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VOL. 26, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2008
Epidemiologia
A dimensão espácio- empo al
em saúde pública: da desc ição clássica
à análise de clus e ing
CARLA NUNES
TEODORO BRIZ
DULCE GOMES
CARLOS MATIAS DIAS
O es udo da dis ibuição geog á ica e empo al das doen-
ças, dos seus de e minan es e das ca ac e ís icas básicas da
população em uma longa adição em Epidemiologia.
É indispensá el isualiza e ca ac e iza essas dis ibui-
ções, pa a con ola as doenças e p omo e a saúde, pelo
que esse es udo, hoje, az pa e da missão des a á ea pa a
o conhecimen o e e o ça a u ilidade ac ual da Epidemiolo-
gia em Saúde Pública. O p incipal objec i o da desc ição e
da análise de dados geo- e e enciados no âmbi o da Saúde
Pública é a melho comp eensão da his ó ia na u al e da
dis ibuição espacial dos enómenos de saúde.
Es a á ea emá ica especí ica em-se desen ol ido, nas úl i-
mas décadas, com um eno me e c escen e impac o e é
usualmen e conc e izada em ês abo dagens in e elacio-
nadas: (1) o mapeamen o de doenças e seus de e minan es,
(2) o es udo de co elações geog á icas e (3) o clus e ing, ou
aglome ação, espácio- empo al. O p esen e abalho
deb uça-se sob e es a úl ima.
Os mé odos de clus e ing espácio- empo al pe mi em que a
possí el he e ogeneidade de uma dis ibuição no espaço
e/ou no empo, isí el nas ep esen ações g á icas clássicas,
seja in e p e ada de uma o ma igo osa e consis en e a a-
és de p ocessos es ocás icos, não dependendo dos possí eis
a e ac os de uma simples ep esen ação g á ica.
O ganho em in e p e ação conseguido de e-se, essencial-
men e, à melho capacidade de comp eensão das dis ibui-
ções p obabilís icas espácio- empo ais, sendo os esul ados
ep esen ados g a icamen e. Facili am a dis inção de dis i-
buições isualmen e ilusó ias, p oduzidas po a e ac os
das écnicas adicionais ou pelo acaso, de dis ibuições
ealmen e explicá eis pelos p óp ios espaço ou empo.
Os mé odos de clus e ing espácio- empo al êm alguma
complexidade e limi ações, pa cialmen e em comum com os
mé odos adicionais. Con udo, a esul an e inal, quan o à
sua aplicabilidade e in e esse em Epidemiologia e em Saúde
Pública, a igu a-se ancamen e animado a. O ganho que
deles se ob ém em a aduzi -se em maio p ecisão e segu-
ança das decisões e da in e enção e, po isso, conduzem
a maio e ec i idade em Saúde Pública.
Pala as-cha e: epidemiologia; saúde pública; clus e ing
espácio- empo al; ube culose; anomalias congéni as.
1. In odução
O es udo da dis ibuição geog á ica e empo al das
doenças, dos seus de e minan es e das ca ac e ís icas
básicas da população em uma longa adição em
Epidemiologia. A impo ância da isualização da dis-
Ca la Nunes é es a is a, p o esso a de Es a ís ica da Escola Nacio-
nal de Saúde Pública-UNL, in es igado a do CIESP/ENSP.
Teodo o B iz é p o esso de Epidemiologia da Escola Nacional de
Saúde Pública-UNL, in es igado do CIESP/ENSP.
Dulce Gomes é es a is a, p o esso a de Es a ís ica da Uni e sidade
de É o a, in es igado a do CIMA-UE.
Ca los Ma ias Dias é médico especialis a em Saúde Pública, assis-
en e con idado de Epidemiologia da Escola Nacional de Saúde
Pública-UNL.
Subme ido à ap eciação: 12 de Fe e ei o de 2008
Acei e pa a publicação: 14 de Ma ço de 2008
6REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Epidemiologia
ibuição empo al e espacial pa a o con olo das
doenças o nou-se mais e iden e com os abalhos de
John Snow que no inal do século XIX c iou as linhas
ge ais da in es igação epidemiológica (C osie ,
2007). Visualiza e ca ac e iza essa dis ibuição é
indispensá el pa a con ola as doenças e p omo e a
saúde, azendo hoje pa e da missão des a á ea pa a
o conhecimen o e e o çando a sua u ilidade em
Saúde Pública (English, 1992; Buehle e al., 2004).
O espaço e o empo compo am-se como duas sub-
dimensões in e dependen es, de um único e e encial:
o «espaço- empo». O es udo de um enómeno exclu-
si amen e segundo uma dimensão ob iga ao p essu-
pos o da « ixação» da ou a, esul ando semp e numa
análise limi ada. Tendo em con a simul aneamen e as
duas sub-dimensões, o esul ado é menos a i icial,
mais ico e ú il à decisão (B ownson, 1998).
Os p imei os es udos da dis ibuição geog á ica dos
acon ecimen os de saúde basea am-se essencial-
men e no simples mapeamen o e acon ecimen os ou
de axas de doenças ou óbi os, pa a pe mi i em, po
exemplo, a e e enciação e i o ial dos enómenos, a
de inição de algumas hipó eses de in es igação pa a
pos e io es análises ou o planeamen o e a a aliação
de se iços (B ownson, 1998; Buehle , 1998; Ellio
e Wa enbe g, 2004).
Mais a de, oi-se di e enciando uma no a á ea de
in es igação em Saúde Pública, a denominada Epide-
miologia Espacial, de inida como a «desc ição e aná-
lise de dados geo-Re e enciados». Tem como p inci-
pal objec i o uma melho comp eensão da his ó ia
na u al e da dis ibuição geog á ica dos enómenos
de saúde. O seu impac o em sido eno me e c es-
cen e, nas úl imas décadas. Es a á ea do conheci-
men o inclui ês abo dagens p incipais, in e elacio-
nadas: (1) mapeamen o de doenças e seus
de e minan es, (2) es udo de co elações geog á icas
e (3) clus e ing, ou aglome ação, espácio- empo al
(Ellio e Wa enbe g, 2004).
Es e abalho abo da a úl ima des as á eas e p e ende
desc e e , de o ma sis ema izada e in ui i a, o
po encial dos p ocessos es ocás icos subjacen es,
assim como a sua ele ância pa a as abo dagens de
Saúde Pública. Nomeadamen e, é jus i icado o seu
papel na análise da dis ibuição geog á ica dos enó-
menos de saúde e na melho comp eensão da sua
his ó ia na u al. Os au o es p e endem con ibui pa a
uma maio di ulgação e alo ização, bem como pa a
uma u ilização mais co en e, des e ipo de me odo-
logia es a ís ica. Es e ensaio é subsc i o po in es i-
gado es em campos cien í icos complemen a es,
e lexo da ansdisciplina idade em causa. Tem como
es a égia o ecu so a uma e lexão a pa i de ilus a-
ções p o enien es de esul ados in e cala es de pes-
quisas que es ão a deco e , ela i as à ca ac e ização
do con olo da ube culose (dados en e 2000 e 2004)
e à e olução das anomalias congéni as no i icadas
em Po ugal — dados en e 1997 e 1999 (Nunes,
2007; Nunes e al., 2007a; Nunes e al., 2007b).
2. Dis ibuições espácio- empo ais
e a me odologia de clus e ing —
duas ilus ações
Um clus e , ou aglome ação, espácio- empo al pode
se de inido como uma ag egação não habi ual e
inespe ada de e en os (ou ca ac e ís icas), que su -
gem ag upados no espaço e no empo, simul anea-
men e. Uma das p incipais u ilidades de uma análise
de clus e ing em Saúde Pública é a de de ec a onde
e quando es á a acon ece uma equência inespe ada
de um de e minado enómeno de saúde (doença,
mo e, p ocu a de cuidados po uma de e minada
causa, consumo de um ecu so, en e ou os), ou de
um p edi o de isco, ou ambos. A abo dagem es a-
ís ica que sus en a a e idência de que a aglome ação
iden i icada em con o nos que excedem o espe ado,
pa a lá do que o simples acaso explica ia, e ela-se,
pois, de g ande impo ância e em um eno me po en-
cial pa a apoia a decisão em Saúde Pública. Po
exemplo, um sis ema de igilância pode se en ique-
cido e o na -se mais ú il se con i e um p ocesso
que de ec e sis emá ica, p ecoce e quase au oma ica-
men e, no os aglome ados de acon ecimen os eme -
gen es ou que acompanhe a e olução de clus e s
an e io men e iden i icados como eais, não
a e ac uais, apoiando o di eccionamen o das conse-
quen es decisões pelas au o idades e po enciando os
ganhos da in e enção (Alexande e Cuzick, 1992;
Buehle e al., 2004).
A p imei a ilus ação ap esen ada diz espei o à
ube culose, uma doença de decla ação ob iga ó ia
com ele ado impac o em Saúde Pública, em elação
à qual se es ima que mais de 80% dos casos são
no i icados em Po ugal. As anomalias congéni as
são a base da segunda ilus ação, um p oblema eo-
icamen e mais di ícil de ca ac e iza , is o não se
de decla ação ob iga ó ia. No en an o, admi e-se,
com undamen o, que o g au de no i icação de ano-
malias congéni as se á ele ado e semelhan e ao de
ou os países eu opeus ociden ais (B iz, 2007; Po u-
gal. Minis é io da Saúde. CERAC/INSA/ONSA,
2000).
1.a ilus ação — ube culose
Po ugal em um Plano Nacional de Con olo da
Tube culose, que inclui um sis ema de in o mação de
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VOL. 26, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2008
Epidemiologia
igilância especí ico baseado na no i icação ob iga-
ó ia de cada caso no o, (SVIG-TB), ab angendo
odo o País. Es e sis ema pe mi e a e e enciação dos
casos diagnos icados no espaço e no empo em odo
o país (Po ugal. Minis é io da Saúde. DGS, 1995).
A Figu a 1 ilus a a dis ibuição espacial das axas de
incidência de ube culose no i icada em Po ugal em
2006, po dis i os, e e enciadas ao alo global do
País (es e alo é a média ponde ada das axas nos
dis i os; os alo es das axas são classi icados em:
meno es ou iguais a essa média, ou, se não, maio es
que ela), pa a oda a população (homens e mulhe es
em conjun o).
A igu a ap esen a, de o ma cla a a dis ibuição
espacial das axas de incidência de ube culose, con-
o me exp essa pela no i icação, e idenciando uma
dispe são não homogénea.
No en an o, es a ap esen ação desc i i a dos indica-
do es con ém algumas agilidades que impo a e e :
po um lado não inco po a p ocessos que possam
assegu a que o acaso não explica po si só a he e o-
geneidade isí el. Não pe mi e, ambém, con ex ua-
liza a si uação no ano 2006 ela i amen e ao e i i-
cado nos anos an e io es, nem p ojec a a e olução
p e isí el em anos seguin es. Po ou o lado, a in o -
mação isual depende dos limi es das classes de
alo es da axa p é-es abelecidos (nes e caso, o ma -
co que dis ingue os alo es «ele ado» e «baixo» é a
média ponde ada em oda a á ea nacional), além de
que é mui o in luenciada pela gama de co es
escolhida (Ellio e Wa enbe g, 2004).
Também a u ilização de apenas duas classes de alo-
es c ia uma si uação de g ande descon inuidade, que
é b usca nos ex emos dos in e alos de inidos,
Figu a 1
Taxa de incidência (10–5) de ube culose no i icada no Con inen e
(po dis i os) e egiões au ónomas, em 2006
Fon e: Po ugal. Minis é io da Saúde. DGS, 2007.
Taxa MF
Região Au ónoma
da Madei a
Região Au ónoma
dos Aço es
≤ 29,4
> 29,4
22,5
34,1
31,1
29,5
33,3
8,2
38,9
21,1 19,7
19,2
12,3
13,3
15,9
19,7 15,4
9,6
20,8
45,4
24,9
11,6
8REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Epidemiologia
le ando a que dois alo es mui o p óximos, mas
pe encen es a in e alos di e en es, sejam omados
como dis in os; enquan o que dois alo es que pe -
ençam ao mesmo in e alo, independen emen e das
suas g andezas, se ão semp e classi icados como
ep esen a i os de si uações simila es. Na Figu a 1
es e p oblema oma a dimensão máxima, ao se em
u ilizadas só duas classes de ep esen ação (Ellio e
Wa enbe g, 2004; English, 1992; Smans e Es è e,
1992).
A Figu a 2 diz espei o a cinco anos consecu i os,
com um c i é io di e en e de classi icação da o dem
de g andeza das axas, mais po meno izado, que é
man ido cons an e pa a odos os anos, ga an indo po
esse lado a compa abilidade en e anos.
Nes e caso há já uma dimensão empo al e uma
noção de «e olução», ou «mo imen o», dada pela
compa ação sequencial dos indicado es anuais dis i-
buídos geog a icamen e. Es a ep esen ação é mais
ica em in o mação, com classes de alo es de ampli-
udes mais pequenas e com uma e e enciação geo-
g á ica mais de alhada (concelhos). No en an o, al-
am ainda disposi i os que ajudem a in e p e a que
a he e ogeneidade espacial em cada ano, que a es a-
bilidade ou mudança de alo es no empo, nalguns
concelhos (Se á que o acaso as explica? Ha e á aglo-
me ação pe sis en e nalguns (endemia)? Ou su os
epidémicos, nou os?) (Ellio e Wa enbe g, 2004;
Nunes 2007; Smans e Es è e, 1992).
Ag egando os mesmos dados segundo duas dimen-
sões, espaço e empo, a a és, po exemplo, de uma
axa média (Figu a 3 A), a in o mação esul a mais
ácil de le mas, simul aneamen e, menos ica em
po meno . A Figu a 3 ilus a es as ans o mações e
as suas consequências, e pode se compa ada com a
Figu a 2.
É-lhe e i ado o mo imen o que o decu so do empo
dá ao enómeno (passa a se odo o pe íodo de 2000
a 2004, um pe íodo ala gado de empo), assim como
a e idência de a iabilidade geog á ica (cada dis i o
ag ega ago a a in o mação dos seus concelhos). Em
ambas as ag egações (espaço ou empo), o que é
isualizado é a média ponde ada das axas de ube -
culose nas unidades de empo e espaço an e io men e
e e idas, cujas in ensidades se mis u am numa esul-
an e única, ela i a à unidade geog á ica de ní el
supe io . No e-se como a ag egação em [A] uni o -
miza a apa ência de cada dis i o, azendo desapa e-
Figu a 2
Taxas de incidência de ube culose no i icada no con inen e, po concelho e po ano, de 2000 a 2004 (10-5)
Fon e: adap ado de Nunes, 2007, a pa i da base de dados SVIG-TB (Po ugal. Minis é io da Saúde. DGS).
Sem dados
0-10
10-20
20-40
40-60
> 60
2000 2001 2002 2003 2004
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Epidemiologia
ce algumas especi icidades ex emas dos concelhos
[B], impo an es nas ases de planeamen o e de a a-
liação das in e enções. Po sua ez, passa -se-á o
mesmo em cada concelho, ela i amen e às suas e-
guesias.
O uso de uma écnica es a ís ica pode e i a a e ac-
os esul an es da o ma de isualização, de uma
o ma cien í ica e em que as zonas são iden i icadas
segundo c i é ios que se baseiam em e idências
apoiadas em es es de hipó eses. Uma das écnicas
mais conhecidas é o clus e ing espácio- empo al;
aqui se á e e ida e aplicada, em pa icula , a me o-
dologia que oi desen ol ida po Ma in Kulldo
(1997). Es a é baseada na compa ação de pa âme os
das dis ibuições p obabilís icas de sucessi as janelas
espácio- empo ais de a imen o, com os pa âme os
das dis ibuições das á eas izinhas (spa ial scan
s a is ics), p ocu ando e idência es a ís ica da sua
di e ença e podendo assumi di e sas dis ibuições
(Poisson, Be noulli, en e ou as). Como já oi e e-
ido, o objec i o des e abalho não é ep oduzi a
cons ução ma emá ica des a ou de ou as me odolo-
Figu a 3
Dis ibuição geog á ica da incidência média anual dos casos de ube culose
no i icados em Po ugal, en e 2000 e 2004 (dis i os e concelhos)
Fon e: Po ugal. Minis é io da Saúde. DGS, 2005.
0-10
10-20
20-40
> 60
Casos no os de TB
po 100 000 H
C
AB
10 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Epidemiologia
gias semelhan es, mas sim con ibui pa a que se
con igu em expec a i as adequadas quan o às suas
an agens e limi ações pa a o conhecimen o epide-
miológico.
São ap esen ados na Figu a 4 os esul ados da apli-
cação da écnica e e ida an e io men e ao caso de
es udo da ube culose.
Nes e exemplo, o am iden i icados 3 aglome ados,
dois dos quais de na u eza espácio- empo al e um
ou o apenas espacial (G ande Lisboa e G ande
Po o: 2000 a 2004 e o ano 2002 em odo o con i-
nen e, espec i amen e). No e-se que o que es á a se
es ado é se dis ibuição dos dados de cada clus e é
a mesma que a dis ibuição p obabilís ica dos dados
das á eas adjacen es, sendo que a hipó ese nula co -
esponde a uma igualdade de dis ibuições e a hipó-
ese al e na i a uma di e ença e iden e de dis ibui-
ções p obabilís icas (em e mos da igualdade de
Figu a 4
Mapeamen o dos clus e s espácio- empo ais de ube culose, baseados nas axas
de incidência (10–5; p << 0,001)
Fon e: Nunes, 2007, a pa i da base de dados SVIG-TB (Po ugal. Minis é-
io da Saúde. DGS)
Clus e 1 (2000-2004)
Clus e 2 (2000-2004)
Clus e 3 (2002)
04080
km
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Epidemiologia
pa âme os). Es es clus e s o am odos iden i icados
com uma ele ada signi icância es a ís ica —
p<< 0,001 (Nunes, 2007).
Re i a-se, na u almen e, que an o o mapeamen o
clássico, como a análise de clus e ing conduzem a
esul ados que dependem, em g ande medida, da
qualidade dos dados e das on es o iginais. Po exem-
plo, a subno i icação dos nume ado es no cálculo das
axas conduz a a e ac os, sob e udo se ela p óp ia
a ia no espaço ou no empo, masca ando ou des a-
cando, e adamen e, aglome ações. A in e p e ação
da in o mação des a na u eza ca ece, assim, de algum
conhecimen o concomi an e sob e o g au e a dis i-
buição espácio- empo al da subno i icação, pa a que
as conclusões não iquem agilizadas pelo maio ou
meno sucesso na no i icação (B iz, 2007; Buehle e
al., 2004).
2.a ilus ação — anomalias congéni as
O segundo exemplo ilus a i o da análise espácio-
- empo al de enómenos de saúde u iliza dados ob i-
dos a a és do Cen o de Es udos e Regis o de Ano-
malias Congéni as. Es e Regis o é coo denado pelo
Ins i u o Nacional de Saúde D . Rica do Jo ge
(INSA) e baseia-se na no i icação olun á ia de casos
de anomalias congéni as po médicos em se iços
hospi ala es de obs e ícia, pedia ia e neona ologia,
em odo o País (Po ugal. Minis é io da Saúde.
CERAC/INSA/ONSA, 2000; Nunes e al. 2007a).
Pa a a análise espácio- empo al das axas de p e a-
lência de anomalias congéni as, o am conside ados
alo es de 1997 a 1999, po concelhos de esidência
das mães. Na Figu a 5 pode obse a -se a isualiza-
ção espacial desc i i a das p e alências do enómeno
po concelho, em que o denominado é o núme o de
nascimen os ( i os e e os mo os), oco idos nas
ins i uições de saúde que ize am no i icações.
As á eas mais escu as exp imem os concelhos em
que se e i ica am os alo es mais ele ados de p e-
alência de anomalias congéni as ( ep esen ados
pelos seus cen óides geog á icos). Como pode
obse a -se, a á ea com p e alência mais ele ada, o
cen o-no e, man ém-se cons an e que em cada um
dos 3 anos em obse ação, que na o alidade do
pe íodo. À semelhança do exemplo an e io , o ní el
de no i icação pode á, e en ualmen e, explica pa e
Fon e: Nunes e al. 2007b (dados o necidos pelo CERAC/INSA/ONSA).
Figu a 5
P e alências anuais de anomalias congéni as (10-4), pa a o pe íodo 1997-1999
– 850
– 773
– 695
– 618
– 541
– 464
– 386
– 309
– 232
– 155
–77
–0
1997-1999 1997 1998 1999
12 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Epidemiologia
das di e enças obse adas. A Figu a 6 mos a os
clus e s iden i icados, u ilizando a mesma me odolo-
gia de análise que oi an e io men e aplicada ao caso
da ube culose.
Como se obse a na igu a, e ão oco ido 3 g andes
aglome ados de p e alências en e 1997 e 1999
(á eas de Viseu, de Lei ia, e de Alen ejo/Alga e) e
3 pequenos aglome ados, apenas cons i uídos po um
único concelho cada (Po o, Oei as e S. João da Pes-
quei a, es e apenas em 1999). De no o, o acaso não
explica es a he e ogeneidade, endo en ão as zonas
iden i icadas (no espaço e no empo) dis ibuições
p obabilís icas di e en es das á eas izinhas no e e-
encial espácio- empo al conside ado (p< 0,001).
3. A mais- alia do concei o de clus e ing
em saúde pública
O ecu so a mé odos de clus e ing pe mi e que a
he e ogeneidade de uma dis ibuição no espaço (que
pode obse a -se isualmen e nas ep esen ações g á-
icas adicionais) passe a se in e p e ada mui o pa a
lá dessa apa ência, pois é ida em con a a medida em
que o acaso pode explicá-la só po si. Além disso,
pode se inco po ada a dimensão « empo» em simul-
âneo, sujei a à mesma lógica de in e p e ação. Tam-
bém a in o mação isual ob ida se o na po encial-
men e menos enganado a, em consequência de se em
eduzidos os a e ac os de idos: (1) aos c i é ios de
Figu a 6
Mapa dos clus e s espácio- empo ais de anomalias congéni as, basea-
dos nas axas de p e alência em 1997-1999 (p<< 0,001)
Fon e: Nunes e al. 2007b (dados o necidos pelo CERAC, INSA/ONSA).
04080
km
Clus e 1 (1997-1999)
Clus e 2 (1997-1999)
Clus e 3 (1997-1999)
Clus e 4 (1997-1999)
Clus e 5 (1997-1999)
Clus e 6 (1999)
N
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VOL. 26, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2008
Epidemiologia
classi icação p é ia dos alo es das a iá eis ep e-
sen adas, (2) à dimensão de cada unidade espacial
escolhida ou (3) à escala de empo u ilizada, ela i a-
men e às escalas em que ealmen e e oluem esses
indicado es. De ido a es es mo i os, po exemplo, a
apa en e homogeneidade (ou he e ogeneidade) de
uma al dis ibuição, numa ep esen ação g á ica
clássica, pode esconde uma dis ibuição he e ogénea
(ou homogénea), que a análise es a ís ica de
clus e ing em a e ela .
O en iquecimen o da desc ição adicional dos enó-
menos de saúde e dos seus de e minan es, no espaço e
no empo, com me odologia es a ís ica de clus e ing
espácio- empo al az, assim, um conside á el ganho à
in e p e ação epidemiológica da sua dis ibuição e,
consequen emen e, à qualidade das decisões baseadas
nessa e idência. Esse ganho de e-se essencialmen e
ao aumen o da capacidade de comp eensão das ep e-
sen ações espácio- empo ais, pelo ac o de aquela
me odologia pe mi i dis ingui dis ibuições isual-
men e ilusó ias, p oduzidas po a e ac os das écnicas
adicionais ou pelo acaso, de dis ibuições ealmen e
explicá eis pelos p óp ios espaço ou empo. A quali-
dade des as ilações inais o na-se, en ão, p opo cio-
nalmen e mais dependen e da qualidade e da ep esen-
a i idade dos dados o iginais e das suas on es, do
que das agilidades das écnicas de ep esen ação g á-
ica (Buehle e al., 2004)
Aqueles ganhos aduzem-se, basicamen e, em maio
p ecisão e segu ança das decisões de in e enção. No
en an o é p eciso ambém conside a que a aplicação
des e ipo de me odologia eque á ios cuidados,
ealçando-se aqui algumas ques ões mais ele an es:
• Apesa do auxílio p ecioso dos ins umen os es a-
ís icos, a signi icância es a ís ica e a signi icância
epidemiológica não se co espondem necessa ia-
men e, de endo p e alece semp e o juízo epide-
miológico, no con ex o do demais conhecimen o
exis en e à época.
• A complexidade in ínseca dos modelos es a ís i-
cos subjacen es e dos seus p essupos os, assim
como, po en u a, do so wa e especí ico, o na-
-os algo he mé icos e pouco acessí eis pa a uso
co en e. Inclusi amen e, a aplicação de di e en-
es mé odos e/ou de di e en es opções in e cala es
pa a analisa os mesmos dados pode o igina
di e en es esul ados (como em qualque me odo-
logia es a ís ica), esul ando em conclusões di e-
en es. Assim é imp escindí el que os in es iga-
do es enham um conhecimen o su icien e das
ca ac e ís icas e dos p essupos os dos p ocessos
es ocás icos em uso, e ambém um conhecimen o
adequado da na u eza e da his ó ia na u al do
enómeno em análise (Kulldo , 1997; Nunes,
2007).
• Quando o enómeno em es udo é conhecido a a-
és de no i icação, o g au de subno i icação pode
le a ao despe dício da inu a da análise de
clus e ing e, mais, esul a em a e ac os g ossei-
os se a p óp ia subno i icação a ia no espaço ou
com o empo.
4. Conclusões
Os mé odos de clus e ing espácio- empo al pe mi em
que a possí el he e ogeneidade (ou homogeneidade)
isual de uma dis ibuição no espaço ou no empo,
ou em ambos, induzida pelas ep esen ações g á icas
clássicas, seja in e p e ada de uma o ma igo osa e
consis en e a a és de p ocessos es ocás icos, não
dependendo dos possí eis a e ac os da simples
ep esen ação g á ica.
A melho ca ac e ização e in e p e ação de em-se,
essencialmen e, à melho capacidade de se com-
p eende as dis ibuições p obabilís icas espácio- em-
po ais. Há uma decisão es a ís ica que não é suscep-
í el de in luência pelas o mas de ep esen ação
g á ica, pois es a esul a da elabo ação do p óp io
mé odo e a decisão é assis ida po pa âme os ade-
quados. Os mé odos de clus e ing pe mi em assim
dis ingui as dis ibuições isualmen e ilusó ias, em
ge al p oduzidas po a e ac os das écnicas adicio-
nais ou pelo acaso, de dis ibuições ealmen e expli-
cá eis pelos p óp ios espaço ou empo.
Os mé odos de clus e ing espácio- empo al êm algu-
mas limi ações, pa cialmen e em comum com os
mé odos adicionais. Elas são: (1) a ela i a comple-
xidade dos modelos es a ís icos exige que os in es i-
gado es enham um conhecimen o su icien e das
ca ac e ís icas e dos p essupos os dos p ocessos
es ocás icos em causa; (2) se o enómeno em es udo
é conhecido a a és de no i icação, quando o g au de
subde ecção a ia no espaço ou no empo, esul am
a e ac os que podem se g ossei os; (3) o eno me
po encial de conhecimen o que ep esen am não dis-
pensa que seja semp e aplicado um juízo epidemio-
lógico c í ico, sob e o esul ado es a ís ico.
Con udo, a esul an e inal, quan o à sua aplicabili-
dade e in e esse em Epidemiologia e em Saúde
Pública, a igu a-se ancamen e animado a. O ganho
que deles se ob ém em a aduzi -se em maio p e-
cisão e segu ança das decisões e da in e enção e,
po isso, conduzem a maio e ec i idade em Saúde
Pública.