A Linguagem Dahliana, um Desa io pa a o T adu o :
P opos a de adução de alguns poemas de Di y Beas s (1983)
Inês Filipa Sob al Bei es
Julho, 2020
T abalho de P ojec o
Mes ado em T adução
(Á ea de Especialização — em Inglês)
T abalho de P ojec o ap esen ado pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à
ob enção do g au de Mes e em T adução ealizado sob a o ien ação cien í ica da P o ª
Dou o a Ma ia Zulmi a Cas anhei a.
AGRADECIMENTOS
Gos a ia de ag adece em p imei o luga à minha O ien ado a, a P o .ª Dou o a Ma ia
Zulmi a Cas anhei a, pela sua simpa ia, pelo seu apoio e pela sua disponibilidade ao longo
de odo es e pe cu so que oi um e dadei o desa io e exigiu mui as ho as de pesquisa
pa a chega a bom po o.
Gos a ia de ag adece ambém o eno me e p ecioso con ibu o da au o a de li os in an is
e adu o a Luísa Ducla Soa es, que ama elmen e se disponibilizou a escla ece odas as
minhas ques ões quan o à adução des e ão di ícil géne o li e á io e aos desa ios que se
encon am na adução de Roald Dahl.
Po im, ag adeço aos meus pais pelo apoio incondicional e po pe mi i em que odos os
meus sonhos se conc e izem. Aos meus amigos, um eno me ob igada pelas pala as de
incen i o e po es a em semp e p esen es em odos os momen os da minha ida.
A Linguagem Dahliana, um Desa io pa a o T adu o :
P opos a de adução de alguns poemas da ob a Di y Beas s (1983)
Inês Filipa Sob al Bei es
RESUMO: É g aças ao papel i al que o adu o assume enquan o mediado en e
cul u as que g andes ob as da li e a u a in an il in eg am o imaginá io de mui as ge ações
espalhadas pelo mundo. No en an o, independen emen e do es a u o canónico que lhes é
a ibuído, a li e a u a in an il con inua a se um géne o subes imado, de na u eza bem
mais complexa do que se pensa. Um ex o de li e a u a in an il pode e idencia uma
eno me c ia i idade linguís ica e in e essan es ecu sos na a i os, anspo ando-nos
mui as ezes pa a an igas adições li e á ias como as dos nu se y hymes e do nonsense.
Tais qualidades, que o nam único es e géne o li e á io, eme em-nos pa a o uni e so do
aclamado esc i o b i ânico Roald Dahl (1916-1990). A sua esc i a singula é pau ada
especialmen e pela ansg essão linguís ica e pelo humo neg o, conside ado po mui os
demasiado ousado pa a c ianças. Reconhecendo o desa io que cons i ui a adução des e
géne o li e á io e a ob a de Dahl em pa icula , o p esen e T abalho de P ojec o isa a
elabo ação de uma p opos a de adução pa a po uguês eu opeu de alguns poemas de
Di y Beas s, li o indo a lume em 1983, ainda sem adução publicada en e nós. A
p opos a de adução e espec i o comen á io az-se acompanha de um enquad amen o
eó ico sob e adução de li e a u a in an il e adução de poesia, bem como de uma
in odução ao mundo da ob a dahliana, com especial ên ase nos p oblemas de adução
que le an a.
PALAVRAS-CHAVE: T adução Li e á ia, Li e a u a In an il, Roald Dahl, Di y Beas s,
Desa ios T adu ó ios.
Roald Dahl’s Language, a Challenge o he T ansla o :
T ansla ion p oposal o some poems om Di y Beas s (1983)
ABSTRACT: Thanks o he i al ole played by he ansla o as a media o be ween
cul u es, g ea li e a y wo ks o child en’s li e a u e a e pa o he imagina y o many
gene a ions sp ead ac oss he wo ld. Howe e , ega dless o he canonical s a us o hese
wo ks, child en’s li e a u e emains an unde es ima ed gen e, o a a mo e complex
na u e han one migh hink. A child en’s li e a u e ex can display eno mous linguis ic
c ea i i y and in e es ing na a i e esou ces, o en anspo ing us o ancien li e a y
adi ions such as nu se y hymes and nonsense. Such quali ies, which make his li e a y
gen e unique, e e us o he wo ld o he acclaimed B i ish w i e Roald Dahl (1916-
1990). His singula w i ing is ma ked especially by linguis ic ansg ession and black
humou , conside ed by many oo da ing o child en. Recognizing he challenge ha he
ansla ion o his li e a y gen e and Dahl’s wo k in pa icula ep esen , his P ojec Wo k
aims a elabo a ing a p oposal o ansla ion in o Eu opean Po uguese o some poems
om Di y Beas s, a book ha came o ligh in 1983, no ye published in Po ugal. The
ansla ion p oposal and i s commen a y a e accompanied by a heo e ical amewo k on
he ansla ion o child en’s li e a u e and he ansla ion o poe y, as well as an
in oduc ion o Dahl’s uni e se, wi h special emphasis on he ansla ion p oblems i
aises.
KEYWORDS: Li e a y T ansla ion, Child en’s Li e a u e, Roald Dahl, Di y Beas s,
T ansla ion Challenges.
Índice
In odução ............................................................................................................................... 1
Pa e I ...................................................................................................................................... 5
Enquad amen o Teó ico ......................................................................................................... 5
A adução de li e a u a in an il: especi icidades e desa ios .............................................. 6
A adução de poesia: especi icidades e desa ios .............................................................. 11
Pa e II .................................................................................................................................. 16
O uni e so de Dahl: ca ac e ís icas da sua esc i a e p oblemas de adução ..................... 16
Roald Dahl: b e e ap esen ação do au o e seu es a u o ................................................. 17
Di y Beas s (1983) ............................................................................................................. 21
T aduzi Dahl: p oblemas e di iculdades ......................................................................... 22
As ilus ações ..................................................................................................................... 27
A sono idade das pala as: poesia, jogos de pala as e lei u a em oz al a .................... 31
A T adução enquan o p ocesso c ia i o ........................................................................... 35
Humo : da esca ologia aos jogos de pala as ................................................................... 39
T adução, adap ação e ec iação ...................................................................................... 47
Pa e III ................................................................................................................................. 53
C ia u as de A epia em Quem Não Podes Con ia : ............................................................ 53
P opos a de adução e comen á io ...................................................................................... 53
In odução às aduções........................................................................................................ 54
“O Po co” .......................................................................................................................... 57
“O Papa-Fo migas” .......................................................................................................... 59
“O Sapo e o Ca acol” ........................................................................................................ 63
Comen á io às aduções .................................................................................................. 70
Conclusão .......................................................................................................................... 77
Bibliog a ia P imá ia: ....................................................................................................... 79
Bibliog a ia Secundá ia: ................................................................................................... 79
Anexo 1: Capa de edição de Di y Beas s, de Roald Dahl, de 2016 .................................. 89
Anexo 2: Tex os de Pa ida ............................................................................................... 90
Anexo 3: En e is a a Luísa Ducla Soa es: a adução de Re ol ing Rhymes................ 105
1
In odução
Na década de 90 do século XX o mundo académico assis iu ao econhecimen o e
expansão dos Es udos de T adução como á ea au ónoma, complexa e mul i ace ada, e não
mais como um amo da Linguís ica ou da Li e a u a Compa ada:
The 1980s was a decade o consolida ion o he ledging subjec known as T ansla ion S udies.
Ha ing eme ged on o he wo ld s age in he la e 1970s, he subjec began o be aken se iously,
and was no longe seen as an unscien i ic ield o enqui y o seconda y impo ance. Th oughou
he 1980s in e es in he heo y and p ac ice o ansla ion g ew s eadily. Then, in he 1990s,
T ansla ion S udies inally came in o i s own, o his p o ed o be he decade o i s global
expansion. (Bassne 2014:1-2)
O o íssimo impac o dos media nas sociedades con empo âneas e o enómeno da
globalização con am-se en e os a o es de e minan es que conco e am pa a que a
adução osse c escen emen e is a como uma a i idade i al, que implica um p ocesso
de negociação en e línguas e cul u as mediado pela igu a do adu o (Bassne 6). Se
conside a mos, po ou o lado, a na u eza dinâmica e e olu i a das línguas e cul u as,
expos as às mudanças ope adas pelas ci cuns âncias his ó icas, sociais, ideológicas,
polí icas, eligiosas, mo ais, pode emos apidamen e pe cebe que e e pala as de um
sis ema linguís ico pa a ou o, e de uma cul u a pa a ou a, é uma a e a complexa e que
implica semp e pe das e ganhos (Bassne 38). As escolhas do adu o são condicionadas
po uma mul iplicidade de ac o es, que de o dem linguís ica, que de o dem
ex alinguís ica. Co obo a-se assim a ese de que a adução não é um ac o inocen e
(Oi inen 1996: 42).
T aduzi implica um p ocesso de eesc i a pa a um di e en e público (ibidem: 39),
p ocesso esse que, no caso da li e a u a, en ol e mui as ezes sucessi as e aduções e
adap ações ao longo dos empos, pa a as mais di e sas cul u as. A “ oz” do adu o pode
se mais ou menos isí el, sendo que no domínio da adução de li e a u a in an il ela
pode e uma p esença maio , des acando-se o adu o como igu a pa icula men e ac i a
no p ocesso de mediação (Coillie and Ve schue en V).
A li e a u a in an il cons i ui uma ma é ia sensí el e de na u eza complexa. Ainda
que seja conside ada um géne o meno den o do polissis ema li e á io de á ias cul u as
e a é mesmo, nas pala as de O’Connell, “uncanonical and cul u ally ma ginalized”
(O’Connell 18), cons a a-se que a esc i a de li e a u a in an il e a sua adução são egidas
po uma sé ie de cons angimen os, a iá eis de cul u a pa a cul u a, que as o nam
2
desa ian es e bas an e exigen es. No caso da adução, pa a além do adu o enquan o
in é p e e e ecodi icado do ex o de pa ida, des acam-se ainda duas ou as igu as que
cons i uem pa e in ínseca do ac o de negociação: os adul os (enquan o mediado es,
comp ado es, edi o es, educado es e co-lei o es) e as c ianças (lei o es implíci os), com
gos os, necessidades, ap idões cogni i as e emocionais especí icas (Puu inen 54).
E ec i amen e, ques ões de con eúdo e es ilís icas ( imas, i mo, jogos de pala as,
neologismos, onoma opeias, nonsense, e c.), p eocupações pedagógicas e didác icas,
p oblemas de a iculação en e ex o e ilus ação, en e ou as, exigem do adu o
c ia i idade e omadas de decisão a ní el das es a égias a adop a , nomeadamen e de
domes icação e de adap ação cul u al, ou das écnicas a aplica , como sejam as de adição,
omissão ou explici ação.
O esc i o b i ânico Roald Dahl (1916-1990) inha, sem dú ida, um alen o único
pa a a esc i a que não deixa a ninguém indi e en e. Os adul os (pais e educado es) iam-
no, equen emen e, como uma ameaça aos alo es undamen ais impos os pela sociedade
e pelo sis ema educa i o; as c ianças, po sua ez, encon a am nele uma igu a amiga,
que os comp eendia como ninguém. Uma “c iança ge iá ica”, oi capaz de comunica
mais acilmen e com o público in an il do que com o adul o (S u ock 402), o que aliás
se eio a espelha no sucesso inigualá el que a ingiu jun o daquele um pouco po odos
os can os do mundo (à da a da comemo ação do cen ésimo ani e sá io do au o , Luísa
Ducla Soa es e ela que os li os des e au o se encon am disponí eis em qua en a e
duas línguas, com edições que ul apassam os dois milhões de exempla es em países
como a China), a é ao apa ecimen o do enómeno da saga Ha y Po e (Soa es 29), sé ie
que, à semelhança do es ilo na a i o dis in i o de Dahl, ansbo da em neologismos e
jogos de pala as cheios de signi icado, que desa iam a c ia i idade dos adu o es.
A sua i e e ência, o humo neg o, a capacidade de en abiliza c ia i amen e a
sono idade e os i mos possí eis e impossí eis da língua inglesa (Puga 19), a o ma como
desa ia a au o idade da igu a adul a e lhe e i a oda a sua c edibilidade ao ep esen á-la
equen emen e nas suas ob as como uma c ia u a hedionda e sem esc úpulos, são apenas
alguns dos elemen os da ó mula que compõe o sucesso de Dahl e que despe am o
in e esse da academia em es udá-lo. Ainda que a di e gência de opiniões não enha
o iginado an os abalhos académicos como o iginou a igos p ó e con a Dahl (Soa es
29), é possí el encon a an o no plano in e nacional como nacional, ensaios c í icos e
disse ações dignos de a enção. Em Po ugal, no âmbi o dos Es udos de T adução,
des acam-se duas disse ações de Mes ado concluídas já na úl ima década: uma
3
ap esen ada à Faculdade de Le as da Uni e sidade de Coimb a po Ana Te esa P a a,
in i ulada T adução de Li e a u a In an il e Ju enil: Análise de Duas T aduções
Po uguesas de Cha lie and The Chocola e Fac o y, de Roald Dahl (2010), e ou a
ap esen ada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade No a de Lisboa
po Ana B ígida Ma ias Pai a, com o í ulo O Es a u o do(a) T adu o (a) de Li e a u a
In an il: O Caso das T aduções Po uguesas de Roald Dahl (2014). Es es são es udos
bas an e dis in os mas ambos ele an es, pois não só nos ajudam a e uma isão mais
cla a do me cado da adução de li e a u a in an il em Po ugal e do es a u o con e ido
aos seus adu o es, como ambém nos pe mi em compa a di e en es abo dagens
adu ó ias e pe cebe como de e minadas condicionan es podem a ec a as decisões dos
adu o es. É ainda impo an e des aca o li o lançado pela Biblio eca Nacional de
Po ugal no 100º ani e sá io de Roald Dahl, o ganizado po Rogé io Miguel Puga,
In e p e a e T aduzi o Imaginá io de Roald Dahl, que con a com a con ibuição de uma
sua adu o a, Luísa Ducla Soa es, e ambém com a pa icipação de Ana B ígida Pai a.
Mesmo assim, no que oca a es e au o mui o es á po explo a e o p esen e T abalho de
P ojec o dis ingue-se dos es udos académicos acima e e idos po se e es i de um
ca ác e p á ico, anco ado, con udo, num enquad amen o eó ico ei o a pa i de
bibliog a ia disponí el sob e li e a u a in an il e a p oblemá ica da sua adução, bem
como de ensaís ica sob e Roald Dahl e a sua ob a, o iginal e aduzida.
Pelos mo i os a ás enume ados, a esc i a de Dahl ap esen a elemen os que o nam
o p ocesso adu ó io uma a e a di ícil. Como man e e ec ia o uni e so e a iqueza
exp essi a da esc i a dahliana, o humo , o i mo, a luência, são algumas das ques ões que
es e p oje o en a en en a a a és de um exe cício p á ico de adução, acompanhado do
le an amen o e análise dos p oblemas adu ó ios encon ados e da jus i icação das
soluções adop adas.
Es e é um domínio que nos ascina pela sua complexidade e exigência,
nomeadamen e pela c ia i idade que eque , e pa eceu-nos que Dahl, um esc i o que
ag ega á ias das ca ac e ís icas que o nam a adução de li e a u a in an il um desa io
es imulan e, se ia uma boa escolha pa a es a as compe ências que se exigem ao adu o
li e á io quando e e e ein en a as pala as do au o de pa ida, sem com isso des i ua
o ex o o iginal. Es e abalho, e lec e, assim, um pouco do que é o p ocesso de aduzi ,
passando po di e sas ases, ainda que nes e caso não enha exis ido um condicionamen o
eal po pa e do me cado da li e a u a in an il, com p azos ape ados e ou as exigências,
10
di ícil e go e nado po cons angimen os que a iam de cul u a pa a cul u a. P ecisamos
de pe cebe o público-al o e ce as noções que lhe es ão associadas, como os concei os
de in ância e de li e a u a in an il, que ge am an a discó dia, po o ma a en ende as
di iculdades de aduzi as ob as que se inse em nes e géne o li e á io.
Tal ez o p imei o aspec o a conside a de a se o ac o de que es e pe ence
simul aneamen e ao sis ema li e á io e ao sócio-educa i o, is o é, não se e só o p opósi o
de en e e , é ambém u ilizado como uma e amen a pa a educa e socializa a c iança.
Es a dupla na u eza ai, consequen emen e, a ec a a p odução esc i a e a adução das
ob as, que são condicionadas pelas no mas li e á ias, sociais e educa i as igen es
(O’Connel 17-18). Assim, ao analisamos as “al e ações”, “adap ações” e ou as
“manipulações” de um ex o, de emos e p esen e que são essas no mas e as di e enças
a ní el social e educa i o en e a cul u a de pa ida e a de chegada que in luenciam as
es a égias do adu o (c . O’Sulli an 2003). Po ou o lado, não nos podemos esquece
de uma igu a mui o impo an e e que es á semp e p esen e du an e odo o p ocesso, o
adul o: o adul o que selecciona o que é conside ado boa li e a u a, o adul o que esc e e,
o que aduz, o que publica. Es a ci cuns ância ge a a p esença de um duplo público-al o,
o qual o adu o em de le a em con a: “T ansla o s ha e o ake in o accoun an adul
p esence wi hin he ex in a numbe o o ms, om he spec e o he con olling adul
p esence looking o e he child’s shoulde , o a play ul i ony in ended o he adul
eading aloud o a child.” (La hey 2006: 5).
Ou o pa âme o a conside a p ende-se com as es a égias adu ó ias a ponde a
com is a à esolução dos p oblemas linguís icos e cul u ais le an ados pelos ex os, umas
mais sou ce- ex o ien ed, ou as mais a ge - ex o ien ed. En e as á ias p opos as
eó icas des acamos a de Gideon Tou y, que de ende uma abo dagem desc i i a da
adução e e lec e sob e os alo es ou ideias ge ais que são pa ilhados po uma
comunidade, a que chama no mas, as quais egem a p á ica adu ó ia. Segundo Tou y, o
adu o pode op a en e a adequação, em que es a á a ade i às no mas do sis ema de
pa ida (o que pode o na o ex o incompa í el com as no mas do sis ema de chegada), e
a acei abilidade, em que espei a as no mas do sis ema de chegada. No malmen e, a
adução é um comp omisso en e es es dois ex emos (Puu inen 56).
Assim, de aco do com a posição de Tou y, a busca de eg as e es a égias que
pe mi am ao adu o con o na os desa ios ine en es ao ex o, sejam eles linguís icos,
sociais, polí icos ou cul u ais, de e le a em conside ação as expec a i as da sociedade.
No mesmo ano em que Tou y publicou a sua ob a Desc ip i e T ansla ion S udies – and
11
Beyond (1995), ambém Law ence Venu i deu à es ampa The T ansla o ’s In isibili y. A
His o y o T ansla ion, onde e lec e sob e dois ipos de es a égias de adução:
domes icação e es angei ização. A p imei a manei a de aduzi p i eligia a
anspa ência, a luência, edundando num apagamen o da “es anheza” do ex o de
pa ida e na in isibilidade do adu o . Já o segundo mé odo é não- luen e, dando
isibilidade ao adu o , que o ien a o seu abalho no sen ido de o na e iden e a
iden idade es angei a do ex o de pa ida e esis i assim à subjugação às no mas e
pad ões da cul u a de chegada.
As e lexões eó icas de Tou y e Venu i dão-nos a consciência de que o ac o
adu ó io é ei o de decisões condicionadas po de e minados c i é ios. No caso da
adução in an il, e endo em con a as exigências impos as pelo adul o, um desses c i é ios
pode passa po aze um ajus amen o do ex o, po o ma a o ná-lo ap op iado e ú il pa a
a c iança de aco do com o que a sociedade pe cepciona (num de e minado momen o)
como educa i amen e bom pa a ela, e um ou o se á adequa o en edo, a linguagem e a
ca ac e ização das pe sonagens ao en endimen o da sociedade em elação à capacidade
de le e comp eende da c iança (c . Sha i ).
G aças ao adu o , enquan o mediado en e dois sis emas linguís icos e cul u ais,
o Pinóquio, como diz Eme O’Sulli an, pode se um cidadão i aliano, ancês ou
po uguês. Na adução de li e a u a in an il a p esença do adu o é bas an e isí el,
podendo aze -se no a a a és do emp ego de uma écnica de ampli ying na a ion, em
que explici ações são adicionadas pa a que aquilo que é obscu o possa se en endido, ou
de educ i e na a ion que, como se deduz, elimina delibe adamen e de e minadas pa es
do ex o (O’Sulli an 2005:114-116).
A adução de poesia: especi icidades e desa ios
A adução de poesia, pelos desa ios que coloca e di iculdades que le an a, em
sido objec o de p o unda e lexão e deba e ao longo dos séculos. Enquan o géne o
li e á io, a poesia ca ac e iza-se po de e minadas ma cas ex uais dis in i as que Jones
suma iza do seguin e modo:
In ex ual- ea u e e ms, poe y ypically communica es meaning no only h ough su ace
seman ics, bu also by using ou -o - he-o dina y language, non-li e al image y, esonance and
sugges ion o gi e esh, “de amilia ized” pe cep ion and con ey mo e han p oposi ional con en ;
among i s speci ic echniques a e linguis ic pa e ning (e.g. hyme o alli e a ion), wo d
associa ion, wo dplay, ambigui y, and/ o eac i a ing an idiom’s li e al meanings. (Jones 117)
12
Que is o dize , po um lado, que a poesia pa ilha com ou os géne os li e á ios
ce as ca ac e ís icas ex uais e, po ou o, que de e minados ecu sos es ilís icos
assumem na poesia uma p esença pa icula men e o e, capaz de despe a emoção,
delei e es é ico, e c. Jean Boase-Beie , no capí ulo “T ansla ing he Special Shape o
Poems”, chama a a enção pa a o modo como ais ca ac e ís icas ex uais “in e ac wi h
he shape o poems – i s a angemen in lines – o gi e he pa icula e ec s ha poe y
ansla ion hopes o p ese e.” (Boase-Beie 2011: 116) Po na u eza, a poesia, com a sua
linguagem ica em me á o as e ambiguidades que se p es am a múl iplas lei u as, dá ao
adu o libe dade in e p e a i a e lança-lhe desa ios a ní el da c ia i idade, mas, po
ou o lado, es e en en a “espa ilhos” a ní el da mé ica, do i mo, da ima, das es u u as
sin á icas, e c., que cons angem bas an e o seu abalho.
En e os desa ios linguís icos com que o adu o se depa a con am-se as
me á o as, as ali e ações, as exp essões idiomá icas, os ocadilhos, que con e em
complexidade semân ica, no idade de exp essão, musicalidade, e a é, em alguns casos,
um e ei o humo ís ico ao poema. No en an o, como se calcula, mui as ezes es es ecu sos
podem não aze sen ido quando aduzidos li e almen e pa a a língua de chegada. É de
no a que cada sis ema linguís ico em as suas pa icula idades lexicais, sin á icas,
oné icas, di e en es eg as g ama icais, e que po isso p ocu a p oduzi o mesmo e ei o
do ex o de pa ida a a és do p incípio da equi alência o na-se uma a e a bas an e
di ícil de ealiza (Singh 2). Pegando num exemplo p á ico des e T abalho de P ojec o,
sabemos que Dahl ma ca a di e ença pela o ma c ia i a como manipula e explo a a
língua inglesa a a és da ansg essão e in enção linguís ica, de modo a p o oca um
e ei o humo ís ico jun o dos seus lei o es. O a, cada ez que al acon ece, o adu o ê-
se numa si uação complicada, se pensa mos que e á de pensa em ac os de ansg essão
acei á eis na língua de chegada e em ou os meios de ec ia um e ei o co esponden e ao
ansmi ido pelo o iginal (c . Pai a 2016: 46).
Apesa de a componen e linguís ica se um núcleo cen al da adução,
elemb amos, a a és das pala as de Susan Bassne , que po de ás de cada língua exis e
uma cul u a, e que as duas não podem se dissociadas: “T ansla ion is abou language,
bu ansla ion is also abou cul u e, o he wo a e insepa able” (Bassne 2007: 23). A
adução en ol e cons angimen os cul u ais, nomeadamen e as pala as ou exp essões
ca egadas de signi icado e cono ações especí icas de uma de e minada cul u a,
elacionadas po exemplo com c enças, alo es, cos umes, e c. Cabe ao adu o
13
encon a soluções pa a o p oblema da adução dos e e en es cul u ais, o e ecendo-se-
lhe opções que passam pela adução li e al, pela equi alência cul u al, pela na u alização,
pela no a de odapé ou pela omissão, en e ou as.
O eó ico belga And é Le e e e, nome cen al dos Es udos de T adução e
especialis a em adução li e á ia, analisou de o ma c í ica os á ios mé odos u ilizados
em di e en es aduções inglesas de um de e minado poema de Ca ulo. Todas as aduções
ap esen am es a égias p óp ias, as quais espelham bem os mecanismos po de ás do
p ocesso adu ó io. As lei u as do adu o , as suas p óp ias in e p e ações e a unção
a ibuída à adução de e mina am as escolhas ei as. A di e sidade de es a égias, no
en an o, não é de modo algum indicado a de uma pio ou melho adução pois, como
a i ma Bassne , “ he a ia ions in me hod do se e o emphasize he poin ha he e is
no single igh way o ansla ing a poem jus as he e is no single igh way o w i ing
one ei he .” (Bassne 2014: 111).
No en an o, ol ando à ques ão inicial, as di e en es es a égias adop adas na
adução do poema de Ca ulo p i eligia am alguns elemen os poé icos, deixando cai
ou os. A oné ica em de imen o do sen ido ge al do ex o, a mé ica em de imen o do
ex o como um odo, a é uma comple a ec iação do o iginal, onde p o a elmen e há
apenas em comum com o ex o do poe a omano o í ulo e o pon o de pa ida, são algumas
das es a égias iden i icadas na análise das di e en es aduções do poema. O es udo de
Le e e e pe mi e uma comp eensão mais p o unda daquilo que implica a adução de
poesia, pois a pa i da sua lei u a pe cebe-se que descu a ce os aspec os que compõem
o ex o em a o de ou os, não conside ando o poema como uma es u u a o gânica, pode
esul a numa “ ansla ion ha is demons ably unbalanced”. (Bassne 2014: 94)
Pe an e os aspec os acima mencionados e e en es à p oblemá ica da adução de
poesia, a ideia com que se ica é a de que se a a de uma a e a di ícil, pa a alguns quase
ina ingí el, um e dadei o queb a-cabeças. Va sha Singh chama à a enção pa a a
e dadei a essência da poesia, que ai pa a além do campo linguís ico, exis indo
elemen os di íceis de ep oduzi , como as emoções/sen imen os, as mensagens implíci as
do poe a e, cla o, o seu es ilo único, que são, no undo, a pa e mais impo an e a
p ese a . Nes a pe spec i a, econhecendo que exis em sensações, emoções, e c., de
ce a o ma in aduzí eis, oco e-nos a amosa exp essão de Robe F os a p opósi o da
adução de poesia: “Poe y is wha ge s los in ansla ion”.
Ainda assim, não esquecendo a di e sidade de es a égias ao se iço de uma
adução mais ou menos “colada” ao o iginal, o que, como já oi di o, não o na as
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di e en es e sões mais ou menos álidas, há quem conside e que o mé odo p e e í el é
semp e o da adução li e (Ba be 335).
Yoshikazu Nakaji, au o de um a igo sob e a adução de poesia enquan o
p ocesso c ia i o, de ende que, independen emen e de qualque ci cuns ância, uma
adução ideal se ia aquela que conseguisse ans e i uma mensagem de uma língua pa a
ou a (ideia, sensação e om) sem pe de nem ac escen a nada. No en an o, de e no a -
se que a adução en ol e in e p e ação do ex o e po isso, como diz, um ce o g au de
modi icação é ine i á el e a equi alência “um sonho impossí el” (Nakaji 66).
Compa ando a adução a uma ob a musical, Nakaji ac escen a ainda que o
p ocesso adu ó io passa po dois momen os essenciais que se complemen am na p á ica:
um momen o de lei u a e um momen o de o mulação. O adu o é p imei amen e um
lei o , e enquan o analisa e en a comp eende o ex o, u ilizando odos os ecu sos de que
dispõe, começa a ans e i pa a aquilo que lê a sua p óp ia isão, sendo es e o momen o
em que o ex o começa a so e al e ações (Nakaji 66). A lei u a e análise do con eúdo e
da es u u a do poema e ela-se, assim, de impo ância máxima, pois é nes a ase que se
inicia o p ocesso de descodi icação e ecodi icação na men e do lei o - adu o . Sabendo
o peso que a es u u a o mal e as pala as êm em poesia, é undamen al que o adu o
consiga iden i ica num poema es a égias linguís icas que desa iam o lei o
cogni i amen e, ob igando-o a e lec i sob e o uso das pala as, bem como sob e o
p óp io o ma o dos e sos, que pode ambém ele eicula sen ido, ainda que de uma
o ma isual. A cons ução da mensagem ai mui as ezes, como sabemos, pa a lá do
signi icado imedia o de uma pala a. F equen emen e, ambém a ausência de pala as é
e elado a, e o sabe le nas en elinhas, ou o se capaz de aze uma lei u a simbólica,
são essenciais.
Finalmen e, me ecem-nos des aque alguns aspec os da adução do ex o poé ico
explo ados po Ewald Ose s em “Some Aspec s o he T ansla ion o Poe y”, pois
ajudam-nos ambém a pe cebe as consequências das opções omadas. Reconhecendo que
a poesia não se cinge aos c i é ios o mais da mé ica e da ima, Ose s p opõe-nos que
olhemos pa a as ca ac e ís icas mais especí icas da língua, em conc e o pa a aquilo a que
chama “ ensão in e na” ou “ empe a u a”. O au o explica es e concei o de “ ensão”, do
pon o de is a da adução, como sendo compos o po uma pala a, um conjun o de
pala as, ou ases, cuja ca ga, ou impac o que ão p o oca no lei o , em o igem na sua
“o he ness”, na manei a como di e e do discu so comum, bem como na eacção de
su p esa que desencadeia (Ose s 7). A pa i des a noção é-nos possí el pe cebe que,
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mais do que em qualque ou o géne o li e á io, em poesia as pala as êm um peso mui o
o e e cada escolha ei a em uma in enção po de ás. Assim, os mais pequenos
po meno es, mesmo os elemen os oné icos de uma pala a ou de uma ase, são
escolhidos de en e as múl iplas possibilidades do léxico de uma língua, com o in ui o de
desencadea no lei o da língua de pa ida de e minadas sensações e eacções (Ose s 8-
10). Des a o ma, não é de ânimo le e que o adu o de e op a po es a ou aquela pala a,
ou exp essão; pelo con á io, as decisões adu ó ias de em se ponde adas. A linguagem
me a ó ica emp egue, o léxico u ilizado, as es u u as sin á icas epe idas, os jogos de
sons, a é a ausência de pala as ca egam po enciais de sen ido e ge am expec a i as no
lei o , pelo que o adu o de e e lec i sob e os ecu sos e con enções possí eis da
língua de chegada, po o ma a a ende à componen e semân ica como um odo, não se
concen ando unicamen e na o ma: “Because o m o poe y is ne e he ocus o
a en ion in i s own igh , bu only inso a as, because i is an elemen o s yle, i has a
cogni i e coun e pa and so has poe ic e ec s, me ely cap u ing he o m i sel would
no be a ansla ion, e en i i could be done.” (Boase-Beie 2011: 133)
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Pa e II
O uni e so de Dahl: ca ac e ís icas da sua esc i a e p oblemas
de adução
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Roald Dahl: b e e ap esen ação do au o e seu es a u o
Em 13 de Se emb o de 1916 nasce na cidade de Llanda , no País de Gales, um
dos esc i o es b i ânicos mais aclamados e a amados no uni e so da li e a u a in an il.
Filho de pais no uegueses, Roald Dahl ecebe de he ança um e a-a ô engenhoso, capaz
de aça apidamen e planos de uga de uma ig eja em chamas (S u ock 14), e um nome
que homenageia um explo ado no ueguês das egiões pola es (ibidem 36), Roald
Amundsen (1872-1928). Como pode emos e i ica a a és da lei u a de biog a ias do
au o , a sua ida oi ma cada po momen os con u bados e po pe das.Não obs an e, po
mais somb ios que ossem alguns episódios da sua ida, a esc i a e a c ia i idade o am
semp e pala as de o dem: um e úgio e uma o ma de ameniza os p oblemas do
quo idiano, que e am apidamen e ans o mados em his ó ias elabo adas e cheias de
a i ícios.
Na e dade, o mundo do an ás ico acompanhou-o semp e, pois desde pequeno,
g aças aos seus pais, o imaginá io da adição o al nó dica, nomeadamen e os olls e
ou as c ia u as mágicas maldosas que habi a am as lo es as eple as de escu idão,
ma ca am p esença assídua na sua ida, o que i ia mais a de, inclusi amen e, a e lec i -
se nas suas his ó ias, em pe sonagens como o gigan e de BFG (1982) e os mons os de
The Minpins (1991) (Puga 11). No en an o, como bem o sabemos, não só de c ia u as
g o escas se ize am as suas ob as. Em mui as delas ec iou ambém momen os ma can es
da sua exis ência, nomeadamen e da sua in ância, aos quais icamos a de e algumas das
pe sonagens mais icónicas e hila ian es. Exemplo disso é a his ó ia de Cha lie and he
Chocola e Fac o y (1964), onde c i ica maus hábi os e de ei os das c ianças, ais como a
ganância e o egoísmo, ou o zelo pa en al em excesso, ou ainda a obsessão pela ele isão
(S u ock 397); mas onde ambém, mais uma ez, as suas i ências i iam de ce a o ma
a se imo alizadas.
Pa a um me o lei o , Cha lie and he Chocola e Fac o y pode á se apenas mais
uma en e an as ou as his ó ias que b o a am da imaginação do au o , mas se le mos po
exemplo as suas memó ias em Boy: Tales o Childhood, ou a biog a ia de S u ock,
S o y elle : The Li e o Roald Dahl, ica emos a sabe que mui as das na a i as de Dahl
êm um pouco da sua pe sonalidade, dos seus alo es e das suas expe iências de ida. No
caso da ob a de Dahl acima mencionada, é possí el econhece elemen os biog á icos que
i iam a epe cu i -se na sua na a i a, al como o ascínio po chocola es, que se
desen ol eu du an e o empo em que equen ou a Rep on School. Nes a ins i uição, os
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alunos ecebiam no im de cada pe íodo uma caixa com ba as de chocola e de uma
amosa áb ica que de e iam p o a e classi ica numa escala de um a dez (“The
Ma ellous Wo ld o Roald Dahl.”). Indo ainda mais longe, desde o momen o em que os
seus olhos se c uza am com os ebuçados lico osos, os gobs oppe s mul icolo es exibidos
nas mon as da e í el M s. P a che , e sob e udo os amosos chocola es Cadbu y, á ias
o am as ezes em que an asiou sob e o local onde ganha am o ma e sabo . A paixão
con inuou a c esce mesmo na idade adul a e chega a e ela no seu li o au obiog á ico
Boy que “ ha one chocola e c ea ion was ‘ oo sub le o he common pala e’”,
au odenominando-se, assim, um g ande conhecedo des a a e (apud S u ock 395).
O desdém pela au o idade e pelos cas igos co po ais que e am, na al u a, o mé odo
p e e encial u ilizado pa a disciplina — “pa o a cul u e o houghening child en up
ha would su i e in England well in o he 1950s and 1960s.” (S u ock 71) —, é ou o
dos elemen os biog á icos p esen es nas suas his ó ias. Na o igem es á um episódio
bas an e ma can e i ido no empo da escola p imá ia, Ca hed al School, si uada na sua
cidade na al de Llanda , a que Dahl chamou “The G ea Mouse Plo o 1924” (Puga 11).
Nele es ão eunidos os ês “ing edien es” p incipais que compõem as suas amas: a
igu a adul a hedionda e au o i á ia (a iú a M s. P a che ), uma loja de doces e um
cas igo iolen o esul an e das aquinices ípicas daquela idade, em que um a o mo o é
colocado num asco de gobs oppe s, doces mui o popula es na G ã-b e anha en e as
duas gue as mundiais (S u ock 47), à enda na loja da e e ida M s. P ache .
Du an e os seus empos de escola, Dahl desen ol eu á ias paixões,
nomeadamen e pelo despo o e pela o og a ia (Puga 11), mas oi semp e na companhia
dos li os e dos seus he óis li e á ios, como Cha les Dickens e E nes Hemingway, os
quais ma ca am sem somb a de dú idas a sua esc i a (S u ock 271), que Dahl ul apassou
as á ias ad e sidades que a ida lhe ese ou. São á ios os exemplos dados ao longo da
biog a ia de S u ock que demons am a capacidade ina a de Dahl pa a u iliza a sua
imaginação e en e e aqueles que o odea am, desde as ca as que esc e ia pa a a sua
mãe e que acaba am po se , de ce a o ma, os seus p imei os ensaios de icção (S u ock
84), a é às pessoas que se c uza am na sua ida e i e am a opo unidade de es emunha
o seu inc í el alen o pa a c ia his ó ias cons uídas, po ezes, a pa i de me os
anseun es que obse a a na ua e que e am anspo ados pa a o campo do imaginá io a
pa i das suas acções e da sua o ma de anda (S u ock 102).
No en an o, embo a não esquecida, no ínicio da sua ida adul a a esc i a icou um
pouco pa a ás, quando decidiu emba ca numa no a a en u a, jun amen e com ou os
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explo ado es, pa a a en ão inexplo ada New oudland. Aí a is ou animais exó icos e
pe igosas c ia u as que habi a am aquelas e as e que, inclusi e, se i am igualmen e de
inspi ação pa a a c iação de algumas das suas pe sonagens, como a do c ocodilo em The
Eno mous C ocodile (“The Ma ellous Wo ld o Roald Dahl.”). Nessa iagem c uzou-
se ambém com po os de cul u as e cos umes bas an e di e en es dos seus, como é o caso
de um seu c iado neg o, que lhe inspi ou a c iação do pequeno he ói da his ó ia de Cha lie
and he Chocola e Fac o y, num ascunho inicial (S u ock 109), ou os polémicos
Oompa-Loompas que, nas p imei as edições daquela ob a, nada mais e am do que
pigmeus a icanos que abalha am pa a a áb ica de Willy Wonka em oca de g ãos de
ca é (Bu le 3).
Pode emos a é dize que Dahl oi, sem dú ida, um homem dos se e o ícios, com
uma ida eple a ambém ela de a en u as: “A spy, ace igh e pilo , chocola e his o ian
and a medical in en o !” (“Abou Roald Dahl”). Depois de um pe íodo em Á ica,
segui am-se ou os abalhos dis an es daquele que o o nou um nome conhecido da
li e a u a b i ânica a é aos dias de hoje, ais como pilo o da RAF na Segunda Gue a
Mundial ou espião ao se iço da BSC (B i ish Secu i y Coo dina ion).
Um dos episódios mais ma can es da sua ida, passado nos empos em que
abalha a como pilo o da Fo ça Aé ea, e que icou conhecido na biog a ia de S u ock
como “A Monumen al Bash on he Head”, eio a in luencia g andemen e o u u o da sua
ca ei a li e á ia. Impossibili ado de con inua a pilo a de ido a um desas e de a ião que
o deixou empo a iamen e cego e com cons an es e e í eis do es de cabeça, Dahl
começa a dedica -se cada ez mais à esc i a. O seu sen ido de humo , ca isma e
c ia i idade não deixa am ninguém indi e en e e, po esse mesmo mo i o, pouco empo
depois de se e i a da RAF é con idado a in eg a a Embaixada B i ânica em Washing on,
onde ganha pela p imei a ez alguma no o iedade quando C.S. Fo es e (1899-1966), um
omancis a b i ânico ambém ele a abalha em Washing on azendo p opaganda p ó-
b i ânica e incumbido de publica uma his ó ia baseada na expe iência da gue a, ou e os
ela os de Dahl ace ca do aciden e no dese o líbio em 1940. A na a i a a que chamou
“Piece o Cake” é de al o ma ca i an e que Fo es e , ascinado, acaba po aze publica
a his ó ia no jo nal The Sa u day E ening Pos , ago a com o í ulo de “Sho Down O e
Libya”, algo mais jo nalís ico e p opagandís ico. O encon o com Fo es e e a oca de
ideias que i e am, dos quais esul ou uma his ó ia de ce a o ma oman izada, o am,
como diz Liccy Dahl, um pon o de i agem na ca ei a do esc i o (“The Ma ellous
Wo ld o Roald Dahl.”).
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do quo idiano. A endendo a udo o que já oi di o an e io men e, não é de es anha , assim,
a o ma desen ol a como a a nos seus li os de e minados emas e nos az olha pa a
eles com ou os olhos. Numa mis u a de epulsa, iolência ca á ica, sub e são, Dahl
consegue a anca um so iso ao seu lei o , que sol a uma ga galhada quando é colocado
de su p esa pe an e cená ios de ho o , onde pequenas c iancinhas são o ape i i o de
mal adas c ia u as, po cos in eligen es de o am ag icul o es, ou a di ec o a de uma
escola, con a iamen e à ideia que emos de um adul o, é udo menos uma igu a
p o ec o a e pega numa c iança pelos cabelos. São es as si uações o a do comum que
di e em os mais no os e despe am os seus “impulsos mais básicos”, ao mesmo empo
que os ensinam a olha com humo pa a si uações abu e ansiedades do dia-a-dia, e a é a
aze oça de assun os delicados com os quais somos ensinados a não goza . Vol a emos
a es e ema mais adian e.
Ma ia Luísa Bliebe nich Ducla Soa es So omayo Ca dia nasceu em Lisboa, em
20 de Julho de 1939. Desempenhou du an e a sua ida á ios ca gos de impo ância
ligados às ciências da comunicação e ao ensino, mas é al ez à li e a u a in an o-ju enil
po uguesa que mui os associam o seu nome. Com um pe cu so ex ao diná io de mais
de duas décadas enquan o esc i o a, Luísa Ducla Soa es con a já com mais de uma cen ena
de li os o iginais des inados aos mais jo ens, azão pela qual al ez enha ido um maio
à on ade em aduzi pa a um público que já lhe é amilia . É aliás o seu papel como
adu o a que p e endemos pô aqui em des aque, pois a sua capacidade in en i a e o seu
gos o em b inca com imas, como e elou na en e is a que concedeu a Ana B ígida
Pai a em 2014, ize am nomeadamen e com que a ob a de Roald Dahl Re ol ing Rhymes
(1982), in i ulada em po uguês His ó ias em Ve so pa a Meninos Pe e sos (1989),
espelhasse com b ilhan ismo o génio do au o o iginal. T a ando-se de uma ob a nada
ácil de e e pa a uma ou a língua, a adução de Luísa Ducla Soa es em ido á ias
eedições, e elando-se um e dadei o sucesso de endas em Po ugal, pa a não ala dos
elogios de c í icos como José An ónio Gomes, como no a Ana B ígida Pai a na sua
disse ação.
Po odos es es mo i os, a adução da ob a Re ol ing Rhymes oi, sem dú ida,
uma on e de inspi ação undamen al pa a a elabo ação des e T abalho de P ojec o, em
que ap esen amos uma p opos a de adução pa cial da ob a Di y Beas s. Lendo a
adução da au o a, e ambém a en e is a que Luísa Ducla Soa es concedeu a Ana B ígida
Pai a, pôde cons a a -se que a adu o a não en e edou po uma es a égia de adução
li e al, ainda que esse pudesse se o caminho mais ácil. Con udo, a esc i o a de li os
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in an is, econhecendo a magia e o encan o dos poemas de Dahl e a impo ância da imas
e do i mo nesses mesmos poemas, conseguiu se iel ao esquema básico da ob a, que a
ní el do con eúdo, que a ní el do ocabulá io, quando possí el, ainda que al enha
exigido dias e noi es de abalho e inúme os ascunhos, a é encon a a melho opção.
Di y Beas s ap esen a bas an es semelhanças com a ob a Re ol ing Rhymes,
azendo aliás pa e da pequena colecção de pa ódias esc i as em e so pelo céleb e au o .
Também po esse mesmo mo i o a adução po uguesa His ó ias em Ve so pa a Meninos
Pe e sos, de Luísa Ducla Soa es, cons i ui uma inspi ação pa a es e abalho: não só
pelos anos de expe iência e ní el de conhecimen os des a adu o a, que acei ou o desa io
de aduzi a poesia de Dahl, mas ambém pela capacidade c ia i a e elada e pela o ma
como conseguiu ansmi i a essência do au o b i ânico ao público po uguês, sem
comp ome e o seu humo ca ac e ís ico.
Reconhecendo as especi icidades da esc i a de Dahl que le an am p oblemas de
adução, p ocede -se-á em seguida a uma iden i icação de alhada das que encon ámos
ao ealiza mos a adução de alguns poemas de Di y Beas s.
As ilus ações
G andes ou pequenas, colo idas ou monoc omá icas, as ilus ações são um dos
elemen os ca ac e ís icos que compõem a na a i a dos li os in an is. P imam não só po
con e i em o ma e co , mas ambém po se em um complemen o dos signos e bais. Po
si sós, as imagens são a é capazes de con a uma his ó ia inicialmen e concebida pelo
imaginá io do au o em o ma de pala as, a a és de desenhos, símbolos e ou as
ep esen ações g á icas que o ilus ado anspo a pa a o papel. Assim sendo,
comp eende-se acilmen e que as ep esen ações isuais que ilus am as páginas de um
li o in an il desempenham um papel de ex ema impo ância, pela sua capacidade de
aduzi pa a o seu público-al o di ec o, as c ianças, pala as a a és de imagens. Ainda
que a igu a adul a es eja p esen e (não só no já e e ido p ocesso de selecção, edição e
adução das ob as li e á ias) enquan o co-lei o a, o na-se e iden e que es a ca ac e ís ica
dis in i a do géne o ganha g andes p opo ções essencialmen e jun o dos mais no os que,
mesmo não sabendo le , são capazes de cap a e elemb a g andes clássicos da li e a u a
a a és das ilus ações.
28
Assim, e no seguimen o des a mesma linha de pensamen o, conseguimos pe cebe
que os ilus ado es acabam po se mui as das ezes co-au o es, abalhando semp e que
possí el em simbiose com o au o do ex o. P o a disso são as memo á eis ilus ações de
Quen in Blake (n. 1932) que in eg am algumas das ob as de g andes nomes da li e a u a
in an il, como Russell Hoban (1925-2011), Joan Aiken (1924-2004) e Roald Dahl
(“Biog aphy”). A a és de es emunhos do p óp io ilus ado , cons a a-se que o p ocesso
de c iação a ís ica aca e a mui o mais do que da la gas à imaginação. Exis em, na
e dade, impo an es de alhes que p ecisam de se es udados e pensados an es de
igu a em no papel. Como é que as pe sonagens se ap esen am, quais as suas exp essões,
como se enquad am na página, se ão o mé odo e o meio u ilizados numa ilus ação
adequados à a mos e a do li o a que se des inam? Se á que exis e con inuidade na acção
en e as ilus ações? Es as são apenas algumas das ques ões que Quen in Blake e e e e
que o nam as ilus ações, do seu pon o de is a, in e essan es, ao mesmo empo que
mos am a necessidade de uma boa p epa ação e planeamen o, consoan e as exigências
de cada his ó ia (Blake).
Na o igem da pa ce ia que su giu en e Roald Dahl e Quen in Blake es e e, pa a
além dos in e esses em comum (nomeadamen e pela comédia e pelos exage os) que
pe mi i am que se es abelecesse uma ligação en e os dois, ambém uma dinâmica de
abalho única. No p ocesso de c iação de pe sonagens e cená ios, o ilus ado adop a a
uma abo dagem ime si a no ex o, a im de cap a o espí i o da ob a: “Blake adap ed his
g aphics o espond o he s yle o he e bal ex and u he in e p e he pa icula wo ld
ha Dahl had c ea ed” (Sco 160). Po sua ez, Dahl “conduzia” o aço de Blake: “Then
Dahl explici ly hands o e o Blake, p omp ing him wi h ‘i looked like his’, ‘ his is wha
happened’, and Blake esponds wi h mul iple ske ches ha inally d i e he wo ds om
he page al oge he .” (Sco 168). Assim, é de no a em Quen in Blake o espei o pelo
es ilo singula do esc i o b i ânico e a necessidade que inha de o aze sob essai ou
complemen a , anspondo os cená ios g o escos e a linguagem peculia pa a o campo da
ilus ação:
No only does he gi e g aphic de ini ion o Dahl’s o en g o esque de ini ions and qui ky language,
he also de elops de ails o ac ion ha Dahl simply hin s a . His illus a ions de elop and de ine
cha ac e and in e pe sonal ela ionships, sus ain and ein o ce one mood, and suppo Dahl’s
dis inc i e na a i e oice ha wea es a complex ange o emo ions bo h da k and ligh wi h a
w y, whimsical and some imes aw humou . In addi ion, Blake ma ches he a ec o his illus a ion
o he gen e o he piece, exagge a ing he biza e and media ing he iolen as he judges
app op ia e. (Sco 161)
29
Cada ilus ado em a sua o ma de abo da um ex o, a iando no que oca à
a enção dada aos po meno es, ao es ilo do desenho, à escolha de co es e mo imen os, e c.
No caso de uma pa ce ia como a de Blake/Dahl, es a acaba semp e que possí el po
espelha a isão conjun a de au o e ilus ado , sendo que as imagens são um elemen o
impo an e que em da o ça e signi icado às pala as: “bo h e bal and isual ex
complemen one ano he .” (Sco 168).
A animação di undida pela BBC que deu ida à ob a sa í ica Re ol ing Rhymes é
um bom exemplo do g ande desa io que é anima e passa uma his ó ia do papel pa a o
ec ã. Jakob Schuh e Jan Lachaue , os ealizado es des e ilme di idido em dois episódios,
e e em no a igo esc i o po Ian Failes pa a o websi e de no ícias elacionadas com
animação Ca oon B ew que adap a a ob a de Dahl implicou a capacidade de esol e de
o ma c ia i a de e minados p oblemas, como a inco po ação dos poemas o iginais,
encon a o ipo de humo neg o ce o ou a inclusão na animação de his ó ias pe encen es
a uni e sos di e en es (pe sonagens de á ios clássicos) e de pe íodos de empo dis in os
(es ações do ano, de e minadas ho as do dia, e c.).
Esquemas de co que c iam con as es en e cená ios luminosos e somb ios,
ca ac e ís icos das ob as de Dahl em que a emá ica do g o esco é p edominan e, e e ei os
isuais em cenas em que há ausência de som, são apenas algumas das soluções p esen es
nes e ilme e que mos am a p eocupação dos dois ealizado es em p ese a a essência
da his ó ia e do seu c iado . Fize am-no não só a a és do diálogo en e as pe sonagens,
mas ambém das animações, que po sua ez p o a am, no caso, se mais e icazes do que
o que é di o ou esc i o no que oca ao despe a de sen imen os de su p esa ou choque no
elespec ado , sendo su icien es pa a ansmi i o desen ola dos acon ecimen os. Acima
de udo, nes e ilme, en ou-se anspo a do li o pa a o ec ã o humo peculia e a oz
semp e p esen e do na ado , numa his ó ia con ada em e so (Failes).
É possí el es abelece um pa alelismo en e as p o issões de ilus ado e de
adu o . Ac i idades à pa ida mui o dis in as, possuem, quando obse adas de pe o,
simili udes quan o às me odologias u ilizadas e quan o ao p odu o inal, na medida em
que a c iação a ís ica se assemelha à c iação e bal du an e o p ocesso de aduzi
(Pe ei a 105-106). O abalho de um adu o , al como o de um ilus ado , implica a
obse ação de alhada de odas as componen es do ex o. Ainda que pe an e o olha do
lei o exis am de e minados elemen os que passam despe cebidos, o adu o , bem mais
cien e dos desa ios que implica e e pala as de uma língua pa a a ou a, con empla o
ex o em odas as suas pa icula idades, sejam elas ao ní el linguís ico, cul u al ou das
30
ilus ações, não pe dendo de is a a coexis ência de signos e bais e não- e bais (c .
La hey 2006:11).
Apesa da pa icula a enção dada aos signos e bais nos Es udos de T adução, no
seu a igo de 2008 publicado na e is a Me a, Rii a Oi inen demons a, a pa i de
algumas das ob as mais emblemá icas da li e a u a in an il, que as imagens, sons e
mo imen os ambém desa iam o adu o e que, po isso, me ecem igualmen e e lexão e
des aque. No im das con as, como sabemos, aduzi não implica apenas uma
ansposição linguís ica, mas, mais do que isso, eque que se conside e o con ex o em
que a adução oco e (no mas igen es, cul u a, público, e c.), e ainda, no caso pa icula
da li e a u a in an il, os es ímulos sono os e isuais que são cada ez mais comuns nes e
géne o li e á io, sob e udo se ala mos em adap ações pa a cinema e ele isão (Oi inen
2008: 76-77).
Se po mui o empo o p ocesso adu ó io oi is o como um ac o me amen e
linguís ico, inúme as o am as abo dagens que su gi am a pa i de 1972, com a p opos a
de uma no a á ea de es udos au ónoma dedicada à adução, e u ando al ideia e
de endendo que se olhasse pa a a adução de um ou o ângulo. Desde en ão, di e en es
ocos de in e esse e p oblemá icas o am sendo des acados, acompanhando
ine i a elmen e as mudanças sociais e cul u ais que se ize am sen i .
Recuando a 1959, o linguis a Roman Jakobson (1896-1982) ap esen a-nos,
a a és do seu ensaio “On Linguis ic Aspec s o T ansla ion”, uma no a isão do concei o
de adução que, de ce a o ma, e olucionou a manei a como olhamos pa a es a
complexa ac i idade; isão essa que con inua ele an e nos dias de hoje e nos pe mi e
analisa , de uma o ma mais ap o undada, as inúme as aduções com que con ac amos,
especialmen e se se i e em conside ação a in luência cada ez maio que os gigan es da
mul imédia, onde se inclui a indús ia cinema og á ica, exe cem sob e o me cado li e á io
in an il (c . O’Sulli an 2005: 149-150). Nes e seu es udo, Jakobson dis ingue ês ipos
de adução: adução in alinguís ica e adução in e linguís ica (conside ada como
“ ansla ion p ope ”), em que os signos e bais são o p incipal e comum denominado , e
ainda adução in e semió ica, onde, con a iamen e aos dois an e io es, a in o mação
e bal é con e ida pa a ou os códigos de in o mação não- e bal, ou ice- e sa. A
iden i icação da adução in e semió ica eio pe mi i que elemen os a p io i elegados
pa a segundo plano, po não aze em pa e daquilo que se conside a a se uma on e
p imá ia, como acon ece com as ilus ações, ossem es udados do pon o de is a da
adução (Pe ei a 105). Exemplo disso mesmo é o p esen e T abalho de P ojec o, em que
31
se abo da um aspec o ão impo an e como são as imagens que acompanham o li o de
Roald Dahl.
Como já se iu, nos li os in an is as ilus ações são pa e impo an e da his ó ia,
complemen ando, ampli icando e azendo “ecoa ” a esc i a, num diálogo de igual pa a
igual. É ambém a a és dos elemen os isuais que o lei o ica a conhece melho os
di e en es cená ios, os aços de uma sociedade, as ca ac e ís icas mais ma cadas de uma
pe sonagem e an os ou os po meno es do en edo (Oi inen 2008: 84). Tais elemen os
ganham ainda ou as p opo ções se i e mos em con a o ac o de que exis e uma cul u a
en aizada em cada his ó ia, espelhada a a és dos desenhos ( ep esen ações de
pe sonalidades, eligiões, luga es, comida, e c.), especialmen e quando a ob a se o na
canónica e a a essa os di e en es can os do mundo, que a a és das aduções ei as pa a
a página, que a a és do cinema, c is alizando as pe sonagens e uni e sos no empo e a
uma escala global.
Todos es es aspec os condicionam o adu o . Po um lado, não se pode esquece
que es e é ambém um lei o e que as suas expe iências pessoais, cul u a, espaço e empo
em que se inse e i ão in luencia , em ce a medida, as suas escolhas adu ó ias; po ou o,
as es ições na ho a de adap a e a o ma como as páginas es ão con igu adas, com
pequenas caixas de diálogo acompanhadas de imagens que de em es a em sin onia en e
si, limi am a sua libe dade. Assim, le an a-se o elho dilema: domes ica-se o ex o po
o ma a consegui uma p oximidade com o lei o da língua de chegada, a iscando uma
incoe ência en e imagem e ex o, ou man êm-se os elemen os comple amen e es anhos
à cul u a de chegada, com a consciência de que isso pode á a ec a a ecepção e
comp eensão da ob a (c . Oi inen 2008: 79-84)?
A sono idade das pala as: poesia, jogos de pala as e lei u a em oz
al a
A li e a u a in an il dis ingue-se pela ino ação linguís ica que ap esen a. Reple a
de jogos de pala as, neologismos, ocadilhos e an os ou os ecu sos da língua que
enchem a ob a de co e despe am a cu iosidade dos mais no os que en am pela p imei a
ez em con ac o com a li e a u a, a adução de li e a u a in an il cons i ui um g ande
desa io, não só pelas especi icidades linguís icas em si, mas ambém pelo ac o de mui as
ob as pe encen es a es e géne o li e á io se em concebidas pa a se em lidas em oz al a.
Os sons e os i mos con ibuem pa a a es é ica das na a i as, que e ão de ag ada ao
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ou ido do exigen e lei o , o que, po sua ez, ob iga o adu o a e le i sob e a luência
e a na u alidade das pala as numa no a língua: “Since child en o all ages o en hea
s o ies a he han ead hem, ansla o s ha e a pa icula esponsibili y o p oduce ex s
ha ead aloud well.” (La hey 2016: 93).
Assim, quando se p ocede à ca ac e ização da na u eza e es u u a do ex o de
li e a u a in an il e se ponde am as e amen as necessá ias pa a consegui inden i ica e
ul apassa os obs áculos ine en es à adução, há que econhece a impo ância dos
es ímulos audi i os pa a o ipo de público a que se des ina. A pon uação, os sons e os
i mos ma cam em pa icula o compasso da na a i a e, especialmen e se ala mos em
poesia, queb a a cadência e a luidez das imas, po exemplo, pode comp ome e a
ecepção jun o do público.
Di eccionando ago a a nossa a enção mais especi icamen e pa a as peculia idades
da esc i a de Dahl, não é su p esa pa a quem conhece o seu es ilo na a i o que um dos
aspec os mais salien es, e que ans o mam os seus li os em êxi o, é o ac o de o au o
b i ânico consegui des ia -se das con enções da língua, o nando-a di e ida e ca i an e
pa a le em oz al a: “I is w i ing ha begs o be ead aloud, and he phonological de ices
men ioned ea lie help cap u e he ene gy o his s o ies’ usually b ash ex e io , besides
he g aphemic ep esen a ion o onoma opoeia” (Rudd 65). O a, se econhecemos nas
ob as de Dahl uma quase ob iga o iedade de se em lidas em oz al a, Di y Beas s não é
excepção. O i mo e algumas b incadei as com as pala as da língua inglesa que ma cam
os poemas o nam a ob a apela i a; no en an o, da pe spec i a da adução, al i mo e
c ia i idade linguís ica ep esen am um e dadei o queb a-cabeças pa a o adu o . Pa a
explica de que modo pode se desa ian e ans e i es as pa icula idades pa a ou o
idioma, bas a-nos a ende às di e enças de es u u a en e as línguas, nes e caso en e a
língua inglesa e a língua po uguesa ( alamos mais especi icamen e do po uguês eu opeu,
pa a o qual se aduzi am os ês poemas seleccionados). Enquan o que, como se sabe, o
inglês é uma língua sin é ica, em que se consegue ansmi i mui a in o mação em ases
cu as, o po uguês, pelo con á io, em uma na u eza analí ica, o que, aplicado em
conc e o à adução de e sos como os de Dahl, acaba po o na o ex o mais denso e
menos luido, co endo-se o isco de queb a o i mo do ex o.
Pa a pe cebe melho a dimensão des as di e enças, obse e-se a dispa idade do
núme o de sílabas mé icas en e o ex o de pa ida e o de chegada. No caso conc e o,
cada um dos poemas de Dahl incluídos em Di y Beas s ap esen a e sos de oi o sílabas
mé icas; no en an o, em po uguês, exis e a necessidade acen uada de ans o ma esses
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e sos oc ossilábicos em e sos alexand inos (de 12 sílabas), o nando-se a lei u a mais
pesada e pe dendo-se o e ei o quase que musical do o iginal inglês.
Tendo es es ac o es em conside ação, a a e a de economiza pala as du an e o
p ocesso adu ó io o na-se bas an e di ícil e alcança um núme o de sílabas mé icas ão
eduzido pa ece quase impossí el. Exige-se ao adu o a capacidade de ein en a ,
e o mula ezes sem con a e usa a língua de o ma c ia i a, de modo a en a man e as
ca ac e ís icas do o iginal, o que mui as ezes não é conseguido. Da ob a T ansla ing
Child en’s Li e a u e, de Gillian La hey, uma lei u a essencial di eccionada não só aos
adu o es p o issionais, mas ambém a in es igado es e es udan es da adução des e
géne o li e á io — a qual nos põe a e le i de o ma c í ica sob e a p á ica da adução
a a és de á ios exemplos eais e espec i as explicações —, conseguimos e i a
algumas conclusões sob e a melho o ma de aze ace a es e p oblema. Assim, La hey,
diz-nos que uma es a égia u ilizada mui o equen emen e é a de le em oz al a as
passagens aduzidas, colocando-se o adu o na pele de um lei o , a im de consegui
encon a o i mo e a es u u a sin ác ica ce os. Es e exe cício e ela-se an ajoso, pois
pe mi e que se ganhe uma maio consciência das desa monias que, de ou a o ma,
pode iam passa despe cebidas no papel (La hey 2016: 94).
Pa a além das á ias lei u as que de em se ei as com o objec i o p incipal de
lima as a es as do ex o, exis em de e minados passos que de em se seguidos an es de
se pode chega à ase em que o ex o se começa a “compo ”. Sa ah A dizzone, uma
adu o a de li e a u a in an il e de young adul ic ion, p opõe um mé odo em cinco ases
que pode, de ce a o ma, complemen a a já e e ida lei u a: inclui uma p imei a lei u a
do ex o, que po sua ez az ge mina as p imei as en a i as de adução, ma cadas po
á ias opções que pos e io men e ão sendo eliminadas. Após es es p imei os passos,
p ocede-se a no a lei u a. Nes a ase, o esul ado da adução pode á se mui as ezes
li e al. É en ão que se começam a aze as modi icações necessá ias pa a que o ex o se
molde um pouco mais à língua de chegada, man endo semp e alguns aços que
denunciam a sua o igem (La hey 2016: 94). Não obs an e, endo em con a que o que
con e e aos ex os de Dahl uma qualidade que os o na ão di e en es são odos os
ocadilhos, exp essões idiomá icas e uma g ande dose de imaginação, a c ia i idade é,
pa a além de qualque undamen ação eó ica de base, uma “ e amen a” que não pode
al a ao adu o , uma ez que o que se p e ende é p ese a ao máximo a na u eza das
suas ob as, com odas as ca ac e ís icas que as o nam apela i as. A ex ema p eocupação
em não ugi ao sen ido, ou mesmo em p ese a de e minados aspec os o mais da ob a,
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podem man e o adu o p eso ao ex o de pa ida, o que acaba po des ui a musicalidade
das ases e a sua o iginalidade. Relemb ando as pala as de Susan Bassne , exis em
semp e pe das e ganhos em adução; cabe ao adu o compensa as incon o ná eis
pe das linguís icas e cul u ais de o ma ino ado a.
Os ocadilhos e ou os ecu sos es ilís icos, que podem cons i ui uma on e de
i onia nas ob as li e á ias pa a os mais pequenos, le an am pois o p oblema de como se
ans e idos de um sis ema linguís ico pa a ou o. T ês es a égias são, a es e espei o,
equen emen e u ilizadas: c ia i idade, compensação e adap ação. O adu o de e
analisa a unção e a essonância das pala as no ex o e p ocu a , p imei amen e,
equi alen es na língua de chegada; na impossibilidade de pode segui po essa ia, e á
p e e encialmen e de en a compensa as possí eis pe das com ou os ocadilhos e jogos
de pala as que sejam amilia es na língua e cul u a de chegada. A adução li e al pode ia
se ambém uma opção, mas es e é um caminho que aca e a os seus iscos, pois mui as
das ezes pode con undi ou aliena o lei o (La hey 2016: 99-100).
A p opósi o des a emá ica da sono idade e i mo das pala as, não podemos
pe de de is a que os ex os seleccionados pa a adução são poemas. A adução de
poesia é conside ada a mais di ícil pa a os adu o es e é equen emen e execu ada po
poe as já expe ien es e conhecedo es dos seg edos des e ipo de esc i a. Não obs an e, e
dependendo da na u eza do poema e da impo ância ela i a do seu signi icado e da sua
musicalidade, no que oca à adução de poesia podem conside a -se duas g andes
es a égias possí eis: a ec iação de um no o poema inspi ado po uma adução li e al
inicial (“a c ib”), ou man e o i mo e a mé ica, al e ando o con eúdo semân ico (ibidem
101).
A o ma e o som são po no ma a g ande p io idade dos adu o es de li e a u a
in an il, os quais necessi am, nes e caso, de possui um ex ao diná io domínio de écnicas
de esc i a de poesia que incluem o uso da ali e ação, da assonância e de ou as igu as
es ilís icas que pe mi em a c iação de pad ões de som que encan am os mais no os
(ibidem 101). Pa a e o ça es a ideia de que na poesia, e em especial na esc i a pa a
c ianças, é impo an e o i mo e a sono idade das pala as, pode mos soco e -nos das
pala as de Twain ace ca das con apa idas de aduzi poesia:
T ansla ing poe y is a no o iously di icul en e p ise, and i is no su p ise ha ansla ion is o en
equa ed wi h be ayal. One can hink o he e o o ansla ion as a scale o choices, om he
li e al side o highly in e p e i e and in en i e on he o he . The dange s o he li e al app oach
include woodenness, incomp ehensibili y o awkwa dness because o idioms, me apho s, o
ph ases ha a e no used in he a ge language, li elessness, and a i iciali y. The pe ils a he o he
35
end o he scale a e ob ious: depa u e om he meaning and s ylis ic quali ies o he o iginal,
be ayal o he spi i o he sou ce wo k. (apud S ahl, 220)
A T adução enquan o p ocesso c ia i o
Ainda que po mui o empo enha sido incluída na ca ego ia da sub-li e a u a,
conside ada pouco exigen e e ca ac e izada po uma linguagem simplis a, ajus ada às
capacidades in e p e a i as de quem a lê, a li e a u a in an il goza hoje de um p es ígio
que an es não lhe e a a ibuído e o p esen e T abalho de P ojec o p e ende con ibui pa a
e o ça a ideia de que se a a de um géne o complexo e al amen e imagina i o.
Mui as ezes passamos os olhos pelas páginas de um li o sem nos ape cebe mos
da iqueza da linguagem em que es á esc i o e da o ma como al mes ia pe mi e, de uma
o ma sub il, ansmi i e despe a á ias sensações o es no ecep o , como o iso, o
escá nio, o espan o ou a is eza. As pala as são capazes de p ende a a enção do lei o
de o ma pode osa e na li e a u a in an il elas ganham uma impo ância mui o pa icula .
Nes e géne o li e á io encon amos uma panóplia de ecu sos linguís icos eco en es,
como po exemplo os jogos de pala as, as imas e o nonsense, os quais eque em,
indubi a elmen e, uma boa dose de c ia i idade po pa e do adu o .
No que conce ne à de inição de c ia i idade, num sen ido la o, es a pode se
en endida como uma o ma o iginal ou in en i a de encon a soluções pa a de e minados
desa ios, ou, azendo uso de uma exp essão hoje em dia mui o comum, a c ia i idade é a
capacidade de “pensa o a da caixa” pa a esol e p oblemas. Vá ios in es igado es êm
analisado e discu ido o uncionamen o da men e humana no que oca aos p ocessos
c ia i os, en e os quais se salien am Fauconnie (1994) e Tu ne (1996), que dão um
papel de des aque à c ia i idade e à imaginação como agen es p incipais no p ocesso de
pensa e oma decisões. É assim possí el concebe a adução como uma ac i idade que
eque , de o ma mais ou menos ma cada, a capacidade de se c ia i o ace aos desa ios
de na u eza di e sa que o ex o ap esen a (Boase-Beie 53).
Quando aplicada ao âmbi o da adução es a mesma noção não é, con udo, linea ,
pois pode colidi com as concepções do ex o o iginal como de endo uma posição de
supe io idade e au o idade. Es a isão, ainda assim, em indo a se con a iada pela
c í ica li e á ia e pelos Es udos de T adução, g aças à con ibuição de eó icos como
Ba ns one, que equipa a qualque p ocesso de c iação, desde escul u as e pin u as a ob as
li e á ias, ao p ocesso de adução, pois em odas elas se e i ica uma ans e ência e
ep odução de ideias que êm o igem na men e humana e ganham pos e io men e o ma
42
pu pose we canno ully disce n, and hen suddenly all is esol ed om a di ec ion we didn’
expec . (apud S allcup 33)
A a e são e o ho o são adicionados a es a ó mula quando, de o ma inespe ada,
somos con on ados com cená ios de iolência e de exibição de pode e o ça sob e os
mais acos, deixando o lei o num mis o de sen imen os de con usão e de epulsa, mas
sol ando uma ga galhada de alí io po sabe que, apesa da deso dem ins alada, no im
udo acaba á po e uma solução: “Dahl is ca e ul o le us know ha he e a e no se ious
consequences o he child en. This ensu es ha each scene s ays on he side o slaps ick
and ne e dissol es in o he ho o o ac ual blood, go e and b oken bones” (S allcup 34).
Assim, uma das p imei as g andes conclusões que conseguimos e i a des as
eo ias cen ais do humo é que as mesmas andam de mãos dadas com o sen imen o de
supe io idade: que seja pelo sen imen o de exclusão que p o oca ao indi íduo, ou
conjun o de indi íduos, al o de oça, ou pela sensação que causa no lei o ao sabe que
oi apaceado e as suas capacidades cogni i as es adas.
Não negando, e iden emen e, a impo ância de conhece os concei os que nos
ajudam a mapea as di e en es ace as do humo , num T abalho de P ojec o como o
p esen e o na-se pa icula men e necessá io comp eende os p oblemas e implicações de
aduzi o humo pa a uma ou a língua e que es a égias usa pa a se se bem-sucedido
nessa a e a.
O humo , nas suas di e en es o mas, é uma ca ac e ís ica uni e sal do se
humano: “The e is no socie y in which humou has no been epo ed o exis ”. No
en an o, quando se a a da pe cepção que cada um em ace ca do humo , especialmen e
endo em con a que as si uações ep esen adas, os emas e os assun os podem se
especí icos de uma cul u a, di e en es ques ões se le an am. Se á o humo aduzí el?
Se á o humo um obs áculo à adução? Como aduzi o humo e de que o ma adap á-lo
às no mas da cul u a de chegada? (O’Sulli an 2005: 28-29).
Pa a nos ajuda a esponde a es as pe gun as eco emos a ês nomes que nos
dão e amen as impo an es pa a analisa e iden i ica o papel que o humo desempenha.
Assim, o p imei o eó ico que que emos menciona é Roman Jackobson, que econhece
a possibilidade de aduzi en e sis emas semió icos di e en es, sublinhando que o
signi icado é a essência de um ex o e que o adu o de e p ocu a man ê-lo, dispondo
pa a isso de á ios mé odos, en e eles a pa á ase (A a do 174). Em de e minadas
ci cuns âncias, há que “da a ol a” ao ex o, pa a que es e se o ne mais comp eensí el,
nomeadamen e nos casos em que as di e enças cul u ais podem cons i ui um obs áculo
43
à in eligibilidade. Po que alamos de humo , e como se sabe, es e pode se di ícil de
en ende ; impo a pois e em men e es es aspec os daqui pa a a en e.
De e-se a Vic o Raskin, linguis a e p o esso na Pu due Uni e si y (EUA), o
desen ol imen o da «Seman ic-based Sc ip Theo y o Humo » (1985), onde p e endeu
ap esen a “ he necessa y and su icien condi ions, in pu ely seman ic e ms, o a ex o
be unny” (c . Raskin 1985). Anos mais a de, em 1991, es a eo ia em a se e is a.
Jun amen e com Sal a o e A a do, ou o g ande nome da Linguís ica, Ruskin elabo ou
«The Gene al Theo y o Ve bal Humou ». Mais comple a que a an e io , de endem os
seus au o es que “each joke can be iewed as a 6- uple”, azendo-se ale , pa a isso, de
seis pa âme os designados de «Knowledge Resou ces»: “language”, “na a i e s a egy”,
“ a ge ”, “si ua ion”, “logical mechanism” e “sc ip opposi ion”.
Quan o ao p imei o pa âme o, como o nome indica, diz espei o à edação do
ex o e à colocação dos elemen os uncionais que o cons i uem. Aqui en a a noção de
pa á ase, pois a sinonímia e ou as cons uções sin á icas são al e na i as álidas que
anspo am a mensagem sem comp ome e o con eúdo semân ico. Des e caso excluem-
se os ocadilhos, uma ez que “jokes based on he signi ian (mos ly puns) a e a ma ginal
excep ion” (A a do 177). Quan o ao segundo elemen o, e e e-se ao ipo de na a i a em
que a piada se inse e, que seja um simples diálogo, (pseudo) ocadilho ou uma con e sa
pa alela. Es e pon o pode anspo a -nos pa a es udos in e -cul u ais, uma ez que
de e minados egis os são únicos de uma de e minada cul u a: “conside ing o example
knock-knock jokes which a e unknown ou side o he Anglo-Saxon wo ld”, o que po sua
ez deixa ao adu o “ he ask o ep oducing he joke using a di e en Na a i e
S a egy”. O e cei o pa âme o diz epei o ao al o, ou aquilo a que chamam “bu o he
joke”. Incluem-se aqui as ep esen ações es e eo ipadas de g upos de indí iduos. Mais
uma ez se chama a enção pa a o ac o cul u al, pois é do conhecimen o ge al que os
al os das piadas es e eo ipadas dependem mui o de luga pa a luga . Assim, pa a um
ame icano, “I alians a e di y and iolen ”, e pa a os i alianos “Sco s a e a a icious”.
Seguidamen e, emos a si uação que se p ende com o ema e os elemen os en ol en es da
piada, desde os objec os, os pa icipan es, os ins umen os, as ac i idades, e c. Quan o ao
pa âme o mais p oblemá ico de odos, “logical mechanism”, A a do a gumen a que
“p esupposes and embodies a ‘local logic’, i.e. a dis o ed, play ul logic ha does no
necessa ily hold ou side o he wo ld o he joke” (A a do 180). Enquad am-se nes e
pa âme o “ ole e e sals”, exagge a ions”, “jux aposi ions”, “ alse analogies”, “igno ing
he ob ious”, en e mui os ou os (c . A a do 180). Finalmen e, o úl imo pa âme o, o
44
mais abs ac o de odos os acima mencionados, le a-nos a conhece ês concei os que
cons i uem o discu so humo ís ico: “sc ip ”, “o e laping” e “opposi eness”. Assim, um
“sc ip ”, em e mos ge ais, co esponde a um conjun o de in o mações que nos é dado
sob e algo, como um objec o (imaginá io ou eal), um e en o ou uma acção: “I is a
cogni i e s uc u e in e nalized by he speake which p o ides he speake wi h
in o ma ion on how he wo ld is o ganized, including how one ac s in i ” (A a do 181).
“O e lapping” e e e-se à combinação de mais do que um “sc ip ”, ou seja, é possí el
encon a echos de ex o que podem e mais do que uma lei u a. A a do dá como
exemplo um cená io onde se desc e e alguém a aco da , a p epa a o pequeno-almoço e
a sai de casa, o qual pode ia se lido como uma simples ida pa a o abalho, ou uma
iagem pa a i à pesca. Es a sob eposição de guiões le a-nos à úl ima de inição, a de
“oposi eness”, quando exis e oposição en e esses mesmos guiões — aquilo a que Raskin
chamou “local an onymy”: “Raskin de ined local an onyms as “ wo linguis ic en i ies
whose meanings a e opposi e only wi hin a pa icula discou se and solely o he
pu poses o his discou se” (1985:108)” (A a do 182). Ci emos ainda uma ez mais
A a do:
Any humo ous ex will p esen a Sc ip Opposi ion; he speci ics o i s na a i e o ganiza ion, i s
social and his o ical ins an ia ion, e c., will a y acco ding o he place and ime o i s p oduc ion.
I should also be s essed ha each cul u e, and wi hin i each indi idual, will ha e a ce ain numbe
o sc ip s ha a e no a ailable o humou (i.e., abou which i is inapp op ia e o joke). Fo
example, medie al cul u e ound i pe ec ly accep able o laugh a physical handicaps, while his
is no longe accep able in some mode n (sub)cul u es. So ob iously any a emp o gene a e
humou using one o he sc ip s no a ailable o humou will ail, o be ma ked ( his is a possible
explana ion o gallows humou ). (A a do 182)
E ei o p ocu ado de nume osas o mas, seja a a és de exp essões e si uações que
dependem da componen e linguís ica — onde podemos iden i ica , a í ulo
exempli ica i o, os neologismos e os ocadilhos linguís icos, nos quais se inse em as
homo onias — , ou a a és do p óp io es ilo na a i o, onde impe am o humo neg o, a
linguagem de sub e são mo al e as c í icas con unden es que põem nomeadamen e em
ques ão a igu a do adul o (Soa es 29), o iso é uma das p incipais p eocupações de Roald
Dahl, que conhece mui o bem o seu público lei o e sabe que es e ap ecia o nonsense e o
humo esca ológico (Pai a 2014a: 53). Ainda que seja expec á el o inal eliz nas úl imas
páginas de cada con o, uma boa his ó ia não se az sem “na a i e excesses o olk
acon eu s” eple os de “comic exagge a ions” e “bu lesque humou ”, onde não al am
c ia u as a e ado as que amed on am os mais no os e pesados cas igos pa a os ilões.
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Mas, se os adul os u ilizam es a “na a i e iolence in o de o discipline and socialize
child en in he name o guiding and healing hem” (Ta a 71), a iolência bu lesca, “which
depends o i s e ec on dis o ion and exagge a ion”, e a iolência e alia ó ia, “which
u ns on he no ion o physical punishmen ”, despe am nos mais no os um “undisguised
glee o bo h – a wi ch’s p epa a ions o a cannibalis ic eas o he whacks in lic ed on
illain’s backside by a magic cudgel” (ibidem 72).
Combinado com o espec áculo de ho o es p esen es nes as his ó ias, o humo
se e ambém pa a ameniza as “anxie ies ega ding aboo subjec s” (S allcup 38): um
humo conside ado in an il que lida com assun os obscenos e onde “shi and o he ‘di y’
bodily subs ances a e he a ou i e opics o jokes among child en” (Gees 127). Assim,
“ hey o en ind jokes abou body and bodily unc ions pa icula ly unny” (S allcup 38).
A cons a ação de que o humo é uma peça undamen al da li e a u a in an il e da
ob a de Dahl em pa icula , le a-nos ine i a elmen e a econhece que a sua adução
cons i ui um eno me desa io, exigindo um g ande ní el de c ia i idade e, po ezes, uma
o e in e enção a ní el ex ual. Segundo A a do, os seis pa âme os a ás mencionados
de em se p ese ados na adução semp e que possí el. No en an o, se necessá io, o
adu o pode pe mi i -se aze o seu ex o di e i do o iginal: “i possible, espec all six
Knowledge Resou ces in you ansla ion, bu i necessa y, le you ansla ion di e a
he lowes le el necessa y o you p agma ic pu poses.” (A a do 183).
De en e as á ias componen es humo ís icas p esen es na ob a de Dahl,
des acamos o caso pa icula dos jogos de pala as. Es es são, segundo Jacqueline Hen y,
um enómeno que eco e ao que chama “aciden es da língua”, nomeadamen e as
homo onias, as pa onímias e os e mos polissémicos, pa a aze b incadei as com a língua
e explo a as pa icula idades e ambiguidades semân icas e oné icas (apud Wecks een
104). Quan o à esolução des e p oblema, quando ques ionado sob e a aduzibilidade ou
in aduzibilidade dos ocadilhos A a do a i ma: “Those puns ha exhibi in he SL a se
o ea u es which is consis en wi h a se o ea u es in he TL, such ha he p agma ic
goals o he ansla ion a e ul illed, will be ansla able.” (A a do 190).
Já na opinião de Co inne Wecks een, de emos olha pa a es e enómeno endo em
con a a sua dimensão cono a i a e ambígua, pois são es es os elemen os undamen ais
que compo am em si a o iginalidade, a incong uência e a comicidade (Wecks een 104).
E é po es e mesmo mo i o, a im de conse a as ca ac e ís icas que con e em
singula idade ao ex o, que se o na mui as ezes impo an e aduzi não an o de aco do
com o sen ido, mas de modo c ia i o. Is o é, acompanhando o pensamen o de Wecks een
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ace ca da manei a como Balla d pe spec i a a a u ilização da c ia i idade pa a ins
adu ó ios, es a pode sob epô -se à li e alidade:
C ea i i y […] can be a mo e e ec i e han accu acy in he ansla ion o wo d-play. Wo dplay
is an a ea pa excellence whe e wo d- o -wo d ansla ion usually misses he poin . Wha is mo e
ele an han seman ic meaning in many ins ances o wo dplay is he s ylis ic de ice i sel , he
ela ionship be ween wo ds. And his is, pe haps, why many leading schola s ha e a gued ha
puns a e un ansla able […]. (apud Wecks een 105)
O deba e sob e o humo e a sua in aduzibilidade su ge com equência quando se
ala des e ópico, pois es á in imamen e ligado a ques ões linguís icas e cul u ais que
podem se ex emamen e di íceis de aduzi e adap a . Ainda que não exis a nenhuma
ó mula mágica pa a soluciona os p oblemas da adução de humo de o ma pe ei a, e
sendo que nunca exis em duas aduções iguais, pode-se no en an o en a encon a
algumas es a égias que pe mi am comba e a sua apa en e in aduzibilidade. Tais
es a égias assen am no conhecimen o e domínio que o adu o de e possui não só da
língua de pa ida mas especialmen e da língua de chegada, po o ma a se capaz de
encon a nela exp essões, e imologias e e e ências cul u ais que não deixem que o e ei o
humo ís ico do ex o de pa ida acabe po se des anece , ou dê a é azo a más
in e p e ações. Se pega mos num dos exemplos mais g i an es da nossa p opos a de
adução, onde a homo onia despe a o iso e, ao mesmo empo, o ho o de e um se
humano se con undido com alimen o pa a papa- o migas (an e aun ) no poema “The
An -ea e ”, pe cebe emos apidamen e que é necessá io encon a uma o ma de despe a
no lei o uma eacção semelhan e sem en a em con on o com as ilus ações. Nes e caso,
encon amos de alhes mui o especí icos da his ó ia aos quais não podemos echa os
olhos, ou con o na a a és da ec iação de ou o cená io. Na impossibilidade de adap a
es a cena ca ica a, e não ha endo manei a de man e o jogo de pala as com homo onias
equi alen es, p ocu ou-se compensa es a i emediá el pe da e ainda assim conse a o
humo a a és de uma exp essão po uguesa. A compensação é, aliás, uma écnica que
não pode se e i ada quando se ala da adução de jogos de pala as. A elação en e sons
e signi icados no ex o de pa ida ge a p oblemas de adução que o çam o adu o a
eco e a al e na i as de eesc i a que en ol em es a égias compensa ó ias (Wecks een
116).
Dep eende-se en ão que a c ia i idade é, no im de con as, um jogo de
compensação e equilíb io: se po um lado exis em cons angimen os ligados a ques ões
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o mais e semân icas, o adu o possui ambém a libe dade de e o mula o ex o de
pa ida e eesc e ê-lo na língua de chegada (ibidem 123).
T adução, adap ação e ec iação
A es a égia da adap ação é uma das modalidades de in e enção ex ual mais
equen es no que diz espei o à adução de li e a u a in an il. Pa a comp eende mos
melho o que signi ica adap a , ecupe amos aqui algumas conside ações de Linda
Hu cheon na sua ob a A Theo y o Adap a ion. Ainda que nes e caso o concei o es eja a
se pensado no con ex o cinema og á ico, encaixa-se ambém no âmbi o em oco. Diz
Hu cheon que a adap ação pode se en endida como um ac o c ia i o e in e p e a i o que
implica uma ansposição in e semió ica de um sis ema de signos pa a ou o (po
exemplo, pala as pa a imagens), podendo ambém oco e den o do mesmo sis ema de
signos: uma “ ansmu ação”, “ anscodi icação” e “ e o ma ação” que implica uma
e o mulação de con enções e de signos (Hu cheon 16). Geo ges Bas in, po seu u no,
inicia o e be e “Adap a ion”, incluído em Rou ledge Encyclopedia o T ansla ion
S udies (Second Edi ion), nos seguin es e mos:
Adap a ion may be unde s ood as a se o ansla i e in e en ions which esul s in a ex
ha is no gene ally accep ed as a ansla ion bu is ne e heless ecognized as
ep esen ing a sou ce ex . As such, he e m may emb ace nume ous ague no ions such
as app op ia ion, domes ica ion, imi a ion, REWITING, and so on. S ic ly speaking, he
concep o adap a ion equi es ecogni ion o ansla ion as non-adap a ion, a somehow
mo e cons ained mode o ans e . (Bas in 3)
Ve i icamos assim que a elação en e adução e adap ação é p oblemá ica e que
es a pode se enca ada como algo desp es igian e. Acon ece, po ém, que es e
p ocedimen o, quando u ilizado em géne os li e á ios ma ginalizados como é caso da
li e a u a in an il, pode se emp egue com uma libe dade maio do que a usada na
adução de ou os géne os: “ he ansla o o child en’s li e a u e can pe mi himsel g ea
libe ies ega ding he ex , as a esul o pe iphe ical posi ion o child en’s li e a u e
wi hin he li e a y polysys em” (Sha i 26). No en an o, se olha mos pa a es a o ma de
manipulação de uma ou a pe spec i a, pe cebemos que, mui o pelo con á io, não em
de e uma cono ação nega i a. Aliás, é g aças à adap ação que mui os bes -selle s
ganham no o iedade e a a essam as on ei as do seu país de o igem, indo a se
ap eciados nou as línguas e cul u as. A saga Ha y Po e é, nes e caso, um bom exemplo
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pa a se pe cebe o quão impo an e se pode o na a in e enção c ia i a do adu o . Pa a
além de encon a mos nes as his ó ias de J. K. Rowling cená ios que nos eme em pa a
locais lond inos e, po an o, possi elmen e desconhecidos de mui os lei o es, o léxico
emp egue pela au o a des e uni e so mágico inclui no as pala as que causam os maio es
p oblemas aos adu o es; pala as essas que ca egam consigo um signi icado
undamen al pa a aden a nes e mundo mágico e pa a conhece melho as pe sonagens
que ali habi am. Os seus nomes o am escolhidos a dedo, o nando o desa io mui o maio
pa a o adu o que e á de aze os seus p óp ios julgamen os quan o às melho es
es a égias a adop a . Aqui udo de e se analisado ao po meno . Os jogos de pala as e
a oné ica, que nos o necem elemen os necessá ios pa a a comp eensão dos
acon ecimen os, bem como as o mas de a amen o e os dialec os, são alguns ou os
exemplos que demons am a complexidade do p ocesso de adução (c . Jen sch 190-
197). À medida que se mul iplica am as di e en es e sões que ela am a jo nada do jo em
ei icei o, começou a o na -se cada ez mais e iden e que es a já não e a só a his ó ia de
um apaz que ing essou numa escola de magia conhecida como Hogwa s, um cená io
en ol o em magia e com á ios aços da cul u a b i ânica, mas ambém a de um apaz
que es uda a em Poula d (Pou du la d), algu es em F ança; ou em Rox o (junção das
pala as Ox o d e Roque o ), na Hung ia (Vox Video).
A o igem omânica que se esconde po de ás de alguns dos nomes, como Mal oy
(bad ai h), Voldemo ( ligh o dea h) e Si ius ( he Dog S a ), o na-se essencial pa a a
comp eensão das di e en es pe sonalidades (Jen sch 191) e, se em algumas aduções os
nomes são deixados no o iginal, nou as são ei as al e ações pa a ajuda o lei o a
p onuncia nomes mui o di e en es do habi ual, ainda que “The law in his a gumen is
ha many o Rowling’s newly coined wo ds a e so unusual ha e en English speake s
disag ee on hei p onuncia ion” (Jen sch 200). É sob e udo nes as al u as que a
expe iência e a c ia i idade en am na equação. Os jogos de pala as e ali e ações são,
en e ou os, uma peça imp escindí el pa a guia o lei o nes e mundo mágico e obscu o
onde as pala as ca egam um ce o mis icismo. E se há quem consiga econhece es a
impo ância e ajuda o lei o a e uma maio pe cepção des e mundo, esse alguém é o
adu o que não se inibe de i pa a além das pala as da au o a b i ânica. Ainda que
exis am mui os elemen os que icam pe didos na adução, exis em an os ou os que
bene iciam de no os sen idos.
Po en e as inúme as e sões da saga Ha y Po e em mais de sessen a línguas,
sal am à is a algumas soluções bas an e in e essan es, como é o caso do amoso “So ing
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Ha ”, um e mo que po si só pa ece não ap esen a g andes p oblemas pois nem seque
é um ocadilho. No en an o, pa a alguns que de ce a o ma se deixa am le a pela o ma
ino ado a como J.K. Rowling cunha no as pala as, o desa io é ambém o de não o na
o ex o ainda mais es imulan e. O adu o ancês, po exemplo, pe an e o pequeno mas
pode oso acessó io de es uá io que decide o des ino dos alunos den o da escola, decidiu
aglu ina as pala as “choix” e “chapeau” (Choixpeau magique), eme endo assim pa a a
unção e pa icula idade des e objec o na his ó ia. Mas é al ez o anag ama “Tom
Ma olo” — cuja eo ganização das le as da ia o igem ao nome do ilão mais emido
des a saga — que nos p ende mais a a enção pela o ma genial como oi esol ido, pois
nes e caso o adu o ancês não só conseguiu ec ia o e ei o p e endido pelo o iginal,
como ainda da um segundo sen ido a es a cha ada a a és da pala a “Jeduso ”, ou seja,
“game o he cu se” (Jen sch 198). Somam-se os exemplos de adap ações de li os que
são cul u almen e “unmis akably B i ish” e que, po isso, passam po um p ocesso de
adap ação que os o na “less o eign o he a ge coun y”. Es e p ocesso não exclui
ambém os Es ados Unidos da Amé ica que, ainda que pa ilhe a mesma língua, em as
suas especi icidades e, po isso, nem mesmo um simples paco e de “c isps” se li a do
esc u ínio do adu o a en o (Vox Video).
No que oca à p odução li e á ia pa a o público in an il, o peso da imagem de
in ância p ojec ada pelos adul os é eno me e isso az-se sen i a a és de uma sé ie de
exigências impos as po odos os agen es en ol idos no p ocesso de p odução, edição e
seleção dos li os. Po en e emas abu, p opósi os educa i os, opiniões p econcebidas
sob e aquilo que as c ianças comp eendem, alo izam, que em le , e uma imensa
“ambi ion o many a ansla o o make e e y hing a bi mo e beau i ul and ull o genuine
eeling”(S ol 75), á ias são as azões po de ás das múl iplas ozes que se azem ou i
numa adução. Os pa a ex os são um espaço em que a oz do adu o pode e uma
in e enção pa icula men e signi ica i a e assumi di e en es o mas: “i may speak in a
ac ual, explana o y, o didac ic one, i may be mu ed o ake cen e s age o i may y
o simula e he na a i e one o he sou ce ex ” (O’Sulli an 2005: 113-115).
Na e dade, é in e essan e cons a a que um ipo de li e a u a conside ado ão
simples pode ap esen a an os desa ios: “simple hings a e no always easy o ansla e”
(Milošič 3). A inal de con as, como a i mou o adu o de li e a u a in an il Vasja Ce a ,
as c ianças p ocu am “good-nigh s o ies o in e es ing ad en u es” e pa e da magia e
in e esse da his ó ia es á nos pequenos de alhes da língua, como as já mencionadas
cha adas, os ocadilhos e o humo (Milošič 3-4); mas, se assim é, isso ambém se de e
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ao adu o que ap oxima cul u as, elimina ba ei as que as sepa am, sem que o lei o se
ape ceba. Assim unciona uma boa adução, nas pala as de Rii a Oi inen: num diálogo
pe ei o onde “ he “I” o he eade o he ansla ion mee s he “you” o he ansla o ,
he au ho , he illus a o ” (apud O’Sulli an 2005: 78). Mui as ezes só nos ape cebemos
de que se a a de uma adução “when he e a e li le impe ec ions — sc a ches, bubbles”
—, como diz No man R. Shapi o, p o esso de T adução Li e á ia na Wesleyan
Uni e si y em Middle own —, caso con á io pode íamos ju a a a -se de um o iginal,
não osse na capa cons a um nome es angei o (Venu i 1).
Ainda que em mui os géne os se eco a à adap ação, mais uma ez pa ece-nos
que “ he pa icula oice o he na a o o he ansla ion would seem o be mo e e iden
in child en’s li e a u e han in o he a eas due o he speci ic, asyme ical communica ion
s uc u e”(O’Sulli an 2005:110) e que a g ande libe dade de aze modi icações ao ex o
o iginal se de e à “subo dina e posi ion in he li e a y hie a chy and i s classi ica ion as
epheme al, o popula li e a u e. (Sha i 1986)” (apud La hey 2016: 113). Em suma, “ he
low s a us o child en’s li e a u e, di e en cul u al cons uc s o childhood and di e en
no ions o wha is ‘good o he child’” são as azões que Sha i apon a pa a que se eco a
an o à adap ação na li e a u a in an il, mui as ezes al o de “ adical CENSORSHIP and
ab idgmen ” (La hey 2009: 32). Em Ingla e a, po exemplo, os KHM (Kinde -und
Hausmä chen) da au o ia dos i mãos G imm após mais de 100 anos con inuam a e
bas an e popula idade en e os mais no os, con ando equen emen e com o es o ço de
edi o as, ilus ado es e adu o es pa a man e es es con os “a esh o e e y gene a ion o
child en” (Blami es 173). Mas, al como em mui os ou os exemplos da li e a u a in an il
mundial, as c ianças inglesas i e am acesso a uma e são com uma cono ação eligiosa
mui o meno , sem os cená ios de ho o do o iginal, os quais o am subs i uídos po
ambien es menos pesados e, como semp e, a his ó ia em um des echo “on a happie no e”
(Blami es 166-167). No pano ama po uguês, é isí el a impo ância do papel das
adap ações, eesc i as e ec iações na li e a u a pa a c ianças e jo ens, desde logo no que
diz espei o a ex os da adição o al, sob e udo a pa i dos inais de Oi ocen os (Gomes
43).
Ao longo dos séculos omos pe cebendo a impo ância do papel da adução, que
no en iquecimen o dos sis emas li e á ios que no con ibu o pa a a a i mação de no as
cul u as, e a li e a u a in an il é bem e elado a desses enómenos, pois como sabemos
nasceu da ap op iação, adução e adap ação de g andes ob as já exis en es: “His o y
eaches us ha his basic ole speci ically is hea ily in luenced by ansla ion, since he
51
epe oi e o child en’s books and child en’s (na a i e/li e a y) discou se a e
sys ema ically de eloped on he basis o in e na ional adi ions” (Ghesquie e 20). Assim,
deixamos de olha pa a um ex o como uma ep odução exac a e iél, pa a con empla mos
ou os ac o es impo an es: “Since he 1970s he gene al end in he s udy o ansla ion
has mo ed away om an emphasis on EQUIVALENCE and ai h ulness, owa ds
desc ip i e app oaches ocusing on he pu pose, unc ion and s a us o he ansla ion in
he a ge cul u e.” (La hey 2009: 32). Ques ões ligadas a pode , ideologia e ins i uições
de em ambém se omadas em conside ação, pois nesse caso, como a i ma And é
Le e e e na sua ob a T ansla ion, Rew i ing, and he Manipula ion o Li e a y Fame
(1992), “ a he han p oducing ‘sameness’, ansla ion is ew i ing o he new eade s in
he a ge cul u e” (apud Oi inen 1996: 39). Enquan o de ini limi es en e adução,
adap ação e eesc i a se o na um ema sensí el de abo da , é impo an e e e que “in
ansla ion s udies, ansla ion as such is seen as an ac o change and ew i ing, whe e
p oblems a e sol ed by using di e en s a egies such as domes ica ion and
o eigniza ion” (ibidem 42). O es a u o especial que a li e a u a in an il em po se di igi
a dois públicos de aixas e á ias mui o di e en es e com expec a i as ambém elas
dis in as, e a unção ins umen al que a adução pode e numa sociedade ao molda
men alidades e di undi no os ideiais, mos am-nos que a adução é um eículo pode oso
que se adap a a ou as ealidades e cul u as.
Assim, quando compa amos um ex o com a sua adução pe cebemos que o que
emos dian e de nós não é apenas uma me a ans e ência linguís ica, mas o e lexo de
mui os ou os ac o es como a sociedade, o modo como es a pe cepciona o Ou o e o
p óp io olha de quem aduz sob e as coisas. No im de con as, a adução é uma
ac i idade que semp e oi egida po no mas ( elacionadas com ques ões linguís icas,
polí icas, didác icas, es a égias de ma ke ing, e c.) e esse é mo i o mais que su icien e
pa a jus i ica as di e en es abo dagens a um ex o. Não podemos espe a que uma c iança
consiga le um li o que oi esc i o pa a adul os (“in adap a ions o child en
Shakespea e’s plays will lose hei s ong sexual e e ences and bawdy language.”:
Mil on 4), do mesmo modo que não podemos acei a que um ex o eple o de e mos
écnicos so a omissões ou al e ações que podem, inclusi e, comp ome e a segu ança
dos seus lei o es.
Qualque que seja a es a égia que se aplique pa a co esponde às exigências do
público de chegada pode á se mo i o de discó dia e sob e udo no que oca à li e a u a
in an il “ o eigniza ion and domes ica ion a e e y delica e issues” (Oi inen 1996: 43).
58
Eis a espos a pa a es a cha ada!”
Pensamen os como es es, alha a e dade,
Não dão a um po co g ande anquilidade!
Na manhã seguin e chega o Ag icul o B ando,
Com um balde, pelo campo caminhando,
E o Po quinho, com um g unhido assus ado ,
Consegue ao chão a i a o ag icul o …
Ago a em a pa e bem mais ho ipilan e,
Mas não a o nemos demasiado ele an e,
Excep o algo que em de ica bem en endido,
B ando oi pelo Po co mesmo comido.
Comeu-o da cabeça aos pés, sem pa a ,
Mas igando os pedaços bem de aga .
Le ou-lhe uma ho a a chega ao im,
Tal e a o amanho daquele es im,
E o Po co, é cla o, e minado o manja ,
Não sen iu qualque emo so, nem pensa !
De aga a sua cabeça genial coçou,
E com um le e so iso, a i mou:
“Eu i e uma o íssima in uição
De que acaba ia po se a sua e eição.
E en ão, po que ealmen e emi o pio ,
Pensei que comê-lo p imei o se ia o melho .”
59
“O Papa-Fo migas”
Umas pessoas icas de Po ugal,
Que i iam mui o pe o da capi al,
Tinham um ilho chamado Vicen e,
Um apaz go dinho e pouco a aen e —
Ima u o, pa é ico e malc iado,
E pio que udo, mui o mimado.
Qualque coisa que deseja a,
Logo o seu pai lha comp a a —
Comboios elé icos, camiões,
O úl imo modelo em a iões,
Uma ele isão de al a de inição,
Um saxo one, um iolão,
U sinhos de peluche ca os que ala am,
Animais que anda am e g asna am.
Aquela casa an a alha inha
Que da a pa a en usiasma qualque c iancinha.
(Pa a além disso, o jo em Vicen e escolhia,
Es ea dois pa es de sapa os po dia.)
E ago a ali es a a ele a g i a : “Se á
“Que já enho udo o que no mundo há?
“Quão di ícil é no idades a anja !
“As escolhas começam a escassea !”
Depois, coçando a o elha, ac escen ou:
“Espe a aí! Mas que g ande génio eu sou!
“Acho que a p óxima coisa a comp a
“De e se um animal de es imação peculia —
“Do ipo que em nenhum la encon a ão —
“Um PAPA-FORMIGAS gigan e! Po que não?”
Assim que o seu pai icou a sabe ,
60
A odos os zoos esc e eu a co e .
“Vossas excelências”, disse, “Ca os a ado es,
“Tem papa- o migas algum dos senho es?”
Eles esponde am logo, sem hesi ação,
“Os nossos papa- o migas à enda não es ão.”
Sem se da po encido, o pai dedicado,
En iou mais mensagens pa a odo o lado.
Disse: “Eu pago um milhão, ou a é mais,
“A quem me a anja um desses animais.”
Po im um senho indiano eio a encon a
(Que numa enda pe o de Deli es a a a mo a ),
O qual disse que sac i ica ia
O seu animal po uma al a quan ia
(O p eço a paga , se es i e in e essado,
São cinquen a mil upias, negócio echado).
O papa- o migas meio-mo o chegou.
Olhou pa a Vicen e e balbuciou:
“Es ou amin o. Pode ias po a o aze
“Alguma coisinha pa a eu come ?
“Uma côdea de pão? Uma asinha?
“Não comi mesmo nadinha
“Enquan o a iagem po ma du ou,
“Po que de mim ninguém cuidou.”
Vicen e g i ou: “Nada de ca ne ou de pão!
“Vai caça o migas. São a ua e eição!”
A c ia u a amin a pa a longe se a as ou.
Noi e e dia, no ja dim, com a inco p ocu ou,
Vasculhou mesmo udo quan o e a luga ,
Mas nem uma o miga conseguiu encon a .
“Dá-me de come !”, a c ia u a suplicou.
61
“Vai p ocu a o migas!”, o apaz eplicou.
Po acaso, naquele mesmo dia,
De isi a eio a sua ia —
Uma ho í el b uxa elha, oc ogená ia,
Cujo nome, ao que pa ece, e a Hilá ia.
Ao sob inho disse: “Sen a- e aqui ao sol com a ia
“e amos lá pô a con e sa em dia.”
Vicen e disse: “Penso que não lhe cheguei a ap esen a
O meu no o animal de es imação, bem in ulga .”
Apon ou pa a as ped as pe o de um poço
Onde algo jazia, só pele e osso.
“Papa- o migas!”, g i ou. “Não iques aí a boceja !
Es a é a o miga abiga da minha ia. Vem cump imen a !”
(Cu iosamen e Po ugal em,
Exp essões que não lemb am a ninguém.
Pe cebe o que que em dize ,
Eis o p oblema a esol e .
Nes a his ó ia não há o miga e dadei a,
Mas sim uma ia bas an e ma ei a.)
Vicen e g i ou: “Ó ulano, em cá!
A minha ia que dize - e olá!”
De aga a c ia u a a cabeça le an ou.
“Isso é uma o miga abiga?”, pe gun ou.
“Cla o que sim!”, g i ou ele. “Chama-se Hilá ia!
“É uma o miga abiga oc ogená ia.”
A c ia u a so iu. A sua ba iguinha oncou.
Lambeu os beiços amin os e mu mu ou:
“Uma o miga gigan e. Que igua ia alen e!
“Vou e po im um jan a decen e!
“Tenha ela os anos que enha,
62
“Se é uma o miga, a mim enha!”
En ão, de mi a bem apon ada,
Lançou-se sob e a senho a assus ada.
Com o ça pelos cabelos a aga ou
E ali mesmo in ei a a de o ou,
Dizendo enquan o mas iga a um pé:
“Maio o miga jamais come ei, olé!”
En e an o o nosso he ói Vicen e já se inha escapado
Pa a o elhei o do ja dim, bas an e a e o izado,
E en ou a sua p esença dissimula
A ás de um mon e de es ume que calhou ali es a .
Mas o papa- o migas en ou, sub- ep ício
(Mais cheiinho do que e a de início)
E disse ao Vicen e: “Seu edelho, que su p esa,
Acho que ais acaba po se a minha sob emesa.”
63
“O Sapo e o Ca acol”
Nada melho pa a me aleg a
Do que no lago de nenú a es b inca .
Ti o sapa os, meias e o casaquinho
E lá ou eu a ema no meu ba quinho.
Mas on em, epen inamen e,
Um sapo gigan e apa eceu-me à en e.
E a ão g andalhão
Como um po co go do e ma ulão.
A so i pe gun ou: “Olá, como es á o meu amigo?
Bom dia! Tudo bem! E consigo?
(De alguma o ma o seu os o azia lemb a
A i mã da mamã, a ia Pila .)
Disse o sapo: “Não achas que enho boa igu a?
“Olha pa a as minhas pe nas. Que o mosu a!
“Tenho a ce eza de que nunca is e à en e
“Um sapo de um e de ão esplandescen e!”
Respondi: “A é ago a, do que pude cons a a ,
Pa eces mesmo a minha ia Pila .”
E ele e o quiu: “Apos o con igo que a ia Pila
“Não chega ão al o quan o eu a pula .
“Sal a pa a as minhas cos as, amiguinho”, g i ou,
“Le a - e numa bela a en u a eu ou.”
Ao subi , pensei: “Ai! Onde me me i!
Tão molhado e iscoso! Ainda caio daqui!
64
“Sen a- e mais a ás”, o denou. “Es á bem assim!
Vou sal a , po isso aga a- e bem a mim.”
Sal ou! E que sal o! Oh diabo!
Jun o dos anjinhos ainda acabo!
Os meus pob es ímpanos zumbi am e es ala am.
Como uma bala subimos, a é os meus olhos cho a am.
Aga ei-me bem e g i ei: “Ainda demo a?”
“A que dis ância amos ago a?”
O sapo espondeu, com um os o so iden e:
“São oi ocen os quilóme os, semp e em en e!”
Li e almen e, não oi nada mau,
Demos um sal o de Lisboa a Bilbau.
Acima de Bilbau pa ámos pa a bebe chá,
E o sapo pe gun ou, endo a baía que lá há:
“E se ap o ei ássemos es a andança,
“E sal ássemos daqui pa a a F ança?”
Respondi: “Oh meu Deus! Achas que sim?
“Não que o que a água seja o meu im.”
Mas os sapos, como e ás, es ão-se a bo i a
Pa a o que nós, c iancinhas, possamos pensa .
Nem se deu ao abalho de esponde .
Sal ou à elocidade da luz, de ias e !
Voámos que nem lechas po cima do ma ,
O ma a ilhoso Senho Sapo e eu, seu pa .
Depois, cada ez mais a desce ,
A uma es anha cidade omos e .
65
A e ámos b uscamen e, aliás, sal i ámos.
O sapo anunciou: “Es amos em F ança! Chegámos!”
E disse: “Vê lá se não é po ei o
“Sal a pa a um país es angei o.
“Não há ca oças, locomo i as, emba cações,
“Não há ca os, nem uidosos a iões.”
Foi en ão que ou imos um g i o a e ado ,
“Oh céus”, disse o sapo num clamo .
Vi ei-me e i e uma e í el isão –
À esque da e à di ei a, sem exceção,
Pela es ada abaixo as pessoas co iam,
Na nossa di eção seguiam,
Homens e mulhe es, casados ou não,
Empunha am uma aca a iada na mão.
Não oi p eciso mui o pa a pe cebe ,
Que algo de e ado es a a a acon ece .
Po ém, como pode ia sabê-lo um apazi o,
Se ainda ninguém lhe inha di o,
Que os anceses não são como as nossas gen es,
Têm cos umes bas an e di e en es.
Dizem “oui”, em ez de “sim”,
E comem o mais peculia es im:
Um ancês gos a de se delei a
Com meia dúzia de CARACÓIS ao jan a !
Os glu ões udo de uma ez come ão,
Des es imundos bichos, e ainda mais pedi ão.
66
(Em mui os dos ho éis chiques a ale ,
A é as cascas cos umam come .)
Imagina! A é me dá a ol a à ba iga,
É o mesmo que come uma lesma ou uma o miga!
Mas espe a! Mais um pouco de es le .
Nem de me ade icas e a sabe .
Es es anceses ainda icam mais a sali a ,
Se alguém uma RÃ lhes o e a !
(É melho i es já busca um alguida ,
Não ás e on ade de omi a .)
Na ã, a pa e mais ap eciada,
Vai da coxa ao pé, não sob a nada.
Os anceses de o am ca adas
De pe nas de sapos e ãs co adas.
Acham uma e dadei a loucu a
De o a pe nas de ã a pinga go du a.
Po isso a cidade in ei a e suas mulhe es
Co iam pa a nós com a iados alhe es.
G i a am em ancês: “Mas que bem!
“Que pe nas que aquele sapo em!
“É co a ! Es ola ! Cozinha ! F i a !
Pa a odos nós pode mos p o a !”
“Sapo!”, g i ei. “Não sou coba dola,
Mas não de e íamos da à sola?
“Es es pa i es não e ie am ecebe .
“Eles só e que em come !”
67
O sapo i ou-se e olhou pa a mim,
E com oda a ieza disse assim:
“Tem calma e ou e-me com a enção,
“Cos umo i a F ança espalha a con usão
“En e es es doidos anceses que anseiam come
“A minha ca ne de sapinho en a a ale .
“Sou um SAPO MÁGICO!”, disse num g i o,
“E de me esconde nunca necessi o!
“Fica aí! Não e mexas!”, o denou.
E num bo ão que inha na cabeça ca egou.
Em segundos, su giu uma luz o uscan e,
Seguida do es ondo mais a epian e,
Tudo em nosso edo aisca a,
E po odo o lado o chão umega a…
Quando os es ígios de umo se dissipa am,
Os anceses, de aca a iada, pe gun a am:
“Onde es á o sapo? Onde se me eu?”
Sabes, ago a sen ado es a a eu
Num ma a ilhoso CARACOL GIGANTE
De casca sedosa, cas anha e adian e,
Es a a já ão longe do chão
Que a is a a uma g ande ex ensão.
O ca acol disse: “Olá! Vi a! Alô!
E a um sapo, e ago a ca acol sou.
“De apa ência i e de muda
“Pa a à panela não i pa a .”
74
pouco se conseguiu encon a nas a ian es linguís icas do po uguês pala as ou
exp essões que não só p oduzissem um e ei o semân ico humo ís ico semelhan e, como
se issem ambém de “mo o ” pa a o desen ola da acção seguin e. No en an o, sem es e
elemen o a his ó ia acaba ia po pe de a g aça e o sen ido, pelo que oi p eciso encon a
uma solução que sa is izesse minimamen e essas necessidades e, cla o es á, le asse ao
des echo imaginado po Dahl.
Além disso, as ilus ações o am, a es e espei o, um p oblema ac escido à
adução, pois ep esen am elemen os da his ó ia que não podem se apagados ou
al e ados, pa a não se ge a um con li o com o ex o. Assim, sabendo que a pala a
“ o miga” se ia essencial pa a a acção, mas econhecendo igualmen e a impossibilidade
de eplica o jogo de pala as do o iginal em ol a desse insec o, p ocu ou-se inspi ação
nas his ó ias e exp essões popula es po uguesas que ou imos quando somos c ianças.
Reco dando a his ó ia O Coelho B anquinho e a Fo miga Rabiga, anspo ámos uma das
suas pe sonagens pa a a de Dahl, colocando-a na pele de uma ia idosa, i i an e e “ abiga”
que acaba po se con undida com uma o miga, g aças a um mal-en endido. Com es a
e e ência, necessa iamen e alguns elemen os da his ó ia o iginal icam comp ome idos
e êm de se al e ados. Po esse mo i o, as pe sonagens des a his ó ia deixam de eme e
pa a a ealidade ame icana, pa a i em aze pa e da po uguesa, e do mesmo modo uma
das pe sonagens da his ó ia deixa de se chama Roy pa a se an es Vicen e. De igual
o ma, deixa de exis i a e e ência às di e en es a ian es linguís icas do inglês e passa-
se a explo a a iqueza do po uguês no que oca a exp essões em o no da emá ica dos
bichos.
Vá ios ing edien es p incipais que compõem a ó mula da esc i a humo ís ica
encon am-se aqui eunidos e p ese ados, ainda que a a és de mecanismos di e en es.
Assim, con inua a se possí el obse a elemen os undamen ais como o al o (bu o he
joke), o con ex o e um logical mechanism. Mas se es es elemen os são essenciais ao
ex o, os jogos de pala as êm pa a nós uma impo ância maio , endo em con a a
p opos a de man e p esen e as ca ac e ís icas que o nam a esc i a de Dahl única, al
como po exemplo não se aduz James Joyce “sans ai e sen i d’une maniè e ou d’une
au e le s yle de pensée i landais, l’humou dublinois”(Eco 484). Ainda que a
equi alência não seja mui as ezes um caminho possí el, pode emos semp e p ocu a
ou as o mas de con o na os p oblemas de adução a a és de á ios ecu sos e mé odos
(Eco 486-487).
75
A his ó ia de “O Sapo e o Ca acol” ambém nos ap esen a di e en es locais e
po os, azendo-se des a ez uma ca ica u a dos anceses com base na icónica imagem
que emos deles elacionada com a culiná ia. Assim, nes a que é uma iagem onde as
pe sonagens anspo am o lei o pa a e as dis an es, acompanhamos uma ajec ó ia que
le a o sapo e uma c iança desde um lago na Escócia a é F ança, passando pelos Cli s o
Do e . Tal pe cu so, na adução, é subs i uído pelo i ine á io Lisboa-Bilbau-F ança,
espei ando a e e ência à a essia ma í ima que ambém igu a nas ilus ações.
Especialmen e quando os nomes de locais nos eme em pa a alguma desc ição especí ica,
como po exemplo nas ob as de Ha y Po e , onde alguns luga es “may esona e
h oughou a no el by con ibu ing o a depic ion o i s social milieu” (La hey 2016: 48),
e num ex o como es e que alo iza o i mo e luidez da lei u a, op a po uma es a égia
que le e a “di icul ies in p onuncia ion when a ex is ead aloud” (ibidem 49) não nos
pa ece sensa o, pa a além do possí el desconhecimen o da dis ância geog á ica en e os
locais: es es mo i os le a am-nos pois a op a pela domes icação des a e e ência.
Pa a além disso, há ainda ou os aspec os igualmen e elacionados com a ealidade
cul u al inglesa, como po exemplo os meios de anspo es desc i os, associados à
imagem de desen ol imen o ecnológico da Ingla e a. T a ando-se, po ém, de meios de
anspo e que ambém exis em em Po ugal, não su giu aqui uma di iculdade, mas ainda
assim p ocu ámos adap a um pouco a si uação à ealidade po uguesa, subs i uindo
bicycles po ca oças.
P osseguindo o le an amen o dos casos de adap ação, é possí el encon a na
nossa adução ou os elemen os que não exis em no ex o de pa ida. Mais conc e amen e
a desc ição do ca acol ão g ande como um mons o, “wha a whale!”, que oi aduzida
po ou o animal. Es a di e ença ez-se não só pa a man e a ima, mas pa a ansmi i as
exage adas dimensões do bicho com capacidades mágicas. Fazendo uso das pala as de
Eco, em adução “on ne di jamais la même chose” e po isso o que acon ece mui as das
ezes é que quando “nous oulons souligne un ai du ex e o iginal qui nous semble
pa iculiè emen impo an e, nous ne pou ons le ai e qu’aux dépens d’au es ai s ou au
p ix de leu élimina ion.” (Eco 145-147).
As e e ências cul u ais aos anceses não cons i uí am um g ande p oblema, pois
ambém em Po ugal exis em imagens es e eo ipadas em ol a desse po o e da sua
culiná ia, pa a além de que as ilus ações não pe mi i iam que se izessem g andes
al e ações ao ex o. Mas p ocedemos à subs i uição das unidades de medida e e idas no
o iginal (“ya ds”/”me es”) po “oui” e “sim” pa a man e a coe ência com o con ex o
76
po uguês e p ese a a es anheza que se p e endia ao ca ac e iza um po o com
cos umes linguís icos di e en es e a é um an o ou quan o du idosos.
Ao longo de qualque um dos ês poemas encon amos igualmen e exp essões
in o mais da língua inglesa, algumas delas que a é já caí am em desuso, como “by gum”.
Pe an e es e desa io, o mais impo an e não e a encon a uma adução exac a pa a a
exp essão, mas sim encon a algo que p oduzisse o mesmo e ei o: “une aduc ion
(su ou dans le cas de ex es à inali é es hé ique) doi p odui e le même e e que celui
que isai l’o iginal” (Eco 125). Po isso, den o da iqueza da língua po uguesa
p ocu ámos exp essões que e le issem a in enção do ex o o iginal, acabando a escolha
po ecai em “Oh diabo!”.
Po im, um dos elemen os mais impo an es dos li os in an is, especialmen e
quando alamos de poesia, é o som e o i mo, “since child en ha e s o ies ead o hem
and ansla ing o eading aloud demands conside able compe ence om he ansla o s.”
(La hey 2009: 32). No en an o, es a é uma a e a di ícil dadas as di e enças que compõem
os dois sis emas linguís icos. Acei ando o desa io de p ese a as p incipais
ca ac e ís icas que pe mi em iden i ica uma ob a de Roald Dahl e man e a ima (ainda
que a mé ica di i ja da o iginal e não se man enha egula ao longo das aduções dos
ês poemas), seguiu-se a abo dagem p opos a po Saye s Peden, que p opõe “a o mula
o ‘de-cons uc ion and e-cons uc ion and discusses a p ocess ha educes a poem ‘ o
i s a chi ec u al ame: i s essen ial communica ion’” (A wa we 131); po ou as
pala as, nes as aduções o essencial não passou po aduzi pala a po pala a aquilo
que es á no o iginal, mas sim ansmi i o sen ido p incipal dos poemas conse ando os
ecu sos o mais da ima e da mé ica. Pa a além disso, e a im de “poli ” o esul ado inal
das imas, um p ocesso undamen al oi o de le e ele á ias ezes os ex os, de modo a
pe cebe que aspec os pode iam ainda se melho ados: “A common s a egy when
ansla ing o child en is ha o eading newly d a ed passages aloud o ind an
app op ia e hy hm o syn ac ic s uc u e in he a ge language” (La hey 2016: 94).
77
Conclusão
No o iginal ou em adução, o que le a o lei o a escolhe uma ob a é
p o a elmen e a his ó ia que con a, as pe sonagens, o géne o em que se inse e, que seja
um omance, uma epopeia, ou an os ou os que podem aze pa e das p e e ências
indi iduais e que mo i am a lei u a. No en an o, se são es es ac o es que o nam a his ó ia
especial pa a o lei o , na al u a em que en a no sis ema da li e a u a aduzida de uma
ou a língua cabe ao adu o aze com que a oz do au o e o seu uni e so iccional
sejam ou idos e en endidos num di e en e sis ema linguís ico, indo ainda de encon o às
expec a i as dos lei o es da cul u a de chegada. É assim que nes e p ocesso
in e comunica i o se c uzam, sem se e em, con inuamen e ês agen es di e en es: o
au o , o adu o e o lei o .
O que se ê equen emen e é o p odu o inal des e longo p ocesso, quando os
li os são expos os nas li a ias e os nomes dos adu o es su gem, po ezes
imidamen e, nas capas dos li os; mas aquilo que não emos é odo o abalho do adu o
que es á po de ás, a é que “magicamen e” o li o apa eça nas p a elei as. Pode a é
acon ece que os lei o es não se ape cebam que o país de o igem da ob a não é o seu. O
que se e i ica mui as das ezes em e mos de es a égia adu ó ia, dada a na u eza da
li e a u a in an il, é aquilo que Law ence Venu i de iniu como domes icação, pois só
assim é possí el que de e minadas ob as pe du em e sejam acei es além- on ei as; é uma
comunicação mul ila e al en e au o , lei o e adu o , sendo que es e úl imo unciona
como in e mediá io que es abelece uma pon e en e os dois p imei os. No en an o, e ainda
que o adu o enha de oma decisões em unção do público-al o, do ipo de ex o que
em em mãos e do p opósi o em is a, não que is o dize que se de a p ende demasiado
a es as condicionan es, adop ando posições ex emas. A adução de e se , sim, um
comp omisso, uma negociação, en e espei a o o iginal e e em a enção o lei o de
chegada.
Como é sabido, os au o es não alcançam o mesmo sucesso em odo o mundo.
De ido a ideologias sociais e polí icas, ao conse ado ismo de alguns países, ao gos o
es é ico, e c., as suas ob as chegam às ezes a diamen e a alguns locais e a sua acei ação
é pouca. Di e en es cul u as eagem de modo dis in o às mesmas coisas, como sucede po
exemplo com o humo : uma de e minada si uação pode p o oca o iso num ce o
con ex o cul u al e não p oduzi o mesmo e ei o nou o, ha endo a é a possibilidade de a
ci cuns ância se conside ada o ensi a e insul uosa.
78
Ainda que esc e a pa a um público jo em, Roald Dahl não ecebeu mui a a enção
po pa e dos lei o es po ugueses. Enquan o no Reino Unido é indiscu i elmen e um
nome bem conhecido da li e a u a e um êxi o de endas, em Po ugal começou apenas a
se edi ado em 1985, depois do sucesso da adap ação cinema og á ica da ob a Cha lie
and The Chocola e Fac o y, de 1971 (Pai a 2014b: 367). An es disso, não podemos
esquece o con ex o his ó ico-cul u al do país, o Es ado No o com o seu apa elho
censó io, que a asou e possi elmen e p ejudicou o seu apa ecimen o na li e a u a in an il
em po uguês, pois o seu ca iz i e en e e ansg esso não e a is o com bons olhos pelo
mundo conse ado da edição de li e a u a in an il em Po ugal (ibidem 368). Pa a além
disso, o ac o de Roald Dahl passa despe cebido no plano nacional pode es a elacionado
com a possibilidade de a “imagem que o au o possuía do seu público de pa ida não
coincidi com a imagem que em e i ó io luso se em dos lei o es in an is, dos seus
desejos de lei u a e das suas capacidades de comp eensão” (ibidem 370). Aliás, conside a-
se ainda que Po ugal em um longo caminho a pe co e no que oca ao a amen o de
assun os abu como a iolência, a mo e ou a in imidação na li e a u a in an il, quando
compa ado com ou os países como a Suécia, onde exis em cu sos uni e si á ios na á ea
da li e a u a in an il desde os anos 80 do século passado e que não mos am qualque
eceio em abo da de e minadas ma é ias mais sensí eis.
Foi possí el e ao longo da elabo ação do p esen e T abalho de P ojec o, de um
modo ge al, não só os p oblemas e as di iculdades da adução de li e a u a in an il e de
poesia, como mais especi icamen e os desa ios que de e minados elemen os p esen es na
esc i a de Dahl podem coloca ao adu o . Assim, a mensagem que que emos essal a
ao conclui é que, independen emen e de odos os obs áculos que um ex o possa le an a ,
a adução é um exe cício de cons an e equilíb io en e pe das e ganhos. Munido de
conhecimen os eó icos e de alguma c ia i idade, sabendo ambém busca e e ências e
inspi ação na ob a de ou os adu o es e esc i o es, possuindo compe ências de pesquisa,
o adu o de e ponde a conscienciosamen e as suas escolhas e soluções à luz de um bom
domínio do au o e da ob a a aduzi , bem como, e iden emen e, das duas línguas
en ol idas, p ocu ando que o ex o, ao se eesc i o numa ou a língua, se cons i ua, pa a
usa as pala as de Umbe o Eco, como “un double du sys ème ex uel qui, sous une
ce aine desc ip ion, puisse p odui e des e e s analogues chez le lec eu .” (Eco 19)
79
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Anexo 2: Tex os de Pa ida
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desses au o es e não os podia ai , mas de ia p ocu a ansmi i o impac o não só das
ideias e sen imen os mas das pala as. Essa é a pa e mais di ícil: a de p ocu a
o iginalidade e c ia i idade nou a língua, de imagina sono idades, jogos de pala as
equi alen es. Mui as ezes me dei ei com ases inglesas na cabeça e não consegui
ado mece sem que elas se ans o massem, com pozinhos de pe limpimpim, nas
co esponden es ases po uguesas.
Os únicos li os que aduzi que i e am eal impo ância pa a mim no domínio da
li e a u a in an il o am Re ol ing Rhymes e Geo ge`s Ma ellous Medicine.
P: Que impo ância a ibuiu a Roald Dahl no uni e so da li e a u a in an il?
Gos o imenso de Roald Dahl e conside o-o um au o incon o ná el da li e a u a in an il.
Con a a li e a u a melí lua, semp e poli icamen e co e a, e e o a ojo de escanca a as
janelas e deixa en a os en os da o iginalidade, do humo , da descons ução de ce as
adições.
P: Que pe cepção em do luga da adução no uni e so da li e a u a in an il
endida em Po ugal? Há mui as encomendas de adução de li e a u a in an il?
Há mui a adução de li os in an o-ju enis e é bom que exis a, pois pe mi e que as
c ianças e os jo ens conheçam o que de melho se p oduz pa a eles. In elizmen e as
aduções nem semp e êm qualidade. Passam as mensagens, mas não o ascínio. O caso
é especialmen e g a e no que diz espei o às aduções de poesia que são, ge almen e, um
desas e.
P: Já lhe acon eceu suge i a uma edi o a que publique uma de e minada ob a em
adução, ou as escolhas pa em semp e das edi o as?
Já suge i, pois du an e um pe íodo da minha ida ui consul o a li e á ia de duas edi o as
e o meu abalho consis ia, em pa e, na lei u a de jo nais e suplemen os li e á ios pa a
indica ob as pa a adução.
P: Quais o am os p incipais desa ios que iden i icou à pa ida na adução des a
ob a?
Acei ei es a adução, em pa e, como desa io po o edi o me e con essado que já dois
adu o es inham en ado e desis ido. En ão quis pô -me à p o a e en a , à minha
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manei a, não abdicando de ce a c ia i idade mas man endo o que e a mais complicado:
a mé ica. A mé ica, a ima, condicionam mui o uma adução mas, acei ando-a, emos,
à pa ida, uma libe dade de exp essão que não nos é dada numa ob a em p osa. E en ão
azemos uma adução bas an e pessoal, mas p ocu ando não des i ua o o iginal.
Uma adução como es a não é en á el mone a iamen e. Não é um abalho linea , exige
momen os de inspi ação. Eu gos o de le em oz al a udo o que é em e so po que a
poesia eio da música e não pode i e sem ela. E se a sono idade não me ag ada, ou
al e ando, al e ando…
P: A seu e , no que oca à adução pa a um público in an il, a é que pon o de e o
ex o se adap ado e quais são as si uações em que, pelo con á io, se de em
p ese a algumas ca ac e ís icas do ex o de pa ida?
Se o ex o já é di igido às c ianças na língua o iginal, não ejo azão pa a adap ações
especiais. Pelo con á io, acho que há ob igação de man e não algumas mas odas as
ca ac e ís icas undamen ais do ex o de pa ida. Caso con á io, é um a en ado ao au o .
P: Quem lê a sua adução His ó ias em e so pa a meninos pe e sos, consegue
pe cebe em á ias ocasiões que exis e um mis o de ein enção, adap ação e
c ia i idade nas suas escolhas adu ó ias, como é o caso do í ulo. Po que azão
escolheu um í ulo ão o iginal como es e, em ez de segui uma ia mais li e al?
R: Acho que a adução li e al do í ulo não e ia o mesmo impac o que em em inglês,
nem gos o da sono idade dessa adução em po uguês. Acho es a mais acu ilan e, pa ece-
me que chega ao âmago do sen ido da ob a.
P: Apesa do ní el de c ia i idade, adap ação e ein enção de que aqui alámos,
conside ou impo an e p ese a alguns elemen os, como é o caso do esquema
imá ico da ob a. Po que decidiu azê-lo?
Po que o i mo me pa eceu essencial e a ima ambém. Há um espaço pa a o iginalidade
na adução, mas con ém p ese a o que achamos impo an e e ca ac e ís ico.
P: Nes e caso em que es amos pe an e uma ob a esc i a em e so, e i icou-se de
o ma no ó ia uma p eocupação não só em aduzi o signi icado mas ambém a
o ma, onde a sono idade e a luência das pala as são igualmen e elemen os
impo an es do ex o. Assim sendo, e endo em con a que abalhou com duas línguas
ão di e en es uma da ou a, eco eu a algum ipo de es a égia especí ica pa a
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soluciona os desa ios ine en es às di e enças linguís icas no que diz espei o a
aspec os como a sono idade ou a mé ica?
Familia izei-me com a língua inglesa desde mui o no a, pois en ei pa a um colégio inglês
aos 5 anos. Assim, habi uei-me a sal a de uma língua pa a a ou a, encan ei-me com as
nu se y hymes, habi uei-me a sen i e a exp imi -me nessa dualidade.
Comecei a abisca poeme os aos 10 anos, o p imei o li o que publiquei oi um li o
pa a adul os de poesia e, assim, pa a mim é no mal exp imi -me em e so. Se me
encan a a a o ma, a sono idade e a luência de Dahl, inha de en a es a à sua al u a
(com humildade!) pa a não o ai . Pois ac edi o que há uma mo al na adução e quem
não a quise segui que desis a.
Como me empenhei semp e mui o nas aduções, desis i de aduzi pa a me dedica aos
meus li os, pois a adução me exigia algo de mui o semelhan e ao da c ia i idade
au o al.
P: Ainda alando na adução de poesia em conc e o, como oi pa a si, naquela
al u a, o p ocesso de aduzi em e so?
T aduzi em e so pa a mim a é é di e ido pois enho esc i o milha es de e sos, es á-
me de ce o modo na massa do sangue.
P: Ou o aspec o cu ioso nas ob as de Dahl é a p esença de humo neg o, que se
e lec e, po exemplo, nas di e sas igu as de es ilo ou na linguagem coloquial. Es e
é um aspec o impo an e e que necessi a mui as ezes de soluções c ia i as, po
o ma a consegui p oduzi um e ei o humo ís ico. De que o ma é que abo dou es a
ques ão ao longo da sua adução?
O humo neg o em nada di icul a uma adução, a é é es imulan e, o pio pa a um adu o
como eu é a mono onia. O humo espe i a e az i à ona exp essões eng açadas em que
poucas ezes pensamos. Pa a quem conhece bem as línguas não é di ícil sal a de umas
igu as de es ilo, ou de uma ase coloquial em inglês, pa a uma co esponden e em
po uguês.
Cla o que pode ha e p oblemas com pala as ou exp essões desconhecidas. Vou con a -
lhe o que me acon eceu com uma adução de Bellow. Depa ei com uma exp essão que
não consegui encon a em qualque dicioná io ou ou a ob a de e e ência e ui a um
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ins i u o de línguas i a a dú ida. Pe gun ei a um p o esso e o senho co ou, co ou,
engasgou-se, pa ecia que lhe ia da um AVC… e a um pala ão dos pio es!
P: No que diz espei o a es es con os, embo a econ ados de uma o ma mui o única,
como nos diz o au o , exis em ainda neles exp essões bem conhecidas o iundas dos
clássicos con os de adas, como é o caso de “Fee- i- o- um” ou “by he hai o my
chinny-chin-chin”. Na sua adução p ocu ou de algum modo encon a alguma
solução que izesse elemb a es es pequenos aços dos clássicos?
Não enho aqui o o iginal nem a adução e não me eco do.
P: As ilus ações são ambém um elemen o mui o impo an e da li e a u a in an il.
Na ho a de aduzi , elas “a apalham” ou ajudam? Sen iu que as ilus ações
limi a am de alguma o ma as suas escolhas adu ó ias?
As ilus ações des e li o em nada me a apalha am. Acho-as adequadas, cheias de humo ,
a é inspi ado as. E iden emen e, há ce as ilus ações que não só podem a apalha o
adu o como são um a en ado à ob a o iginal.
Eu p óp ia, como au o a, já enho sido í ima de péssimos ilus ado es que des i uam o
sen ido de uma ob a.
Já aduzi li os com ilus ações mais ou menos amo as, p ocu ei nunca en a em
con adição com elas e só lamen ei a pouca so e do au o e dos lei o es, na u almen e…
P: Po im, como adu o a mui o expe ien e que é, que conselhos da ia a quem
quei a dedica -se à adução de li e a u a in an il?
Há quem julgue que aduzi pa a c ianças é mais simples que aduzi pa a adul os e
assim acei e adu o es de baixíssimo ní el. São mais ba a os e “ pa a quem é bacalhau
bas a… “
Nada mais e ado. T aduzi pa a c ianças é uma a e a exigen e que implica sabe di igi -
se a elas, es a po den o da cabeça e do co ação das c ianças, conhece o ocabulá io
que elas dominam sem cai no pe igoso in an ilismo. É p eciso não e medo de usa
exp essões e pala as pouco habi uais que elas i ão descob i ( e com cada pala a ou
expe iência no a ão c esce ).
É p eciso e um sen ido da sono idade das pala as, pois esses li os são mui as ezes
lidos em oz al a e essa sono idade ai se undamen al pa a as ca i a .
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A li e a u a ( pa a c ianças ambém ) é uma o ma de a e e é bom que seja a is a ou, pelo
menos, a esão compe en e quem esc e e ( em o iginal ou adução ) pa a c ianças.
FIM