegial
no que diz espei o à o mação dos alunos segundo
os “g andes alo es humanis as” (P oje o Educa i o)
que p esidi am à undação des e es abelecimen o
de ensino, apos ado no desen ol imen o do pila
humano (educação pa a a au onomia, e l exi idade,
c ia i idade), académico (aquisição do pa imónio
linguís ico, li e á io e cien í i co) e de cidadania.
Assim, pa indo da a iculação en e os dados
o necidos pela empi ia e os con ibu os eó icos,
cons uímos um concei o de sucesso educa i o
capaz de aba ca es e ideal de o mação de “banda
la ga” pe seguido po colégios e amílias e que con-
empla qua o dimensões: a académica, a social, a
cí ica e a cul u al. Cingi -nos-emos, nes e a igo,
à análise des e úl imo domínio de o mação plena,
ocando a nossa a enção nas p á icas cul u ais dos
alunos. Conscien es de que podemos es a “(…)
con on ados, a cada momen o de cada sociedade,
com um conjun o de posições sociais que se une
po uma elação de homologia a um conjun o de
a i idades (…)” (Bou dieu, 2001: 6), p oblema i-
za emos a pe inência da elação homológica en e
es as p á icas e as posições sociais dos alunos.
Mas sabendo que os indi íduos “não são ei os de
um só pedaço” (Lahi e, 2003: 32), endo cada um
deles a capacidade de “(…) se ao mesmo empo
« ulga » e «especial» (…)” (Sa age e al., 2000:
117), a ançamos com a hipó ese de es es jo ens
não e em consumos cul u ais exclusi os em e mos
de legi imidade cul u al, e elando sinais desse ecle-
ismo não indis in o que, pa a Coulangeon (2011),
ma ca á hoje a on ei a simbólica en e as classes
dominan es e as es an es.
F uições cul u ais dos jo ens das classes
dominan es: en e a cul u a de massas
e a “al a” cul u a
Um dos elemen os es u u an es do quo idiano
ju enil são as p á icas de laze e de sociabilidade
que, sob o mas di e sas con o me os con ex os de
ida, con ibuem pa a que os jo ens le em a bom
po o a “ a e a po excelência do adolescen e” (Cos a,
1997: 143): a cons ução da iden idade psicossocial,
assen e numa conquis a de au onomia ace aos pais
que em como con apon o a sob e alo ização das
edes amicais.
Tomando como pano de undo e como plano
compa a i o a ju en ude po uguesa, analisa emos
a adesão dos alunos que às p á icas cul u ais in e-
g adas na cul u a de massas, que às enquad adas
na di a “cul u a cul i ada”.
En e “os signos ju enis ge acionais” (Pais,
2003: 126) que podemos conside a comuns à
gene alidade dos jo ens con am-se a equência
de ba es/ca és, o consumo ele isi o, as idas ao
cinema, o acesso à In e ne e a música – p á icas
que, não obs an e a sua gene alização e massi-
i cação, admi em a iações de in ensidade e de
“qualidade” em unção, nomeadamen e, do capi al
socioeconómico e cul u al, a é po que, como ale a
Cuche, po mui o g ande que seja a pad onização
de um p odu o, “(….) a sua eceção não pode se
uni o me e depende mui o das pa icula idades
cul u ais de cada g upo, bem como da si uação que
cada g upo conhece no momen o da eceção” (2003:
123). Os alunos des es colégios não se dema cam
des e pad ão de consumos mais massi i cados que
es u u am as iden idades ju enis, “ anscendendo
la gamen e as cli agens sociais” (Donna , 2004: 90)
po o ça, nomeadamen e, do e ei o socializado
in age acional do g upo de pa es. Assim, mais de
me ade dos alunos po nós inqui idos (63,5 %) e-
quen am assiduamen e os ca és e ba es, ade indo
a uma p á ica amplamen e associada à “(…) busca
de con í io pa a além do empo escola ” (Fe nandes
e al., 2001: 241) que in eg a os hábi os da gene-
alidade da população ju enil po uguesa (Gomes,
2003). A equência do cinema ambém ap oxima os
nossos inqui idos dos es an es jo ens po ugueses.
Iden i i cada po Fe nandes e al. como uma das
“saídas cul u ais mais es u u adas” (2001: 256)
dos jo ens, a ida ao cinema é p á ica habi ual de
64,3 % dos alunos inqui idos, que e e em ma ca
p esença nas salas de espe áculo algumas ezes
po mês. Con i mando a meno ece i idade dos
mais jo ens aos “ alo es clássicos” da his ó ia da
Sé ima A e (Lopes, 2000: 231), os inqui idos elegem
como ob as cinema og á i cas a o i as i lmes que
Ma ia Luísa Qua esma
34
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 31-39
são ep esen a i os da di usão do consumo global
pelos ci cui os de dis ibuição cul u al e que se
a i ma am como sucessos de bilhe ei a pelo e ei o
de “macdonaldização” (Ri ze , 1993) da cul u a.
Deles salien amos, pela sua maio exp essi idade,
C epúsculo e Ha y Po e .
No que diz espei o ao ele isionamen o e ao
ecu so à In e ne , concluímos que eles ambém são
laze es omnip esen es no quo idiano des es alunos,
con i mando a o ça da “cul u a do ec ã” (Donna ,
2009: 5): 63,7 % deles são espe ado es diá ios de
ele isão e 62,2 % es ão ligados, quo idianamen e,
à ede global, que em nos jo ens e nas classes
sociais a o ecidas os seus p incipais u ilizado es,
segundo o mesmo es udo.
Rela i amen e à música – uma ou a cons-
an e lúdica no es ilo de ida ju enil –, e i i camos
que 46,4 % dos nossos inqui idos dizem assis i a
espe áculos musicais algumas ezes po mês ou
algumas ezes po semana.
Todos
os dias
Algumas
ezes po
semana
Algumas
ezes
po mês
Ra amen e Nunca To al
I a ca é/ba es 16,9 % 46,6 % 28,1 % 7,4 % 1,1 % 100,0 %
(N=474)
I ao cinema 1,5 % 20,5 % 64,3 % 13,3 % 0,4 % 100,0 %
(N=474)
Ve TV 63,7 % 27,0 % 3,2 % 5,3 % 0,8 % 100,0 %
(N=474)
Na ega na In e ne 62,2 % 31,0 % 4,4 % 1,7 % 0,6 % 100,0 %
(N=474)
I a espe áculos musicais 1,1 % 8,2 % 38,2 % 44,1 % 8,4 % 100,0 %
(N=474)
Tabela 3

 P á icas cul u ais “massi i cadas”: i a ca é/ba es, i ao cinema, e T , na ega na In e ne ,
i a espe áculos musicais
Os es ilos de música mais escolhidos como p i-
mei as opções não êm, mais uma ez, os con o nos
da “clássica” dis in i idade bou diana, con undindo-se
com as p e e ências da es an e população ju enil
(Fe nandes e al., 2001): pop- ock (37,1 %), hip-
-hop/ ap (17,7 %) e house/disco (15 %). No en an o,
su ge em qua o luga como es ilo de música a o-
i a um géne o musical al e na i o que não pode á
deixa de con i gu a um signo de dis inção dos
alunos des es colégios ace ao es an e uni e so
adolescen e: o jazz/blues, cujo gos o consegue
es a ainda “(…) mui o menos disseminado do que
o gos o pela música clássica (…)” (Lopes, 2000:
264) e que é escolhido po 7,2 % dos inqui idos2.
Sendo uma opção musical ainda menos p e isí el
na aixa e á ia dos inqui idos (Gomes, 2003), ela
é, no en an o, compaginá el com a sua o igem de
classe – PBIC e BD/BP –, con i mando as conclusões
de Fe nandes e al. (2001). Ausen es des e uni e so
de p e e ências es ão es ilos musicais que ocupam
a base da hie a quia da legi imidade cul u al, como
é o caso da popula “música pimba”, que não colhe
a p e e ência de nenhum dos inqui idos.
Também no que diz espei o aos p og amas
ele isi os com maio audiência en e es es jo ens,
cons a amos es a pe an e idên ica hib idez de
consumos que oscilam en e o “e udi o” (como
os p og amas cien í i cos, elei os po 17,9 % dos
alunos) e o “massi i cado” (caso das sé ies es an-
gei as, is as po 65,9 % dos inqui idos). Mas, al
como na música, os jo ens e elam sinais de um
ecle ismo “escla ecido”, p a icamen e excluindo dos
seus consumos ele isi os p og amas associados ao
“lixo cul u al”, como é o caso dos eali y shows, a
que só 5 % dos inqui idos dizem assis i .
Os inqui idos dema cam-se ainda dos demais
jo ens, em e mos de “p á icas dis in as e dis in-
i as” (Bou dieu, 2001: 9), no que diz espei o à
lei u a e à equência de exposições/museus ou
de espe áculos mais consag ados, como é o caso
do ea o.
A p á ica da lei u a em egis ado um declínio
(Coulangeon, 2011). Donna (2009) dá con a da
endência pa a a diminuição dos g andes e médios
lei o es e pa a o aumen o dos não lei o es de li os
e jo nais quo idianos, assinalando a pa icipação
a i a dos jo ens no ecuo des e ipo de lei u as.
Os hábi os de lei u a, apesa do seu dec éscimo
en e as classes dominan es – hoje mais p opensas
a a i idades cul u ais mundanas (Pinçon e Pinçon-
-Cha lo , 2007) e mais p essionadas po um i mo
p o i ssional que lhes e i a disponibilidade empo al
pa a le (Coulangeon, 2011) – con inuam mais
equen es en e os de en o es de capi ais cul u ais
e económicos (Donna , 2009; Coulangeon, 2011).
Ques ionámos os alunos sob e a egula idade
com que liam a a és da a iá el “lei u a de li os,
e is as e jo nais”. P e endendo a alia a equência
PRÁTICAS CULTURAIS DOS JOVENS DAS CLASSES SOCIAIS DOMINANTES: REFLEXÕES EM TORNO DO ECLETISMO CULTURAL
35
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 31-39
e não os con eúdos das suas lei u as, op ámos po
não desag ega essa a iá el, ainda que conscien es
de que ela aba ca p odu os com di e en es g aus de
legi imidade cul u al que impo a ia e em con a no
âmbi o de uma análise mais i na do pe i l de lei o
des es jo ens. As espos as e idenciam a i ali-
dade das suas p á icas de lei u a. Com e ei o, le é
uma p á ica quo idiana pa a 34 % dos inqui idos e
egula (algumas ezes po semana) pa a 32,9 %
– esul ados mais o imis as do que os ob idos po
Gomes (2003) e po Fe nandes e al. (2001) jun o
da ju en ude po uguesa.
Todos os dias 34,0 %
Algumas ezes po semana 32,9 %
Algumas ezes po mês 16,8 %
Ra amen e 13,6 %
Nunca 2,8 %
To al 100,0 % (N=471)
Tabela 4

 Le (li os, e is as e jo nais)
Não cons i uindo a p á ica da lei u a, pe si,
o único a o de dis inção e sendo o indi íduo “(…)
do ado de ca ego ias de pe ceção, de esquemas
classi i ca ó ios, de um gos o que lhe pe mi em es a-
belece di e enças, disce ni , dis ingui ” (Bou dieu,
2001: 10), p ocu ámos sabe jun o dos nossos
inqui idos quem são os seus au o es li e á ios p e-
e idos. No opo das p e e ências de uma signi i ca-
i a pe cen agem de alunos encon amos au o es
consag ados – mode nos (18,4 %), como Kunde a
ou Mia Cou o, mas ambém clássicos (9,1 %), como
Júlio Ve ne ou Gogol. O conhecimen o de au o es
que, como es es, não in eg am os cu icula pa ece
e idencia que a socialização escola “ o mal” não
é, pa a es es alunos, a única ia de acesso à cul-
u a cul i ada. As inicia i as ex acu icula es de
âmbi o cul u al dinamizadas pelos colégios pode iam
po encia a o mação das disposições de uição da
li e a u a consag ada. No en an o, a inexis ência
de di e enças es a is icamen e signi i ca i as en e
os esul ados ob idos no colégio laico (que in es e
a i amen e na p omoção de inicia i as cul u ais) e
no eligioso (mais di ecionado pa a as a i idades
cí icas) le a-nos a ela i iza o peso explica i o da
socialização escola e a admi i a p eponde ância
da a iá el “pe ença social”.
Assinalamos que a maio ia dos inqui idos –
numa cla a con i mação de que a lógica das homo-
logias pu as não é aplicá el a um mundo plu al em
que o indi íduo se ê inse ido em múl iplos con-
ex os socializado es (Lahi e, 2003) – se mos am
pe meá eis que à cul u a escola , que à cul u a
audio isual e à “economia mediá ico-publici á ia”
(Donna , 2004: 98), que são uma das ma cas da
con empo aneidade. Ap oximando-se, nes e domí-
nio, do pe i l de “consumido es cul u ais omní o os”
(Pe e son e Ke n, 1996), es es alunos conciliam
gos os e p á icas que são dis in os em e mos de
legi imidade cul u al. Com e ei o, os inqui idos iden-
i i cam maio i a iamen e como esc i o es a o i os
au o es “ao gos o legí imo”, como os que cons am
dos p og amas escola es (33,1 %) – clássicos, como
Luís de Camões ou Eça de Quei ós, ou mode nos,
como Sophia de Mello B eyne ou José Sa amago
–, mas ambém são ap eciado es de bes selle s
(24,1 %) – da au o ia de, po exemplo, Dan B own ou
S ephenie Meye –, de ob as li e á ias adap adas ao
cinema ou à ele isão (9,4 %) – como as de Nicholas
Spa ks – e ainda de esc i o es o iundos do cená io
mediá ico (5,9 %) – caso de José Rod igues dos
San os ou de Miguel Sousa Ta a es –, deixando-nos
adi inha o papel que os mass media desempenham
na essi u a de uma “cul u a global” que se impõe
pela ia da di ulgação de con eúdos in o ma i os
e lúdicos ou da p omoção e enda de “es ilos de
ida” (Wa e s, 2002) (Tabela 5).
A pa da o e adesão dos jo ens inqui idos às
p á icas de lei u a ju enil, encon amos ambém,
nes e uni e so de discen es, ou as p á icas associadas
à “al a cul u a”, como é o caso da equência de expo-
sições/museus ou da ida ao ea o, que e i i camos
se em incen i adas an o no quad o amilia como em
con ex o escola , numa sin onia socializado a en e
casa e escola de que adian e ala emos.
Re e enciada po Fe nandes e al. (2001) como
uma p á ica com uma adesão ju enil esidual, a isi a
P imei o esc i o
a o i o
Segundo esc i o
a o i o
Te cei o esc i o
a o i o
Consag ado clássico 9,1 % 9,3 % 13,3 %
Consag ado mode no 18,4 % 21,9 % 20,7 %
Au o es mediá icos 5,9 % 6,0 % 5,9 %
Au o es de bes selle 24,1 % 19,1 % 16,3 %
Au o es ligados a sé ies e i lmes 9,4 % 7,9 % 7,4 %
Consag ados lecionados na escola 33,1 % 35,8 % 36,3 %
To al 100,0 % (N= 320) 100,0 % (N=215) 100,0 % (N=135)
Tabela 5

 Esc i o es a o i os3
Ma ia Luísa Qua esma
36
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 31-39
de exposições e museus é uma a i idade egula
en e os nossos discen es: 36,7 % equen am es es
espaços cul u ais algumas ezes po ano e 12,1 %
no mínimo uma ez po mês. Também o ea o,
cujo público é pa icula men e exíguo mesmo en e
adul os (Conde, 1997), encon a nos colégios em
análise um conjun o de equen ado es mais egu-
la es do que os encon ados po Fe nandes e al.
(2001): quase me ade dos nossos alunos (44,9 %)
ai a espe áculos ea ais, 20,4 % deles uma ez
po ano, 19,6 % algumas ezes po ano e 4,9 %
pelo menos uma ez po mês. Se a ende mos à
pe ença classis a des es es udan es, es a adesão
não é su p eenden e, endo em con a que eles
in eg am as classes sociais que mais con ibuem
pa a os públicos de ea o e que são, jus amen e,
as que ocupam o opo da hie a quia social (Conde,
1997) e que de êm, po an o, não só os capi ais
cul u ais mas ambém os ecu sos económicos exi-
gidos po es e ipo de consumo cul u al (Bou dieu,
1979). Mais su p eenden e é o ac o de es a mos
pe an e adolescen es e de o ea o se uma p á ica
cuja exigência em e mos de “ olume mínimo de
capi al in o macional” (Lopes, 2000: 238) eque
uma ma u idade o ma i a di i cilmen e a ingida na
aixa e á ia dos nossos inqui idos.
Pelo menos
uma ez
po mês
Algumas
ezes po
ano
Uma ez
po ano Ra amen e Nunca To al
Visi a exposições/museus 12,1 % 36,7 % 18,5 % 22,7 % 10,0 % 100,0 %
(N=471)
I ao ea o 4,9 % 19,6 % 20,4 % 33,4 % 21,7 % 100,0 %
(N=470)
Tabela 6

 Visi a museus/exposições e i ao ea o
Uma ou a ma ca di e enciado a en e os alunos
des es colégios e a gene alidade dos jo ens eside no
ac o de aqueles usu uí em, em g ande núme o, da
opo unidade de ala ga os seus ho izon es cul u ais
a a és das iagens ao es angei o. Ainda que, po
o ça das passagens aé eas low-cos , os p incipais
des inos eu opeus enham i cado à dis ância de um
click pela In e ne e a p eços acessí eis a uma mais
la ga camada da população, as é ias no es angei o
não cons i uem ainda uma p á ica e dadei amen e
massi i cada en e as amílias po uguesas, como
se dep eende pela eduzida pe cen agem de 7,9 %
que, em 2009, passa am é ias o a do país (Co eia,
2011). O a, quase me ade dos nossos inqui idos
(43,3 %) dizem desloca -se além- on ei as uma ez
po ano e 31,4 % a i mam mesmo azê-lo algumas
ezes po ano – exp essi as pe cen agens que nos
eme em pa a a impo ância con e ida pelas classes
dominan es a “(…) es as on es de ap endizagem,
«ao i o», dos g andes legados his ó icos da nossa
ci ilização e, adicionalmen e, [a] um dos mais in e-
essan es meios de aquisição de disposições e da-
dei amen e cosmopoli as (…)” (Viei a, 2003: 540).
Pelo menos uma ez po mês 2,5 %
Algumas ezes po ano 31,4 %
Uma ez po ano 43,3 %
Ra amen e 17,2 %
Nunca 5,5 %
To al 100,0 % (N=471)
Tabela 7

 Passa é ias no es angei o
O papel da socialização escola e amilia
na inculcação de disposições a o á eis
a consumos cul u ais dis in i os
A socialização amilia não deixa á de con ibui
pa a a aquisição de disposições cul u ais que, como
lemb am Bou dieu e Passe on, não são p odu o
de um “milag e da p edes inação” (1974: 63). As
pala as de uma mãe são, a esse í ulo, elucida i as:
“Ti emos uma saída à ópe a e i zemos uma saída ao
ea o, mas udo ob igado, não é?, não o am eles
que quise am i . E ambém acho que i zemos uma
saída (…) aos museus, mas udo ob igado, com eles
a esmunga e nós a desliga -lhes os elemó eis
e a empu á-los e a dize -lhes que é udo an ás-
ico e eles a dize em que é udo uma «seca» (…)”
(colégio eligioso, BEP, 42 anos). Se a es imulação
amilia às p á icas cul u ais consag adas cons i ui
uma ma ca isí el de dis inção classis a, a posse
de bens cul u ais ambém con i gu a um símbolo
dis in i o de classe. De en e a mul iplicidade de
bens cul u ais que admi imos es a em acessí eis
aos nossos alunos, op ámos po incidi a nossa
análise sob e as biblio ecas domés icas. Es ando
nós pe an e amílias com ele ado capi al cul u al e
sabendo nós que “(…) as p á icas de lei u a o nam-
-se mais in ensas à medida que sobe que o capi al
escola de o igem, que o capi al escola adqui ido
(…)” (Lopes, 2000: 282), espe á amos que a cul u a
esc i a i esse o e p esença no uni e so domés ico
dos inqui idos. As hipó eses eó icas iniciais o am
con i madas. Quando inqui idos sob e o núme o de
li os – não escola es – que cons am das suas biblio-
ecas domés icas, os es udan es a esponde “menos

PRÁTICAS CULTURAIS DOS JOVENS DAS CLASSES SOCIAIS DOMINANTES: REFLEXÕES EM TORNO DO ECLETISMO CULTURAL
37
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 31-39
de 50 ob as” o alizam a esidual pe cen agem de
3,6 %. A maio ia dos jo ens (63,3 %) dizem, pelo
con á io, dispo de uma biblio eca com o mínimo de
300 li os, 38 % dos quais diz mesmo possui 500
ou mais ob as. A p esença de li os em casa não
deixa á de p opo ciona a es es jo ens ganhos de
dis inção (Bou dieu, 1979) ao ní el da amilia idade
com a cul u a escola men e alo izada, ainda que,
segundo Lahi e (2008), a me a posse de bens cul-
u ais em con ex o amilia não seja su i cien e pa a
a cons ução de compe ências cul u ais. Pa a que
ela se conc e ize, são necessá ias ou as condições
no plano da con i gu ação amilia , nomeadamen e
em e mos de disponibilidade obje i a e subje i a
dos pais. Es as condições pa ecem e i i ca -se
nes as amílias que, em en e is a, nos alam do
empo consag ado ao acompanhamen o dos i lhos,
da p eocupação com a sua o mação cul u al no
quad o de uma educação que p e endem holís ica e
da sua mobilização pa a os ajuda a “cons ui suas
p óp ias disposições cul u ais” (Lahi e, 2008: 339),
nomeadamen e incen i ando-os a le , a equen a
museus ou conce os de música clássica.
Ac esce que quando a socialização amilia
encon a p olongamen o na socialização escola
aumen am as p obabilidades da e i cácia socializa-
do a. Isso pode á explica o ac o de se no colégio
laico, onde a dimensão a ís ica é mais es imulada,
que encon amos alunos mais implicados na ida
cul u al. São eles, po exemplo, os que, em maio
núme o, e e em i a exposições/museus: apenas
8,2 % e 20 % dizem, espe i amen e, nunca e a a-
men e equen a em es es locais, pe cen agens que,
na escola eligiosa, sobem pa a, espe i amen e,
13,3 % e 27,7 %. Assim, os alunos do colégio laico
ela am-nos, com en usiasmo, algumas das inicia-
i as da sua escola pa a que “(…) a e e educação,
associadas, con ibuam pa a da mais sen ido às
ap endizagens humanas ans o mado as e mudan-
cis as (…)” (An unes e Padilha, 2010: 104): “Veio
ago a o Viei a Ne y ala de música, o colégio dá-nos
esses aspe os assim mais… que con ibuem pa a a
nossa o mação cul u al, eu acho” (aluna, colégio
laico, PBIC, 17 anos). Os alunos do colégio eligioso,
pelo con á io, são de opinião de que a sua escola
“(…) põe a á ea de A es um bocado de pa e” (aluna,
BEP, 17 anos). Pa ilhando uma ep esen ação social
es e eo ipada do “a is a” – cujo pe i l “excên ico,
i e e en e” e cujo “ empe amen o […] especial (…)
cus a, a quem não é a is a, comp eende ” (aluno
44, BDP, 17 anos) –, eles legi imam o echamen o
do colégio ao mundo das a es. Como lemb am,
“(…) o colégio é mui o adicional, i xa-se imenso
nas ideias e, basicamen e, a A e é o que ino a, é
ino ado e é o que c ia no os alo es. E eu acho que
há um bocado eceio disso!” (aluno3, BDP, 17 anos).
Es a pe ceção dos adolescen es de ambos os
colégios é co obo ada pelos pais. Enquan o no
colégio eligioso es es nos dizem que ali “(…) há
pouca p eocupação com aquilo que se chamam as
A es” (P esiden e da Associação de Pais), na escola
laica há pais que chegam a iden i i ca a educação
a ís ica como uma das mo i ações pa a a escolha
do colégio, como admi e uma das mães: “e a mui o
impo an e a ques ão do apelo pa a as ques ões
cul u ais e logo, desde o início, pe cebe o ipo de
isi as que eles inham – que a maio pa e são
a museus – e a p eocupação que êm em isi a
exposições empo á ias que, depois, ão e esse
cunho” (PBIC, 32 anos).
As nossas obse ações di e as no e eno con-
i mam o igo do colégio laico na dinamização de
a i idades de p omoção e de di ulgação cul u al:
elas ão desde a singela a i xação, nas pa edes do
edi ício escola , de poemas de au o es consag ados
da li e a u a nacional – de idamen e acompanhados
pelas espe i as biog a i as – ou de ep oduções
pic ó icas de econhecidos a is as, a é à ealização
de e en os cong egado es de oda a comunidade
educa i a, de que são exemplo as Semanas Temá-
icas das A es e a da Li e a u a, pa a as quais
são con idadas i gu as ele an es da ida cul u al.
Le ando à p á ica uma das p opos as de Bou dieu
(1987) pa a o ensino do u u o, o colégio laico,
a a és da p omoção do con ac o di e o dos seus
alunos com pe sonalidades ex e nas à escola, p o-
cu a es imula a sua ece i idade ao pa imónio das
A es e das Le as – uma p á ica colegial di undida
desde a sua undação, como nos dá con a o mais
an igo docen e da escola: “es e colégio nasceu de
gen e de Cul u a. Tal ez não saiba mas es e colégio
ealizou exposições onde, en e ou os, expôs o Júlio
Poma , onde en e ou os expôs o Ál a o Cunhal”.
Ainda hoje é isí el a p eocupação da Di e o a em
man e i a essa “chama a ís ica”, p ocu ando não
es ingi a ação da escola à ansmissão eó ica da
cul u a académica, ou, como de ende, “não aze
só os alunos se em excelen es alunos mas, depois,
não e em o meno conhecimen o da Li e a u a, da
Poesia, de uma exposição de Pin u a, dum Conce o.
Po an o, p ocu amos que seja uma cul u a huma-
nis a, em odas as suas e en es”. Pa a a conc e i-
zação des a me a, a A e e as Le as não só êm ao
colégio, como o colégio ai a é elas, logo desde os
p imei os anos de escola ização: “Nós p ocu amos
semp e isso, desde a mais en a in ância: le a os
miúdos a…, en i m, isi as de es udo no âmbi o cul-
u al, po exemplo, museus, a elie s…” (Di e o a do
colégio laico). As exposições dos abalhos pic ó icos
ealizados pelos alunos da p é-p imá ia, com que
o ginásio é engalanado nos dias das ce imónias
es i as da escola, como pudemos ap ecia , pa ece
p o a que a sensibilização pa a as a es se inicia,
pela p axis, logo no ensino in an il. Como nos oi
explicando a nossa acompanhan e ins i ucional,
enquan o íamos ap eciando os abalhos expos os,
Ma ia Luísa Qua esma
38
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 31-39
os pequenos “a is as” inham sido incen i ados a
uma ec iação pessoal que i e a como pon o de
pa ida o con ac o di e o com ob as de alguns dos
pin o es consag ados do campo a ís ico.
Também o ea o in eg a a socialização escola
des e colégio, que o p omo e, desde logo, enquan o
a i idade ex acu icula . As “a es do palco”, sob a
o ma de a e declama ó ia ou ea al, emon am,
aliás, ao empo do undado des e es abelecimen o
de ensino, como nos diz um dos alunos da década
de 40, eco dando, com emoção, as a uações no
ex e io do colégio: “eu i e aulas de «bem-dize »
e quem é que da a as aulas de «bem-dize »? Não
e a uma pessoa qualque , e a um a o de ea o, um
diseu , da al u a, que se chama a o (…). Um dos
g andes diseu s po ugueses, ao ní el do Villa e ,
po exemplo! E isso oi mui o in e essan e, po que
nos ensina a, pa a já, a le ex os de au o es – olhe,
po exemplo, o Gil Vicen e. O Gil Vicen e oi odo
lido com ele. Lido e ep esen ado, pa a a ingi o que
e a es e colégio. (…) En ão, azia-se semp e uma
ep esen ação de ea o. Uma ez oi na To e de
Belém e duas no Tea o T indade. Lemb o-me que
oi Almeida Ga e ” (BDP, 79 anos). A adição d a-
má ica ainda hoje se man ém i a, como pudemos
cons a a em e en os como a Semana das A es e
da Li e a u a, du an e a qual oi le ada à cena a
habi ual ep esen ação ea al discen e.
Apesa de a pedagogia inaciana e na d ama-
u gia um impo an e aliado educa i o ao se iço
da i nalidade úl ima da o mação jesuí ica que é a
educação in eg al, o ea o ca ece de isibilidade
nos discu sos dos agen es educa i os do colégio
eligioso, diluindo-se ace à p oeminência de ou as
a i idades, nomeadamen e as de âmbi o despo i o,
como pudemos es emunha na Fes a das Famílias
– o maio e mais impo an e e en o des a escola
que, du an e ês dias, eúne oda a comunidade
educa i a (alunos, pais, p o esso es, uncioná ios
não docen es, an igos alunos…).
A adesão dos jo ens à cul u a “cul i ada” az,
pois, como demons ámos, a ma ca da socialização
amilia e escola .
O ecle ismo escla ecido como ope ado
simbólico de dis inção: no as conclusi as
Enquad ada num es udo mais amplo sob e o
sucesso educa i o em dois colégios p i ados, es a
análise sob e as p á icas cul u ais dos jo ens des as
escolas p opõe, sem p e ensões de exaus i idade,
ab i pis as de e l exão sob e o ecle ismo cul u al
das classes dominan es – o no o signo de dis inção
classis a (Coulangeon, 2011) que é, a i nal, exp essão
das múl iplas e complexas pe meabilidades sociali-
zado as. Nem mesmo o con inuum socializado en e
amília e escola e a sele i idade social dos con ac os
en e pa es – ma izados, ou mesmo inexis en es,
nou os g upos sociais - ga an em, como pudemos
e i i ca , a impe meabilidade dos “gos os dis in i-
os” aos “gos os ulga es”. Assim, se es es jo ens
e elam a in e io ização do legado de uma educação
dis in i a – ade indo às p á icas de lei u a, isi ando
museus/exposições, equen ando salas de ea o
ou iajando equen emen e pa a o es angei o –,
não es ão imunes, pese embo a o maio echamen o
dos locus de in e ação e de educação em que se
mo em, a gos os e consumos massi i cados, como
é o caso do isionamen o de i lmes “come ciais” e
das popula es sé ies ele isi as no e-ame icanas,
da lei u a de bes selle s ou do ecu so à In e ne .
Es as p á icas – equen es ou mesmo quo idianas
– dos nossos inqui idos in eg am-se, como imos,
no quad o dos consumos cul u ais globalizados e
massi i cados que cons i uem, na a ualidade, um
“ aço” ge acional e “ ansclassis a”.
Impõe-se, pois, na linha das ecen es eo-
izações, um eequacionamen o c í ico das eses
bou dianas. Como, já na década de 70, obse a a
DiMaggio (1987), não al am azões pa a ela i iza
a “lógica” das homologias pu as, pe spe i ada do
pon o de is a que das classes com mais capi ais
(como aqui p ocu ámos aze ), que das classes
popula es. Isso po que, como lemb a, nem o gos o
se adqui e, unicamen e, po ia amilia nem o
domínio dos códigos cul u ais da “al a cul u a” é
condição sine qua non pa a equen a e ap ecia
esse ipo de mani es ações cul u ais, o que põe em
causa a elação de e minis a bou diana en e capi al
cul u al e p á ica cul u al.
Di íamos, assim, com Lahi e (2003), que nem
o “homem plu al” de hoje – p odu o da inco po a-
ção de uma mul iplicidade, em in e pene ação,
de esquemas de pe ceção, de expe iências e de
modelos de socialização – é passí el de ap eensão,
em oda a sua complexidade e he e ogeneidade,
po um concei o ígido de habi us, nem a coe ência
e a homogeneidade dos esquemas in e io izados
cons i uem a eg a, mas an es a exceção. Pa e-
cem inegá eis as limi ações explica i as das eses
bou dianas quando aplicadas a uma sociedade que,
como a a ual, se ca a e iza pela di e sidade compo -
amen al em e mos de p á icas – nomeadamen e
cul u ais – e po um esba imen o da uni o mização
in ag upal desses consumos (Lopes, 2000). Hoje,
a homogeneidade, em e mos de legi imidade
cul u al, dos gos os e das a i idades das classes
dominan es cedeu luga a um no o ope ado de
dis inção classis a: o ecle ismo “escla ecido” (e não
casuís ico) das p e e ências e dos laze es cul u ais.
Eis o que um olha sob e as p á icas cul u ais des es
“he dei os” nos pa eceu comp o a .
PRÁTICAS CULTURAIS DOS JOVENS DAS CLASSES SOCIAIS DOMINANTES: REFLEXÕES EM TORNO DO ECLETISMO CULTURAL
39
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 31-39
No as
1 Es a in es igação sociológica oi le ada a cabo no âmbi o
de uma ese de dou o amen o ealizada na Faculdade
de Le as da Uni e sidade do Po o e i nanciada pela
Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia.
2 Con a iamen e aos dados de Lopes (2000), há mais
alunos des es colégios a escolhe , como es ilo musical
a o i o, o jazz/blues do que a música clássica.
3 Pedimos aos inqui idos que indicassem ês esc i o es
a o i os. Pe an e a he e ogeneidade dos nomes, codi i -
camos as espos as em seis g upos: esc i o es “consa-
g ados” ( econhecidos pelos especialis as do seu campo),
subdi ididos em “mode nos” ou “clássicos”, con o me são
ou não con empo âneos; au o es mediá icos ( i gu as dos
mass media, como jo nalis as, comen ado es); “au o es
de bes selle ” (aqueles que o me cado consag ou pelo
êxi o de endas); “au o es ligados a sé ies e i lmes”
(cujas ob as es ão associadas à p odução ele isi a e
cinema og á i ca); “au o es consag ados lecionados na
escola” (in eg ados nos cu icula).
4
A a ibuição de um núme o se e pa a dis ingui
os en e is ados com idên icas ca a e ís icas sociog á i cas.
Bibliog a i a
ANTUNES, A. e P. Padilha (2010), Educação Cidadã,
educação in eg al: undamen os e p á icas, São Paulo,
Ed. L. Paulo F ei e.
BOURDIEU, P. (1979), La dis inc ion. C i ique sociale
du jugemen , Pa is, Les Édi ions de Minui .
BOURDIEU, P. (1987), “P opos as pa a o ensino do
u u o”, Cade nos de Ciências Sociais, 5, pp. 101-120.
BOURDIEU, P. (1989), La noblesse d’É a . G andes
écoles e esp i de co ps, Pa is, Les Édi ions de Minui .
BOURDIEU, P. (2001), Razões p á icas, Oei as, Cel a
Edi o a.
BOURDIEU, P. e J.-C. Passe on (1974), A ep odução
– elemen os pa a uma eo ia do sis ema de ensino,
Lisboa, Edi o ial Vega.
CONDE, I. (1997), “Cená ios de p á icas cul u ais em
Po ugal (1979-1995)”, Sociologia, p oblemas e p á-
icas, 23, pp. 117-188.
COSTA, M. E. (1997) “Desen ol imen o da iden idade
em con ex o escola ”, in B. P. Campos (o g.), Educação
e desen ol imen o pessoal e social, Po o, Edições
A on amen o, pp. 143-173.
COULANGEON, P. (2011), Les mé amo phoses de la
dis inc ion. Inégali és cul u elles dans la F ance
d’aujou d’hui, Pa is, G asse .
CUCHE, D. (2003), A noção de cul u a nas ciências
sociais, Lisboa, Fim de Século.
DIMAGGIO, P. (1987), “Classi i ca ion in A ”, Ame ican
Sociological Re iew, 52 (4), pp. 440-455.
DONNAT, O. (2004), “Les uni e s cul u els des F an-
çais”, Sociologie e Socié és, XXXVI (1), pp. 87-103.
DONNAT, O. (2009), “Les p a iques cul u elles des F an-
çais à l’è e numé ique”, Cul u e É udes, 5, pp. 1-12.
ESTÊVÃO, C. (1998), “A cons ução da au onomia e a
au onomia da ges ão nas escolas p i adas”, Re is a
Po uguesa de Educação, 11 (1), pp. 23-35.
FERNANDES, A. T., e al. (2001), Es udan es do Ensino
Supe io no Po o. Rep esen ações e p á icas cul u ais,
Po o, Edições A on amen o.
GOMES, R. (2003), “Sociog a i a dos laze es e p á icas
cul u ais dos jo ens po ugueses”, in J. M. Pais, e al.
(o g.), Condu as de Risco, P á icas Cul u ais e A i udes
pe an e o Co po, Oei as, Cel a Edi o a, pp. 167-263.
LAHIRE, B. (2003), O homem plu al, Lisboa, Ins i u o
Piage .
LAHIRE, B. (2008), Sucesso escola nos meios popula es.
As azões do imp o á el, São Paulo, Á ica.
LOPES, J. T. (2000), A cidade e a cul u a. Um es udo so-
b e p á icas cul u ais u banas, Po o, Edições A on-
amen o.
PAIS, J. M. (2003), Cul u as ju enis, Lisboa, Imp ensa
Nacional-Casa da Moeda.
PERRENOUD, P. (1995), O ício de aluno e sen ido do
abalho escola , Po o, Po o Edi o a.
PETERSON, R. A. e R. M. Ke n (1996), “Changing
highb ow as e om snob o omni o e”, Ame ican
Sociological Re iew, 61 (5), pp. 900-907.
PINÇON, M. e M. Pinçon-Cha lo (1998), G andes o -
unes: dynas ies amiliales e o mes de ichesse en
F ance, Pa is, Édi ions Payo .
PINÇON, M. e M. Pinçon-Cha lo (2007), Sociologie de
la bou geoisie, Pa is, La Décou e e.
RITZER, G. (1993), The McDonaldiza ion o socie y: an
in es iga ion in o he changing cha ac e o con em-
po a y social li e, Thousand Oaks, Pine Fo ge P ess.
SAVAGE, M., e al. (2000), “Indi idualiza ion and cul u al
dis inc ion”, in M. Sa age (o g.), Class analysis and
social ans o ma ion, Buckingham, Open Uni e si y
P ess, pp. 101-120.
VAN ZANTEN, A. (2009), “Le choix des au es. Juge-
men s, s a égies e ség éga ions scolai es”, Ac es de
la eche che en sciences sociales, 180 (5), pp. 25-34.
VIEIRA, M. M. (2003), Educa he dei os. P á icas
educa i as da classe dominan e lisboe a nas úl imas
décadas, Lisboa, Fundação Calous e Gulbenkian.
WATERS, M. (2002), Globalização, Oei as, Cel a Edi o a.
A igo de jo nal:
CORREIA, R. A. (2011) “C ise le a po ugueses a co a
nas é ias e a igia o o çamen o das iagens”, Público,
6 ma ço, pp. 20-21.
NOVAS PERSPETIVAS SOBRE AS IDENTIDADES DE CLASSE
47
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 41-49
explíci a e ca ego ial, p óp ia dum empo em que
as classes su giam como en idades mobilizado as e
e e ências de e minan es dos p ocessos his ó icos.
Foi pa a da con a de ou o empo em que as classes
se o na am mais disc e as, e a ep odução das
desigualdades e dos p i ilégios passou a deco e
ambém numa lógica de di e enciação segundo
p ocessos áci os e indi idualizados, que odo es e
mo imen o de e eo ização das classes se iniciou.
En e a no a ge ação de au o es su gi am
igualmen e p opos as, com um ca á e p og amá ico
mais de i nido, que, po coloca em a iden idade cul-
u al no cen o da eo ia das classes, econhecem,
desde logo, a impossibilidade de man e os an igos
a qué ipos. Re e imo-nos à “análise cul u alis a das
classes”, al e na i a a ançada po De ine (De ine
e Sa age, 2000) e Sa age (2000) e mais a de
subsc i a po Bo e o (2004, 2005), na senda de
p opos as inicialmen e o muladas po Bou dieu
em La Dis inc ion (1979). Ao con á io dos an igos
modelos, que p essupunham se em as es u u as de
desigualdade e as classes economicamen e de i nidas
a da o igem às di e enças cul u ais e de es a u o, as
p emissas de De ine e Sa age apon am pa a uma
análise que p e ende incidi sob e o modo como
os p ocessos cul u ais es ão embebidos em ipos
especí i cos de p á icas sociais e económicas. Sa age
não podia se mais cla o ace ca das suas in enções
do que quando a i mou que o seu p oje o e a a a
“a análise das classes como um modo de análise
cul u al” (2000: 149), o que, em e mos ope a ó ios,
ob iga a iden i i ca um ou á ios con ex os da ida
social e e como neles se p oduzem e ep oduzem
quo idianamen e p ocessos de desigualdade que
en ol em, em simul âneo, p á icas económicas e
cul u ais. A usão dos elemen os cul u ais e econó-
micos dispensa a exis ência de consciências ou iden-
idades o madas pelas classes enquan o en idades
cole i as, assim como a p esença de conjun os de
disposições cul u ais uni o mes; o que es abelece
a elação en e classe e cul u a é o modo como os
aspe os cul u ais es ão implicados em o mas de
exclusão e dominação que são simul aneamen e
simbólicas e ma e iais.
Do mesmo modo, os indi íduos não êm de
econhece classes ou iden i i ca em-se com g upos ou
ca ego ias de classe pa a que os p ocessos de classe
enham luga e as iden idades se exp imam. Cada
localização de classe deixou de o nece aos seus
memb os uma iden idade cole i a, o que ans e e
pa a os sujei os o papel de de i ni as suas iden i-
dades, eco endo a p ocessos que o çosamen e
en ol em a compa ação e o con on o com memb os
de ou as classes sociais. Sa age ê nessa indi idua-
lização de p ocessos, que a é aqui e am cole i os,
um dos aspe os mais adicais da ees u u ação
con empo ânea do modo de a uação das classes. A
ou a ans o mação que des aca e à qual chama “o
pa adoxo da classe” (2000: xii) de i a do ac o de,
apesa de as desigualdades económicas e sociais
con inua em ex emamen e ma cadas, as pessoas
não se em capazes de econhece a impo ância
es u u al que as classes êm nas suas idas.
Bo e o conco da com Sa age e De ine na
concep ualização ge al que es es au o es ap e-
sen am duma análise cul u alis a das classes, mas
ac escen a-lhe uma isão hie á quica que, segundo
ele, co esponde mais de pe o ao modo como as
desigualdades uncionam no nosso empo, além
de ma ca uma u u a com a e são oposicional do
concei o adicional de classe social: “Os p ocessos
indi idualizados e implíci os das desigualdades
posicionais são mais bem desc i os como es a i i -
cação social ou hie a quia. Mas, qualque que seja
a nossa linguagem, é impo an e econhece que
as ques ões colocadas pela hie a quia se es endem
bas an e pa a além das que eme gem das classes”
(2004: 1000). Como se pode e , e à imagem do
que já acon eceu com as e sões da eo ia da desi-
den i i cação de Skeggs e Reay, ambém Bo e o nos
con on a com as elhas cli agens da análise das
classes, ma xis as e webe ianas.
Um dos ganhos em ep esen a as classes como
o dem hie á quica é, de ende Bo e o, o na mais
comp eensí eis os mo i os que le am à in isibilidade
de p ocessos que es ão ão p esen es na nossa
ida e que são ão decisi os nas opo unidades de
que dispomos, nos es ilos de ida que des u amos
e no sen ido que damos à nossa iden idade e à
dos ou os. Se não emos uma maio consciência
e l exi a das iden idades, uma das azões eside na
p óp ia na u eza hie á quica das di e enciações, is o
é, na exis ência de múl iplos es a os sob epos os
e di ididos po on ei as que nem semp e são
ní idas. Num es udo de Sou he on (2002) sob e
as on ei as iden i á ias de ês g upos esiden es
numa pequena cidade subu bana inglesa, descob iu-
-se que as na a i as de iden i i cação de g upos,
um “nós” e um “eles”, se o ma am com base na
pa ilha de p á icas e de o ien ações ela i as à
ida quo idiana que seguiam g osso modo linhas de
di isão de classe. No en an o, as iden i i cações não
e am pe ei as, po que apesa de ní eis de ecu sos
simila es o dena em in e namen e as p á icas, os
alo es e as a i udes, es as unidades subdi idiam-
-se e in e pene a am-se em i ude “de a locali-
zação esidencial den o da cidade ( ambém u o
da mobilidade geog á i ca) cons i ui um «mundo
social» que o necia o e eno pa a pe ceções sob e
a epu ação, a compe ência e as con enções, dando
subs ância e e o çando as ca ego izações sociais
gené icas elacionadas com as ca a e ís icas de
classe” (Sou he on, 2002: 191). As iden i i cações
es a am, nes e caso assim como es a ão em mui os
ou os, baseadas em ca ego izações de classe, mas
o econhecimen o in e no de subg upos soma a a

José Ca alei o Rod igues
48
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 41-49
esse a o os elemen os de s a us que esul a am
da o ganização social local.
Acabámos de e como a sob eposição do s a us
à classe l uidi i ca as di isões en e es a os e com-
plexi i ca a sua iden i i cação, mas a ep esen ação
hie á quica das classes indica-nos ou os a o es
pa a ala ga a comp eensão da endência pa a a
in isibilidade das iden idades. Depois de p oduzidas,
as hie a quias man êm-se e são ep oduzidas no
âmbi o de odo o ipo de a i idades que p eenchem
o quo idiano dos indi íduos e em elação a mui as
das quais não há nem a in encionalidade nem a
pe ceção imedia a de que delas esul em lu as de
posicionamen o, ou que enham consequências
pa a a iden i i cação dos indi íduos pa icipan es.
“Uma ez que as hie a quias es ão embebidas nas
elações sociais mais ín imas, e «localização social»
e «cul u a» es ão unidas pela na u eza es u u-
ada das p á icas sociais co en es”, desde que os
indi íduos limi em as suas in e ações e es ilos de
ida aos pad ões que os seus luga es hie á quicos
de i nem, “as p á icas hie á quicas su gem como
«segunda na u eza», i ele an es e ulga es” (Bo -
e o, 2004: 995).
Bo e o dá uma a enção pa icula ao domínio
elacional, nomeadamen e ao mapeamen o das
in e ações en e pa en es, amigos e ou os pa -
cei os, con encido de que “di e en es pad ões de
associação e es ilo de ida cons i uem a es u u a
da es a i i cação social”, ou seja, que é no âmbi o
des as elações p óximas que se jogam an agens
sociais hie á quicas e se “ e elam pad ões maio-
es de desigualdade” (Bo e o e P andy, 2003:
178). Es a posição em ao encon o da ideia de
que a ep odução das hie a quias se az den o
de cí culos sociais e que é a pa i das a i idades
mundanas que as desigualdades se conc e izam e
adqui em con inuidade, mas ao azê-lo, e ao loca-
liza nos momen os mais ulga es da ida social a
ep odução das desigualdades, ol a a salien a a
na u eza quase mecânica e po en u a impe ce í el
dos a os pa a os a o es que lhe dão o ma. Já uns
anos an es, Sa age, e l e indo sob e a ins alação
de uma cul u a indi idualis a, se ha ia e e ido a
um disposi i o de “de l exão la e al” com e ei os
em udo idên icos na c iação de “uma sociedade
que o inei amen e ep oduz a desigualdade social
ao mesmo empo que de l e e a a enção dos seus
agen es la e almen e e não pa a cima e pa a baixo,
o nando assim a ques ão da desigualdade social
la gamen e «in isí el» e, de algum modo, «desin-
e essan e»” (2000: 159).
Os anos deco idos e o olume de abalho p o-
duzido desde que es a ge ação de au o es elançou
a análise das iden idades de classe pe mi em-nos
aze alguns balanços e iden i i ca consensos. Um
p imei o pon o de con e gência é o de que, numa
sociedade em que as desigualdades conse am oda
a ele ância es u u al, as an igas iden idades de
classe dão sinais de en aquecimen o. Maio i a ia-
men e os indi íduos mos am-se e aídos quando
se a a de de i ni explici amen e a sua pe ença a
uma classe, mas a ambiguidade e o modo de ensi o
como se exp essam es á elacionado com o ela i o
en aquecimen o das classes enquan o en idades
cole i as, e não com o econhecimen o da ligação da
sua condição a uma posição pa icula den o de um
espaço o denado de desigualdades. Segundo aspe o
consensual, o apagamen o das an igas iden idades
de classe não signi i ca que as classes deixem de
se impo an es pa a a de i nição das iden idades
indi iduais; o que acon ece é uma ansmu ação
das iden idades de classe que se modi i cam na sua
na u eza e o mas de mani es ação. A impo ância
das classes passa a e ela -se sob e udo no domínio
mais es i o da ação e das a i udes quo idianas dos
indi íduos ace ao mundo e às elações sociais. É
es a on e de exp essão codi i cada e sub e ânea que
pe mi e econhece a i alidade con empo ânea das
iden idades de classe, mesmo quando elas não são
exp essamen e nomeadas. O que mudou oi po an o
a na u eza das iden idades de classe: deixa am de
se iden idades cole i as, explíci as e oposicionais,
pa a passa em a exis i sob uma o ma indi idual,
implíci a e elacional.
É ce o que classes sociais nunca de e mina am
em absolu o as iden idades no passado e não há
nenhuma azão pa a ac edi a que elas o es ejam
a aze no nosso empo, mas pe manecem um ins-
umen o p i ilegiado pa a o es udo das iden idades
dos indi íduos e da sua elação com o mundo social.
A a és dos signi i cados que lhes são a ibuídos,
das sub ilezas e a iações discu si as com que se
mani es am, das ap eciações e pe ceções que as
sus en am, as classes sociais con inuam a demons-
a odo o seu pode e e i cácia sob e a ação dos
indi íduos, con e endo em classi i cações e dis inções
subje i as a desigualdade de posições, de condições
ma e iais e de opo unidades, com que cons angem
a ida nas sociedades con empo âneas.
Bibliog a i a
ATKINSON, W. (2007), “An hony Giddens as ad e -
sa y o class analysis”, Sociology, 41 (3), pp.
533-549.
ATKINSON, W. (2008), “No all ha was solid has mel-
ed in o ai (o liquid): a c i ique o Bauman on
indi idualiza ion and class in liquid mode ni y”,
Sociological Re iew, 56 (1), pp. 1-17.
BAUMAN, Z. (1982), Memo ies o class, Lond es, Rou le-
dge.
BAUMAN, Z. (1989), A libe dade, Lisboa, Edi o ial
Es ampa.
BOTTERO W. (2004), “Class iden i ies and he iden i y
o class”, Sociology, 38 (5), pp. 985-1003.
NOVAS PERSPETIVAS SOBRE AS IDENTIDADES DE CLASSE
49
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 41-49
BOTTERO W.; K. P andy (2003), “Social in e ac ion
dis ance and s a i i ca ion”, B i ish Jounal o Soci-
ology, 54 (2), pp. 177-197.
BOURDIEU, P. (1979), La dis inc ion. C i ique sociale du
jugemen , Pa is, Les Édi ions de Minui .
BRADLEY, H. (1996), F ac u ed iden i ies. Changing
pa e ns o inequali y, Camb idge, Poli y P ess.
DENNIS, N.; F. Hen iques (1970) [1956], Coal is ou
li e. An Analysis o a Yo kshi e Mining Communi y,
Lond es, Ba nes & Noble.
DEVINE, F. (1992), “Social iden i ies, class iden i y and
poli ical pe spec i es”, Sociological Re iew, 40, pp.
229-252.
DEVINE, F. (2004), “Talking abou class in B i ain” in F.
Di ine e M. C. Wa e s (eds.), Social inequali ies
in compa a i e pe spec i e, Ox o d, Blackwell,
pp.191-213.
DEVINE, F.; M. Sa age (2000), “Conclusion: enewing
class analysis”, in R. C omp on e al., Renewing
class analysis, Ox o d, Blackwell.
GIDDENS, A. (1992), As consequências da mode ni-
dade, Oei as, Cel a.
GIDDENS, A. (1994), Mode nidade e iden idade pessoal,
Oei as, Cel a.
GOLDTHORPE, J. H.; D. Lockwood e al. (1969), The
a l uen wo ke in he class s uc u e, Camb idge,
Camb idge Uni e si y P ess.
MARSHALL, G.; D. Rose e al. (1988), Social class in
mode n B i ain, Lond es, Rou ledge.
PAHL, R. (1989), “Is he empe o naked?”, In e na-
ional Jou nal o U ban and Regional Resea ch,
13, pp. 711-720.
PAKULSKI , J. e M. Wa e s, (1996), The dea h o class,
Lond es, Sage.
REAY, D. (1998a), Class wo k. Mo he s’ in ol emen
in hei child en’s p ima y schooling, Lond es,
Rou ledge Falme .
REAY, D. (1998b), “Re hinking social class: quali a i e
pe spec i es on class and gende ”, Sociology, 32
(2), pp. 259-275.
REAY, D. (2005), “Beyond consciousceness? The psy-
chic landscape o social class”, Sociology, 39 (5),
pp. 911-928.
SAVAGE, M. (2000), Class analysis and social ans-
o ma ion, Buckingham, Open Uni e si y P ess.
SAVAGE, M. (2001), “O dina y, ambi alen and de en-
si e: class iden i ies in he No hwes o England”,
Sociology, 35 (4), pp. 875-892.
SOUTHERTON, D. (2002), “Bounda ies o «us» and
« hem»: class, mobili y and iden i i ca ion in a new
own”, Sociology, 36 (1), pp. 171-193.
SKEGGS, B. (1997), Fo ma ions o class and gende ,
Lond es, Sage.
SKEGGS, B. (2004), Class, sel , cul u e, Lond es,
Rou ledge.
YOUNG, M. e P. WILLMOTT (1983) [1957], Le illage
dans la ille, Pa is, Cen e Geo ges Pompidou.
O LUGAR DO CONSUMO NA PROBLEMÁTICA IDENTITÁRIA CONTEMPORÂNEA
51
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 51-58
O LUGAR DO CONSUMO NA PROBLEMÁTICA IDENTITÁRIA
CONTEMPORÂNEA
C is ina San os
Uni e sidade Lusó ona de Humanidades e Tecnologias ([email p o ec ed])
Resumo
Com o p esen e a igo p e endemos in e i qual o luga que o consumo ocupa na p oblemá ica
iden i á ia con empo ânea. Pa a o e ei o, e e uámos uma e isão da li e a u a, na qual p ocu ámos
disseca e discu i as á ias pe spe i as que abo dam os dois concei os p incipais: iden idade e
consumo. Com base na e l exão eó ica ealizada, concluímos que a dinâmica consumis a eme -
gen e em epe cussões e e i as na cons ução de uma iden idade. De ac o, a a és do consumo,
a i idade cen al na ida do indi íduo, ge am-se p á icas iden i á ias.
Apesa de conside a mos a a -se de uma emá ica a ual, opo una e pe inen e, deno a-se a
escassez de ob as que abo dam a p oblemá ica no pano ama sociológico po uguês (C uz, 2009).
Assim, com es a comunicação in en a -se-á con ibui pa a a cla i i cação do ema, o qual espe-
amos que possa se obje o de mais e no os ap o undamen os cogni i os, dadas as implicações
e os desa i os que le an a no ecido social.
Pala as-cha e: iden idade; consumo; con empo aneidade
Abs ac
The aim o he p esen a icle is o in e he ole consump ion akes place in he con empo a y
iden i y p oblema ic. Fo his pu pose, we did a e iew o he li e a u e, in which we ied o dissec
and discuss he a ious pe spec i es ha add ess he wo main concep s: iden i y and consump-
ion. Th ough a heo e ical e l ec ion, we concluded ha he eme ging consump ion dynamics
has e ec i e epe cussions on he cons uc ion o iden i y. In ac , h ough consump ion, cen al
ac i i y in he indi iduals’ li es, iden i y p ac ices a e gene a ed.
Al hough we conside ha his is a cu en and ele an heme, i is isible he lack o li e a u e on
he opic in he po uguese sociological o e iew (C uz, 2009). The eby, wi h his communica ion
we hope o con ibu e o he cla i i ca ion o he heme, which we hope i will ha e mo e and new
cogni i e insigh s, gi en he implica ions and he challenges i aises o he social issue.
Keywo ds: iden i y; consump ion; con empo anei y
A iden idade
Somen e na segunda me ade do século XX
a e minologia iden i á ia é incluída no ocabulá-
io das ciências sociais e a p oblemá ica e e en e
à cons ução da iden idade é obje o de a amen o
sis ema izado (Cos a, 2008). Não obs an e a a ual
endência pa a enca a o campo social numa pe s-
pe i a iden i á ia (Ransome, 2005) e a impo ância
do acen uado c escimen o de ob as sociológicas
que abo dam a iden idade, es a di usão é ecen e
e ainda insu i cien e, pa a além da ap op iação
indi e enciada de que o concei o é al o (Cos a,
2008).
A iden idade é, em sociologia, um concei o mul-
i ace ado, pois pe mi e di e sas abo dagens: iden-
idade nacional; iden idade ge acional; iden idade
de géne o; iden idade é nica; en e ou as (Cos a,
2008). Po ém, des aca-se uma conceção dico ómica:
a iden idade pessoal, associada à noção de unicidade
e singula idade (Go man, 1982; Giddens, 1989,
2004), e a iden idade social, ligada ao concei o de
semelhança (Giddens, 2004). A iden idade do «eu-
-nós» ep esen a a espos a à dú ida que o sujei o
C is ina San os
52
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 51-58
em em sabe quem é, simul aneamen e, enquan o
se indi idual e social (Ybema e al., 2009).
A cons ução de uma iden idade é um jogo
complexo que ca a e iza as sociedades a uais
(Pin o, 1991): “Today we ha e a g ea deal o
choice abou who we wan o be and he kind o
li e we wan o lead” (Ahu ia, 2005: 172). De ac o,
a a-se de uma p oblemá ica que su giu com a
mode nidade, ao p opulsa os indi íduos pa a uma
dinâmica social em que p edominam a libe dade e
as possibilidades de escolha pa a modi i ca a p ó-
p ia iden idade, consoan e a on ade demons ada.
Ins au ou-se um apelo cons an e à no idade e à
ansi o iedade, con on ando os sujei os com esse
desa i o e esponsabilidade (Giddens, 1989). Com a
l exibilidade iden i á ia, a emancipação do indi íduo
implica ince ezas (Bauman, 2007). Numa sociedade
apelidada de isco e ca ac e izada pela mudança,
insegu ança e ob iga o iedade de decidi (F anklin,
1998), a esponsabilização das escolhas, as acções
que aca e a e as espec i as consequências ecaem
sob e os ac o es sociais (Bauman, 2007). Segundo
C uz (2009), a passagem de um g ande núme o de
esponsabilidades, que an e io men e se sociabili-
za am, pa a os sujei os p ende-se com a chegada
da sociedade de consumo.
Assim, uma das ques ões ulc ais que se impõe
aos indi íduos é: “Quem de o se ?” (Giddens, 1989).
O sujei o é con on ado com um núme o c escen e
de al e na i as, dispondo de uma maio ma gem
sele i a (Elias, 1993). Es e pano ama pode á e o ça
a ideia da exis ência de uma con empo ânea c ise
de iden idade, já que os p ocessos his ó icos que,
apa en emen e, sus en a am a i xação iden i á ia
começa am a en a em colapso (Woodwa d, 2005):
“No passado, quando as iden idades se
ep oduziam, as pessoas singula es não inham
nenhuma escolha: o g upo, em nome da adi-
ção, subme ia cada um à sua lei e o indi íduo
não e a mais do que um á omo de um co po
social que se pe pe ua a al e qual. Mas, hoje
em dia, as pessoas singula es aspi am, cada
ez mais, a pode escolhe a sua iden idade
(...)” (Wie io ka, 2007: 88).
Numa sociedade em ápida ans o mação,
como a a ual, a he ança socie al pe de, de uma o ma
cada ez mais céle e, a sua impo ância, de i nindo-
-se mais pelo u u o do que pelo espe i o passado
(Tou aine, 1982). Es a inde e minação iden i á ia e
consequen e dilema encon a am-se ausen es das
sociedades adicionais, nas quais a iden idade e a
socialmen e a ibuída e impos a, p e alecendo uma
lógica condicionalis a. Consequen emen e, os con eú-
dos cole i os pe maneciam idên icos, ansi ando
nos con ex os ge acionais, pelo que a mudança de
iden idade esba a a numa delimi ação p e iamen e
es abelecida (Nunes, 1968). Po ém, p esen emen e,
impe a a mobilidade (Fe ei a, 2000), uma ez que
nenhuma iden idade é “dada” à nascença, sendo
um p oje o negociá el e p og essi o, execu ado ao
longo da ida (Bauman, 2007).
Ainda assim, Go e e Wa (2004) assinalam que,
apesa de o indi íduo se pode sen i in ei amen e
li e na cons ução da sua iden idade, al não acon-
ece, uma ez que a escolha iden i á ia é moldada
pela sociedade, em que a o es sociais e cul u ais
in l uenciam o p ocesso. Também Woodwa d (2004)
sublinha que a p oblemá ica iden i á ia en ol e
alguma possibilidade de o sujei o op a , ainda que
com limi ações. Há algum con olo do a o social
na p óp ia cons ução iden i á ia, mas pode ão
exis i olhimen os ex e nos que o limi a ão. Exis e
uma ensão en e o domínio exe cido pela pessoa
na edi i cação da sua iden idade e o que é incu ido
sob e a p óp ia pelos es an es indi íduos.
Como consequência, al como e e em Ybema
e al., a cons ução iden i á ia en ol e um sis ema
negocial en e o “eu” e os “ou os”, daí a iden idade
se , simul aneamen e, o que é p oje ado e pe ce-
cionado: “(…) which p oduces a socially nego ia ed
empo a y ou come o he dynamic in e play be ween
in e nal s i ings and ex e nal p esc ip ions, be ween
sel -p esen a ion and labeling by o he s, be ween
achie emen and asc ip ion and be ween egula-
ion and esis ance” (Ybema e al., 2009: 101).
A c iação iden i á ia apa en a a icula a elação
en e o sujei o e a sociedade, pelo que encon a as
suas o igens no deba e sob e agência e es u u a
(Ybema e al., 2009).
A dimensão iden i á ia semp e o a um p oblema
(Bauman, 1995, 2000, 2007; Viei a, 1999) ans-
e sal a qualque sociedade (Viei a, 1999). Assim,
se na mode nidade a ques ão se cen a a na o ma
de cons ui uma iden idade e a man e es á el, no
que Bauman (1995, 2000, 2007) denomina como a
“mode nidade sólida”, numa “ i ania da e e nidade”,
com o pós-mode nismo su ge a necessidade de e i-
a a espe i a i xação e conse a odas as opções
em abe o, no que o au o apelida de “mode nidade
líquida”, ca a e izada po uma “ i ania do momen o”.
No p imei o caso, a pala a-cha e é “c iação”, em que
as iden idades e am cons uídas em “ e o e be ão”,
no segundo es as são dispos as em “plás ico bio-
deg adá el”, sendo o concei o implíci o: “ eciclagem”.
E e i amen e, com o desen ol imen o do
pós-mode nismo chega o econhecimen o de que
o indi íduo não em apenas uma iden idade, dada
a espe i a na u eza ince a, agmen ada (Hall,
2005), complexa (Mille e al., 1998), mul íplice
(Ransome, 2005) e impu a (Pin o, 1991). Sendo a
iden idade compos a po á ias dimensões, assen es
em múl iplas pe enças (Maalou , 2002), es as se ão,
po um lado, laços que unem os indi íduos aos seus
semelhan es e, simul aneamen e, ep esen am a

O LUGAR DO CONSUMO NA PROBLEMÁTICA IDENTITÁRIA CONTEMPORÂNEA
53
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 51-58
especi i cidade indi idual. Pais (2002) a i ma e
expe imen ado uma “colonização do eu”, adqui indo
múl iplas e díspa es possibilidades de “se ”. Como
se p ocessa es e mecanismo? A a és da inco po a-
ção da in o mação do meio que odeia o indi íduo,
expos o às dinâmicas ci culan es do quo idiano, pelo
que as a iadas pe enças sociais são cons i u i as
de iden idades ambi alen es. A es e p opósi o, C uz
(2009) a i ma que o a o social é plu al, em unção
da di e sidade de con ex os em que é socializado.
Go man (1982) de ende que a cons ução
iden i á ia, enquan o um con ínuo p ocesso social,
pe mi e o abandono de uma iden idade e a p ocu a
de uma no a, pelo que os sujei os acumulam uma
mul iplicidade de “ap esen ações do eu”. Também
Mead (1967) ealça o ac o de qualque pessoa
di idi -se em á ios “eus”. Pa a Lewis e Phoenix
(2004), odo o indi íduo acumula um conjun o de
di e en es iden idades, simul aneamen e, median e
as di e en es posições sociais ocupadas. Ainda assim,
Maalou (2002) ac edi a que, ao ei indica uma
iden idade mais complexa, o indi íduo é ma gina-
lizado, dada a di i culdade em comp eende uma
iden idade compósi a.
Ra ansi e Phoenix (2001) ac edi am que es a
concep ualização iden i á ia po encia o e en ual
su gimen o de con adições ou inconsis ências nas
p á icas dos sujei os. Também Woodwa d (2004,
2005) e e e que as di e en es iden idades assumidas
pelo indi íduo, exigência da complexa ida mode na,
pode ão en a em ensão en e si. Tal como Sil a
(2005), que de ende a exis ência de iden idades
agmen adas, inconsis en es e opos as, Kopy o
(1986) e Ta lo (1996) mencionam que es as pode ão
se múl iplas e con l i uosas.
Já Velho (1994), po sua ez, isa que o ac-
o de a iden idade dos indi íduos se encon a
em pe manen e econs ução não in iabiliza a-
a -se de uma ansição pací i ca. A es e p opó-
si o, Schwa z (1999) salien a que, apesa de
a acumulação iden i á ia pode e algum im-
pac o sinuoso, exis indo di e sos “eus” em pa a-
lelo, de e ão se su i cien emen e coe en es pa a
e i a em uma c ise de iden idade. Giddens (2004)
a i ma que a plu alidade iden i á ia não po en-
cia o su gimen o de con l i os, pois a maio ia dos
sujei os o ganiza o sen ido e a expe iência das
suas i ências em o no de uma iden idade p inci-
pal, ela i amen e con ínua no espaço e no empo.
Elias (1993) de ende, de igual o ma, que há uma
con inuidade e olu i a, al como Viei a (1999), que
ealça a exis ência de uma ela i a homogeneidade
iden i á ia. Também Maalou (2002) ac edi a que
a iden idade não se compa imen a, sendo una e
i ida no seu odo e não como um aglome ado de
pe enças au ónomas e jus apos as. Po ou o lado,
Quad ado (2006) in e i a que, independen emen e
de a iden idade do indi íduo se cons an emen e
deslocada, o a o social pe ceciona-se como sendo
o mesmo sujei o.
A plu alidade encon a-se no ce ne da ques ão
iden i á ia, dada a hib idez que a ca a e iza (Ra ansi
e Phoenix, 2001; Wie io ka, 2007): “(…) we a ely
hink o ou sel es as one hing a all imes and in all
places” (Mille e al., 1998: 23). É po esse mo i o
que, quando se abo da a p oblemá ica iden i á ia,
é ins an ânea a sua ligação a uma alsa imagem de
ha monia, de lógica e de coe ência, algo que com o
l uxo das expe iências i idas pelos indi íduos apa-
en a al a , pelo que só iluso iamen e as iden idades
são i xas e pe manen es (Bauman, 2000). Ainda que
haja uma endência pa a a i xação iden i á ia, es a é,
simul aneamen e, uma impossibilidade (Sil a, 2005).
Ao apa en a es abilidade, uma iden idade es a á a
passa po uma e apa momen ânea e ansi ó ia, po
um es ádio de esilien e engano (Ybema e al., 2009).
A es e epe ó io de papéis sociais associam-
-se as noções de me amo ose (Velho, 1994) e
nomadismo (Lehmann e al., 1998). E e i amen e,
as iden idades nunca es ão o al e de i ni i amen e
es abelecidas, não de endo um ca á e es anque
(O o e O o, 1971), ao encon a em-se num ela i o
es ado de o mação e mu ação, ao se em p o isó ias,
inacabadas (Ra ansi e Phoenix, 2001; Hall, 2005;
Sil a, 2005), mu an es (Elias, 1993) e dinâmicas
(Mille e al., 1998). O p ocesso social implicado na
o mação iden i á ia é, inequi ocamen e, ecu si o,
e l exi o e mul i ace ado, po se encon a em cons-
an e cons ução (Ybema e al., 2009), pelo que só
cessa com o alecimen o do a o social (O o e O o,
1971). Se es a dinâmica é equen emen e e e ida
como a “p ocu a iden i á ia”, a qual é jus i i cada pelo
ac o de os se es humanos necessi a em de uma
eo ia cen al “sob e quem são” an es de pode em
começa a elabo a o seu “eu” (Schwa z, 1999),
O o e O o a i mam se mais co e o designá-la
como “(...) « he ongoing de elopmen o iden i y»”
(O o e O o, 1971: 405).
É po esse mo i o que a de i nição iden i á ia é
um p ocesso que en ol e alguma complexidade, já
que não se a a de um mecanismo uni o me, nem
es á ico, mas l exí el e em pe manen e ede i nição,
cuja abo dagem de e á inclui a análise dos di e sos
aspe os sociais e cul u ais que odeiam o indi íduo
(Gonçal es, 1994). Nenhum elemen o que compõe
a ida socie al pode se plenamen e comp eendido
sem ele a a espe i a cul u a pa icula na qual
oco e (Go man, 1983): “Aquilo que é c i é io de
dis inção iden i á ia impo an e numa dada sociedade
ou si uação social pode não e qualque signi i cado
nou o local ou nou a época (...). Tudo depende da
ele ância iden i á ia que é dada a es a ou àquela
ca a e ís ica, no decu so dos p ocessos sociais”
(Cos a, 1992: 53).
É axiomá ico que a cons ução iden i á ia se
sedimen a na dis inção: pa a se sabe quem se é,
C is ina San os
54
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 51-58
o na-se necessá io es abelece -se quem não se
é (Fea he s one, 1994; Sil a, 2005; Ybema e al.,
2009). Aliás, a ma cação da di e ença, a pa i da
qual as iden idades são ab icadas, é o componen e-
-cha e em qualque sis ema classi i ca i o (Woo-
dwa d, 2005). As iden idades só podem se “lidas”
a con apelo, ou seja, não a a és da es abilidade,
mas como algo que é cons uído de o ma desigual
(Hall, 2005). Assim, o concei o iden i á io ap esen a
uma índole compa a i a, dado que a de i nição dos
indi íduos só é e e i ada ela i amen e à dema ca-
ção dos ou os sujei os (Cos a, 1992): não exis e
nenhuma iden idade do “eu” sem a iden idade do
“nós” (Elias, 1993), dado o seu ca á e elacional
(Lewis e Phoenix, 2004).
A simili ude/uni o midade e a di e enciação/
/singula idade são dimensões cen ais na cons u-
ção iden i á ia, sendo com base numa dialé ica de
iden i i cação en e a in e ação in e na e ex e na que
es as se cons i uem (Ybema e al., 2009). Ransome
isa es a ambi alência, salien ando o papel do
consumo no alen a des a dinâmica: “People s ill
wan ed o see hemsel es as pa o socie y and
ake ad an age o he suppo and p o ec ion his
p o ides, bu wi hou becoming en i ely assimila ed
in o i . (…) one o he dilemmas which lies a he
hea o he iden i y/consump ion ela ionship which
is ha h ough consump ion we a e exp essing a
need o align ou sel es wi h o he s, and ye we
also consume in o de o dis inguish ou sel es om
hem” (Ransome, 2005: 106).
O consumo
Apesa de o consumo se i emo í el da con-
dição humana (Bauman, 2007) e de e in adido
a ida dos indi íduos (Baud illa d, 1995), só em
1980 a emá ica ganha maio exp essi idade na
sociologia. A é en ão, apa en a a se um concei o
do domínio exclusi o de economis as, publici á ios
e ma ke e s (Bocock, 1993), endo sido enca ado
como uma me a unção do p ocesso económico e
não como um au ónomo enómeno social (F iedman,
1999). Po an o, é somen e no i nal do século XX
que a maio ia dos sociólogos econhece a cen ali-
dade que o consumo assume na a ual p oblemá ica
iden i á ia (Ra ansi e Phoenix, 2001), a a és da
espe i a capacidade de p o idencia uma á ea
l exí el pa a a cons ução das maleá eis iden i-
dades con empo âneas (Miles, 2000). Segundo
Quei oz (2005), o signi i cado cul u al do consumo
na cons ução iden i á ia é de al o dem que se pode
conside a que nele eside a mais o e mo i ação
da ação cole i a nas sociedades desen ol idas nos
i nais do século passado.
Uma es e a que o e ecia es abilidade iden i-
á ia e um sen imen o de pe ença ao indi íduo
en ou em declínio: “(...) «a job o li e» (...)”
(Woodwa d, 2004: 29). Com a deslocação da ên ase
da p odução de bens pa a o seu consumo (Dua e,
2009), assis e-se à passagem da sociedade dos
p odu o es pa a a dos consumido es. T a a-se de
um p ocesso g adual de emancipação dos sujei os,
que deixa am de não e escolhas, passando de um
cená io de cons angimen os e de al a de libe dade
pa a um pano ama em que p e alece a au onomia
indi idual (Bauman, 2007). Com es a ansição,
a i ma Bauman, a sociedade, eple a de múl iplas
e a iadas opo unidades, dá p imazia aos seus
memb os enquan o consumido es, uma ez que
a ida o ganizada em o no do papel de p odu o
ende a se no ma i amen e egulada, ao in és do
consumo, onde não exis em eg as (Bauman, 2000),
pelo que o indi íduo é al o de menos es ições
(Wa de, 1994).
Po ém, Dohe y (2009) c i ica Bauman, po
não conco da com o au o quando es e a gumen a
que o abalho desempenha um papel diminuído na
sociedade con empo ânea, ao e pe dido a posição
p i ilegiada de ou o a na cons ução iden i á ia. Os
esul ados da pesquisa que Dohe y desen ol e a
demons am que a es e a labo al man ém a sua
impo ância. De ac o, Mackin osh e Mooney (2004)
ealçam que quando um indi íduo es abelece um
con ac o elacional com alguém, pela p imei a ez,
pe gun a qual a espe i a p o i ssão, numa en a i a
de o conhece , dado o elacionamen o e e i ado
en e o emp ego de ido e a iden idade. No en an o,
os au o es, al como Ransome (2005), ac edi am
que a ocupação p o i ssional desempenha um papel
meno na a ual p oblemá ica iden i á ia. C ane
(2000) ealça a c escen e ele ância a ibuída ao
consumo, em de imen o da es e a labo al, dado o
espe i o con ibu o pa a a cons ução da iden idade.
É a a és do consumo que g ande pa e dos
sujei os p ocu a exp essa a libe dade, o pode e
as suas aspi ações sociais (Tomlinson, 1990), dada
a au onomia e a independência que o ca a e izam
(Ransome, 2005). O consumo mode no é indi idua-
lis a, uma ez que o a o social de ém possibilidade
de escolha. Se ou o a se assis ia à au o idade que
a adição impunha, p esen emen e é o indi íduo
quem di a as eg as (Campbell, 2004). Pa a Wa de
(1994), a capacidade pa a escolhe eside no cen o
do deba e sociológico sob e p á icas consumis as. O
au o ealça que, quando o consumido oma as suas
opções de consumo, sabe que há poucas sanções.
Con udo, e po ou o lado, Wa de (1994) a i ma
que o consumo é, numa pe spe i a sociológica, a
con empo ânea o ma de suicídio, pois se a escolha
co e a c ia au ossegu ança, p o a elmen e uma
opção e ada en ol e um mecanismo de au odes-
uição, pelo que exis i ão consequências pa a quem
ome decisões ans iadas. Es a ob iga o iedade
de decidi pode á ge a um es ado de ansiedade
no indi íduo (Wa de, 1994), já que cada escolha
O LUGAR DO CONSUMO NA PROBLEMÁTICA IDENTITÁRIA CONTEMPORÂNEA
55
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 51-58
se encon a sujei a a uma p essão social (Wilska,
2002). Também Bauman (2007) a i ma que os sujei-
os pode ão se penalizados ao não demons a em
possui p es eza na sua capacidade consumis a. É
po esse mo i o que Wa de (1994) a i ma que o
consumo pode se uma a i idade s essan e. C uz
(2009) e e e que, endo em con a es e cená io, o
a o social soco e-se de mecanismos compensa-
ó ios e econ o an es, como a amília, os amigos
e a publicidade: o que a pessoa consome não é
independen e do con ex o em que se dão as elações
es abelecidas com os ou os.
Dada a in ínseca ola ilidade das iden idades,
a habilidade consumis a pe mi e a ealização de
an asias iden i á ias. De endo essa capacidade,
o indi íduo é li e pa a c ia ou des aze a sua
iden idade. É a a és da endição ao consumo que
se ganha independência (Bauman, 2000), sendo
u ilizado pelos a o es sociais pa a man e em “(…)
hei sense o iden i y h ough ime and de i ne
hemsel es in ela ionship o o he people” (Ahu-
ia, 2005: 171). Aliás, segundo Bauman (2007),
a cul u a consumis a ca a e iza-se pela cons an e
p essão pa a que o indi íduo mude de iden idade. No
en ende do au o , a a-se de um de e , dis a çado
de p i ilégio. Pa a Leh onen e Mäenpää (1997), o
a o aquisi i o pe mi e que os indi íduos modi i quem,
olun a iamen e, as suas iden idades, equipa ando-
-os a c ianças, b incando e jogando com di e sos
papéis, dada a di e são implíci a no p ocesso que
en ol e o “eu” e os possí eis “eus”.
Ao longo do século XX, o empo disponí el
pa a as a i idades ec ea i as, como o consumo,
aumen ou (C ane, 2000). O quo idiano é pa icula -
men e ma cado pelo laze e ócio (Campos, 2010).
O a, as a i idades hedónicas cen am-se na comp a
de bens (Miles, 2000): a me cado ia cul u aliza-se,
po que su ge ans o mada em subs ância lúdica
(Baud illa d, 1995). Apesa de a impo ância do
consumo se ans e sal à sociedade, a pa icula
p eponde ância a ibuída às comp as a ia median e
a idade, sendo mais ele an e pa a os jo ens (Miles,
2000), o géne o, em que as mulhe es lhe a ibuem
especial des aque, e a u banidade, em que um
dos g andes p aze es da ci adina ida mode na é
dedicada a uma é ica consumis a (Co igan, 1997).
O a o de comp a é uma a i idade quo idiana
social, enca ada como um in es imen o nas ela-
ções sociais (Mille e al., 1998), uma ez que:
“(…) shopping is as o en abou o he s as i is abou
sel (and e en when i is abou sel , i is o en s ill
abou o he s)” (Mille e al., 1998: 17). O pad ão
de consumo cons i ui um pode oso meio in o ma i o
pa a conhece a iden idade dos indi íduos, su gindo
como o a o p imo dial na modelação da p esen e
sociedade, ao se de e minan e no modo como os
sujei os se elacionam com os ou os (Ransome,
2005; San os, 2011). P e alece um sis ema socio-
lógico de signos, em que o consumo su ge como
um modo no o e especí i co de socialização, como
uma condu a a i a e cole i a, como coação e mo al,
compondo um sis ema de alo es (Baud illa d, 1995).
A cul u a de consumo possibili a a pe ença social
a a és da posse ma e ial (Da iba e Cas o, 1998).
Segundo Dua e (2009), o colapso do an e io
sis ema de dis inções na u almen e ins i uídas e a
espe i a subs i uição po um sis ema de es a i i ca-
ção ansponí el acabou po pe mi i a l exibilidade
iden i á ia. Assim, a p ocu a de bens pode á su gi
como uma o ma de os indi íduos se ede i ni em
pessoal e socialmen e, dadas as inúme as possibi-
lidades po enciadas po uma es u u a social a i-
á el. Uma ez que, numa hie a quia social ígida, o
p ocesso de ligação en e obje os e posições sociais
pe manece ia linea e ela i amen e con olado,
com a mode nidade a p ocu a de p odu os o na-se
um impo an e mecanismo de compe ição social e
ede i nição pessoal, uma ez que os obje os são
canais de exp essão e econs ução iden i á ia.
De aco do com a au o a (Dua e, 2009),
pa a se comp eende o a ual papel do consumo é
necessá io inclui um ou o concei o: a iden idade.
A pesquisa que e e uou, jun o de in e e qua o
amílias, pe mi iu conclui que os pe ences podem
se complemen os da iden idade do indi íduo e
que o consumo o e ece al e na i as iden i á ias.
Também a in es igação ope acionalizada po C uz
(2009, 2010), na qual se analisa am as lis as de
despesas (mapas mensais onde e am egis ados os
mon an es dispendidos) de in a amílias, pe mi-
iu in e i a elação exis en e en e as p á icas de
consumo e os di e en es papéis sociais assumidos
pelo sujei o. Cons a ou-se ainda que o consumo é a
exp essão de um desejo ela i amen e cons angido
pelos de e es sociais ( eg as de p esc ição), pelos
sabe es adqui idos (socializações) e pelos pode es
(económicos, cul u ais, elacionais, en e ou os).
O consumo é um a o exp essi o (Tomlinson,
1990), pois os obje os são signos, em que a ci -
culação, comp a, enda e ap op iação de bens
cons i ui uma linguagem (Baud illa d, 1995). A
p esen e sociedade, enca ada como a ci ilização da
cono ação, ca a e iza-se pela a ibuição de signi i -
cados aos géne os (Ba hes, 1985). Nenhum bem
pe manece imune à signi i cação (Baud illa d, 1972).
Aliás, A end (2001) ale a: chega á o momen o em
que nenhum pe ence es a á a sal o do consumo.
Como os obje os possuem ca a e ís icas sígnicas
(San os, 2011), a a és da uição dos p odu os o
indi íduo exp essa as suas ca a e ís icas, ou seja,
os bens o na am-se símbolos iden i á ios, ao o -
na em isí el a iden idade do espe i o usuá io.
Nesse sen ido, são e e uadas in e ências ace ca
da pessoa com base nos a igos adqui idos, dado
o ca á e simbólico de ido pelos bens ma e iais. A
iden idade do indi íduo é es abelecida, comunicada,
C is ina San os
56
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 51-58
con i mada, man ida, ep oduzida e ans o mada
a a és das elações es abelecidas com os p odu os
(Di ma , 1992). Logo, o consumo é um componen e
iden i á io, a iculado a a és das elações i madas
com os bens (Mille e al., 1998).
Ransome (2005) de ende que os indi íduos
emp eendem dois ipos de consumo: uma sa is ação
quo idiana básica de necessidades e desejos e uma
sa is ação simbólica. É es a úl ima es e a, asso-
ciada aos es ilos consumis as pós-mode nos, que
os sujei os mais ambicionam a ingi , encon ando-
-se elacionada com o “consumo de signi i cados”.
T a a-se de uma dimensão ep esen a i a (San-
os, 2011), pois o bem de ém uma unção social
(Jhally, 1995). O a, a signi i cação de um símbolo
não é absolu a (Appadu ai, 1986), nem in ínseca,
mas socialmen e es abelecida (Di ma , 1992). As
me cado ias de êm po encial socie al (Appadu ai,
1986), pelo que os indi íduos as u ilizam pa a se
dema ca em socialmen e (Jhally, 1995).
A ideia de que os obje os de em se impo an es
pa a as pessoas em unção daquilo pa a que são
usados e não de ido ao seu signi i cado in angí el
o nou-se obsole a (San os, 2011): poucas são as
escolhas do consumido in ei amen e acionais e
ins umen ais (Gay e al., 1997). A seleção de bens
engloba a espe i a cons an e a aliação, median e
o seu po encial con ibu o pa a a p ojeção das iden-
idades. Consequen emen e, as opções e e uadas
não são inócuas (C ane, 2000). Aliás, segundo C uz
(2010), analisa o consumo enquan o obje o de
es udo p essupõe a consciencialização de que as
p á icas de consumo, embo a complexas e di usas,
não são alea ó ias.
Pa a Campbell (2004), se o sujei o se con on a
com uma c ise iden i á ia, es a pode á se esol ida
com ecu so ao consumo, uma ez que a a i idade
consumis a pe mi e que o indi íduo descub a o seu
“eu”. Po esse mo i o, quando o sujei o se de i ne,
á-lo, p a icamen e, com base nos seus gos os e
p e e ências, po julga se em os pa âme os que
melho o de i nem. Apesa de econhece que a
espos a à pe gun a “Quem sou eu?” e á de inclui
c i é ios como: géne o; aça; nacionalidade; e nia
ou eligião, o au o ela i iza a impo ância des as
dimensões. O a, es a concep ualização é ecen e.
An e io men e, a iden idade encon a a-se anco ada
no es a u o e posição que a pessoa ocupa a nas
á ias ins i uições, al como o abalho e a amília.
Os compo amen os de consumo, que assumem
pa icula ele ância nas sociedades con empo âneas,
são, simul aneamen e, p á icas sociais, cul u ais e
iden i á ias: é pelo consumo que o sujei o de i ne a
sua p óp ia iden idade (C uz, 2009, 2010). Con udo,
Say e e Ho ne (1996) de e a am uma exceção: as
í imas de desas es na u ais. O es udo e e uado
jun o de í imas de incêndio demons ou que, após o
aciden e, os sujei os passa am a a ibui uma meno
impo ância à posse ma e ial. A sólida elação que
exis ia, an es do inciden e, en e o “se ” e o “ e ”
ans o mou-se numa ligação de alo i ni o, com
meno ele ância na cons ução iden i á ia.
Assim, o luga do consumo é a ida quo idiana,
o qual su ge como uma ins i uição, ideologia (Bau-
d illa d, 1995) ou mesmo como a eligião do século
XX (Miles, 2000). Apesa de o abalho pe manece
impo an e, é o consumo que assume um papel
dominan e na de i nição iden i á ia (Ransome, 2005).
É a a i idade do consumido , e não do p odu o , que
se p esume p o idencia a in e ace essencial en e
os indi íduos e a sociedade (Bauman, 2007), uma
ez que a ida dos a o es sociais é de e minada
mais pela o ma como consomem bens do que pela
manei a como os p oduzem. O a, a p á ica mode na
da iden idade libe ada não pode ia e eme gido
a é a sociedade e a ingido o es ádio de consumo
a l uen e, dada a acilidade com que p omo e a au ó-
noma exp essão iden i á ia. Segundo es a lógica,
qualque insinuação de que o consumo ap esen a
limi es equi ale a suge i que exis em limi ações
pa a a quan idade de iden idades que um indi íduo
pode, sensa amen e, espe a e (Ransome, 2005).
Em suma, apesa de o consumo ocupa um
luga ne álgico na cons ução iden i á ia con em-
po ânea, deno a-se a ausência de um esc u ínio
cien í i co sob e es a p oblemá ica no pano ama
sociológico in e nacional (Ahu ia, 2005) e nacional:
a in es igação na á ea do consumo em sido pouco
desen ol ida em Po ugal (C uz, 2009). Falk e Cam-
pbell (1997) ale am pa a o ac o de o consumo,
quando analisado de o ma supe i cial, pode não
apa en a se um enómeno de pa icula ele ância
socie al, dada a signi i cância social ma ginal que
lhe é a ibuída. U ge, pois, in es iga um ema com
e l exos p á icos no quo idiano iden i á io do indi í-
duo, uma ez que só assim se á possí el emi i um
discu so con empo âneo sob e as no as ques ões
que se colocam ao a o social, a ualmen e ime so
numa sociedade de consumo.
Bibliog a i a
AHUVIA, A. C. (2005), “Beyond he ex ended sel :
lo ed objec s and consume s’ iden i y na a i es”,
Jou nal o Consume Resea ch, 32, pp. 171-184.
APPADURAI, A. (1986), “In oduc ion: commodi ies
and he poli ics o alue” in A. Appadu ai (ed.),
The social li e o hings: commodi ies in cul u al
pe spec i e, Camb idge, Camb idge Uni e si y
P ess, pp. 3-63.
ARENDT, H. (2001), A condição humana, Lisboa, Reló-
gio d’Água.
BARTHES, R. (1985), A a en u a semiológica, Lisboa,
Edições 70.
BAUDRILLARD, J. (1972), Pa a uma c í ica da economia
polí ica do signo, Lisboa, Edições 70.
DE LO SÓRDIDO A LO VINTAGE, DE LA MARGINALIZACIÓN A LA DISTINCIÓN...
63
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 59-67
Cais do Sod é: de la decadencia
a una noche gen i i cada
La his o ia u bana de Cais do Sod é es á es e-
chamen e elacionada con el c ecimien o u bano del
en e ma í imo de la capi al po uguesa de inicios
del siglo XVI. Du an e el einado de Manuel I (1495-
-1521) ue on plani i cados y desa ollados nue os
espacios ibe os que u ie on como obje i o amplia
las ins alaciones po ua ias de la ciudad. Víc o Du ão
(2012) señala que las á eas escogidas pa a al desa -
ollo u bano ue on San os y Ca a-que-Fa as (hoy
conocida como Cais do Sod é). Una ez que es os
e enos limosos ue on u banizados, ápidamen e
acogie on nue as ac i idades económicas elaciona-
das con el á i co de me cancías po ua ias (Du ão,
2012). Es po es e mo i o que la mo ología u bana
de Cais do Sod é, sus ac i idades co idianas y su
ap opiación po pa e de ende os y come cian es
locales y ex anje os, ma ine os y p os i u as, iene
sus o ígenes en es e aje eado ambien e po ua io.
Sin emba go, nada de ese pasado sigue exis iendo
hoy en día. Como la pe iodis a de la BBC Ke y
Ch is iani señala: “Cais do Sod é had ups aged Bai o
Al o as Lisbon’s mos happening nigh li e dis ic ”
(Ch is iani, 2012).7
El “ iejo” Cais do Sod é ha dado paso al “nue o”
Cais. Lo que du an e muchas décadas a ás e a un
ba io inundado de alcohol, comida ba a a, peep
shows, música ado, ma ine os bo achos, episodios
de iolencia calleje a, d ogas y p os i ución, comenzó
a cambia a mediados de los años 1970, cuando
algunas de las iendas y negocios di e sos de Cais
do Sod é se econ ie ie on en pequeños locales
de ocio noc u no, naciendo así locales que aún hoy
día siguen abie os al público, como la Disco eca
Jamaica, Ba Eu opa, Ba Tokyo y Viking. Además
o os muchos ba es ab ie on o bien pasa on a lla-
ma se como los pue os come ciales más amosos
del mundo (pue o de Filadel i a, Shang i-La, Tokio,
Ro e dam, Copenhague, Li e pool, Oslo, e c). A
odo ello cabe suma le la Re olución de los Cla e-
les de 25 de Ab il de 1974, que condujo a la caída
del égimen ascis a de Salaza y que, en el campo
del ocio noc u no, supuso el inicio del p oceso de
“democ a ización” de la noche lisboe a. De ahí que
Cais do Sod é ue a en onces eap opiado po jó e-
nes de las clases medias de la ciudad, es udian es
uni e si a ios, bohemios, in elec uales y pe iodis-
as locales. Sin emba go, al “democ a ización”, y
ya con una pe spec i a empo al más amplia, ha
compo ado un “desplazamien o espacial” de la
p os i ución ma ginal. Es e p oceso p esen a hoy
día una e ue za igencia al y como la pe iodis a
Cla a Sil a (2011) in o ma:
“Na Pensão Amo ainda há camas, a má ios,
cadei as e espelhos dos empos em que o
p édio e a casa de p os i uição. Na e dade,
no núme o 38 da Rua No a do Ca alho, em
Lisboa, unciona am qua o pensões que
aluga am qua os à ho a a p os i u as e a
ma inhei os que a aca am no Cais do Sod é,
indos de á ias pa es do mundo. Ago a, os
qua os ambém podem se alugados ao dia,
à semana ou ao mês, mas a emp esas – que
nada êm a e com p os i uição.”8
La Rua do Alec im desciende desde La go de
Camões has a Cais do Sod é. Jus o an es de llega ,
Alec im c uza a un ni el supe io la Rua No a do
Ca alho, la cual cons i uye el eje e eb ado del
clús e de ocio noc u no de Cais do Sod é. Apa e
que bajo el puen e se encuen e uno de los locales
más dinámicos de Lisboa en lo que a p og amación
de e en os musicales se e i e e, Musicbox (an iguo
Ba Texas)9, al puen e di ide la noche de Cais do
Sod é en dos. En la pa e o ien al del clús e de
Cais do Sod é aún siguen abie os los pequeños
locales de ocio que ab ie on a pa i de inicios de la
década de los se en a y o os que ab ie on pos e-
io men e: Jamaica, Viking, Ba Eu opa, Ba Oslo,
Ba Li e pool, Copenhaga, Tokyo. La clien ela más
o menos i el – mayo i a iamen e lisboe a aunque
en 2010 los es udian es E asmus e an cla amen e
mayo ía de Ma es a Vie nes – esponde a su ez
a la i delidad de es e ipo de locales man ienen
en el cuidado de una noche “au én ica”, con una
cie a so didez aunque ni excesi a ni “pelig osa”10
pa a el clien e: ce eza ba a a, alcohol blanco de
mala calidad, p os i u as ba a as, d ogas (hachís y
cocaína), los mismos emas musicales de siemp e
(gene almen e de géne o ock y pop- ock de los
años 70s, 80s y 90s); el diseño in e io de los locales
con inua siendo el o iginal.
Sin emba go, es a a mós e a algo decaden e
es e-signi i cada po pa e de algunos consumido es
(blancos) de clase media-al a los cuales, muchos
de ellos, pe enecen al campo p o esional de la
comunicación y la cul u a.11 Pa a algunos de ellos,
consumi es e ipo de noche “decaden e”, “cu e”
(en é minos popula es) signi i ca eco da aquellas
noches cuando e an más jó enes. Pa a o os, signi i ca
consumi una “decadencia eli izada”, “higienizada”,
nada “pelig osa”, o almen e “con olada”: se a a
de consumi un ocio noc u no inundado de emocio-
nes con oladas en un ambien e hipe -secu i izado
po pa e del s a del mismo local así como po un
núme o signi i ca i o de policía sec e a que ope a en
Cais do Sod é cada noche.
12
De hecho, el hecho que
la Rua No a do Ca alho haya sido ce ada al á i co
odado desde Sep iemb e de 2011 ha con ibuido al
e o zamien o de la acción de la segu idad p i ada
de los locales sob e el con ol del o den público en la
calle. Ello supone, sin luga a dudas, un inc emen o
de la secu i ización del espacio público, pe o ambién

Jo di No e
64
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 59-67
una semip i a ización “encubie a” del eje cicio de
la segu idad pública la cual p e ende e o za la
ecología del miedo (Da is, 1990) como ga an e de
un o den mic osocial es ablecido a lo la go de los
años y que es á basado en elaciones de in e és
en e chulos, pequeños a i can es, ca e is as,
pe sonal de segu idad de los locales y miemb os
de la policía.13
En la pa e occiden al, la noche es o almen e
di e en e. En p ime luga po que la p esencia de dos
agen es de la Polícia de Segu ança Pública compo a
di e encias adicales sob e quién y cómo se eje ce el
con ol del o den público en la calle. Aquí, los go ilas
no ex ienden sus unciones de igilancia y con ol
más allá de los lími es de su local. En segundo luga ,
la ipología de o e a de ocio noc u no y de consu-
mido p esen a signi i ca i as di e encias g acias a
la ecien e abe u a de es nue os locales de ocio
noc u no los cuales p esen an un diseño in e io de
ma cada endencia in age. Son locales que o man
pa e, como ya ha sido suge ido an e io men e, de
una es a egia lle ada a cabo po el sec o p i ado
en conni encia con la adminis ación pública local
pa a la eno ación u bana y social de Cais do Sod é.
En es e con ex o, los locales Pensão Amo , Ba da
Velha Senho a, y Sol e Pesca o ecen un no edoso
ocio noc u no basada en el consumo de “lo in age”
y “lo bohemio” como dis inción social (Figu a 2).
A pesa de a a -se cla amen e de locales
des inados a las nue as clases medias cosmopoli as
y a las jó enes y adul os-jó enes pe enecien es a
las clases medias-al as lisboe as ( al y como deja
Fuen e: Pensão Amo © 2012.
Figu a 2

 Pensão Amo , achada desde la calle Rua do Alec im (a iba a la izquie da), escale as de acceso a la p ime a
plan a (a iba la de echa), pe o mance pocos días después de la inaugu ación (abajo a la izquie da), y sala
p incipal (abajo a la de echa).
en e e la pe ición de es i bien y los p ecios del
menú de es au ación de la Pensão Amo , o los
p ecios de las apas de Sol e Pesca, po ejemplo),
al “exclusi idad” no impide que algunos es udian es
uni e si a ios po ugueses y E asmus (es os úl imos,
una mino ía muy poco signi i ca i a) p e i e an acudi
a es os nue os locales “gen i i cado es” pa a e i a
la so didez que odea la “pe i e ia” de es e subsec o
ecien emen e “higienizado” en é minos sociales.
14
Sin emba go, la econ e sión de Cais do Sod é
a a és de la gen i i cación de su ocio noc u no no
pod ía se comple amen e en endida sin ene en
cuen a el papel undamen al que en es e p oceso
p esen a la ecien emen e inaugu ada Pensão
Amo . Es e nue o local de ocio noc u no ocupa un
iejo edi i cio de cinco plan as de pa edes pin adas
de ojo, con lámpa as de a aña, o os y dibujos en
la pa ed de chicas salidas de cualquie caba e o
bu del de los años ein e, casi desnudas y en pose
e ó ica, mobilia io in age, e c. El p ime piso de
la Pensão Amo p esen a un espacio mul i uncional
en donde se celeb an a menudo cha las, p esen-
aciones de lib os, con e encias, e c. También hay
un espacio donde oma una copa de pie mien as,
con un olumen musical muy disc e o, el DJ de
u no desa olla su sesión. En el es o de los pisos
las an iguas habi aciones de las p os i u as se han
ans o mado en espacios de acogida de inicia i as
a ís icas y c ea i as, así como en o i cinas de ges-
ión cul u al (como la o i cina de ges ión del Quee
Lisboa Fes i al). Cabe des aca la sala de caba e
en donde la clien ela puede lee , cha la y/o bebe
DE LO SÓRDIDO A LO VINTAGE, DE LA MARGINALIZACIÓN A LA DISTINCIÓN...
65
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 59-67
de mane a “dis inguida” en un espacio o almen e
“higienizado” de cualquie in usión de clase in e-
io . P ecisamen e son los go ilas del local quienes
ejecu an al “higienización social” del local aplicando
un c i e io de selección de la clien ela basado en
la ca alogación absolu amen e a bi a ia de e nia
“pelig osa” o “no pelig osa” y la apa iencia de s a us
quo. En o as palab as, los inmig an es a icanos
de las ex colonias po uguesas, los gi anos y odos
los que no pa ecen pe enece a las clases media-
-al a (blanca) de Lisboa ambién iene p ohibida su
en ada en Pensão Amo .15
La “noche in age” como es a egia de gen-
i i cación del ocio noc u no en Cais do Sod é no
pe enece an sólo al ámbi o de las e l exiones
ealizadas en es e ex o. El canal de la BBC-T a el
in o mó ecien emen e que la Pensão Amo “once
a b o hel, [i ] had been ebo n as an a space wi h
a bo dello-chic ba ” (Ch is iani, 2012).
E ique a
Pensão Amo como un bu del “chic” sin duda alguna
e ue za la esis expues a has a aho a en es e ex o
ace ca del papel gen i i cado de dicho local. Po
o a pa e, el uso de es e é mino suge i ía algunos
cambios en el signi i cado del é mino “bohemia”.
Po una pa e, Pensão Amo o ece un espacio de
diseño de in e io eco dando los locales bohemios
de las ciudades más ac i as en el ámbi o de la
cul u a a lo la go de la década de los años 1920 y
1930, como po ejemplo Chicago (C essey, 1932),
Nue a Yo k o el “Pa ís de Amé ica” (Bu ke, 1995),
Ba celona (Villa , 1996) y Lisboa (Machado, 2008).
Sin emba go, la e-signi i cacion del é mino bohémia
se e e i ía a la dimensión “conduc ual” del indi i-
duo el cual, si quie e pa icipa del consumo de la
noche eli is a in age, iene que asumi los nue os
códigos de conduc a asociados de la neobohemia:
ges os y exp esiones aciales mínimos, con e sas
despoli izadas, consumo de alcohol muy mode ado
y de ma ca, co ección absolu a en las o mas de
sen a se y/o de es a en la ba a, del a o con el
cama e o y una p e e encia po el pago con a je a
banca ia, e c.
16
Los indi iduos de es a bohobu gue-
sía e i an exp esiones en público econocibles más
allá de los lími es del espacio ín imo c eado en la
mesa donde es án sen ados: el júbilo, la elicidad
explíci a, las ca cajadas, el baile sensual
17
, el bebe
casi compulsi amen e po que se iene sed o po que
sencillamen e a uno le da la gana es inap opiado.
Con odo, Pensão Amo o ece un menú de elegancia
en un con ex o de ocio noc u no socialmen e higie-
nizado, ema izado, de place p edecible y an asía
con olada: ¿un ocio “Disneyzado”, en é minos de
Alan B yman (2004)?
Conclusiones
La popula idad de la Pensão Amo en e los
jó enes y jó enes-adul os de las clases medias-al as
de Lisboa demues a el al o g ado de esiliencia y
exiblidad del ocio noc u no glocal de pequeñas
dimensiones y su impo ancia de p ime o den en
los p ocesos de gen i i cación e higienización social
de los cen os his ó icos de la ciudad pos indus ial.
En es e sen ido, es e a ículo ha mos ado el caso de
un ocio noc u no ecien emen e apa ecido el cual,
basado en la p omoción de “lo in age” como ele-
men o de acumulación de capi al cul u al y dis inción
social, juega un papel undamen al en el p oceso de
gen i i cación del an iguo ba io ma ine o de Cais
do Sod é (Lisboa), sus i uyendo p og esi amen e
aquel ocio noc u no “au én ico” que ca ac e izaba
las noches del “ iejo” Cais po una nue a escena
de la ida noc u na de ma cada ca ác e bohemio-
-bu gués. Sin luga a dudas ello e ue za aún más
la seg egación socio-espacial del ocio noc u no
de Lisboa cuyo es udio, has a la echa, ca ece de
e e en es bibliog á i cos.
Es e a ículo demues a que las eo ías sob e
los di e enciales de en a y alo del suelo como
pa adigmas explica i os de la gen i i cación son
cla amen e insu i cien es en algunos casos como,
po ejemplo, en la explo ación de cómo al p oceso
de ans o mación u bana – en con ex os de c isis
i nancie a e inmobilia ia – pene an de o ma selec-
i a en ba ios popula es deg adados de los cen o
his ó icos median e la eno ación de un edi i cio
abandonado y la gene ación de nue as dinámicas
co idianas inculadas a los es ilos de ida y al
consumo hedonis a de ocio noc u no de las nue as
clases medias.
Además, si bien ambas eo ías ( en -gap y
alue-gap, en o iginal) pueden se ú iles en el análisis
geog á i co de la gen i i cación en un pe íodo la go,
son o a ez insu i cien es en el análisis e nog á i co del
día a día del p oceso gen i i cado . Tal c í ica epis e-
mológica es la que subyace a lo la go del desa ollo
de es e a ículo. De hecho, y debido en g an pa e a
la c isis i nancie a e inmobilia ia y la apa ición de los
p ime os episodios de iolencia u bana y males a
social du an e es os úl imos años, la gen i i cación
adop a nue as o mas, apa eciendo de mane a más
agmen ada, en la que los agen es gen i i cado es
seleccionan aquellos edi i cios que cons i ui án las
bases de lo que pod ía llama se “gen i i cación
mic oci ú gica”. Se a a de una gen i i cación de
“baja in ensidad” que es á llamada a ca ac e iza
los p ocesos de eno ación u bana en es a nue a
e apa de pos c isis. En ella, la “noche” global apa-
ece como uno de los pila es undamen ales de la
higienización social del espacio u bano así como del
p oceso de e adicación de elemen os “pelig osos”
pa a el p oceso de in e nacionalización de la ciudad.
Jo di No e
66
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 59-67
Ag adecimien os
Es e abajo ha con ado con el apoyo i nancie o
de la Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia de
Po ugal (FCT-SFRH/BPD/63178/2009) y el apoyo
logís ico del Cen o de Es udos de Sociologia da Uni-
e sidade No a de Lisboa (CesNo a). Quie o exp esa
mi más p o undo ag adecimien o al P o eso Ma c
Oli a, colega geóg a o del Ins i u o de Geog a i a e
O denamen o do Te i ó io da Uni e sidade de Lisboa
(IGOT-UL), po su ayuda, compañía, copas, ideas,
e l exiones, c í icas y pun os de is a inno ado es
en la ealización de és e y an os o os abajos de
campo de (en) la noche; ambién a Emilio Cambei o,
y a Adan Casán DJ El Ma ado , po sus espec i os
pun os de is a “singula es” sob e la noche.
No as
1 Como con ibución des acada, Te esa Al es, de la Uni-
e sidad de Lisboa, ealizó en 2009 p esen ando una
unidad didác ica ace ca de la economía del ocio noc u no
en Lisboa.
2 Pa a una de allada ecopilación bibliog á i ca sob e los
p ocesos de gen i i cación en ciudades occiden ales,
éase Lees e al. (2008).
3 Rua do No e, 81. Ce ó sus pue as en o oño de 2010.
4 Fuen e: h p://spoiledmilk.lecool.com/lisboa/
p /2627?show_sha e_panel= ue
5
Fuen e: h p://www. acebook.com/pages/Cais-
-Sod %C3%A9-Caba e /321365328077?sk=in o [acces-
sed on: 20 Ma ch 2012, 3:47 pm].
6 In o mación acili ada po J., 29 años, beca io p edoc o al
de sociología u bana, esiden e de Cais de Sod é desde
hace 7 años. En e is a lle ada a cabo in si u el 28 de
Ene o de 2012, al ededo de las 2:00 am en Pensão
Amo . En e is a egis ada manualmen e.
7 Ke y Ch is iani (2012).“The ebi h o Lisbon’s Cais do
Sod é”, BBC-T a el Channel. [h p://www.bbc.com/ a el/
ea u e/20120320- he- ebi h-o -lisbons-cais-do-sod e,
24 Ma zo de 2012, 1:47 pm].
8
Fuen e: “Cais do Sod é é sexy! Pensão Amo , Ba da Velha
Senho a e O Po o: A oika de ba es que eio a asa a
noi e Lisboe a”, Ruadebaixo, no. 76, Dezemb o 2011
[h p://www. uadebaixo.com/cais-do-sod e-sexy-como-
nunca.h ml, 26 Ma zo de 2012, 5:42 pm].
9 En Musicbox se ealizan la mayo pa e de Fes i ales de
Música Unde g ound que se celeb an en Lisboa a lo la go
del año.
10 Pa a más in o mación, léase: h p://bilioso.blogspo .
p /2011/12/ ec udescem-as-ma ias-co upcao.h ml
[08/07/2012, 12:24pm].
11 In o mación acili ada po L., 37 años, miemb o de equipo
de segu idad p i ada. En e is a ealizada in si u el 15
de Feb e o de 2012, sob e las 0:30 am. La in o mación
no ue egis ada po mo i os de segu idad.
12 Idem.
13 C . No a 12.
14 C . No a 8.
15 Conclusiones de i adas de la obse ación l o an e ea-
lizada en el acceso in e io del local.
16 Conclusiones ob enidas a pa i de la obse ación con-
inuada a lo la go de a ios días del momen o de paga
de aquellos clien es que u e la opo unidad de segui
isualmen e el p oceso.
17 “Muchos a icanos y b asileños a eces bailan inadecua-
damen e, con bailes muy sexuales, con mucho con ac o.
A los que enimos aquí no nos gus a…” [ aducido po el
au o , o iginal en po ugués]. Decla aciones de J., 34 años,
esiden e en Lisboa, en Al ama, so wa e de elope . Sus
decla aciones son compa idas po C., 38 años, abaja
en una p omo o a inmobilia ia local; M., 30 años, beca io
posdoc o al, ex anje o p o enien e de un país de la UE.
En e is a ealizada in si u, 12 de No iemb e de 2011,
sob e las 2:15 am. Con e sa egis ada manualmen e.
Bibliog a ía
BAPTISTA, L. (2005), “Te i ó ios Lúdicos (e o que se
o na lúdico um e i ó io): Ensaiando um pon o
de pa ida”, Fó um Sociológico, 13-14 (2): 47-58.
BOURDIEU, P. (1979), La Dis inc ion, Pa is, Édi ions de
Minui , Le Sens commun.
BRYMAN, A. (2004), The Disneyza ion o Socie y,
London, Sage.
BURKE, P. (1995), “The in en ion o leisu e in Ea ly
Mode n Eu ope”, Pas and P esen , 146: 136-150.
BUTLER, T. (1997), Gen i i ca ion and he Middle Classes,
Alde sho , Ashga e.
CHATTERTON, P., R. Hollands, B. By nes and C. Read
(2002), The London o he No h? You h cul u es,
u ban change and nigh li e in Leeds, Case S udy
Repo . Cen e o U ban and Regional De elopmen
S udies, Uni e si y o Newcas le.
CHATTERTON, P. and R. Hollands (2003), U ban
Nigh scapes. You h Cul u es, pleasu e spaces and
co po a e powe , London-New Yo k, Rou ledge.
CHRISTIANI, K. (2012), “The ebi h o Lisbon’s Cais
do Sod é”, BBC-T a el Channel [A ailable on line
a : h p://www.bbc.com/ a el/ ea u e/20120320-
- he- ebi h-o -lisbons-cais-do-sod e, 24 Ma ch
2012, 1:47 pm].
CRESSEY, P. G. (1932), The Taxi-Dance Hall: A Socio-
logical S udy in Comme cialized Rec ea ion and
Ci y Li e, Chicago, Uni e si y o Chicago Socio-
logical Se ies.
DAVIS, M. (1990), Ci y o Qua z: Exca a ing he Fu u e
in Los Angeles, New Yo k, Vin age Books.
DURÃO, V. C. M. (2012), “Reclaimed Land: an U ban
Analysis The land i lls in Lisbon’s down own and
i e on ”, Jou nal o In eg a ed Coas al Zone
Managemen (in p ess) [A aliable online a : h p://
www.ap h.p / gci/pd / gci-288_Du ao.pd , 27
ma ch 2012, 3:49 pm].
EDENSOR, T. (1998), Tou is s a he Taj: Pe o mance
and Meaning a a Symbolic Si e, New Yo k, Rou-
ledge.
DE LO SÓRDIDO A LO VINTAGE, DE LA MARGINALIZACIÓN A LA DISTINCIÓN...
67
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 59-67
FEIXA, C. and J. No e (2012), “You h Cul u es”. En
Klande mans, B. (ed) Sociopedia, London, SAGE.
GOTTDIENER, M. (2001), The Theming o Ame ica.
Ame ican D eams, Media Fan asies and Themed
En i onmen s, Boulde , CO, Wes iew P ess.
HAEL, L. (2011), Dilemmas o he Nigh li e Fix: Pos -
-indus ializa ion and he Gen i i ca ion o Nigh li e
in New Yo k Ci y, U ban S udies, 48(6):3449-3465.
HAMNETT, C. and B. Randolph (1984), The ole o
landlo d disin es men in housing ma ke ans-
o ma ion: an analysis o he l a b eak-up ma ke
in cen al London. T ansac ions o he Ins i u e o
B i ish Geog aphe s, 9: 259–79.
HAMNETT, C. and B. Randolph (1986), “Tenu ial ans-
o ma ion and he l a b eak-up ma ke in London:
he B i ish condo expe ience”. In N. Smi h and P.
Williams (eds) Gen i i ca ion o he Ci y, Bos on,
Allen and Unwin, pp. 121–52.
HANNERZ, U. (1980), Explo ing he Ci y. Inqui ies
owa ds an U ban An h opology, New Yo k, Colum-
bia Uni e si y P ess.
HANNIGAN, J. (1998), Fan asy Ci y: Pleasu e and P o i
in he Pos mode n Me opolis, New Yo k, Rou ledge.
HOBBS, D., P. Had i eld, S. Lis e and S. Winlow (2005),
Bounce s: iolence and go e nance in he nigh -
- ime economy, Ox o d & New Yo k, Ox o d
Uni e si y P ess.
JUDD, D. R. (2003), El u ismo u bano y la geog a ía de
la ciudad, Re is a Eu e, 87 (29): 51-62.
LEES, L., T. Sla e and E. Wyly (2008), Gen i i ca ion,
New Yo k, Rou ledge.
LEFEBVRE, H. (1968), Le d oi à la ille, Pa is, Ed.
An h opos.
LEY, D. (2003), “A is s, Aes he icisa ion and he Field o
Gen i i ca ion”, U ban S udies, 40(12): 2527–2544.
MENDES, L. (2006), “A nobili ação u bana no Bai o
Al o: Análise de um p ocesso de ecomposição
socioespacial”, Finis e a, XLI, 81: 57-82.
NOFRE, J. (2011), You h Policies, Social Sani a ion, and
Con es ed Subu ban Nigh scape, in C. Pe one,
G. Manella, L. T ipodi (ed.) E e yday Li e in he
Segmen ed Ci y. Resea ch in U ban Sociology, 11.
Eme ald G oup Publishing, pp. 261-281.
NOFRE, J. (2010), “Polí icas cul u ales, ans o macio-
nes u banas e higienización social en la Ba celona
con empo ânea”, Anales de Geog a ía de la Uni-
e sidad Complu ense de Mad id, 30(2): 133-61.
NOFRE, J. (2009a). L’Agenda Cul u al Ocul a. Una
decons ucció de l’oci noc u n de Ba celona i els
seus subu bis. P emi Jo en u 2009. PhD hesis.
Uni e si y o Ba celona [A ailable online a : h p://
www. dx.ca /handle/10803/1966, las access on:
3 May 2012, 5:26 pm].
NOFRE, J. (2009b), “Les poli iques cul u elles e
de jeunesse à Ba celone e ses banlieues, un
essai c i ique. Du la colonisa ion cul u elle à
l’homogénéisa ion social”, Sud-Oues Eu opéen:
e ue géog aphique des Py énées e du Sud-Oues ,
26(1): 83-96.
NOFRE, J. y J. Ma ín (2009), “Ocio noc u no, gen i i -
cación y dis inción social en el cen o his ó ico de
Sa aje o”, Anales de Geog a ía de la Uni e sidad
Complu ense de Mad id, 29(1): 91-110.
PAIS, J. M. (2008), A p os i uição e a Lisboa Boémia.
Lisboa: Âmba .
PETÓNNET, C. (1982), “L’obse a ion l o an e. L’exemple
d’un cimi iè e pa isien”, L’Homme, 224: 23-35.
RITZER, G. (2010), Enchan ing a Disenchan ed Wo ld:
Con inui y and Change in he Ca hed als o Con-
sump ion, New Yo k, Sage.
RUSSELL, H. (2008), Resea ch Me hods in An h opology:
Quali a i e and Quan i a i e app oaches, Ox o d,
Al ami a P ess.
SAVAGE, M. y T. Bu le (1995), Social Change and he
Middle Classes, London, Rou ledge.
SENNETT, R. (1970), The Uses o Diso de : Pe sonal
Iden i y and Ci y Li e, W.W. No on, New Yo k.
SILVA, C. (2011), “Cais do Sod é. Os no os inquilinos
chegam à Pensão Amo e ao Ba da Velha Senho a”,
ionline, 10 No embe [A ailable online a : h p://
www.ionline.p /boa- ida/cais-sod e-os-no os-
-inquilinos-chegam-pensao-amo -ao-ba -da- elha-
-senho a, 22 ma ch 2012, 5:14 pm].
SMITH, N. (1979), “Gen i i ca ion and Capi al: P ac ice
and Ideology in Socie y Hill”, An ipode, A Radical
Jou nal o Geog aphy, 3.2: 24–35.
TALBOT, D. (2004), “Regula ion and Racial Di e en ia ion
in he Cons uc ion o Nigh - ime Economies: A Lon-
don Case S udy”, U ban S udies, 41 (4):887-901.
TALBOT, D. (2006), “The Licensing Ac 2003 and he
P oblema iza ion o he Nigh - ime Economy:
Planning, Licensing and Subcul u al Closu e in he
UK”, In e na ional Jou nal o U ban and Regional
Resea ch, 30 (1):159-71.
TALBOT, D. (2007), Regula ing he nigh : ace, cul u e
and exclusion in he making o he nigh - ime
economy, Re-ma e ialising cul u al geog aphy.
Alde sho , England: Ashga e Pub. Company.
THOMAS, C. y R. B omley (2000), “Ci y-cen e Re i a-
lisa ion: P oblems o F agmen a ion and Fea in
he E ening and Nigh - ime Ci y”, U ban S udies
37(8), 1403-1429.
THORNTON, S. (1995), Club Cul u es. Music, Media
and Subcul u al Capi al, Camb idge, Poli y P ess.
TRINDADE, S. (2011), “Hoje, beijo- e Lisboa”, Vogue,
17 No emb o 2011 [A ailable online a : h p://
www. ogue.xl.p /li es yle/sa%C3%83%C2%ADda-
-de-eme g%C3%83%C2%AAncia/2073-hoje-
-beijo- e,-lisboa.h ml, 28 Ma ch 2012, 5:19 pm].
VILLAR, P. (1996), His o ia y Leyenda del Ba io Chino
(1900-1992). C onica y Documen os de los Bajos
Fondos de Ba celona, Ba celona, Ed. La Campana.
WYNNE, D. (1998), Leisu e, Li es yle and he New
Middle Class. A case s udy, London, Rou ledge.
WYNNE, D. y J. O’Conno (1998), “Consump ion and
he pos mode n ci y”, U ban S udies, 35 (5-6):
841-64.

CIDADÃOS, TÉCNICOS E POLÍTICOS: DO QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA?
69
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 69-76
CIDADÃOS, TÉCNICOS E POLÍTICOS: DO QUE FALAMOS,
QUANDO FALAMOS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA?
Cecília Delgado
Uni e sidade Lusíada ([email p o ec ed])
Resumo
As an agens da pa icipação pública e do en ol imen o dos di e sos a o es nas decisões u banís i-
cas são la gamen e econhecidas e de endidas pelas ins i uições go e namen ais e sociedade ci il.
Não obs an e, a sua e e i ação e impac o nas decisões u banís icas em Po ugal são ela i amen e
escassos. Usou-se como es udo de caso um p oje o de equali i cação u banís ica, o P og ama
Polis em Vila No a de Gaia – Po ugal. Ques iona am-se homens e mulhe es, polí icos, écnicos e
cidadãos sob e a impo ância da pa icipação pública, exemplos des a, e es a égias de es ímulo
possí eis. Usa am-se simul aneamen e me odologias quali a i as e quan i a i as. Conclui-se que
o concei o de pa icipação pública é di uso e desconhecido a mon an e e a jusan e do p ocesso.
De ende-se que a cons ução de uma polí ica de pa icipação pública e e i a en ol e um p ocesso
de capaci ação ala gado a odos e odas e hie a quicamen e ans e sal.
Pala as-cha e: pa icipação pública; planeamen o u bano; cidade; es e a pública
Abs ac
The bene i s o public pa icipa ion and communi y in ol emen a e b oadly ecognised and en-
cou aged by go e nmen al ins i u ions and ci il socie y. Howe e , i s e ec i eness and impac on
Po uguese u ban planning a e ela i ely sca ce. I was used as s udy case he u ban p ojec – Polis
P og amme, in Vila No a de Gaia – Po ugal, and bo h quali a i e and quan i a i e me hodologies
we e used a he same ime. Women and men, wi h di e en le els o decision-making, we e
asked abou he impo ance o public pa icipa ion, examples and s a egies o imp o e i . The
esul s highligh he no ion o public pa icipa ion as some hing di use and unknown, ups eam
and downs eam o he p ocess. The c ea ion o a public pa icipa ion policy needs o be suppo
on he capaci a ion o e e yone in ol ed, men and women, c ossing he hie a chy o decision.
Keywo ds: public pa icipa ion; u ban planning; ci y; public sphe e
A impo ância da pa icipação
As Nações Unidas en a izam a impo ân-
cia da pa icipação como uma o ma de p omo e
a democ acia e o alece o es ado de di ei o. Nos
obje i os de desen ol imen o do milénio (2000-
-2015) p oclama-se a necessidade de abalha
cole i amen e pa a consegui que os p ocessos
polí icos sejam mais ab angen es, de modo a
pe mi i em a pa icipação e e i a de odos os ci-
dadãos, em odos os países, e assegu a a libe -
dade dos meios de comunicação pa a cump i em
a sua unção, i.e., o di ei o de o público e acesso
à in o mação.
As an agens da pa icipação pública são eco-
nhecidas. De aco do com Pe s (2000), ala gam o
leque de ques ões a analisa em compa ação com
os p essupos os ideologicamen e o ma ados que os
écnicos in oduzem. Gonçal es (2000) e o ça es a
posição ao a i ma que as pessoas são expos as a
ou as on es de in o mação pa a além das on es
cien í i cas e écnicas, e são capazes de assimila
e ponde a a in o mação de di e en es o igens, o
que con ibui pa a o en iquecimen o das soluções
p opos as. Comp eensí el, num sis ema cien í i co
que se especializou a é ao “limi e” da especializa-
ção, a igno ância ace ca de um domínio especí i co
da ciência é quase ão g ande en e cien is as que
Cecília Delgado
70
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 69-76
abalham nou a á ea como en e os leigos (Fel ,
2000). A expe iência demons a que o en ol imen o
dos a o es em p ocessos de in e enção u bana,
median e uma pa ilha de obje i os e soluções, é
um a o decisi o pa a o sucesso dessas ope ações,
não só a cu o p azo, mas ambém po que assegu a
a manu enção dos esul ados ao longo do empo,
deco en e de uma maio sa is ação e iden i i cação
dos des ina á ios (Al es, 2001).
O es udo “Pa icipa ion, Leade ships and
U ban Sus ainabili y” (2004), ealizado pelo Cen-
o de In es igação das Cidades da Uni e sidade
de B is ol, compa ou o en ol imen o comuni á io
em no e países da União Eu opeia e o modo como
esse a o con ibui pa a a melho ia das decisões
polí icas no âmbi o do desenho da cidade. Os
casos es udados con i ma am que o en ol imen o
comuni á io ans e sal, ao ní el das associações
locais, das uni e sidades, dos g upos com in e es-
ses especí i cos, da sociedade ci il, e c., é um a o
ele an e na de i nição das polí icas de o denamen o
u bano nomeadamen e po que: 1) ga an e que o
pode ins i ucional iden i i ca com maio acuidade
as necessidades e p eocupações locais; 2) con ibui
pa a a melho ia da qualidade das decisões polí icas
ao pe mi i iden i i ca al e na i as que mui as das
ezes escapam ao se o ins i ucional e écnico; 3)
possibili a o conhecimen o público das omadas de
posição go e namen al; 4) assegu a a legi imidade
das decisões e pe mi e um melho acompanhamen o
da implemen ação dos p ocessos; 5) mobiliza
ecu sos necessá ios à boa execução dos obje i os
polí icos. Finalmen e, o en ol imen o comuni á io
na ges ão e i o ial eduz a ins abilidade deco en e
das al e ações na lide ança polí ica.
No seu a igo “Re aming Public Pa icipa ion:
S a egies o he 21s Cen u y”, Judi h Innes e Da id
Boohe (2004) enunciam cinco p essupos os que
jus i i cam a necessidade da pa icipação pública.
As azões co obo am as conclusões do es udo
an e io men e e e ido. Reconhece-se a necessi-
dade de quem decide comp eende as p e e ências
dos cidadãos de modo a inco po á-las nas suas
opções e melho a a omada de decisão a a és da
in o mação local dos cidadãos. Simul aneamen e,
in oduz-se o p incípio da impa cialidade como meio
de acau ela que as decisões sejam omadas com
equidade, legi imidade e espei o pelos cidadãos. Po
ou o lado, alude-se à pa icipação como um meio
de alida e legi ima decisões polí icas. Po úl imo,
assume-se a necessidade legal de o aze – po que
a legislação assim o ob iga.
Di e sos es udos apon am ainda a pa icipa-
ção como um meio de aumen a a sa is ação dos
cidadãos (Fe ei a, 2003; Gue a, 2006; Healey,
2006; Asche , 2010), na medida em que exis e uma
co espondência en e os esul ados e as aspi ações
des es. Em sen ido in e so, in e enções onde os
p essupos os de diálogo e anspa ência não es ejam
p esen es podem ge a um clima de con o é sia
e insa is ação, aumen ando as cli agens sociais e
limi ando os p essupos os democ á icos. Em sín-
ese, é consensual que a pa icipação pública é um
impo an e meio de in e câmbio de in o mação, de
sal agua da de di ei os, de legi imação de decisões,
e i a con es ações e é ambém uma ob igação ace
aos p incípios democ á icos igen es. Em sín ese,
de ende-se uma pa icipação ú il, an o socialmen e
como poli icamen e, mas omi e-se que o concei o
de pa icipação, con o me de endido po A ns ein
(1969), implica uma posição que ende a ni ela
o pode en e quem decide e os cidadãos, posição
da qual a maio ia dos deciso es não es á dispos a
a abdica .
Os dilemas das pa icipação em Po ugal
As elações en e cidadania e equidade p e a-
lecen es em Po ugal são complexas e di e enciadas,
sendo indiscu í el que o sen imen o de iniquidade
social se elaciona com a al a de ecu sos pa a
pa icipa na ida cí ica, le ando a que a g ande
maio ia dos Po ugueses se sin a p o undamen e
“dis an e do pode ”, a i mam Cab al e al. (2008).
Ma oso (2008) de ende que em Po ugal o Es ado
desempenha um papel in enso de egulação social,
mas pe manece uma g ande dis ância en e ep e-
sen an es e ep esen ados. É ainda um Es ado que
en a imi a os pad ões de a uação dos Es ados e das
polí icas mais desen ol idos, o que se e l e e numa
legislação equen emen e mui o p og essis a, sem
que os agen es polí icos in e io izem esses pad ões
nas o ien ações ope acionais e na p á ica polí ica. Já
em 1997 Lou enço e al. sublinha am a ausência de
pa icipação em Po ugal mencionando o excessi o
ca á e écnico dos documen os disponibilizados
pa a discussão, o ac o de a pa icipação pública
se mo i ada undamen almen e pelos in e esses
pa icula es em de imen o dos in e esses di usos,
a aca essonância da pa icipação pública nas deci-
sões i nais, as debilidades écnicas das au a quias à
me cê do Pode Cen al, a cien i i cação das decisões
e a al a de in o mação cien í i ca adequada ao ní el
de conhecimen os do cidadão em ge al.
Es abelecidas as causas que pode ão jus i i ca o
ní el eduzido de pa icipação em Po ugal, é p eciso
pe cebe que es as ques ões não são exclusi amen e
po uguesas mas um enómeno igualmen e equen e
nou os países. Os mé odos de pa icipação pública
adicionais não uncionam quando não c iam in o -
mação signi i ca i a que pe mi a e acili e às en idades
aze a di e enciação na omada de decisão ou não
ga an am aos cidadãos que as suas ques ões sejam
conside adas nas decisões a pos e io i, a i mam
Innes e Boohe (2000). Sob e ém ainda o enó-
meno NIMBY (no in my backya d synd ome) ou a
CIDADÃOS, TÉCNICOS E POLÍTICOS: DO QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA?
71
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 69-76
cons a ação da di e ença de p io idades en e os
écnicos e o público em ge al, mui as ezes usadas
pelos p imei os pa a desquali i ca a posição dos
cidadãos, o ulando-a como egoís a, pouco in o -
mada, me amen e emocional ou i acional (Lima,
2000). Esquece-se que o planeamen o u bano é um
p ocesso dinâmico e in e a i o, ei o po odos e pa a
odos, sujei o a e isão pe manen e e p essupondo
anspa ência e on ade, simul aneamen e polí ica
e da sociedade ci il.
A ques ão
Ra amen e são es abelecidas compa ações en e
os di e sos g upos que compõem a pi âmide de
decisão hie á quica: na base – os cidadãos que i em
nas cidades, com pode es limi ados de in e enção;
no meio da pi âmide – os écnicos que planeiam as
cidades, e no opo – os polí icos que decidem as
polí icas u banas. Pa e-se do p essupos o de que
uma cidade mais equi a i a é uma cidade pensada
a pa i da pe spe i a de odos e odas. E da hipó-
ese de que essa pe spe i a a ia en e os g upos
mencionados. De ende-se que a pa icipação pública
é o ins umen o p i ilegiado pa a cons ui a isão
cole i a da cidade – é pois p eciso pe cebe do que
alamos, quando alamos de pa icipação pública?
Es udo de caso: seleção da amos a
A amos a des e es udo é compos a po cida-
dãos, polí icos e écnicos, en ol idos no P og ama
Polis em Vila No a de Gaia1 (2000-2007). A cidade
de Vila No a de Gaia si ua-se na egião no e de
Po ugal, na ma gem esque da do io Dou o, o qual
es abelece a on ei a na u al com a cidade do Po o.
Pa a a seleção da nossa amos a exis iam ês
possibilidades: 1) es uda a o alidade da população;
2) es uda uma amos a ep esen a i a da popula-
ção; 3) es uda componen es não necessa iamen e
ep esen a i as, mas ca ac e ís icas da população.
Op ou-se po es uda g upos, não necessa iamen e
ep esen a i os, mas cujas ca ac e ís icas ossem
ele an es pa a a nossa hipó ese. De aco do com
Qui y e Campenhoud (2005), es a é a ó mula mais
equen e nas Ciências Sociais – o in es igado ao
di e si i ca os pe i s dos inqui idos chega á ine i-
a elmen e ao momen o de sa u ação em que, po
mais en e is as que aça, di i cilmen e alcança á
in o mação adicional ele an e.
Em ep esen ação do g upo de cidadãos,
inqui iu-se um g upo de 100 alunos
2
que equen a a
o ano que p ecede a en ada na uni e sidade. Uma
pa e signi i ca i a dos alunos (66 %) si ua a-se na
aixa e á ia dos 17 anos, os alunos com 16 anos
ep esen a am 21 % da amos a e a pe cen agem
de alunos com idade en e os 18 e os 20 anos de
idade ep esen a a 13 %.
Rela i amen e ao g upo dos polí icos e écnicos,
inqui i am-se odos os écnicos e polí icos en ol idos
no P og ama
3
. O uni e so o al da população pe ez
81 indi íduos. Des es 26 o am con abilizados como
polí icos, ace à unção desempenhada no P og ama
Polis ( e Tabela 1).
No g upo dos polí icos incluí am-se odos os ele-
men os do Conselho de Adminis ação da GaiaPolis,
ou seja, os ep esen an es da CCDRN, da Au a quia
de Vila No a de Gaia e da Pa que Expo; os P esi-
den es das qua o Jun as de F eguesia ab angidas
pela á ea de in e enção; o Coo denado Nacional
do P og ama Polis; o Coo denado da Pa que Expo
pa a o P og ama Polis; os dois Di e o es Ge ais da
DGOTDU; os e eado es da Câma a Municipal de
Vila No a de Gaia. Admi e-se que es as ca ego ias
possam não se igo osamen e es anques e exclu-
si as, na medida em que pon ualmen e decisões
écnicas o am da esponsabilidade de elemen os
do g upo dos polí icos, endo o in e so ambém
oco ido. Conside ada a simili ude das espos as
en e es es dois g upos ( e esul ados), es e a o
não nos pa ece e exp essão nas conclusões.
O g upo dos 55 écnicos englobou as equi-
pas dos qua o Planos de Po meno , os a qui e os
au o es dos p oje os elabo ados no âmbi o do
P og ama Polis e os con a ados pela GaiaPolis,
os uncioná ios da CCDRN e da Câma a Municipal
de Vila No a de Gaia, a equipa da GaiaPolis e os
a qui e os esponsá eis pelos p oje os dos p inci-
pias lo es p i ados.
A aixa e á ia dos écnicos e polí icos a iou
en e os 28 e os 68 anos de idade. Des aque pa a a
ausência de mulhe es no g upo de polí icos. O sexo
eminino ep esen a a 38 % da amos a, sendo a
aixa e á ia média in e io à dos homens.
Tabela 1

 Composição da amos a po géne o e g upos de decisão
H + M – Pop To al H + M – Resp % ela i a Pop To al N.º Homens – Resp N.º Mulhe es – Resp
Polí icos 26 21 80 21 0
Técnicos 55 47 85 29 18
Cidadãos 100* 100 100 40 60
* O g upo de polí icos e écnicos ep esen a a população o al. Os cidadãos uma amos a.
Cecília Delgado
72
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 69-76
A o mação académica en e polí icos e écni-
cos e a igual ou supe io à licencia u a, no en an o
egis a am-se ês casos de o mação in e io à
licencia u a no g upo dos polí icos. A á ea académica
p edominan e nos écnicos e a a a qui e u a (79 %)
e nos polí icos a engenha ia (43 %). A dis ibuição
po á ea de esidência e a a seguin e: Po o (41 %);
Vila No a de Gaia (29 %); Lisboa (18 %); ou as
cidades (15 %). No conjun o, 82 % dos inqui idos
esidiam na Á ea Me opoli ana do Po o – AMP, e
18 % o a da AMP. Todas as mulhe es i iam na
Á ea Me opoli ana do Po o, em con as e 24% dos
homens i iam o a da Á ea Me opoli ana do Po o.
Abo dagem me odológica
Na o mulação do inqué i o e da en e is a
conside a am-se as obse ações esul an es do p é-
- es e ealizado no con ex o de izinhança. Op ou-se
po u iliza di e en es abo dagens linguís icas, de
onde as di e en es o ma ações: (1) inqué i o aos
cidadãos; (2) en e is a aos écnicos e polí icos.
U ilizou-se uma en e is a com uma p opo ção
idên ica de pe gun as abe as e semi echadas.
Nos dois ques ioná ios o am usadas pe gun as-
- i l o. No inqué i o o necido aos cidadãos oi usada
a cidade de Vila No a de Gaia4, nas en e is as
adminis adas aos polí icos e écnicos o P og ama
Polis em Vila No a de Gaia.
As amos as o am ecolhidas en e Ou ub o de
2007 e Junho de 2008. Aplica am-se dois ipos de
abo dagens me odológicas: a écnica quan i a i a;
e a écnica quali a i a na jus i i cação das espos-
as. Semp e que possí el o am ealizados es es
es a ís icos, nomeadamen e o Qui2. Conside ou-se
es a pe an e uma co elação es a is icamen e
signi i ca i a semp e que p ≤ 0,050. Como essal a
me odológica, sublinhe-se que os esul ados ob idos
são apenas álidos pa a a amos a es udada, não
obs an e le an a em hipó eses a ap o unda em
abalhos u u os.
Resul ados
Se é impo an e pa icipa : a isão dos écnicos
e polí icos
Ques ionados sobe a impo ância da pa -
icipação pública pa a a omada de decisões no
âmbi o do planeamen o u banís ico de uma cidade
99 % dos inqui idos esponde am se impo an e
pa icipa . De ende-se a pa icipação pública como
um ins umen o p i ilegiado de mediação en e
os deciso es e as populações
5
. São os écnicos
(57,5 %) e os homens (60 %) quem mais jus i i ca
des e modo a impo ância da pa icipação pública, e
menos os polí icos (48,5 %) e as mulhe es (40 %).
A pa icipação é igualmen e assumida pelos écni-
cos como algo “didá ico”, que in o ma o p ocesso:
“os cidadãos, como u ilizado es do espaço, (...)
podem lança mo es pa a as es a égias” (T-M)6.
A pa icipação é ainda econhecida como um meio
pa a eduzi po enciais con l i os: “a única o ma
de as ações (...) não se em cu o-ci cui adas e
se em acei es, desen ol idas e co igidas” (T-M).
Po i m, a pa icipação pública é impo an e mas
balizada, ou seja: “é impo an e que os cidadãos
pa icipem, sejam ou idos, c i iquem, e c., e c.,
mas é ela i amen e impo an e. A de i nição da
es a égia u bana de uma cidade cabe, em úl ima
análise, numa democ acia ep esen a i a, aos ó gãos
elei os” (P-M). Posicionamen o assumido po ce ca
de um e ço dos écnicos.
Se é impo an e pa icipa : a isão dos cidadãos
A mesma ques ão colocada ao g upo de cida-
dãos demons a que a maio ia dos inqui idos assume
a impo ância de pa icipa , sendo de des aca que
nenhum dos inqui idos admi e não se impo an e
pa icipa . As espos as
7
baseiam-se no p incípio de
que, como u ilizado es das cidades, os cidadãos em
maio conhecimen o das suas necessidades (38 %).
“São os cidadãos que i em e lidam com os p oble-
mas do dia-a-dia, e como al conhecem bem o que
é bom e mau pa a a sua cidade” (C-M). É ambém
um g upo que possui um en endimen o di e en e
de quem decide: “po que mui as ezes o que os
polí icos pensam nem semp e é o que as pessoas
pensam e que em, e mui as ezes é o público, em
ge al, que sabe quais as necessidades pa a a sua
cidade e assim ao pa icipa em a i amen e pode-
iam expo as suas ideias e chega a um consenso”
(C-F). Ac escen e-se que, ao pa icipa em nas deci-
sões, os cidadãos con ibuem pa a um aumen o do
sen imen o de pe ença e iden idade e i o ial, o
que a o ece “que a cidade e l i a os seus gos os e
aspi ações (...) e não a idealizada pelos a qui e os
ou p esiden es” (C-F).
Não deixa de se pe inen e e oca as azões
po que oi o inqui idos espondem se indi e en e
pa icipa . Des acam-se dois a o es: a a e a de
decidi é uma ob igação de quem oi elei o pa a
o aze – “as pessoas elegem alguém pa a oma
essas decisões” (C-M), assim sendo: “o planeamen o
u banís ico de e es a a ca go do P esiden e da
Câma a” (C-F). Em segundo luga , o sen imen o da
inconsis ência e desin e esse dos cidadãos nos a os
pa icipa i os: “nem odas as pessoas êm as mesmas
opiniões e podia ha e p oblemas” (C-F), as pessoas
êm “(...) mais em que pensa ” (C-F). Po géne os,
cons a amos que a azão a) “u ilizado es êm maio
conhecimen o e ou a isão da ealidade” é mais
eminina do que masculina. Em con apon o, a azão
b) “di ei o e de e em democ acia – a cidade é de
odos” é uma isão mais masculina do que eminina.
A TRIPLA FACE DA FRONTEIRA: REFLEXÕES SOBRE O DINAMISMO DAS RELAÇÕES FRONTEIRIÇAS...
79
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 77-85
ealidade, onde dinâmicas de ap oximação e dis an-
ciamen o podem compe i , simul aneamen e, den o
do jogo de elações. A i nal, a pon e que sepa a duas
comunidades é a mesma que iabiliza a a essia.
Nes e a igo, começo po explo a os ês
modelos de análise p opos os, pa a depois e l e i
b e emen e, a í ulo de exemplo, sob e um es udo
de caso: o sub il episódio da oda de Si i i2 do qui-
lombo de Ma a Ca alo, uma comunidade si uada no
município de Nossa Senho a do Li amen o, Es ado
de Ma o G osso, egião Cen o-Oes e do B asil. A
comunidade é designada como quilombo po se uma
cole i idade com ca a e ís icas é nicas e iden i á ias
di e enciadas, inculadas à ances alidade a icana.
A pa i de uma pe spe i a me odológica
quali a i a e a a és da obse ação di e a, busquei
desc e e um dos pon os al os da es a em lou o a
São Benedi o, ealizada numa das casas da comuni-
dade. A a és da dança do Si i i, discu i os e ei os da
ans o mação da on ei a que sepa a na on ei a
que une, ealizando uma análise mic oscópica que
sublinha a iqueza dos enómenos on ei iços.
A on ei a que sepa a e a on ei a
como en e
Quando emp egamos a pala a on ei a, a
imagem que eme ge com mais equência é a da
on ei a que sepa a: espaço de di e enciação; linha
de dema cação em elação à qual algo es á den o
ou o a (Hanne z, 1997). Es a on ei a es á, po -
an o, inculada a uma azão elacional e a o mas
de julgamen o, disc iminação e dis inção.
Pa a Alba e -Schulz e al. (2004), on ei a é
uma cons ução e i o ial que põe a dis ância na
p oximidade. Assim, a p oximidade espacial en e
luga es é con adi a pela p esença de disposi i os
que in oduzem um a as amen o – a a és de meca-
nismos de o dem ma e ial (ba ei a, mu o, e c.)
e ideológica (no mas, ep esen ações, e c.). Es a
dis ância é ge almen e in e p e ada como um meio
de p o eção – de uma população, um e i ó io, um
pode . Des a manei a, a on ei a é concebida como
um sis ema de con olo de l uxos a a és de uma
i l agem. E, uma ez a a essada, induz a uma
ex ao diná ia al e ação no co po ou obje o que a
c uzou, de o ma que um pequeno mo imen o no
espaço pode ans o ma um inside num o as ei o,
ou o p odu o de me cado em con abando.
Rena d (apud Alba e -Schulz e al., 2004)
suge e uma g adação concei ual en e as noções
de limi e e on ei a. O p imei o e mo ci cunsc e e
dois conjun os sepa ados po descon inuidades na
o ganização do espaço, não necessa iamen e es u-
u an es. Já a on ei a é es u u an e, e elando
um exe cício de pode . Um exemplo bas an e ób io
dos ínculos en e on ei a e pode é a ideia de
on ei a nacional: undacional pa a a mode nidade,
o seu açado ambém implica a associação en e
di isão espacial e signi i cados cul u ais especí i cos
(Shields, 2006).
Além disso, mui os dos es udos das on ei as
es ão ol ados pa a as ans o mações ge adas
pela globalização.3 Sob es a pe spe i a, a on ei a
nacional em sendo con on ada po enómenos
ais como os l uxos c escen es de pessoas, in o ma-
ções, ecu sos e me cado ias. Mas, como imos, a
celeb ação da queb a de ba ei as em sendo ques-
ionada: Newman (2006), po exemplo, conside a
um equí oco que a dissolução de on ei as seja
en endida como um indica i o da ans e ência de
pode en e di e en es eli es – pois, no con ex o da
globalização, a emoção de on ei as no malmen e
se e os in e esses dos que as e gue am no passado.
O islumb e de um mundo sem on ei as ê-se
ambém con on ado pela eme gência de no as
segmen ações, ais como as di isões de cunho
eligioso, é nico ou polí ico, que con adizem uma
supos a endência de uni o mização do plane a. Ou o
exemplo inse e-se no concei o de cidades duais, que
chama a a enção pa a a na u eza ex emamen e
seg egada das cidades, di ididas en e zonas “ o -
i i cadas” das eli es e os espaços ocupados pelas
populações empob ecidas (Fea he s one, 1995).
Conside ada a pa i de ou o ângulo, a dis-
cussão sob e as on ei as e ela simul aneamen e
que em mui os con ex os a l uidez de um mundo
com limi es ul apassá eis jamais deixou de exis i .
Vis a de pe o, a ealidade mos a que mesmo as
di isões mais palpá eis, como os mu os que sepa-
am dois países, ap esen am ce a po osidade. No
deco e da his ó ia, as de e minações dos cen os
de pode jamais o am su i cien es pa a in iabiliza
plenamen e a comunicação en e sujei os apa ados,
o que denuncia ce a abs ação das linhas on ei-
iças e a sua incapacidade de de e po comple o
as e en uais endências de cosmopoli ismo. A é em
e mos ins i ucionais, sine gias socioeconómicas
êm ge ando o ap o undamen o de enlaces nos
espaços ans on ei iços – nas chamadas cidades
espelho – a exemplo dos p oje os de inclusão social
egional no con ex o do Me cosul.4
Alba e -Schulz e al. (2004) conside am que
dois aspe os o am equen emen e usados pa a
legi ima os discu sos de cons ução ideológica dos
e i ó ios: as on ei as na u ais e his ó icas. A
opog a i a e a hid og a i a, po exemplo, se i am
como undamen os pa a as di isões polí icas.
5
Po ém, nem semp e ais ca a e ís icas espalda am
os açados das on ei as nacionais, a exemplo
da colonização do Sul global, que lançou mão de
na a i as legi imado as p óp ias. O mapa a i-
cano e ela isso com anspa ência: g ande pa e
das suas linhas oi açada a égua, dependendo
basicamen e das negociações en e os impé ios
colonizado es.

Ca la Ladei a Pimen el Águas
80
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 77-85
“Tais linhas são mais do que ep esen ações
ou dema cações; elas são on ei as i uais que
p e i gu am linhas conc e as na paisagem”, obse a
Shields (2006: 227). O au o ac escen a que es as
di isões podem ainda ma ca a di e ença en e es a-
dos adicalmen e di e en es – “en e o «ci ilizado» e
o «não ci ilizado», po exemplo” (idem). Po an o,
o concei o de on ei a ambém pode se u ilizado
pa a pisa mos num e i ó io bem mais l uido do
que o das di isas nacionais: ambém se e ela ú il
pa a se pensa nos p ocessos de hie a quização do
mundo, bem como nos mecanismos de cons ução
das iden idades.
Sousa Ribei o a i ma que cons ui o ou o
signi i ca “cons ui a on ei a que dele me sepa a”
(2001: 469). Des a o ma, a on ei a o na-se a
linha imaginá ia sob e a qual se p oje a a noção de
di e ença e a pa i da qual se o na possí el a a i -
mação de iden idade. Na mode nidade, es es jogos
de di e enciação o am ex emados a a és de uma
desc ição do mundo pau ada po dico omias – en e
neg o/b anco, ci ilizado/sel agem, e c. Es a isão
essencialis a le ou à o ma ação das iden idades-
- o aleza (San os, 2002) que, em úl ima análise,
são o e és do cosmopoli ismo.
De ce a manei a, po an o, é possí el dize
que as na a i as hegemónicas são ca a e izadas po
di e sas o mas de di isão, que moldam a manei a
mode na de i e e comp eende o mundo. É po
es e mo i o que o esba imen o dessas ba ei as – a
ans o mação, no campo das sociabilidades, das
on ei as que sepa am em on ei as que unem – é
um p ocesso emancipa ó io.
An es de chega mos a essa discussão, concen-
emo-nos no segundo modelo de análise: a on ei a
como en e é o limi e em expansão. É onde, em
de e minado empo, se dá o a anço unila e al de um
agen e ans o mado sob e o espaço – o que implica
a exis ência de um e i ó io, ainda que me a ó ico,
sob e o qual a ança . Vincula-se, po an o, a uma
geog a i a e a uma ação que ende a acaba -se. Es á
semp e em mo imen o – uma caminhada umo ao
que es á pa a além dela – pois, quando es e mo i-
men o cessa, a on ei a como en e ans o ma-se
em on ei a que sepa a.
A en e de ba alha ( on ) ilus a bem es a
ideia: linha de soldados que con on am di e amen e
o inimigo e que ganham e eno pa a o a anço das
opas. Ou o exemplo é a conquis a do Oes e,
p o agonizada pelos pionei os no e-ame icanos.
Ac edi o, aliás, que odas as expansões impe iais
se dão a a és dessa aceção de on ei a.
Ou os ipos de limi e em expansão podem se
analisados sob es e mesmo p isma, ais como as
en es ag ícolas – que le am a é con i ns sel agens
ou azios as benesses do a anço do p og esso. Da
mesma o ma, a exp essão “a úl ima on ei a”
(do que que que seja) signi i ca a ex emidade do
conhecido, acei á el e plausí el. Quando a ciência
se de on a com as on ei as do conhecimen o,
é ambém no sen ido de limi e p óximo à e a
sel agem: “Des e lado, os campos cul i ados; do
ou o, o g ande desconhecido” (Hanne z, 1997: 21).
Em ce a medida, es a in e p e ação es á a
meio caminho en e a on ei a que sepa a e a
on ei a que une. Isso po que, po um lado, é uma
zona limí o e que di ide um espaço- empo já ans-
o mado daquele que ainda não so eu a ação do
agen e ans o mado . Po ou o lado, es a on ei a
não deixa de se um luga de encon o. O que es á
do lado de lá é um espaço p eenchido – po po os,
cul u as, ou os cen os – e o con on o dá-se com
maio es ou meno es ensões. Ou a ez, as elações
de pode dão a ónica da análise.
As hie a quias, na on ei a como en e, com-
po am-se como os dois lados de uma moeda. A ace
in e na – o in e io dos seus limi es – ca a e iza-se
pela l exibilização das es u u as hie á quicas, em
unção do dis anciamen o dos núcleos de pode . Mas
a ace ex e na é a elação com o ou o, aquele que
es á na on ei a ou pa a além dela. Nes e caso,
ao in és do en aquecimen o das hie a quias, há o
es o ço de sob eposição das no as sob e as an igas
elações hie á quicas. Podem oco e negociações
no espaço on ei iço, mas es as são agilizadas
quando a en e de a anço se desloca pa a adian e,
e o espaço deixa de se limí o e pa a ganha a
es abilidade do cen o i adiado da expansão.
Só assim – a a és da sob eposição de hie a -
quias ou da ansi ó ia e condenada negociação en e
hie a quias – a con inuidade do a anço é possí el.
T a a-se, po an o, de um espaço de encon o, mas
um encon o desigual. Não a o o ou o é in isibili-
zado, liquidado ou expulso, pa a a ende à endência
de con inuidade do mo imen o.
No con ex o da en e pionei a dos Es ados
Unidos, po exemplo, à medida que as on ei as
coloniais cediam luga às on ei as nacionais – ou
que, digamos, as on ei as como en e ganha am
i xidez e se ans o ma am em on ei as que sepa-
am –, ab iam ambém caminho pa a hie a quias
endu ecidas, insc i as nas noções de cidadania e
nos seus signi i cados mais exclusi is as: pa a os
incluídos, uma no a e a de au onomia; pa a os
excluídos, a pe da de s a us polí ico, ju ídico, social
e pessoal (Adelman e A on, 1999).
Esses e ou os exemplos e elam uma noção
de on ei a que, apesa de alguns elos em comum,
em mui o di e e da aceção de on ei a que une.
A úl ima, en endida como espaço de in e ação,
é po encialmen e ans o mado a, não de ido ao
a anço sob e o ou o, mas sim de ido à a iculação
com o ou o.
A TRIPLA FACE DA FRONTEIRA: REFLEXÕES SOBRE O DINAMISMO DAS RELAÇÕES FRONTEIRIÇAS...
81
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 77-85
À luz do c epúsculo: a on ei a que une
A bu lesca imagem de Cha les Chaplin no
i lme Gold Rush, desc i a po Shields (2006), az
à ona um ou o espaço, pa a além do es a den o
ou do es a o a: o a o co e em ziguezague sob e
a on ei a en e o México e os Es ados Unidos,
pe seguido de um lado pela polícia e, do ou o, po
lad ões. Es a cena su eal ilus a a possibilidade de
se pensa na on ei a em si como um e cei o luga .
Segundo o au o , “ on ei as são no ma i a-
men e de i nidas pa a se em a a essadas, não pa a
se em pe co idas. Se elas são seguidas, o seu s a us
é al e ado, ans o mando-se em i uais, in e s iciais
ou limina es espaços de «in e ação»” (Shields, 2006:
229). Es a e cei a aceção não se si ua, po an o,
de um lado ou do ou o – e é po ompe com a
bina idade que, segundo Sousa Ribei o (2001), es e
encon o en e di e enças é ansg esso .
No concei o de on ei a, es á semp e implíci a
uma de e minada a iculação en e cen o e ma gem.
Vimos que al ínculo é pau ado pelas elações de
pode : de manei a ge al, quan o maio a o ça i a-
diada pelo cen o, mais ígidas se ão as hie a quias
e menos dinamismo exis i á nas ma gens. Como
sin e iza Boa en u a Sousa San os, pa a cul u as
do adas de o es cen os, as on ei as são pouco
isí eis, “e isso é a causa úl ima do seu p o incia-
nismo” (1993: 49). Mas, se as o ças cen ípe as
não o em excessi as, as bo das podem e ela -se
um e i ó io de c ia i idade.
No seu sen ido mais amplo, as elações sociais
são semp e cul u ais e polí icas – ep esen am dis-
ibuições desiguais de pode (San os e Meneses,
2009). A me á o a da on ei a que une con ida,
po an o, ao deslocamen o do oco, que é e i ado
dos núcleos es u u an es pa a se concen a nos
enómenos ma ginais; aqueles que oco em nos
ins á eis espaços in e s iciais.
Sousa Ribei o (2001) lemb a que os bo de
s udies, embo a e endo a cono ação de p eca iedade
e mesmo a bi a iedade das dis inções on ei iças,
concebem a on ei a como uma zona de encon o.
Es e espaço ansg ide, in e liga, econ i gu a e a
sua iqueza es á p ecisamen e na jus aposição de
di e sas in l uências. De na u eza ins á el, pode
se me a o icamen e en endido como um e eno
mo ediço, onde acon ecem o con on o e a in e -
mediação – e onde o es abelecimen o de um cânon
único é impossí el (San os, 2002).
O espaço de encon o não é o mado a pa i
do a anço no sen ido geog á i co. Pode eme gi e
desapa ece , desde que haja um ambien e p opício
à a iculação com a di e ença. É um luga ansi ó io
e, de ce a o ma, p ecá io e olá il. Como a i ma
Hanne z, “os cená ios das zonas in e s iciais pa ecem
cheios de ida, mas não comple amen e segu os”
(1997: 24). Sousa Ribei o de i ne es a on ei a como
“um medium de comunicação, o espaço habi á el
em que o eu e o ou o encon am uma possibilidade
de pa ilha e, assim, a possibilidade de da o igem
a no as con i gu ações de iden idade” (2001: 471).
Ao in oduzi mo imen o na comp eensão das iden-
idades, es a aceção con adiz a ideia monolí ica de
cul u a: na es ei a de Bakh in, Sousa Ribei o (2005)
lemb a que odo o a o cul u al i e, essencialmen e,
nas on ei as.
Bhabha (1994) u iliza a noção de ambi alência
pa a ca a e iza os p ocessos desencadeados a pa -
i do encon o com a di e ença. Ele en ende que,
apesa da exis ência da di e enciação em elação
ao ou o, há simul aneamen e a inco po ação des e
ou o den o do mesmo, no campo da ep esen ação.
Es a abo dagem descons ói a ideia de elações
biná ias en e o alidades, ab indo ma gem pa a a
inde e minação. Ao in és de cen a a sua a enção
num lado e nou o, Bhabha c ê que o que es á no
meio – in-be ween – é que pode se ealmen e
e elado .
Nes e sen ido, F iedman (2001) ale a pa a que,
não obs an e as impo an es conquis as polí icas
que a i xação na ideia de di e ença eio possibili a
na eo ização das iden idades, ela ambém ende
a ocul a o espaço exis en e nos in e s ícios dessa
mesma di e ença, a pa i do qual são ge adas no as
na a i as iden i á ias. Assim, op a po subs i ui
a imagem de mosaico pela de c epúsculo, pa a
ca a e iza os encon os in e cul u ais:
A me á o a do mosaico silencia a manei a
como a p óp ia di e ença se con i gu a e econ-
i gu a a a és de um p ocesso de in e ação
con ínuo, ou seja, a manei a como o espaço
in e s icial se e ela e e i amen e luga de
cons an e mig ação, de um pe manen e
mo imen o de ai ém (F iedman, 2001: 6).
Nes a zona c epuscula , não há eg as p ede-
i nidas; udo depende das a iculações dadas na
e eme idade do seu espaço- empo. Em cons an e
negociação do seu posicionamen o, dá-se a pe cebe
na sua mobilidade (Ma ins, 2001). Mas i e na
on ei a não é uma a e a ácil: como ale a G uzinski
(2001), e e indo-se ao seu concei o de pensamen o
mes iço (eminen emen e on ei iço), es e choca
com hábi os in elec uais que le am a p e e i os
conjun os monolí icos aos espaços in e mediá ios.
Pa a discu i a on ei a, é p eciso e em
con a os seus limi es – a con u bada elação com
a al e idade –, bem como as suas pe u bado as
possibilidades. Es e jogo en e limi es e possibili-
dades pode se ilus ado pelo encon o imaginá io
en e o Mesmo e o Di e so, desc i o po Glissan :
O que se chama em oda pa e a acele a-
ção da his ó ia, que p o ém da sa u ação do
Ca la Ladei a Pimen el Águas
82
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 77-85
Mesmo, como de uma água que ansbo da de
seu con inen e, desbloqueou em oda pa e a
exigência do Di e so. Es a acele ação, le ada
pelas lu as polí icas, ez com que os po os que
ainda on em po oa am a ace escondida da
Te a (como hou e du an e mui o empo uma
ace escondida da lua) i e am que nomea -se
dian e do mundo o alizado. Se não se nomeas-
sem, ampu a iam o mundo de uma pa e de
si mesmo (Glissan , 1981: 191).
No que se e e e aos limi es, a e o mulação
das iden idades coloca-nos dian e de enc uzilhadas
que nos conduzem ao desa i o da al e idade. Segundo
Du an e (2007), no Ociden e, desde Pla ão, oda a
ap oximação do ou o echa a p oblemá ica num
cí culo icioso, a a és da cons ução de apa a os
in e p e a i os que pe encem a uma semioc acia,
ou seja, a um ho izon e de sen ido único. T a a-se
de in eg a o ou o no domínio do mesmo, dando
o igem ao exó ico.
Said (2003) o e ece um exemplo des e des-
e o. A pa i do seu concei o de o ien alismo, o
au o conside a que o O ien e ajudou a de i ni o
Ociden e como con aposição, on ológica e epis e-
mológica, à sua imagem – uma ep esen ação do
ou o como incapaz de ep esen a a si mesmo. A
es e eo ipia é o esul ado e iden e de ais p ocessos,
como sublinha Du an e:
Se se ma a o ou o, é p ecisamen e po que
seu os o oi subs i uído po um clichê. [...]
O olha do ou o, a língua do ou o, o co po
do ou o, a co do ou o, o odo do ou o, o
desejo do ou o, os alo es do ou o, a cul-
u a do ou o. Nessa pe spe i a, o gelo do
ou o essal ado pelo es e eó ipo an ecipa o
empo de sua mo e. É uma mo e em e ígie
(Du an e, 2007: 10).
Ou seja: pa a ealmen e se comunica com
o ou o, o mesmo p ecisa de en a na on ei a.
T a a-se de uma elação é ica, ou de uma é ica na
elação – que, pa a Lé inas6 (apud Es e am, 2008),
de e semp e p ecede a on ologia.
O ema da al e idade inquie ou di e sos au o es.
A en o às ans o mações do seu empo, Simmel
(1983), po exemplo, iu nas in e ações en e os
indi íduos o p óp io undamen o da ida. Focado
nas in e ações sociais7 do mundo u bano em ascen-
são, discu iu o indi idualismo en e aos p ocessos
mode nos de uni e salização, c iando pon es en e
a expe iência do sujei o e a o ganização social da
mode nidade. No con ex o la ino-ame icano e desde
uma pe spe i a pós-mode na, Canclini (1997) e l e iu
sob e as on ei as en e o mode no e o chamado
“popula ”, deb uçando-se sob e as denominadas
cul u as híb idas.
Tais discussões, aqui b e emen e ap esen adas,
o e ecem pis as da complexidade do deba e em
o no da ques ão da al e idade. Nesse sen ido, a
pala a diálogo, ão desgas ada pelo uso co en e,
exige bem mais do que a abs a a conexão en e um
emisso e um ece o , si uados em polos opos os.
Os sujei os, simul aneamen e emisso es e ece-
o es, p ecisam de se desloca pa a o en e-luga
on ei iço, despindo-se do con o o das elações de
pode já c is alizadas pa a se lança em no e i ó io
ins á el e su p eenden e da in e seção de mundos.
Ap oximações epis emológicas: a oda
de Si i i como on ei a
O exemplo da es a de São Benedi o ealizada
no quilombo de Ma a Ca alo o e ece ce a densi-
dade aos énues i os que unem e di idem os g upos
sociais no espaço de on ei a. A celeb ação, uma
das mais amosas da comunidade, eúne di e en es
g upos: na cozinha, nublados pelos apo es dos
achos, abalha am di e sos sujei os de den o e
o a da comunidade. O an i ião, Cize nando San-
os, chegou a cons ui um empalizado de bambu
e palha pa a ab iga quan os quisessem do mi nos
dias de es a. O salão de baile e o o a ó io, ei os
do mesmo ma e ial, ambém inham o p opósi o
e éme o de se i às lou ações de São Benedi o.
A p óp ia p epa ação des as es u u as esul a de
uma conjunção de o ças que é es abelecida a a és
de edes de en eajuda.
Na sex a- ei a, p imei o dia de celeb ação,
os au oca os começa am a chega , anspo ando
pa en es e amigos de oda pa e. À medida que a
es a a ança a, no os os os iam-se inco po ando
na paisagem: polí icos e p op ie á ios de e as da
egião mis u a am-se a quilombolas, abalhado es
da cidade, pequenos la ado es.
No sábado, chegou à es a de São Benedi o
o au oca o eple o de es udan es da Escola João
Sa o, do município de A apu anga (a ce ca de
400 km de Li amen o), que pa icipa am numa
iagem de es udos pa a conhece de pe o a ea-
lidade de um quilombo. Além disso, i ze am pa e
da es a di e sos g upos de Si i i de ou os muni-
cípios ma o-g ossenses e o g upo de dançan es
do Congo
8
de Li amen o. Fo mou-se ali, po an o,
uma g ande zona de encon o in e cul u al, ma -
cada po maio es ou meno es a iculações en e
os seus memb os.
A ges ão des a di e sidade oi ei a a a és
de um p incípio de o ganização que amplia a ou
eduzia o espaço on ei iço. Ao con á io das es-
as de san o ealizadas na egião, es a es i idade
mescla a a celeb ação eligiosa com ap esen ações
a ís icas. Des a o ma, o e en o incluiu o espe áculo
e a expe iência: algumas pa es des ina am-se a
se is as e ou as i idas.
A TRIPLA FACE DA FRONTEIRA: REFLEXÕES SOBRE O DINAMISMO DAS RELAÇÕES FRONTEIRIÇAS...
83
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 77-85
Du an e as ap esen ações, a é de e minado
pon o ha ia uma sepa ação cla a en e a is as
e espe ado es: no ús ico ba acão de palha, que
se ia como palco pa a as exibições, a pla eia e a
passi a e esp emia-se encos ada à pa ede pa a
assis i as danças. Além da di isão no espaço, o uso
de i gu inos colo idos não deixa a dú idas sob e
aqueles que pode iam ou não a a essa a linha
imaginá ia que sepa a a aquele que age daquele
que assis e à ação.
Depois de á ias ap esen ações, o ence a-
men o oi ei o pelo g upo de Si i i de Ma a Ca alo,
lide ado po Cize nando, o an i ião. Foi a única
dança que ocou o salão pelo e ei o, ao a li e.
Sob o o e essoa da pe cussão, os jo ens, com
oupas es ampadas, ap esen a am em i lei as as
suas co eog a i as.
Não hou e um des echo da ap esen ação: o
Si i i ez uma sua e ansição, quando as i lei as
de dançan es se ans o ma am em oda. O g upo
do Congo oi o p imei o a en a naquele espaço,
in eg ando-se na dança. Depois, ou os os os o am
ing essando na oda: quilombolas, memb os de
ou os g upos de Si i i, es udan es e p o esso es de
A apu anga, amigos, pa en es. As pessoas en a am
na dança espon aneamen e ou e am aleg emen e
puxadas ao cen o da oda pelos pa icipan es. O
cí culo i cou eno me, ocupando odo o e ei o. Se,
an e io men e, uma in isí el on ei a que sepa a
di idia os a is as dos espe ado es, ab iu-se, naquele
ins an e, uma on ei a que une, p opícia às adu-
ções in e cul u ais e egida não pela a gumen ação,
mas pelo co po, pela pe o mance, pela ene gia da
pe cussão. A iculações mudas o am ei as, exclu-
si amen e no campo simbólico.
Um exemplo oi o êx ase dos p o esso es e alunos
de A apu anga. Apesa das en e is as e obse a-
ções ei as pelos es udan es, a oda de Si i i oi o
pon o que ge ou os p incipais comen á ios depois da
es a. Os pa icipan es de A apu anga cons uí am
pos e io men e, pa a a escola e pa a o pode público,
a a és de ela ó ios e monog a i as, uma imagem do
que é Ma a Ca alo. “Aquela oda é mágica; não sei
como não caí, po que enho labi in i e”, exclama a,
po exemplo, uma das coo denado as da iagem. Foi
du an e a dança que aquele g upo, o iundo de ou a
cul u a, se sen iu mais p óximo do que é a ealidade
quilombola. Nes e sen ido, ale a pena elemb a que:
Vi e na on ei a signi i ca i e o a da
o aleza, numa disponibilidade o al pa a
espe a po quem que que seja. [...] Signi-
i ca p es a a enção a odos os que chegam e
aos seus hábi os di e en es, e econhece na
di e ença as opo unidades pa a o en iqueci-
men o mú uo. Essas opo unidades acili am
no os elacionamen os, no as in enções de
sociabilidade (San os, 2002: 324).
Depois de assis i a an as ap esen ações em
que os mo imen os e am co eog a ados, a oda de
Si i i pa ecia um e i ó io de libe dade. Como espaço
in-be ween, ali a adição ganhou no os con o nos.
Cada um dança a à sua manei a: o ei do Congo
azia amplos mo imen os com a capa e melha, os
es udan es in en a am os seus passos, eu mesma
imp o isei os meus p óp ios caminhos quando me
i no cen o da oda.
Em de e minado momen o, a co oa do ei do
Congo começou a se usada como senha pa a a
de i nição do pa cei o. Coloca o chapéu em alguém
pa a a escolha do pa não é uma ideia no a; a a-se
de um cos ume que anima bailes da zona u al de
á ias pa es do B asil. Não é, po ém, uma adição
do Si i i e mui o menos do Congo – a inicia i a su giu
espon aneamen e.
Den o daquele espaço em suspensão, ins á el
e ugaz, memb os de di e en es mundos b inca-
am a in en a ou as o mas de i e o Si i i. A
adição o nou-se, po an o, maleá el e p opícia
às e o mulações. A co oa do ei oi ali ein en-
ada, ein e p e ada, assumindo no as unções
na on ei a.
Conclusões: pa a além do Es ado de A e
Vimos que a me á o a da on ei a ep esen a
uma o ma de sociabilidade que se es abelece nas
ma gens do encon o cul u al. Dian e da sua polis-
semia, op ei po di idi o concei o em ês modelos
de análise: on ei a que sepa a, on ei a como
en e e on ei a que une.
Vale eco da que a p imei a aceção es á incu-
lada a uma azão elacional e se e e e ao que sepa a
os g upos – enha es a on ei a a o ma conc e a de
um mu o ou a sub ileza das di e enças iden i á ias.
A segunda es á elacionada com o limi e da expan-
são e implica, po an o, o a anço unila e al de um
agen e ans o mado sob e de e minado espaço. Já
a e cei a exp essa a l uidez dos p ocessos sociais
cosmopoli as: no en e-luga , a jus aposição de
di e sas in l uências pe mi e a eme gência de no as
con i gu ações de iden idade. A pe ença simul ânea
a mais de um uni e so cogni i o con adiz a ideia
monolí ica de cul u a – que é en ão concebida em
cons an e ans o mação.
O encon o on ei iço oco e no espaço
in e médio en e g upos sociais e “p essupõe o
econhecimen o ecíp oco e a disponibilidade pa a
en iquecimen o mú uo en e á ias cul u as que
pa ilham um dado espaço cul u al” (San os e Mene-
ses, 2009: 9). Po ém, es a a iculação não implica
a exis ência de pu ismo nos polos comunican es.
San os (2002) en a iza as o mas de es a -no-mundo
que se ebelam con a a pe i i cação das elações
sociais – concen ando-se nas possibilidades de
l uidez e de cosmopoli ismo.
Ca la Ladei a Pimen el Águas
84
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 77-85
No exemplo da oda de Si i i, explo ado no p e-
sen e a igo, imos que, no encon o com o ou o, a
on ei a que sepa a pode sub ilmen e ans o ma -
-se em on ei a que une, pe mi indo a eme gência
de espaços in-be ween. Des a manei a, a a iedade
de g upos sociais eunidos num mesmo espaço – a
es a – e de papéis a se em desempenhados – de
dançan e ou de espe ado – o am nublados pela
abe u a da oda, que mesclou os sujei os e as
suas cul u as, azendo su gi no as con i gu ações e
compo amen os. Es e exemplo, apesa de sub il e
mic oscópico, pa ece-me ele an e po e idencia a
amanha plas icidade das elações on ei iças, cujas
con i gu ações ão além dos modelos essencialis as
com que as cul u as comumen e são desc i as.
Po an o, a ideia de on ei a que une nega os
undamen alismos: o ca á e emancipa ó io da me á-
o a mani es a-se nas endências ao cosmopoli ismo
iabilizadas pela p oli e ação das ma gens. Es a
o ma de sociabilidade ab e-se pa a a di e sidade
– como ambém pa a os iscos e ince ezas – do
en e-luga on ei iço.
No as
1
O au o exempli i ca que os espaços echados dos ae opo -
os in e nacionais, onde os iajan es a quem oi ecusada
a en ada agua dam o momen o de expulsão, ipi i cam de
modo d amá ico a dis opia de um não-luga on ei iço.
2 Si i i é uma dança ípica, ei a em oda ou i lei as, que
anima as es as da egião.
3 O p ocesso de globalização e os seus impac os sob e as
on ei as nacionais ge a am uma no a á ea de es udos:
limology (Kolosso , 2006).
4 Sob e o ema, c . as ações do P oje o Me cocidades,
disponí eis em h p://www.me cociudades.o g/p -b .
5
Reco endo a Fou ny-Kobe , os au o es ac edi am que hoje
a endência é in e sa: há uma ex ao diná ia ope ação
de esseman ização da na u eza, a i m de jus i i ca os
p oje os e i o iais ans on ei iços.
6
Po ém, pa a Maldonado-To es (2008), a al e idade
de endida po Lé inas pe manece aga ada às o mações
espaciais de ca iz impe ial: é limi ada pela sua i liação
é nica e pelo comp ome imen o eligioso.
7 O au o subs i ui a pala a socialização pelo concei o de
sociação, en endido como o mas de coope ação en e
os indi íduos.
8
Congo é uma dança d amá ica exis en e em á ias pa es
do B asil, sob di e sas e sões. Em Ma a Ca alo, é um
ea o a céu abe o que ep esen a a gue a en e dois
einos.
Re e ências bibliog á i cas
ADELMAN, J. e A. S ephen (1999), F om Bo de lands
o Bo de s: Empi es, Na ion-S a es, and he
peoples in be ween in No h Ame ican his o y,
disponí el em h p://www.his o ycoope a i e.
o g/jou nals/ah /104.3/ah000814.h ml, acesso
em 02/08/2009.
ALBARET-SCHULZ, C., A. Beye e al. (2004), La on-
iè e, un objec spa ial en mu a ion, disponí el em
h p://espaces emps. e ues.o g/documen 842.
h ml, acesso em 28/07/2009.
BHABHA, H. (1994), The Loca ion o Cul u e, Lond es
e No a Io que, Rou ledge.
CANCLINI, N. (1997), Cul u as híb idas: es a égias
pa a en a e sai da mode nidade, São Paulo,
Edusp.
DURANTE, D. (2007), “Al e idade e e l exão in e cul u al:
seus obje i os no quad o das p á icas a ís icas
em ge al e da ala li e á ia em pa icula ”, Re is a
Sociopoé ica, disponí el em h p://eduep.uepb.
edu.b /sociopoe ica/publicacoes/ 1n1.h ml, acesso
em 25/05/2011.
ESTEVAM, J. (2008), “O econhecimen o da al e idade
como possibilidade de cons ução de um no o
pa adigma na cul u a ociden al em Joel Bi man
e Emmanuel Lé inas”, Ho izon e, ol. 6, 12, pp.
169-179.
FEATHERSTONE, M. (1995), A globalização da comple-
xidade: pós-mode nismo e cul u a do consumo,
disponí el em h p://www.anpocs.o g.b /po al/
publicacoes/ bcs_00_32/ bcs32_07, acesso em
29/03/2013.
FRIEDMAN, S. (2001), “O « ala da on ei a», o hib i-
dismo e a pe o ma i idade: eo ia da cul u a e
iden idade nos espaços in e s iciais da di e ença”,
Re is a C í ica de Ciências Sociais, 61, pp. 5-28.
GLISSANT, E. (1981), O Mesmo e o Di e so, disponí el
em h p://www.u gs.b /cd om/glissan /glissan .
pd , acesso em 23/04/2009.
GLISSANT, E. (2006), Não há on ei a que não se
ul apasse, disponí el em h p://diploma ique.
uol.com.b /ace o.php?id=1962& ipo=ace o,
acesso em 25/05/2011.
GRUZINSKI, S. (2001), O pensamen o mes iço, São
Paulo, Companhia das Le as.
HANNERZ, U. (1997), “Fluxos, on ei as, híb idos:
pala as-cha e da an opologia ansnacional”,
Mana, ol. 3, 1, pp. 7-39.
KOLOSSOV, V. (2006), “Theo e ical Limology: Pos -
mode n analy ical app oaches”, Diogenes, ol.
52, 2, pp. 11-22.
MALDONADO-TORRES, N. (2008), “A opologia do Se
e a geopolí ica do conhecimen o. Mode nidade,
impé io e colonialidade”, Re is a C í ica de Ciências
Sociais, 80, pp. 71-114.
MARTINS, R. (2001), “O pa adoxo da dema cação
emancipa ó ia: a on ei a da época da sua ep o-
du ibilidade icónica”, Re is a C í ica de Ciências
Sociais, 59, pp. 37-63.
NEWMAN, D. (2006), “Bo de and Bo de ing: owa ds
an in e disciplina y dialogue”, Eu opean Jou nal
o Social Theo y, ol. 9, 2, pp. 171-186.
PRATT, M. L. (1992), Impe ial Eyes: T a el w i ing and
anscul u a ion, Lond es/No a Io que, Rou ledge.
RIBEIRO, A. S. (2001), “A e ó ica dos limi es. No as
sob e o concei o de on ei a”, in B. San os (o g.),

A TRIPLA FACE DA FRONTEIRA: REFLEXÕES SOBRE O DINAMISMO DAS RELAÇÕES FRONTEIRIÇAS...
85
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 77-85
Globalização: a alidade ou u opia?, Po o, A on-
amen o, pp. 463-488.
RIBEIRO, A. S. (2005), “A adução como me á o a da
con empo aneidade. Pós-colonialismo, on ei as
e iden idades”, in A. G. Macedo e M. E. Kea ing
(o gs.). Colóquio de Ou ono: Es udos de adução.
Es udos Pós-Coloniais, B aga, Uni e sidade do
Minho, pp. 77-87.
SAID, E. (2003), O ien alismo: ep esen ações ociden ais
do O ien e, Lisboa, Co o ia.
SANTOS, B. S. (1993), “Mode nidade, iden ida-
de e cul u a de on ei a”, Tempo Social, 5, pp.
31-52.
SANTOS, B. S. (2002), A c í ica da azão indolen e. Con-
a o despe dício da expe iência, Po o, A on a-
men o.
SANTOS, B. S. (2003), “Dilemas do nossos empo:
globalização, mul icul u alismo e conhecimen o”,
Cu ículo sem on ei as, ol. 3, 2, pp. 5-23.
SANTOS, B. S. e M. P. Meneses (2009), “In odução”,
em B. San os e M. P. Meneses (o gs.), Epis emo-
logias do Sul, Coimb a, Almedina/CES, pp. 9-19.
SHIELDS, R. (2006), “Bounda y- hinking in heo ies o
he p esen : he i uali y o e l exi e mode niza-
ion”, Eu opean Jou nal o Social Theo y, ol. 9,
2, pp. 223-237.
SIMMEL, G. (1983), Sociologia, São Paulo, Á ica.
WALTER, R. (2006), T ans e ências in e cul u ais: no as
sob e ans-cul u a, mul i-cul u a, diáspo as, dispo-
ní el em h p://wh p://www.uepb.edu.b /eduep/
sociopoe ica/publicacoes/ 1n1/ 1n1_a igo05.
h ml, acesso em 26/05/2011.
TIC NO ENSINO SECUNDÁRIO: USOS E MEDIAÇÕES
87
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 87-95
TIC NO ENSINO SECUNDÁRIO: USOS E MEDIAÇÕES
Nuno de Almeida Al es
P o esso Auxilia , Ins i u o Uni e si á io de Lisboa (ISCTE-IUL); In es igado , Cen o de In es igação e Es udos de
Sociologia (CIES-IUL) ([email p o ec ed])
Ped o Ab an es
In es igado , Cen o de In es igação e Es udos de Sociologia (CIES-IUL) ([email p o ec ed])
Ca la F. Rod igues
In es igado a, Cen o de In es igação e Es udos de Sociologia (CIES-IUL) ([email p o ec ed])
Paulo Coelho Dias
P o esso Adjun o, Escola Supe io de Educação – Ins i u o Poli écnico de San a ém, In es igado , Cen o de In es igação
e Es udos de Sociologia (CIES-IUL) ([email protected] )
Resumo
A conceção do u u o das sociedades con empo âneas como sociedades da in o mação e do conhe-
cimen o ouxe uma e olução ecnológica às escolas. No en an o, a disseminação da ecnologia
não ob e e ainda co espondência no plano dos usos das TIC em sala de aulas, nos p ocessos de
ensino e ap endizagem no ensino secundá io. Com base num inqué i o ealizado a 324 p o es-
so es de 12 escolas disseminadas pelo país e i i camos como as TIC são ainda incipien emen e
u ilizadas nas salas de aulas, e o çando uma abo dagem conse ado a do ensino. Es a endência
cen al ence a, no en an o, uma g ande di e sidade de si uações, de aco do com as di e enças
en e os ecu sos ecnológicos nas escolas e com as ep esen ações e compe ências dos docen es.
Pala as-cha e: ensino secundá io; ecnologias da in o mação e da comunicação; ensino;
ap endizagem
Abs ac
The concep ion o he u u e o con empo a y socie ies as in o ma ion and knowledge socie ies
has b ough a echnological e olu ion o schools. Howe e , he dissemina ion o echnology has
no ye ma ched ICT use in he class oom, in he eaching and lea ning p ocesses. Based on a
su ey o 324 eache s in 12 schools sca e ed h oughou he coun y we obse e ha ICT a e s ill
incipien ly used in he class ooms, ein o cing a adi ional and conse a i e app oach o eaching.
This cen al endency encompasses, howe e , a wide a ia ion, acco ding o di e ences ound
be ween schools’ echnological esou ces and in ep esen a ions and compe ences o he eache s.
Keywo ds: seconda y educa ion; in o ma ion and communica ion echnologies; eaching; lea ning
As ecnologias da in o mação
e da comunicação na escola: polí icas
públicas, usos e bene ícios
O impulso à c escen e in eg ação das ecno-
logias da in o mação e da comunicação (TIC) na
educação conheceu um signi i ca i o ec udescimen o
po ocasião da eme gência e popula ização da noção
da Sociedade da In o mação e do Conhecimen o
enquan o modelo ideal de ees u u ação das socie-
dades con empo âneas. Es a na a i a ace ca do
desen ol imen o do u u o da sociedade, assen e
no modo de p odução in o macional baseado no
conhecimen o (Cas ells, 2000), es imulou o deba e
e a subsequen e ação polí ica e p og amá ica dos
es ados nacionais pa a a de i nição de polí icas públi-
cas des inadas à ápida adequação mul idimensional
à no a o ma de o ganização social (Al es, 2004).
Es e deba e de i niu, desde logo, a educação
como um dos eixos es u u an es do no o modelo
Nuno de Almeida Al es, Ped o Ab an es, Ca la F. Rod igues e Paulo Coelho Dias
88
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 87-95
de sociedade. O p imei o dos a gumen os oi o de
que a ees u u ação da economia e do emp ego
implicada nes a mudança desenha a um no o pe i l
de compe ências pa a o conjun o da mão de ob a
(Yang, 2012): a li e acia in o má ica imp escindí el
pa a odos e a o mação g aduada e pós-g aduada
especializada de segmen os especí i cos, di igida à
cons ução e manu enção das au oes adas da in o -
mação e da espe i a a iculação com as emp esas e
ins i uições e icula es (Cas ells, 2000). O segundo
a gumen o p endeu-se com a a ualização ecnoló-
gica des a dimensão es u u an e das sociedades
con empo âneas: se as TIC o am paula inamen e
es endendo a sua in l uência a odo e qualque
domínio de ação social, como comp eende a sua
ímida inse ção na escola, ins ância undamen al
da o mação de compe ências e ansmissão do
conhecimen o?
Embo a a in en a iação dos po enciais bene-
ícios da u ilização dos compu ado es na educação
enha sido p a icamen e con empo ânea da sua
eme gência inicial ou da expansão me can il dos
mesmos (May i eld e Ali, 1996; Somekh, 2000;
Welling on, 2005), oi sob e udo a sua associação
à na a i a das sociedades da in o mação e do
conhecimen o que a o eceu o desenho de polí icas
públicas de in eg ação massi a das TIC nos p o-
cessos de ensino e ap endizagem (Selwyn, 2008;
Ni ala, 2009).
Es a e olução ecnológica nas escolas, en u-
sias icamen e impulsionada pelos esponsá eis
nacionais pelas polí icas educa i as (Go e nos) e
pelos p incipais ope ado es do me cado das TIC e
das elecomunicações (Somekh, 2000; Pelg um,
2001; Welling on, 2005; Bes all, 2006), oi, de
ce a o ma, o ganizada à e elia dos ges o es e
egulado es (ins i uições cen ais da adminis ação
educa i a e conselhos consul i os) e dos a o es
(di e o es de escolas, docen es e alunos) dos
p ocessos educa i os. A in eg ação das TIC nos
cu icula nacionais ope ou-se sob e udo pela noção
da li e acia in o má ica, ou seja, da do ação dos
ecu sos mínimos implicados na ope ação de um
compu ado e na u ilização da in e ne à saída da
escola idade ob iga ó ia. Es a noção co esponde,
assim, à p esc ição das compe ências conside adas
necessá ias pela p ocu a nos ecu sos humanos
pa a a sociedade da in o mação e do conhecimen o
e não a um pensamen o es u u ado ace ca do
modo como as TIC de em se in eg adas no ensino,
co espondendo a um conjun o cla amen e de i nido
de obje i os, necessidades e p e isão de esul ados
(Welling on, 2005).
A in eg ação da ecnologia nas escolas não oi,
assim, acompanhada do deba e necessá io ace ca do
g au de mudança implicado no maciço inc emen o
das TIC nas escolas: de e cons i ui apenas mais
uma disciplina ou implica uma p o unda e isão do
cu ículo e nos mé odos de ensino e ap endizagem,
e olucionando in eg almen e o modo como a escola
unciona nos dias de hoje (A i am e Talmi, 2005)?
A ausência des a cla i i cação o nece a gu-
men os aos p incipais de a o es da in eg ação
das TIC nos p ocessos de ensino e ap endizagem:
a sua ine i cácia e imp odu i idade (ge al ou po
disciplina) na melho ia dos esul ados escola es dos
alunos (Peslak, 2005; Hikme e al., 2008). Con udo,
es a conclusão al ez seja demasiado ap essada e
esul an e de um equí oco ela i amen e ao luga
das TIC na escola. A endendo à especi i cidade
des a ecnologia, a espe i a u ilização em sala de
aulas se ia mais adap á el ao abalho de p oje o
(indi idual ou colabo a i o), enquad ado numa
conceção mais cons u i is a da educação (Palak
e Walls, 2009; Cos a, 2004), cen ada no aluno e
não an o numa o ien ação educa i a de pendo
adicionalis a, cen ada na ansmissão de conhe-
cimen os po pa e do p o esso à pla eia de alunos,
na espe i a assimilação po pa e des es e pos e io
demons ação dos conhecimen os adqui idos na
execução de um es e ou exame, culminando es e
p ocesso na a ibuição de uma classi i cação. Nes a
úl ima aceção do p ocesso educa i o, as TIC e ão
ealmen e pouco a o e ece além da li e acia in o -
má ica, cons i uindo a é um obs áculo à melho ia
quan i a i a dos esul ados escola es dos alunos
(Zhao e F ank, 2003: 816).
A ausência de uma es a égia coe en e de
in eg ação das TIC nas escolas p opiciou am-
bém uma incipien e u ilização média em sala de
aulas, em cla o con as e com os in es imen os
e e uados e as expe a i as ge adas (Cuban e al.,
2001, Somekh, 2004). Es e apa en e pa adoxo
de e-se, no en ende dos en usias as do p ocesso
– go e no e conglome ados TIC (Selwyn, 2008;
Ni ala, 2009) –, à eduzida e i cácia da u ilização
das TIC pelos p o esso es na sala de aulas, con-
cen ada sob e udo nas adicionais a i idades de
exposição e menos no abalho conjun o com os
seus alunos. Mais uma ez, es a é uma explicação
ap essada, sendo es a meno u ilização das TIC
em sala de aulas esul an e de ci cuns âncias e
p ocessos a e os ao conjun o dos a o es (escolas,
p o esso es e alunos) e não an o deco en e da
esponsabilidade de apenas um.
Em Po ugal, a p og essi a in odução das TIC
nas escolas e nos p ocessos de ensino e ap endiza-
gem oi obje o de di e sos p og amas ao longo das
úl imas décadas: Mine a, Nónio Século XXI e Plano
Tecnológico da Educação1. A li e a u a disponí el
(Pai a, 2002; Cos a, 2004; Cos a e Viseu, 2007),
embo a an e io à execução des e úl imo plano,
e ela di i culdades de implemen ação semelhan es
às encon adas no plano in e nacional, ainda que se
egis em di e enças signi i ca i as: uma implemen-
ação dos ecu sos ecnológicos mais a dia, menos
TIC NO ENSINO SECUNDÁRIO: USOS E MEDIAÇÕES
95
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 87-95
Re e ências bibliog á i cas
ABRANTES, P. e al. (2008), Inqué i o aos p o esso es
do 2.º e 3.º ciclos de Ma emá ica e de Ciências
da Na u eza (Rela ó io Final), Lisboa, Di eção-
-Ge al de Ino ação e Desen ol imen o Cu icula
(DGIDC-ME).
ABRANTES, P. e al. (2013), “ICT in Po uguese seconda y
schools: om esis ance o inno a ion”, Re is a
de la Asociación Española de Sociología.
ALVES, N. de A. (2004), “Planos de acção pa a a socie-
dade da in o mação e do conhecimen o: mudança
ecnológica e ajus amen o es u u al”, Sociologia
P oblemas e P á icas, 44, pp. 109-133.
ALVES, N. de A. e al. (2012), Lea n-Tech: Tecnologias
da In o mação e Comunicação e Ap endizagem,
Rela ó io Cien í i co Final, CIES-IUL.
AVIRAM, A. e D. Talmi (2005), “The impac o In o ma-
ion and Communica ion Technology on Educa ion:
he missing discou se be ween h ee di e en
pa adigms”, E-Lea ning, 2 (2), 169-191.
BALANSKAT, A. e al. (2006), The ICT Impac Repo .
A e iew o s udies o ICT impac on schools in
Eu ope, B uxelas, Eu opean Commission/DG
Educa ion and Cul u e.
BARROSO, J. (2006), “A Au onomia das Escolas. Re ó-
ica, Ins umen o e Modo de egulação da Acção
Polí ica”. In AAVV, A Au onomia das escolas, Lisboa,
Fundação Calous e Gulbenkian, pp. 23-48.
BESTALL, L. (2006), “Enchan ing a disenchan ed wo ld:
e olu ionizing he means o educa ion using
In o ma ion and Communica ion Technology and
e-lea ning”, B i ish Jou nal o Sociology o Educa-
ion, 27 (1), pp. 97-110.
CASTELLS, M. ([1996] 2000), The In o ma ion Age:
Economy, Socie y and Cul u e, olume I: The
Rise o he Ne wo k Socie y, Ox o d, Blackwell
Publishe s.
COSTA, F. A. (2004), “O que jus i i ca o aco uso
dos compu ado es na escola”, Poli onia, 7, pp.
19-32.
COSTA, F. e S. VISEU (2007), “Fo mação-Acção-
-Re l exão: um modelo de p epa ação de p o es-
so es pa a a in eg ação cu icula das TIC”, in F.
A. Cos a, H. Pe al a e S. Viseu (o gs.), As TIC na
Educação em Po ugal. Concepções e P á icas,
Po o, Po o Edi o a.
CUBAN, L. e al. (2001), “High access and low use o
echnologies in High School class ooms: explain-
ing an appa en pa adox”, Ame ican Educa ion
Resea ch Jou nal, 38 (4), pp. 813-834.
HIKMET, N. e al. (2008), “The s uden p oduc i-
i y pa adox: echnology media ed lea ning in
schools”, Communica ions o he ACM, 51 (9),
pp. 128-131.
MAYFIELD, J. e K. S. Ali (1996), “The in e ne as an
educa ional ool”, Compu e s and Enginee ing, 31
(1 e 2), pp. 21-24.
MIRANDA, G. L. (2007), “Limi es e Possibilidades das
TIC na Educação”, Sísi o/Re is a de Ciências da
Educação, 3, pp. 41-50.
NIVALA, M. (2009), “Simple answe s o complex
p oblems: educa ion and ICT in Finish in o ma ion
socie y s a egies”, Media, Cul u e and Socie y, 31
(3), pp. 433-448.
PAIVA, J. (2002), As ecnologias de in o mação e
comunicação: u ilização pelos p o esso es, Lis-
boa, ME/DAPP.
PALAK, D. e R. T. Walls (2009), “Teache s’ Belie s and
Technology P ac ices: A Mixed-me hods App oach”,
Jou nal o Resea ch on Technology in Educa ion,
41 (4), pp. 417-441.
PELGRUM, W. J. (2001), “Obs acles o he in eg a ion
o ICT in educa ion: esul s om a wo ldwide
educa ional assessmen ”, Compu e s & Educa ion,
37, pp. 163-178.
PESLAK, A. R. (2005), “The Educa ional P oduc i i y
Pa adox: s udying he e ec s o inc eased ICT
expendi u es in educa ional ins i u ions”, Com-
munica ions o he ACM, 48 (10), pp. 111-114.
PRENSKY, M. (2001), “Digi al Na i es, Digi al Immi-
g an s”, On he Ho izon, 9 (5), pp. 1-6.
SELWYN, N. (2008), “Realising he po en ial o new
echnology? Assessing he legacy o New Labou ’s
ICT agenda 1997-2007”, Ox o d Re iew o Educa-
ion, 34 (6), 701-712.
SOMEKH, B. (2000), “New echnology and lea ning:
policy and p ac ice in he UK, 1980-2010”, Edu-
ca ion and In o ma ion Technologies, 5 (1), pp.
19-37.
SOMEKH, B. (2004), “Taking he Sociological Imagina-
ion o School: an analysis o he (lack o ) impac
o in o ma ion and communica ion echnologies
on educa ion sys ems”, Technology, Pedagogy
and Educa ion, 13 (2), pp. 163.180.
TORRES, L. L. (2011), “A cons ução de au onomia num
con ex o de dependências”, Educação, Sociedade
& Cul u as, 32, pp. 91-109.
VELOSO, L. e al. (2011), “A a aliação ex e na de esco-
las como p ocesso social”, Educação, Sociedade e
Cul u as, 33, pp. 69-88.
WELLINGTON, J. (2001), “Explo ing he Sec e Ga den:
he g owing impo ance o ICT in he home”, B i-
ish Jou nal o Educa ional Technology, 32 (2),
pp. 233–244.
WELLINGTON, J. (2005), “Has ICT come o age?
Recu ing deba es on he ole o ICT in educa ion:
1982-2004”, Resea ch in Science & Technological
Educa ion, 23 (1), pp. 25-39.
YANG, H. (2012), “ICT in English Schools: ans o ming
educa ion?”, Technology, Pedagogy and Educa ion,
21 (1), pp. 101-118.
ZHAO, Y. e K. A. F ank (2003), “Fac o s A ec ing
Technology Uses in Schools: An Ecological Pe s-
pec i e”, Ame ican Educa ion Resea ch Jou nal,
40 (4), pp. 807-840.

AS ARTES DE FAZER O COMUM NOS ESTABELECIMENTOS DE ENSINO...
97
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 97-106
AS ARTES DE FAZER O COMUM NOS ESTABELECIMENTOS DE ENSINO:
OUTRAS ABERTURAS SOCIOLÓGICAS SOBRE OS MUNDOS ESCOLARES
1
José Manuel Resende
In es igado in eg ado do CesNo a da FCSH e memb o associado do Obse a ó io da Ju en ude do ICS da UL
([email p o ec ed])
Luís Gou eia
In es igado não in eg ado do CesNo a na FCSH e Bolsei o de In es igação da FCT (lcgou [email protected])
Resumo
O p esen e a igo p ocu a analisa o modo como os a o es escola es cons oem as sociabilidades
en e si. Num olha que p ocu a i além daquilo que os es a u os legais de e minam, p e ende-se
comp eende o que é comum nas sociabilidades escola es en e es es a o es a pa i das pe ceções
dos alunos sob e si uações de injus iça no espaço escola e com base em dados ecolhidos num
abalho e nog á i co ealizado em 6 escolas do Ensino Secundá io geog a i camen e dispe sas e
com populações escola es socialmen e con as an es. Po ou o lado, na análise dos juízos c í icos
mani es ados pelos alunos, p ocu a-se iden i i ca igualmen e possí eis cli agens segundo o géne o
e o igem social dos discen es.
Pala as-cha e: sociabilidades escola es; pe ceções de injus iça; econhecimen o
Abs ac
This a icle aims a examining how school ac o s build he sociabili y among hemsel es. Wi hin
a look seeking o go beyond wha is de e mined in he legal s a u es, we in end o unde s and
wha is common in school sociabili y among hese ac o s aking he pe cep ions o s uden s on
si ua ions o injus ice wi hin school and based on da a collec ed in an e hnog aphy esea ch aken
place in 6 Po uguese high schools geog aphically dispe sed and wi h socially con as ing school
popula ions. Mo eo e , in he analysis o he c i ical judgmen s exp essed by s uden s, we also
aim a iden i ying po en ial clea ages be ween gende and social o igin.
Keywo ds: school sociabili y; pe cep ions o injus ice; ecogni ion
E udo o en o le ou após o p ocesso
de democ a ização escola ? Fo mas
de quali i cação dos se es no cen o
das ope ações c í icas dos alunos
Pa ece es anha es a in e ogação. Con udo,
es a indagação con inua a se cen al nas abo dagens
sociológicas sob e os p ocessos de escola ização,
mesmo quando es as ensaiam ou as abe u as
analí icas sob e os mundos escola es expe ienciados
po adul os e não adul os.
De ac o, os mundos escola es são po oados
po se es quali i cados a a és de i gu as ins i ucio-
nalizadas (que no plano ju ídico assumem de e mi-
nados es a u os), mas, apesa des as p ecisões, os
seus sen idos ex a asam os cole es de o ças que
daquele en endimen o se p essupõem a pa i de
uma lei u a es i a. Tais espa gimen os de sen idos
são azidos pelos múl iplos momen os de que se
ecem as i ências escola es, que aquelas que
oco em nas salas de aula, que as que acon ecem
em ou os espaços.
Assim, é nosso p opósi o nes e ex o aze
ou os concei os analí icos que nos possam ajuda
a comp eende como p o esso es e alunos, apesa
dos i gu inos ju idicamen e de e minados, a uam no
José Manuel Resende e Luís Gou eia
98
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 97-106
espaço escola na p ocu a daquilo que é comum;
de que modo, nas sociabilidades de uns com os
ou os ou en e pa es, con ocam nos seus eixos
a uan es ou as ep esen ações e sen idos que não
se ence am nos es a u os quali i cados po aquelas
designações. T aça aquilo que é comum nas socia-
bilidades escola es a pa i da pe ceção ope ada em
ações pelos alunos con ida-nos a especi i ca um
pouco melho de que es abelecimen os de ensino
e de que alunos alamos quando ensaiamos o olha
e nog á i co em 6 escolas do Ensino Secundá io
localizadas em di e en es concelhos do con inen e
po uguês.
Dos 6 es abelecimen os de ensino escolhidos,
1 localiza-se num concelho a no e do dis i o de
A ei o, 4 em dois concelhos do dis i o de Lisboa e 1
num concelho do dis i o de Po aleg e. Dos alunos
inqui idos e en e is ados em cada uma das 6 esco-
las, a sua ca ac e ização sociológica é con as an e,
sendo, po isso, possí el de e mina endências
ge ais que do pon o de is a da sua o igem social
ma cam cada um des es espaços, di e enciando-os
dos es an es ( e ambém Anexo).
Tendo en ão em conside ação a mo ologia
sociológica de cada uma des as 6 escolas, é possí-
el a i ma que em duas das escolas do dis i o de
Lisboa os alunos são o iundos sob e udo de di e sas
ações das classes médias u banas. Apesa des a
ap oximação numa des as duas escolas, as ações
das classes médias mais quali i cadas encon am-se
mais ep esen adas do que na ou a escola.
As ou as duas escolas do dis i o de Lisboa
e a escola do dis i o de Po aleg e ec u am alu-
nos o iundos sob e udo de meios popula es, não
obs an e a p esença de ou os, com ep esen ação
menos signi i ca i a, que es ão localizados nas a-
ções das classes médias u banas. Finalmen e, na
escola a no e do dis i o de A ei o, e i i ca-se a
in e seção de alunos localizados nas classes popu-
la es ligadas à ag icul u a e a pequenas emp esas
e com baixas quali i cações escola es da pa e dos
seus ascenden es.
Uma ez que o p opósi o cen al da in es iga-
ção2 é o de cap a as pe ceções de injus iça p odu-
zidas nas escolas secundá ias pelos alunos endo
em con a o seu géne o, o abalho é conduzido,
sob e udo, na base de duas en es obse acio-
nais. De um lado, ealiza am-se en e is as (65) a
discen es a equen a o 12.º ano de escola idade;
do ou o, lançou-se um inqué i o po cená ios ao
conjun o de alunos ma iculados em 2010/11 no ano
e minal do secundá io (Resende, Dionísio e Cae ano,
2012). Nes e a igo abalhamos exclusi amen e
in o mações a adas das en e is as ealizadas a
um conjun o de alunos escolhidos pa a o e ei o3.
Ao elege como eixo cen al da in es igação as
elações en e as pe ceções das si uações injus as na
escola e o géne o decla ado pelos alunos, a equipa
de in es igado es p ocu a, po um lado, iden i i ca
possí eis cli agens en e aquelas pe ceções segundo
o géne o, mas ambém c uza aqueles mesmos
en endimen os com as suas o igens sociais. Con-
udo, es e eixo elacional eque ou os ac escen os
adicionais de modo a p ecisa com mais cla eza o
signi i cado sociológico do concei o “pe ceção injus a”
de si uações escola es.
A opção de cap a as pe ceções injus as pa ece-
-nos mais adequada do que o seu con á io. Is o é,
da o cen o às conside ações sob e as injus iças
expe ienciadas na escola pelos alunos em sido a
melho o ma pa a, a pa i delas, chega mos aos
seus juízos sob e as medidas do jus o que a ibuem
às di e en es ci cuns âncias que assinalam nas
en e is as. Mas i do injus o ao jus o não é a única
escolha assumida. Pa a unda com mais igo os
“sen imen os sob e as i ências ac uais do injus o”
na escola, o aciocínio sociológico aqui p esen e az
in oca duas ou as ques ões que es ão di e amen e
associadas a si uações de ca ga injus a.
De um lado, apa ecem as si uações de desi-
gualdade que são habi ualmen e eclamadas pelos
discen es. As desigualdades de ap eciação dos p o-
esso es em elação às suas qualidades pessoais,
sociais e cogni i as são ques ões idas em con a.
No en an o, es as não são as únicas si uações de
desigualdade apu adas. Ou as deslocam-se pa a as
o mas de a amen o de uns pa a com os ou os,
em ecip ocidades c uzadas, onde ambém in e -
êm as elações in e pessoais en e os pa es, ou
elações mais ex ensi as que implicam conjun os
mais amplos de ou os.
Toma como e e encial as si uações de desi-
gualdades expe ienciadas pelos alunos nas a es
de aze o comum nas sociabilidades escola es,
que en e eles e os adul os, que en e eles, os
seus colegas e amigos, não esgo a o ques iona-
men o sob e os “sen imen os de injus iça escola ”.
Seguindo es e aciocínio, es a análise não deixa de
conside a como ele an es ou as si uações enun-
ciadas pelos en e is ados e que azem desloca o
olha pa a ou os enquad amen os expe ienciais,
que de na u eza disc iminan e, que de ca á e
humilhan e. As eclamações que enunciam a pa i
de na a i as, que po sua ez con ocam si uações
concebidas pelos inqui idos como não ajus adas à
sua dignidade como se es humanos, azem pa a
a e l exão ou as e e ências no ma i as que não
deixam de es a p esen es nas suas o mas de agi
em comum.
Da ên ase às ope ações c í icas ealizadas
pelos alunos a pa i de si uações escola es po
es es mencionadas nas en e is as como susce í eis
de os con on a no seu ajuizamen o sob e o que
é comum a odos na escola le a-nos a conside a
o es abelecimen o de ensino como uma “a ena
pública”, de um lado, e, simul aneamen e ao se
AS ARTES DE FAZER O COMUM NOS ESTABELECIMENTOS DE ENSINO...
99
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 97-106
assumi es a e e ência concep ual, os seus espa-
ços enquad am uma plu alidade de expe iências
passí eis de os o na em capazes de ques iona as
o mas de quali i cação que po ali são abalhadas
po uns e po ou os, mas em pa icula , que são
in es idas pelos p o esso es (Resende, 2010), do
ou o lado. Assim, as salas de aula, a can ina, a
biblio eca, ou simplesmen e o espaço do ec eio
são con ex os quali i can es a pa i dos quais os
alunos e i am das suas expe iências ali i idas um
sem-núme o de oco ências que são iden i i cadas
como p oblemá icas, e a pa i das quais alguns dos
seus emas são ele ados a ca ego ias de p o á el
ou e en ual dispu a isí el ou in isí el. As o mas
de isibilidade das denúncias ou das exp essões de
indignação a uan es são umas ezes dis in as, mas
ou as agas ou inde i nidas. Desde a con on ação
di e a com o ou os acusados de onde deco em
a os comunicacionais que se desen olam com ou
sem al e cações di e sas, a discussões esul an-
es de ações conside adas indisciplinadas ou a
mo imen ações mais iolen as a é aos silêncios
p olongados que mos am abdicações de g aus
a iá eis, os acon ecimen os que os espole am ao
longo das suas aje ó ias azem p o a das suas
inculações no sen ido de o na supo á el a ida
comum na escola.
T ans o mações no sis ema de ensino
e nas sociabilidades den o do espaço
escola : a no a é ica na elação
en e p o esso e aluno
No as o ien ações em ma é ia de polí ica
educa i a pa a a escola eu opeia ma cam ans-
o mações p o undas nos sis emas educa i os nas
úl imas décadas (Resende, 2003; Almeida e Viei a,
2006). No os públicos escola es, o iundos de meios
sociais e é nicos mais a as ados do uni e so cul u al
ansmi ido na ins i uição escola , passam a p o a-
goniza pe cu sos escola es mais longos no sis ema
de ensino – aje ó ias das quais es a am a é en ão
apa ados (Resende, 2010).
A es e es o ço de massi i cação da escola idade
co esponde uma o ien ação polí ica cen ada no
modelo de desen ol imen o económico. O desígnio
de p og esso nos indicado es de escola idade se e
o ho izon e de melho ia do desempenho económico
dos espe i os países. O ganismos in e nacionais
cump em um impo an e papel nesse deside a o.
Os esul ados pe iodicamen e ap esen ados em
es udos in e nacionais (como o p og ama PISA,
da OCDE) são acompanhados de o ien ações,
di e i as, no sen ido de melho ia do desempenho
dos sis emas educa i os segundos os pa âme os
pa ilhados. Es e p edomínio do modelo de análise
dos esul ados escola es assen e em in o mação
es a ís ica, mensu á el, quan i i cá el, em epe -
cussão igualmen e no abalho es a ís ico a ní el
nacional e consequen es e l exões em ma é ia de
polí ica educa i a (Dionísio, 2010).
A cons i uição e publicação de ankings esco-
la es, que o denam os es abelecimen os de ensino
do país em unção dos esul ados alcançados pelo
espe i o co po de alunos, são disso ilus ação.
Concomi an emen e, ganha e eno o modelo de
elação en e escolas segundo uma lógica me can il.
Aos enca egados de educação é dada libe dade de
escolhe a ins i uição escola dos seus educandos
em unção exa amen e das in o mações ecebidas
ela i amen e aos esul ados escola es ob idos (Melo,
2007). É o uncionamen o de um me cado escola ,
segundo um modelo de conco ência enquan o
p incípio de jus iça de sal agua da da escola ização
como bem comum (De oue , 1992).
Es a e olução no que espei a à escola idade
aca e a necessa iamen e impo an es mu ações
nas sociabilidades den o do espaço escola em
i ude da di e sidade na composição mo ológica
que nele passa a obse a -se. Além de segmen os
de alunos pe encen es a classes sociais mais des-
a o ecidas, o núme o de alunos de nacionalidade
não po uguesa aumen a nos es abelecimen os de
ensino, onde, além de cons i ui um g upo onde se
e i i ca equen emen e um a as amen o in e ge a-
cional em elação à ins i uição escola , um di e encial
en e a língua que es es alunos cul i am no espaço
domés ico e a que é lecionada nas escolas di i cul a o
seu ajus amen o à cul u a escola (Resende, 2010).
Po ou o lado, es a úl ima é agilizada pelo con-
sumo de p odu os cul u ais p o enien es dos no os
supo es de di usão de in o mação dos meios de
comunicação de massa. Es as indús ias cul u ais
êm nos jo ens os seus po enciais consumido es e
assumem pa icula impo ância na con i gu ação
das sociabilidades dos adolescen es e jo ens na
escola e na sua esis ência ace aos sabe es que
es a ins i uição alo iza (Ba è e, 2002). Ac esce
pois pa a os p o esso es um abalho de mo i ação
de alunos que e idenciam uma elação débil com os
con eúdos disciplina es que são lecionados – an o
na p epa ação dos supo es pedagógicos como na
p óp ia a aliação.
A dis ância demons ada pelos jo ens em
elação às expec a i as da ins i uição escola ela-
i amen e à sua socialização polí ica conduz ao que
Rayou (2007) desc e e como uma eap op iação
da sua expe iência no espaço escola . Es es jo ens
desen ol em no espaço escola compo amen-
os pa a “ esis i ao s ess induzido pela seleção
escola ” (idem: 19), pelo insucesso escola que
expe imen am. Os alunos desen ol em um “eixo de
socialização ho izon al” (idem: 18) que in e e e com
o eixo de socialização e ical e cons ange a ação
dos adul os que o supo am. De uma si uação em
que os únicos c i é ios de sociabilidade são quase
José Manuel Resende e Luís Gou eia
100
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 97-106
odos de ca á e escola , passam a coexis i ambém
c i é ios de sociabilidade adolescen e e ju enil. Es e
modelo de condu a dos alunos no espaço escola
em como p incipal e e ência a noção de philia,
que undamen a uma no a é ica de elação en e
p o esso es e alunos e na qual, como se p ocu a
demons a , a noção de espei o assume pa icula
ele ância.
A Ci é in isí el: a g amá ica de philia
na es u u ação da expe iência no espaço
escola en ec uzada com o sen ido do jus o
O a igo cen a-se nas pe spe i as dos alu-
nos na modelação da sua expe iência no espaço
escola . Tal análise implica a adoção de um olha
não adul ocen is a (Rayou, 2005) pa a um acesso
às ca ego ias especí i cas da expe iência social
adolescen e e ju enil, às suas o mas de i e em
conjun o, aos concei os de jus iça subjacen es, às
lógicas de ação que sus êm os seus compo amen os
e condu as. O p essupos o da exis ência de uma
ou a escola secundá ia, como desc e e Rayou,
de uma ou a o ma de i e em conjun o que os
alunos cons oem en e si e com eg as dis in as
daquelas que o malmen e en o mam a ins i uição
escola , implica um olha sob e as jus i i cações e
sen idos de jus iça com base nos quais os jo ens
o ien am as suas ações e es u u am a sua expe-
iência social. É esse en oque sob e os juízos po -
ado es de gene alidades p oduzidos que pe mi e
pene a nas cons uções da ida polí ica dos jo ens.
Conc e amen e, sendo o egime da philia um modo
pa icula de ida em conjun o, com especi i cidades
que o dis inguem de ou os uni e sos com os quais
ompe, o não desligamen o dos p incípios de jus iça
da escola epublicada o na es a g amá ica ju enil
opaca (Rayou, 1998; Resende, 2010).
Rayou desen ol e o modelo de compe ência que
designa po philia a pa i do modelo desen ol ido
po Luc Bol anski e Lau en Thé eno em On Jus-
i i ca ion ([1991] 2006). Es a compe ência esul a
de in e ceção de dois ipos de uni e sos dis in os.
De um lado, o uni e so da jus iça. Nes e, os
indi íduos são obje o de classi i cação que os di e-
encia segundo di e en es p incípios de equi alência.
De ou o lado, o uni e so do amo . Es e assen a já
no p essupos o da inexis ência de hie a quia en e
os indi íduos. O p óp io a o de classi i cação cons-
i ui um insul o ao amo . A philia oscila pois en e
o amo e a polí ica.
Como p econiza Bol anski ([1990] 2012),
ao con á io do egime da jus iça, o amo igno a
odas as e e ências a equi alências gené icas pa a
o con on o en e as pa es. A amizade pa ece
desempenha um papel in e médio, pe mi indo a
oscilação en e si uações de p ocu a de jus iça e a
supe ação dessas si uações no amo . Nos jo ens, a
amizade, ou a philia, cons i ui o p incípio de o gani-
zação quo idiana da sociabilidade ju enil e o e úgio
de indi e enciação e p o eção de p o as de oda a
na u eza e, com isso, o supo e das denúncias de
um sis ema escola di e enciado e da ecusa de
con on ação en e desempenhos escola es, isuais
e opiniões (Rayou, 1998).
A paz mani es a-se pela ausência de equi-
alências; a paz exclui, não apenas a iolência,
mas igualmen e as dispu as em jus iça – a a és
do en ol imen o de p incípios de equi alência,
de modo a impo uma o dem de g andeza sob e
pessoas po in e médio de p o as. No es ado de
paz, as equi alências são inú eis. Sem dispu a, não
há necessidade de o denação (Bol anski, [1990]
2012). A ecip ocidade egula a elação de amizade,
philia. Es a p essupõe um p eexis en e p incípio de
equi alência que pe mi e p imei amen e a alia
os espe i os mé i os de ecip ocidade e, depois,
con ola a ecip ocidade e a equidade das ocas
en e si. Como e e e Bol anski, a ecip ocidade
na amizade não é exe cida de o ma cega; ela é
obje o de expec a i a ela i amen e à equi alência
da con ibuição de cada uma das pa es (idem).
É com base na philia que se desen ol e aquilo
que Rayou de i ne como uma cul u a de e icência
(mais do que uma cul u a de esis ência) e de dú ida
ace às no mas e alo es do uni e so escola (Rayou,
1998). O p incípio de philia, enquan o ei indicação
a uan e, cons i ui um meio pa a p o eção dos e ei os
des alo izado es e es igma izan es da elegação e
humilhação escola , cons i ui uma o ma de es-
pos a ao desencan amen o escola e à a e ação da
imagem de si.
Nomeadamen e, a philia sus en a a cons ução
de uma Ci é in isí el que ege as elações en e
os jo ens e que os adul os não comp eendem.
Como man e a ideia (ou ilusão) da exis ência de
uma comunidade a e nal num mundo escola
que p epa a pa a a di isão dos des inos sociais.
As elações de amizade isam p ese a numa
comunidade de iguais o máximo de empo possí el,
sem di e enciações p o enien es de p o as pe s-
pe i adas como injus as. Es as edes de amizade
es ão imp egnadas na expe iência adolescen e
endo em is a e a da e sua iza a passagem à
ida adul a (Rayou, 2007).
Nes a ó ica, o que essal a da a uação dos
alunos é a conceção da escola como espaço de
con í io en e pa es, e menos como e i ó io da
sua o mação escola enquan o cidadãos.
Nos seus modos de a ua obse a-se a p esença
e ambém uma deslocação das ma cas do egime de
philia pa a o egime do jus o quando as eclamações
ambém se di igem à exigência de igualdade de
a amen o en e adul os e não adul os. É no ó ia
a ejeição de o mas de disc iminação posi i a: “É
assim, há um p o esso e den o de uma u ma há

AS ARTES DE FAZER O COMUM NOS ESTABELECIMENTOS DE ENSINO...
101
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 97-106
semp e esse p o esso que em p e e ência po A ou
B ou C. É assim, nós não es amos a c i ica po que
al ez em algumas disciplinas que nós sejamos os
p i ilegiados. Mas não conco damos com isso apesa
de nós se mos ambém os escolhidos” (En e is a
13: géne o eminino, Escola Secundá ia Ma ia Amália
Vaz de Ca alho, Línguas e Humanidades). É sob e o
p incípio da igualdade que a c í ica a um a amen o
p e e encial po pa e dos docen es assen a: “Eu acho
que a escola de ia-nos ansmi i essencialmen e
igualdade. Eu acho que não é isso que acon ece. […]
Como, no malmen e consigo e p o esso es que
êm p e e ência po uns alunos, êm p e e ência po
ou os; e isso acon ece egula men e, com mui a
equência a é” (En e is a 15: géne o eminino,
Escola Secundá ia Ma ia Amália Vaz de Ca alho,
Ciências e Tecnologias).
A ausência de a amen o di e encial aduz-se
mesmo na ejeição de a i udes de complacência
po pa e dos p o esso es no que espei a às di i -
culdades sen idas po alunos: “O que acon ece
é às ezes da em demasiado alo ao es o ço.
O es o ço é cla o que é impo an e mas… E aqui
acon ece-nos bas an e pessoas que, po exemplo,
êm mais di i culdades, mas que se es o çam mais
e êm melho es no as do que pessoas que êm
menos di i culdades mas que se es o çam menos.
Isso é um pouco injus o!” (En e is a 16: géne o
masculino, Escola Secundá ia Ma ia Amália Vaz de
Ca alho, A es Visuais).
Sob o signo do espei o: o olha es udan il
sob e a jus iça e humilhação no espaço
escola
A ques ão da igualdade de a amen o no
espaço escola e i i ca-se es a in imamen e ligada
à ideia de espei o, e es a p esen e nas elações
de au o idade en e as i gu as do p o esso e do
aluno. O egime de philia enquan o modelo de
egulação polí ica en e os jo ens em pa icula
e l exo na pola ização obse ada dos alunos na ideia
de espei o quando p oduzem juízos ela i amen e
ao seu es abelecimen o de ensino e ao espe i o
co po docen e e uncioná ios.
Pa ick Pha o (1997) p econiza, de um pon o
de is a de uma sociologia cen ada na expe iên-
cia e mo i ações p á icas dos a o es sociais, que
o espei o consis e numa noção que liga o sujei o
ao obje o espei ado de uma o ma pa icula . O
espei o cons i ui uma posição p á ica da p imei a
pessoa que consis e nes e limi a a sua libe dade
de ação de o ma a não in ingi o alo eminen e
que ela econhece a uma pessoa ou a um obje o
a ibuído ou ajuizado como expec á el a se a i-
buído a um e a ou o (Pha o, 2001). Exis e po an o
um econhecimen o desligado de con ingências da
compa ação social e hie a quização e, nessa medida,
uma sub ação do indi íduo de p o as e consequen e
classi i cação social.
Po ou o lado, quando um obje o ou indi íduo
é ajuizado como digno de espei o, al não oco e
apenas nos limi es do pon o de is a do sujei o que
espei a. Esse juízo é es endido, pa a o indi íduo que
espei a, a odos os se es capazes de demons a
espei o; o espei o é pa ilhado po odos (Pha o,
1997). E é nessa medida que o espei o pode cons-
i ui o p incipal en a e à aplicação do p incípio da
jus iça. A colisão com o p incípio de espei o pode
conduzi à pe da das jus i i cações que sus en am
a ação assen e na jus iça ou a causa de jus iça que
jus i i ca essa ação pode-se ans o ma numa causa
de des espei o (idem).
O a, o espei o é um p incípio pa icula men e
in ocado pelos alunos quando es es se exp imem
sob e o jus o no âmbi o das a i idades escola es e
nas á ias si uações de in e ação nes as ambiências
onde as ques ões da jus iça es ão en ol idas. Como
e e e Rayou (2007), pode-se ala de uma hipe o i a
da pe spe i a do espei o nas lei u as c í icas dos
alunos às con adições dos a os ligados à socialização
polí ica, que do lado da ansmissão dos conheci-
men os, que do lado das epa ações das condu as.
Os alunos ei indicam o espei o como p incípio
de jus iça assegu ado da sua dignidade enquan o
indi íduos, independen emen e das di e enças nos
desempenhos escola es ou ou os c i é ios.
Nes a ó ica, os alunos eem no des espei o
demons ado pelos adul os pa a com os jo ens no
espaço escola a p incipal causa dos p oblemas
ge ados. Como e e e um aluno: “P incipalmen e
eu acho que espei o mú uo de e ha e , an o po
pa e dos alunos como dos p o esso es. Alunos,
uncioná ios. P o esso es, uncioná ios. Po que há
mui os p o esso es que des espei am os uncioná ios.
Não só os alunos como ambém os uncioná ios. E
acho que é o que al a mui o nas escolas, é isso, o
espei o mú uo” (En e is a 26: géne o eminino,
Escola Secundá ia Luís de F ei as B anco, Técnico
de Ges ão do Sis emas In o má icos).
Essa elação assen a na o ma mais ou menos
espei osa como a pala a é di igida aos alunos:
“Pois, lá es á. No malmen e são os p o esso es
que azem pa icipação dos alunos, e mui as ezes
os alunos passam pelos maus da i a, quando mui-
as ezes, quem começou a al a de espei o não
oi o aluno, mas o p o esso , pela o ma como se
di igiu.” (En e is a 8: géne o masculino, Escola
Secundá ia Ma ia Amália Vaz de Ca alho, Ciências
Socioeconómicas).
O espei o assume a o ma de econhecimen o
da au o idade do p o esso mas com o p essupos o
de ecip ocidade. A o dem hie á quica e ical no
espaço escola pa ece se subs i uída po uma o dem
negociada (Resende, 2011). Essa ho izon alidade
na elação en e p o esso e aluno anspa ece em
José Manuel Resende e Luís Gou eia
102
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 97-106
á ias decla ações de alunos en e is ados: “E é
assim, eu pessoalmen e não me calo, enho que
dize as coisas na ca a, mesmo que seja… Pode se
p o esso , pode se o Papa, pode se a minha mãe,
pode se o pai, há que ha e espei o […]. Po que
eu acho que o p o esso não se de e sob epo sob e
o aluno, mas ambém o aluno não de e acha que,
p on o, que é um se que em, que é in e io ao
p o esso e ambém não é acha que de e obedece
a udo, não é?!” (En e is a 26: géne o eminino,
Escola Secundá ia Luís de F ei as B anco, Técnico
de Ges ão do Sis emas In o má icos).
A no ma i idade p e iamen e igen e no que
espei a à elação de au o idade en e aluno e p o-
esso dá luga a uma elação em no os moldes.
Sem con es a a au o idade do p o esso , os alunos
o ien am-se pela expec a i a de uma elação peda-
gógica de espei o mú uo. Essa pe spe i a, de es o,
es ende-se a odos os ep esen an es da i gu a dos
adul os no es abelecimen o de ensino (não apenas
aos docen es): “Po se em adul os pensam que os
alunos au oma icamen e êm que e espei o po
eles, sem eles e em espei o pelos alunos. […] Os
alunos êm que se espei ados pa a que os possam
espei a , ou seja, po que sem o espei o… Eu sou
uma pessoa que espei a quem me espei a não
espei o quem é mais elho que eu, eu sou capaz de
al a ao espei o a uma pessoa de cinquen a anos
e e comple amen e espei o po uma pessoa de
dez anos” (En e is a 25: géne o eminino, Escola
Secundá ia Luís de F ei as B anco, A es Visuais).
A mesma denúncia sob o p incípio do espei o
pode obse a -se igualmen e nas obse ações p o-
duzidas ela i amen e à elação en e os p o esso es
e uncioná ios (se es de meno g andeza): “Não. É
mais o con á io, eu sin o mais que os p o esso es
a am, ob iamen e, alguns, a am os uncioná ios
de uma manei a mui o, mui o mal. Do géne o, “Eu
que o es e p oje o , já”. E não é “Pode-me da
esse p oje o , se az a o ?”, ou “Pode-me aze ?”
(En e is a 26: géne o eminino, Escola Secundá ia
Luís de F ei as B anco, Técnico de Ges ão do Sis e-
mas In o má icos).
Po ou o lado, a desigualdade de a amen o
ou disc iminação es á ambém na base de denúncias
p oduzidas sob a g amá ica do espei o. O espei o
só pode se a aliado segundo alo es escola men e
neu alizados e ligados ao ca á e insubs i uí el de
cada pessoa (Rayou, 2007). É nesse sen ido que as
denúncias de alunos são di igidas a compo amen-
os disc imina ó ios dos p o esso es com base nas
di e enças de desempenho dos alunos: “Mas aquela
p o esso a ambém e a idícula. Ha ia um colega
meu que es a a sen ado na mesma ca ei a que
eu, se hou esse uma pe gun a e ele espondesse, a
p o esso a não ou ia. Eu espondia a mesma coisa,
exa amen e que ele inha espondido, e ela ou ia
a minha espos a” (En e is a 8: géne o eminino,
Escola Secundá ia Ma ia Amália Vaz de Ca alho,
Ciências Socioeconómicas).
É ambém sob a ideia de espei o que as ope-
ações c í icas dos alunos são di ecionadas pa a
si uações de humilhação. Se os alunos i em a
in e io idade da sua g andeza numa escola a a és
da o ma como são a ados no quo idiano pelos
adul os – pa icula men e na i gu a dos p o esso es –,
são equen es as denúncias dos alunos di ecionadas
a si uações de des espei o po pa e dos docen es
pe an e ulne abilidades e idenciadas pelos alunos:
“Tinha uma colega minha que e a assim mais cheii-
nha e nós ‘ a amos a co e , a é ‘ a amos a aze a
a aliação dos doze minu os e ela hou e uma al u a
em que ela ‘ a a cansada e pa ou e a p o esso a
i ou-se pa a ela e disse «Mexe esse abo». Acho
que isso não é de odo ag adá el. […] Mas is o a é
pode se p ejudicial e psicologicamen e […] A é
pa a o p o esso , não i ca bem.” (En e is a 29:
eminino, Escola Secundá ia P o esso José Lucas
Pi es, Línguas e Humanidades).
A lógica do espei o in e e e igualmen e na
ques ão da ges ão da p oximidade, da dis ância
con enien e (Rayou, 1998) en e p o esso e aluno.
Ao p o esso é econhecida a legi imidade de ação
de p oximidade (Thé eno , 2006). Po um lado, es a
ho izon alidade de elações numa é ica de de e es e
de dádi as mú uos aba ca igualmen e a expec a i a
de uma ação de p oximidade, de a endimen o aos
p oblemas e necessidades conc e as dos alunos
singula es. Como ilus a uma aluna en e is ada:
“Se alguém i e um p oblema, es á pe ei amen e
à on ade pa a pa ilha com a u ma, pa a pedi em
ajuda... Acho que há semp e uma elação. Mesmo
com o di e o de u ma, em mais que uma si uação
o ‘s ô ajudou-nos em p oblemas que ínhamos
em casa, ou p oblemas pessoais. E acho que isso
é ó imo, c ia-se uma elação ex e io a p o esso -
-aluno” (En e is a 8: géne o eminino, Escola
Secundá ia Ma ia Amália Vaz de Ca alho, Ciências
Socioeconómicas).
Po ou o lado, onde há espaço pa a a e e i i-
dade, exis e ambém o econhecimen o dos limi es
dessa ho izon alidade de elações. Como Rayou
(1998) desc e e, um excesso de p oximidade aca -
e a, no en ende dos alunos, o desmo onamen o
da p óp ia si uação escola . É o caso da desc ição
des e aluno en e is ado: “Ou seja, uma elação,
amigá el, cla o que a dis ingui algumas coisas...
Ele e á semp e a au o idade den o de uma sala
de aula, mas acho que isso é o mais impo an e
de udo” (En e is a 8: géne o masculino, Escola
Secundá ia Ma ia Amália Vaz de Ca alho, Ciências
Socioeconómicas).
Os jo ens econhecem po an o a manu enção
da hie a quia en e alunos e p o esso es na cons u-
ção da sua elação e com base no espei o mú uo:
“[…] po que com essa a i ude inicial acaba po não
AS ARTES DE FAZER O COMUM NOS ESTABELECIMENTOS DE ENSINO...
103
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 97-106
se omen a logo aquele espei o que é necessá io,
po que uma coisa são os alunos e ou a coisa são
os p o esso es. É cla o, apesa de e que ha e
esse espei o mú uo, é uma coisa… São pa ama es,
«di e en es» que êm de se assumidos. E depois
o que acon ece é que se um p o esso não assume
o seu papel de p o esso , o aluno ambém não ai
co esponde ” (En e is a 10: géne o eminino,
Escola Secundá ia Ma ia Amália Vaz de Ca alho,
Ciências e Tecnologias). Da mesma o ma que
denunciam modelos de elações longínquas, os
alunos econhecem a desigualdade de condição
en e jo ens e adul os e ejei am uma elação
es i amen e iguali á ia – que conduzi ia a si uações
de des espei o de pa e a pa e. Uma p oximidade
exage ada po encia a e osão da o dem hie á quica.
A ques ão do espei o nos juízos c í icos dos alu-
nos e i i ca-se igualmen e em injus iças obse adas
no espaço ex e io ao da sala de aula; nos ela os
dos alunos, o a endimen o no espaço do ba su ge
com pa icula equência: “Mas a maio injus iça
no ba é mesmo que os p o esso es chegam e são
logo a endidos e nós às ezes es amos ali mon es
de empo, po que exis em duas i las sepa adas.
[…] Isso já é uma g ande al a de espei o” (En e-
is a 10: géne o eminino, Escola Secundá ia Ma ia
Amália Vaz de Ca alho, Ciências e Tecnologias).
Es e ela o do aluno suge e que a ob enção de a o-
ecimen o po pa e dos adul os – nes e caso em
conc e o, dos p o esso es – a pa i do seu es ado
de g andeza den o do es abelecimen o de ensino
é pe cecionada como injus a. Em unção de uma
igualização en e jo ens e adul os, o anspo e da
g andeza do p o esso pa a o espaço o a da sala
de aula é pe cecionado como ilegí ima (Resende e
Cae ano, 2012).
Po ou o lado, segundo ambém o mesmo
p incípio do espei o e e ido, é ambém aludido o
a amen o di e encial en e p o esso es e alunos
do pon o de is a das ci ilidades: “E depois, a
manei a, o a endimen o ambém. Aos alunos é:
«Que é que u que es?» A um p o esso : «Ah, bom
dia! Tudo bem?» Acho que a educação az pa e da
escola, az pa e em odo o sí io, an o na biblio eca
como no ba . Se es amos a se educados na escola
emos que se com oda a gen e educados… Não
só com os p o esso es. E depois acho que ambém
pa a c ia em um espei o pelos alunos êm que se
da ao espei o! […] Po que é que disse bom dia
ao p o esso e não me disse a mim?!” (En e is a
19: géne o masculino, Escola Secundá ia Luís
de F ei as B anco, Ciências Socioeconómicas). A
indignação exp essa e ela a a enção da i gu a do
aluno à ques ão do econhecimen o na signi i cação
daquilo que ele conside a como impo an e: a es ima
de si pela a enção dada pela es ima do ou o, do
adul o, a si mesmo, a g andeza pequena. É des a
ecip ocidade ei a de coisa meno pa a o p o esso ,
como explici a es a denúncia, que os laços en e
ambos são conside ados impo an es: a dignidade
do espei o começa pela mu ualidade aduzida no
cump imen o. Es es a os são ma iciais pa a a dig-
nidade das elações ecidas de uns pa a os ou os.
As denúncias e juízos c í icos p oduzidos pelos
alunos aqui desc i os são di ecionados, assim, pa a
o que lhes pa ece se em si uações de des espei o
po pa e dos adul os. Na sua abo dagem a ques-
ões de jus iça, a noção de espei o assume uma
impo an e base na cons ução das suas pe spe i as.
É a a és dela que são capazes de p a ica uma
des-singula ização das si uações sob e as quais a
sua análise ecai (Rayou, 2007).
De es o, o des espei o e a humilhação
pe manecem no cen o das eclamações mo ais
con empo âneas. A a i ação da e e ência ao es-
pei o é um elemen o pe sis en emen e p esen e e
e elado das expec a i as e exigências mo ais e
no ma i as nas o mas de in e ação com o ou o. A
noção de espei o, no seu sen ido mo al, de e se
en endida enquan o cons angimen o de ci ilidade,
de ejeição da humilhação do ou o, de negação do
seu alo – humilhação en endida enquan o o ma
de injus iça. Do pon o de is a polí ico, a lógica do
espei o cons i ui em si um elemen o que se inse e
nas ques ões da jus iça e cons ução de eixos de
no ma i idades comuns (Zaccaï-Reyne s, 2008).
Faze o comum na Escola: o espei o e a
oca de bens na base da expe iência do
econhecimen o do ou o
A philia, enquan o laço polí ico au ónomo
desen ol ido pelos alunos, é sensí el, po um lado,
às e e ências cí icas da igualdade, mas ambém
à ques ão da p oximidade en e uns e ou os, ao
econhecimen o das di e enças – sob o sen imen o
de espei o exp esso pelos alunos. Po sua ez, es e
impe a i o do espei o pe mi e in oduzi a ques ão
do econhecimen o do ou o.
O econhecimen o, ou a lu a pelo econheci-
men o (Honne h, 2011), es á associado às lu as pela
es ima social, pela mu ualidade enquan o oca de
bens. As pe sis en es alusões dos alunos ao p incípio
do espei o co espondem à demanda do seu eco-
nhecimen o, do econhecimen o da sua g andeza
po pa e dos adul os den o do es abelecimen o de
ensino. A negação do econhecimen o não ep esen a
apenas uma injus iça, na medida em que p ejudica
os sujei os na sua libe dade de ação ou lhes in l ige
danos; ela e e e-se a um compo amen o lesi o
no qual os indi íduos são o endidos na comp een-
são posi i a de si mesmos, econhecimen o da sua
g andeza pequena, enquan o alunos.
A expe iência de des espei o, de negação do
econhecimen o de de e minadas ei indicações de
iden i i cação de si, pode es imula uma esis ência
José Manuel Resende e Luís Gou eia
104
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 97-106
social e um con l i o – uma lu a pelo econhecimen o.
No en an o, como expõe Honne h, ais eações à
injus iça do des espei o não su gem ine i a elmen e;
elas dependem empi icamen e, sob e udo, de como
é cons i uído o meio polí ico-cul u al en ol en e dos
sujei os a ingidos. A expe iência de des espei o
es á necessa iamen e en elaçada num p ocesso
de modi i cações his ó icas (idem).
As ans o mações na ins i uição escola nas
úl imas décadas (acima desc i as sucin amen e)
con on am os p o esso es com o p oblema p á ico
de cons ução da o dem escola (Resende, 2010;
Resende e Cae ano, 2012), is o é, de uma o dem
( e)compos a de aco do com uma dada dis ibuição
das g andezas que undam o que há de comum en e
os se es que a habi am. Enquan o a massi i cação
escola , num con ex o de democ a ização, apela
a uma au o idade cuja legi imidade es á cada ez
mais sujei a a uma plu alidade de p o as, e sendo
a socialização polí ica dos alunos menos ajus ada à
o denação das g andezas que an e io men e en o ma
o seu espaço, os ecu sos de au o idade eduzem-
-se às capacidades a gumen a i as, elacionais e
a uan es dos a o es, de uns com os ou os (Dube ,
2002). O abalho do p o esso não consis e em
aplica as eg as e as no mas de um es a u o, uma
ez que es e papel não pe mi e po si só assegu a
a o dem escola den o da sala de aula. Ele de e em
pa icula ab ica uma elação escola que não lhe
p eexis e o almen e (Dube e Ma uccelli, 1998),
e a ua em sua con o midade de modo a eduzi ,
semp e que possí el, os e ei os ne as os da ambi-
alência dos seus ges os que apa ecem imb incados
nos egimes de en ol imen o das ações ecíp ocas
en e es as duas dis in as g andezas.
A exigência do espei o po pa e dos alunos
suge e expec a i as de ecip ocidade, de negocia-
ção e de ho izon alidade na elação cons uída com
as i gu as dos adul os – e pa icula men e com os
docen es. Ela é uma demanda pelo econhecimen o,
pelo en endimen o daquilo que há de comum en e
uns e ou os no espaço escola ; um p ocesso com
ca a e ís icas semp e l exí eis pa a a coope ação
segundo di e en es p incípios de jus iça (Resende e
Cae ano, 2012). A adesão dos alunos, sem p ejuízo
pa a o p essupos o da au o idade do p o esso ,
depende do econhecimen o po pa e dos docen es
des a necessidade de cons ução de comp omissos.
Po ou o lado, como Ricoeu (2007) p econiza,
na dádi a do econhecimen o mú uo, as ques ões
da au o idade legí ima êm necessa iamen e de se
idas em con a.
Se o econhecimen o deco e do cump imen o
das exigências de espei o mú uo, de es ima social,
es a exigência pode se conc e izada num es ado
de paz – sem ecu so às al e na i as da lu a e da
iolência. A en a o caso das p á icas de oca de
dádi as mú uas. Nes as ocas, a g a idão assume
um papel cen al pa a o es abelecimen o de uma
elação de mu ualidade. Na espos a a uma dádi a,
a ecip ocidade não deco e de o ma au omá ica
– não exis e necessidade mecânica de ecip oca .
É nesse sen ido que a p á ica de ocas de dádi as
e de e es mú uos coloca em isibilidade, segundo
o au o , dois aspe os undamen ais, in e elacio-
nados, do econhecimen o mú uo. Po um lado,
oco e uma oca de dádi as e dons, mas não de
luga es, nem de g andezas. As pa es en ol idas
possuem um ca á e insubs i uí el, sem con l uência
en e si. Po ou o, nessa mu ualidade é conse ada
uma dis ância adequada, in eg ando o elemen o do
espei o nessa elação.
É necessá io pois e em con a a assime ia
en e o sel e o ou o nas expe iências de econhe-
cimen o mú uo (idem), nes e caso en e si p óp io
e o ou o que é espelhado po si, e que se obje i a
nas o mas de en ol imen o ecíp ocas. As elações
e icais de au o idade nas dispu as pelo econhe-
cimen o mú uo cons angem as possibilidades de
mu ualidade – sem con udo coloca em um en a e
à p óp ia possibilidade de econhecimen o mú uo.
Po ou o lado, o espei o e a economia do dom
cons i uem p ecisamen e uma base pa a ga an ia
desse econhecimen o do ou o.
Eis aqui uma ou a en ada do olha socioló-
gico pa a ques iona , e comp eende , es as ou as
a qui e u as de como se az o comum na escola.
Um me gulho e nog á i co mais ex ensi o, e desse
modo, mais in ensi o, nos espaços que compõem
os es abelecimen os de ensino ão-nos se ú eis
não só pa a comp eende mos as a es de ece o
comum, os seus undamen os, as p o as de o ça
(Dodie , 2005) a que são sujei os, mas ambém
pa a obse a mos os exe cícios de «in es imen o
de o ma» (Thé eno , 1986; Resende, 2010) eali-
zados pelos p o esso es no p ocesso de socialização
polí ica escola cuja ele ância social eside nas
capaci ações de que os alunos dão p o a pa a se
mos a em p epa ados pa a con on a em ou os
mundos, nomeadamen e, o mundo cí ico.
A es a en ada uma ou a se impõe, pois é
necessá io um maio ap o undamen o em elação
àquilo que azem ao espei o e ao econhecimen o
ecíp oco as expe iências que deco em das elações
en e géne os e en e dis in as o igens de classe.
Na e dade, e endo exclusi amen e po base as
in o mações e i adas das en e is as, do ângulo
do ques ionamen o deco en e das expe iências
escola es o ien adas pelo lado do géne o, essal a
que é en e os es udan es do géne o eminino que
es á mais p esen e a denúncia de ques ões de humi-
lhação e de des espei o pe an e a ulne abilidade
da i gu a do aluno.
É ambém en e elas que es á mais pa en e
a alusão à igualdade pe an e as eg as e a igual-
dade de a amen o en e os se es que habi am a
PROCESSOS NO TEMPO: UMA REFLEXÃO SOBRE O VALOR QUE A HISTÓRIA ACRESCENTA À SOCIOLOGIA...
111
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 107-116
quem a usou, de que manei a, quem a conse ou,
e c., e c.), e o esc u ínio do seu con eúdo à luz
dessa con ex ualização.
As consequências no plano das écnicas e
mé odos de análise pa ecem-me ób ias. Mas são
an as ezes esquecidas po sociólogos e economis-
as (quando não pelos p óp ios his o iado es) que
al ez alha a pena dedica -lhes umas b e es linhas.
De en ada, eme e cada on e pa a o conjun o
de que aça pa e e em que adqui a ele ância e
sen ido. Nunca esquece que a ciência lida com
egula idades – e é aí, não o a delas, que o ac o
singula ganha singula idade. A análise his ó ica
ou sociológica de on es, his ó icas ou con empo â-
neas, é a iden i i cação, in e p e ação e a amen o
de conjun os – sis emá icos ou não, mas semp e
es u u ados – de on es: co po a documen ais;
sé ies c onológicas; sé ies es a ís icas; conjun os
monumen ais; sí ios (como os a queólogos alam de
sí ios, is o é, espaços abalhados onde se insc e em
monumen os, habi ações, u ensílios, paisagens, e c.).
Depois, en ende o a amen o da on e como
um duplo balanço: si uá-la no conjun o que lhe
se e “a ualmen e” de con ex o, no quad o de
cada in es igação conc e a; mas si uá-la ambém
longi udinalmen e, na cadeia de ac os cul u ais e
sociais de que é o (p o isó io e al e á el) esul ado
p esen e.
Finalmen e, incula semp e as ope ações
écnicas de a amen o da in o mação cons uída
a pa i das on es – o que os manuais chamam a
análise dos dados – às ope ações écnicas dessa
cons ução – o que se designa con encionalmen e
po ecolha dos dados. Pon o undamen al: essas
ope ações écnicas en ol em semp e opções e
p oduzem semp e esul ados; pois umas e ou os
êm de se inculados, não só en e si, em cada
ase (“ ecolha” ou “ a amen o”), mas en e as
duas ases. Po maio que seja a so i s icação ec-
nológica e in elec ual do a amen o, a alidade
cien í i ca da in o mação epousa semp e, em úl ima
ins ância, sob e a alidade dos p o ocolos eó ico-
-me odológicos associados à cons ução das on es
de in o mação.
Ques ões de modelização
A ambição de qualque in es igação é con i-
bui pa a a eo ia da ou das disciplinas cien í i cas
a que se e e e. A eo ia sociológica, como a eo ia
económica, cons i ui o conjun o de conhecimen os
em cada momen o e con ex o disponí eis, que
dize , aqueles que ão sendo subme idos e ão
ul apassando a p o a da demons ação e do deba e
o ganizado, in o mam o pa imónio comum (mais
ou menos concebido como cânon) e es ão acessí eis
pa a os p ocessos de socialização e encul u ação
ípicos de uma ciência ins i ucionalizada (nas esco-
las, nos cen os de in es igação, nos e enos de
aplicação, no espaço público, e c.). Os his o iado es
são no malmen e a essos a usa uma exp essão
ão ambiciosa, mas, do meu pon o de is a, azem
mal: no sen ido aqui usado, a eo ia é o pon o de
pa ida e é o pon o de chegada do abalho de cada
cien is a e o cimen o ag egado de cada comuni-
dade cien í i ca.
Em nenhuma ciência, mui o menos em nenhuma
ciência social, é a eo ia, assim concebida, uni o me.
O plu alismo e o deba e in e no são a o es de en i-
quecimen o – desde que não signi i quem incomuni-
cação e simples coexis ência, mas sim con o é sia e
cons ução cumula i a (c ., po odos, Pi es, 2007).
O a, a eo ia comp eende múl iplos ní eis de
abs ação e gene alidade. Pa a o que nos impo a
ago a, con ém dis ingui pelo menos dois: os sis e-
mas de p oposições de ele ado g au de abs ação,
independen emen e da o malização (mas endendo
pa a ela), que cons i uem o ien ações pa a a pes-
quisa e pa a a análise empí ica – a que chama ei
modelos; e as explicações e e enciadas a ce os e
de e minados p oblemas, en ol endo a conside ação
de ce os e de e minados p ocessos sociais – a que
chama ei eo ias egionais, pa a que se pe ceba
como cono am coisa di e en e daquela e ocada
pela pala a “ eo ia”, usada no singula e sem ou o
adje i o que não o da sua i liação disciplina .
Não ha e ia espaço, nes e ex o, nem se ia
pe inen e, na ocasião, es a a disseca o alo
ac escen ado po a iadíssimos abalhos his ó i-
cos à eo ia sociológica. Re e ei, isso sim, alguns
con ibu os disce ní eis no plano dos modelos de
análise. E não é po qualque gos o da p o ocação
ou exal ação da o iginalidade que iden i i ca ei ais
con ibu os em o no do concei o de es u u a.
An es po con icção: o his o iado que pense que
é na ên ase no acon ecimen o singula e i epe í el
que eside a con ibuição p incipal da sua ciência
a isca-se, no meu modes o en ende , não apenas
a passa ao lado do diálogo mais p o ícuo com a
sociologia como a é a equi oca -se sob e a p óp ia
his ó ia.
Ca a e is icamen e, as achegas do labo his-
o iog á i co ao desen ol imen o da eo ia de aiz
sociológica sob e as es u u as sociais assumem
duas o mas: ino ação, po um lado; co obo ação,
po ou o.
Pa a mim, a ino ação maio é, sem qualque
dú ida, o encaixe dos enómenos sociais (dos ac os,
na acepção mais ge al) nas es u u as de média,
longa e mui o longa du ação. As lições de Fe nand
B audel e da escola cujo eixo oi essa e is a sin-
oma icamen e in i ulada: Annales, Économies,
socié és, ci ilisa ions. Lições p epa adas, na i a-
gem mode na da his o iog a i a, po Ma c Bloch ou
Lucien Feb e, acompanhadas, no mundo anglo-
-saxónico, po au o es como E ic Hobsbawm ou E.P.

Augus o San os Sil a
112
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 107-116
Thompson – e que con e gem, po sua ez, com os
es udos sociológicos de um Max Webe ou de um
No be Elias. Os espaços ( ísicos e humanizados),
as ci ilizações e as cul u as ma e iais, os di e en es
ní eis de o ganização e dinamismo da ac i idade
económica (desde a economia domés ica e local
aos me cados e à mundialização), as ins i uições
de econhecimen o, ocupação e adminis ação dos
e i ó ios, as g andes linhas de o ganização social,
as línguas, as eligiões, as men alidades – udo
isso, com es a ou ou a designação, cons i ui um
quad o, longamen e amadu ecido e densamen e
consolidado, onde se insc e em, onde encaixam os
ac os sociais: as p á icas, as es u u as e as zonas
de mediação en e umas e ou as que pon uam a
exis ência social das pessoas, dos g upos e das
o ganizações. O papel da du ação no o denamen o
social – na o dem social, em sen ido não no ma-
i o – é a lição undamen al que o his o iado pode
o e ece a um sociólogo a en o.
Mas isso que en ão dize que a espessu a his-
ó ica de cada es u u a social es á p esen e e a i a
no p esen e dessa es u u a. Que a es u u a que o
olha sociológico obse a é ambém a sua p óp ia
his ó ia, o p ocesso da sua consolidação, sedimen a-
ção, densi i cação, ma u ação; as me á o as a iam,
mas odas no undo almejam cono a a o mação da
es u u a como al, is o é – e não se a a de joga
com as pala as –, a es u u ação. A diac onia es á
p esen e na sinc onia, o passado no p esen e, sendo
cada coisa o que é ambém po causa do que oi, e
do que oi/ ai sendo. Tudo pensado no plu al, e iden-
emen e, já sabemos que os empos e as es u u as
são múl iplos e os seus c uzamen os ensos.
Encaixa os ac os nas es u u as signi i ca
encaixá-los nos p ocessos sociais. Como bem explica
Vi o ino Magalhães Godinho (2011: 51-57, 154-
-155), se p ocessos e es u u as ep esen am ”as
noções ope a ó ias mais ge ais”, pa a his o iado es e
sociólogos, e se os his o iado es endem a acen ua
ins in i amen e a pe spe i a dos p ocessos – is o
é, da insc ição dos ac os sociais no de i – ao
passo que os sociólogos p ocedem analogamen e
quan o às es u u as – is o é, alo izam os pad ões
de egula idade, as cons an es, as in a ian es que
a a essem di e en es si uações –, a a-se, oda ia,
de inclinações que con e gem, e daí a impo ân-
cia do diálogo in e disciplina . Os p ocessos es ão
mui o longe de se cadeias de acon ecimen os sin-
gula es e sucessi os; as es u u as não podem se
eduzidas a ealidades es á icas. A es u u a pode
se mais bem ape cebida como “a endência que
as mudanças desenham, o i ine á io de pe cu so
das ans o mações”; “os p ocessos len amen e
con i gu am es u u as ou co oem-nas, ondulam
em mo imen os de a anços e ecuo, de expansão
e con ação, a u am-se em explosões súbi as ou
espe adas, epondo-se a si uação an e io ou colo-
cando os alice ces de um i e di e en e”. “Que dize
– con inua Godinho – que es u u as e p ocessos são
in e conexos, não podemos comp eende umas sem
os ou os e ecip ocamen e. No in- ex o dos múl iplos
espaços- empos” – e epa e-se como o au o o ça
a linguagem pa a que não i que nenhum equí oco
sob e o papel con o mado do espaço- empo (que
não é apenas um con ex o, mas po assim dize o
núcleo essencial do p óp io ex o).
Encaixe dos ac os nas es u u as e des as na
du ação; p esença da diac onia na sinc onia – e,
po an o, ope acionalidade da abo dagem genealó-
gica, a que p ocede de en e pa a ás no eixo do
empo; in e conexão das es u u as e dos p ocessos
sociais: eis, pois, o que se de e ca a e iza plena-
men e como ino ações concep uais, que a his ó ia
pode e de e aze à sociologia.
Mas o his o iado einado na dilucidação de
es u u as de di e sa con i gu ação – sejam elas os
quad os demog á i cos e ma e iais da ida quo idiana,
as ins i uições sociais da economia, as men alida-
des, os cená ios geoes a égicos de in e ação das
g andes po ências, e c. – es á bem habili ado pa a
a assunção plena de ce os p incípios da análise
sociológica. É caso en ão pa a ala , no que oca
ao seu alo ac escen ado, não de ino ação, mas
de co obo ação. Duas co obo ações me pa ecem
especialmen e ele an es.
A p imei a é a con i mação, em sede de in es-
igação his ó ica, da obje i idade das es u u as
sociais. Como ensinam á ias co en es sociológi-
cas, mas sem o consenso uni e sal da disciplina,
an es con inuando a mo i a acesas con o é sias,
as es u u as não êm ce amen e uma ealidade
subs an i a p óp ia: não são a o es como as pessoas
o são e, pese embo a as acilidades de exp essão
ou libe dades de es ilo, não êm a ibu os pessoais,
como sen imen os, emoções e ou as disposições do
géne o. Não são, em suma, an opomo i zá eis. Elas
exis em em unção da ação conc e a de conc e os
se es em elação: são esul ado, condicionamen o
e ecu so de al ação. Di o is o, exis em: são ea-
lidades obje i as, do adas de p op iedades eme -
gen es de si mesmas, são anscenden es a cada
a o e a cada ação e às di e síssimas con i gu ações
ci cuns anciais de ações e a o es. Um Es ado, uma
classe social, uma con i ssão e uma o ganização
eligiosa, um egime demog á i co, um co po mili a ,
uma p o i ssão, um município, um sis ema écnico,
um conjun o de eg as sociais, udo isso em uma
p esença social p óp ia, obje i a embo a não subs-
ancial, uma iné cia e um impac o disce ní el, que
az agi os indi íduos, os g upos e as sociedades.
Não é a pu a ag egação conjun u al das decisões e
compo amen os indi iduais, p e endida po odas
as a ian es do a omismo.
A segunda con i mação espei a à concep uali-
zação da elação en e es u u a e ação. Os sociólogos
PROCESSOS NO TEMPO: UMA REFLEXÃO SOBRE O VALOR QUE A HISTÓRIA ACRESCENTA À SOCIOLOGIA...
113
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 107-116
não expe imen am di i culdade em explica que a
es u u a ep esen a um condicionamen o ex e io
à ação – po exemplo, as limi ações que os me ca-
dos de p odu os e se iços colocam à inicia i a de
cada emp esá io ou g upo de emp esá ios. Mas já
se passa coisa di e en e quando se a a de mos a
que a es u u a ge a a ação po que é in e nalizada
nela – bas a que nem odos os sociólogos acei am
es a p oposição. E, con udo, qualque especialis a
ou simples es udan e da his ó ia das men alidades
o comp eende bem – po que, p ecisamen e, es á
há mui o habi uado (desde pelo menos o es udo
undado de Lucien Feb e sob e as condições da
desc ença no século XVI, a p opósi o de Rabelais)
a e como as manei as de se , pensa e agi cole-
i amen e o jadas e di undidas, nas di e en es
épocas e espaços, moldam ão decisi amen e os
compo amen os indi iduais e g upais. Moldam po
assim dize po den o, is o é, enquan o são assu-
midos e in e io izados como o sis ema de pe ceção
e ap eciação p óp io de cada a o . Du an e bas an e
empo, os his o iado es igno a am o concei o de
habi us, p opos o po Pie e Bou dieu, pa a da
con a des e p ocesso de inco po ação ( ambém
em sen ido li e al) da es u u a. Po ém, a mui os
sucedia o mesmo que a M. Jou dain, le bou geois
gen ilhomme de Moliè e: aze p osa sem epa a …
Ques ões de epis emologia
A epis emologia é o conhecimen o sob e o
conhecimen o cien í i co – uma e l exão o ganizada
sob e as condições de p odução e alidação do
conhecimen o cien í i co. Nes e plano, a his ó ia pode
ajuda bas an e a sociologia a a ança em duas
ques ões eco en es: a elação en e o ge al e o
singula , do pon o de is a do alcance das eo ias; e
a elação en e o desc i i o e o explica i o, do pon o
de is a da in eligibilidade dos ac os.
Uma das ideias undamen ais de Max Webe
é que as ciências sociais são ciências cul u ais e
his ó icas. Cul u ais, po que a in e p e ação de udo
o que en ol e a ação dos homens e das mulhe es
eque uma mediação a a és do sen ido que os
homens e as mulhe es a ibuem ao que azem.
His ó icas, po que es a mesma ca a e ís ica dis in-
i a do compo amen o humano ace a ou os ipos
de compo amen o con e e uma na u eza indi e a,
mediada, a odo o conhecimen o que o conside a – e
um con o no singula , e e ido a uma cons elação
em conc e o, como al única, à eo ia que p ocu a
explicá-lo (pa a maio desen ol imen o, c . Sil a,
1988).
Es a ideia pa ece-me p o undamen e a ual. Mas
ela de e con ibui pa a supe a alsas oposições.
Em p imei o luga , o alcance egional ou local
(uso me a o icamen e es as ma cações geog á i cas)
das explicações his ó ico-sociológicas em nada
impede ou pe u ba o não menos indispensá el
abalho de modelização. P ecisamos é de comp e-
ende que o modelo de análise não é o i m úl imo,
mas um ins umen o da in es igação. Sob pena
de o desca na mos a é ao pon o de i ca azio, o
modelo de e se pe manen emen e sujei o à p o a
da con on ação com con i gu ações de a iá eis
conc e as, po aí singula es, no duplo sen ido de
especí i cas e i epe í eis. A bem dize , a explicação
p op iamen e di a incula-se à singula idade: à
singula idade do p oblema ou p oblemas que omou
po linha condu o a, à singula idade do obje o que
a p opósi o dele ou deles de i niu, à singula idade
do plano de obse ação (em sen ido amplo, da
pesquisa empí ica) que a p opósi o dele delineou
e do modo de abo dagem que assim p a icou.
A consciência escla ecida des a na u eza, que o
abalho do his o iado an o a o ece, é um bom
an ído o con a os excessos de o malismo, isco
semp e p esen e em ciências como a sociologia e a
economia. Po que é ambém a consciência de uma
e dade lógica elemen a , an as ezes esquecida:
a máxima abs ação (a máxima abs ação, que abs-
ai é in ínseco ao es o ço in elec ual) maximiza a
gene alidade mas minimiza a densidade. A solução
não es á, pois, em escolhe um ou ou o umo,
mas sim em combina os dois – num mo imen o
de ai ém en e o modelo e, di ia Robe Me on,
a eo ia de médio alcance, en e as leis ge ais e as
explicações con ingen es (no sen ido de inculadas
a ci cuns âncias especí i cas), en e o conhecimen o
global e o “conhecimen o local”.
A exp essão en e aspas pe ence não a um
his o iado , mas a um an opólogo, bem cien e da
con l uência das manei as de pensa nas ciências
humanas. Falo de Cli o d Gee z, que é, do meu
limi ado ângulo de isão, quem melho acen ua a
impo ância daquele mo imen o, sem nunca pe de
de is a que se a a de um mo imen o in e no
à eo ia, is o é, a um dado ní el de abs ação e
gene alidade. Esse é o pon o: usando e es ando
modelos em explicações indexadas a singula idades,
e p ocu ando in e i des as explicações p oposições
que possam obus ece e desen ol e modelos
de maio gene alidade, es amos semp e a aze
ciência, o que que dize , es amos a gene aliza .
Cump indo, diz exp essi amen e Gee z (1983:
176), “a a e a do a í i ce, de e p incípios ge ais
em ac os pa oquiais”.
Es amos a “gene aliza não “a a és dos casos,
mas [a] gene aliza den o deles” (Gee z, 1978:
36), es amos a “gene aliza em p o undidade” (Sil a,
1994: 71-74). Ambas as ó mulas ão ao limi e da
coe ência lógica, pa a sublinha que, his o iado ou
sociólogo, o cien is a lida com os p oblemas que ele
p óp io de i niu po e e ência à p oblemá ica de que
pa iu; e os p oblemas eme em pa a modalidades
de elação en e ac os cuja elucidação implica des-
Augus o San os Sil a
114
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 107-116
ce ao especí i co de cada con i gu ação dos ac os e
dos seus con ex os. Não pa a igno a as ipologias
ge ais que o ganizam aquelas modalidades, pelo
con á io, pa a as aplica . Não pa a i ca aí, na
i edu í el conc e ude de cada empi ia, mas pa a
ilumina além dela, co obo ando ou econs uindo
as ipologias – de o ma que as ipologias ago a
abalhadas possam se i , po sua ez, de hipó e-
ses de análise e in e p e ação na conside ação de
ou as conc e as empi ias (e assim sucessi amen e).
Reba a-se, pois, sem hesi ação, essa imagem
eco en e do his o iado como aquele que puxa a
explicação da gene alidade pa a a especi i cidade
singula e con ingen e. Pelo con á io: não só a
gene alidade es á semp e p esen e, po maio que
seja a excecionalidade do caso conside ado (mesmo,
po exemplo, na ob a do génio a ís ico); como, pelas
azões que já abundan emen e imos, a his ó ia,
na medida em que encaixa os ac os no empo, na
medida em que a a os ac os como p ocessos e na
medida em que es imula as abo dagens genealógicas
(buscando o passado do caso con empo âneo, is o é,
a sua o mação e desen ol imen o) e compa a i as
(con as ando sis ema icamen e di e en es casos,
de di e en es con ex os, elacioná eis em di e en-
es dimensões), a his ó ia cons i ui um pode oso
ecu so pa a os es o ços cien í i cos de in e p e ação
po gene alização.
Coisa análoga se diga do elacionamen o en e
os di e sos ní eis de in eleção dos ac os. É habi ual
con apo -se, mesmo na mais so i s icada ciência
social, o que é explica i o e o que é desc i i o. Expli-
ca se ia da con a de ce os ac os iden i i cando as
causas de que p ocedem, as i nalidades que (sendo
compo amen os indi iduais) p osseguem, ou as
egula idades em que se insc e em. Desc e e
se ia só econs i ui esses ac os numa linguagem
p óp ia (dos audi ó ios a que são epo ados),
sis ema izando-os e o nando comp eensí eis os
seus con eúdos – enunciando, pois, a explicá-los.
O a bem: a his ó ia “in insecamen e socio-
lógica” e idencia duas coisas mui o impo an es.
Uma é que, es ando em causa encadeamen os
de si uações ou e en os no empo, a na a i a é
indispensá el à sua plena in eleção. Há ce amen e,
já o imos, á ias o mas de encadeamen o, não
edu í eis apenas à sucessão linea – mas não se á
p eciso in oca a li e a u a pa a eco da que há
ambém á ias o mas de na a i a, não es amos
limi ados à o denação linea . Nas ciências sociais,
que odas lidam mais ou menos di e amen e com o
empo, desc e e é ambém na a . Is o é, e em
con a o elemen o dinâmico das ealidades sociais.
Depois, desc ição e na ação são ambas
imp escindí eis à explicação – e, designadamen e,
à e são mais o e da explicação, a explicação
causal. Quem quise i ca -se po p oposições de
na u eza eleológica ou pela subsunção do caso na
egula idade a que pe ença pode al ez dispensa
(é uma concessão que aço, po azões de b e idade
na a gumen ação) a ca a e ização subs an i a dos
ac os sociais que conside a. Mas, como esc e eu
Boa en u a de Sousa San os (1988), ”«o quê» do
acon ece só é susce í el de explicação enquan o
«como» do acon ece ”. É ambém is o que pedimos ao
sabe especializado: que nos dê a conhece di e sas
ealidades, na p óp ia iqueza e complexidade de
cada uma, pa a que assim possamos comp eendê-
-las melho (e, po aí, comp eende melho que
a p óp ia ealidade em que i emos, que aquela
que p oje amos).
A his ó ia es á mui o longe de se apenas,
ou sob e udo, na a i a. A explicação densi i ca
e escla ece a desc ição e a na ação. Mas, pelo
menos nas ciências sociais e humanas, a explica-
ção comp eende, in eg a a desc ição e a na ação
– exac amen e po que p ocu a o na in eligí el a
ação humana, de e in e p e a e es i ui os seus
con eúdos signi i can es e de e si uá-la nesse de i
que, a i nal de con as, esul a do agi .
Ques ões de comunicação
A his ó ia pode con ibui pa a a eo ia e a
in es igação sociológica, em múl iplos planos e de
á ias manei as. Aliás, i ualmen e em odos os
planos ele an es pa a a p odução cien í i ca – a
cons ução disciplina da p oblemá ica e do obje o
de es udo, o desenho me odológico, a elabo ação
eó ica; e incluindo a e en e, não menos impo -
an e, da e l exão epis emológica do cien is a sob e
as condições e os esul ados do seu labo .
Es es con ibu os deco em, em encadeamen o
lógico, de um pon o de pa ida – uma pe spe i a,
um oco que ilumina de ce a manei a as ealidades
sociais. É a a enção ao empo, a conside ação do
empo como a iá el-cha e (independen e e depen-
den e) da con o mação dessas ealidades. O que que
dize colocá-las, si uá-las a elas na du ação – nas
es u u as e nos p ocessos, ou melho é dize , como
Magalhães Godinho, na “in e conexão de es u u as
e p ocessos” que se alongam no empo. Fazendo-o,
logo essal am ce as o ien ações básicas pa a a
pesquisa social: o encaixe dos ac os (e en os ou
o inas, a i udes ou compo amen os, a ibu os pes-
soais ou pad ões g upais, e c.) no espaço- empo, no
quad o espácio- empo al que lhes se e de con ex o
(e “in- ex o”) es u u al; a dilucidação da ensão,
do jogo en e ep odução e mudança, con inuidade
e ans o mação; a ele ação da espessu a e da
densidade his ó ica das es u u as da nossa con-
empo aneidade; a assunção da na u eza si uada,
sociocul u al, dos p odu os da ação e da c iação
humana que usamos ago a como es ígios, aços,
es emunhos, ca as de ma ea do nosso olha , e
a amos como on es; a indexação undamen al de
PROCESSOS NO TEMPO: UMA REFLEXÃO SOBRE O VALOR QUE A HISTÓRIA ACRESCENTA À SOCIOLOGIA...
115
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 107-116
cada explicação ao conjun o de ac os que isola e
sonda, em si mesmo singula .
A his ó ia só é capaz de o e ece (ou co obo a )
es es con ibu os sob duas condições.
A p imei a é en ende o empo, a du a-
ção, não como um dado, mas como um p oble-
ma. Não como uma da ação na c onologia, não
como uma diac onia que o ganiza ia a na ação
e a explicação causal po sequenciação linea de
acon ecimen os, mas como um quad o social:
uma ma é ia plás ica que as sociedades moldam,
um eixe de múl iplos i mos e pulsações, á ias
escalas, á ias pau as condu o as da ação de cada
a o . Tempos, no plu al – encon os e desencon os
de empos.
E a segunda condição é en ende -se a his ó ia
a si p óp ia como uma ciência social plena, plena-
men e in eg ada no uni e so das ciências sociais
e pa icula men e p óxima da sociologia, quando
e ém sociedades complexas (e da an opologia,
quando e ém sociedades elemen a es ou nichos
especí i cos das sociedades complexas).
Os con ibu os apenas azem sen ido, po an o,
numa elação dialogal. Uma disciplina ac escen a
alo à ou a de que ecebe ambém alo . P imado
da con aminação sob e a es anquidade, p imado da
a essia sob e a on ei a. Não se a a, bem en en-
dido, de asu a as di e enças, apaga as ma cas e
os limi es, dilui as disciplinas – a úl ima pessoa a
pode emba ca nessa a en u a sem e o no se ia,
aliás, o his o iado , po que ele de e aplica às p ó-
p ias ciências o que sabe sob e a impo ância dos
p ocessos e olu i os pa a a con i gu ação a ual das
coisas. E, se é a ciência social a coisa a conside a ,
en ão é mis e comp eende que cada uma é hoje,
ambém, o que a adição eó ica, a ins i ucionaliza-
ção académica, o ensino especializado, o pe cu so
no campo cien í i co, lhe de e mina am.
Sendo a endência dominan e, ainda, a com-
pa imen ação, con inuemos a coloca a ên ase na
comunicação. Seguindo a b a a exo ação que nos
deixou o p o esso Magalhães Godinho - “galguem
odas as on ei as”:
“Po que a g ande p eocupação em sido
o ula , dema ca cada qual o seu ja dim. O a
o que no undo impo a são os p oblemas, os
ó ulos a apalham mais do que escla ecem.
Há, sim, que aça com ni idez a linha di i-
só ia en e ciência e ideologia, en e eo ia e
dou ina. A o a essa dema cação, os g andes
p og essos êm-se ealizado g aças a con e -
gências en e ciências inicialmen e di e en es
ou a é opos as, po se coloca em em pon os
de is a dis in os. […] Mas se um conselho
se pode da aos in es igado es e pensado es
que, seguindo Mon aigne, p e endem «saisi
l’humaine condi ion» – ap eende a condição
humana – é que esqueçam odos os ó ulos
e galguem odas as on ei as” (Godinho,
2011: 26).
Ciência e ideologia, eo ia e dou ina são ins-
âncias di e sas de sabe e p onunciamen o sob e
o mundo. As in l uências ecíp ocas não de ogam
a au onomia ela i a. Mas a ciência ambém é um
discu so público. O discu so cien í i co, que se di ige
em p imei o luga ao in e io da comunidade aca-
démica, di ige-se e de e di igi -se, de o ma de i-
ada, adap ada às ca ac e ís icas e in e esses dos
di e en es audi ó ios, ao público – às ins i uições,
aos g upos sociais. Po maio ia de azão no caso
das ciências sociais e humanas, necessa iamen e
p esen es, quei am ou não os seus cul o es mais
igo is as, no espaço público – e que, po an o,
de em e l e i sob e essa p esença e es u u á-la
com cuidado e empe ança.
O a, ambém aqui, nes e abalho de conso-
lidação da comunicação pública, en endo que a
sociologia pode i a p o ei o de um diálogo es ei o
com a his ó ia.
Em p imei o luga , pode colhe um p incípio a
que chama ei de au onomia do eal. Lemb a-se o
lei o ou lei o a do céleb e di o de Hamle a Ho ácio:
“Há mais coisas no céu e na e a do que sonha a ua
i loso i a”? Pois aplique-o ambém à ciência social. O
“ eal” é semp e mui o mais complexo, mui o mais
mul i ace ado, mui o mais dinâmico do que pode
ap eende o conhecimen o, po mais a mas que
p o idencie o seu a senal eó ico e écnico. A abs-
ação indispensá el ao abalho cien í i co signi i ca
semp e seleção, is o é, escolha, pa ição, iluminação
dis o e apagamen o daquilo (daí os “ ipos ideais” de
Max Webe ). E a consciência de al limi e implica a
assunção da necessidade de emp eende cons an-
emen e no as abo dagens, no as ap oximações
ao eal que buscamos conhece .
Em segundo luga , uma a i ude de humildade
in elec ual. Incomple ude e ela i idade dos sabe es
– não apenas (p imei o p incípio) po que a ealidade
es á semp e pa a além do que em cada momen o
sabemos dela, mas ambém (es a a i ude) po que o
sabe é semp e en a i o, a sua ma iz é a conje u a.
Po mais sólida que pa eça, uma eo ia ep esen a
semp e, no seu melho , nada mais do que um co po
de hipó eses pa a o ien a indagações u u as e pa a
se esc u inado em indagações u u as.
E, i nalmen e, uma disposição pa a en en-
de e alo iza a cul u a humanis a. Isso que az
que con inue a e sen ido, a meu e , ala de
ciências sociais como ciências humanas: ciências
sociais e humanas. Humanismo, o humanismo
en iquecido pela cul u a e a p á ica cien í i ca,
que dize con icção em duas possibilidades: a
possibilidade de escla ece ques ões a a és do
conhecimen o das múl iplas e di e sas c iações
Augus o San os Sil a
116
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 107-116
humanas no espaço e no empo; e a possibilidade
de assim con ibui pa a um deba e público, c í ico,
o ganizado e cons u i o.
Já ninguém pode á hoje eclama o papel
de um Mon aigne, capaz de aba ca , numa isão
de la go espec o, o amplíssimo ho izon e dos
p oblemas que de i nem uma condição humana.
Eu, pelo menos, emo p o undamen e os a au os
eco en es de um ensaísmo p on o pa a odas as
es ações, ei o de imp essões, a ojos e i gu as de
es ilo que dis a çam mal o mais p ecá io e ince o
senso comum. Mas, esquecendo ó ulos e galgando
on ei as, não po pulsão de moda mas na senda
de p oblemas, pode emos aspi a a uma o ina de
abalho conjun o das ciências sociais e da cul u a
humanís ica, capaz de se ele, esse abalho conjun o,
o nosso Mon aigne de ago a – um olha de g ande
en e gadu a sob e os homens e as mulhe es, esses
que somos, sendo ao mesmo empo nós-sujei o e
nós-obje o do conhecimen o que en amos cons ui .
Re e ências bibliog á i cas
GEERTZ, C. ([1973] 1978), A In e p e ação das Cul u as,
Rio de Janei o, Zaha .
GEERTZ, C. (1983), Local Knowledge, No a Io que,
Basic Books.
GODINHO, V. M. (1981), As Ciências Humanas: Ensino
Supe io e In es igação Cien í i ca em Po ugal,
Lisboa, Sociedade Po uguesa de Ciências Sociais
e Humanas.
GODINHO, V. M. (2011), P oblema iza a Sociedade,
Lisboa, Que zal.
PIRES, R. P. (2007), “Á o es concep uais: uma econs-
ução mul idimensional dos concei os de acção e
de es u u a”, Sociologia, P oblemas e P á icas,
53: 11-50.
SANTOS, B. S. (1988), “Uma ca og a i a simbólica das
ep esen ações sociais”, Re is a C í ica de Ciências
Sociais, 24: 139-172.
SILVA, A. S. (1988), En e a Razão e o Sen ido:
Du kheim, Webe e a Teo ia das Ciências Sociais,
Po o, A on amen o.
SILVA, A. S. (1994), Tempos C uzados: Um Es udo In e -
p e a i o da Cul u a Popula , Po o, A on amen o.

NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE ORIGINAIS
117
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 117-118
A e is a Fo um Sociológico publica a igos
o iginais, en e is as, ecensões c í icas e documen-
os. Todos os o iginais p opos os pa a publicação
na e is a Fo um Sociológico de em se en iados
po e-mail pa a o ende eço ele ónico da e is a
([email p o ec ed]).
Os a igos o iginais êm de se inédi os e não
podem es a a se subme idos pa a publicação em
ou as e is as nacionais. De em e no máximo
40 000 ca a e es (incluindo espaços, esumos,
no as de odapé, bibliog a i a, quad os, g á i cos e
i gu as, o que pe az ce ca de 18 páginas) e podem
in eg a -se nos dossiês emá icos ou se publicados
na secção “Ou os Tex os”. Os a igos p opos os pa a
publicação são subme idos a pa ece de especialis as
das á eas espe i as em egime de anonima o. A
decisão i nal da publicação é da esponsabilidade
do Conselho de Redação. Cada ex o de e inicia -se
com um esumo, em po uguês e inglês, com um
máximo de 1000 ca a e es (10 linhas), seguidos
de 3 ou 4 pala as-cha e nesses mesmos idiomas.
Também se publicam en e is as a especialis-
as sob e emas ele an es no âmbi o das Ciências
Sociais, bem como ecensões c í icas cujas emá icas
sejam pe inen es no âmbi o das Ciências Sociais.
Se ão ambém acei es documen os, no as analí icas
e conclusi as esul an es de abalhos de in es iga-
ção, e ou os documen os conside ados ele an es
que não se enquad am no o ma o p e is o pa a
os a igos. Tais documen os (p oje os, ma e iais
sociog á i cos, documen os, ecensões) de e ão
obse a os seguin es limi es de páginas: no caso
de en e is as, uma a duas páginas; pa a ou os
documen os, a é cinco páginas.
Os ex os de em se ap esen ados em páginas
A4, a espaço e meio (no ma ambém álida pa a a
bibliog a i a), em ipo de le a “Times New Roman”,
amanho 12 com as ma gens supe io , in e io ,
esque da e di ei a a 2 cm. Os quad os, g á i cos e
i gu as de e ão se nume ados de o ma con ínua,
em nume ação á abe, pa a cada um dos elemen os
espe i os (Quad o 1; G á i co 1; Figu a 1).
Ado amos a no ma de ci ação anglo-saxóni-
ca: au o , ano de edição, página. Ex.: (Elias, 1983:
5). Quando as ansc ições ul apassa em as 5 li-
nhas de ex o, de em i des acadas do co po
do ex o em le a amanho 11 e ma gens la e-
No mas pa a ap esen ação de o iginais
ais de 1 cm. Pa a as ansc ições de meno
dimensão, de e ão se u ilizadas as aspas duplas
(“…”); pa a ci ações secundá ias (den o da p óp ia
ansc ição), de e ão u iliza -se as aspas ancesas
(«…»); o i álico de e á se u ilizado apenas no caso
de se a a de uma ci ação des acada em língua
es angei a.
As e e ências bibliog á i cas são ap esen adas
de o ma al abe icamen e o denada po úl imo
nome do p imei o au o no i nal do a igo. De e ão
obedece às seguin es eg as: o úl imo nome do
p imei o au o , p imei os nomes do p imei o au o ;
no caso de ha e mais do que um au o , os seus
nomes apa ecem pela o dem no mal, seguido do
ano de edição (e o ano de edição o iginal caso se
conheça), o í ulo da ob a, a localidade, edi o a; os
í ulos de li os e e is as apa ecem em i álico e os
í ulos dos ex os ou a igos en e aspas. No caso
de os au o es se em múl iplos, pode iden i i ca -se o
p imei o au o , ou os dois p imei os, seguido de “e
al.”. Caso se conheçam, de em se assinalados os
au o es quando o ganizado es da ob a ou quando
esponsá eis pela sua edição. Essa in o mação de e
se colocada en e pa ên esis, logo após os nomes
a que dizem espei o: (o g.) ou (o gs.), (ed.) ou
(eds.).
Exemplos:
BOLTANSKI, L. e L. Thé eno (1991), De la
jus i i ca ion. Les économies de la g andeu , Pa is,
Édi ions Gallima d.
COWAN, P. A. e M. He he ing on (o gs.) (1991),
Family T ansi ions, No a Jé sia, E lbaum.
DODIER, N. (1989), “Le a ail d’accommoda ion
des inspec eu s du a ail en ma iè e de sécu i é”, in
L. Bol anski e L. Thé eno (eds.), Jus esse e jus ice
dans le a ail, Pa is, CEE – PUF, pp. 91-114.
DURKHEIM, E. ([1897] 1960), Le Suicide,
Pa is, PUF.
KRIEGER, N.; D. Rowley, e al. (1993), “Racism,
Sexism, and Social Class: Implica ions o S udies o
Heal h, Disease and Well Being”, Ame ican Jou nal
o P e en i e Medicine, 9 (3), pp. 82-122.
REVEL, J. (1986), “Les usages de la ci ili é”,
in P. A iès e G. Duby, His oi e de la ie p i ée, ol.
3, Pa is, Seuil.
NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE ORIGINAIS
118
FORUM
Sociológico
N.º 23 (II Sé ie, 2013)
pp. 117-118
PROCESSO DE ARBITRAGEM CIENTÍFICA
 A qualidade cien í i ca dos a igos publicados
na e is a Fo um Sociológico é assegu ada
po um p ocesso de a bi agem anónimo.
 Os a igos p opos os são subme idos a uma
p imei a análise po pa e do Conselho de
Redação.
 Os a igos que se in eg em no âmbi o dis-
ciplina da e is a são pos e io men e sub-
me idos a pa ece de especialis as das á eas
espe i as ( e e ees), num mínimo de 2, em
egime de anonima o.
 Os e e ees se ão escolhidos de en e os
memb os do Conselho Edi o ial, eco endo-se
ambém a ou os epu ados especialis as no
domínio das p opos as de publicação.
 A decisão i nal de publicação é da esponsa-
bilidade do Conselho de Redação, com base
nos pa ece es emi idos pelos e e ees.
 Os pa ece es dos e e ees são en iados aos
au o es de o ma anónima, acompanhados de
uma ca a do Di e o suge indo a ealização
das al e ações ou co eções p opos as nos
e e idos pa ece es.
 No caso de se em suge idas aos au o es
al e ações ou co eções, o Conselho de
Redação zela á pela e e i a in odução das
mesmas.
 Os a igos a in eg a os Dossiês Temá icos
se ão publicados segundo os c i é ios acima
enunciados. Em complemen o, pode ão os
o ganizado es do Dossiê aze con i es de
publicação a especialis as no domínio em
causa, os quais i cam sujei os à ap o ação
do Conselho de Redação.
 A lis a de e e ees se á publicada pe iodica-
men e na p óp ia e is a, sem no en an o se
iden i i ca em os a igos analisados po cada
um.
ASSINATURAS
Todos os núme os da Re is a Fo um Sociológico podem se adqui idos p esencialmen e ou
encomendados.
Mo ada:
Re is a Fo um Sociológico
CesNo a – Cen o de Es udos de Sociologia da Uni e sidade No a de Lisboa
Edi ício I&D, A enida de Be na, 26 – 1069-061 Lisboa
E-mail: [email p o ec ed]
Tele one: 00351 21 790 83 00 (ex . 1488)
P eço po exempla : €10,50 (c/IVA)
ASS
INAT
U
RA
S
Todo
s
o
s n
ú
me
o
s
da
Re is
a
F
o um Socioló
g
ico
p
odem se ad
q
ui idos
p
esencialmen e ou
enc
ome
nda
dos
.
Mo
ada:
R
e is
a
F
o um Socioló
g
ico
CesNo a – Cen o de Es udos de Sociolo
g
ia da Uni e sidade No a de Lisboa
E
di ício I&D, A enida de Be na, 26 – 1069-061 Lisboa
E
-mail: [email p o ec ed].
p
Tele
o
ne:
0
0351 21 790 83 00
(e
x . 14
88)
P
e
ç
o po exempla : €10,50
(
c/I
VA)
Re is a
Fo um Sociológico
CesNo a – Cen o de Es udos de Sociologia
da Uni e sidade No a de Lisboa
Edi ício I&D, A enida de Be na, 26
1069-061 Lisboa
E-mail: [email p o ec ed]
Si e: h p:// o umsociologico. csh.unl.p

[Document text truncated for crawler view.]