scieee Science in your language
[po] (orig)

Corpo cinema - um movimento em simultâneo

Abstract

A partir de autores das áreas de estudo da dança e do cinema, pretendi cruzar o corpo coreográfico e o corpo cinema, transpondo para a dissertação exemplos que preenchem os dois domínios; coreografias e filmes (coreógrafos e cineastas). Ao abordar os contributos conceptuais dos artistas envolvidos no que toca à própria construção das suas criações, interessou-me relevar os seus pensamentos no que concerne às ficções do espaço, do tempo e do fragmento. O objectivo passou por balizar as múltiplas relações que podem constituir o binómio corpo/imagem, incorporando os lugares da coreografia e do cinema como fundadores de uma atracção aparentemente comum, que é o movimento. As questões a que me propus responder são de índole originária, ou seja, encontram-se no que eu chamaria uma pré-pesquisa para um projecto coreográfico imaginário. Assim sendo, é um texto (e um projecto) que se procura a si próprio como acontece naturalmente numa pesquisa em que o encadeamento imagético, literário, físico e emocional vai acontecendo por experimentação de propostas que nos afectam de múltiplas formas. Este acontecimento em forma de escrita (uma dissertação) invoca um texto como referente de uma ideia possível de corpo cinema. A partir do texto, “Notas sobre o Cinematógrafo” de Robert Bresson (2003), selecciono alguns pensamentos de Bresson que, na minha óptica, geram possibilidades de confronto e emancipação perante uma ideia de partilha afectiva entre dança e cinema. Em certo sentido, será escrever a possibilidade de um real ficcionado a partir de documentos imagéticos, filosóficos e ensaísticos, que contêm em si ideias sobre ruína (o que é a película senão uma outra forma de ruína?), construção e reconstrução de um corpo, que tentarei demonstrar como lugar de excelência do fragmento. Chamar-lhe-ei o corpo-ruína.

Read accessible full text

Corpo cinema - um movimento em simultâneo

Author: Alexandre, Bruno Filipe Esteves
Year: 2017
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/30471/1/2017_Bruno%20Alexandre%20Revis%c3%a3o%20final%20s%c3%adlvia%20%284Set2017%29.pdf
Co po cinema
Um mo imen o em simul âneo
B uno Filipe Es e es Alexand e
___________________________________________________
Disse ação em A es Cénicas
(SETEMBRO, 2017)
B uno Filipe Es e es Alexand e
Co po Cinema
Um mo imen o em
simul âneo
(2017)
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do
g au de Mes e em A es Cénicas, ealizada sob a o ien ação cien í ica da P o esso a
Dou o a Síl ia Tengne Ba os Pin o Coelho.
[DECLARAÇÕES]
Decla o que es a ese é o esul ado da minha in es igação pessoal e independen e. O
seu con eúdo é o iginal e odas as on es consul adas es ão de idamen e mencionadas no
ex o, nas no as e na bibliog a ia.
O candida o,
B uno Filipe Es e es Alexand e___________________
Lisboa, 4 de Se emb o de 2017
Decla o que es a Tese se encon a em condições de se ap esen ada a p o as
públicas.
O(A) o ien ado (a),
Síl ia Tengne Ba os Pin o Coelho
____________________
Lisboa, 06 de Se emb o de 2017.
Pa a a Joana, Ma ilde e João.
Po uma ideia de u u o.
AGRADECIMENTOS
Que o ag adece à minha o ien ado a, P o esso a Dou o a Síl ia Tengne Ba os Pin o
Coelho, e a odos os p o esso es e colegas que me acompanha am ao longo des es dois
anos.
Também ag adece às pessoas que me ouxe am pa a a dança: Ma alda Saloio, Ped o
San iago Cal, So ia Neupa h, Nuno Biza o, F ancisco Camacho, Miguel Pe ei a e
Olga Ro iz.
Po im, a odas as amigas e amigos que me mos a am cinema, de am li os pa a le ,
con e sa am comigo à ol a de mesas nubladas po in ensidades imensas e que êm
ib ado comigo em odos os pequenos passos que ou dando.

1
Co po Cinema
Um mo imen o em simul âneo
B uno Filipe Es e es Alexand e
Resumo
A pa i de au o es das á eas de es udo da dança e do cinema, p e endi c uza o co po
co eog á ico e o co po cinema, anspondo pa a a disse ação exemplos que p eenchem
os dois domínios; co eog a ias e ilmes (co eóg a os e cineas as). Ao abo da os
con ibu os concep uais dos a is as en ol idos no que oca à p óp ia cons ução das
suas c iações, in e essou-me ele a os seus pensamen os no que conce ne às icções do
espaço, do empo e do agmen o. O objec i o passou po baliza as múl iplas elações
que podem cons i ui o binómio co po/imagem, inco po ando os luga es da co eog a ia
e do cinema como undado es de uma a acção apa en emen e comum, que é o
mo imen o. As ques ões a que me p opus esponde são de índole o iginá ia, ou seja,
encon am-se no que eu chama ia uma p é-pesquisa pa a um p ojec o co eog á ico
imaginá io. Assim sendo, é um ex o (e um p ojec o) que se p ocu a a si p óp io como
acon ece na u almen e numa pesquisa em que o encadeamen o imagé ico, li e á io,
ísico e emocional ai acon ecendo po expe imen ação de p opos as que nos a ec am de
múl iplas o mas. Es e acon ecimen o em o ma de esc i a (uma disse ação) in oca um
ex o como e e en e de uma ideia possí el de co po cinema. A pa i do ex o, “No as
sob e o Cinema óg a o” de Robe B esson (2003), selecciono alguns pensamen os de
B esson que, na minha óp ica, ge am possibilidades de con on o e emancipação pe an e
uma ideia de pa ilha a ec i a en e dança e cinema. Em ce o sen ido, se á esc e e a
possibilidade de um eal iccionado a pa i de documen os imagé icos, ilosó icos e
ensaís icos, que con êm em si ideias sob e uína (o que é a película senão uma ou a
o ma de uína?), cons ução e econs ução de um co po, que en a ei demons a como
luga de excelência do agmen o. Chama -lhe-ei o co po- uína.
PALAVRAS-CHAVE: co po- uína, agmen o, B esson, dança, cinema
2
Abs ac
F om au ho s o he a eas o s udy o dance and cinema, I wan ed o c oss he
cho eog aphic body and he cinema body, ansposing o he disse a ion examples ha
ill bo h domains; cho eog aphies and ilms (cho eog aphe s and ilmmake s). In
discussing he concep ual con ibu ions o he a is s in ol ed in he cons uc ion o
hei c ea ions, I was in e es ed in e ealing hei hough s ega ding he ic ions o
space, ime and agmen . The objec i e was o ma k he mul iple ela ionships ha can
cons i u e he binomial body / image, inco po a ing he places o cho eog aphy and
cinema as ounde s o an appa en ly common a ac ion, which is mo emen . The
ques ions ha I se ou o answe a e o an o iginal na u e, ha is, hey a e in wha I
would call a p e- esea ch o an imagina y cho eog aphic p ojec . Thus, i is a ex (and
a p ojec ) ha sea ches o i sel as na u ally happens in a esea ch in which he
imagina y, li e a y, physical and emo ional chaining happens by expe imen ing wi h
p oposals ha a ec us in mul iple ways. This e en in he o m o a w i ing (a
disse a ion) in okes a ex as a e e ence o a possible idea o he cinema body. F om
he ex , "No es on he Cinema og aph" by Robe B esson (2003), I selec ed some
hough s o B esson ha , in my iew, gene a e possibili ies o con on a ion and
emancipa ion be o e an idea o a ec i e sha ing be ween dance and cinema. In a ce ain
sense, i will be o w i e he possibili y o a ic ional eal om image y, philosophical
and essays, which con ain ideas abou uin (wha is ilm bu ano he o m o uin?),
cons uc ion and econs uc ion o a body, which I will y o demons a e as a place o
excellence o he agmen . I'll call i body- uin.
KEYWORDS: body uin, agmen , B esson, dance, cinema
3
ÍNDICE
1. In odução…………………………………………………………………...4
2. O F agmen o e a Ruína……………………………………………….….….6
3. B esson e a possibilidade da dança ……………………………………...16
3.1 P imei a No a………………………………………………………..…16
3.2 Segunda No a……………………………………………………….…20
3.3 Te cei a No a…………………………………………..………………23
3.4 Qua a No a………………………………………………………...… 25
3.5 Quin a No a……………………………………………………………28
3.6 Sex a No a…………………………………………………………..…31
3.7 Sé ima No a……………………………………………………………34
3.8 Oi a a No a……………………………………………………………40
4. Conclusão …………………………………………………………………45
5. Bibliog a ia………………………………………………………………...47
6. Anexo……………………………………………………………………...52
4
In odução
Semp e imaginei uma in odução como algo que se e e niza pa a além da sua condição
de semp e inicio. Como se icasse num luga de expec a i a apaixonada pe an e o que aí
em, e como ai se , e se á que ai co e udo bem, en im, uma ideia que supõe ala de
udo aquilo que oi e que e en ualmen e i á se .
Toca no empo e no espaço do ex o. Toca-lhe no co po, po ezes de uma o ma in ensa
mas semp e sub il, sem pode anuncia a sua p esença agmen á ia e ini a, embo a se
consolide pe an e uma ideia de abe u a de uma peça de dança ou de um ilme.
(ab o a co ina e esp ei o a e se há público na sala)
Es a in odução é já um co po em uína, alego ia do que es á pa a além da isão. Es á no
início da imagem, mas az pa e do seu im, e das suas pe i e ias. Con agia e é
con agiada, To na-se he a p edado a e in oca ex os e ilmes do passado, p o ocando-se
a olha pa a danças elepá icas e ca á icas. Usa e abusa da memó ia, esse luga de é no
agmen o e no adúl e o. P o oca ligações apa en es e ainda anónimas. Pe ence e deixa
de pe ence . Deslocaliza-se em a essia imaginada. Já que se Robe B esson,
Ba ba a Loden ou Loïc Touzé, mas a an asia de um empo e de um espaço em
simul âneo, adqui e imponde á eis, con adições e impossibilidades.
En ão, len amen e, o las o deixado pelas lei u as, isionamen os e con e sas, c iou um
eco de la i udes ainda não de inidas po que se alas am pa a e i ó ios de enc uzilhadas
onde o ma o se az mundo.
A simples e ec i ação de uma libe dade associa i a, p o oca nas pala as um
encadeamen o- e igem, que oma como S alke a possibilidade de se o na em ma é ia
em elação com a imaginação, a a enção e a pe cepção. Como se ganhassem um olha ,
um engajamen o mo o nos pensamen os das imagens. A a alidade que lhes es á
des inada passa pela sua génese in en i a. Um luga de sonho plasmado em linha, sal o,
ou acco d.
11
monumen al de um ilme pe dido. O agmen o ílmico, é, de ce a o ma,
excluído do egis o do isí el po se ma cado pelo selo da memó ia (..)”. (Païni,
2001:34).
Pa a Roland Ba hes, exis em duas camadas de lei u a sob e uma o og a ia (imagem
imó el), que se iam elas o s udium e o punk um. O s udium se ia ap eciação ge al da
imagem, um “es udo”, mas sem acuidade pa icula . O punk um de ini -se-ia po uma
queb a do s udium, ou seja, se ia aquilo que me e e, que me punge como uma pequena
picada. Se ia al ez a ep esen ação sensí el, algo que ai além do eu gos o/eu não
gos o. Como e e e Ba hes, “o s udium é da o dem do o like e não do o lo e; mobiliza
um meio desejo, um meio que e (..)”. (Ba hes, 1980:44-47).
É nes e luga do punk um que p e endo es abelece as aízes de uma dança- agmen o
que eco e ao igu al (simbólico) da imagem, como alimen o sensí el pa a a sua
cons ução.
Como e e e S e en Jacobs, ace ca des e punk um na o og a ia,
Fo Ba hes, pho og ammes had a pa icula appeal. When wa ching an
indi idual ame, which is essen ially in isible du ing a sc eening, ou a en ion
is d awn owa ds new de ails and ambi alences.(...) Apa om hei
in o ma ional and symbolic meaning, pho og ammes ha e a hi d meaning o an
ob use meaning ha a ises almos acciden ally (...). Wa ching a ilm, howe e ,
we do no see his excess since he indi idual images a e no he e long enough
o us o con empla e hem.”(Jacobs, 2010: 123).
Es as ideias de Ba hes, ace ca do abalho de Se gei Eisens ein, em pa icula , são
incisi as po que cons oem um pa adigma ace ca da mon agem e da du ação da
imagem. Como nes e exemplo: “Sho s o he quashing o a wo ke s insu ec ion, o
ins ance, acqui ed a new, symbolical meaning when hey we e combined wi h a sho o
he slaugh e o an ox.” (Jacobs, 2010:123)
Não é só es e simbolismo que é impo an e, mas ambém as ques ões da associação de
signi icados pela du ação e pela mon agem. Se á a uína um elemen o po excelência da
du ação do empo? Como num ilme, em que a imagem passa à nossa en e c iando
uma elação de pe manência e de imobilidade. Não é es a uína, um expoen e da
imobilidade e da pe manência? E o co po- uína, que luga ocupa? Se á o elemen o de
mobilidade, o mo imen o do mundo, objec o de desejo do cinema?

12
Exis em á ios exemplos no cinema
5
, e sem p ejuízo de alha os exemplos mais
p o ícuos ou in e essan es pa a uma u u a co eog a ia da uína, gos a a de e e i o
ilme “Pièce Touchée” (1989) de Ma in A nold, que consubs ancia o que aqui enho
explanando ace ca da du ação e da mon agem, aqui es u u ados pelos mecanismos da
di isão de plano e da epe ição. A uína cabe na ideia de agmen o ou de exce o
“ oubado” a um ou o ilme (The Human Jungle, de Joseph M. Newman, 1954).
O que me susci a inquie ação é a c iação de uma elação en e um co po-mo imen o-
du acional com um cinema-mo imen o-du acional. Posso ala ambém de uma
eposição de um co po co eog á ico e não necessa iamen e de uma c iação, is o que
es a ei essencialmen e a ac i a pa âme os de na egação co eog á icos endo em is a
uma o mulação emocional pe an e o espan o que a uína-co po-cinema me em indo a
p o oca . Como se o co po osse colocado num ní el ze o equi alen e a um ní el ze o
de um éc an b anco.
Es a ideia de guião p e ende ambém supo a a hipó ese de cons ui imagem-
co eog a ia em agmen o, a pa i de ilmes cujo es ado po encial é a uína, ou cuja
condição de exis ência se assume como incomple a, mas que a a e cinema og á ica
ambém conside a, pa adoxalmen e, ob a acabada.
Como diz Dominique Païni a p opósi o des e pa adoxo,
Se o mundo do cinema descob iu, po sua ez, es a es anha expe iência
pe cep i a e in elec ual nascida do isionamen o de um agmen o ao qual nada
pa ece al a , po ou o lado, a o igem e o des echo desconhecidos de uma
na a i a em imagens i micamen e mon adas dão o igem à us ação e a uma
sensação b u al de incomple ude. Mas, al como azia no a Michel Se es, os
ges os que des oem as es á uas assemelham-se aos ges os que as esculpem pa a
5
Ou o exemplo, em La Je ée (1963), Ch is Ma ke inha na ado a en a i a de ixa esses agmen os, de
imobiliza na memó ia e na consciência o luxo na u al. Ao in és, nos seus ilmes documen ais, é a
con adição que é des acada: a acele ação do múl iplo, a incong uência das ap oximações, e a necessidade
de olha pa a eles aqui e ago a.
O que a mon agem nos documen á ios de Ch is Ma ke designa e p oduz ao mesmo empo é a necessá ia
con on ação com o múl iplo, o peso do acaso nas escolhas da consciência, a ambiguidade das
signi icações nos enquad amen os demasiado ape ados.” (Amiel, 2010: 94).
13
c iá-las. A up u a da passagem de um plano pa a ou o ez acei a
implici amen e o agmen o ílmico. A inal, o cinema é uma das a es que mais
se baseiam na elação en e as pa es ela i amen e au ónomas (a sequência, o
plano) e a ob a na sua o alidade. (Païni, 2001: 33).
Es a a i mação in e essa-me po que além de ele a o agmen o como possibilidade
cinema og á ica, consigo encon a ecos compa a i os no que oca à cons ução de um
co po co eog á ico que u iliza os mecanismos da sequência, do plano, da edição. Ou,
po ou as pala as, que pensam o espaço e o empo.
O modus ope andi é dis in o e as e amen as pa a esculpi as escul u as ambém o são,
mas o co po é um denominado comum, sendo o olha ou a isão um eixo ca alisado de
expe iências sensi i as que se ansmu am em signi icâncias co eog á icas e imagé icas.
No ocan e a igo de Lisa Nelson, “Be o e You Eyes, Seeds o a Dance P ac ice”, a
au o a o mula um olha cúmplice com o mundo, “inco po ando” uma máquina de
ilma no seu co po, o nando o co po simul aneamen e um meio e um esul ado em si
p óp io. O co po- anspo e o na-se co po-imagem, a a és dos mecanismos da isão e
da câma a de ilma . Es e co po-imagem é um co po em cons an e ( e)composição que
ge e a nossa a enção em espos a ao meio ambien e. (C . Nelson, 2003:).
Ace ca das simili udes de mecanismos a ás e e idas, Lisa Nelson é escla ecedo a
quando explica as po encialidades do ídeo,
Video combines wo powe ul lea ning ools: a mechanical eye o dissec he
mo ing pa s o looking- ocussing, panning, acking, zooming - and ins an
playback o show he cause and consequences o you ac ions. I se me up o
explo e how he body composes i sel : i s o ocus he senses, hen o
o ches a e i s mo emen a ound i s imagina ion and desi e o meaning.
(Nelson, 2003: 6, 7).
Ainda no mesmo a igo e e e en e a uma ideia de mon agem ou edição - que se á
e e ida mais adian e quan o às no as de B esson -, Lisa Nelson abo da a edição ídeo
como ansposição imagé ica pa a um co po que é es imulado pelas possibilidades do
seu p óp io acionamen o (ou agmen o):
Fo some yea s, plan ed in on o wo ideo sc eens, si ing almos
p ena u ally s ill excep o bu on-p essing inge s and ping-ponging eyes, I
14
made spli -second inse edi s o single ph ases o mo emen , pa ching and
olding bi s o he ph ases in o hemsel es. O e ime, a quali y o seamless bu
ab up ansi ions, like jumpcu s in ilm, in used my dancing. (Nelson, 2003:5).
O que aqui es á em causa é um co po que anspo a a possibilidade de se alimen a das
possibilidades da mon agem e da isualização de si p óp io em imagem i ual pa a se
econduzi como agen e co eog á ico de uma elação agmen á ia que se compõe po
mo imen os olhados e sen idos como on e de cons ução co eog á ica.
Es e co po- uína é um co po que mo e espaço e empo. José Gil olha pa a o co po do
baila ino como um co po especí ico que p oduz in ini ude no espaço, dila ando-o e
con aindo-o.“Sabe-se que o baila ino e olui num espaço p óp io, di e en e do espaço
objec i o. Não se desloca no espaço, seg ega, c ia o espaço com o seu mo imen o.”
(Gil, 2001:57), o nando-o espaço do co po (a cena ans igu ada do ac o não é espaço
objec i o?).
O que nos diz José Gil é que an o o ac o como o baila ino c iam espaço com os seus
co pos. Es e espaço po encial, luga p é io à c iação, disponí el pa a se po enciado po
agen es a ec i os e emocionais, é c iado e dila ado no p óp io ac o da c iação, o nando-
se espaço cénico. O mo imen o do co po é o eixo cen al.
Es e mo imen o do co po ambém se o ganiza sequencialmen e e con oca pa a si
mecanismos de edição pe inen es ambém pa a o cinema. A o ganização ísica suge e
um pensamen o p é-mo o em que o co po se ai dis ibuindo po camadas sensí eis de
pe cepção imagé ica. O empo, o i mo e a edição ão-se o nando condições sine que
non de p odução de mo imen o, a e indo-lhe qualidades poé icas indas de escolhas
e ec uadas a cada mic o-ins an e (o que ulga men e denominamos imp o isação).
And ey Ta ko sky e e e es es elemen os ( i mo, empo e mon agem) como
es u u an es de um modo de aze e de pensa cinema. Pa a es e au o , o i mo se ia o
ac o p incipal de um cinema que não ec ia a ealidade mas c ia a sua p óp ia
ealidade ou o seu p óp io empo de exis ência. Apesa de Ta ko sky e e i a música e
a dança (em pa icula o balle ) como a es do empo, es as não exis em pa a si enquan o
cons u o as de um empo pe si. Apenas o cinema se ia essa a e maio que domina as
leis do empo.
15
Não sendo o objec i o des e ex o encon a pon os de up u a his ó icos en e o cinema
e a dança como a e pe o ma i a, não posso deixa de e e i a cons ução co eog á ica
como pon o de con e gência de ans o mação da unidade empo, c iando a o ma
isí el que Ta ko sky admi e como única no cinema, no sen ido em que apenas es e lhe
con e e isibilidade. Ainda den o des a ideia, Lau ence Louppe e e e o exemplo de
Me ce Cunningham como um escul o do empo: “A dança de Cunningham cons i ui
uma epi ania do empo. Quem não assis iu, nas suas aulas de composição, à mon agem
de uma g ande ampulhe a, com o in ui o de demons a que a acção de um baila ino
se ia pu a du ação?” (Louppe,2012:151).
Es a du ação, ou es a pe manência, é cla amen e um elemen o de elação en e dança e
cinema. É nes a du ação que ambos p oduzem possibilidades demiú gicas de ligação
aos a ec os que nos ocam. Ainda e e indo o que diz Lau ence Louppe, ace ca des e
p ocesso de du ação do empo no baila ino, “O baila ino abalha sob e o ins an e, mas
ambém ‘den o’ do ins an e. A p esença o al no ins an e, sem p azo ou an ecipação
es ipulada, é udo o que cons i ui a qualidade de um ac o de dança. É um elemen o
igualmen e essencial de elabo ação da ‘p esença’ do baila ino.” (Louppe, 2012:163).
É nes e ins an e (ou nes a p esença do ins an e) que coloco um ajec o possí el de
deslocação ísica, en e um empo de um co po aqui e ago a e um empo de uma
imagem p ojec ada, ambos passí eis de manipulações á ias po que se p e ende que o
pe cu so seja a madilhado ou sabo ado pelos p óp ios elemen os cons i u i os das
elações em causa. Como in e e i na p esença de uma uína? Como conec a uma
imagem do ma a ba e con inuamen e numa ocha com um co po a ba e con inuamen e
numa ped a? Tal ez o que aqui impo e seja coloca es e ges o no luga da inu ilidade,
onde o desgas e e a e osão ca egam o seu semblan e pe an e a ã en a i a da epe ição
endo em is a uma ini ude.
16
I.I B esson e a possibilidade da dança
P imei a no a: “O Cinema óg a o é uma esc i a
com imagens em mo imen o e sons” (B esson,
2003:17).
(Vol o a coloca -me em es údio, ainda em
p esença imaginada, e le o o ádio desligado e a
ele isão desligada).
E a Co eog a ia? É uma esc i a com imagens em mo imen o e sons? Num p imei o
olha , podemos desco ina imagem, mo imen o e som numa co eog a ia.
Apa en emen e, pode ia equipa a -se imedia amen e a esc i a do cinema e a esc i a da
dança como p ecu so es de um luga comum, em que imagem, mo imen o e som,
coexis em num só espaço e empo. No cinema, esse sí io pode á se a ela b anca e na
dança pode á se o co po? Ou pode emos in ui mais agen es nes a pe cepção do
mo imen o como imagem isual acompanhada de som? E o silêncio?
Pa a aseando Sé gio Dias B anco, “Cinema é a ab e ia u a de ‘Cinema óg a o’, que a
e imologia ensina que signi ica esc i a (ou desc ição) do mo imen o. Não se a a de
uma ep odução do mundo, mas de uma p odução de um mundo. Não se a a de uma
simples sob eposição, mas de uma composição”. (Dias B anco, 2016:148).
C eio que cap u ando isicamen e es a ideia, podemos suge i a cons ução de uma
dança, como uma p odução do mundo. Ou seja, não exis e uma sob eposição (ou
linea idade), mas uma e ec i a p odução de um discu so a a és da imp o isação e da
composição co eog á icas, o iginando ma e iais ísicos passí eis de o igina em
sequências de mo imen o, em elação com o espaço e com o empo. Ou seja, uma
co eog a ia. Ou uma co eocinema og a ia.
Ainda ace ca do cinema óg a o, de e e i es a ideia de mobilidade
6
ou de mo imen o
pe an e o mundo, como se osse um desco ina de um e i ó io in ini o, uma me a-
6
“Essa é ambém a cla i idência do cinema óg a o que ep esen a o mundo na sua mobilidade ge al e
con ínua. Fiel à e imologia da pala a, lá onde o apa elho óp ico não ê mais do que a quie ude e o
epouso, o cinema óg a o des ela o mo imen o. A pa i de ago a, não se limi a a ep oduzi a ajec ó ia
dos planos, mas ec ia a ajec ó ia dos sons, apode a-se dos olumes e das co es e, p o a elmen e, cap a
ou as ans o mações que nos se ão e eladas.” (Apa ício, 2013:5).

17
lo es a, opical e luxu ian e, ocupada po pe manências isí eis e in isí eis (como nos
ilmes an asmá icos de Apicha pong Wee ase hakul), que con êm em si, conexões
simbió icas (como uma ba ei a de co ais com as algas). Es a imagem líquida de co pos
lu uan es, con e e-me o ei os possí eis de insc e e es e co po- uína que deambula, de
agmen o em agmen o, à p ocu a de uma dialéc ica (hegeliana e eisens einiana), em
que agmen o + agmen o o igina pensamen o.
O objec o de um co eóg a o, se á ambém uma composição ace ca do mundo, endo em
is a p ocessos mecânicos e a ec i os de ligação ísica com o mundo, a a és da
possibilidade de dança . Aquele, não es a á semp e e inega elmen e conec ado com
mo imen os e sons. O luga do não-mo imen o e do silêncio é um luga po en e de
insc ição co eog á ica, não se indo apenas como nega i o do mo imen o, mas como
posi i o de elações co eog á icas que se ins alam po p opos as que êm em is a uma
desma ginalização do e i ó io co eog á ico que não es á imedia amen e implicado po
lib e os ou sequências co eog á icas.
Colocando o cinema e a dança numa lógica de con as es, an o o cinema e dança, êm
em si mo imen o, não-mo imen o, som ou silêncio. O que aqui es á em causa não é um
olha his ó ico sob e as no as de B esson (não as podendo descon ex ualiza em
absolu o), mas en a e lec i como es as êm em si e nos seus con á ios condições de
pe ença ao campo da co eog a ia, como luga de pensamen o e de acção sob e o
mundo.
O que me pa ece pe inen e, é uma ideia de mo imen o, ou de imagem em mo imen o,
como o igem de um cinema que p ese a a con inuidade em ez de p oduzi uma
apa ência de con inuidade. Tomando como e e ência es a ideia de mo imen o enquan o
p odu o a de imagens, ambém É ienne-Jules Ma ey, c ono o óg a o e in en o ancês,
cujo abalho oi undamen al pa a o cinema al como o pensamos e sen imos hoje em
dia, a i ma a que o mo imen o e a o elemen o cons i u i o mais e iden e da ida, is o
que se mani es a em odas as suas unções, sendo mesmo a essência de algumas delas.
O mo imen o se ia a essência da imagem.
18
O concei o de imagem que aqui enho expondo baseia-se no pensamen o de And é
Bazin, em que po imagem, en endia “ udo aquilo que a ep esen ação na ela pode
ac escen a à coisa ep esen ada”.
Tal con ibuição é complexa, mas podemos eduzi-la essencialmen e a dois
g upos de ac o es: a imagem plás ica e os ecu sos da mon agem (que não é
ou a coisa senão a o ganização das imagens no empo). Na imagem plás ica, é
p eciso comp eende o es ilo do cená io e da maquilhagem, de ce o modo a é
mesmo da in e p e ação, aos quais se ac escen am a iluminação e, po im, o
enquad amen o que echa a composição. Quan o à mon agem, o iunda
p incipalmen e, como se sabe, das ob as-p imas de G i i h. And é Mal aux
dizia, em Psicologia do Cinema, que ela cons i uía o nascimen o do ilme como
a e: o que o dis ingue ealmen e da simples o ma animada. Na ealidade,
en im, uma linguagem. (Bazin, 1992:57).
Re i o aqui es e con ibu o de And é Bazin, po que me in e essam es as concepções do
cinema que são jus amen e undamen os de uma possí el dança cinema og á ica, mas
ambém on e de con li o pe an e a ideia de ap eensão do eal como elemen o passi o
an o do lado do agen e pe cep o como da imagem pe cepcionada.
Como diz Rica do Lisboa no blog À Pala de Walsh:
“Bazin e a sua upe ac obá ica ize am c e que a e dade que con i ma a o
cinema à sé ima posição a ís ica e a a e dade que se p endia com a capacidade
es emunhal do disposi i o o og á ico. Desse eal su gi ia a poesia que se
encon a a nas ob as p imas. Mas e o que dize do cinema que não possui essa
qualidade de p esença (da conse ação do momen o a a és da sua cap ação
imagé ica)? Penso nas películas pin adas de No man McLa en ou S an
B akhage, onde es á a e dade que as az poé icas? Di ia que se encon a
exac amen e no ges o da insc ição (e menos no que é insc i o), ou seja, a e dade
es á na ce eza da mão que se deb uçou sob e cada o og ama, que elabo ou cada
imagem.” (Lisboa, 2017, h p://www.apaladewalsh.com/. Consul ado em Agos o
28, em h p://www.apaladewalsh.com/2017/07/ ale ian-and- he-ci y-o -a-
housand-plane s-2017-de-luc-besson/
Penso ambém no cinema de Ch is Ma ke (po exemplo, no ilme Immemo y, 2002) e
no de Jean- Luc Goda d (po ex: His oi e(s) du cinema, 1988) em que a mon agem
19
su ge como acção p imo dial de uma o ma de aze cinema. Como uma p áxis
cinema og á ica.
No exemplo de ou o cineas a,
Quando, no Cou açado de Po emkine, Eisens ein mon a sucessi amen e planos
que ep esen am os olha es dos ma inhei os e as espinga das dos soldados, ou a
bo a b anca de um o icial e a boca escanca ada de um ebelde que g i a, não são
apenas dois elemen os da in iga que ele con on a, são e iden emen e duas
es e as mais amplas, dois uni e sos que se ab em ao pensamen o, solici ados
pelo agmen o. (Amiel, 2010:50)
A mon agem in e essa-me como ideia essencial de um mo imen o isico e concep ual
que encon a pa alelo na dança con empo ânea, a a és de uma ideia de co po- uína
como supo e de pensamen o, que i ei explana adian e nou a no a de B esson.
20
Segunda no a: - Filme de cinema óg a o, onde a
exp essão se ob ém po elação de imagens e de
sons – e não po uma mímica, ges os e en oações
de oz (de ac o es ou de não-ac o es). Que não
analisa nem explica. Que ecompõe. (B esson,
2003:20).
(Con inuo em es údio, em co po imaginado e
oli i o, e p ocu o e lec i nes a ideia de
ecomposição, colocando-me no ou o luga da
mesa).
Nes a a i mação, e em mui as ou as ao longo das suas no as, B esson di ige-se aos seus
ac o es e ac izes como modelos, in e endo e ques ionando uma elação mimé ica que
ac edi a a exis i en e a ep esen ação ea al e cinema og á ica.
Nos seus ilmes, B esson p ocu a a encon a uma elação de di ecção pa a com os seus
modelos que não se aduzisse em algo ep oduzí el, mas sim em algo que inha do
ins an e, dando luga a um co po emancipado, que se ia eposicionando consoan e o
momen o.
Recomposição em que sen ido? Po que se pode edi a a pos e io i, ou po que se es á a
ala de um p é-olha em que a a enção é di igida pa a planos de ( e)composição do
eal? E na imp o isação de uma dança? Es a á em causa uma ecomposição em
cons an e ac ualização?
Podemos a e i de uma imp o isação, que os in e enien es en ol idos na cons ução
de uma pa i u a, ecompõem o espaço e o empo, a a és da dissolução dos agmen os
em acon ecimen o mo o e imagé ico. Es amos a ecompo a a és do de i agmen o,
co pos, imagens e sons, numa lógica de al e ação de es ados ísicos e emocionais em
que se e ec i a uma econs i uição do co po- uína em co po-co po
7
. Signi ica is o, que
pode á exis i uma ac i ação do agmen o como unidade de medida e que o co po-
co po se ia um luga de acon ecimen o ca á ico, o iginado de mo imen o passí el de
se epe ido, codi icado e eplicado.
7
“(...) é p eciso ainda que as pa es ajam e eajam umas sob e as ou as pa a mos a , simul aneamen e,
como en am em con li o e ameaçam a unidade do conjun o o gânico, e como supe am o con li o ou
es au am a unidade”. (Deleuze, 1983:46).
27
O que é um luga de excelência pa a a cons ução cinema og á ica ambém o é pa a a
cons ução co eog á ica. O empo, como pa ícula passí el de se edi ada, ans o mada
ou “ e i ada do seu luga ”
13
, es á em pe manen e con li o com a sua p óp ia condição
abismal de pa ilha ca og á ica com o espaço, numa elação canibalizan e em que
ambos encon am os seus ecu sos na in e secção das suas linhas e ampulhe as, dos seus
in e alos, en im, dos seus agmen os e da sua condição p ecá ia e olú el de eminen e
desapa ecimen o ou usão, um no ou o.
13
“A imagem- empo a uína a na ação adicional ao expulsa odas as o mas con encionadas da
elação en e si uação na a i a e exp essão emocional, pa a libe a pu as po encialidades ca egadas
pelos os os e pelos ges os. Mas es a po ência do i ual, p óp ia da imagem- empo, encon a-se à pa ida,
dada no abalho da imagem-a ecção, que libe a qualidades pu as e que as compõe naquilo que Deleuze
designa po ‘espaços quaisque ’, espaços que pe de am os ca ac e es do espaço o ien ado pelas nossas
on ades.” (Rancié e, 2014:184).

28
Quin a No a: - Filmagem. Fica num es ado de
igno ância e de cu iosidade in ensas e, no
en an o, e p e iamen e as coisas. (B esson,
2003:26)
(Nes e momen o, echo os olhos e con inuo a
esc e e . Ta e a impossí el.)
Es a no a de B esson é, a meu e , mais uma es a égia de imp o isação, e p emissa
undamen al num momen o de imp o isação, que implica a deslocalização cons an e do
co po- uína.
A es e es ado de igno ância chama -lhe-ia es ado de p é-acção, ou de p é-acele ação
14
,
nas pala as de E in Manning, na medida em que a la ência de um ges o ca ega em si
hipó eses de igno ância e cu iosidade in ensas, quan o ao de i possí el de
acon ecimen os que i ão o igina acon ecimen os. Ao inicia um mo imen o (ou uma
sequência de mo imen os), o co po assume um luxo de encadeamen os neu o-mo o es
que p o ocam um deslizamen o do co po pa a e i ó ios o gânicos de sequência
co eog á ica, não se pe mi indo e pa a além do seu encadeamen o, mas endo semp e
mais além que o acon ecimen o em si.
Como diz Rancié e, “Pa a lá da o dem dos es ados dos co pos e das elações causa e
e ei o, de acção e eacção, que ma cam as suas elações, o a is a ins i ui um plano de
imanência onde os acon ecimen os, que são e ei os inco po ais, se sepa am dos co pos e
se compõem num espaço p óp io.” (Rancié e, 2014:181).
14
“P eaccele a ion e e s o he i ual o ce o mo emen ’s aking o m. I is he eeling o mo emen ’s
inga he ing, a welling ha p opels he di ec ionali y o how mo emen mo es. In dance, his is el as he
i ual momen um o a mo emen ’s aking o m be o e we ac ually mo e. Impo an : he pulsion owa d
di ec ionali y ac i a es he o ce o a mo emen in i s incipiency. I does no necessa ily o e ell whe e a
mo emen will go. (...) When I ake a s ep, how he s ep mo es me is he key o whe e I can go. (...)
In he p eaccela a ion o a s ep, any hing is possible. Bu as he s ep begins o ac ualize, he e is no
longe much po encial o di e gence: he oo will land whe e i lands. Incipiency opens up expe ience o
he unknowable, ollow- h ough owa d conc escence closes expe ience in i sel . O cou se, his closing-
in is always a eopening owa d he nex incipien ac ion. (Manning, 2009: 6, 7).
29
Signi ica is o, a hipó ese de deslocalização do mo imen o que se ai pe cepcionando
pa a um espaço p óp io de ma e ialização, p o ocando sé ies co eog á icas num plano
de isibilidade pa a além do isí el.
Te á que exis i um impulso ísico, uma acção ou um mo imen o, endo em is a uma
conce ação com o eal isí el. Tal como no cinema em que a câma a é di igida po um
olha e pelo mo imen o desse olha , ambém na dança o mo imen o do olha pode
di igi oda uma cons ução ace ca do eal isí el aduzindo-o em possí eis acções
passí eis de se em co eog a adas ou, po ou as pala as, esc i as e aduzidas pa a
mo imen o. Na e dade, es e eal isí el, e omando como pon o de pa ida o que
ealmen e emos, não se á su icien e pa a es e ges o de insc ição de olha . In e essa
al ez o eal sensí el, ou a o ma como o nosso olha se insc e e a a és do mo imen o.
Como diz José Gil ,
O eco do isí el é uma espécie de somb a ou de nega i o: o sen i cines ésico do
mapa mo o ele a da isibilidade, mas ‘sec e a’. Não só po que oda a paisagem
que a isão ab e supõe um mundo possí el (e in isi el) de mo imen os, e que
assim – uma ez que e é mo e -se - é num mapa sec e amen e is o que esses
mo imen os se p epa am (...) (Gil, 1996:30).
Ou ainda, nas pala as asse i as de Je oen Pee e s,
You look o whe e you can na iga e h ough mo e han you look a wha 's
happening in he space a ound you. And i you' e s anding a he edge o he
space, you' e usually looking o an in i a ion o en e , o an impulse o engage
imp o isa ionally, o make an ac ion. You a e no simply looking, you' e looking
o some hing.
In looking a a s illness, o example, he e a e phases o expec a ion and o
desi e: you' e mo ing you eyes and a en ion, you' e wan ing o mo e, you' e
cu ious wha will happen nex , you wonde how i go o his momen : you s a
o each in o causali y, you imagina ion ge s engaged, you p ojec wha migh
happen nex i he e would be a nex .” (Pee e s, 2005:9.12)
30
Es e es ado de igno ância, é ambém um es ado de awa eness
15
, po enciado de elações
senso iais, e mui o e e ido em p á icas de imp o isação, po que ele a duma condição
pa icula de a enção pe an e o espaço, o empo e os seus cons i uin es agmen á ios. O
desejo, o impulso pa a mo e , a cu iosidade e o engajamen o em elações explosi as de
desconhecimen o pe an e uma na a i a de sucessões, desemboca numa ideia de p á ica
ci cula da a enção, no sen ido em que es a, is a de uma o ma elú ica e concen ando
o pon o de pa ida no núcleo dos imensos cí culos de placas ec ónicas, i adia
pola idades que desconhecemos mas desejamos.
Es a ideia de desejo é ele an e po que se dep eende imanen e da cu iosidade. Deseja-se
aquilo que se ê e aquilo que não se ê, man endo-nos a en os às es e as de a acção que
daí possam su gi .
Es a pa icula idade da a enção, pe mi e ala de uma a enção cinema og á ica, na
medida em que se coloca pe an e uma ime são do mo imen o, seja es e, do olha ou da
câma a de ilma , que é ambém o olho da len e e um olha manuseado e di igido.
Na p á ica, es a no a pe mi e-nos encon a ele âncias concomi an es quan o ao papel
que a awa eness possa e enquan o mo o de a enção.
15
José Gil p opõe o e mo “consciência do co po” como adução pa a awe eness: “A consciência de si
de e deixa de e o co po do ex e io , e o na -se uma consciência do co po. T a a-se daquilo a que os
baila inos anglo-saxónicos chamam awe eness. (...) O pa adoxo da awe eness é que supõe um es ado de
mui o g ande igilância dos mo imen os co po ais, sem implica a sua igilância seca e supe egóica a im
de os o na ‘pe ei os’.” (Gil, 2001:159).
31
Sex a No a: O que nenhum olho humano pode
cap a , nenhum lápis, pincel ou pena pode ixa ,
a ua câma a cap a sem sabe do que se a a e
ixa com a indi e ença esc upulosa de uma
máquina. (B esson, 2003:24).
(Vol ando ao es údio, coloco a câma a em
di ecção à janela que olha pa a o ex e io donde
ou esc e endo e deixo-a sozinha a g a a ).
Pa a analisa es a no a de B esson, começo po ci a Mau ice Me leau-Pon y:
Que se ia a isão sem nenhum mo imen o dos olhos, e como o mo imen o
des es não ha e ia de ba alha as coisas se, po sua ez, osse e lexo ou cego, se
não i esse suas an enas, sua cla i idência, se a isão não se p ecedesse nele?
Todos os meus deslocamen os po p incípio igu am num can o da minha
paisagem, são ansladados no mapa do isí el. Tudo o que ejo po p incípio
es á a meu alcance, pelo menos ao alcance do meu olha , assinalado no mapa do
«eu posso». Cada um dos dois mapas é comple o. (Me leau-Pon y, 2013:260).
Quan o a es as conside ações de Me leau-Pon y, con ém e e i a ideia de p esença do
isí el, ele ando es a como me a ou abismo passí el de se ans o mado pelo g ande
plano do olha .
E a máquina, a câma a de ilma , que luga ocupa? Um “eu posso” expandido ou
ampli icado, po que egis a a possibilidade de um no o isionamen o a a és de um
ec ã? Po que o igina a possibilidade de uma epe ição? Também é possí el encon a
ecos des a a i mação, num co po que dança, pensa e olha pa a decidi . In luem aqui
noções de awa eness e de isão pe i é ica, como olhos que comunicam pa a além do
olha , po que agem em pe íme os de sensação en e o limi e do isí el e do in isí el.
A câma a de ilma egis a pa a p ojec a , o co po egis a pa a se e ec i a como
imagem que mo e. Se á assim?
Nas pala as de Alexand e As uc:
The came a ixes; i does no anscend, i looks. One has o be nai e o imagine
ha he sys ema ic use o an 18.5 lens will make hings any di e en om wha
hey a e. In exchange, i ne e lies. Wha is caugh by he lens is he mo emen
o he body - an immedia e e ela ion, like all ha is physical: he dance, a
32
woman's look, he change o hy hm in a walk, beau y, u h, e c. (As uc,
1959:266).
Tal ez a ques ão se possa coloca de ou a o ma; a câma a e o co po uncionam an o
como ecipien es de egis o, como p ojec o es de imagem e on es de mo imen o pe si.
Ao abo da a câma a de ilma como um objec o de egis o esc upuloso, c eio que
B esson es a ia a e idencia a po ência do olha que comanda a máquina, p ocu ando
ele a pa a o seu discu so a acção ísica, senso ial e plani icada do agen e que mo e a
câma a à p ocu a de luga es e paisagens, que an o es ão comp eendidas na ealidade
isí el como na in isí el.
Ou ainda nas pala as de Inês Sape a Dias, ci ando Ma ié e e Memoi e de Hen i
Be gson (1986:209-210),
(...) con udo, Be gson pa ece encon a uma possibilidade pa a pe cebe esse
mo imen o p o undo e eal, a du ée: ao e uma mão mo e -se do pon o A ao
pon o B, endo a in e p e a esse como um mo imen o no espaço e como al
di isí el em inúme as pa agens; mas se esse mo imen o o epe ido po mim,
pe cebo que ele exp ime no espaço, um empo, e como al não é des inçá el em
pon os ixos. Faze eu p óp io o mo imen o pe mi e que o pe ceba. (Dias, 2013:
222).
Um co po ao mo e -se, ca ega em si es a possibilidade de egis o de uma câma a de
ilma , a a és do componen e olho e do luga abismal da memó ia
16
. Pe cepcionando
espaço e empo a a és do que ê ao seu edo , um co po ambém egis a
17
, a a és da
16
“Ch is Ma ke a p opósi o do seu Immemo y diz assim: “A minha hipó ese de abalho e a de qualque
memó ia um pouco longa é mais es u u ada do que pa ece. Mesmo o os i adas ao acaso, pos ais
escolhidos segundo a disposição do momen o, começam, a pa i de uma ce a quan idade, a desenha um
i ine á io, a ca og a a o país imaginá io que se es ende den o de nós. Ao pe co ê-lo sis ema icamen e
eu es a a segu o de descob i que a apa en e deso dem do meu imaginá io escondia um mapa, como nas
his ó ias de pi a as.” (Amiel, 2010: 72, 73).
17
“O cineas a de ol e a pe cepção às imagens ao a ancá-las dos es ados dos co pos e ao colocá-las no
plano pu o dos acon ecimen os. Con e e-lhes assim um encadeamen o-em-pensamen o.” (Rancié e,
2014:191).

33
isão e da memó ia de si e dos luga es, a ealidade ci cundan e que se ai o e ecendo
pe an e o seu olha
Como diz José Gil, “O olha esca a a isão, imp ime sulcos na paisagem, di e encia-a
em múl iplos núcleos de o ças, modula a luz e a somb a, in oduz os p imei os il os
selec i os da pe cepção”. (Gil, 1996:52).
34
Sé ima no a: Mon agem: passagem de imagens
mo as a imagens i as. Tudo e lo esce.
(B esson, 2003:78).
(Aqui, ab o uma página em b anco e começo a
esc e e .)
E na dança? Como acon ece es a mon agem, es a escolha? Se á que exis em escolhas
ins an âneas pe an e p essupos os imagé icos e concep uais, du an e uma imp o isação?
Es a a i mação adical de B esson, es abelece o pos ulado de uma ealidade que apenas
se o na i a, quando p edispos a pe an e os di ames e “a i ícios” da mon agem.
Implica-se aqui numa ideia de cinema, a as ada do egis o di ec o das imagens al qual
são ixadas pela câma a de ilma e olhando a ealidade
18
como uma na u eza mo a
acabada de pin a .
Como nos diz Rancié e,“Se a mon agem em de coloca a pe cepção den o das coisas,
é po que ela é uma ope ação de es i uição.” (Rancié e, 2014:183).
Há po an o, um luga de de olução da imagem. Uma ope ação sob e a uína da
imagem. Uma ope ação sob e o co po- uína, se conside amos es e como um espaço de
p ojecção, uma ela b anca onde acon ecimen os co eog á icos podem su gi ,
p ojec ando-se no espaço e no empo, p opondo-se ao mesmo empo, a egis a , a ixa e
a edi a .
Tal ez seja nes e a o ismo de B esson, que o co po- uína, sob e o qual enho indo a
disse a , encon a o seu eco, ou o seu duplo.
18
“The musician uses a scale o sounds; he pain e , a scale o ones; he w i e , a ow o sounds and
wo ds-and hese a e all aken o an equal deg ee om na u e. Bu he immu able agmen o ac ual
eali y in hese cases is na owe and mo e neu al in meaning, and he e o e mo e lexible in
combina ion, so ha when hey a e pu oge he hey lose all isible signs o being combined, appea ing
as one o ganic uni . A cho d, o e en h ee successi e no es, seems o be an o ganic uni . Why should he
combina ion o h ee pieces o ilm in mon age be conside ed as a h ee- old collision, as impulses o
h ee successi e images?
How easily h ee shades o meaning can be dis inguished in language- o example: ‘a window wi hou
ligh ’ ‘a da k window’ and ‘an unli window’.” (Eisens ein, 1977:4).
35
É p ecisamen e nes a ideia de mon agem, e de aze ida à imagem a a és daquela,
que um co po em labo de econs i uição imagé ica pode ampli ica o seu sen ido e a
sua exis ência. Tomo como exemplo baila inos que colabo a am com o co eóg a o
Me ce Cunningham, e que, po opção des e, em alguns p ojec os, decidi am usa zonas
do palco onde são menos isí eis, en ando c ia um mecanismo de
isibilidade/in isibilidade, e suge indo hipó eses ala gadas quan o à u ilização do
espaço cénico.
Fazendo uma in lexão pa a o cinema, ques iono-me quan o à hipó ese de como - pe an e
o ec ã onde se az a mon agem de imagens -, o edi o ambém decide o que mos a ,
ocul a , ampli ica , silencia ou p olonga . Le ando ao ex emo a imagem do baila ino-
edi o , pode -se-á dize que as escolhas
19
des e, são ambém escolhas de edição de
imagem, do seu co po que anspo a agmen os passí eis de se em mos ados,
ocul ados, ampli icados, silenciados ou p olongados.
É aqui nes as escolhas que o co po- uína ai manuseando o ins an e e a sua ca a se
p esencial pa a se o na líquido o og á ico, p es es a se ixado e e elado. Seja o
co po p ojec ado (cinema og á ico), seja o co po em possibilidade de p ojecção
(co eocinema og á ico), as possibilidades da mon agem ab em pe spec i as singula es
quan o à cons ução de discu sos signi ican es, al como acon eceu com cineas as como
Eisens ein.
Nas pala as de Pa ícia Cas ello B anco,
É o que acon ece na amosa sequência de A G e e (1925) na qual planos de uga
dos g e is as são in e calados com imagens de um animal a se mo o num
19
Ace ca das escolhas, de ele a es as ideias de Ma ia I ene Apa ício: “Que nos p ojec os o iginais,
que nas adap ações li e á ias, como é o caso de La Belle Ni e naise (1924), a pa i da ob a de Alphonse
Daude , em que o e dadei o he ói é o io Sena, ou La Chu e de la maison Ushe , adap ado do con o do
mesmo nome de Edga Allan Poë, com e iden es e e ências ao Po ai O ale, não são as ‘es ó ias’ que
emb aiam a acção, mas os i mos p óp ios das cenas, o seu mo imen o que Eps ein aumen a ou eduz,
a a és das écnicas mui o em oga no cinema de angua da, como é o caso da mon agem acele ada ( as
mo ion) ou da câma a len a ( alen i ou slow mo ion) po que, como e emos, a possibilidade de ela i iza
o mo imen o e mos a o e e no passado p esen e – Deleuze chama -lhe-á ‘de i ’ - é, segundo Eps ein, a
g ande e elação do cinema óg a o”. (C . Apa ício, 2010 h p:// ilmphilosophy.squa espace.com/1-jean-
eps ein ).
36
ma adou o Nes a sequência, o sen ido associa i o e o sen ido espec acula azem
com que a imagem sal e imedia amen e de uma pa a ou a po ência. Abs aídos
do seu con ex o empo al e espacial, os planos ganham uma no a dimensão e
se em como o despole a de uma emoção, e de um choque que e o çam o
su gimen o de uma ideia no pensamen o espec ado : uma ideia e uma sensação
que não es ão con idas em nenhum dos planos omados em sepa ado, uma ideia
abs a a, a c iação de uma me á o a: os ope á ios são ca ne massac ada num
alho gigan e. Po ou o lado, ela se e como uma o ma de in ensi ica uma
emoção, sendo que o ac o de abs ai , nes e caso, an o es á ligado ao su gimen o
de um pensamen o, como à in ensi icação de uma emoção, in e ligando a
mon agem in elec ual com a mon agem de a acções numa ó mula única e
apa en emen e pa adoxal, em que o máximo de abs acção é ambém o máximo
de sensação. (Cas ello B anco, 2013: 309).
(Gil, 2001:57).Ainda sob e es a ideia de máximo de abs acção como máximo de
sensação cabe-me e e i uma ob a co eog á ica. In i ula-se La Chance (2009) e é uma
peça de Loïc Touzé à qual i e opo unidade de assis i na Cul u ges em Lisboa.
Na sinopse Loïc Touzé in e oga-se:
Que ope ações execu a um in é p e e pa a dança , e dadei amen e dança ?
Me gulha no seu imaginá io, en a abandona conhecimen os, educação, sabe -
aze ; a en u a-se numa na a i a í mica, co po al, numa na a i a de
sensações. O que encon a nesse p ocesso? A sua memó ia? O seu u u o? Os
que o obse am? Pa a abo da es es es ados de dança, p a icámos a hipnose e a
elepa ia; c iámos um disposi i o de exposição e de apa ição com ca a e ís icas
simples, in en ámos um país p o undo. As danças que se o e ecem umas a
segui às ou as são na ealidade uma mesma dança incessan emen e
ein en ada. É assim, numa espécie de i ual cole i o que p ecisa da a enção e
acompanhamen o de cada um, que a dança pode inca na -se e e ela o que es á
an es e depois das nossas expec a i as. (Touzé, 2009, olha de sala do
espec áculo).
Es a ques ão ace ca do que é “ e dadei amen e dança ” em ocupado g ande pa e da
paisagem co eog á ica con empo ânea, en e co eóg a os como Jé ôme Bel, Bo is
Cha ma z, passando po Alain Bu a d, Ve a Man e o, Oli ie Dubois e Loïc Touzé
en e mui os ou os(as).
43
p imá ias e secundá ias, como, além disso, na a mos e a, eles in adem o co po
do sujei o que pe cepciona, pa a se em expe ienciados como luz, chei os e sons.
Po que o espec ado não se de on a com a a mos e a, não se dis ancia dela,
an es é odeado po ela, me gulha nela.
O co po ísico do ac o e do espec ado é a base exis encial de odo o ipo de
espec áculo – seja na ida quo idiana, nas a es ou numa pe o mance cul u al. O
que que dize que o ca ác e pe o ma i o da cul u a não pode se , em boa
e dade, in es igado sem ecu so à isicalidade de odos os que pa icipam num
espec áculo. Não são as ideias, os concei os nem os sen idos que de em se
examinados em p imei o luga , pa a da isibilidade ao ca ác e pe o ma i o da
cul u a, mas sim os co pos ísicos pa icula es a a és dos quais e en e os quais
se p oduz o espec áculo – o co po do ac o que, ao aplica algumas écnicas e
p á icas, consegue ocupa o espaço e chama oda a a enção dos espec ado es
sob e si, a sua p esença ísica, assim como o co po dos espec ado es, que
espondem de o ma pa icula a uma expe iência de p esença como es a.
(Fische -Lich e, 2005:75-76).
C eio que es as e lexões de E ika Fische -Lich e sob e a a mos e a de um espec áculo,
são pe inen es pa a uma ideia de mo imen o enquan o mo o de uma p esença que c ia
ida a um espaço que se o na á cénico e pe o ma i o pela junção de á ios elemen os.
É como se hou esse uma adução de uma possibilidade ainda in isí el (o espaço
po encial) pa a um acon ecimen o isí el (o espaço cénico e a pe o mance).
Es a a mos e a é cla amen e um elemen o que po encia o espaço cénico, azendo pa e
dele e a e indo-lhe qualidades especí icas. Também é de ele a es a elação que se
es abelece en e o espec ado e o espec áculo, condição sine qua non de p odução de
a ec os e pon es de comunicação.
Todas es as ques ões con e gem no sen ido do mo imen o enquan o p odu o de
acon ecimen o. Seja o mo imen o do ac o ou do pe o me , sejam os mo imen os das
possibilidades ecnológicas (máquinas, obó ica, luz, som, e c.), a deambulação ísica é
o ac o gue ei o a a és do qual uma pe o mance acon ece.
Na e dade, o que acon ece é uma p esença que po encia e ampli ica o espaço,
o nando-o pa icula e subs an i o, o iginado de a mos e as e de elações emocionais e
a ec i as com o espec ado . É aqui que apa en emen e o ciclo de p odução se echa, mas

44
a ideia de espaço que oi aqui sendo explanada implica-se na ami icação dos diálogos
possí eis e não no enclausu amen o de uma comunicação dual en e pe o me e
espec ado .
Há aqui uma simili ude quan o ao en o na do mo imen o em di ecção ao espaço, que
pode se olhado como uma supe ície a cob i de múl iplas p opos as imagé icas e
mo o as.
Aqui, o co po- uína oma como mediado de al e idade, a impe manen e dissolução do
espaço, pa a se iden i ica como agmen o em mobilidade, equisi ado pelas po ências
an asmagó icas das elas b ancas.
45
Conclusão
Deixo-me ica no es údio… à espe a, e e lec indo ace ca des e espaço que é ambém
uma casa pa a es e co po- uína, que oi en ando encon a o seu luga duplo. Po um
lado, uma imagem an asma. Um eco ác il e sub il que se ai imiscuindo pe an e as
imagens cinema og á icas que iam sendo con ocadas pa a o ex o. Po ou o lado, uma
plan a ca ní o a, à espe a das p esas agmen á ias; o empo e o espaço.
En e á ios espaços e empos, es e co po- uína oi ma e ializando-se em esc i a.
Inundado de paisagens cinema og á icas, o nou-se o a luen e, o caudal e o del a de um
mo imen o singula , acabando po se es ilhaço de si p óp io, semp e em ias de
apa ecimen o e desapa ecimen o. Es a é a sua condição líquida de exis ência, pelo ac o
de a ideia de mo imen o ine en e em si, edunda em in ini ude e poei a cósmica.
(Começo a dança .)
Ped a e água, co po e mo imen o, agmen o e dispe são. A iculação co eog á ica e
cinema og á ica, a pa i do de i do co po- uína, que se oi assumindo como plano
cen al de uma al e idade agmen á ia p óp ia das ealidades isí eis e in isí eis.
A isibilidade oi-se cons uindo em lei u a e isionamen o. E em expe iência
imaginada.
(Sigo o pe cu so da esc i a a a és do espaço e ou assinalando os luga es po onde
ou passando com o meu co po ei o ampulhe a sem id o.)
A in isibilidade e a o ex o a p ocu a -se a si p óp io, a pe co e o que es á pa a além
das especulações, en ando aze -se co po- uína a a és do seu co po-memó ia. A
imp essão de códigos (en e o inespe ado e o calculado) em e i ó io sem mu os.
Po que não há linhas de dema cação en e a dança e o cinema e po que o mo imen o é
um desmo onamen o que ocupa odo o espaço e odo o empo.
(Saio do es údio e o no-me an asma.)
46
Ao “ aze -me B esson” usando uma suges ão de o ien ação, coloquei-me em campo.
A a és da esc i a, da imaginação e da memó ia, acei ei o desa io pe igoso
20
e
especula i o de ans o ma algumas ideias sob e cinema em ideias sob e dança.
A hipó ese e a en ado a e o ADN ão semelhan e, que apesa de en a ugi a um
manual compa a is a, eco i a ideias de simul aneidade enquan o p á ica possí el de um
co po- uína, que ui dep eendendo como o al e pa icula . Não exis i á po an o co po-
co po, po que o modo da descobe a e do espan o, não aca e a códigos echados, onde
o epe ó io da sua acção ísica se assume como algo inalizan e. O luga que aqui oi
pensado, é o luga da in enção, despojo a al da p á ica a ís ica.
(Repa o que a câma a de ilma pa ou de g a a e que o egis o icou pe dido no co po
que ainda ago a esc e ia e dança a.)
20
Es a pala a é aqui u ilizada como e e en e da pe igosidade que ad ém da adução de ideias nascidas
num campo e que são azidas pa a ou o. Do cinema pa a a dança.
47
Bibliog a ia:
AMIEL, Vincen (2010), Es é ica da Mon agem. Lisboa, Edições Tex o&G a ia.
APARÍCIO, Ma ia I ene e G ilo, João Má io (o gs.) (2013), Cinema e Filoso ia,
Lisboa, Compêndio, Edições Colib i.
ANDRÉ, João Ma ia e RIBEIRO, João Mendes (2014), O espaço cénico como espaço
po encial: pa a uma dinamologia do espaço, Colégio das A es, Coimb a.
APPIA, Adolphe (2005), A Ob a de A e Vi a, Edição de Eugénia Vasques, Amado a,
Escola Supe io de Tea o e Cinema, 3ºedição.
ASTRUC, Alexand e (1959), “Alexand e As uc: Qu'es -ce que la mise en
scene?”Cahie s du Cinema 100, p.14.
BANES, Sally (1987), Te psicho e in Sneake s. Pos -Mode n Dance. U.S.A. Wesleyan
Uni e si y P ess.
BAZIN, And é, (1991),O Cinema-Ensaios, São Paulo, Edi o a B asiliense.
BAZIN, And é, (1992), O que é o cinema?, Lisboa, Li os Ho izon e.
BARTHES, Roland, (1980), A Câma a Cla a, Lisboa, Edições 70.
BENJAMIN, Wal e (1992), Sob e A e, Técnica, Linguagem e Polí ica. Lisboa.
Relógio d’Água Edi o es.
BERGHAUS, Gün e (2006), Thea e, Pe o mance and he His o ical A an -Ga de,
New Yo k, Palg a e McMillan.
BRANCO, Sé gio Dias (2016), Po den o das imagens. Ob as de Cinema. Ideias do
Cinema, Lisboa, Documen a
BRAUN, Ma a (1992), Pic u ing Time: The Wo k o E ienne Jules Ma ey, 1830-
1904,Chicago: Uni e si y o Chicago P ess.
BRESSON, Robe (2003 [1975]). No as Sob e o Cinema óg a o. Po o, Po o Edi o a.
48
BROOK, Pe e (1994), O pon o de mudança: 40 anos de expe iências ea ais 1946-
1987. Rio de Janei o, Ci ilização B asilei a.
BROOK, Pe e (2011), O Espaço Vazio, Lisboa, O eu Neg o.
CARNEY, Raymond, (1985), Ame ican D eaming: The Films o John Cassa e es and
he Ame ican Expe ience, Uni e si y o Cali o nia P ess, Be keley.
CARNEY, Raymond, (1994), The Films o John Cassa e es, Camb idge Uni e si y
P ess, Camb idge.
COELHO, Síl ia Pin o (2010), O Espinho de Kleis e a Possibilidade de Dança -
Pensa , disse ação de Mes ado em Cul u a Con empo ânea e No as Tecnologias,
Ciências da Comunicação, FCSH, Uni e sidade No a de Lisboa.
COELHO, Síl ia Pin o (2010), Co po, Imagem e Pensamen o Co eog á ico. Da
Pesquisa Co eog á ica Con empo ânea Enquan o Discu so: Os Exemplos de Lisa
Nelson, Ma k Tompkins, Olga Mesa e João Fiadei o, Agos o 2015.
DELEUZE, Gilles (1983), A Imagem Mo imen o, Cinema I, Lisboa, Assí io e Al im.
DELEUZE, Gilles (1985), A Imagem Tempo, Cinema II, Lisboa, Assí io e Al im.
DOANE, Ma y Ann, (2005), Real Time: Ins an anei y and he Pho og aphic Imagina y
in S illness and Time, Pho owo ks / Pho o o um, in S illness and Time: Pho og aphy
and he Mo ing Image, pp. 22-38 (eds) Pe e G een and Joanna Low y
(Pho owo ks/Pho o o um, B igh on: 2005).
EISENSTEIN, Se ge, (1977), Film Fo m Essays in Film Theo y, A Ha es lHB/ Book
Ha cou B ace /Jo ano ich New Yo k and London.
FISCHER-LISTE, E ika, “A Cul u a como Pe o mance”, Es e a igo é a adução da
con e ência p o e ida a 29 de Ab il de 2005 na Faculdade de Le as de Lisboa, no
âmbi o da acção do Cen o de Es udos de Tea o, que, pa a es a inicia i a, e e o apoio
da FACC, da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa e da Fundação Calous e
Gulbenkian, T adução de Ma ia Helena Se ôdio.
FOSTER, Susan Leigh (1986), Reading Dancing: Bodies and Subjec s in Con empo a y
Ame ican Dance. Be keley, Los Angeles, London, Uni e si y o Cali o nia P ess.

49
--- (1996), Co po eali ies: Dancing Knowledge, Cul u e and Powe , New Yo k,
Rou ledge.
GIL, José, (1996), A Imagem-nua e as Pequenas Pe cepções, Lisboa, Relógio de Água.
GIL, José, (2001), Mo imen o To al – O Co po e a Dança, Lisboa, Relógio d´Água.
GOLDBERG, Rose Lee (2012), A A e da Pe o mance – Do Fu u ismo ao P esen e,
Lisboa, O eu Neg o.
JACOBS, S e en (2010), The His o y and Aes he ics o he Classical Film S ill,
Rou ledge.
LOUPPE, Lau ence (2012), Poé ica da Dança Con empo ânea, Lisboa, O eu Neg o.
MANNING, E in (2009), Rela ionscapes: Mo emen , A , Philosophy. (“B ian
Massumi and E in Manning, edi o s”), London, England: MIT P ess.
MATOS, Olgá ia. (1998) Ves ígios: esc i os de iloso ia e c í ica social. São Paulo:
Palas A hena.
MERLEAU-PONTY, Mau ice (2013), O Olho e o Espí i o, Edi o a CosacNai y,
aduzido po Paulo Ne es, Ma ia E man ina Gal ão Gomes Pe ei a.
MAMBER, S ephen, (2006), Ma ey, he analy ic, and he digi al, om Allego ies o
Communica ion: In e medial Conce ns om cinema o he digi al, Edi o s: John
Fulle on and Jan Olsson.
NELSON, Lisa (1995). “The Sensa ion is he Image. I ’s wha dancing is o me”.
W i ings on Dance #14, Summe 1995.
NELSON, Lisa (2003), “Be o e You Eyes, Seeds o a Dance P ac ice”, Con ac
Qua e ly Dance Jou nal, ol.29#1, win e /sp ing, 2003.
PEETERS, Je oen, (2005), “Dialogues on Blidness: Lisa Nelson” in Dance Thea e
Jou nal, ol. 21, nº1, pp 9-12, Reino Unido. ( ambém disponí el aqui:
h p://sa ma.be/docs/2978)
RANCIÉRE, Jacques, (2014), A Fábula Cinema og á ica, Jacques Rancié e, Lisboa
O eu Neg o.
50
RIBEIRO, João Mendes (1998), A e o ma do espaço cénico no séc. XX, Coimb a,
Uni e sidade de Coimb a.
RIBEIRO, An ónio Pin o (1994), Dança Tempo a iamen e Con empo ânea, Lisboa,
Vega.
RIBEIRO, An ónio Pin o (1997), Po Exemplo a Cadei a, Ensaios Sob e as A es do
Co po, Lisboa, An ónio Pin o Ribei o e Edições Co o ia.
TARKOVSKY, And ey, (1987), Sculp ing in Time, Uni e si y o Texas P ess.
VÁRIOS Au o es, (2001), As Ruínas, Cinema eca Po uguesa.
51
Si iog a ia:
Apa ício, Ma ia I ene (2010), Jean Eps ein, in
h p:// ilmphilosophy.squa espace.com/1-jean-eps ein
Na álio, Ca los (2016) Edi o ial, in h p://in e ac .com.p /24/edi o ial24/
Plumme , Sand a (2012) Pho og aphy and Du a ion: Time Exposu e and Time-Image
in, h p://www. hizomes.ne /issue23/plumme /
Lisboa, Rica do (2017) Vale ian and he Ci y o a Thousand Plane s de Luc Besson, in
h p://www.apaladewalsh.com/2017/07/ ale ian-and- he-ci y-o -a- housand-plane s-
2017-de-luc-besson/
Reynaud, Bé enice (2002) Fo Wanda, in h p://senseso cinema.com/2002/ ea u e-
a icles/wanda/
52
Anexo:
EXCERTO DE ENTREVISTA A JACQUES AUMONT (Daniel Fai ax June 2017
Con empo a y Cinema S udies: A Discipline wi h a Fu u e? Issue 83, Senses o cinema)
DF: I ouches on some hing impo an : he e olu ion o he body’s ela ionship wi h he
cinema.
JA: Yes. Be o e, we could “ ouch” ime, bu now we can’ . Celluloid edi ing had an
in ellec ual side o i , o cou se, bu also a manual side. I’ e done some edi ing on ilm,
jus enough o know ha i demanded on he pa o he edi o a lo o memo y and a lo
o men al wo k. We had he snippe s o ilm, hanging abo e he bin, and you had o
pe ec ly emembe he beginning and he end o each sho o know whe e hey could be
used.
Today, wi h digi al edi ing, he e is no longe his an asy o ime being handled o
“ ouched”. I you wan o ecall a sho , i is immedia ely he e. You ha e a much mo e
abula ela ionship wi h edi ing. The sho s a e all he e, i ually, bu also eally. And
all o a sudden, pa adoxically, I would say ha digi al edi ing is almos less men al.
DF: His oi e(s) du cinéma (1988-1998) by Goda d is men ioned qui e equen ly in you
book as an objec o e e ence. One hing ha is qui e new in ilm p ac ice is he use o
images om he cinema’s pas , o which Goda d is a pionee . Now his p ac ice has
become gene alised.
JA: Goda d p o i ed om he echnical p og ess o ideo, which enabled him o show
copies o ilms in a mo e p ac ical manne , bu he use o ound oo age pe se goes
u he back. I goes back, a he e y leas , o expe imen al and a an -ga de ilmmake s
in he la e 1950s, i no ea lie .
DF: The e was B uce Conne .
JA: O cou se, his i s ilm, A Mo ie (1958) is gene ally conside ed as he in en ion o
cinema ic collage. Bu Conne does ansmu a ion: he comple ely changes he meaning
o wha he uses. Whe eas Goda d does ene a ion: his goal is o show he almos