A ACTUALIDADE D’ O QUEBRA-NOZES E O REI RATO, DE E. T. A
HOFFMANN
ANÁLISE EM TORNO DA PERENIDADE DA OBRA ATRAVÉS DA SUA
CONTEMPORANEIDADE
Ma ia Ma alda Lou ei o Pipa de Sousa Al im de Almeida Ribei o
Ou ub o, 2021
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de
Mes e em Ciências da Comunicação - Comunicação e A es, ealizada sob a o ien ação
cien í ica da P o esso a Dou o a Cláudia Madei a
Dedica ó ia pessoal
A.M.D.G.
Ao meu ma ido Vasco e aos nossos ilhos
Vasco Ma ia e Nuno de San a Ma ia.
Aos meus pais - À mãe Maícha e
em memó ia do pai Chico.
Aos manos F ancisco, Ma ga ida, Joana,
José Ma ia, Leono , Sal ado e Joaquim,
aos maninhos que es ão no céu,
aos meus cunhados, e a odos os meus sob inhos.
AGRADECIMENTOS
P imei o e semp e, a Ti.
Às p o esso as Cláudia Madei a e Paula C is ina Cos a, as quais conside o imagem do
acolhimen o, a enção e dedicação p óp ios dos que enca nam e espei am a ocação do
magis é io, ajudando-me a encon a um umo pa a o caminho a é aqui pe co ido.
À Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade No a de Lisboa, po me
e pe mi ido adqui i e e e compe ências desde o ano de 2014, num ambien e coope a i o e
con ian e, e às g andes amizades que aqui cons uí - a Joana, a Ma ilde, a Ma ia e o Ai es, a
Leono , o João, a F ancisca e o Ra ael, o An ónio, a Ma iana, a Romana e a Inês - que an o
êm acompanhado, incen i ado e ajudado nes e pe cu so inal do meu mes ado.
À Ma alda e ao Zé, pela sua p esença, à Bea iz e ao Be na do, pela espe a pacien e, e
ao pad e Hugo, po odo o seu apoio.
Ao Can ico um e a odos os que com ele colabo am e an o me ajudam - Bea iz,
Te esinha, Isabel, So ia, Ma iana, Joaninha, Manel, Miguel, Nuno, F ancisco, Ma im e
Ma eus - pois com eles man enho o con ac o com aquela que oi a p imei a g ande paixão da
minha ida, a música, que an o p ecisei pa a encon a se enidade ao longo des e empo de
es udo.
Aos meus sog os e aos meus cunhados, pelo apoio que me de am e que an o me
ajudou a encon a empo e paz de espí i o pa a me concen a nes e p ojec o, com a
con iança de que o nosso ilho es e e semp e eliz e bem acompanhado.
Aos meus p imei os melho es amigos, os meus se e i mãos: O F ancisco, a
Ma ga ida, a Joana, o José Ma ia, a Leono , o Joaquim, e po im, um ag adecimen o especial
ao nosso i mão Sal ado , a pessoa mais p es á el, en egue e amiga que conheço e que é um
apoio incondicional e cons an e na nossa ida. Ac escen o ainda os meus cunhados, o
Be na do, a Ca la, o F ancisco, o Lopo e a Dulce, e os meus sob inhos Jo ginha, Flo ,
F ancisco, Cons ança, F ancisco, Leono , Ma ga ida, Benedi a, Te esa, Be na do e
Rosa inho.
Tenho a G aça de sabe , conhece e i e es e luga de comunhão, onde udo começa
e acaba: a Família. Um p o undo e sen ido ag adecimen o aos meus pais. Ao pai Chico em
especial po odo o exemplo de espe ança, con iança e en ega nos úl imos meses da sua ida,
e à mãe Maicha pela pessoa que é, po nos aze pensa , e po nos ensina a beleza das
pequenas coisas da ida, de alhe que se o nou ão p esen e du an e es e empo de esc i a e
in es igação a ís ica.
Ao Vasco Ma ia e ao Nuno de San a Ma ia. Ob igada aos nossos ilhos, po se em
semp e esse consolo amo oso onde pode emos epousa hoje e semp e, incu indo em mim o
sen ido de esponsabilidade que an o necessi ei pa a segui em en e com es e mes ado.
Pela bolha de amo que dila a con inuamen e nos co ações dos pais, e que an o alen o deu à
mãe pa a e mina es a e apa da sua ida.
E po úl imo, onde a minha passagem na e a começa e acaba, deixo o meu maio
ag adecimen o, do undo do meu co ação, ao meu ma ido Vasco. Pois, na unidade p óp ia do
ma imónio, i eu es a jo nada semp e comigo, incen i ando-me e azendo-me c e que sou
capaz. Mas só o sou po ê-lo ao meu lado. Jun os, só e semp e jun os, conseguimos. E
consegui emos po oda a nossa ida, com es e nosso caminho a dois que se o na cada ez
mais o e, semp e iel e espe ançosamen e mais ecundo, e o pe cu so que aqui e mino é um
pequeno e lexo disso.
A ACTUALIDADE D’ O QUEBRA-NOZES E O REI RATO, DE E. T. A HOFFMANN
ANÁLISE EM TORNO DA PERENIDADE DA OBRA ATRAVÉS DA SUA
CONTEMPORANEIDADE
Ma ia Ma alda Lou ei o Pipa de Sousa Al im de Almeida Ribei o
Ou ub o, 2021
RESUMO: Quais os mis é ios que man ém O Queb a-Nozes semp e ac ual e p esen e a é aos
dias de hoje? O que o na es a his ó ia ão apela i a de ge ação em ge ação? Es e abalho
p e ende analisa alguns dos enómenos que ajudam a jus i ica es as in e ogações.
O Queb a-Nozes é ge almen e conside ado in empo al, an o o con o de Ho mann
esc i o em 1816, que deixa os lei o es a pensa sob e a dico omia en e o sonho e a ealidade,
como o bailado que daí su giu, sus en ado numa ob a musical oní ica e em oda a beleza
es é ica p esen e nos baila inos e nos cená ios. O que es e abalho p ocu a analisa é a o ma
como es a ob a se conseguiu a i ma ao longo dos úl imos dois séculos, a a és das inúme as
aduções e adap ações a que a his ó ia o iginal oi sujei a.
Po o ma a ealiza es e es udo abo da am-se alguns e mos, como a ansmissão e
emediação. De ac o, a a-se de uma ob a a is icamen e p oduzida em á eas dis in as, á eas
essas que p ocu ei explo a , ocando-me p incipalmen e na li e a u a, na música e no bailado.
Do pon o de is a li e á io, es e abalho e lec e ace ca de um conjun o de concei os,
nomeadamen e a noção de con empo âneo, que nos anspo a pa a á ios aspec os ele an es
da ob a, al como a adição do Na al, a an asia e a dico omia en e o sonho e a ealidade.
O obje i o des e abalho de análise é o de c uza odas es as ideias pa a chega a uma
conclusão que, de alguma o ma, dê uma isão e uma possí el jus i icação pa a que es e
con o seja conside ado con empo âneo e, po isso, i o e ac ual desde a sua o igem a é aos
dias de hoje.
PALAVRAS-CHAVE: Queb a-Nozes, con empo âneo, pe enidade, ac ualidade, clássico,
ansmissão, emediação, li e a u a, música, bailado.
ASTRACT: Wha a e he mys e ies ha keep The Nu c acke imeless and endu ing o ou
days? Wha makes his s o y so appealing om gene a ion o gene a ion? The p esen wo k
aims a analyzing some o he phenomena ha help o jus i y hese in e oga ions.
The Nu c acke is gene ally conside ed imeless, bo h Ho mann’s sho s o y w i en
in 1816, which lea es eade s hinking abou he dicho omy be ween d eam and eali y, and
he balle ha was c ea ed om he s o y, wi h i s d eamlike music se ing and all he
aes he ical beau y p esen in he dance s and scena ios. Wha his wo ks aims o analyze is
p ecisely how i was able o a i m i sel in he las wo cen u ies, h ough mul iple
ansla ions and adap a ions o which he o iginal s o y was subjec ed.
This s udy was ealized by b inging in o discussion e ms such as ansmission and
emedia ion. In ac , i is a wo k ha has been p oduced a is ically in se e al a eas, which
a e explo ed, ocusing mainly on li e a u e, music and balle . F om he li e a y poin o iew,
his wo k e lec s upon a se o concep s, namely he no ion o he con empo a y, which
anspo s us o se e al aspec s o he s o y, such as he Ch is mas adi ion, an asy and he
dicho omy be ween d eam and eali y.
The main objec i e o his analysis is o c oss all hese ideas in o de o each a
conclusion ha gi es a ision and a possible jus i ica ion in o de o conside his sho s o y
o be con empo a y and hus ali e and p esen om i s o igins o ou days.
KEYWORDS: Nu c acke , con empo a y, pe enniali y, ac uali y, classic, ansmission,
emedia ion, li e a u e, music, balle .
ÍNDICE
INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 1
METODOLOGIA.................................................................................................................................. 5
Capí ulo I: A OBRA.............................................................................................................................. 7
I. 1. O au o E.T.A Ho mann.................................................................................................................. 7
I.2. Con ex ualização His ó ica.............................................................................................................. 10
I.2.1. P ocessos de canonização em li e a u a in an il alemã.........................................................10
I.2.2. Recepção do con o de adas de Ho mann na Alemanha..................................................... 12
I.3. Diálogo In e ge acional................................................................................................................... 13
I.3.1. Um con o de adas omân ico pa a c ianças......................................................................... 16
I.3.2. Uma no a imagem da in ância............................................................................................. 18
I.3.3. In luência na li e a u a in an il in e nacional....................................................................... 21
I.4. O con o.............................................................................................................................................22
Capí ulo II: SOBRE O CONTEMPORÂNEO..................................................................................25
II.1. O Queb a-Nozes e o sen ido de um clássico.................................................................................. 33
II.2. Fes i idade e ciclicidade do Na al n’ O Queb a-Nozes e o Rei Ra o............................................. 36
II.3. A an asia e a dico omia en e o sonho e a ealidade..................................................................... 39
Capí ulo III: SOBRE A TRANSMISSÃO......................................................................................... 44
III.1. Concei o de emediação aplicado ao con o................................................................................... 44
III.2. Ve sões Media e No as Edições do con o.................................................................................... 49
III.2.1 Li e a u a............................................................................................................................. 51
III.2.2. Música e Bailado................................................................................................................56
Capí ulo IV: ESTUDO PRÁTICO..................................................................................................... 63
IV.1. Análise de Inqué i o...................................................................................................................... 63
BIBLIOGRAFIA..................................................................................................................................72
ANEXOS............................................................................................................................................... 78
7
Capí ulo I: A OBRA
I. 1. O au o E.T.A Ho mann
Apesa da sua publicação em 1816 como um con o de adas alemão, O Queb a-Nozes
e o Rei Ra o de E.T.A Ho mann ca i ou di e sos públicos po meio de á ios media. Usando
a in ância como um ca alisado pa a a c iação a ís ica, o au o inspi ou a is as a coloca as
suas ob as no con ex o das suas p óp ias idas. Ao longo de ce ca de dois séculos, as
in e p e ações des e en edo consegui am alcança pessoas de odas as idades, e nias e
o mações. Po meio de li os ilus ados e bailados, ans o mou-se es e con o de adas
es angei onum p odu o em cons an e e olução.
O génio escondido po ás des e enómeno em o nome de E ns Theodo Amadeus
Ho mann (embo a o seu nome e dadei a osse E ns Theodo Wilhelm), au o que nasceu a
24 de janei o de 1776 no seio de uma amília dominada po alguma ensão, o que o e ia
le ado a esc e e O Queb a-Nozes e o Rei Ra o como um e lexo de sua coibida in ância.
Ho mann é u o de dois pais, cuja mãe inha uma “ singela beleza”, mas “o pai e a
de uma ealdade ex ema”
8
, e pensa-se que possa e sido uma das azões que le a am a
di o cia -se, endo sido c iado maio i a iamen e pelo seu io, i mão da sua mãe, pois es a
encon a a-se aca e, po isso, impedida de cuida de uma c iança. Tinha o nome de O o
Wilhelm Doe e , e a sol ei o e desemp egado de meia-idade, sendo um mau modelo pa a o
seu sob inho. “Sucediam-se com g ande equência os desen endimen os en e io e sob inho,
e a bondade ma e na e a impo en e pa a os apazigua .”
9
Assim, Ho mann p e e ia passa o
seu empo com um io a ô que lhe se iu de inspi ação pa a a igu a do Pad inho D osselmei
do con o d’O Queb a-Nozes.
Apesa de udo, es e seu io O o inha uma g ande qualidade, pois e a do ado de um
alen o musical que se iu pa a o ensina de o ma pa icula , e enco ajá-lo a ap ende piano e
a e o mação musical, embo a o enha ob igado a ing essa no cu so de Di ei o.
“Acco ding o Hewe -Thaye , ‘musical e enings o med a cons an ea u e o li e in he Doe e
house, a o ding he small boy an in ini e elie om he daily mono ony’ (Hewe -Thaye 8). These ge -
8
«E nes o Teodo o Amadeu Ho mann», in G andes génios da li e a u a uni e sal. Ho mann. Con os,
( adução e is a po São Pin o), Ediclube, Al agide, 1990
9
Ibid, pp.7
8
oge he s p o ided Ho mann wi h mo e han en e ainmen . They ga e him he s imula ion he needed
o su i e wi hin his d ea y home.”
10
Com seis anos de idade Ho mann ing essou na Escola Re o mada Alemã de
Conisbe ga, uma ins i uição p o es an e na cidade de Königsbe g, onde desen ol eu a sua
na u al inclinação pa a as a es. O seu único e g ande amigo e a Theodo Go lieb Hippel, um
apaz sem mãe e cuja i az imaginação se iden i ica a com a de Ho mann e, po isso
mesmo, desde cedo b inca am, imagina am e sonha am jun os, a é segui em caminhos
dis in os, mais a de.
Uma ez que e a conhecido pelas suas o es habilidades de es udo, o nou-se num
bom ad ogado, endo começado a abalha pa a o go e no p ussiano, a pa de umas aulas de
música que ia dando, pois não se sen ia ealizado na á ea do Di ei o. Quando aos in e anos
se mudou pa a Be lim pa a p epa a os exames inais de Di ei o, ape cebeu-se da cidade
cul u almen e ica que o odea a, o que se iu de inspi ação pa a libe a o seu lado mais
c ia i o, e assim seguiu uma ca ei a musical após acaba os exames académicos.
Em 1804 e e de i pa a Va só ia pa a se uncioná io do T ibunal de Apelação, e oi
aí que conheceu duas pessoas mui o impo an es pa a si, Edua do Hi zig e Zaca ias We ne .
Nessa cidade, mesmo com a in asão das opas ancesas e com a uga dos seus amigos,
Ho mann dedicou-se à c iação de uma academia de música, ganhando a ida de o ma mui o
di ícil, pois inha de sus en a a sua mulhe , uma ilha e ainda a ilha de um amigo.
Foi jus amen e nes a al u a da sua ida que p e e iu oca o seu nome Wilhelm po
Amadeus, de o ma a homenagea o g ande composi o Wol gang Amadeus Moza .
Esc e eu enquan o c í ico musical sob o pseudónimo de Johannes K eisle e iajou po á ias
cidades, abalhando o a em di ei o, pa a ga an i o seu sus en o, o a em música, pa a seu
p aze pessoal.
Pa a além de e compos o duas sin onias, dez ópe as, e e undado uma o ques a em
Va só ia, Ho mann icou conhecido ambém como um esc i o que oi busca inspi ação
an o aos pensado es iluminis as, que o mo i a am numa e e na busca pelo conhecimen o,
bem como aos omân icos alemães, que o ajuda am a desen ol e uma pe spec i a idealis a
do p ocesso c ia i o.
10
Goldbe g, Robin Lily, Decembe 2009
9
“As compa a i e li e a u e schola Jack Zipes pu s i , Ho mann belie ed ha “each one o us is o
seek as ea nes ly as possible o cap u e he exac image, which a ises wi hin him, wi h all i s shapes,
colo s, ligh s and shadows, and hen, when he eels himsel igni ed by all o his, o ansmi his
po ayal o he ou side wo ld” (Zipes 100).”
11
No ano de 1814 Ho mann o mou um g upo li e á io em Be lim, ao qual deu o nome
de “Se apion B o he hood”, (I mandade Se apião), endo ecebido o apoio de á ios a is as
com quem cos uma a euni -se, a im de discu i em jun os as ligações en e as di e en es
o mas de c ia i idade. En e ou os, os p incipais memb os e am o F ied ich de la Mo e
Fouqué, Adelbe on Chamisso, Ka l Wilhelm Salice-Con essa, Julius Hi zig e Ludwig
De ien , e o p óp io Ho mann.
Es a i mandade oi uma g ande in luência num pe íodo mui o impo an e da ida de
Ho mann, oi nesse pe íodo que esc e eu o con o O Queb a-Nozes e o Rei Ra o, ob a que
publicou numa coleção de qua o olumes que su giu como u o de uma colabo ação com
Fouque e Con essa, em 1816, in i ulada de The Se apion B e h en. Enquan o esc e ia em
Be lim, Ho mann solidi icou as suas ideias o iginando o seu “Se apion P inciple”, que se
aduz num plano pa a i e de o ma plena o mundo das a es, baseando-se no p incípio de
uma isão ideal que em como objec i o liga o aspec o in e no - uma an asia, humo - com
um aspec o ex e no - na a i a. Ou seja, uma ap eensão simul ânea da cognição in e na e
ex e na, que p e ende ans o ma as nossas imagens de expe iências in e nas em imagens
ex e nas, a a és de uma o mação poé ica. al signi ica in e p e a num ex o, numa ob a
li e á ia, uma an asia ou um es ado de espí i o.
P e e iu ap esen a es a sua eo ia a a és de con os de adas, em ez de expo em
ensaios con encionais. A pa dos con os dos i mãos G imms, Ho mann lançou os seus
con os expe imen ando o Kuns ma chen, ou a e de con os, lendas, ab açando es e es ilo pa a
e oluciona o géne o li e á io do con o de adas, e pa a ajuda os lei o es a olha pa a o
mundo com ou os olhos. Mais à en e i emos explo a de modo mais p o undo o ema da
an asia e dos con os de adas na óp ica de E.T.A Ho mann.
Depois de alguma ida de a en u a, com casos amo osos en ol idos, e “com a espinal
medula quase seca, já comple amen e pa alisado, acossado po edi o es e di ec o es de
e is as, esmagado pelas dí idas, nos p imei os meses de 1822 ainda e e p esença de
espí i o bas an e pa a di a a um sec e á io alguns dos seus esc i os e das suas melodias. O
11
Ibid
10
seu alecimen o oco eu em 25 de Junho de 1822. O une al passou absolu amen e
despe cebido em Be lim, e, no en an o, a Alemanha acaba de pe de um dos seus a is as mais
o iginais e de o ma imo edou a.”
12
I.2. Con ex ualização His ó ica
I.2.1. P ocessos de canonização em li e a u a in an il alemã
O Queb a-Nozes, que inicialmen e oi concebido como uma ob a li e á ia pa a
c ianças, apidamen e oi designado como li e a u a pa a adul os, embo a con a a on ade do
seu au o . Es a a i ude le ou a uma mudança na a aliação da ob a, culminando assim na sua
descanonização, negando an o o seu ca ác e , como a ma é ia de lei u a, adequados pa a
c ianças. Con udo, pos e io men e, di e sas adap ações, desde li os de ilus ações e bailados
a é ilmes e desenhos animados, con ibuí am la gamen e pa a a econside ação des a ob a
como pa e do cânone alemão de li e a u a in an il.
13
Com a e a omân ica na segunda me ade do século XIX, ge ou-se na Alemanha uma
a i ude ambi alen e em elação à li e a u a in an il e ao uso inde ido de li os in an is pa a
ins nacionalis as e polí icos, con ibuindo pa a uma eemen e ejeição de di e sas ob as de
li e a u a in an il po pa e de p o esso es, educado es, c í icos li e á ios e académicos. Es a
a i ude oi in luenciada po uma pe spec i a cen ada no adul o, conside ando-se a in ância
como um es ágio de ima u idade que inha necessa iamen e que se supe a .
14
Nessa época, a li e a u a in an il alemã endia a inclina -se sob e udo pa a a li e a u a
popula , embo a enham exis ido excelen es ob as dedicados pelos au o es às c ianças, como
é o caso d’O Queb a-Nozes e o Rei Ra o, ou mesmo a ob a Tinko de E win S i ma e , que
o am conside ados li os esc i os pa a adul os, ainda que con a a on ade dos au o es.
15
Is o de e-se ao ac o de na Alemanha daquela época e em sido de inidas qua o
no mas essenciais que de e mina am a a aliação de li os pa a c ianças na his ó ia da
li e a u a alemã. A p imei a (e mais e iden e) no ma, p e alecen e desde inais do século
XVIII, e a a sua dimensão educacional. Ou seja, o p opósi o p incipal de cada li o pa a
12
G andes génios da li e a u a uni e sal. Ho mann. Con os, 1990 pp.9
13
G ee s, Syl ie; Bossche, Sa a Van den, Ginkgo - Academia P ess
14
Ibid
15
Ibid
11
c ianças inha de se p omo e alo es de sabedo ia, mo al, eligião e polí ica, o que ez com
que os au o es de li os in an is ossem a ados como esc i o es educado es e, po sua ez, as
suas ob as iden i icadas como no elas educa i as ou ob as didá icas.
16
No deco e do século XIX su gi am ou as duas no mas pa a as his ó ias li e á ias:
inham de se adequadas às c ianças, endo em conside ação as suas limi ações de
conhecimen o e capacidades cogni i as; e inham de se in e p e adas como um enascimen o
da li e a u a olcló ica. Con udo, a maio di e ença en e li e a u a olcló ica e li e a u a
in an il consis ia na a ibuição de uma inocência in an il pu a, “pu e childishness”
17
, aos
li os in an is.
18
Po im, ha ia ainda uma qua a no ma que eme ia pa a a exigência da sua qualidade
es é ica. No ge al, essa qualidade es é ica dos li os pa a c ianças é limi ada pela p óp ia
pe cepção das mesmas, ou seja as ilus ações, po exemplo, a se em incluídas de e iam se
pe ei amen e comp eensí eis.
19
Na u almen e es as qua o no mas nem semp e es a am
p esen es em odas as ob as in an is, à excepção da p imei a no ma que se o nou quase como
uma eg a.
20
Exis iam, assim, cinco azões pa a a ma ginalização da li e a u a in an il e pa a a
ausência de li os in an is no cânone li e á io alemão. A p imei a azão de ia-se à supos a
qualidade in e io da li e a u a in an il, o que en a iza a a sua con ibuição inadequada pa a o
desen ol imen o do gos o li e á io da c iança. A segunda aduzia-se no ac o des a se
julgada como um géne o in e io , equi alen e a uma icção le e ou li e a u a popula . Em
e cei o luga , e i ica a-se a sub alo ização dos au o es de li os in an is, usando
es e eó ipos nega i os. A qua a azão aduzia-se na al a de conhecimen o de alhado sob e
as adições li e á ias no domínio da li e a u a in an il, azão es a o emen e ligada à quin a e
úl ima, que se de ia à ca ego ização de li os in an is de al a qualidade como ob as esc i as
pa a adul os, al como acon eceu com esc i o es como E.T.A Ho mann, Clemens B e ano ou
Ludwig Tieck, au o es de con os de adas e que o am essenciais pa a o desen ol imen o da
an asia mode na in an il.
21
16
Ibid
17
Ibid
18
Ibid
19
Ibid
20
Ibid
21
Ibid
12
I.2.2. Recepção do con o de adas de Ho mann na Alemanha
Ao longo do século XIX na Alemanha não hou e g ande eação, no que diz espei o à
a li e a u a in an il ao con o O Queb a-Nozes e o Rei Ra o de E.T.A Ho mann. Depois da
Segunda Gue a Mundial, iniciou-se no mesmo país um enascimen o da ob a des e au o
a a és, não só da ecepção e ansc ição de an asias angló onas pa a c ianças, mas ambém
pelo ac o de a pa i da década de 1950 e em começado a se publicadas edições ilus adas
des e con o em á ias cidades, ainda que a maio pa es delas em alemão. E assim chegamos
à década de no en a do século XX na Alemanha, que ma ca o pon o de i agem pa a uma
no a ecepção do con o de adas de Ho mann.
Exis iam múl iplas azões pa a a Alemanha do século XIX não acei a o con o d’O
Queb a-Nozes como li e a u a in an il. Em p imei o luga , a imagem ino ado a da in ância
naquela época di e ia adicalmen e das imagens da in ância no início da e a omân ica,
u ilizando ce os a gumen os con a a ob a, como o exigen e es ilo li e á io, uma es u u a
na a i a complexa, as alusões li e á ias e o inal ambi alen e da ob a, a i mando que a
o na am de uma eno me di iculdade pa a a comp eensão das c ianças. Mesmo apesa do
au o conside a o seu con o como lei u a adequada pa a c ianças imagina i as, deu-se um
eemen e epúdio po pa e educado es e c í icos, que se aduziu no ac o des e con o de
adas não se conside ado li e a u a in an il, como i emos e lec i mais à en e.
No undo, a o ma como Ho mann olha a pa a as c ianças e pa a a sua imaginação
dis inguia-se das pe spec i as iluminis as, pois a essência do discu so do au o sob e a
in ância consis ia em le a a sé io a pe cepção e a imaginação das c ianças, enquan o que os
pensado es iluminis as in e p e a am es as capacidades como indicado es de mau
compo amen o, que de e iam se mino adas.
E.T.A Ho mann conseguiu desen ol e uma poé ica li e á ia in an il que en a iza a a
impo ância do es anho e mis e ioso como ca ac e ís icas essenciais da imaginação das
c ianças, sendo que o que le ou à ejeição do con o oi a pe u bado a ep esen ação da ida
in e io de uma c iança.
Da década de 1830 em dian e, os c í icos li e á ios e es udiosos ende am a e uma
elação en e a ida e as ob as de Ho mann. Como es e e a conhecido pelo seu es ilo de ida
excên ico, ma cado po excessos alcoólicos, mui os de seus con empo âneos a i ma am que
13
as ob as de Ho mann e le iam o seu es ilo de ida, mencionando a é que, mui as ezes, ele
p óp io se assus a a com as suas ob as.
22
No en an o exis em c í icos com a opinião in e sa:
“Ho mann d ank bu he was no an alcoholic. He enjoyed wine and champagne and consumed alcohol
in abundance, bu we ha e no p oo ha he w o e unde he in luence. In ac , his s o ies and no els
a e so complica ed ha hey demanded g ea concen a ion on his pa and he ull use o his conscious
powe s as a w i e .”
23
Embo a alguns c í icos li e á ios admi issem que as ideias e o es ilo de Ho man
ossem b ilhan es, alega am que o seu compo amen o e hábi os es anhos não o deixa am
se o ep esen an e do oman ismo li e á io alemão. Mui os a é diziam que os abalhos de
Ho mann ca eciam de e acidade e isão p o unda, que só podiam se ú eis como es udos de
caso pa a médicos psiquia as.
24
E, com is o, chegou-se a uma exclusão do au o do cânone li e á io no século XIX,
que du ou a é ao início do século XX, quando se começou a aze sen i o con ibu o de
Ho mann na li e a u a in e nacional, e O Queb a-Nozes e o Rei Ra o oi edescobe o como
sendo essencial pa a o desen ol imen o da an asia in an il mode na, endo sido mais a de
( e)publicado em mais de 30 edi o as.
I.3. Diálogo In e ge acional
Pa a ala sob e o público a que o con o d’O Queb a-Nozes se di ige, e is o se uma
ob a que pe manece in empo al, achamos ele an e e le i sob e o e mo ge ação, uma ez
que es a ob a c uza ge ações, an o den o do con o - pois a a-se de uma amília onde há
adul os e c ianças, e um diálogo especí ico en e um adul o, o pad inho D osse lmeie , e uma
c iança, Ma ia - como o a do con o, uma ez que é uma ob a que pode se lida po adul os,
ou ida po c ianças, e assis ida e p oduzida po pessoas de qualque uma des as idades nos
palcos de a es pe o ma i as.
Pa a ap o unda es e e mo eco i a O ega y Gasse , que nos ala do ciclo da ida
como sendo o ac o mais elemen a da ida humana, i emos e mo emos, e enquan o
22
Ibid
23
Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, 2007 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke -
and-mouse-king/page/n4/mode/1up
24
G ee s, Syl ie; Bossche, Sa a Van den,Ginkgo - Academia P ess
14
es amos i os a nossa ida es á inse ida, ou en e, a ida de ou os que nos odeiam, mais
elhos ou mais no os.
A ida humana em semp e uma idade, po que a ida depende do empo, empo esse
que não é in ini o, po isso não é imaginá io. Tempo eal que em um im, é limi ado, empo
que acaba, o empo que é i epa á el, i ecupe á el. E, po isso, O ega y Gasse ala-nos
sob e a idade do homem, dizendo:
“Po eso el homb e iene edad. La edad es es a el homb e siemp e en un cie o ozo de su escaso
iempo, es se comienzo del iempo i al, se ascensión hacia su mi ad, se cen o de él, se su é mino
o, como suele deci se, se niño, jo en, madu o o anciano.”
25
Assim sendo, podemos conside a que a ac ualidade his ó ica se compõe po ês
empos di e en es, que abalham e coope am em conjun o. O empo de hoje, de ago a, se e
an o pa a uma c iança, como pa a um jo em, pa a pessoas de qua en a anos, e ou os de
sessen a, po aí o a. Es e exemplo se e-se de idas dis in as pa a mos a que i em no
mesmo p esen e. É uma unidade de idades di e en es num mesmo empo his ó ico. Todos
con empo âneos, ou melho , coe âneos, pois i em no mesmo empo e ambien e - no mesmo
mundo - mas con ibuindo pa a ele de o ma di e en e.
Concluímos po an o que apenas coincidimos com os nossos coe âneos pois, como
e emos mais à en e, se con empo âneo de alguém não em necessa iamen e de que e
dize se seu coe âneo.
“Si odos los con empo áneos uésemos coe áneos, la his o ia se de end ía anquilosada, pe e ac a, en
un ges o de ini i o, sin posibilidad de inno ación adical ninguna.“
26
Nes e sen ido, o conjun o de pessoas coe âneas num cí culo de con i ência o ma
uma ge ação. É necessá io e a mesma idade e e algum con ac o i al pa a se c ia uma
ge ação. E, uma ez que odas as ge ações êm es a dimensão empo al na his ó ia es e é um
e mo in e essan e pa a es e con o po que, como i emos opo unidade de pe cebe acima,
a a p ecisamen e de uma amília, com duas ge ações p esen es, a dos pais e a dos ilhos,
Pa a além da amília S ahlbaum, emos as amílias da p incesa Pi lipa e a dos a os. São
á ias ge ações, cada uma den o da sua ó bi a e do seu mundo ic ício, cada uma com a sua
ealidade.
25
O ega y Gasse , José, Re is a de Occiden e, Alianza Edi o ial
26
Ibid
15
E é po isso que é um con o que, apesa de na sua génese se di igido a c ianças -
segundo in enção do au o - qualque adul o lê e ica p eso na his ó ia, no seu en edo e na
o ma como se desen ola. E aqui é in e essan e pe cebe como es e con o pode se mo i o de
elação en e um adul o e uma c iança, uma his ó ia que nos az pensa e que nos dá on ade
de pe cebe : como é que uma c iança a quem eu (um adul o) leia a his ó ia, i á eagi e en a
des enda odo o mis é io. Iden i ica -se-á com a pe sonagem de Ma ia? E que jus i icação
da á um adul o a uma c iança que não comp eenda?
Es e é um dos mis é ios que o con o az, um jogo de elações en e ge ações
di e en es, um con o que numa c iança az sonha e ou i sem e a p eocupação de des enda
a his ó ia, ou i po encan amen o. Enquan o que num jo em g aúdo pode aze uma
qualque ensão pela al a de comp eensão o al, e al ez em mais elho, e já com alguma
sabedo ia dos anos i idos, a pe cepção de que na ida pode acon ece que, den o de nós,
haja um uni e so imenso que nos anspo a pa a o a da nossa ealidade e es e, mas que no
undo, no nosso ín imo, se unde com ela. Nes e caso, e pa a quem sen e on ade em explo a
es e ex o, comp eende-se que Ma ia não é uma simples c iança doen e ou com p oblemas,
pois a e dade é que den o dela exis e es a ansiedade de uma u opia, que endo anspo isso
pa a a ealidade. É uma lu a de uma c iança que, ao es a a c esce , que sen i -se ou ida, uma
c iança que ê a sua men e coibida e des alo izada po pa e dos que lhe são mais p óximos.
Aqui encon amos a c í ica de Ho mann à educação in an il da época.
Ainda mais in e essan e se o nou es e encon o de ge ações p opo cionado pelo con o
de E.T.A Ho mann a a és das inúme as adap ações com ilus ações que su gi am, em
especial o con o de Alexand e Dumas, que deu depois luga a um bailado. E é aqui que
en am mui as adições de amílias que se deslocam sazonalmen e pa a i assis i a es a ob a,
que ele a an o adul os como c ianças pa a a ealidade da an asia, e que, po momen os, pais
e ilhos, a ós e ne os, ou simplesmen e amigos, expe imen am es e sen imen o de união po
ins an es num uni e so dis an e, deixando-se le a pelo ma a ilhamen o p opo cionado po
es a his ó ia. Sendo es a uma das g andes iquezas da a e em ge al, a união de se es a a és
de algo maio do que nós, ambém aqui nes a ob a em especial, disseminada pa a á ias a es,
encon amos esse esou o.
16
I.3.1. Um con o de adas omân ico pa a c ianças
O o iginal alemão oi publicado pela p imei a ez em 1816 num olume in i ulado
Kinde -Mäh chen (his ó ias in an is), que incluía con os de Ca l Wilhelm Con essa, F ied ich
de la Mo e Fouqué e do p óp io Ho mann. A his ó ia oi pos e io men e publicada no
p imei o olume da coleção do p óp io au o , Die Se apionsb üde (The Se apion B e h en)
(1819-20), onde se deba eu o ac o de se ou não uma ob a adequada pa a c ianças.
27
Como e e ido an e io men e, no século XIX e XX es a ob a oi ejei ada pelos
c í icos li e á ios e his o iado es, sendo conside ada uma lei u a inadequada pa a c ianças,
po que a his ó ia ope a a em mais do que um ní el. Exis em aspec os da his ó ia que não se
espe a que as c ianças en endam, como alusões li e á ias, uques na a i os, embo a,
segundo cons a, a maio ia osse pe ei amen e comp eensí el pa a c ianças como os ilhos do
amigo de Ho mann, Julius Edua d Hi zig, pa a quem a his ó ia oi esc i a.
28
O que é ão ma a ilhoso n’O Queb a-Nozes é o ac o de que a ai c ianças e adul os.
Do pon o de is a do es ilo, emas e écnica na a i a, é ão bem abalhado como qualque
ou o con o da au o ia de Ho mann. A única di e ença eside no aspec o de que a his ó ia se
concen a p incipalmen e em c ianças e não em adul os.
29
Hoje é aclamada como um clássico in an il in e nacional. Nes e con o o au o en a
e ela o mundo in e io de uma c iança o almen e imagina i a. O con o consis e numa
his ó ia base onde se elacionam ês his ó ias. A his ó ia base começa na éspe a de Na al,
passa-se em casa de uma amília bu guesa alemã, no início do século XIX, e a p o agonis a
p incipal é uma jo em de se e anos de idade chamada Ma ia S ahlbaum, que em um i mão
um pouco mais no o, Ped o, e uma i mã, Luísa, que é mais elha. Luísa desempenha apenas
um papel secundá io na his ó ia, mas Ped o mos a-nos o pon o de is a de um apaz em
elação aos e en os que acon ecem. Ele inco po a uma pe sonagem mais e a a e a,
con as ando assim com a ime são de Ma ia na sua imaginação.
O pe sonagem adul o mais impo an e na his ó ia, a igu a-cha e pa a oda a ob a, é
Pa e D osselmeie , o pad inho, cujo ma a ilhoso p esen e de Na al que o e ece aos sob inhos
27
Blami es, Da id, Camb idge, 2009 h ps://lib a y.oapen.o g/bi s eam/id/99 bb264-a7c0-4b93-a6 7-
d6a18b9ea38b/646695.pd
28
Ibid
29
Ibid
23
pequeno Ped o decidiu o ça o ins umen o ao pa i uma noz, acabando po c ia alguns
danos no mecanismo do queb a-nozes, e assim Ma ia achou-se na ob igação de oma con a
dele, depois de seu pai e no ado como icou is e com o sucedido.
Depois da amília se e ecolhido pa a i do mi , Ma ia con inuou a b inca com as
suas bonecas e com o queb a-nozes, e quando o elógio oca as badaladas da meia-noi e,
Ma ia ê que os bonecos ganham ida, su gindo de epen e um en u ecido a o de se e
cabeças co oadas p on o pa a comba e con a o queb a-nozes e os ou os b inquedos.
A e o izada com es a no a si uação, Ma ia pa e o id o de um a má io magoando
assim o seu b aço, mas consegue esga a o queb a-nozes e seus aliados a i ando o seu sapa o
em di eção ao ei a o. Na manhã seguin e Ma ia desen ol e uma eb e aumá ica, de
ele ada empe a u a, e os seus pais ecusam-se a ac edi a nos ela os que es a lhes az da sua
noi e an e io .
Mais a de, o ei a o az uma ameaça a Ma ia, dizendo que i ia des ui o seu
que ido queb a-nozes a menos que abdicasse de odos os seus doces e p esen es de Na al.
Enquan o a amília c ê que Ma ia es á apenas con usa de ido à sua sé ia eb e, o
pad inho D osselmeie é o único que lhe dá algum supo e. Ele é o au o e con ado d’ O
Con o da Noz Du a, que é uma his ó ia den o do con o, uma na a i a den o de ou a, e que,
po sua ez, es á epa ida em ês pa es, con adas em ês noi es consecu i as, e é es a
his ó ia que az a ligação en e o queb a-nozes, o ei a o e as a en u as noc u nas de Ma ia.
A his ó ia in e na consis e em que, po pu a ingança pelos seus ilhos que o am
mo os, a ainha dos a os ans o mou a bela p incesa Pi lipa num mons o ho í el, que só
ica a anquila enquan o lhe dessem nozes pa a inca . O pai da p incesa ec u a o
as ónomo da co e e o elojoei o D osselmeie pa a encon a em uma manei a de aze a
beleza da p incesa Pi lipa de ol a, p ome endo o seu casamen o com o homem que a
sal asse. Ao in es iga sob e a condição da p incesa, descob i am que apenas a noz dou ada,
a K aka uk, i ia consegui libe a Pi lipa da sua apa ência mons uosa. A noz de e ia se
incada po um jo em homem que ainda não i esse usado bo as ou ei o a ba ba. Ao im de
15 anos D osselmeie eg essa com o seu sob inho de Nu embe ga, e quando es e inca a noz
dou ada anda os se e passos pa a ás, mas aciden almen e ma a a ainha a o, que lança sob e
ele um ei iço ans o mando-o num queb a-nozes. Ao e o seu eio aspec o, a já boni a
p incesa Pi lipa ecusa casa com ele, e acaba po expulsa an o o io como o sob inho. Es e
24
ei iço sob e o sob inho só pode ia se des uído com duas condições: o queb a-nozes inha de
ma a o ei a o e conquis a o amo de uma apa iga, apesa da sua de o midade.
Po isso se diz que es e con o den o da ob a é um con o de adas não adicional e que
é um espelho da his ó ia p incipal, que é o ien ada pa a o amo de Ma ia pelo queb a-nozes,
amo esse que queb a o ei iço do queb a-nozes e que des ina oda a ans o mação de Ma ia,
que sac i ica as suas guloseimas, doces e bonecos pa a sal a o seu amigo. É o amo que ela
sen e que lhe dá o ça pa a ealiza es es sac i ícios, de se despoja des es símbolos que
ma cam a sua in ância.
Depois de ou i es a his ó ia con ada pelo seu pad inho, Ma ia con ence-se de que o
pad inho e o elojoei o, e o queb a-nozes e o sob inho ans o mado, são as mesmas igu as.
Po isso, na noi e que se segue Ma ia p ome eu ao seu queb a-nozes que i ia semp e apoiá-lo,
e o queb a-nozes pe gun a-lhe po uma espada com a qual eio a ma a o ei a o, o e ecendo-
lhe as se e co oas do ei a o, e le a-a pa a o seu eino. Na manhã seguin e Ma ia aco da na
sua cama e con a à sua amília a his ó ia das suas a en u as, mas oda a gen e pensa que
o am sonhos no u nos, mesmo após Ma ia mos a as co oas do ei a o, mas o pad inho
insis e que oi ele que lhas o e eceu como um p esen e de anos. Ma ia cai en ão num silêncio
e deixa-se a a como sonâmbula daí em dian e.
Po ém, ao pensa que disse ao queb a-nozes que se casa ia com ele, sen e um golpe e
cai da cadei a. A sua mãe chega e ap esen a o sob inho do pad inho, indo de Nu embe ga, e
que e ela a sua iden idade como ex-queb a-nozes, edimido pelo amo de Ma ia, pedindo-a
em casamen o. Após o casamen o, le á-la-ia pa a o seu eino.
48
O Queb a-Nozes e o Rei Ra o é uma his ó ia ípica e conhecida de Ho mann, pois a
ealidade e a icção es ão sepa adas po uma linha mui o énue, deixando-nos mui as dú idas
sob e a on ei a en e sonho e a ealidade. Po isso, conside a-se que es e é um con o de
adas di e en e, com uma b ilhan e na a i a que ela a a ans o mação de ida de uma
c iança que deixa de o se na sua pleni ude, a a és de uma his ó ia de amo que a az c esce .
48
G ee s, Syl ie; Bossche, Sa a Van den, Academia P ess
25
Capí ulo II: SOBRE O CONTEMPORÂNEO
“De quem e do que somos con empo âneos? E, an es de udo, o que signi ica se con empo âneo?”.
É com es a ase que começa o capí ulo «O que é o con empo âneo?» de Gio gio Agamben, em
O que é o Con empo âneo? E ou os ensaios. É uma pe gun a cha e pa a es a disse ação,
pois o oco é p ecisamen e encon a o con empo âneo no con o d’O Queb a-Nozes. ou seja,
em que medida é con empo âneo, e as p incipais e en es que assim o o nam, pa a pode
analisa a pe enidade do mesmo.
49
Agamben ala-nos do concei o de es uda ex os ac uais, ecen es, ou que “dis am
mui os séculos”
50
, e que em odos eles de emos consegui encon a con empo aneidade,
consegui se seus con empo âneos, pois es e é o p incipal meio pa a medi o sucesso das
ob as.
Podemos ambém olha o con empo âneo como um objec o ou alguém que não
coincide ealmen e com o empo em que lhe oi dado i e , o nando-se a con empo aneidade
uma “ elação com o p óp io empo, que ade e a es e e, ao mesmo empo, dele oma dis ância
(...) a a és de uma dissociação e um anac onismo”, como a i ma Agamben.
“Os his o iado es da li e a u a e da a e sabem que en e o a caico e o mode no há um comp omisso
sec e o, e não an o po que as o mas mais a caicas pa ecem exe ci a sob e o p esen e um ascínio
pa icula quan o po que a cha e do mode no es á escondida no imemo ial e no p é-his ó ico.”
51
Ou seja, se mos con empo âneos signi ica que i emos um p esen e ao qual jamais
pe encemos, enquan o olhamos pa a o nosso empo. É o encon o en e dois empos que ge a
uma elação en e eles.
Necessi amos de um ce o a as amen o pa a consegui mos e a nossa época, o empo
que es amos a i e , é p eciso dis ancia -nos pa a consegui mos olha pa a o nosso p esen e,
sendo que sabemos que é a es e empo que pe encemos e que dele não podemos ugi . É um
encon o en e o ac ual e o inac ual que descob imos nes a elação de empos.
Es a é a p imei a de inição de Agamben sob e o se con empo âneo, es e anac onismo
do ex o e a elação única que o con empo âneo em com o empo. Des e modo, o ex o não
ade e a nenhum momen o em especí ico ao longo do empo. Pa a ele, uma ob a que se
49
Agamben, Gio gio, B asil, 2009, pp.58
50
Ibid
51
Ibid
26
iden i ique em á ios aspec os com o momen o em que é esc i a, não pode ia se
e dadei amen e con empo ânea, uma ez que es á mui o cen ada nesse empo, e assim não
o deixa ia e como um odo, não o e ia sob odos os aspec os.
Pa a o ilóso o há uma issu a no empo, e o con empo âneo pe cebe al issu a, além
de ap eende o seu empo. É o sabe mos i e o nosso p esen e ap eendendo a luz no meio
das suas somb as, pegando nesse nosso empo e in e ligando-o com ou os empos, pa a “nele
le de modo inédi o a his ó ia, de ci á-la segundo uma necessidade que não p o ém de
manei a nenhuma do seu a bí io, mas de uma exigência à qual ele não pode esponde .”
52
.
Se con empo âneo não apenas no sen ido coe âneo, ou seja do nosso p esen e, do nosso
século, mas sabe i e e in e p e a com os olhos de hoje as ob as passadas.
Es e é um aspec o que conside amos ele an e pa a o es udo da ob a d’O Queb a-
Nozes, pois o seu au o não especi ica o empo c onológico que se i e, ou seja o ano em que
se passa. Nes e sen ido, ao não cla i ica a época em que se passa, é po que ce amen e omou
o al de ido dis anciamen o do empo em que i ia, ao qual az uma c í ica se e a,
p ocu ando c ia uma pe sonagem sonhado a que se anspo e de ge ação em ge ação a é aos
dias de hoje.
Há, po an o, uma cla a dis inção en e as duas pala as, con empo âneo e coe âneo,
pois, se os p imei os ossem única e exclusi amen e os segundos, en ão não ha e ia
quaisque possibilidades de eno ação his ó ica, não ha e ia ida na nossa his ó ia. Pois o
ac o de uma pessoa se coe ânea de ou a, ou seja i e em no mesmo empo c onológico,
não az delas con empo âneas. Po que, e à pa e das da as, o se con empo âneo a a-se des a
elação que cons uímos en e empos. O ega y Gasse ala-nos sob e a di e enciação des as
duas pala as, disc iminando-as da seguin e o ma:
“Todos somos con empo áneos, i imos en el mismo iempo y a mós e a -en el mismo mundo--, pe o
con ibuimos a o ma lo de modo di e en e. Sólo se coincide con los coe áneos. Los con empo áneos
no son coe áneos: u ge dis ingui en his o ia en e coe aneidad y con empo aneidad. Alojados en un
mismo iempo ex e no y c onológico, con i en es iempos i ales dis in os. Es o es lo que suelo
llama el anac onismo esencial de la his o ia. Me ced a ese desequilib io in e io se mue e, cambia,
ueda, luye. Si odos los con empo áneos uésemos coe áneos, la his o ia se de end ía anquilosada,
pe e ac a, en un ges o de ini i o, sin posibilidad de inno ación adical ninguna.”
53
52
Ibid
53
O ega y Gasse , José, Re is a de Occiden e, Alianza Edi o ial
27
Como nos diz a au o a Paula C is ina Cos a em O C epúsculo do Con empo âneo,
“Pa a que dois ex os possam se con empo âneos, não êm que e a mesma da a ou pe ence à mesma
ge ação; pelo con á io, po ezes, quan o mais dis an es no empo c onológico, mais se podem
ap oxima po pa ilha em i mos semelhan es, uma mesma o ma de pensa ”.
54
Podemos en ão pe cebe que a con empo aneidade en e um ou mais ex os não em
nada que e com a con empo aneidade dos sujei os poé icos enquan o indi íduos
pe encen es a um empo c onológico, pois podem dis a séculos mas e em um mesmo
pensamen o ou ação ilosó ica, ou pos u a é ica ou es é ica, le ando a um encon o en e as
suas ob as.
55
“En ão, ol amos à ques ão inicial: o que é que az de um poe a, ou qualque esc i o /a is a, um au o
con empo âneo? E o que podemos en ende , hoje, po con empo âneo? (...) Se á con empo âneo aquele
ex o ou au o que se consegue e e niza , ul apassa as ba ei as da da a em que i eu ou publicou, e
que se consegue p ojec a num sem empo, num p esen e o a do empo, do aqui e do ago a”.
56
E aqui emos es a elação in empo al da ob a em es udo, um con o que, embo a não
enha sido logo acei e quando oi lançado, mais a de oi comp eendido e p ese ado a é aos
dias de hoje, pois p ojec a-se e adequa-se a qualque al u a, ul apassando a ba ei a da da a
da sua concepção.
Roland Ba hes em O P aze do Tex o explica-nos um pon o de is a de que o que dá
p aze ao lei o não é o ób io, mas sim o que ica suge ido, o que nos deixa despe os. Pa a
ele, o p aze que o esc i o expe imen a quando esc e e um ex o não ga an e o p aze de seu
lei o , o nando o ex o um espaço de uição, dado con e o elemen o do imp e is o. Po isso
o que a ai são as ince ezas ao in és do que es á ce o, ou seja, aquilo que não pode se
ap eendido é o que az com que o ex o seja desa ian e.
Pa a Ba hes o ex o de e ia con e duas ma gens, sendo uma delas mais sensa a,
p e isí el, na medida em que u iliza a língua que se conhece, u o da con enção social; e,
po ou o lado, uma segunda ma gem mó el onde oco e ia a c iação de ou os sen idos
a a és da mo e da linguagem base. Jus amen e no meio des as duas ma gens encon amos,
segundo o au o , a uição do ex o, e é aí que nos é e elado o alo do mesmo.
54
Cos a, Paula C is ina, Lisboa, 2020
55
Ibid pp.27
56
Ibid pp.83
28
Nes e sen ido, o ex o de e e como objec i o c ia descon o o no lei o , seja a ní el
his ó ico, psicológico e cul u al, queb ando eg as p é-es abelecidas, e e endo a elação
en e a linguagem e o ex o, dada a queb a de con enções.
“Sade: o p aze da lei u a em e iden emen e de ce as up u as (ou de ce as colisões): códigos
an ipá icos (o nob e e o i ial, po exemplo) en am em con a o; neologismos pomposos e de isó ios
são c iados; mensagens po nog á icas êm molda -se em ases ão pu as que pode iam se omadas
po exemplos de g amá ica. Como diz a eo ia do ex o: a linguagem é edis ibuída. O a, essa
edis ibuição se az semp e po co e. Duas ma gens são açadas: uma ma gem sensa a, con o me,
plagiá ia ( a a-se de copia a língua em seu es ado canônico, al como oi ixada pela escola, pelo uso
co e o, pela li e a u a, pela cul u a), e uma ou a ma gem, mó el, azia (ap a a oma não impo a
quais con o nos) que nunca é mais do que o luga de seu e ei o: lá onde se en e ê a mo e da
linguagem. Es as duas ma gens, o comp omisso que elas encenam, são necessá ias. (...)
Daí, al ez, um meio de a alia as ob as da mode nidade: seu alo p o i ia de sua duplicidade.
Cump e en ende po is o que elas êm semp e duas ma gens. A ma gem sub e si a pode pa ece
p i ilegiada po que é a da iolência; mas não é a iolência que imp essiona o p aze ; a des uição não
lhe in e essa; o que ele que é o luga de uma pe da, é a enda, o co e, a de lação, o ading que se
apode a do sujei o no imo da uição. A cul u a e o na, po an o, como ma gem: sob não impo a qual
o ma.”
57
Es e é cla amen e um dos p incipais mo es do au o E.T.A Ho mann com o con o de
adas d’O Queb a-Nozes, o c ia descon o o, o esc e e de o ma a não comp eende mos a
o alidade do que que ansmi i . P o a elmen e o au o pode á e expe ienciado um imenso
p aze ao sabe que i ia c ia no lei o uma ce a inquie ação com a sua ob a, o p aze de não
coaduna com os p incípios di os consensuais da li e a u a in an il, à época.
Ba hes expõe a ideia de que um ex o, pa a e qualidade, não de e se o almen e
cla o, de e e momen os obscu os, sendo que é nessas somb as que es á o po encial do ex o,
uma ez que não az pa e de uma ideologia dominan e, ou seja, não se enquad a num pad ão
con encionalmen e já espe ado. Uma ob a de e possui locais ocul os, en anhas que
pe mi am que jamais seja dominado o almen e.
“Alguns que em um ex o (uma a e, uma pin u a) sem somb a, co ada da “ideologia dominan e”; mas
é que e um ex o sem ecundidade, sem p odu i idade, um ex o es é il ( ejam o mi o da Mulhe sem
Somb a). O ex o em necessidade de sua somb a: essa somb a é um pouco de ideologia, um pouco de
57
Ba hes, Roland. 1987 .
29
ep esen ação, um pouco de sujei o: an asmas, bolsos, as os, nu ens necessá ias; a sub e são de e
p oduzi seu p óp io cla o-escu o.”
58
Mais uma ez, Ba hes pode ia es a a desc e e a ob a de Ho mann, que, den o do
con o de adas p incipal, em um an i con o de adas, pois sendo pa a c ianças ala da on ade
de que e ma a , de ingança, p omessas que não se cump em, a a de pe u bações de uma
c iança. E que sen ido az esc e e assim pa a idades in an is? Po que, como nos diz Ba hes,
é necessá io somb a, escu idão, es a dualidade en e a ealidade cla a e escu a, pois o mundo
in e io de uma c iança pode se mui o mais do que aquilo que apa en a. Desc e o aqui
alguns exemplos des e lado mais somb io p esen e na ob a:
“No en an o, Ma ia não pôde e mina . Mal p onunciou o nome de D osselmeie , o os o do amigo
Queb a-Nozes ganhou um esga demoníaco e os olhos lança am chispas es e deadas. Mas oi só po
um momen o. Assim que ela p incipiou a ica assus ada, ol ou a e o os o so iden e do hones o
Queb a-Nozes. O que a le ou a conclui de que inha sido o énue e ápido cla ão da lâmpada que inha
dis o cido o almen e os seus aços”.
59
“O co ação de Ma ia ba ia com an a o ça de medo e de e o que ela pensou que pode ia sal a -lhe do
pei o e assim i ia mo e . Mas depois sen iu como se o sangue lhe i esse gelado nas eias. Quase
desmaiada, cambaleou pa a ás ou indo cli e-cli e, pu e-pu e, e, com uma co o elada sua, a id aça
do a má io pa iu-se, es ilhaçando-se em mil bocados.”
60
“Os meus ilhos e os meus pa en es o am mo os. Tem cuidado, Al eza Real, em cuidado pa a que a
Rainha Ra a não co e em duas a pequena p incesa, em cuidado:”
61
Vol ando ao au o Gio gio Agamben, na sua ob a sob e o con empo âneo
encon amos ainda ou a de inição, a segunda, em que nos diz ambém que, (e in e ligando
com es a úl ima a i mação de Ba hes), pa a se se con empo âneo, p ecisamos de e a
somb a e o escu o do nosso empo.
“Con empo âneo é aquele que man ém ixo o seu olha no seu empo, pa a nele pe cebe não as luzes,
mas o escu o. Todos os empos são, pa a quem deles expe imen a con empo aneidade, obscu os.
Con empo âneo é, jus amen e, aquele que sabe e essa obscu idade, que é capaz de esc e e
me gulhando a pena nas e as do p esen e.”
62
58
Ibid
59
Ho mann, Lisboa, 2018 pp. 25
60
Ibid, pp.29
61
Ibid, pp. 52
62
Agamben, Gio gio, B asil, 2009
30
O que o au o p e ende explica -nos é que o homem não se sen e pací ico dian e do
escu o. Quando Agamben diz que o poe a con empo âneo pe cebe a obscu idade, ala-nos do
inap eensí el no ex o, e é nes a impossibilidade de ap eensão que se descob e o
con empo âneo. O que se lê como con empo âneo pa a Agamben é aquilo que e o na semp e
a um momen o inespecí ico.
No seu li o O C epúsculo do Con empo âneo a au o a Paula C is ina Cos a esc e e-
nos ambém sob e es a p ocu a da obscu idade, dizendo que o poe a con empo âneo
“(...) não i a as cos as ao seu empo, não lhe é indi e en e, mas ul apassa-o e dimensiona-o num
p esen e que, pa a além do his ó ico e do ín imo, é ambém aquilo que pode íamos designa po um
p esen e ex ual; ul apassa-o di igindo-se a um lado obscu o desse p esen e, ao que não es ando à is a
pode se dado a e , azido à cla idade, ans o mando em eixes de luz, que não são os do p esen e
his ó ico (que o uscam), mas os do p esen e ex ual que pe manece obscu o e p e ende i à luz.
Pode emos ala de um pa adoxo p odu i o que de ine o con empo âneo: ele é aquele que ê na
obscu idade e que oge da cla idade o uscan e do ób io pa a se concen a e aze à luz a obscu idade
p ospec i a.”
63
Nes e sen ido, Zipes explica-nos as in enções de Ho mann, que nos le am a
elaciona es as duas ideias do olha pa a o nosso empo e e nele as somb as, o lado mais
obscu o:
“Like “Nu c acke and Mouse King” i sel , “The Ha d Nu ” is an an i- ai y ale, ha is, i is an
an i adi ional ai y ale o olk ale because i is unse ling, macab e, and p o oca i e. The king and
queen a e ops; hei daugh e is spoiled. The mice, who subs i u e o wi ches, ai ies, and og es, a e
idiculous c ea u es. The ho o and h ea s o he mice a e ludic ous. Ho mann c ea es a pa ody o
cou li e o his imes. Food and he appe i e a e he mos impo an ma e s o he king and queen,
who can also a bi a ily execu e anyone hey desi e i hei subjec s displease hem. The na a o
D osselmeie en e s he s o y as a is ic in en o , whose li e is endange ed because he inad e en ly
causes he p incess o become ugly; and as one o he main p o agonis s o he s o y, he in oduces he
double o his eal nephew, who is also o become he nu c acke . The ai y ale ends unhappily,
because i can only be comple ed happily by Ma ie, bo h in he imagina ion when she sa es
Nu c acke , and la e when she ma ies D osselmeie ’s eal nephew om Nu embe g.”
64
Pa a se ala em con empo âneo, e ainda apoiados sob o pensamen o de Gio gio
Agamben, de emos pensa sob e a elação en e o empo e a his ó ia, que são duas
concepções de ideias dis in as, po ém in e dependen es. Ou seja, o concei o de empo segue
63
C is ina Cos a, Paula, 2020 pp.40/41
64
Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, Lond es, 2007
h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke -and-mouse-king/page/n4/mode/1up
31
uma concepção de his ó ia, que, po sua ez, se encon a inse ida numa expe iência com o
empo que a condiciona. Po an o, pa a que se mude a pe cepção de um concei o, po
exemplo, é p eciso au oma icamen e epensa o ou o.
Sob e o concei o de empo, e a a és do exemplo de uma pin u a enascen is a, o au o
Geo ges Didi-Hube man na sua ob a Dian e do Tempo diz-nos:
“Dian e de uma imagem – não impo a quão an iga –, o p esen e não cessa jamais de se econ igu a ,
mesmo que o desapossamen o do olha enha comple amen e cedido luga ao hábi o en adado do
“especialis a”. Dian e de uma imagem – não impo a quão ecen e, quão con empo ânea ela seja –, o
passado ambém não cessa jamais de se econ igu a , pois es a imagem não se o na pensá el senão em
uma cons ução da memó ia, chegando ao pon o de uma obsessão. Dian e de uma imagem, emos,
en im, de econhece humildemen e: p o a elmen e, ela sob e i e á a nós, dian e dela, nós somos o
elemen o ágil, o elemen o passagei o, e, dian e de nós, ela é o elemen o do u u o, o elemen o da
du ação. F equen emen e, a imagem em mais memó ia e mais po i do que o en e que a olha.”
65
Quando admi amos uma ob a de a e num ce o momen o do p esen e, não nos é
possí el olhá-la sob a mesma pe spec i a com que oi p oduzida pelo seu c iado . Ou seja,
uma ob a con empo ânea é capaz de e o seu signi icado e o mado a qualque ins an e,
sob e i endo a es e mo imen o. E es e é um pouco o papel das aduções e adap ações na
ob a em es udo, que, embo a di e en e do con o inicial, eme em semp e pa a a sua o igem.
Ainda que hoje não consigamos e a pe spec i a exac a com que Ho mann esc e eu,
podemos obse a que pa a os á ios empos ganhou di e sos signi icados.
No en an o, de emos eco da que uma peça de a e es á ambém eple a de memó ia,
o que não que dize que de amos assumi uma ob a de a e como sendo um documen o
his ó ico. É necessá io e o anac onismo como um elemen o essencial numa ob a
con empo ânea a pa i do momen o em que se en ende que o empo, pa a a cul u a, em de
se ela i izado e que há uma cons an e econs ução do p esen e den o do mundo a ís ico.
Uma ob a não pa e do nada. Um a is a, po no ma, se e-se semp e da expe iência de udo o
que já oi c iado a é ao momen o da concepção da sua ob a. Nes e sen ido, um ex o
anac ónico é um ex o que ca ega em si, po um lado, o passado implíci o, e po ou o, um
po encial de ede inição cons an e.
Pa a comp eende o que é o con empo âneo, é p eciso ans o ma a elação en e as
concepções de cul u a, empo e his ó ia e dissocia a ideia de a e como documen o, como um
65
Didi-Hue man, Geo ges, 2000. pp.2
32
diploma. A pa i da lei u a ei a a é aqui, cons a amos que um ex o con empo âneo é
ine i a elmen e anac ónico, des inculando-se da ideia adicional de uma ob a de a e como
e e ência ep esen a i a de um de e minado empo e espaço.
Ou seja, o ex o que se p opõe con empo âneo, não possui uma di eção ce a ou
e ada, não se e es e de uma ó mula, pois p ojec a-se num empo não especí ico. Não há
p e isibilidade. É só e apenas uma en a i a de p oduzi li e a u a.
Encon amos na li e a u a, po an o, duas dimensões: a do empo no qual o poema oi
de ac o esc i o, e a dimensão anac ónica, que ajuda a cons ui o mações de sen ido
independen es dos empos c onológicos, o que não que dize que o lei o consiga ap eende
o ex o como um odo, pelo con á io, é p ecisamen e na impossibilidade de o al ap eensão
do ex o que encon amos o seu po encial, o nando-o con empo âneo.
Po is o mesmo, o chamado au o con empo âneo compõe a sua ob a endo em men e
o al po encial do seu ex o, não se baseando apenas no que ep esen a á no momen o em que
é e minado o seu p ocesso de c iação, mas ele ando sob e udo odas as pe spec i as de
lei u a e comp eensão que possam i a su gi no u u o. Des e modo, é co e o a i ma que o
ex o não e mina quando é concluída a sua esc i a.
Assim, podemos econhece que o ex o de Ho mann, dada a sua na u eza
imagina i a, oi um con o de adas que se ede iniu ezes sem con a a é aos dias de hoje,
ganhando á ios signi icados, a a és das á ias adap ações que inham como objec i o um
melho e mais ácil en endimen o, e i ando mui a da p o undidade que o au o o iginal lhe
con e iu. O elemen o que pe manece em comum é o sonho, o desejo, a busca po um mundo
u ópico, que lhe con e e o ma a ilhamen o que conhecemos.
Po ou as pala as, o poe a em objec i amen e que ga an i a não ap eensão o al do
ex o. Sob e o e mo con empo âneo, se o ele a mos a um concei o mui o mais amplo do que
apenas o seu sen ido de coexis ência no mesmo empo, comp eendemos que é mui o mais
ico. É a poesia que não se p ende a p econcei os, ó mulas ou o mas, que a isca e que não
se incula a um empo c onológico.
Es e é o caso de E.T.A Ho mann, ao esc e e es e con o, pois não se deixou p ende
pelos p econcei os e pelas concepções da li e a u a in an il e da educação das c ianças no
século XIX, c iando uma ob a que az uma es u u a ino ado a, con ando uma his ó ia
den o de ou a, mos ando um lado di e en e da psicologia de uma apa iga de se e anos, e
39
II.3. A an asia e a dico omia en e o sonho e a ealidade
“This was he majo con lic in many o Ho mann’s s o ies, li e in he pa adise o a e sus li e in he
humd um wo ld o he philis ines.”
85
86
Pa a ala mos sob e como é que os e mos “sonho” e “ an asia” es ão p esen es nes e
con o, achamos impo an e aze uma b e íssima e e ência ao géne o li e á io do con o de
adas, à sua o igem e ao seu desen ol imen o, pois só assim i emos pe cebe como é que o
ma a ilhamen o que encon amos nes a ob a con ibuiu pa a a disseminação e pe enidade da
mesma a é aos dias de hoje. O con o de adas inicialmen e icou mui o ma cado pelo con o
olcló ico o iginal e pela ideologia eudal. Um ac o bas an e in e essan e sob e o
desen ol imen o his ó ico do con o popula é a manei a como oi ap op iado pelos esc i o es
a is oc á icos e bu gueses nos séculos XVI, XVII e XVIII, com a expansão da publicação,
le ando a um no o géne o li e á io que se pode ia jus amen e chama de con o de adas, o
Kuns ma chen.
Foi só na década de 1790 com Goe he, com o seu Das Ma chen, com os con os de
Wacken ode , Tieck e No alis e mais a de com os de B en ano, Eichendo , Fouqué,
Chamisso, Ho mann e ou os, que o e dadei o po encial " e olucioná io" do con o de adas
pôde se demons ado. Uma das suas ca ac e ís icas é a ên ase no con li o en e classes,
en ol endo segmen os p og essis as da bu guesia con a elemen os mais conse ado es. O
no o he ói passa do p íncipe ou camponês pa a um bu guês, um a is a, um indi íduo
c ia i o, que i e inúme as a en u as e encon os com o sob ena u al, em busca de um "no o
mundo" onde pode á desen ol e e des u a dos seus alen os. Não é uma p ocu a po
iqueza ou es a u o social (embo a a lu a de classes es eja en ol ida), mas sim uma lu a po
uma mudança nas elações sociais.
87
Os con os de adas semp e se ca ac e iza am pelas suas imagens an ás icas sob e a
possibilidade de c ia al e na i as u ópicas, e essa é p ecisamen e a azão pela qual as classes
85
Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, 2007 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke -
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86
“ “Philis ines.” This was a common e m ha Ho mann and many o he s a ha ime used o desc ibe hose
people who app oached li e wi h a u ili a ian and a ionalis ic men ali y, who ollowed li e acco ding o
a bi a y p ecep s, and who had a na ow i no unin o med app ecia ion o he a s. In sho , hey we e
supe icial and p e en ious people who lacked any ue app ecia ion o he imagina ion and he a s. Ho mann
de es ed he u ili a ian na u e o he philis ines and mocked hem in his ales whene e he could.” Ibid
87
Zipes, Jack, 2013
40
sociais dominan es se sen i am incomodadas po eles, en ando desca á-los dizendo-os
di e idos mas não pa a se em le ados a sé io.
88
Começando com o pe íodo do Iluminismo, o olclo e e os con os de adas e am
conside ados inú eis. No en an o, a pe sis ência e a popula idade dos con os, an o o ais como
imp essos, de am a en ende que o seu pode imagina i o pode ia se mais ú il do que se
pensa a. E is o é p ecisamen e o que acon ece no con o d’O Queb a-Nozes, no qual i ei ago a
analisa os elemen os an ás icos p esen es na ob a, que lhe con e em es e a ibu o da p ocu a
po um mundo no o, que podemos elaciona com o di o sonho da p o agonis a Ma ia, que
lu a pa a que os seus pais e a sua amília a comp eendam e ejam a ealidade da sua ida
in e io , a al lu a den o das classes, e a p ocu a pela u opia de um luga melho . E podemos
elaciona es a ansiedade p esen e no ex o com a p óp ia ida do au o que, como nos diz
Zipes, i eu duas idas co po ais, a im de numa delas pode explo a es e lado u ópico:
“His concep s o insani y, genius, music, hypno ism, d eam, and eali y o med a mode n aes he ic
heo y, and he explo ed his unique ideas in o he wo lds ha , he insis ed, could be ound in e e yone’s
imagina ion. The disco e y o hese wo lds, so he hough , could open up new is as ha would enable
people o gain a deepe pleasu e o eali y. Ho mann was a man ahead o his ime, an amo al man, an
aes he e, bu no a man wi hou a sense o jus ice. As a ma e o ac , his ideas o socie y and jus ice
we e so ine and idealis ic ha his expe ience wi h eal socie y and jus ice as an expe in legal a ai s
and as judge and counselo “sickened” him and engende ed he duali y in his li e ha he eco ded in
his w i ings—Ho mann longed o li e his li e p ima ily o a , and he could ba ely ole a e he banal
condi ions, mo als, and e hics o he social and poli ical o de ha he i ually se ed as a ci il
se an . He led a double li e and c ea ed he Doppelgange , o double, so ha he migh esol e he
spli he co po eally expe ienced. Ho mann d eamed o an ea hly pa adise, a u opia, a millennium, in
which man as Homo ludens migh c ea e ( ee om ep ession) he kind o happiness we associa e wi h
beau y and he sublime. The man who isks his li e o he sublime in an age o banali y— his is how
Ho mann ied o ealize his own li e and a ”
89
No capí ulo “A Doença” Ma ia encon a a-se caída na sua cama doen e, após a
g ande noi e de sus o, e po isso a mãe sen a-se ao seu lado pa a lhe le ou con a algumas
his ó ias, e a única que o au o menciona é a do P íncipe Faka dine. Es e con o oi esc i o po
An oine Hamil on (1646-1720), esc i o ancês de ascendência escocesa, cujo í ulo o iginal
88
Zipes, Jack, 2002
89
Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, 2007 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke -
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41
é Les Qua e Faca dins
90
. Foi publicado pos umamen e em 1730, e es á incluído em duas
edições alemãs dos con os de adas de Hamil on que Ho mann p o a elmen e e ia
conhecido du an e a sua in ância ou ju en ude - D ei hüpsche ku zweilige Mäh lein (T ês
lindas his ó ias di e idas).
Es a e e ência a Hamil on e á algum signi icado, pois podemos encon a alguns
aspec os do seu con o de adas que inspi a am de ce a o ma Ho mann pa a o con o d’O
Queb a-Nozes. Tal ez a p imei a coisa a no a seja o ac o de que ambos os au o es azem
odo um jogo com pe sonagens com o mesmo nome. Hamil on com os seus qua o Faca dins,
Ho mann com o io e sob inho D osselmeie e o queb a-nozes que é mis e iosamen e
alinhado com cada um deles, mas de manei as di e en es. Depois emos as pe sonagens dos
dois i mãos Ped o e Ma ia S ahlbaum da his ó ia em si, e ambém o Ped o e Ma ia a que o
na ado apela cons an emen e no deco e da his ó ia.
Des a o ma, o con o de Hamil on pode se is o como um modelo li e á io pa a a
explo ação de Ho mann no que oca ao ema da iden idade. A es u u a d’O Queb a-Nozes
suge e uma sensação de múl iplas iden idades. As c ianças ao b inca em com as bonecas e
soldados adop am iden idades ele an es pa a a sua b incadei a. E Ma ia adiciona ainda uma
ou a dimensão a a és do mundo no u no do sonho, o que cons i ui uma ealidade maio pa a
ela do que os acon ecimen os den o da amília. Mas esses mundos não são sepa ados um do
ou o, pois o seu pessoal, as suas p eocupações e emoções sob epõem-se e c uzam-se en e
eles.
Como mui os dos ou os con os de Ho mann, O Queb a-Nozes mo e-se ápida e
inespe adamen e en e a ealidade e o mundo da an asia, e o que conec a ambos é o mundo
dos b inquedos e da imaginação das c ianças.
O con on o en e a ealidade e a expe iência do ma a ilhamen o o na-se ambígua,
pois podemos in e p e a como sendo um sonho, uma ilusão, ou mesmo como ealidade, ou
como uma c ise de consciência. Pa a além disso, a ambiguidade é en a izada pelas múl iplas
ans o mações dos b inquedos em se es i os, de se es humanos em b inquedos ou mesmo
máquinas, e nas pe sonalidades mu an es dos p o agonis as. Aplicando ao caso do con o em
causa, D osselmeie é o pad inho de Ma ia na his ó ia base, e um as ónomo na his ó ia
in e na, e ainda é ans o mado como que num b inquedo em cima do elógio du an e a
90
Hamil on, An hony, Les Qua e Faca dins, A Lond es, 1776
h ps://a chi e.o g/de ails/u esducom ean o03hami/page/n7/mode/2up
42
ba alha noc u na do queb a-nozes e o ei a o. A expe iência da ealidade e a expe iência do
deslumb amen o acon ecem no mundo in e io da pe sonagem eminina, e lec indo o
con li o men al e psicológico em que es a i e, e o pad inho é o único que mos a alguma
comp eensão pela sua si uação.
Podemos, po an o, e es e con o de adas de duas o mas: os adul os podem
conside á-lo um an o somb io, dado o seu ca iz psicológico incidi numa c iança de se e
anos, mas pa a as c ianças é semp e um con o de adas op imis a, uma ez que a da Ma ia
e mina o con o sen indo-se eliz, que é o que ai ica na memó ia das c ianças, ainda que
não comp eendam na sua pleni ude a p o undidade que ca ac e iza es a pe sonagem.
N '' O Con o da Noz Du a encon amos á ios elemen os que se ligam com o sonho
de Ma ia, o mais ób io sendo a igu a ameaçado a da Dama Ra a ink, que se in i ula a de
ainha da Ra alândia. Des a o ma es e con o encon a a sua conclusão no mundo dos sonhos
de Ma ia, após ecupe a da sua lesão, ge ando-se en ão uma ligação en e a his ó ia in e na e
a ex e na – que apa ecem en elaçadas.
O pad inho D osselmeie consegue se g o esco e gen il, agindo de manei as que, às
ezes, pa ecem c uéis e insensí eis, mas ou as ezes ambém é se ú il e di e ido. Da
mesma o ma, o queb a-nozes é an o í ima quan o sal ado , idicula izado como
comple amen e eio po D osselmeie , mas que deixou uma jo em apa iga apaixonada à
p imei a is a.
Depois de D osselmeie e mina de con a o con o, Ma ia in e io izou-o como pa e
da sua an asia e sonho da lu a en e o Queb a-nozes e o Rei dos Ra os, e o pad inho diz-lhe
que, al como Pi lipa , ela é uma p incesa, que só ela pode esga a o queb a-nozes, e que lhe
de e se cons an e e leal.
O es an e da his ó ia de Ho mann concen a-se en ão nos es o ços de Ma ia pa a
sal a o queb a-nozes, de quem es á plenamen e con encida que é o sob inho do pad inho
D osselmeie , e acaba assim po anspo o con o da noz du a pa a os seus sonhos e
ansiedades noc u nas. Os capí ulos «O Reino dos B inquedos» e «A Capi al» são desc i os de
o ma ex emamen e ea al. Quando chegam ao Lago das Rosas, Ma ia ica encan ada com
os cisnes b anco-p a eados, dizendo que e a es e o lago que ela espe a a que D osselmeie
lhe izesse, mas o queb a-nozes diz-lhe mui o desdenhosamen e que jamais o seu io a ia al
coisa.
43
“Nes as águas g aciosas, que se ala ga am cada ez mais, o mando um as o lago, ma a ilhosos
cisnes p a eados com cola es dou ados ao pescoço nada am e i aliza am uns com os ou os a can a
as mais belas canções. Pequenos peixes, quais diaman es, eme giam e subme giam, como se dançassem
aleg es danças num ma de osas.
Ah - g i a a Ma ia en usiasmada - Ah! Es e e a o lago que o pad inho D osselmeie que ia aze
ealmen e pa a mim e eu sou a apa iga que gos a de aca icia os pequenos cisnes.»
O Queb a-Nozes so iu mais desdenhosamen e do que Ma ia alguma ez se inha ape cebido. Ele disse
en ão: «Há um ei o de que o io nunca se á capaz mas que u consegui ás aze , que ida menina
S ahlbaum. Mas não amos ago a analisa isso mui o p o undamen e. Em ez disso, amos a a essa o
Lago das Rosas e amos di igi -nos pa a a capi al.”
91
Aqui emos que a posição de Ma ia ap esen a dois sen idos: é uma his ó ia sob e ela
enquan o menina, mas ambém é a his ó ia que ela c ia na sua imaginação.
Embo a os ela os de Ma ia à sua amília sob e o que ela expe imen ou sejam
idicula izados, as imagens do país das adas ainda gi am na sua cabeça, e azem dela uma
c iança ex emamen e sonhado a, e a e a dos doces que é mui o impo an e po se pa a
onde se di ige após as a en u as pa a descansa e celeb a . No undo es es locais an ás icos
da his ó ia ep esen am a segu ança e a es abilidade pa a Ma ia, o pa aíso, o local onde se
sen e eliz e con o á el. E com es es ela os, comp eendemos que os con os de adas que em
ma ca o colapso de uma es u u a do mundo do caos, da con usão, demons ando o es o ço
pa a alcança um no o mundo que possa pe mi i uma maio humanização. O con o de adas
é mul idimensional, hipo é ico, ic ício, e mui as ezes é di ícil dis ingui en e o i eal e o
eal no con o.
“Ge man w i e s and in ellec uals became p one o a me aphysical d i e o in e io ize, and he ai y
ale was a sui able me apho ical mode o exp ess hei un ul illed wishes o g ea e social and
cul u al eedom. Though some w i e s ook an eli is posi ion and po ayed he a is as sa io o
socie y, hey all ecognized ha a new wo ld had o be o med ou o chaos, and his wo ld can be
likened o a wo ld o e os, ideologically and aes he ically p ojec ed as a wo ld whe e he c ea i e
na u e o all human beings is allowed ull de elopmen and whe e di e ences be ween people a e
cul i a ed and espec ed. No ma e wha has become o he ai y ale, i s main impulse was a i s
e olu iona y and p og essi e, no escapis , as has oo o en been sugges ed. The ealm o he ai y ale
con ains a symbolical e lec ion o eal socio-poli ical issues and con lic s.”
92
91
Ho mann, E. T. A, 2018, pp.89/90
92
Zipes, Jack, 15 Dec 2013, pp.131
44
Capí ulo III: SOBRE A TRANSMISSÃO
III.1. Concei o de emediação aplicado ao con o
No seu li o Remedia ion – Unde s anding new media (1999), Jay Da id Bol e &
Richa d G usin olham pa a a e olução dos media como espos a ao desejo de alcança uma
imagem da ealidade, no sen ido de p opo ciona ao u ilizado uma expe iência psicológica
dos media cada ez mais ealis a, ápida, imedia a.
Tendo os no os media digi ais como pa adigma, os au o es u ilizam o concei o de
emediação pa a explica o desen ol imen o dos media, no sen ido em que a sua e olução
consis e numa lógica em que cada no o media su ge da emodelação de um media an e io ,
de o ma op imizada e ac ualizada de modo a pa ece mais eal. Po exemplo, a o og a ia é
uma emediação da pin u a, assim como o cinema uma emediação da o og a ia,
ac escen ando-lhe mo imen o e sono idade, a im de p opo ciona uma expe iência mais
conc e a e palpá el ao público assis en e.
A emediação, segundo os au o es, pode unciona da manei a in e sa ambém, no
sen ido em que um media p imá io, como é o caso da li e a u a, que é uma base pa a o nosso
conhecimen o e que exis e desde há séculos, pode ambém e olui e ap op ia -se de ce as
compe ências de medias mais ecen es, como o cinema.
Des a o ma su ge a necessidade de e lec i mos sob e a ápida sucessão de no os
medias p opo cionada pela ecnologia, cada ez mais a ançada, como conseguimos e nos
dias de hoje. Vi emos numa e a em que a cada minu o c iamos um no o con eúdo medial,
que apidamen e conseguimos p opaga po qualque meio, po isso é impo an e es e
con on o en e medias.
Pe cebemos po an o que po ás de cada media es á semp e o con eúdo de ou o
media, pode a é se de mais do que um, e podem su gi numa cadeia. E nes a cadeia mui as
ezes que em que, na c iação dos media, não se pe ceba qualque a o de mediação. Os
au o es demons am duas es a égias pa a a emediação, que são a imediação e a
hipe mediação. A p imei a em como im apaga as ma cas de ep esen ação, e a segunda
a a de exibi os códigos implicados nes e ac o de mul iplicação dos media.
45
A Imediação é a lógica a ibuída ao ipo de emediação que p e ende p opo ciona ao
homem uma expe iência o mais imedia a possí el sob e os objec os ep esen ados. Ou seja, o
sujei o que uma conexão imedia a e di e a com o media, su gindo po isso o ca á e de
anspa ência da imediação. Es a anspa ência em a a és dos p og amado es e designe s
que aspi am o na odo o seu abalho anspa en e, po isso, inexis en e aos olhos do
usuá io, de modo a se mui o in ui i o. No undo o sujei o que u iliza o media só em acesso
ao seu con eúdo, não es á minimamen e conscien e da sua o ma. Po sua ez, o Hipe
Imedia ismo em como obje i o possibili a a in e ação do u ilizado com a in e ace.
Os au o es denominam emedia ion como sendo a ep esen ação de um media nou o,
e e e em-se à ideia de que odas os no os medias são dependen es de um ou mais medias
an e io es, emodelados e econs uídos, pa a se o na em em algo no o.
Nes e sen ido, não há nenhum que se c ie ou ac ue pa a além dos limi es da cul u a. O
que se em de o iginal nos no os medias digi ais são os especí icos modos como eles
es au am os an igos e a o ma como es es, po sua ez, se ecompõem e dão espos a aos
desa ios p opos os pelos no os medias.
Di e en e da emediação, que p ocu a um imedia ismo pe cep i o e/ou a e i o, a p é
mediação p oduz uma a e i idade de an ecipação emediando e en os num u u o p óximo,
que podem ou não acon ece . G usin ala sob e a p eocupação de que as no os mídias são
pe igosas, no sen ido em que podem encaminha os indi íduos a ugi das icissi udes da
ealidade pa a uma ida de sonho e an asia
“Quando os p imei os omances imp essos começa am a ica disponí eis e acessí eis no século XIX,
mui os adul os se p eocupa am com os jo ens que ica iam po demais en ol idos com o mundo da
icção, ime sos nas páginas de seus li os a o i os, desligados das p a icidades da ida co idiana.
Filmes ouxe am os mesmos eceios, da mesma o ma que a ele isão e ago a a in e ne e as mídias
sociais de um modo ge al. Esse medo eco en e é uma eação que oda no a econ igu ação midiá ica
ou emediação ge a em nossa elação com a ealidade; pa a aqueles não amilia izados com es as no as
mídias o engajamen o a e i o po pa e (especialmen e) dos jo ens com os no os o ma os e
disposi i os écnicos apa en a se uma uga da ealidade pa a o mundo da an asia e do sonho. No
en an o, a gumen o que isso signi ica um ou o ipo de engajamen o com o mundo, aquele (ci ando
McLuhan) que al e a a azão e não apenas nossos sen idos, que al e a nossas in e ações ine en es com
ou os humanos e ambém com não humanos, com a na u eza e com os ambien es cons uídos. De a o,
po con a da c escen e mobilidade de nossos disposi i os de mídia e da complexa ede deco en e no
espaço geo ísico e dos obje os, nossos disposi i os de no as mídias (e a p emediação que eles ge am)
46
são menos elacionados a sonhos e an asias do que elhas mídias como omances, ilmes ou a
ele isão.”
93
Po exemplo, o pe íodo de adap ação de um ex o esc i o pa a um um meio o al, é um
p ocesso de emediação ca ac e ís ico dos media. E é p ecisamen e aqui que podemos
encon a algumas semelhanças des e abalho em o no da emediação dos media com a ob a
d’O Queb a-Nozes de E.T.A Ho mann, que começou p ecisamen e po se um con o, uma
ob a li e á ia, e que oi adap ado nou a e são, e depois oou pa a uma ob a musical pa a
se i um bailado, e anos mais a de a é ilmes pa a c ianças se ize am.
Pa a melho comp eende como é que o pode da ansmissão e da emediação
i e am, e êm, in luência na pe enidade da ob a d’O Queb a-Nozes desde a sua o igem a é
aos dias de hoje, com odas as mu ações que so eu, eco i a Jack Zipes, que no seu li o
B eaking The Magic Spells nos ala sob e a pe manência dos con os de adas, e nas di e sas
o mas como são u ilizados e banalizados, jus i ica i a es a que consigo e e na ob a de
Ho mann.
Diz-nos Zipes que em qualque lado que passemos encon amos con os de adas ou
mo i os dos mesmos po odo o lado:
“E e ywhe e one u ns oday ai y ales and ai y- ales mo i s pop up like magic. Bookshops a e
looded wi h ai y ales by Tolkien, Hesse, The G imm B o he s, Ande sen, C.S. Lewis, and sco es o
sump uously illus a ed an asy wo ks. Schools and Thea e s pe o m a wide ange o spec acula
ai y- ale plays o he bene i o child en. Ope as and musical wo ks a e based on ai y- ale hemes.
Famous ac o s make ai y- ale eco dings o he adio and o he mass-media ou le s. Aside om he
Disney in age p oduc ions, nume ous ilms inco po a e ai y- ale mo i s and plo s. E en po no ilms
make lasci ious use o he Snow Whi e and he Se en Dwa s and Sleeping Beau y.”
94
Explica-nos ainda que podemos ambém encon a os con os de adas em
p opagandas, deco ações de janelas, anúncios de ele isão, música de es au an e, insígnias
de clubes, en e mui as ou as coisas. Na e dade, as an ás icas p ojeções dos mundos dos
con os de adas pa ecem e -se o nado "in" a a és do consumo da ealidade da nossa ida
quo idiana.
E é possí el elaciona es e pensamen o com o meu objec o de es udo, o con o d’O
Queb a-Nozes de E.T.A Ho mann, pois oi semp e mo i o de adap ações pa a as á ias
93
Co êa, Elizabe h Saad, B asil, Julho - Dezemb o 2013.
94
Zipes, Jack, 2002, pp. 1
47
a es, pa a p opagandas, sob e udo na alícias, pa a b inquedos, pos e s, peças de
indumen á ia, mais uma ez sob e udo na época do Na al, assim como bens domés icos, ais
como peças de deco ação com mo i os des e con o, seja num simples u ensílio pa a queb a
nozes, ou elemen os deco a i os de uma á o e de Na al, po exemplo.
Embo a odos es es meios enham uma as a in luência em o na os con os de ada
p esen es, pois azem com que es ejam semp e debaixo dos nossos olhos, anspo ando-nos
pa a a his ó ia que es á po ás e que deu o igem a odos es es bens, o po encial
emancipa ó io es e icamen e concebido nos con os olcló icos e de adas a amen e é
aduzido nes as ações sociais, de ido à sua na u eza imaginá ia de c ia ou os mundos
melho es e ic ícios, que ca egam semp e um signi icado mais p o undo do que aquele que é
possí el ansmi i po es es meios ão mais mundanos.
“Thus, he emancipa o y po en ial aes he ically concei ed in he olk and ai y ales is a ely ansla ed
in o social ac ion, no can he ales nu u e su icien discon en o make hei e ec s easonably
ce ain. This is no o say ha olk and ai y ales we e always de eloped wi h “ e olu ion” o
“emancipa ion” in mind. Bu , inso a as hey ha e ended o p ojec o he and be e wo lds, hey ha e
o en been conside ed sub e si e, o , o pu i mo e posi i ely, hey ha e p o ided he c i ical measu e
o how a we a e om aking his o y ni o ou own hands and c ea ing mo e jus socie ies.”
95
Assim como an os meios a esanais cujos meios de p odução êm sido comandados
pela ecnologia, a lenda popula e o con o de adas, na maio ia de seus géne os adicionais,
o na am-se numa me cado ia de comé cio, a ancada p ema u amen e do ambien e
sociocul u al em que lo esce am. Po isso, as c ianças sujei as aos p econcei os da
escola ização e aos massi os modos de en e enimen o, não que em ou i his ó ias que
possam di e gi das e sões "co e as", e, po sua ez, os seus educado es, emendo o ende a
complexa psicologia do desen ol imen o da c iança, p e e em con ia em edições mode nas
dos con os, uma ez que as his ó ias o iginais se o nam demasiado pesadas e complexas.
Um exemplo pe ei o de odas es as ans o mações, po meio mediá icos, é o con o d’
O Queb a-Nozes e o Rei Ra o, que so eu di e sas mu ações a é aos dias de hoje, a im de se
o na algo mais acessí el e de ácil comp eensão, que não exija g ande pensamen o c í ico,
pois o que se p e ende com a sua popula ização é i ao encon o de um momen o de p aze .
Aqui o inimigo, po an o, é o p o incianismo his ó ico, a a i ude de ingi que os olhos e os
ins in os se ão su icien es pa a ganha uma comp eensão da li e a u a de con os de adas,
95
Zipes, Jack, 2002, pp.3
48
quando na e dade, ao le um con o de adas, de e íamos es a mais ale ados pa a a e dade
po ás do con o, pa a a p o undidade que aca e a, e is o só se consegue lendo e elendo,
ou indo, e endo e e endo á ias ezes, o con o, o ilme, o espec áculo.
Em suma, podemos conclui es e capí ulo cons a ando que, à medida que se in en am
no os meios ecnológicos de mass media, ai-se inco po ando neles o con o de adas como
um p odu o cul u al que se e pa a omen a o c escimen o do en e enimen o come cial,
explo ando as múl iplas manei as pelas quais a an asia pode ape eiçoa a ecnologia de
comunicação, sendo que ambém se pe cebeu que os e ei os da an asia podem se
in ensi icados a a és da ecnologia. Te mino es e pa ág a o com uma ci ação de Jack Zipes,
“All he abo e endencies ha e been ope a i e in di e en o ms o mass-media ed cul u e in he
wen ie h cen u y. I we we e o ake he da es o key echnological in en ions such as pho og aphy (1
839), eleg aph (1 844), elephone (1 876), phonog aph (l877), mo ion pic u es (1891), adio (1906),
ele ision (1923), sound mo ion pic u es (1927), in e ne (1983), and digi al imaging, we could ace
how each new in en ion enabled he mass media o u ilize he ai y ale along wo b oad dominan
lines: (1) o he nega i e pu pose o a i ming he in e es s o he cul u e indus y o cu ail ac i e
social in e change and make audiences in o passi e consume s; (2) o he posi i e pu pose o
communica ing and uni ying cul u al p oduc s o an asy necessa y o de eloping a mo e humanis ic
socie y and o s imula ing audiences o play an ac i e ole in de e mining he des iny o hei li es.
Needless o say, he ins umen aliza ion o he ai y ale and an asy ia he mass media has e ol ed
commensu a ely wi h he powe and g ow h o e ec i e con ols in he in e es s o he cul u e indus y.
(...) I was he adio, hen mo ies, and ul ima ely TV which we e able o d aw oge he la ge g oups o
people as he o iginal olk- ale na a o s did and o ela e ales as hough hey we e de i ed om he
poin o iew o he people hemsel es. Mass-media ed ai y ales ha e a echnologically p oduced
uni e sal oice and image which impose hemsel es on he imagina ion o audiences”
96
96
Zipes, Jack, pp.19-20
55
Ande son. Também es a e são elimina odo e qualque es ígio da sua o igem alemã, sendo
que nem mesmo a capa az e e ência ao au o o iginal, apenas a es e adu o .
Nes e ex o, as duas c ianças passa am a chama -se Dick e Molly. Mais uma ez, a
i mã mais elha não é mencionada, o pad inho D osselmeie o nou-se no io Ch is ophe , a
amília não inha nenhum apelido, o que e a um po meno de des aque no con o o iginal, e
ambém não há nenhuma localização especi icada, en e mui os ou os aspec os que não
deixam cla o que enha sido uma adap ação a pa i do con o o iginal.
Em suma, não hou e assim mui as mais aduções do con o o iginal, uma ez que os
adu o es de li e a u a in an il p ocu a am essencialmen e ob as de ca iz educacional,
ca ego ia es a onde a ob a de Ho mann não se enquad a a, endo ido algumas aduções
como con o pa a idade adul a.
Em suma, podemos conclui que a mesma ob a de a e pode se di e en e em di e sos
empos his ó icos, pois em cada empo os lei o es podem consegui encon a elemen os
di e en es, e da alo ou des alo iza aspec os dis in os. Na sua ob a Teo ia da Li e a u a,
Te y Eagle on ala-nos sob e es a p oblemá ica em o no das aduções e adap ações de
ob as li e á ias:
“Assim como uma ob a pode se conside ada como iloso ia num século, e como li e a u a no século
seguin e, ou ice- e sa, ambém pode a ia o concei o do público sob e o ipo de esc i a conside ado
como digno de alo . A é as azões que de e minam a o mação do c i é io de alioso podem se
modi ica . Isso, como disse, não signi ica necessa iamen e que enha a se ecusado o í ulo de
li e a u a a uma ob a conside ada meno : ela ainda pode se chamada assim, no sen ido de pe ence ao
ipo de esc i a ge almen e conside ada como de alo . Mas não signi ica que o chamado "cânone
li e á io", a "g ande adição" inques ionada da "li e a u a nacional", enha de se econhecido como um
cons u o, modelado po de e minadas pessoas, po mo i os pa icula es, e num de e minado momen o.
Não exis e uma ob a ou uma adição li e á ia que seja aliosa em si, a despei o do que se enha di o, ou
se enha a dize , sob e isso. "Valo " é um e mo ansi i o: signi ica udo aquilo que é conside ado
como alioso po ce as pessoas em si uações especí icas, de aco do com c i é ios especí icos e à luz de
de e minados obje i os. Assim, é possí el que, oco endo uma ans o mação bas an e p o unda em
nossa his ó ia, possamos no u u o p oduzi uma sociedade incapaz de a ibui qualque alo a
Shakespea e. (...) O a o de semp e in e p e a mos as ob as li e á ias, a é ce o pon o, à luz de nossos
p óp ios in e esses - e o a o de, na e dade, se mos incapazes de, num ce o sen ido, in e p e álas de
ou a manei a - pode ia se uma das azões pelas quais ce as ob as li e á ias pa ecem conse a seu
alo a a és dos séculos. Pode acon ece , é cla o, que ainda conse emos mui as das p eocupações
ine en es à da p óp ia ob a, mas pode oco e ambém que não es ejamos alo izando exa amen e a
"mesma" ob a, embo a assim nos pa eça. O "nosso" Home o não é igual ao Home o da Idade Média,
56
nem o "nosso" Shakespea e é igual ao dos con empo âneos desse au o . Di e en es pe íodos his ó icos
cons uí am um Home o e um Shakespea e "di e en es", de aco do com seus in e esses e p eocupações
p óp ios, encon ando em seus ex os elemen os a se em alo izados ou des alo izados, embo a não
necessa iamen e os mesmos. Todas as ob as li e á ias, em ou as pala as, são " eesc i as'', mesmo que
inconscien emen e, pelas sociedades que as lêem; na e dade, não há elei u a de uma ob a que não seja
ambém uma " eesc i u à'. Nenhuma ob a, e nenhuma a aliação a ual dela, pode se simplesmen e
es endida a no os g upos de pessoas sem que, nesse p ocesso, so a modi icações, al ez quase
impe cep í eis.
109
Concluímos en ão que a ob a o iginal Nussknacke und Mausekönig de E.T.A
Ho mann so eu mui as ans o mações, desde a sua o igem a é aos nossos dias. A pe cepção
de um lei o da época em que oi esc i o, no século XIX, se ia comple amen e di e en e da de
um lei o do p esen e século XXI, pois o alo da ob a ambém se ans igu a ao longo do
empo. E po isso mesmo emos que oi um con o de adas ino ado e com uma base c í ica à
bu guesia da época, e hoje em dia é simplesmen e um con o de adas mágico e simbólico de
Na al. Quem o explo a a undo en a á comp eende o que é que Ho mann en a ansmi i
com ele, mas não é essa a azão p incipal pa a se man e p esen e nos dias de hoje. Hoje O
Queb a-Nozes é ido como uma adição de Na al ma a ilhosa.
III.2.2. Música e Bailado
As sin onias e os bailados de Pyo Ilyich Tchaiko sky con ibuí am la gamen e pa a
as a es da música e do bailado, sendo que mui as das suas ob as são is as como um
p incipal elo de ligação en e a música omân ica e o bailado clássico. Os ês bailados
compos os po Tchaiko sky são, po o dem de publicação, o Lago dos Cisnes, A Bela
Ado mecida e O Queb a-Nozes, os quais são amplamen e econhecidos po músicos e
baila inos.
Os desen ol imen os nes a elação in e a es p óp ia do bailado, pela associação en e
a música e a dança, le ou a uma colabo ação en e composi o es musicais e co eóg a os, no
inal do século XIX. Nes e caso, cons a amos a elação en e Tchaiko sky e os co eóg a os
Ma ius Pe ipa e Le I ano e, cuja colabo ação pe mi iu o desen ol imen o dos ês bailados
clássicos mencionados acima, em que cada um ep esen a pon os de i agem e de ino ação.
109
Eagle on, Te y, 2006, pp.17 h ps://in e a esu gd. iles.wo dp ess.com/2016/05/eagle on- eo ia-da-
li e a u a.pd
57
Pyo Ilyich Tchaiko sky nasceu a 25 de Ab il de 1840, em Vo kinsk, na Rússia, e
mo eu em São Pe e sbu go, no dia 25 de ou ub o de 1893. É ainda hoje conside ado um dos
composi o es mais concei uados de odos os empos, endo uma as íssima ob a musical que
se e es e de melodias le es, com ha monias e o ques ações i as e pi o escas, que po
no ma ag adam o público em ge al, pois e ocam uma espos a emocional p o unda, ão
ca ac e ís ica do pe íodo musical Român ico. O bailado O Queb a-Nozes, iquíssimo no que
às ex u as músicas diz espei o, es eou no dia 06 de dezemb o de 1892, no Ma iinsky
Thea e em São Pe e sbu go, na Rússia.
Em elação à ob a musical, na sua qualidade de au o a c í ica de dança Jenni e Fishe
ala-nos da possibilidade da ida emocional de Tchaiko sky e a e ado a sua a i ude em
elação à sua composição, pois nesse pe íodo passa a po uma ase complicada com a mo e
da sua i mã, acon ecimen o que al ez possa jus i ica o ac o de, no inal do segundo ac o,
su gi um adágio sé io que desa ia a mo e do g and pas de deux
110
. Apesa do composi o
inicialmen e e e i em ca as a amilia es que es a ob a não es a ia ao ní el do bailado A Bela
Ado mecida, no inal de udo o mais p o á el e a e noção de que compôs uma ob a musical
oní ica, eple a de beleza, uma ez que na p ima e a de 1892 incluiu num p og ama onde
p es ou colabo ação algumas passagens des e seu bailado, a quais o am ex emamen e bem
ecebidas.
Os bailados de Tchaiko sky e es em-se de uma ealidade anscenden e, e como
lemos no li o de Fishe , a ob a O Queb a-Nozes pode se conside ada um Duma, concei o
que se de ine como sendo algo en e o de aneio e a medi ação, pe mi indo que a an asia
pene e na ealidade, dissol endo as dis inções en e o que é eal e o que a nossa imaginação
en ende que é e dade. A a és da audição des a ob a, é possí el que en emos numa
a mos e a em que quase sen imos que es amos a e , a oca , deixando-nos ele a po uma
expe iência imaginá ia.
111
Os ealizado es des e bailado inham como objec i o p oduzi um balle - ée ie, ou
seja um bailado de ma a ilhamen o. A a és da música, da ac uação de espec áculo e da
110
“O pas de deux, um e mo usado sob e udo no uni e so da dança clássica, e e e-se a uma o ma
co eog á ica dançada po um pa he e ossexual, cuja sequência, al como oi codi icada po Ma ius Pe ipa (c .
Ga a ola, 2007, p.159), exp ime o desen ol imen o e o climax da elação en e os dois. O pas de deux começa
com a en ada do pa e uma dança em que há con ac o e in e ação en e os dois elemen os. Seguidamen e cada
um deles execu a uma a iação e um coda. (...) O pas de deux culmina com uma no a sé ie de mo imen os
ealizada pelo pa cujo en ol imen o exp ime a in ensidade da i ência amo osa” (Fazenda, Ma ia José, 2018,
pp.112).
111
Fishe , Jenni e , 2003, pp. 187 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke na ion00jenn/mode/1up
58
dança, o composi o e os co eóg a os quise am coloca epe idamen e o público numa
posição de admi ação, con emplação, assomb o, obediência e e e ência, assemelhando-se à
igu a de Cla a. Pa a es e e ei o, o bailado e es e-se de momen os d amá icos, com queb as
ma cadas - como uma epen ina mudança de cená io, po exemplo, pa a ans o nos eais,
como um pesadelo de uma ba alha.
Apesa da sua apa en e le eza, es e bailado p omo ia uma expe iência es é ica que
con ibuía pa a uma ep esen ação do pode impe ial da Rússia cza is a do inal do século
XIX. O Queb a-Nozes, po an o, p omo eu uma cul u a de co e a a és de um pano ama do
an ás ico e do nacionalis a, incluindo a é nos cená ios, moldando o público no sen ido de
lhes impu a uma comp eensão absolu is a do pode . Tal apelo ao sen imen o nacionalis a
coaduna-se, aliás, com a endência da época pa a que as a es exp essassem a g andeza da
pá ia – algo que aliás é no ó io na inclusão de elemen os adicionais e olcló icos no p óp io
bailado. A a és de e en os mágicos e espec áculos isuais inspi ados em con os de adas, o
úl imo bailado de Tchaiko sky o mou como que um cená io de pode . Nes e bailado deu-se
a ep esen ação da ha monia en e nações com polí icas opos as, como a p imei a epública
ancesa e um mundo a is oc á ico de ca iz an ás ico.
T a a-se de uma ep esen ação de elações in e nacionais, supondo-se que os c iado es
des e espec áculo de am o seu con ibu o pa a c ia um clima en e a co e e a sociedade de
São Pe e sbu go, endo em men e a ideia de uma aliança com a F ança epublicana.
Assim, o ac o de o bailado O Queb a-Nozes u iliza um enquad amen o de e en os
con empo âneos, à época, ans o mados em con os de adas, ez com que se o nasse uma
ob a memo á el, con ibuindo a é pa a cená ios de e en os co po a i os impo an es. Es a
sua p imei a apa ição inha ma cada an o po e e ências do bailado omân ico, como po
es as da co e, mos ando a dualidade en e a icção e a ealidade, e ambém en e o passado
e o p esen e.
O Queb a-Nozes e o Rei Ra o não se ia acilmen e adap ado pa a o bailado, pois o
en edo con ém mui os lapsos empo ais en e as á ias his ó ias p esen es. Logo, oi
necessá io um g ande abalho pa a es e e ei o. No en an o, depois da es eia do bailado O
Queb a-Nozes, é possí el que lei o es do con o de Ho mann enham achado que o balle não
log ou cap u a a essência da ob a. “Fans o Ho mann 's s o y hough he balle ailed o
59
cap u e i s mood, and lacked d ama ic cohe ence”
112
, alegando que a ansição da sala de
es a pa a o mundo da an asia é mui o ab up a. Sabe-se aliás que a eacção inicial dos
c í icos ao bailado oi nega i a, não pela música, que oi elogiada, mas pelo ac o de a
his ó ia em si abdica de um io condu o que lhe desse sen ido. Mas uma coisa em comum
podemos semp e iden i ica : man ém i a a imaginação do lei o ou espec ado . Na sua
in odução ao con o d’O Queb a-Nozes, Jack Zipes começa po esc e e a seguin e ase:
“The p emie e o he balle a he S . Pe e sbu g Impe ial Thea e in 1892 ecei ed mixed e iews, and
hough i con inued o be pe o med in he ea ly pa o he wen ie h cen u y h oughou Eu ope, The
Nu c acke was no all ha popula wi h audiences o wi h dance s. No had i e e been conside ed a
a o i e o child en o amilies. The lib e o, which was al eady an adul e a ion o he ales by Dumas
and Ho mann, was o en sho ened, al e ed, and cho eog aphed a new by he di e en companies ha
pe o med he balle so ha he ull balle was a ely pe o med.
I was no un il 1944, when Willam Ch is ensen p oduced he i s ull- leng h p oduc ion o The
Nu c acke in San F ancisco, ha he balle began o ecei e he a en ion i needed o become he
classical i ual i is oday.”
113
Tal como se deu no campo da li e a u a, ambém o lib e o u ilizado pa a es e bailado
oi uma adap ação do con o o iginal, sendo que se baseia essencialmen e na e são li e á ia
de Alexand e Dumas, po es a se mais aleg e e desp eocupada, o que es a ia mais alinhado
com o ambien e de con o de adas que se p ocu ou p omo e no bailado. E po isso, deu luga
a mui as ou as adap ações, a é aos dias de hoje, semp e com o seu ca isma an ás ico, e
ep esen ado na época do Na al, sendo que há ainda ou o aspec o que o o nou semp e i o,
a sabe , o ac o de pode se não só assis ido, mas ambém ep esen ado po c ianças, c iando
um clima p opício pa a planos amilia es.
“Ch is ensen had been in ouch wi h he b illian Russian cho eog aphe Geo ge Balanchine, who had
ad ised him o s age he en i e balle in his o iginal way; and Ch is ensen, soon ealizing i s po en ial
as a moneymake and c owd please o amilies, g adually began epea ing i annually du ing he
Ch is mas pe iod. Balanchine ollowed sui in 1954 wi h his own unique spec acle in New Yo k, and
since ha ime no a win e season goes by when The Nu c acke is no pe o med h oughou he
Uni ed S a es and o he coun ies in a ious o ma s. No only has he balle been adop ed by
Ame icans o hei Ch is mas celeb a ion as a i ual o middle-class audiences, especially young
gi ls (as has Cha les Dickens’s A Ch is mas Ca ol), bu i has also been adap ed o anima ed and
li e-ac ion ilms, and he e a e nume ous ideocasse es and DVDs ha o e eco dings o li e
112
Fishe , Jenni e , 2003 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke na ion00jenn/mode/1up pp.16
113
Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, Penguin Books, Lond es, 2007
h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke -and-mouse-king/page/n4/mode/1up
60
pe o mances by amous Eu opean and Ame ican companies. All so s o a i ac s ep esen ing he
wooden nu c acke ha e been manu ac u ed, and he nu c acke has been ans o med in o a cha ming
secula icon ep esen ing he joy ul ad en o he Yule ide season.”
114
No en an o, o lib e o do bailado o iginal segue o con o de Ho mann essencialmen e
no seu p imei o ac o, compos o pela es a de Na al e pela cena da ba alha. No segundo ac o,
dedicado à e a dos doces, o bailado a as a-se subs ancialmen e do con o o iginal, ocando-se
sob e udo no alen o a ís ico dos baila inos.
A pa i da segunda me ade do século XX, de en e as á ias e sões de co eog a ia
p oduzidas pa a o bailado d’O Queb a-Nozes nos Es ados Unidos da Amé ica, cinco são
des acadas po Robin Lily Goldbe g, e que que emos e e i de seguida.
A p imei a, inaugu ada em 1954, oi a do co eóg a o Geo giano-Ame icano Geo ge
Balanchine
115
, o qual ouxe sensibilidades ame icanas pa a a dança no sen ido de alcança
uma maio ligação com aquela audiência. Desde en ão, o balle po ele undado – New Yo k
Ci y Balle – ep esen a O Queb a-Nozes odos os anos na época na alícia. A e são de
Balanchine é, aliás, ida po mui os como aquela que se e de compa ação a odas as que lhe
segui am.
Des acamos ago a duas p oduções. A de Ma k Mo is
116
, in i ulada The Ha d Nu , oi
c iada a pa i da linguagem da dança con empo ânea, ca ac e izando-se pelos cená ios de
e o do a is a Cha les Bu ns, sendo que a p odução de Ken S owell, do Paci ic No hwes
Balle , ouxe pa a o palco cená ios e es uá io do ilus ado Mau ice Sendak. Ambas as
e sões se apoia am no con o de Ho man, em de imen o da e são de Dumas. No caso da
e são do Paci ic No hwes Balle , não só os cená ios de Mau ice Sendak o am publicados
na o ma de ilus ações num li o do con o
117
, mas ambém o p óp io balle oi ans o mado
num ilme, em 1986
118
.
Ma ia José Fazenda em Da Vida da Ob a Co eog á ica (2018) aça uma associação
en e o bailado The H d Nu de Ma k Mo is e Queb a Nozes Queb a Nozes da nossa
Companhia Nacional de Bailado, explicando que as ob as em ques ão se i am pa a apela à
114
Ibid
115
The Nu c acke ® | New Yo k Ci y Balle (nycballe .com)
116
The Ha d Nu (ma kmo isdanceg oup.o g)
117
Nu c acke by E.T.A. Ho mann (good eads.com)
118
h ps://www.imdb.com/ i le/ 0091658/
61
maio consciencialização de ques ões con empo âneas à da a da sua es eia, como a
eminilidade e masculinidade, assim como a sexualidade.
Finalmen e, na década de no en a, assis imos à ansmissão des e bailado como o ma
de exp essão de ou as cul u as, já mui o dis an es da Alemanha do início do século XIX. No
caso de Donald By d em 1996, a ou-se do The Ha lem Nu c acke , onde a his ó ia oco e
num meio A o-Ame icano e em que são ansmi idos os alo es dessa comunidade
119
. Po
exemplo, po o ma a da ên ase à igu a da a ó, conside ada impo an e pa a aquela
comunidade, a p óp ia Cla a deixa de se uma jo em pa a passa a se a ó, sendo os cená ios
as suas memó ias do passado, numa lógica de lashback. Também a música já não é a de
Tchaiko sky, pa a passa a se uma e são de 1960 in i ulada The Nu c acke Sui e e
compos a po Duke Ellig on e Billy S ayho n
120
, ambos nomes amosos do mundo do jazz.
Já o co eóg a o Chinês-Ame icano Michael Mao p oduziu o Fi ec acke , que ambém não
a a a his ó ia do con o o iginal, mas sim a de dois jo ens que emba cam numa iagem de
Shangai a é No a Io que. Inspi ado na his ó ia de ida de Mao – que inclusi amen e chamou
a es e bailado de O Queb a-Nozes imig an e
121
– o Fi ec acke combina a música de
Tchaiko sky com peças de música adicional ípicas das geog a ias po onde a his ó ia
oco e
122
.
No undo, es e bailado em sido e abalhado “po á ios co eóg a os, em di e sos
países, in oduzindo-se a iações em algumas das danças, pe sonagens e suas acções”
123
,
como nos diz Ma ia José Fazenda. Es a au o a e e e ainda que em Po ugal a p imei a e são
des e bailado deu-se no ano de 1984 po A mando Jo ge, e em 2003 e e luga a e são de
Mehe Balkan.
Embo a exis a uma eno me a iedade de bailados d’O Queb a-Nozes, exis e uma
pe se e ação da o dem da na a i a, “uma o ganização da o ma co eog á ica-musical e
concepções es ilís icas anco adas na dança clássica”
124
que azem com que se iden i ique
cada espec áculo p oduzido como sendo uma a iação do mesmo balle O Queb a-Nozes.
119
The Ha lem Nu c acke - Spec um Dance Thea e
120
Ibid
121
<i>Fi ec acke </i> o Be S aged in Beijing (china.o g.cn)
h p://www.china.o g.cn/english/cul u e/51061.h m
122
Ibid
123
Fazenda, Ma ia José, 2018, pp.110
124
Ibid
62
“O Queb a-Nozes, à semelhança de an os ou os clássicos, em pe sis ido nos palcos, apesa das
ein e p e ações de que em sido al o, e g aças às mesmas, não obs an e as ans o mações que o êm
econ igu ado, e com o con ibu o des as, mas mo endo-se no in e io de de e minadas con enções que
iden i icam o mundo do balle , e que pe mi em não só a coope ação en e odos os que dele pa icipam
como agen es como ambém o es abelecimen o de uma ligação do público com a ob a.”
125
125
Fazenda, Ma ia José, 2018, pp.114
63
Capí ulo IV: ESTUDO PRÁTICO
IV.1. Análise de Inqué i o
Pa a consegui jus i ica e dadei amen e o es udo que expus a é aqui elabo ei um
ques ioná io a a és dos o mulá ios google onde p ocu ei pe cebe se as pessoas conhecem a
his ó ia o iginal do Queb a-Nozes, explo ando um pouco ambém as e en es a ís icas do
bailado e do cinema, e minando com uma ques ão sob e o con empo âneo. U ilizei es a
pesquisa quan i a i a explo a ó ia pa a comp eende um pouco melho a elação do público
com es e con o.
Com es e ques ioná io ob i e um o al de 157 espos as
indi iduais, sendo que nem odas as pessoas
esponde am a odas as pe gun as. Como podemos
pe cebe pela imagem, o inqué i o a ingiu um público
maio i a iamen e eminino, com 70,7% das espos as.
De seguida, começa a secção sob e a li e a u a, onde coloquei a ques ão de se alguma
ez le am o con o O Queb a-Nozes e o Rei Ra o de E.T.A Ho mann, e logo de seguida, pa a
e uma noção de se as pessoas conhecem uma e são mais p óxima do o iginal ou uma
adap ação, pedi que indicassem qual o nome da pe sonagem p incipal da his ó ia, dando as
opções de Ma ia e Cla a.
Como podemos obse a , a maio ia das pessoas
indica que não leu nunca o con o, com uma pe cen agem de
72,6% pa a a espos a não, e uma eduzida amos a de 27,4%
que diz e lido a his ó ia.
Mas com a pe gun a seguin e, sob e o nome da
pe sonagem p incipal, e i ico que a maio ia das pessoas não
conhece o con o inicial de E.T.A Ho mann, pois Cla a é o
nome da pe sonagem p incipal numa e são adul e ada do
con o, a que se con a no bailado, sendo mui o p o á el que
conheçam uma e são mais p óxima da de Alexand e
Dumas, pois oi a que se iu de base pa a a c iação do Bale .
Fig.1
Fig.2
Fig.3
64
A im de e e mais in o mação sob e o diálogo in e ge acional, an o na secção da
Li e a u a, como na do Bailado e Cinema coloquei a ques ão de se alguma ez le am ou
i am o Queb a-Nozes com ou a c ianças. A maio ia das espos as em elação ao con o
li e á io é nega i a, com apenas 22 pessoas que esponde am que sim, já le am o con o a
c ianças, o que ep esen a 16,1% numa amos a de 137 espos as a es a pe gun a. Os es an es
83,9% indicam que não le am o con o a nenhuma c iança.
De seguida, ainda sob e as
c ianças. ques ionei se es as
inham comp eendido o en edo,
ap esen ando uma escala de 0 a 5,
em que 0 co esponde a “não, de
odo”, e 5 “sim, pe ei amen e”, e o g á ico, com um o al de 24 espos as (uma ez que
apenas 22 inham espondido que já inham lido a his ó ia a c ianças) demons a que mais de
me ade colocou a sua espos a no ní el 3, e de seguida sob essai logo o ní el 5.
Ou seja, podemos deduzi que os inqui idos não se quise am comp ome e em elação
à o al ap eensão do ex o po pa e das c ianças, o que se pode conside a comp eensí el,
pois é um con o pa a se le e ele , e à medida que se c esce ai-se no ando cada ez mais
aspec os, que não são assim ão anspa en es quando emos uma men alidade in an il.
Iniciada a secção do Bailado, depa amo-nos
com uma eno me di e ença em elação ao con o
li e á io, pois pe cebemos que uma g ande pa e das
pessoas conhece o con o a a és do bailado, como já
e a de espe a . Se na li e a u a i emos uma pequena
quan idade de pessoas que le am o con o, des a ez
encon amos uma maio ia que já iu o bailado do Queb a-Nozes, com uma pe cen agem de
66,7% de um o al de 147 espos as a es a pe gun a.
Fig.4
Fig.5
71
soldados) e o mal ( ep esen ado pelo ei dos a os e a sua b igada de oedo es); a alo ização do núcleo
amilia e a cons i uição do casal como momen o de i ência ha moniosa.”
128
Pode dize -se que odos os con os, po na u eza, êm po encial pa a se o na ac uais e
se con empo âneos, na medida em que le am o lei o a expe iencia um mundo que é
consis en e e acional a a és da an asia. Is o pe mi e que o au o iden i ique nesse mundo
an ás ico o mundo eal e, consequen emen e, o empo em que i e. E po im, nunca é
demais ou i e e ob as de composi o es in empo ais, como Tchaiko sky, que é um clássico
e uma inspi ação pa a an os, e que oi o p incipal mo i o de di usão do con o o iginal de
E.T.A Ho mann, a a és do bailado O Queb a-Nozes.
Em suma, es as á ias ea aliações da ob a o iginal esul am necessa iamen e em
di e en es análises em que algum aspec o pode á sob essai . Se em alguns casos o alo
es é ico pode á ocupa o p imei o luga (e.g. eja-se o bailado o iginal da dupla
Pe ipa/Tchaiko sky), nou os a lei u a polí ica e social u iliza ão a ob a como o ma de
media de e minada concepção da ealidade (e.g. eja-se as adap ações do bailado a pa i dos
anos 90). No caso acima mencionado de Geo ge S eine (1987), o c í ico li e á io analisa
qua o in e p e ações de An ígona, en e elas as dos au o es Hegel, Goe he e Hölde lin, na
quais iden i ica e analisa di e enças ele an es ao ní el da abo dagem e da in e p e ação
ilosó ica da ob a. Assim, o con empo âneo na ob a e ela-se na medida em que, ao longo da
his ó ia, homens e mulhe es econhecem nela um meio de ansmissão dos seus ideais, e aqui
se pode encon a uma possí el jus i icação pa a a pe enidade d’O Queb a-Nozes e o Rei
Ra o ao longo dos úl imos dois séculos.
128
Fazenda, Ma ia José, 2018, pp.115
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78
ANEXOS
Figu a 1: Pe gun a de inden i icação de sexo masculino ou eminino
Figu a 2: Pe gun a: Alguma ez leu o con o O Queb a-Nozese o Rei Ra o?
Figu a 3: Pe gun a: Se sim, no con o que leu qual o nome da pe sonagem eminina p incipal?
Figu a 4: Pe gun a: Se sim, consegui am comp eende o en edo? (do con o)
Figu a 5: Pe gun a: Alguma ez iu o Bailado?
Figu a 6: Pe gun a: Se sim, consegui am comp eende a his ó ia? (do bailado)
Figu a 7: Pe gun a: Se sim, consegui am comp eende a his po ia? (do ilme)
Figu a 8: Pe gun a: É pa a si adição assis i ao bailado, con a a his ó ia ou e um ilme do
Queb a-Nozes na época de Na al?
Inqué i o na sua o alidade:
79
80
87
❖ Julgo que os alo es e a magia são e e nos. O Queb a-Nozes semp e oi o meu bailado
p e e ido o que se aduz numa incapacidade de opinião impa cial, no en an o,
ac edi o que a alo ização do eminino po oposição a um mundo com alo es
dominan emen e masculinos é uma dualidade eng açada de se con empla , que na
peça, que como espelho do pa adigma ac ual.
❖ É con empo âneo po que a sua mensagem de amo , de sonhos e an asia é in empo al,
e encan a odas as ge ações
Ilus ações:
Be all:
Fig.9: Ap esen ação do Li o His oi e d’un Casse-Noise e, Ilus ações de Be all,
129
129
Dumas, Alexand e, His oi e d’un Casse-Noise e, Ilus ações de Be all, Lib ai ie Hache e, Pa is, 1921
h ps://a chi e.o g/de ails/his oi eduncasse00duma/page/n5/mode/2up
88
Fig. 10: Página 38 e 39 do Li o His oi e d’un Casse-Noise e, ilus ações de Be all
130
Mau ice Sendak:
Fig. 11: Capa do Li o Nu c acke , ilus ações de M. Sendak
131
130
Ibid
131
Ho mann, E.T.A, Nu c acke , T adução de Ralph Manheim, ilus ações de Mau ice Sendak, New Yo k:
C own Publishe s, 1984 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke 0000ho _c3j9
89
Fig. 12: Ap esen ação do Li o Nu c acke , ilus ações de M. Sendak
132
Fig. 13: Página 6 e 7 do Li o Nu c acke , ilus ações de M. Sendak
133
132
Ibid
133
Ibid, pp.6 e 7