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A actualidade D`O Quebra-Nozes e o Rei Rato, de E. T. A. Hoffmann. Análise em torno da perenidade da obra através da sua contemporaneidade

Alvim, Maria Mafalda Loureiro Pipa de Sousa

Abstract

Quais os mistérios que mantém O Quebra-Nozes sempre actual e presente até aos dias de hoje? O que torna esta história tão apelativa de geração em geração? Este trabalho pretende analisar alguns dos fenómenos que ajudam a justificar estas interrogações. O Quebra-Nozes é geralmente considerado intemporal, tanto o conto de Hoffmann escrito em 1816, que deixa os leitores a pensar sobre a dicotomia entre o sonho e a realidade, como o bailado que daí surgiu, sustentado numa obra musical onírica e em toda a beleza estética presente nos bailarinos e nos cenários. O que este trabalho procura analisar é a forma como esta obra se conseguiu afirmar ao longo dos últimos dois séculos, através das inúmeras traduções e adaptações a que a história original foi sujeita. Por forma a realizar este estudo abordaram-se alguns termos, como a transmissão e remediação. De facto, trata-se de uma obra artisticamente produzida em áreas distintas, áreas essas que procurei explorar, focando-me principalmente na literatura, na música e no bailado. Do ponto de vista literário, este trabalho reflecte acerca de um conjunto de conceitos, nomeadamente a noção de contemporâneo, que nos transporta para vários aspectos relevantes da obra, tal como a tradição do Natal, a fantasia e a dicotomia entre o sonho e a realidade. O objetivo deste trabalho de análise é o de cruzar todas estas ideias para chegar a uma conclusão que, de alguma forma, dê uma visão e uma possível justificação para que este conto seja considerado contemporâneo e, por isso, vivo e actual desde a sua origem até aos dias de hoje.

Full text

A ACTUALIDADE D’ O QUEBRA-NOZES E O REI RATO, DE E. T. A HOFFMANN ANÁLISE EM TORNO DA PERENIDADE DA OBRA ATRAVÉS DA SUA CONTEMPORANEIDADE Ma ia Ma alda Lou ei o Pipa de Sousa Al im de Almeida Ribei o Ou ub o, 2021 Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de Mes e em Ciências da Comunicação - Comunicação e A es, ealizada sob a o ien ação cien í ica da P o esso a Dou o a Cláudia Madei a Dedica ó ia pessoal A.M.D.G. Ao meu ma ido Vasco e aos nossos ilhos Vasco Ma ia e Nuno de San a Ma ia. Aos meus pais - À mãe Maícha e em memó ia do pai Chico. Aos manos F ancisco, Ma ga ida, Joana, José Ma ia, Leono , Sal ado e Joaquim, aos maninhos que es ão no céu, aos meus cunhados, e a odos os meus sob inhos. AGRADECIMENTOS P imei o e semp e, a Ti. Às p o esso as Cláudia Madei a e Paula C is ina Cos a, as quais conside o imagem do acolhimen o, a enção e dedicação p óp ios dos que enca nam e espei am a ocação do magis é io, ajudando-me a encon a um umo pa a o caminho a é aqui pe co ido. À Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade No a de Lisboa, po me e pe mi ido adqui i e e e compe ências desde o ano de 2014, num ambien e coope a i o e con ian e, e às g andes amizades que aqui cons uí - a Joana, a Ma ilde, a Ma ia e o Ai es, a Leono , o João, a F ancisca e o Ra ael, o An ónio, a Ma iana, a Romana e a Inês - que an o êm acompanhado, incen i ado e ajudado nes e pe cu so inal do meu mes ado. À Ma alda e ao Zé, pela sua p esença, à Bea iz e ao Be na do, pela espe a pacien e, e ao pad e Hugo, po odo o seu apoio. Ao Can ico um e a odos os que com ele colabo am e an o me ajudam - Bea iz, Te esinha, Isabel, So ia, Ma iana, Joaninha, Manel, Miguel, Nuno, F ancisco, Ma im e Ma eus - pois com eles man enho o con ac o com aquela que oi a p imei a g ande paixão da minha ida, a música, que an o p ecisei pa a encon a se enidade ao longo des e empo de es udo. Aos meus sog os e aos meus cunhados, pelo apoio que me de am e que an o me ajudou a encon a empo e paz de espí i o pa a me concen a nes e p ojec o, com a con iança de que o nosso ilho es e e semp e eliz e bem acompanhado. Aos meus p imei os melho es amigos, os meus se e i mãos: O F ancisco, a Ma ga ida, a Joana, o José Ma ia, a Leono , o Joaquim, e po im, um ag adecimen o especial ao nosso i mão Sal ado , a pessoa mais p es á el, en egue e amiga que conheço e que é um apoio incondicional e cons an e na nossa ida. Ac escen o ainda os meus cunhados, o Be na do, a Ca la, o F ancisco, o Lopo e a Dulce, e os meus sob inhos Jo ginha, Flo , F ancisco, Cons ança, F ancisco, Leono , Ma ga ida, Benedi a, Te esa, Be na do e Rosa inho. Tenho a G aça de sabe , conhece e i e es e luga de comunhão, onde udo começa e acaba: a Família. Um p o undo e sen ido ag adecimen o aos meus pais. Ao pai Chico em especial po odo o exemplo de espe ança, con iança e en ega nos úl imos meses da sua ida, e à mãe Maicha pela pessoa que é, po nos aze pensa , e po nos ensina a beleza das pequenas coisas da ida, de alhe que se o nou ão p esen e du an e es e empo de esc i a e in es igação a ís ica. Ao Vasco Ma ia e ao Nuno de San a Ma ia. Ob igada aos nossos ilhos, po se em semp e esse consolo amo oso onde pode emos epousa hoje e semp e, incu indo em mim o sen ido de esponsabilidade que an o necessi ei pa a segui em en e com es e mes ado. Pela bolha de amo que dila a con inuamen e nos co ações dos pais, e que an o alen o deu à mãe pa a e mina es a e apa da sua ida. E po úl imo, onde a minha passagem na e a começa e acaba, deixo o meu maio ag adecimen o, do undo do meu co ação, ao meu ma ido Vasco. Pois, na unidade p óp ia do ma imónio, i eu es a jo nada semp e comigo, incen i ando-me e azendo-me c e que sou capaz. Mas só o sou po ê-lo ao meu lado. Jun os, só e semp e jun os, conseguimos. E consegui emos po oda a nossa ida, com es e nosso caminho a dois que se o na cada ez mais o e, semp e iel e espe ançosamen e mais ecundo, e o pe cu so que aqui e mino é um pequeno e lexo disso. A ACTUALIDADE D’ O QUEBRA-NOZES E O REI RATO, DE E. T. A HOFFMANN ANÁLISE EM TORNO DA PERENIDADE DA OBRA ATRAVÉS DA SUA CONTEMPORANEIDADE Ma ia Ma alda Lou ei o Pipa de Sousa Al im de Almeida Ribei o Ou ub o, 2021 RESUMO: Quais os mis é ios que man ém O Queb a-Nozes semp e ac ual e p esen e a é aos dias de hoje? O que o na es a his ó ia ão apela i a de ge ação em ge ação? Es e abalho p e ende analisa alguns dos enómenos que ajudam a jus i ica es as in e ogações. O Queb a-Nozes é ge almen e conside ado in empo al, an o o con o de Ho mann esc i o em 1816, que deixa os lei o es a pensa sob e a dico omia en e o sonho e a ealidade, como o bailado que daí su giu, sus en ado numa ob a musical oní ica e em oda a beleza es é ica p esen e nos baila inos e nos cená ios. O que es e abalho p ocu a analisa é a o ma como es a ob a se conseguiu a i ma ao longo dos úl imos dois séculos, a a és das inúme as aduções e adap ações a que a his ó ia o iginal oi sujei a. Po o ma a ealiza es e es udo abo da am-se alguns e mos, como a ansmissão e emediação. De ac o, a a-se de uma ob a a is icamen e p oduzida em á eas dis in as, á eas essas que p ocu ei explo a , ocando-me p incipalmen e na li e a u a, na música e no bailado. Do pon o de is a li e á io, es e abalho e lec e ace ca de um conjun o de concei os, nomeadamen e a noção de con empo âneo, que nos anspo a pa a á ios aspec os ele an es da ob a, al como a adição do Na al, a an asia e a dico omia en e o sonho e a ealidade. O obje i o des e abalho de análise é o de c uza odas es as ideias pa a chega a uma conclusão que, de alguma o ma, dê uma isão e uma possí el jus i icação pa a que es e con o seja conside ado con empo âneo e, po isso, i o e ac ual desde a sua o igem a é aos dias de hoje. PALAVRAS-CHAVE: Queb a-Nozes, con empo âneo, pe enidade, ac ualidade, clássico, ansmissão, emediação, li e a u a, música, bailado. ASTRACT: Wha a e he mys e ies ha keep The Nu c acke imeless and endu ing o ou days? Wha makes his s o y so appealing om gene a ion o gene a ion? The p esen wo k aims a analyzing some o he phenomena ha help o jus i y hese in e oga ions. The Nu c acke is gene ally conside ed imeless, bo h Ho mann’s sho s o y w i en in 1816, which lea es eade s hinking abou he dicho omy be ween d eam and eali y, and he balle ha was c ea ed om he s o y, wi h i s d eamlike music se ing and all he aes he ical beau y p esen in he dance s and scena ios. Wha his wo ks aims o analyze is p ecisely how i was able o a i m i sel in he las wo cen u ies, h ough mul iple ansla ions and adap a ions o which he o iginal s o y was subjec ed. This s udy was ealized by b inging in o discussion e ms such as ansmission and emedia ion. In ac , i is a wo k ha has been p oduced a is ically in se e al a eas, which a e explo ed, ocusing mainly on li e a u e, music and balle . F om he li e a y poin o iew, his wo k e lec s upon a se o concep s, namely he no ion o he con empo a y, which anspo s us o se e al aspec s o he s o y, such as he Ch is mas adi ion, an asy and he dicho omy be ween d eam and eali y. The main objec i e o his analysis is o c oss all hese ideas in o de o each a conclusion ha gi es a ision and a possible jus i ica ion in o de o conside his sho s o y o be con empo a y and hus ali e and p esen om i s o igins o ou days. KEYWORDS: Nu c acke , con empo a y, pe enniali y, ac uali y, classic, ansmission, emedia ion, li e a u e, music, balle . ÍNDICE INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 1 METODOLOGIA.................................................................................................................................. 5 Capí ulo I: A OBRA.............................................................................................................................. 7 I. 1. O au o E.T.A Ho mann.................................................................................................................. 7 I.2. Con ex ualização His ó ica.............................................................................................................. 10 I.2.1. P ocessos de canonização em li e a u a in an il alemã.........................................................10 I.2.2. Recepção do con o de adas de Ho mann na Alemanha..................................................... 12 I.3. Diálogo In e ge acional................................................................................................................... 13 I.3.1. Um con o de adas omân ico pa a c ianças......................................................................... 16 I.3.2. Uma no a imagem da in ância............................................................................................. 18 I.3.3. In luência na li e a u a in an il in e nacional....................................................................... 21 I.4. O con o.............................................................................................................................................22 Capí ulo II: SOBRE O CONTEMPORÂNEO..................................................................................25 II.1. O Queb a-Nozes e o sen ido de um clássico.................................................................................. 33 II.2. Fes i idade e ciclicidade do Na al n’ O Queb a-Nozes e o Rei Ra o............................................. 36 II.3. A an asia e a dico omia en e o sonho e a ealidade..................................................................... 39 Capí ulo III: SOBRE A TRANSMISSÃO......................................................................................... 44 III.1. Concei o de emediação aplicado ao con o................................................................................... 44 III.2. Ve sões Media e No as Edições do con o.................................................................................... 49 III.2.1 Li e a u a............................................................................................................................. 51 III.2.2. Música e Bailado................................................................................................................56 Capí ulo IV: ESTUDO PRÁTICO..................................................................................................... 63 IV.1. Análise de Inqué i o...................................................................................................................... 63 BIBLIOGRAFIA..................................................................................................................................72 ANEXOS............................................................................................................................................... 78 7 Capí ulo I: A OBRA I. 1. O au o E.T.A Ho mann Apesa da sua publicação em 1816 como um con o de adas alemão, O Queb a-Nozes e o Rei Ra o de E.T.A Ho mann ca i ou di e sos públicos po meio de á ios media. Usando a in ância como um ca alisado pa a a c iação a ís ica, o au o inspi ou a is as a coloca as suas ob as no con ex o das suas p óp ias idas. Ao longo de ce ca de dois séculos, as in e p e ações des e en edo consegui am alcança pessoas de odas as idades, e nias e o mações. Po meio de li os ilus ados e bailados, ans o mou-se es e con o de adas es angei onum p odu o em cons an e e olução. O génio escondido po ás des e enómeno em o nome de E ns Theodo Amadeus Ho mann (embo a o seu nome e dadei a osse E ns Theodo Wilhelm), au o que nasceu a 24 de janei o de 1776 no seio de uma amília dominada po alguma ensão, o que o e ia le ado a esc e e O Queb a-Nozes e o Rei Ra o como um e lexo de sua coibida in ância. Ho mann é u o de dois pais, cuja mãe inha uma “ singela beleza”, mas “o pai e a de uma ealdade ex ema” 8 , e pensa-se que possa e sido uma das azões que le a am a di o cia -se, endo sido c iado maio i a iamen e pelo seu io, i mão da sua mãe, pois es a encon a a-se aca e, po isso, impedida de cuida de uma c iança. Tinha o nome de O o Wilhelm Doe e , e a sol ei o e desemp egado de meia-idade, sendo um mau modelo pa a o seu sob inho. “Sucediam-se com g ande equência os desen endimen os en e io e sob inho, e a bondade ma e na e a impo en e pa a os apazigua .” 9 Assim, Ho mann p e e ia passa o seu empo com um io a ô que lhe se iu de inspi ação pa a a igu a do Pad inho D osselmei do con o d’O Queb a-Nozes. Apesa de udo, es e seu io O o inha uma g ande qualidade, pois e a do ado de um alen o musical que se iu pa a o ensina de o ma pa icula , e enco ajá-lo a ap ende piano e a e o mação musical, embo a o enha ob igado a ing essa no cu so de Di ei o. “Acco ding o Hewe -Thaye , ‘musical e enings o med a cons an ea u e o li e in he Doe e house, a o ding he small boy an in ini e elie om he daily mono ony’ (Hewe -Thaye 8). These ge - 8 «E nes o Teodo o Amadeu Ho mann», in G andes génios da li e a u a uni e sal. Ho mann. Con os, ( adução e is a po São Pin o), Ediclube, Al agide, 1990 9 Ibid, pp.7 8 oge he s p o ided Ho mann wi h mo e han en e ainmen . They ga e him he s imula ion he needed o su i e wi hin his d ea y home.” 10 Com seis anos de idade Ho mann ing essou na Escola Re o mada Alemã de Conisbe ga, uma ins i uição p o es an e na cidade de Königsbe g, onde desen ol eu a sua na u al inclinação pa a as a es. O seu único e g ande amigo e a Theodo Go lieb Hippel, um apaz sem mãe e cuja i az imaginação se iden i ica a com a de Ho mann e, po isso mesmo, desde cedo b inca am, imagina am e sonha am jun os, a é segui em caminhos dis in os, mais a de. Uma ez que e a conhecido pelas suas o es habilidades de es udo, o nou-se num bom ad ogado, endo começado a abalha pa a o go e no p ussiano, a pa de umas aulas de música que ia dando, pois não se sen ia ealizado na á ea do Di ei o. Quando aos in e anos se mudou pa a Be lim pa a p epa a os exames inais de Di ei o, ape cebeu-se da cidade cul u almen e ica que o odea a, o que se iu de inspi ação pa a libe a o seu lado mais c ia i o, e assim seguiu uma ca ei a musical após acaba os exames académicos. Em 1804 e e de i pa a Va só ia pa a se uncioná io do T ibunal de Apelação, e oi aí que conheceu duas pessoas mui o impo an es pa a si, Edua do Hi zig e Zaca ias We ne . Nessa cidade, mesmo com a in asão das opas ancesas e com a uga dos seus amigos, Ho mann dedicou-se à c iação de uma academia de música, ganhando a ida de o ma mui o di ícil, pois inha de sus en a a sua mulhe , uma ilha e ainda a ilha de um amigo. Foi jus amen e nes a al u a da sua ida que p e e iu oca o seu nome Wilhelm po Amadeus, de o ma a homenagea o g ande composi o Wol gang Amadeus Moza . Esc e eu enquan o c í ico musical sob o pseudónimo de Johannes K eisle e iajou po á ias cidades, abalhando o a em di ei o, pa a ga an i o seu sus en o, o a em música, pa a seu p aze pessoal. Pa a além de e compos o duas sin onias, dez ópe as, e e undado uma o ques a em Va só ia, Ho mann icou conhecido ambém como um esc i o que oi busca inspi ação an o aos pensado es iluminis as, que o mo i a am numa e e na busca pelo conhecimen o, bem como aos omân icos alemães, que o ajuda am a desen ol e uma pe spec i a idealis a do p ocesso c ia i o. 10 Goldbe g, Robin Lily, Decembe 2009 9 “As compa a i e li e a u e schola Jack Zipes pu s i , Ho mann belie ed ha “each one o us is o seek as ea nes ly as possible o cap u e he exac image, which a ises wi hin him, wi h all i s shapes, colo s, ligh s and shadows, and hen, when he eels himsel igni ed by all o his, o ansmi his po ayal o he ou side wo ld” (Zipes 100).” 11 No ano de 1814 Ho mann o mou um g upo li e á io em Be lim, ao qual deu o nome de “Se apion B o he hood”, (I mandade Se apião), endo ecebido o apoio de á ios a is as com quem cos uma a euni -se, a im de discu i em jun os as ligações en e as di e en es o mas de c ia i idade. En e ou os, os p incipais memb os e am o F ied ich de la Mo e Fouqué, Adelbe on Chamisso, Ka l Wilhelm Salice-Con essa, Julius Hi zig e Ludwig De ien , e o p óp io Ho mann. Es a i mandade oi uma g ande in luência num pe íodo mui o impo an e da ida de Ho mann, oi nesse pe íodo que esc e eu o con o O Queb a-Nozes e o Rei Ra o, ob a que publicou numa coleção de qua o olumes que su giu como u o de uma colabo ação com Fouque e Con essa, em 1816, in i ulada de The Se apion B e h en. Enquan o esc e ia em Be lim, Ho mann solidi icou as suas ideias o iginando o seu “Se apion P inciple”, que se aduz num plano pa a i e de o ma plena o mundo das a es, baseando-se no p incípio de uma isão ideal que em como objec i o liga o aspec o in e no - uma an asia, humo - com um aspec o ex e no - na a i a. Ou seja, uma ap eensão simul ânea da cognição in e na e ex e na, que p e ende ans o ma as nossas imagens de expe iências in e nas em imagens ex e nas, a a és de uma o mação poé ica. al signi ica in e p e a num ex o, numa ob a li e á ia, uma an asia ou um es ado de espí i o. P e e iu ap esen a es a sua eo ia a a és de con os de adas, em ez de expo em ensaios con encionais. A pa dos con os dos i mãos G imms, Ho mann lançou os seus con os expe imen ando o Kuns ma chen, ou a e de con os, lendas, ab açando es e es ilo pa a e oluciona o géne o li e á io do con o de adas, e pa a ajuda os lei o es a olha pa a o mundo com ou os olhos. Mais à en e i emos explo a de modo mais p o undo o ema da an asia e dos con os de adas na óp ica de E.T.A Ho mann. Depois de alguma ida de a en u a, com casos amo osos en ol idos, e “com a espinal medula quase seca, já comple amen e pa alisado, acossado po edi o es e di ec o es de e is as, esmagado pelas dí idas, nos p imei os meses de 1822 ainda e e p esença de espí i o bas an e pa a di a a um sec e á io alguns dos seus esc i os e das suas melodias. O 11 Ibid 10 seu alecimen o oco eu em 25 de Junho de 1822. O une al passou absolu amen e despe cebido em Be lim, e, no en an o, a Alemanha acaba de pe de um dos seus a is as mais o iginais e de o ma imo edou a.” 12 I.2. Con ex ualização His ó ica I.2.1. P ocessos de canonização em li e a u a in an il alemã O Queb a-Nozes, que inicialmen e oi concebido como uma ob a li e á ia pa a c ianças, apidamen e oi designado como li e a u a pa a adul os, embo a con a a on ade do seu au o . Es a a i ude le ou a uma mudança na a aliação da ob a, culminando assim na sua descanonização, negando an o o seu ca ác e , como a ma é ia de lei u a, adequados pa a c ianças. Con udo, pos e io men e, di e sas adap ações, desde li os de ilus ações e bailados a é ilmes e desenhos animados, con ibuí am la gamen e pa a a econside ação des a ob a como pa e do cânone alemão de li e a u a in an il. 13 Com a e a omân ica na segunda me ade do século XIX, ge ou-se na Alemanha uma a i ude ambi alen e em elação à li e a u a in an il e ao uso inde ido de li os in an is pa a ins nacionalis as e polí icos, con ibuindo pa a uma eemen e ejeição de di e sas ob as de li e a u a in an il po pa e de p o esso es, educado es, c í icos li e á ios e académicos. Es a a i ude oi in luenciada po uma pe spec i a cen ada no adul o, conside ando-se a in ância como um es ágio de ima u idade que inha necessa iamen e que se supe a . 14 Nessa época, a li e a u a in an il alemã endia a inclina -se sob e udo pa a a li e a u a popula , embo a enham exis ido excelen es ob as dedicados pelos au o es às c ianças, como é o caso d’O Queb a-Nozes e o Rei Ra o, ou mesmo a ob a Tinko de E win S i ma e , que o am conside ados li os esc i os pa a adul os, ainda que con a a on ade dos au o es. 15 Is o de e-se ao ac o de na Alemanha daquela época e em sido de inidas qua o no mas essenciais que de e mina am a a aliação de li os pa a c ianças na his ó ia da li e a u a alemã. A p imei a (e mais e iden e) no ma, p e alecen e desde inais do século XVIII, e a a sua dimensão educacional. Ou seja, o p opósi o p incipal de cada li o pa a 12 G andes génios da li e a u a uni e sal. Ho mann. Con os, 1990 pp.9 13 G ee s, Syl ie; Bossche, Sa a Van den, Ginkgo - Academia P ess 14 Ibid 15 Ibid 11 c ianças inha de se p omo e alo es de sabedo ia, mo al, eligião e polí ica, o que ez com que os au o es de li os in an is ossem a ados como esc i o es educado es e, po sua ez, as suas ob as iden i icadas como no elas educa i as ou ob as didá icas. 16 No deco e do século XIX su gi am ou as duas no mas pa a as his ó ias li e á ias: inham de se adequadas às c ianças, endo em conside ação as suas limi ações de conhecimen o e capacidades cogni i as; e inham de se in e p e adas como um enascimen o da li e a u a olcló ica. Con udo, a maio di e ença en e li e a u a olcló ica e li e a u a in an il consis ia na a ibuição de uma inocência in an il pu a, “pu e childishness” 17 , aos li os in an is. 18 Po im, ha ia ainda uma qua a no ma que eme ia pa a a exigência da sua qualidade es é ica. No ge al, essa qualidade es é ica dos li os pa a c ianças é limi ada pela p óp ia pe cepção das mesmas, ou seja as ilus ações, po exemplo, a se em incluídas de e iam se pe ei amen e comp eensí eis. 19 Na u almen e es as qua o no mas nem semp e es a am p esen es em odas as ob as in an is, à excepção da p imei a no ma que se o nou quase como uma eg a. 20 Exis iam, assim, cinco azões pa a a ma ginalização da li e a u a in an il e pa a a ausência de li os in an is no cânone li e á io alemão. A p imei a azão de ia-se à supos a qualidade in e io da li e a u a in an il, o que en a iza a a sua con ibuição inadequada pa a o desen ol imen o do gos o li e á io da c iança. A segunda aduzia-se no ac o des a se julgada como um géne o in e io , equi alen e a uma icção le e ou li e a u a popula . Em e cei o luga , e i ica a-se a sub alo ização dos au o es de li os in an is, usando es e eó ipos nega i os. A qua a azão aduzia-se na al a de conhecimen o de alhado sob e as adições li e á ias no domínio da li e a u a in an il, azão es a o emen e ligada à quin a e úl ima, que se de ia à ca ego ização de li os in an is de al a qualidade como ob as esc i as pa a adul os, al como acon eceu com esc i o es como E.T.A Ho mann, Clemens B e ano ou Ludwig Tieck, au o es de con os de adas e que o am essenciais pa a o desen ol imen o da an asia mode na in an il. 21 16 Ibid 17 Ibid 18 Ibid 19 Ibid 20 Ibid 21 Ibid 12 I.2.2. Recepção do con o de adas de Ho mann na Alemanha Ao longo do século XIX na Alemanha não hou e g ande eação, no que diz espei o à a li e a u a in an il ao con o O Queb a-Nozes e o Rei Ra o de E.T.A Ho mann. Depois da Segunda Gue a Mundial, iniciou-se no mesmo país um enascimen o da ob a des e au o a a és, não só da ecepção e ansc ição de an asias angló onas pa a c ianças, mas ambém pelo ac o de a pa i da década de 1950 e em começado a se publicadas edições ilus adas des e con o em á ias cidades, ainda que a maio pa es delas em alemão. E assim chegamos à década de no en a do século XX na Alemanha, que ma ca o pon o de i agem pa a uma no a ecepção do con o de adas de Ho mann. Exis iam múl iplas azões pa a a Alemanha do século XIX não acei a o con o d’O Queb a-Nozes como li e a u a in an il. Em p imei o luga , a imagem ino ado a da in ância naquela época di e ia adicalmen e das imagens da in ância no início da e a omân ica, u ilizando ce os a gumen os con a a ob a, como o exigen e es ilo li e á io, uma es u u a na a i a complexa, as alusões li e á ias e o inal ambi alen e da ob a, a i mando que a o na am de uma eno me di iculdade pa a a comp eensão das c ianças. Mesmo apesa do au o conside a o seu con o como lei u a adequada pa a c ianças imagina i as, deu-se um eemen e epúdio po pa e educado es e c í icos, que se aduziu no ac o des e con o de adas não se conside ado li e a u a in an il, como i emos e lec i mais à en e. No undo, a o ma como Ho mann olha a pa a as c ianças e pa a a sua imaginação dis inguia-se das pe spec i as iluminis as, pois a essência do discu so do au o sob e a in ância consis ia em le a a sé io a pe cepção e a imaginação das c ianças, enquan o que os pensado es iluminis as in e p e a am es as capacidades como indicado es de mau compo amen o, que de e iam se mino adas. E.T.A Ho mann conseguiu desen ol e uma poé ica li e á ia in an il que en a iza a a impo ância do es anho e mis e ioso como ca ac e ís icas essenciais da imaginação das c ianças, sendo que o que le ou à ejeição do con o oi a pe u bado a ep esen ação da ida in e io de uma c iança. Da década de 1830 em dian e, os c í icos li e á ios e es udiosos ende am a e uma elação en e a ida e as ob as de Ho mann. Como es e e a conhecido pelo seu es ilo de ida excên ico, ma cado po excessos alcoólicos, mui os de seus con empo âneos a i ma am que 13 as ob as de Ho mann e le iam o seu es ilo de ida, mencionando a é que, mui as ezes, ele p óp io se assus a a com as suas ob as. 22 No en an o exis em c í icos com a opinião in e sa: “Ho mann d ank bu he was no an alcoholic. He enjoyed wine and champagne and consumed alcohol in abundance, bu we ha e no p oo ha he w o e unde he in luence. In ac , his s o ies and no els a e so complica ed ha hey demanded g ea concen a ion on his pa and he ull use o his conscious powe s as a w i e .” 23 Embo a alguns c í icos li e á ios admi issem que as ideias e o es ilo de Ho man ossem b ilhan es, alega am que o seu compo amen o e hábi os es anhos não o deixa am se o ep esen an e do oman ismo li e á io alemão. Mui os a é diziam que os abalhos de Ho mann ca eciam de e acidade e isão p o unda, que só podiam se ú eis como es udos de caso pa a médicos psiquia as. 24 E, com is o, chegou-se a uma exclusão do au o do cânone li e á io no século XIX, que du ou a é ao início do século XX, quando se começou a aze sen i o con ibu o de Ho mann na li e a u a in e nacional, e O Queb a-Nozes e o Rei Ra o oi edescobe o como sendo essencial pa a o desen ol imen o da an asia in an il mode na, endo sido mais a de ( e)publicado em mais de 30 edi o as. I.3. Diálogo In e ge acional Pa a ala sob e o público a que o con o d’O Queb a-Nozes se di ige, e is o se uma ob a que pe manece in empo al, achamos ele an e e le i sob e o e mo ge ação, uma ez que es a ob a c uza ge ações, an o den o do con o - pois a a-se de uma amília onde há adul os e c ianças, e um diálogo especí ico en e um adul o, o pad inho D osse lmeie , e uma c iança, Ma ia - como o a do con o, uma ez que é uma ob a que pode se lida po adul os, ou ida po c ianças, e assis ida e p oduzida po pessoas de qualque uma des as idades nos palcos de a es pe o ma i as. Pa a ap o unda es e e mo eco i a O ega y Gasse , que nos ala do ciclo da ida como sendo o ac o mais elemen a da ida humana, i emos e mo emos, e enquan o 22 Ibid 23 Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, 2007 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke - and-mouse-king/page/n4/mode/1up 24 G ee s, Syl ie; Bossche, Sa a Van den,Ginkgo - Academia P ess 14 es amos i os a nossa ida es á inse ida, ou en e, a ida de ou os que nos odeiam, mais elhos ou mais no os. A ida humana em semp e uma idade, po que a ida depende do empo, empo esse que não é in ini o, po isso não é imaginá io. Tempo eal que em um im, é limi ado, empo que acaba, o empo que é i epa á el, i ecupe á el. E, po isso, O ega y Gasse ala-nos sob e a idade do homem, dizendo: “Po eso el homb e iene edad. La edad es es a el homb e siemp e en un cie o ozo de su escaso iempo, es se comienzo del iempo i al, se ascensión hacia su mi ad, se cen o de él, se su é mino o, como suele deci se, se niño, jo en, madu o o anciano.” 25 Assim sendo, podemos conside a que a ac ualidade his ó ica se compõe po ês empos di e en es, que abalham e coope am em conjun o. O empo de hoje, de ago a, se e an o pa a uma c iança, como pa a um jo em, pa a pessoas de qua en a anos, e ou os de sessen a, po aí o a. Es e exemplo se e-se de idas dis in as pa a mos a que i em no mesmo p esen e. É uma unidade de idades di e en es num mesmo empo his ó ico. Todos con empo âneos, ou melho , coe âneos, pois i em no mesmo empo e ambien e - no mesmo mundo - mas con ibuindo pa a ele de o ma di e en e. Concluímos po an o que apenas coincidimos com os nossos coe âneos pois, como e emos mais à en e, se con empo âneo de alguém não em necessa iamen e de que e dize se seu coe âneo. “Si odos los con empo áneos uésemos coe áneos, la his o ia se de end ía anquilosada, pe e ac a, en un ges o de ini i o, sin posibilidad de inno ación adical ninguna.“ 26 Nes e sen ido, o conjun o de pessoas coe âneas num cí culo de con i ência o ma uma ge ação. É necessá io e a mesma idade e e algum con ac o i al pa a se c ia uma ge ação. E, uma ez que odas as ge ações êm es a dimensão empo al na his ó ia es e é um e mo in e essan e pa a es e con o po que, como i emos opo unidade de pe cebe acima, a a p ecisamen e de uma amília, com duas ge ações p esen es, a dos pais e a dos ilhos, Pa a além da amília S ahlbaum, emos as amílias da p incesa Pi lipa e a dos a os. São á ias ge ações, cada uma den o da sua ó bi a e do seu mundo ic ício, cada uma com a sua ealidade. 25 O ega y Gasse , José, Re is a de Occiden e, Alianza Edi o ial 26 Ibid 15 E é po isso que é um con o que, apesa de na sua génese se di igido a c ianças - segundo in enção do au o - qualque adul o lê e ica p eso na his ó ia, no seu en edo e na o ma como se desen ola. E aqui é in e essan e pe cebe como es e con o pode se mo i o de elação en e um adul o e uma c iança, uma his ó ia que nos az pensa e que nos dá on ade de pe cebe : como é que uma c iança a quem eu (um adul o) leia a his ó ia, i á eagi e en a des enda odo o mis é io. Iden i ica -se-á com a pe sonagem de Ma ia? E que jus i icação da á um adul o a uma c iança que não comp eenda? Es e é um dos mis é ios que o con o az, um jogo de elações en e ge ações di e en es, um con o que numa c iança az sonha e ou i sem e a p eocupação de des enda a his ó ia, ou i po encan amen o. Enquan o que num jo em g aúdo pode aze uma qualque ensão pela al a de comp eensão o al, e al ez em mais elho, e já com alguma sabedo ia dos anos i idos, a pe cepção de que na ida pode acon ece que, den o de nós, haja um uni e so imenso que nos anspo a pa a o a da nossa ealidade e es e, mas que no undo, no nosso ín imo, se unde com ela. Nes e caso, e pa a quem sen e on ade em explo a es e ex o, comp eende-se que Ma ia não é uma simples c iança doen e ou com p oblemas, pois a e dade é que den o dela exis e es a ansiedade de uma u opia, que endo anspo isso pa a a ealidade. É uma lu a de uma c iança que, ao es a a c esce , que sen i -se ou ida, uma c iança que ê a sua men e coibida e des alo izada po pa e dos que lhe são mais p óximos. Aqui encon amos a c í ica de Ho mann à educação in an il da época. Ainda mais in e essan e se o nou es e encon o de ge ações p opo cionado pelo con o de E.T.A Ho mann a a és das inúme as adap ações com ilus ações que su gi am, em especial o con o de Alexand e Dumas, que deu depois luga a um bailado. E é aqui que en am mui as adições de amílias que se deslocam sazonalmen e pa a i assis i a es a ob a, que ele a an o adul os como c ianças pa a a ealidade da an asia, e que, po momen os, pais e ilhos, a ós e ne os, ou simplesmen e amigos, expe imen am es e sen imen o de união po ins an es num uni e so dis an e, deixando-se le a pelo ma a ilhamen o p opo cionado po es a his ó ia. Sendo es a uma das g andes iquezas da a e em ge al, a união de se es a a és de algo maio do que nós, ambém aqui nes a ob a em especial, disseminada pa a á ias a es, encon amos esse esou o. 16 I.3.1. Um con o de adas omân ico pa a c ianças O o iginal alemão oi publicado pela p imei a ez em 1816 num olume in i ulado Kinde -Mäh chen (his ó ias in an is), que incluía con os de Ca l Wilhelm Con essa, F ied ich de la Mo e Fouqué e do p óp io Ho mann. A his ó ia oi pos e io men e publicada no p imei o olume da coleção do p óp io au o , Die Se apionsb üde (The Se apion B e h en) (1819-20), onde se deba eu o ac o de se ou não uma ob a adequada pa a c ianças. 27 Como e e ido an e io men e, no século XIX e XX es a ob a oi ejei ada pelos c í icos li e á ios e his o iado es, sendo conside ada uma lei u a inadequada pa a c ianças, po que a his ó ia ope a a em mais do que um ní el. Exis em aspec os da his ó ia que não se espe a que as c ianças en endam, como alusões li e á ias, uques na a i os, embo a, segundo cons a, a maio ia osse pe ei amen e comp eensí el pa a c ianças como os ilhos do amigo de Ho mann, Julius Edua d Hi zig, pa a quem a his ó ia oi esc i a. 28 O que é ão ma a ilhoso n’O Queb a-Nozes é o ac o de que a ai c ianças e adul os. Do pon o de is a do es ilo, emas e écnica na a i a, é ão bem abalhado como qualque ou o con o da au o ia de Ho mann. A única di e ença eside no aspec o de que a his ó ia se concen a p incipalmen e em c ianças e não em adul os. 29 Hoje é aclamada como um clássico in an il in e nacional. Nes e con o o au o en a e ela o mundo in e io de uma c iança o almen e imagina i a. O con o consis e numa his ó ia base onde se elacionam ês his ó ias. A his ó ia base começa na éspe a de Na al, passa-se em casa de uma amília bu guesa alemã, no início do século XIX, e a p o agonis a p incipal é uma jo em de se e anos de idade chamada Ma ia S ahlbaum, que em um i mão um pouco mais no o, Ped o, e uma i mã, Luísa, que é mais elha. Luísa desempenha apenas um papel secundá io na his ó ia, mas Ped o mos a-nos o pon o de is a de um apaz em elação aos e en os que acon ecem. Ele inco po a uma pe sonagem mais e a a e a, con as ando assim com a ime são de Ma ia na sua imaginação. O pe sonagem adul o mais impo an e na his ó ia, a igu a-cha e pa a oda a ob a, é Pa e D osselmeie , o pad inho, cujo ma a ilhoso p esen e de Na al que o e ece aos sob inhos 27 Blami es, Da id, Camb idge, 2009 h ps://lib a y.oapen.o g/bi s eam/id/99 bb264-a7c0-4b93-a6 7- d6a18b9ea38b/646695.pd 28 Ibid 29 Ibid 23 pequeno Ped o decidiu o ça o ins umen o ao pa i uma noz, acabando po c ia alguns danos no mecanismo do queb a-nozes, e assim Ma ia achou-se na ob igação de oma con a dele, depois de seu pai e no ado como icou is e com o sucedido. Depois da amília se e ecolhido pa a i do mi , Ma ia con inuou a b inca com as suas bonecas e com o queb a-nozes, e quando o elógio oca as badaladas da meia-noi e, Ma ia ê que os bonecos ganham ida, su gindo de epen e um en u ecido a o de se e cabeças co oadas p on o pa a comba e con a o queb a-nozes e os ou os b inquedos. A e o izada com es a no a si uação, Ma ia pa e o id o de um a má io magoando assim o seu b aço, mas consegue esga a o queb a-nozes e seus aliados a i ando o seu sapa o em di eção ao ei a o. Na manhã seguin e Ma ia desen ol e uma eb e aumá ica, de ele ada empe a u a, e os seus pais ecusam-se a ac edi a nos ela os que es a lhes az da sua noi e an e io . Mais a de, o ei a o az uma ameaça a Ma ia, dizendo que i ia des ui o seu que ido queb a-nozes a menos que abdicasse de odos os seus doces e p esen es de Na al. Enquan o a amília c ê que Ma ia es á apenas con usa de ido à sua sé ia eb e, o pad inho D osselmeie é o único que lhe dá algum supo e. Ele é o au o e con ado d’ O Con o da Noz Du a, que é uma his ó ia den o do con o, uma na a i a den o de ou a, e que, po sua ez, es á epa ida em ês pa es, con adas em ês noi es consecu i as, e é es a his ó ia que az a ligação en e o queb a-nozes, o ei a o e as a en u as noc u nas de Ma ia. A his ó ia in e na consis e em que, po pu a ingança pelos seus ilhos que o am mo os, a ainha dos a os ans o mou a bela p incesa Pi lipa num mons o ho í el, que só ica a anquila enquan o lhe dessem nozes pa a inca . O pai da p incesa ec u a o as ónomo da co e e o elojoei o D osselmeie pa a encon a em uma manei a de aze a beleza da p incesa Pi lipa de ol a, p ome endo o seu casamen o com o homem que a sal asse. Ao in es iga sob e a condição da p incesa, descob i am que apenas a noz dou ada, a K aka uk, i ia consegui libe a Pi lipa da sua apa ência mons uosa. A noz de e ia se incada po um jo em homem que ainda não i esse usado bo as ou ei o a ba ba. Ao im de 15 anos D osselmeie eg essa com o seu sob inho de Nu embe ga, e quando es e inca a noz dou ada anda os se e passos pa a ás, mas aciden almen e ma a a ainha a o, que lança sob e ele um ei iço ans o mando-o num queb a-nozes. Ao e o seu eio aspec o, a já boni a p incesa Pi lipa ecusa casa com ele, e acaba po expulsa an o o io como o sob inho. Es e 24 ei iço sob e o sob inho só pode ia se des uído com duas condições: o queb a-nozes inha de ma a o ei a o e conquis a o amo de uma apa iga, apesa da sua de o midade. Po isso se diz que es e con o den o da ob a é um con o de adas não adicional e que é um espelho da his ó ia p incipal, que é o ien ada pa a o amo de Ma ia pelo queb a-nozes, amo esse que queb a o ei iço do queb a-nozes e que des ina oda a ans o mação de Ma ia, que sac i ica as suas guloseimas, doces e bonecos pa a sal a o seu amigo. É o amo que ela sen e que lhe dá o ça pa a ealiza es es sac i ícios, de se despoja des es símbolos que ma cam a sua in ância. Depois de ou i es a his ó ia con ada pelo seu pad inho, Ma ia con ence-se de que o pad inho e o elojoei o, e o queb a-nozes e o sob inho ans o mado, são as mesmas igu as. Po isso, na noi e que se segue Ma ia p ome eu ao seu queb a-nozes que i ia semp e apoiá-lo, e o queb a-nozes pe gun a-lhe po uma espada com a qual eio a ma a o ei a o, o e ecendo- lhe as se e co oas do ei a o, e le a-a pa a o seu eino. Na manhã seguin e Ma ia aco da na sua cama e con a à sua amília a his ó ia das suas a en u as, mas oda a gen e pensa que o am sonhos no u nos, mesmo após Ma ia mos a as co oas do ei a o, mas o pad inho insis e que oi ele que lhas o e eceu como um p esen e de anos. Ma ia cai en ão num silêncio e deixa-se a a como sonâmbula daí em dian e. Po ém, ao pensa que disse ao queb a-nozes que se casa ia com ele, sen e um golpe e cai da cadei a. A sua mãe chega e ap esen a o sob inho do pad inho, indo de Nu embe ga, e que e ela a sua iden idade como ex-queb a-nozes, edimido pelo amo de Ma ia, pedindo-a em casamen o. Após o casamen o, le á-la-ia pa a o seu eino. 48 O Queb a-Nozes e o Rei Ra o é uma his ó ia ípica e conhecida de Ho mann, pois a ealidade e a icção es ão sepa adas po uma linha mui o énue, deixando-nos mui as dú idas sob e a on ei a en e sonho e a ealidade. Po isso, conside a-se que es e é um con o de adas di e en e, com uma b ilhan e na a i a que ela a a ans o mação de ida de uma c iança que deixa de o se na sua pleni ude, a a és de uma his ó ia de amo que a az c esce . 48 G ee s, Syl ie; Bossche, Sa a Van den, Academia P ess 25 Capí ulo II: SOBRE O CONTEMPORÂNEO “De quem e do que somos con empo âneos? E, an es de udo, o que signi ica se con empo âneo?”. É com es a ase que começa o capí ulo «O que é o con empo âneo?» de Gio gio Agamben, em O que é o Con empo âneo? E ou os ensaios. É uma pe gun a cha e pa a es a disse ação, pois o oco é p ecisamen e encon a o con empo âneo no con o d’O Queb a-Nozes. ou seja, em que medida é con empo âneo, e as p incipais e en es que assim o o nam, pa a pode analisa a pe enidade do mesmo. 49 Agamben ala-nos do concei o de es uda ex os ac uais, ecen es, ou que “dis am mui os séculos” 50 , e que em odos eles de emos consegui encon a con empo aneidade, consegui se seus con empo âneos, pois es e é o p incipal meio pa a medi o sucesso das ob as. Podemos ambém olha o con empo âneo como um objec o ou alguém que não coincide ealmen e com o empo em que lhe oi dado i e , o nando-se a con empo aneidade uma “ elação com o p óp io empo, que ade e a es e e, ao mesmo empo, dele oma dis ância (...) a a és de uma dissociação e um anac onismo”, como a i ma Agamben. “Os his o iado es da li e a u a e da a e sabem que en e o a caico e o mode no há um comp omisso sec e o, e não an o po que as o mas mais a caicas pa ecem exe ci a sob e o p esen e um ascínio pa icula quan o po que a cha e do mode no es á escondida no imemo ial e no p é-his ó ico.” 51 Ou seja, se mos con empo âneos signi ica que i emos um p esen e ao qual jamais pe encemos, enquan o olhamos pa a o nosso empo. É o encon o en e dois empos que ge a uma elação en e eles. Necessi amos de um ce o a as amen o pa a consegui mos e a nossa época, o empo que es amos a i e , é p eciso dis ancia -nos pa a consegui mos olha pa a o nosso p esen e, sendo que sabemos que é a es e empo que pe encemos e que dele não podemos ugi . É um encon o en e o ac ual e o inac ual que descob imos nes a elação de empos. Es a é a p imei a de inição de Agamben sob e o se con empo âneo, es e anac onismo do ex o e a elação única que o con empo âneo em com o empo. Des e modo, o ex o não ade e a nenhum momen o em especí ico ao longo do empo. Pa a ele, uma ob a que se 49 Agamben, Gio gio, B asil, 2009, pp.58 50 Ibid 51 Ibid 26 iden i ique em á ios aspec os com o momen o em que é esc i a, não pode ia se e dadei amen e con empo ânea, uma ez que es á mui o cen ada nesse empo, e assim não o deixa ia e como um odo, não o e ia sob odos os aspec os. Pa a o ilóso o há uma issu a no empo, e o con empo âneo pe cebe al issu a, além de ap eende o seu empo. É o sabe mos i e o nosso p esen e ap eendendo a luz no meio das suas somb as, pegando nesse nosso empo e in e ligando-o com ou os empos, pa a “nele le de modo inédi o a his ó ia, de ci á-la segundo uma necessidade que não p o ém de manei a nenhuma do seu a bí io, mas de uma exigência à qual ele não pode esponde .” 52 . Se con empo âneo não apenas no sen ido coe âneo, ou seja do nosso p esen e, do nosso século, mas sabe i e e in e p e a com os olhos de hoje as ob as passadas. Es e é um aspec o que conside amos ele an e pa a o es udo da ob a d’O Queb a- Nozes, pois o seu au o não especi ica o empo c onológico que se i e, ou seja o ano em que se passa. Nes e sen ido, ao não cla i ica a época em que se passa, é po que ce amen e omou o al de ido dis anciamen o do empo em que i ia, ao qual az uma c í ica se e a, p ocu ando c ia uma pe sonagem sonhado a que se anspo e de ge ação em ge ação a é aos dias de hoje. Há, po an o, uma cla a dis inção en e as duas pala as, con empo âneo e coe âneo, pois, se os p imei os ossem única e exclusi amen e os segundos, en ão não ha e ia quaisque possibilidades de eno ação his ó ica, não ha e ia ida na nossa his ó ia. Pois o ac o de uma pessoa se coe ânea de ou a, ou seja i e em no mesmo empo c onológico, não az delas con empo âneas. Po que, e à pa e das da as, o se con empo âneo a a-se des a elação que cons uímos en e empos. O ega y Gasse ala-nos sob e a di e enciação des as duas pala as, disc iminando-as da seguin e o ma: “Todos somos con empo áneos, i imos en el mismo iempo y a mós e a -en el mismo mundo--, pe o con ibuimos a o ma lo de modo di e en e. Sólo se coincide con los coe áneos. Los con empo áneos no son coe áneos: u ge dis ingui en his o ia en e coe aneidad y con empo aneidad. Alojados en un mismo iempo ex e no y c onológico, con i en es iempos i ales dis in os. Es o es lo que suelo llama el anac onismo esencial de la his o ia. Me ced a ese desequilib io in e io se mue e, cambia, ueda, luye. Si odos los con empo áneos uésemos coe áneos, la his o ia se de end ía anquilosada, pe e ac a, en un ges o de ini i o, sin posibilidad de inno ación adical ninguna.” 53 52 Ibid 53 O ega y Gasse , José, Re is a de Occiden e, Alianza Edi o ial 27 Como nos diz a au o a Paula C is ina Cos a em O C epúsculo do Con empo âneo, “Pa a que dois ex os possam se con empo âneos, não êm que e a mesma da a ou pe ence à mesma ge ação; pelo con á io, po ezes, quan o mais dis an es no empo c onológico, mais se podem ap oxima po pa ilha em i mos semelhan es, uma mesma o ma de pensa ”. 54 Podemos en ão pe cebe que a con empo aneidade en e um ou mais ex os não em nada que e com a con empo aneidade dos sujei os poé icos enquan o indi íduos pe encen es a um empo c onológico, pois podem dis a séculos mas e em um mesmo pensamen o ou ação ilosó ica, ou pos u a é ica ou es é ica, le ando a um encon o en e as suas ob as. 55 “En ão, ol amos à ques ão inicial: o que é que az de um poe a, ou qualque esc i o /a is a, um au o con empo âneo? E o que podemos en ende , hoje, po con empo âneo? (...) Se á con empo âneo aquele ex o ou au o que se consegue e e niza , ul apassa as ba ei as da da a em que i eu ou publicou, e que se consegue p ojec a num sem empo, num p esen e o a do empo, do aqui e do ago a”. 56 E aqui emos es a elação in empo al da ob a em es udo, um con o que, embo a não enha sido logo acei e quando oi lançado, mais a de oi comp eendido e p ese ado a é aos dias de hoje, pois p ojec a-se e adequa-se a qualque al u a, ul apassando a ba ei a da da a da sua concepção. Roland Ba hes em O P aze do Tex o explica-nos um pon o de is a de que o que dá p aze ao lei o não é o ób io, mas sim o que ica suge ido, o que nos deixa despe os. Pa a ele, o p aze que o esc i o expe imen a quando esc e e um ex o não ga an e o p aze de seu lei o , o nando o ex o um espaço de uição, dado con e o elemen o do imp e is o. Po isso o que a ai são as ince ezas ao in és do que es á ce o, ou seja, aquilo que não pode se ap eendido é o que az com que o ex o seja desa ian e. Pa a Ba hes o ex o de e ia con e duas ma gens, sendo uma delas mais sensa a, p e isí el, na medida em que u iliza a língua que se conhece, u o da con enção social; e, po ou o lado, uma segunda ma gem mó el onde oco e ia a c iação de ou os sen idos a a és da mo e da linguagem base. Jus amen e no meio des as duas ma gens encon amos, segundo o au o , a uição do ex o, e é aí que nos é e elado o alo do mesmo. 54 Cos a, Paula C is ina, Lisboa, 2020 55 Ibid pp.27 56 Ibid pp.83 28 Nes e sen ido, o ex o de e e como objec i o c ia descon o o no lei o , seja a ní el his ó ico, psicológico e cul u al, queb ando eg as p é-es abelecidas, e e endo a elação en e a linguagem e o ex o, dada a queb a de con enções. “Sade: o p aze da lei u a em e iden emen e de ce as up u as (ou de ce as colisões): códigos an ipá icos (o nob e e o i ial, po exemplo) en am em con a o; neologismos pomposos e de isó ios são c iados; mensagens po nog á icas êm molda -se em ases ão pu as que pode iam se omadas po exemplos de g amá ica. Como diz a eo ia do ex o: a linguagem é edis ibuída. O a, essa edis ibuição se az semp e po co e. Duas ma gens são açadas: uma ma gem sensa a, con o me, plagiá ia ( a a-se de copia a língua em seu es ado canônico, al como oi ixada pela escola, pelo uso co e o, pela li e a u a, pela cul u a), e uma ou a ma gem, mó el, azia (ap a a oma não impo a quais con o nos) que nunca é mais do que o luga de seu e ei o: lá onde se en e ê a mo e da linguagem. Es as duas ma gens, o comp omisso que elas encenam, são necessá ias. (...) Daí, al ez, um meio de a alia as ob as da mode nidade: seu alo p o i ia de sua duplicidade. Cump e en ende po is o que elas êm semp e duas ma gens. A ma gem sub e si a pode pa ece p i ilegiada po que é a da iolência; mas não é a iolência que imp essiona o p aze ; a des uição não lhe in e essa; o que ele que é o luga de uma pe da, é a enda, o co e, a de lação, o ading que se apode a do sujei o no imo da uição. A cul u a e o na, po an o, como ma gem: sob não impo a qual o ma.” 57 Es e é cla amen e um dos p incipais mo es do au o E.T.A Ho mann com o con o de adas d’O Queb a-Nozes, o c ia descon o o, o esc e e de o ma a não comp eende mos a o alidade do que que ansmi i . P o a elmen e o au o pode á e expe ienciado um imenso p aze ao sabe que i ia c ia no lei o uma ce a inquie ação com a sua ob a, o p aze de não coaduna com os p incípios di os consensuais da li e a u a in an il, à época. Ba hes expõe a ideia de que um ex o, pa a e qualidade, não de e se o almen e cla o, de e e momen os obscu os, sendo que é nessas somb as que es á o po encial do ex o, uma ez que não az pa e de uma ideologia dominan e, ou seja, não se enquad a num pad ão con encionalmen e já espe ado. Uma ob a de e possui locais ocul os, en anhas que pe mi am que jamais seja dominado o almen e. “Alguns que em um ex o (uma a e, uma pin u a) sem somb a, co ada da “ideologia dominan e”; mas é que e um ex o sem ecundidade, sem p odu i idade, um ex o es é il ( ejam o mi o da Mulhe sem Somb a). O ex o em necessidade de sua somb a: essa somb a é um pouco de ideologia, um pouco de 57 Ba hes, Roland. 1987 . 29 ep esen ação, um pouco de sujei o: an asmas, bolsos, as os, nu ens necessá ias; a sub e são de e p oduzi seu p óp io cla o-escu o.” 58 Mais uma ez, Ba hes pode ia es a a desc e e a ob a de Ho mann, que, den o do con o de adas p incipal, em um an i con o de adas, pois sendo pa a c ianças ala da on ade de que e ma a , de ingança, p omessas que não se cump em, a a de pe u bações de uma c iança. E que sen ido az esc e e assim pa a idades in an is? Po que, como nos diz Ba hes, é necessá io somb a, escu idão, es a dualidade en e a ealidade cla a e escu a, pois o mundo in e io de uma c iança pode se mui o mais do que aquilo que apa en a. Desc e o aqui alguns exemplos des e lado mais somb io p esen e na ob a: “No en an o, Ma ia não pôde e mina . Mal p onunciou o nome de D osselmeie , o os o do amigo Queb a-Nozes ganhou um esga demoníaco e os olhos lança am chispas es e deadas. Mas oi só po um momen o. Assim que ela p incipiou a ica assus ada, ol ou a e o os o so iden e do hones o Queb a-Nozes. O que a le ou a conclui de que inha sido o énue e ápido cla ão da lâmpada que inha dis o cido o almen e os seus aços”. 59 “O co ação de Ma ia ba ia com an a o ça de medo e de e o que ela pensou que pode ia sal a -lhe do pei o e assim i ia mo e . Mas depois sen iu como se o sangue lhe i esse gelado nas eias. Quase desmaiada, cambaleou pa a ás ou indo cli e-cli e, pu e-pu e, e, com uma co o elada sua, a id aça do a má io pa iu-se, es ilhaçando-se em mil bocados.” 60 “Os meus ilhos e os meus pa en es o am mo os. Tem cuidado, Al eza Real, em cuidado pa a que a Rainha Ra a não co e em duas a pequena p incesa, em cuidado:” 61 Vol ando ao au o Gio gio Agamben, na sua ob a sob e o con empo âneo encon amos ainda ou a de inição, a segunda, em que nos diz ambém que, (e in e ligando com es a úl ima a i mação de Ba hes), pa a se se con empo âneo, p ecisamos de e a somb a e o escu o do nosso empo. “Con empo âneo é aquele que man ém ixo o seu olha no seu empo, pa a nele pe cebe não as luzes, mas o escu o. Todos os empos são, pa a quem deles expe imen a con empo aneidade, obscu os. Con empo âneo é, jus amen e, aquele que sabe e essa obscu idade, que é capaz de esc e e me gulhando a pena nas e as do p esen e.” 62 58 Ibid 59 Ho mann, Lisboa, 2018 pp. 25 60 Ibid, pp.29 61 Ibid, pp. 52 62 Agamben, Gio gio, B asil, 2009 30 O que o au o p e ende explica -nos é que o homem não se sen e pací ico dian e do escu o. Quando Agamben diz que o poe a con empo âneo pe cebe a obscu idade, ala-nos do inap eensí el no ex o, e é nes a impossibilidade de ap eensão que se descob e o con empo âneo. O que se lê como con empo âneo pa a Agamben é aquilo que e o na semp e a um momen o inespecí ico. No seu li o O C epúsculo do Con empo âneo a au o a Paula C is ina Cos a esc e e- nos ambém sob e es a p ocu a da obscu idade, dizendo que o poe a con empo âneo “(...) não i a as cos as ao seu empo, não lhe é indi e en e, mas ul apassa-o e dimensiona-o num p esen e que, pa a além do his ó ico e do ín imo, é ambém aquilo que pode íamos designa po um p esen e ex ual; ul apassa-o di igindo-se a um lado obscu o desse p esen e, ao que não es ando à is a pode se dado a e , azido à cla idade, ans o mando em eixes de luz, que não são os do p esen e his ó ico (que o uscam), mas os do p esen e ex ual que pe manece obscu o e p e ende i à luz. Pode emos ala de um pa adoxo p odu i o que de ine o con empo âneo: ele é aquele que ê na obscu idade e que oge da cla idade o uscan e do ób io pa a se concen a e aze à luz a obscu idade p ospec i a.” 63 Nes e sen ido, Zipes explica-nos as in enções de Ho mann, que nos le am a elaciona es as duas ideias do olha pa a o nosso empo e e nele as somb as, o lado mais obscu o: “Like “Nu c acke and Mouse King” i sel , “The Ha d Nu ” is an an i- ai y ale, ha is, i is an an i adi ional ai y ale o olk ale because i is unse ling, macab e, and p o oca i e. The king and queen a e ops; hei daugh e is spoiled. The mice, who subs i u e o wi ches, ai ies, and og es, a e idiculous c ea u es. The ho o and h ea s o he mice a e ludic ous. Ho mann c ea es a pa ody o cou li e o his imes. Food and he appe i e a e he mos impo an ma e s o he king and queen, who can also a bi a ily execu e anyone hey desi e i hei subjec s displease hem. The na a o D osselmeie en e s he s o y as a is ic in en o , whose li e is endange ed because he inad e en ly causes he p incess o become ugly; and as one o he main p o agonis s o he s o y, he in oduces he double o his eal nephew, who is also o become he nu c acke . The ai y ale ends unhappily, because i can only be comple ed happily by Ma ie, bo h in he imagina ion when she sa es Nu c acke , and la e when she ma ies D osselmeie ’s eal nephew om Nu embe g.” 64 Pa a se ala em con empo âneo, e ainda apoiados sob o pensamen o de Gio gio Agamben, de emos pensa sob e a elação en e o empo e a his ó ia, que são duas concepções de ideias dis in as, po ém in e dependen es. Ou seja, o concei o de empo segue 63 C is ina Cos a, Paula, 2020 pp.40/41 64 Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, Lond es, 2007 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke -and-mouse-king/page/n4/mode/1up 31 uma concepção de his ó ia, que, po sua ez, se encon a inse ida numa expe iência com o empo que a condiciona. Po an o, pa a que se mude a pe cepção de um concei o, po exemplo, é p eciso au oma icamen e epensa o ou o. Sob e o concei o de empo, e a a és do exemplo de uma pin u a enascen is a, o au o Geo ges Didi-Hube man na sua ob a Dian e do Tempo diz-nos: “Dian e de uma imagem – não impo a quão an iga –, o p esen e não cessa jamais de se econ igu a , mesmo que o desapossamen o do olha enha comple amen e cedido luga ao hábi o en adado do “especialis a”. Dian e de uma imagem – não impo a quão ecen e, quão con empo ânea ela seja –, o passado ambém não cessa jamais de se econ igu a , pois es a imagem não se o na pensá el senão em uma cons ução da memó ia, chegando ao pon o de uma obsessão. Dian e de uma imagem, emos, en im, de econhece humildemen e: p o a elmen e, ela sob e i e á a nós, dian e dela, nós somos o elemen o ágil, o elemen o passagei o, e, dian e de nós, ela é o elemen o do u u o, o elemen o da du ação. F equen emen e, a imagem em mais memó ia e mais po i do que o en e que a olha.” 65 Quando admi amos uma ob a de a e num ce o momen o do p esen e, não nos é possí el olhá-la sob a mesma pe spec i a com que oi p oduzida pelo seu c iado . Ou seja, uma ob a con empo ânea é capaz de e o seu signi icado e o mado a qualque ins an e, sob e i endo a es e mo imen o. E es e é um pouco o papel das aduções e adap ações na ob a em es udo, que, embo a di e en e do con o inicial, eme em semp e pa a a sua o igem. Ainda que hoje não consigamos e a pe spec i a exac a com que Ho mann esc e eu, podemos obse a que pa a os á ios empos ganhou di e sos signi icados. No en an o, de emos eco da que uma peça de a e es á ambém eple a de memó ia, o que não que dize que de amos assumi uma ob a de a e como sendo um documen o his ó ico. É necessá io e o anac onismo como um elemen o essencial numa ob a con empo ânea a pa i do momen o em que se en ende que o empo, pa a a cul u a, em de se ela i izado e que há uma cons an e econs ução do p esen e den o do mundo a ís ico. Uma ob a não pa e do nada. Um a is a, po no ma, se e-se semp e da expe iência de udo o que já oi c iado a é ao momen o da concepção da sua ob a. Nes e sen ido, um ex o anac ónico é um ex o que ca ega em si, po um lado, o passado implíci o, e po ou o, um po encial de ede inição cons an e. Pa a comp eende o que é o con empo âneo, é p eciso ans o ma a elação en e as concepções de cul u a, empo e his ó ia e dissocia a ideia de a e como documen o, como um 65 Didi-Hue man, Geo ges, 2000. pp.2 32 diploma. A pa i da lei u a ei a a é aqui, cons a amos que um ex o con empo âneo é ine i a elmen e anac ónico, des inculando-se da ideia adicional de uma ob a de a e como e e ência ep esen a i a de um de e minado empo e espaço. Ou seja, o ex o que se p opõe con empo âneo, não possui uma di eção ce a ou e ada, não se e es e de uma ó mula, pois p ojec a-se num empo não especí ico. Não há p e isibilidade. É só e apenas uma en a i a de p oduzi li e a u a. Encon amos na li e a u a, po an o, duas dimensões: a do empo no qual o poema oi de ac o esc i o, e a dimensão anac ónica, que ajuda a cons ui o mações de sen ido independen es dos empos c onológicos, o que não que dize que o lei o consiga ap eende o ex o como um odo, pelo con á io, é p ecisamen e na impossibilidade de o al ap eensão do ex o que encon amos o seu po encial, o nando-o con empo âneo. Po is o mesmo, o chamado au o con empo âneo compõe a sua ob a endo em men e o al po encial do seu ex o, não se baseando apenas no que ep esen a á no momen o em que é e minado o seu p ocesso de c iação, mas ele ando sob e udo odas as pe spec i as de lei u a e comp eensão que possam i a su gi no u u o. Des e modo, é co e o a i ma que o ex o não e mina quando é concluída a sua esc i a. Assim, podemos econhece que o ex o de Ho mann, dada a sua na u eza imagina i a, oi um con o de adas que se ede iniu ezes sem con a a é aos dias de hoje, ganhando á ios signi icados, a a és das á ias adap ações que inham como objec i o um melho e mais ácil en endimen o, e i ando mui a da p o undidade que o au o o iginal lhe con e iu. O elemen o que pe manece em comum é o sonho, o desejo, a busca po um mundo u ópico, que lhe con e e o ma a ilhamen o que conhecemos. Po ou as pala as, o poe a em objec i amen e que ga an i a não ap eensão o al do ex o. Sob e o e mo con empo âneo, se o ele a mos a um concei o mui o mais amplo do que apenas o seu sen ido de coexis ência no mesmo empo, comp eendemos que é mui o mais ico. É a poesia que não se p ende a p econcei os, ó mulas ou o mas, que a isca e que não se incula a um empo c onológico. Es e é o caso de E.T.A Ho mann, ao esc e e es e con o, pois não se deixou p ende pelos p econcei os e pelas concepções da li e a u a in an il e da educação das c ianças no século XIX, c iando uma ob a que az uma es u u a ino ado a, con ando uma his ó ia den o de ou a, mos ando um lado di e en e da psicologia de uma apa iga de se e anos, e 39 II.3. A an asia e a dico omia en e o sonho e a ealidade “This was he majo con lic in many o Ho mann’s s o ies, li e in he pa adise o a e sus li e in he humd um wo ld o he philis ines.” 85 86 Pa a ala mos sob e como é que os e mos “sonho” e “ an asia” es ão p esen es nes e con o, achamos impo an e aze uma b e íssima e e ência ao géne o li e á io do con o de adas, à sua o igem e ao seu desen ol imen o, pois só assim i emos pe cebe como é que o ma a ilhamen o que encon amos nes a ob a con ibuiu pa a a disseminação e pe enidade da mesma a é aos dias de hoje. O con o de adas inicialmen e icou mui o ma cado pelo con o olcló ico o iginal e pela ideologia eudal. Um ac o bas an e in e essan e sob e o desen ol imen o his ó ico do con o popula é a manei a como oi ap op iado pelos esc i o es a is oc á icos e bu gueses nos séculos XVI, XVII e XVIII, com a expansão da publicação, le ando a um no o géne o li e á io que se pode ia jus amen e chama de con o de adas, o Kuns ma chen. Foi só na década de 1790 com Goe he, com o seu Das Ma chen, com os con os de Wacken ode , Tieck e No alis e mais a de com os de B en ano, Eichendo , Fouqué, Chamisso, Ho mann e ou os, que o e dadei o po encial " e olucioná io" do con o de adas pôde se demons ado. Uma das suas ca ac e ís icas é a ên ase no con li o en e classes, en ol endo segmen os p og essis as da bu guesia con a elemen os mais conse ado es. O no o he ói passa do p íncipe ou camponês pa a um bu guês, um a is a, um indi íduo c ia i o, que i e inúme as a en u as e encon os com o sob ena u al, em busca de um "no o mundo" onde pode á desen ol e e des u a dos seus alen os. Não é uma p ocu a po iqueza ou es a u o social (embo a a lu a de classes es eja en ol ida), mas sim uma lu a po uma mudança nas elações sociais. 87 Os con os de adas semp e se ca ac e iza am pelas suas imagens an ás icas sob e a possibilidade de c ia al e na i as u ópicas, e essa é p ecisamen e a azão pela qual as classes 85 Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, 2007 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke - and-mouse-king/page/n4/mode/1up 86 “ “Philis ines.” This was a common e m ha Ho mann and many o he s a ha ime used o desc ibe hose people who app oached li e wi h a u ili a ian and a ionalis ic men ali y, who ollowed li e acco ding o a bi a y p ecep s, and who had a na ow i no unin o med app ecia ion o he a s. In sho , hey we e supe icial and p e en ious people who lacked any ue app ecia ion o he imagina ion and he a s. Ho mann de es ed he u ili a ian na u e o he philis ines and mocked hem in his ales whene e he could.” Ibid 87 Zipes, Jack, 2013 40 sociais dominan es se sen i am incomodadas po eles, en ando desca á-los dizendo-os di e idos mas não pa a se em le ados a sé io. 88 Começando com o pe íodo do Iluminismo, o olclo e e os con os de adas e am conside ados inú eis. No en an o, a pe sis ência e a popula idade dos con os, an o o ais como imp essos, de am a en ende que o seu pode imagina i o pode ia se mais ú il do que se pensa a. E is o é p ecisamen e o que acon ece no con o d’O Queb a-Nozes, no qual i ei ago a analisa os elemen os an ás icos p esen es na ob a, que lhe con e em es e a ibu o da p ocu a po um mundo no o, que podemos elaciona com o di o sonho da p o agonis a Ma ia, que lu a pa a que os seus pais e a sua amília a comp eendam e ejam a ealidade da sua ida in e io , a al lu a den o das classes, e a p ocu a pela u opia de um luga melho . E podemos elaciona es a ansiedade p esen e no ex o com a p óp ia ida do au o que, como nos diz Zipes, i eu duas idas co po ais, a im de numa delas pode explo a es e lado u ópico: “His concep s o insani y, genius, music, hypno ism, d eam, and eali y o med a mode n aes he ic heo y, and he explo ed his unique ideas in o he wo lds ha , he insis ed, could be ound in e e yone’s imagina ion. The disco e y o hese wo lds, so he hough , could open up new is as ha would enable people o gain a deepe pleasu e o eali y. Ho mann was a man ahead o his ime, an amo al man, an aes he e, bu no a man wi hou a sense o jus ice. As a ma e o ac , his ideas o socie y and jus ice we e so ine and idealis ic ha his expe ience wi h eal socie y and jus ice as an expe in legal a ai s and as judge and counselo “sickened” him and engende ed he duali y in his li e ha he eco ded in his w i ings—Ho mann longed o li e his li e p ima ily o a , and he could ba ely ole a e he banal condi ions, mo als, and e hics o he social and poli ical o de ha he i ually se ed as a ci il se an . He led a double li e and c ea ed he Doppelgange , o double, so ha he migh esol e he spli he co po eally expe ienced. Ho mann d eamed o an ea hly pa adise, a u opia, a millennium, in which man as Homo ludens migh c ea e ( ee om ep ession) he kind o happiness we associa e wi h beau y and he sublime. The man who isks his li e o he sublime in an age o banali y— his is how Ho mann ied o ealize his own li e and a ” 89 No capí ulo “A Doença” Ma ia encon a a-se caída na sua cama doen e, após a g ande noi e de sus o, e po isso a mãe sen a-se ao seu lado pa a lhe le ou con a algumas his ó ias, e a única que o au o menciona é a do P íncipe Faka dine. Es e con o oi esc i o po An oine Hamil on (1646-1720), esc i o ancês de ascendência escocesa, cujo í ulo o iginal 88 Zipes, Jack, 2002 89 Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, 2007 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke - and-mouse-king/page/n4/mode/1up 41 é Les Qua e Faca dins 90 . Foi publicado pos umamen e em 1730, e es á incluído em duas edições alemãs dos con os de adas de Hamil on que Ho mann p o a elmen e e ia conhecido du an e a sua in ância ou ju en ude - D ei hüpsche ku zweilige Mäh lein (T ês lindas his ó ias di e idas). Es a e e ência a Hamil on e á algum signi icado, pois podemos encon a alguns aspec os do seu con o de adas que inspi a am de ce a o ma Ho mann pa a o con o d’O Queb a-Nozes. Tal ez a p imei a coisa a no a seja o ac o de que ambos os au o es azem odo um jogo com pe sonagens com o mesmo nome. Hamil on com os seus qua o Faca dins, Ho mann com o io e sob inho D osselmeie e o queb a-nozes que é mis e iosamen e alinhado com cada um deles, mas de manei as di e en es. Depois emos as pe sonagens dos dois i mãos Ped o e Ma ia S ahlbaum da his ó ia em si, e ambém o Ped o e Ma ia a que o na ado apela cons an emen e no deco e da his ó ia. Des a o ma, o con o de Hamil on pode se is o como um modelo li e á io pa a a explo ação de Ho mann no que oca ao ema da iden idade. A es u u a d’O Queb a-Nozes suge e uma sensação de múl iplas iden idades. As c ianças ao b inca em com as bonecas e soldados adop am iden idades ele an es pa a a sua b incadei a. E Ma ia adiciona ainda uma ou a dimensão a a és do mundo no u no do sonho, o que cons i ui uma ealidade maio pa a ela do que os acon ecimen os den o da amília. Mas esses mundos não são sepa ados um do ou o, pois o seu pessoal, as suas p eocupações e emoções sob epõem-se e c uzam-se en e eles. Como mui os dos ou os con os de Ho mann, O Queb a-Nozes mo e-se ápida e inespe adamen e en e a ealidade e o mundo da an asia, e o que conec a ambos é o mundo dos b inquedos e da imaginação das c ianças. O con on o en e a ealidade e a expe iência do ma a ilhamen o o na-se ambígua, pois podemos in e p e a como sendo um sonho, uma ilusão, ou mesmo como ealidade, ou como uma c ise de consciência. Pa a além disso, a ambiguidade é en a izada pelas múl iplas ans o mações dos b inquedos em se es i os, de se es humanos em b inquedos ou mesmo máquinas, e nas pe sonalidades mu an es dos p o agonis as. Aplicando ao caso do con o em causa, D osselmeie é o pad inho de Ma ia na his ó ia base, e um as ónomo na his ó ia in e na, e ainda é ans o mado como que num b inquedo em cima do elógio du an e a 90 Hamil on, An hony, Les Qua e Faca dins, A Lond es, 1776 h ps://a chi e.o g/de ails/u esducom ean o03hami/page/n7/mode/2up 42 ba alha noc u na do queb a-nozes e o ei a o. A expe iência da ealidade e a expe iência do deslumb amen o acon ecem no mundo in e io da pe sonagem eminina, e lec indo o con li o men al e psicológico em que es a i e, e o pad inho é o único que mos a alguma comp eensão pela sua si uação. Podemos, po an o, e es e con o de adas de duas o mas: os adul os podem conside á-lo um an o somb io, dado o seu ca iz psicológico incidi numa c iança de se e anos, mas pa a as c ianças é semp e um con o de adas op imis a, uma ez que a da Ma ia e mina o con o sen indo-se eliz, que é o que ai ica na memó ia das c ianças, ainda que não comp eendam na sua pleni ude a p o undidade que ca ac e iza es a pe sonagem. N '' O Con o da Noz Du a encon amos á ios elemen os que se ligam com o sonho de Ma ia, o mais ób io sendo a igu a ameaçado a da Dama Ra a ink, que se in i ula a de ainha da Ra alândia. Des a o ma es e con o encon a a sua conclusão no mundo dos sonhos de Ma ia, após ecupe a da sua lesão, ge ando-se en ão uma ligação en e a his ó ia in e na e a ex e na – que apa ecem en elaçadas. O pad inho D osselmeie consegue se g o esco e gen il, agindo de manei as que, às ezes, pa ecem c uéis e insensí eis, mas ou as ezes ambém é se ú il e di e ido. Da mesma o ma, o queb a-nozes é an o í ima quan o sal ado , idicula izado como comple amen e eio po D osselmeie , mas que deixou uma jo em apa iga apaixonada à p imei a is a. Depois de D osselmeie e mina de con a o con o, Ma ia in e io izou-o como pa e da sua an asia e sonho da lu a en e o Queb a-nozes e o Rei dos Ra os, e o pad inho diz-lhe que, al como Pi lipa , ela é uma p incesa, que só ela pode esga a o queb a-nozes, e que lhe de e se cons an e e leal. O es an e da his ó ia de Ho mann concen a-se en ão nos es o ços de Ma ia pa a sal a o queb a-nozes, de quem es á plenamen e con encida que é o sob inho do pad inho D osselmeie , e acaba assim po anspo o con o da noz du a pa a os seus sonhos e ansiedades noc u nas. Os capí ulos «O Reino dos B inquedos» e «A Capi al» são desc i os de o ma ex emamen e ea al. Quando chegam ao Lago das Rosas, Ma ia ica encan ada com os cisnes b anco-p a eados, dizendo que e a es e o lago que ela espe a a que D osselmeie lhe izesse, mas o queb a-nozes diz-lhe mui o desdenhosamen e que jamais o seu io a ia al coisa. 43 “Nes as águas g aciosas, que se ala ga am cada ez mais, o mando um as o lago, ma a ilhosos cisnes p a eados com cola es dou ados ao pescoço nada am e i aliza am uns com os ou os a can a as mais belas canções. Pequenos peixes, quais diaman es, eme giam e subme giam, como se dançassem aleg es danças num ma de osas. Ah - g i a a Ma ia en usiasmada - Ah! Es e e a o lago que o pad inho D osselmeie que ia aze ealmen e pa a mim e eu sou a apa iga que gos a de aca icia os pequenos cisnes.» O Queb a-Nozes so iu mais desdenhosamen e do que Ma ia alguma ez se inha ape cebido. Ele disse en ão: «Há um ei o de que o io nunca se á capaz mas que u consegui ás aze , que ida menina S ahlbaum. Mas não amos ago a analisa isso mui o p o undamen e. Em ez disso, amos a a essa o Lago das Rosas e amos di igi -nos pa a a capi al.” 91 Aqui emos que a posição de Ma ia ap esen a dois sen idos: é uma his ó ia sob e ela enquan o menina, mas ambém é a his ó ia que ela c ia na sua imaginação. Embo a os ela os de Ma ia à sua amília sob e o que ela expe imen ou sejam idicula izados, as imagens do país das adas ainda gi am na sua cabeça, e azem dela uma c iança ex emamen e sonhado a, e a e a dos doces que é mui o impo an e po se pa a onde se di ige após as a en u as pa a descansa e celeb a . No undo es es locais an ás icos da his ó ia ep esen am a segu ança e a es abilidade pa a Ma ia, o pa aíso, o local onde se sen e eliz e con o á el. E com es es ela os, comp eendemos que os con os de adas que em ma ca o colapso de uma es u u a do mundo do caos, da con usão, demons ando o es o ço pa a alcança um no o mundo que possa pe mi i uma maio humanização. O con o de adas é mul idimensional, hipo é ico, ic ício, e mui as ezes é di ícil dis ingui en e o i eal e o eal no con o. “Ge man w i e s and in ellec uals became p one o a me aphysical d i e o in e io ize, and he ai y ale was a sui able me apho ical mode o exp ess hei un ul illed wishes o g ea e social and cul u al eedom. Though some w i e s ook an eli is posi ion and po ayed he a is as sa io o socie y, hey all ecognized ha a new wo ld had o be o med ou o chaos, and his wo ld can be likened o a wo ld o e os, ideologically and aes he ically p ojec ed as a wo ld whe e he c ea i e na u e o all human beings is allowed ull de elopmen and whe e di e ences be ween people a e cul i a ed and espec ed. No ma e wha has become o he ai y ale, i s main impulse was a i s e olu iona y and p og essi e, no escapis , as has oo o en been sugges ed. The ealm o he ai y ale con ains a symbolical e lec ion o eal socio-poli ical issues and con lic s.” 92 91 Ho mann, E. T. A, 2018, pp.89/90 92 Zipes, Jack, 15 Dec 2013, pp.131 44 Capí ulo III: SOBRE A TRANSMISSÃO III.1. Concei o de emediação aplicado ao con o No seu li o Remedia ion – Unde s anding new media (1999), Jay Da id Bol e & Richa d G usin olham pa a a e olução dos media como espos a ao desejo de alcança uma imagem da ealidade, no sen ido de p opo ciona ao u ilizado uma expe iência psicológica dos media cada ez mais ealis a, ápida, imedia a. Tendo os no os media digi ais como pa adigma, os au o es u ilizam o concei o de emediação pa a explica o desen ol imen o dos media, no sen ido em que a sua e olução consis e numa lógica em que cada no o media su ge da emodelação de um media an e io , de o ma op imizada e ac ualizada de modo a pa ece mais eal. Po exemplo, a o og a ia é uma emediação da pin u a, assim como o cinema uma emediação da o og a ia, ac escen ando-lhe mo imen o e sono idade, a im de p opo ciona uma expe iência mais conc e a e palpá el ao público assis en e. A emediação, segundo os au o es, pode unciona da manei a in e sa ambém, no sen ido em que um media p imá io, como é o caso da li e a u a, que é uma base pa a o nosso conhecimen o e que exis e desde há séculos, pode ambém e olui e ap op ia -se de ce as compe ências de medias mais ecen es, como o cinema. Des a o ma su ge a necessidade de e lec i mos sob e a ápida sucessão de no os medias p opo cionada pela ecnologia, cada ez mais a ançada, como conseguimos e nos dias de hoje. Vi emos numa e a em que a cada minu o c iamos um no o con eúdo medial, que apidamen e conseguimos p opaga po qualque meio, po isso é impo an e es e con on o en e medias. Pe cebemos po an o que po ás de cada media es á semp e o con eúdo de ou o media, pode a é se de mais do que um, e podem su gi numa cadeia. E nes a cadeia mui as ezes que em que, na c iação dos media, não se pe ceba qualque a o de mediação. Os au o es demons am duas es a égias pa a a emediação, que são a imediação e a hipe mediação. A p imei a em como im apaga as ma cas de ep esen ação, e a segunda a a de exibi os códigos implicados nes e ac o de mul iplicação dos media. 45 A Imediação é a lógica a ibuída ao ipo de emediação que p e ende p opo ciona ao homem uma expe iência o mais imedia a possí el sob e os objec os ep esen ados. Ou seja, o sujei o que uma conexão imedia a e di e a com o media, su gindo po isso o ca á e de anspa ência da imediação. Es a anspa ência em a a és dos p og amado es e designe s que aspi am o na odo o seu abalho anspa en e, po isso, inexis en e aos olhos do usuá io, de modo a se mui o in ui i o. No undo o sujei o que u iliza o media só em acesso ao seu con eúdo, não es á minimamen e conscien e da sua o ma. Po sua ez, o Hipe Imedia ismo em como obje i o possibili a a in e ação do u ilizado com a in e ace. Os au o es denominam emedia ion como sendo a ep esen ação de um media nou o, e e e em-se à ideia de que odas os no os medias são dependen es de um ou mais medias an e io es, emodelados e econs uídos, pa a se o na em em algo no o. Nes e sen ido, não há nenhum que se c ie ou ac ue pa a além dos limi es da cul u a. O que se em de o iginal nos no os medias digi ais são os especí icos modos como eles es au am os an igos e a o ma como es es, po sua ez, se ecompõem e dão espos a aos desa ios p opos os pelos no os medias. Di e en e da emediação, que p ocu a um imedia ismo pe cep i o e/ou a e i o, a p é mediação p oduz uma a e i idade de an ecipação emediando e en os num u u o p óximo, que podem ou não acon ece . G usin ala sob e a p eocupação de que as no os mídias são pe igosas, no sen ido em que podem encaminha os indi íduos a ugi das icissi udes da ealidade pa a uma ida de sonho e an asia “Quando os p imei os omances imp essos começa am a ica disponí eis e acessí eis no século XIX, mui os adul os se p eocupa am com os jo ens que ica iam po demais en ol idos com o mundo da icção, ime sos nas páginas de seus li os a o i os, desligados das p a icidades da ida co idiana. Filmes ouxe am os mesmos eceios, da mesma o ma que a ele isão e ago a a in e ne e as mídias sociais de um modo ge al. Esse medo eco en e é uma eação que oda no a econ igu ação midiá ica ou emediação ge a em nossa elação com a ealidade; pa a aqueles não amilia izados com es as no as mídias o engajamen o a e i o po pa e (especialmen e) dos jo ens com os no os o ma os e disposi i os écnicos apa en a se uma uga da ealidade pa a o mundo da an asia e do sonho. No en an o, a gumen o que isso signi ica um ou o ipo de engajamen o com o mundo, aquele (ci ando McLuhan) que al e a a azão e não apenas nossos sen idos, que al e a nossas in e ações ine en es com ou os humanos e ambém com não humanos, com a na u eza e com os ambien es cons uídos. De a o, po con a da c escen e mobilidade de nossos disposi i os de mídia e da complexa ede deco en e no espaço geo ísico e dos obje os, nossos disposi i os de no as mídias (e a p emediação que eles ge am) 46 são menos elacionados a sonhos e an asias do que elhas mídias como omances, ilmes ou a ele isão.” 93 Po exemplo, o pe íodo de adap ação de um ex o esc i o pa a um um meio o al, é um p ocesso de emediação ca ac e ís ico dos media. E é p ecisamen e aqui que podemos encon a algumas semelhanças des e abalho em o no da emediação dos media com a ob a d’O Queb a-Nozes de E.T.A Ho mann, que começou p ecisamen e po se um con o, uma ob a li e á ia, e que oi adap ado nou a e são, e depois oou pa a uma ob a musical pa a se i um bailado, e anos mais a de a é ilmes pa a c ianças se ize am. Pa a melho comp eende como é que o pode da ansmissão e da emediação i e am, e êm, in luência na pe enidade da ob a d’O Queb a-Nozes desde a sua o igem a é aos dias de hoje, com odas as mu ações que so eu, eco i a Jack Zipes, que no seu li o B eaking The Magic Spells nos ala sob e a pe manência dos con os de adas, e nas di e sas o mas como são u ilizados e banalizados, jus i ica i a es a que consigo e e na ob a de Ho mann. Diz-nos Zipes que em qualque lado que passemos encon amos con os de adas ou mo i os dos mesmos po odo o lado: “E e ywhe e one u ns oday ai y ales and ai y- ales mo i s pop up like magic. Bookshops a e looded wi h ai y ales by Tolkien, Hesse, The G imm B o he s, Ande sen, C.S. Lewis, and sco es o sump uously illus a ed an asy wo ks. Schools and Thea e s pe o m a wide ange o spec acula ai y- ale plays o he bene i o child en. Ope as and musical wo ks a e based on ai y- ale hemes. Famous ac o s make ai y- ale eco dings o he adio and o he mass-media ou le s. Aside om he Disney in age p oduc ions, nume ous ilms inco po a e ai y- ale mo i s and plo s. E en po no ilms make lasci ious use o he Snow Whi e and he Se en Dwa s and Sleeping Beau y.” 94 Explica-nos ainda que podemos ambém encon a os con os de adas em p opagandas, deco ações de janelas, anúncios de ele isão, música de es au an e, insígnias de clubes, en e mui as ou as coisas. Na e dade, as an ás icas p ojeções dos mundos dos con os de adas pa ecem e -se o nado "in" a a és do consumo da ealidade da nossa ida quo idiana. E é possí el elaciona es e pensamen o com o meu objec o de es udo, o con o d’O Queb a-Nozes de E.T.A Ho mann, pois oi semp e mo i o de adap ações pa a as á ias 93 Co êa, Elizabe h Saad, B asil, Julho - Dezemb o 2013. 94 Zipes, Jack, 2002, pp. 1 47 a es, pa a p opagandas, sob e udo na alícias, pa a b inquedos, pos e s, peças de indumen á ia, mais uma ez sob e udo na época do Na al, assim como bens domés icos, ais como peças de deco ação com mo i os des e con o, seja num simples u ensílio pa a queb a nozes, ou elemen os deco a i os de uma á o e de Na al, po exemplo. Embo a odos es es meios enham uma as a in luência em o na os con os de ada p esen es, pois azem com que es ejam semp e debaixo dos nossos olhos, anspo ando-nos pa a a his ó ia que es á po ás e que deu o igem a odos es es bens, o po encial emancipa ó io es e icamen e concebido nos con os olcló icos e de adas a amen e é aduzido nes as ações sociais, de ido à sua na u eza imaginá ia de c ia ou os mundos melho es e ic ícios, que ca egam semp e um signi icado mais p o undo do que aquele que é possí el ansmi i po es es meios ão mais mundanos. “Thus, he emancipa o y po en ial aes he ically concei ed in he olk and ai y ales is a ely ansla ed in o social ac ion, no can he ales nu u e su icien discon en o make hei e ec s easonably ce ain. This is no o say ha olk and ai y ales we e always de eloped wi h “ e olu ion” o “emancipa ion” in mind. Bu , inso a as hey ha e ended o p ojec o he and be e wo lds, hey ha e o en been conside ed sub e si e, o , o pu i mo e posi i ely, hey ha e p o ided he c i ical measu e o how a we a e om aking his o y ni o ou own hands and c ea ing mo e jus socie ies.” 95 Assim como an os meios a esanais cujos meios de p odução êm sido comandados pela ecnologia, a lenda popula e o con o de adas, na maio ia de seus géne os adicionais, o na am-se numa me cado ia de comé cio, a ancada p ema u amen e do ambien e sociocul u al em que lo esce am. Po isso, as c ianças sujei as aos p econcei os da escola ização e aos massi os modos de en e enimen o, não que em ou i his ó ias que possam di e gi das e sões "co e as", e, po sua ez, os seus educado es, emendo o ende a complexa psicologia do desen ol imen o da c iança, p e e em con ia em edições mode nas dos con os, uma ez que as his ó ias o iginais se o nam demasiado pesadas e complexas. Um exemplo pe ei o de odas es as ans o mações, po meio mediá icos, é o con o d’ O Queb a-Nozes e o Rei Ra o, que so eu di e sas mu ações a é aos dias de hoje, a im de se o na algo mais acessí el e de ácil comp eensão, que não exija g ande pensamen o c í ico, pois o que se p e ende com a sua popula ização é i ao encon o de um momen o de p aze . Aqui o inimigo, po an o, é o p o incianismo his ó ico, a a i ude de ingi que os olhos e os ins in os se ão su icien es pa a ganha uma comp eensão da li e a u a de con os de adas, 95 Zipes, Jack, 2002, pp.3 48 quando na e dade, ao le um con o de adas, de e íamos es a mais ale ados pa a a e dade po ás do con o, pa a a p o undidade que aca e a, e is o só se consegue lendo e elendo, ou indo, e endo e e endo á ias ezes, o con o, o ilme, o espec áculo. Em suma, podemos conclui es e capí ulo cons a ando que, à medida que se in en am no os meios ecnológicos de mass media, ai-se inco po ando neles o con o de adas como um p odu o cul u al que se e pa a omen a o c escimen o do en e enimen o come cial, explo ando as múl iplas manei as pelas quais a an asia pode ape eiçoa a ecnologia de comunicação, sendo que ambém se pe cebeu que os e ei os da an asia podem se in ensi icados a a és da ecnologia. Te mino es e pa ág a o com uma ci ação de Jack Zipes, “All he abo e endencies ha e been ope a i e in di e en o ms o mass-media ed cul u e in he wen ie h cen u y. I we we e o ake he da es o key echnological in en ions such as pho og aphy (1 839), eleg aph (1 844), elephone (1 876), phonog aph (l877), mo ion pic u es (1891), adio (1906), ele ision (1923), sound mo ion pic u es (1927), in e ne (1983), and digi al imaging, we could ace how each new in en ion enabled he mass media o u ilize he ai y ale along wo b oad dominan lines: (1) o he nega i e pu pose o a i ming he in e es s o he cul u e indus y o cu ail ac i e social in e change and make audiences in o passi e consume s; (2) o he posi i e pu pose o communica ing and uni ying cul u al p oduc s o an asy necessa y o de eloping a mo e humanis ic socie y and o s imula ing audiences o play an ac i e ole in de e mining he des iny o hei li es. Needless o say, he ins umen aliza ion o he ai y ale and an asy ia he mass media has e ol ed commensu a ely wi h he powe and g ow h o e ec i e con ols in he in e es s o he cul u e indus y. (...) I was he adio, hen mo ies, and ul ima ely TV which we e able o d aw oge he la ge g oups o people as he o iginal olk- ale na a o s did and o ela e ales as hough hey we e de i ed om he poin o iew o he people hemsel es. Mass-media ed ai y ales ha e a echnologically p oduced uni e sal oice and image which impose hemsel es on he imagina ion o audiences” 96 96 Zipes, Jack, pp.19-20 55 Ande son. Também es a e são elimina odo e qualque es ígio da sua o igem alemã, sendo que nem mesmo a capa az e e ência ao au o o iginal, apenas a es e adu o . Nes e ex o, as duas c ianças passa am a chama -se Dick e Molly. Mais uma ez, a i mã mais elha não é mencionada, o pad inho D osselmeie o nou-se no io Ch is ophe , a amília não inha nenhum apelido, o que e a um po meno de des aque no con o o iginal, e ambém não há nenhuma localização especi icada, en e mui os ou os aspec os que não deixam cla o que enha sido uma adap ação a pa i do con o o iginal. Em suma, não hou e assim mui as mais aduções do con o o iginal, uma ez que os adu o es de li e a u a in an il p ocu a am essencialmen e ob as de ca iz educacional, ca ego ia es a onde a ob a de Ho mann não se enquad a a, endo ido algumas aduções como con o pa a idade adul a. Em suma, podemos conclui que a mesma ob a de a e pode se di e en e em di e sos empos his ó icos, pois em cada empo os lei o es podem consegui encon a elemen os di e en es, e da alo ou des alo iza aspec os dis in os. Na sua ob a Teo ia da Li e a u a, Te y Eagle on ala-nos sob e es a p oblemá ica em o no das aduções e adap ações de ob as li e á ias: “Assim como uma ob a pode se conside ada como iloso ia num século, e como li e a u a no século seguin e, ou ice- e sa, ambém pode a ia o concei o do público sob e o ipo de esc i a conside ado como digno de alo . A é as azões que de e minam a o mação do c i é io de alioso podem se modi ica . Isso, como disse, não signi ica necessa iamen e que enha a se ecusado o í ulo de li e a u a a uma ob a conside ada meno : ela ainda pode se chamada assim, no sen ido de pe ence ao ipo de esc i a ge almen e conside ada como de alo . Mas não signi ica que o chamado "cânone li e á io", a "g ande adição" inques ionada da "li e a u a nacional", enha de se econhecido como um cons u o, modelado po de e minadas pessoas, po mo i os pa icula es, e num de e minado momen o. Não exis e uma ob a ou uma adição li e á ia que seja aliosa em si, a despei o do que se enha di o, ou se enha a dize , sob e isso. "Valo " é um e mo ansi i o: signi ica udo aquilo que é conside ado como alioso po ce as pessoas em si uações especí icas, de aco do com c i é ios especí icos e à luz de de e minados obje i os. Assim, é possí el que, oco endo uma ans o mação bas an e p o unda em nossa his ó ia, possamos no u u o p oduzi uma sociedade incapaz de a ibui qualque alo a Shakespea e. (...) O a o de semp e in e p e a mos as ob as li e á ias, a é ce o pon o, à luz de nossos p óp ios in e esses - e o a o de, na e dade, se mos incapazes de, num ce o sen ido, in e p e álas de ou a manei a - pode ia se uma das azões pelas quais ce as ob as li e á ias pa ecem conse a seu alo a a és dos séculos. Pode acon ece , é cla o, que ainda conse emos mui as das p eocupações ine en es à da p óp ia ob a, mas pode oco e ambém que não es ejamos alo izando exa amen e a "mesma" ob a, embo a assim nos pa eça. O "nosso" Home o não é igual ao Home o da Idade Média, 56 nem o "nosso" Shakespea e é igual ao dos con empo âneos desse au o . Di e en es pe íodos his ó icos cons uí am um Home o e um Shakespea e "di e en es", de aco do com seus in e esses e p eocupações p óp ios, encon ando em seus ex os elemen os a se em alo izados ou des alo izados, embo a não necessa iamen e os mesmos. Todas as ob as li e á ias, em ou as pala as, são " eesc i as'', mesmo que inconscien emen e, pelas sociedades que as lêem; na e dade, não há elei u a de uma ob a que não seja ambém uma " eesc i u à'. Nenhuma ob a, e nenhuma a aliação a ual dela, pode se simplesmen e es endida a no os g upos de pessoas sem que, nesse p ocesso, so a modi icações, al ez quase impe cep í eis. 109 Concluímos en ão que a ob a o iginal Nussknacke und Mausekönig de E.T.A Ho mann so eu mui as ans o mações, desde a sua o igem a é aos nossos dias. A pe cepção de um lei o da época em que oi esc i o, no século XIX, se ia comple amen e di e en e da de um lei o do p esen e século XXI, pois o alo da ob a ambém se ans igu a ao longo do empo. E po isso mesmo emos que oi um con o de adas ino ado e com uma base c í ica à bu guesia da época, e hoje em dia é simplesmen e um con o de adas mágico e simbólico de Na al. Quem o explo a a undo en a á comp eende o que é que Ho mann en a ansmi i com ele, mas não é essa a azão p incipal pa a se man e p esen e nos dias de hoje. Hoje O Queb a-Nozes é ido como uma adição de Na al ma a ilhosa. III.2.2. Música e Bailado As sin onias e os bailados de Pyo Ilyich Tchaiko sky con ibuí am la gamen e pa a as a es da música e do bailado, sendo que mui as das suas ob as são is as como um p incipal elo de ligação en e a música omân ica e o bailado clássico. Os ês bailados compos os po Tchaiko sky são, po o dem de publicação, o Lago dos Cisnes, A Bela Ado mecida e O Queb a-Nozes, os quais são amplamen e econhecidos po músicos e baila inos. Os desen ol imen os nes a elação in e a es p óp ia do bailado, pela associação en e a música e a dança, le ou a uma colabo ação en e composi o es musicais e co eóg a os, no inal do século XIX. Nes e caso, cons a amos a elação en e Tchaiko sky e os co eóg a os Ma ius Pe ipa e Le I ano e, cuja colabo ação pe mi iu o desen ol imen o dos ês bailados clássicos mencionados acima, em que cada um ep esen a pon os de i agem e de ino ação. 109 Eagle on, Te y, 2006, pp.17 h ps://in e a esu gd. iles.wo dp ess.com/2016/05/eagle on- eo ia-da- li e a u a.pd 57 Pyo Ilyich Tchaiko sky nasceu a 25 de Ab il de 1840, em Vo kinsk, na Rússia, e mo eu em São Pe e sbu go, no dia 25 de ou ub o de 1893. É ainda hoje conside ado um dos composi o es mais concei uados de odos os empos, endo uma as íssima ob a musical que se e es e de melodias le es, com ha monias e o ques ações i as e pi o escas, que po no ma ag adam o público em ge al, pois e ocam uma espos a emocional p o unda, ão ca ac e ís ica do pe íodo musical Român ico. O bailado O Queb a-Nozes, iquíssimo no que às ex u as músicas diz espei o, es eou no dia 06 de dezemb o de 1892, no Ma iinsky Thea e em São Pe e sbu go, na Rússia. Em elação à ob a musical, na sua qualidade de au o a c í ica de dança Jenni e Fishe ala-nos da possibilidade da ida emocional de Tchaiko sky e a e ado a sua a i ude em elação à sua composição, pois nesse pe íodo passa a po uma ase complicada com a mo e da sua i mã, acon ecimen o que al ez possa jus i ica o ac o de, no inal do segundo ac o, su gi um adágio sé io que desa ia a mo e do g and pas de deux 110 . Apesa do composi o inicialmen e e e i em ca as a amilia es que es a ob a não es a ia ao ní el do bailado A Bela Ado mecida, no inal de udo o mais p o á el e a e noção de que compôs uma ob a musical oní ica, eple a de beleza, uma ez que na p ima e a de 1892 incluiu num p og ama onde p es ou colabo ação algumas passagens des e seu bailado, a quais o am ex emamen e bem ecebidas. Os bailados de Tchaiko sky e es em-se de uma ealidade anscenden e, e como lemos no li o de Fishe , a ob a O Queb a-Nozes pode se conside ada um Duma, concei o que se de ine como sendo algo en e o de aneio e a medi ação, pe mi indo que a an asia pene e na ealidade, dissol endo as dis inções en e o que é eal e o que a nossa imaginação en ende que é e dade. A a és da audição des a ob a, é possí el que en emos numa a mos e a em que quase sen imos que es amos a e , a oca , deixando-nos ele a po uma expe iência imaginá ia. 111 Os ealizado es des e bailado inham como objec i o p oduzi um balle - ée ie, ou seja um bailado de ma a ilhamen o. A a és da música, da ac uação de espec áculo e da 110 “O pas de deux, um e mo usado sob e udo no uni e so da dança clássica, e e e-se a uma o ma co eog á ica dançada po um pa he e ossexual, cuja sequência, al como oi codi icada po Ma ius Pe ipa (c . Ga a ola, 2007, p.159), exp ime o desen ol imen o e o climax da elação en e os dois. O pas de deux começa com a en ada do pa e uma dança em que há con ac o e in e ação en e os dois elemen os. Seguidamen e cada um deles execu a uma a iação e um coda. (...) O pas de deux culmina com uma no a sé ie de mo imen os ealizada pelo pa cujo en ol imen o exp ime a in ensidade da i ência amo osa” (Fazenda, Ma ia José, 2018, pp.112). 111 Fishe , Jenni e , 2003, pp. 187 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke na ion00jenn/mode/1up 58 dança, o composi o e os co eóg a os quise am coloca epe idamen e o público numa posição de admi ação, con emplação, assomb o, obediência e e e ência, assemelhando-se à igu a de Cla a. Pa a es e e ei o, o bailado e es e-se de momen os d amá icos, com queb as ma cadas - como uma epen ina mudança de cená io, po exemplo, pa a ans o nos eais, como um pesadelo de uma ba alha. Apesa da sua apa en e le eza, es e bailado p omo ia uma expe iência es é ica que con ibuía pa a uma ep esen ação do pode impe ial da Rússia cza is a do inal do século XIX. O Queb a-Nozes, po an o, p omo eu uma cul u a de co e a a és de um pano ama do an ás ico e do nacionalis a, incluindo a é nos cená ios, moldando o público no sen ido de lhes impu a uma comp eensão absolu is a do pode . Tal apelo ao sen imen o nacionalis a coaduna-se, aliás, com a endência da época pa a que as a es exp essassem a g andeza da pá ia – algo que aliás é no ó io na inclusão de elemen os adicionais e olcló icos no p óp io bailado. A a és de e en os mágicos e espec áculos isuais inspi ados em con os de adas, o úl imo bailado de Tchaiko sky o mou como que um cená io de pode . Nes e bailado deu-se a ep esen ação da ha monia en e nações com polí icas opos as, como a p imei a epública ancesa e um mundo a is oc á ico de ca iz an ás ico. T a a-se de uma ep esen ação de elações in e nacionais, supondo-se que os c iado es des e espec áculo de am o seu con ibu o pa a c ia um clima en e a co e e a sociedade de São Pe e sbu go, endo em men e a ideia de uma aliança com a F ança epublicana. Assim, o ac o de o bailado O Queb a-Nozes u iliza um enquad amen o de e en os con empo âneos, à época, ans o mados em con os de adas, ez com que se o nasse uma ob a memo á el, con ibuindo a é pa a cená ios de e en os co po a i os impo an es. Es a sua p imei a apa ição inha ma cada an o po e e ências do bailado omân ico, como po es as da co e, mos ando a dualidade en e a icção e a ealidade, e ambém en e o passado e o p esen e. O Queb a-Nozes e o Rei Ra o não se ia acilmen e adap ado pa a o bailado, pois o en edo con ém mui os lapsos empo ais en e as á ias his ó ias p esen es. Logo, oi necessá io um g ande abalho pa a es e e ei o. No en an o, depois da es eia do bailado O Queb a-Nozes, é possí el que lei o es do con o de Ho mann enham achado que o balle não log ou cap u a a essência da ob a. “Fans o Ho mann 's s o y hough he balle ailed o 59 cap u e i s mood, and lacked d ama ic cohe ence” 112 , alegando que a ansição da sala de es a pa a o mundo da an asia é mui o ab up a. Sabe-se aliás que a eacção inicial dos c í icos ao bailado oi nega i a, não pela música, que oi elogiada, mas pelo ac o de a his ó ia em si abdica de um io condu o que lhe desse sen ido. Mas uma coisa em comum podemos semp e iden i ica : man ém i a a imaginação do lei o ou espec ado . Na sua in odução ao con o d’O Queb a-Nozes, Jack Zipes começa po esc e e a seguin e ase: “The p emie e o he balle a he S . Pe e sbu g Impe ial Thea e in 1892 ecei ed mixed e iews, and hough i con inued o be pe o med in he ea ly pa o he wen ie h cen u y h oughou Eu ope, The Nu c acke was no all ha popula wi h audiences o wi h dance s. No had i e e been conside ed a a o i e o child en o amilies. The lib e o, which was al eady an adul e a ion o he ales by Dumas and Ho mann, was o en sho ened, al e ed, and cho eog aphed a new by he di e en companies ha pe o med he balle so ha he ull balle was a ely pe o med. I was no un il 1944, when Willam Ch is ensen p oduced he i s ull- leng h p oduc ion o The Nu c acke in San F ancisco, ha he balle began o ecei e he a en ion i needed o become he classical i ual i is oday.” 113 Tal como se deu no campo da li e a u a, ambém o lib e o u ilizado pa a es e bailado oi uma adap ação do con o o iginal, sendo que se baseia essencialmen e na e são li e á ia de Alexand e Dumas, po es a se mais aleg e e desp eocupada, o que es a ia mais alinhado com o ambien e de con o de adas que se p ocu ou p omo e no bailado. E po isso, deu luga a mui as ou as adap ações, a é aos dias de hoje, semp e com o seu ca isma an ás ico, e ep esen ado na época do Na al, sendo que há ainda ou o aspec o que o o nou semp e i o, a sabe , o ac o de pode se não só assis ido, mas ambém ep esen ado po c ianças, c iando um clima p opício pa a planos amilia es. “Ch is ensen had been in ouch wi h he b illian Russian cho eog aphe Geo ge Balanchine, who had ad ised him o s age he en i e balle in his o iginal way; and Ch is ensen, soon ealizing i s po en ial as a moneymake and c owd please o amilies, g adually began epea ing i annually du ing he Ch is mas pe iod. Balanchine ollowed sui in 1954 wi h his own unique spec acle in New Yo k, and since ha ime no a win e season goes by when The Nu c acke is no pe o med h oughou he Uni ed S a es and o he coun ies in a ious o ma s. No only has he balle been adop ed by Ame icans o hei Ch is mas celeb a ion as a i ual o middle-class audiences, especially young gi ls (as has Cha les Dickens’s A Ch is mas Ca ol), bu i has also been adap ed o anima ed and li e-ac ion ilms, and he e a e nume ous ideocasse es and DVDs ha o e eco dings o li e 112 Fishe , Jenni e , 2003 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke na ion00jenn/mode/1up pp.16 113 Ho mann, E.T.A, Dumas, Alexand e, in odução de Jack Zipes, Penguin Books, Lond es, 2007 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke -and-mouse-king/page/n4/mode/1up 60 pe o mances by amous Eu opean and Ame ican companies. All so s o a i ac s ep esen ing he wooden nu c acke ha e been manu ac u ed, and he nu c acke has been ans o med in o a cha ming secula icon ep esen ing he joy ul ad en o he Yule ide season.” 114 No en an o, o lib e o do bailado o iginal segue o con o de Ho mann essencialmen e no seu p imei o ac o, compos o pela es a de Na al e pela cena da ba alha. No segundo ac o, dedicado à e a dos doces, o bailado a as a-se subs ancialmen e do con o o iginal, ocando-se sob e udo no alen o a ís ico dos baila inos. A pa i da segunda me ade do século XX, de en e as á ias e sões de co eog a ia p oduzidas pa a o bailado d’O Queb a-Nozes nos Es ados Unidos da Amé ica, cinco são des acadas po Robin Lily Goldbe g, e que que emos e e i de seguida. A p imei a, inaugu ada em 1954, oi a do co eóg a o Geo giano-Ame icano Geo ge Balanchine 115 , o qual ouxe sensibilidades ame icanas pa a a dança no sen ido de alcança uma maio ligação com aquela audiência. Desde en ão, o balle po ele undado – New Yo k Ci y Balle – ep esen a O Queb a-Nozes odos os anos na época na alícia. A e são de Balanchine é, aliás, ida po mui os como aquela que se e de compa ação a odas as que lhe segui am. Des acamos ago a duas p oduções. A de Ma k Mo is 116 , in i ulada The Ha d Nu , oi c iada a pa i da linguagem da dança con empo ânea, ca ac e izando-se pelos cená ios de e o do a is a Cha les Bu ns, sendo que a p odução de Ken S owell, do Paci ic No hwes Balle , ouxe pa a o palco cená ios e es uá io do ilus ado Mau ice Sendak. Ambas as e sões se apoia am no con o de Ho man, em de imen o da e são de Dumas. No caso da e são do Paci ic No hwes Balle , não só os cená ios de Mau ice Sendak o am publicados na o ma de ilus ações num li o do con o 117 , mas ambém o p óp io balle oi ans o mado num ilme, em 1986 118 . Ma ia José Fazenda em Da Vida da Ob a Co eog á ica (2018) aça uma associação en e o bailado The H d Nu de Ma k Mo is e Queb a Nozes Queb a Nozes da nossa Companhia Nacional de Bailado, explicando que as ob as em ques ão se i am pa a apela à 114 Ibid 115 The Nu c acke ® | New Yo k Ci y Balle (nycballe .com) 116 The Ha d Nu (ma kmo isdanceg oup.o g) 117 Nu c acke by E.T.A. Ho mann (good eads.com) 118 h ps://www.imdb.com/ i le/ 0091658/ 61 maio consciencialização de ques ões con empo âneas à da a da sua es eia, como a eminilidade e masculinidade, assim como a sexualidade. Finalmen e, na década de no en a, assis imos à ansmissão des e bailado como o ma de exp essão de ou as cul u as, já mui o dis an es da Alemanha do início do século XIX. No caso de Donald By d em 1996, a ou-se do The Ha lem Nu c acke , onde a his ó ia oco e num meio A o-Ame icano e em que são ansmi idos os alo es dessa comunidade 119 . Po exemplo, po o ma a da ên ase à igu a da a ó, conside ada impo an e pa a aquela comunidade, a p óp ia Cla a deixa de se uma jo em pa a passa a se a ó, sendo os cená ios as suas memó ias do passado, numa lógica de lashback. Também a música já não é a de Tchaiko sky, pa a passa a se uma e são de 1960 in i ulada The Nu c acke Sui e e compos a po Duke Ellig on e Billy S ayho n 120 , ambos nomes amosos do mundo do jazz. Já o co eóg a o Chinês-Ame icano Michael Mao p oduziu o Fi ec acke , que ambém não a a a his ó ia do con o o iginal, mas sim a de dois jo ens que emba cam numa iagem de Shangai a é No a Io que. Inspi ado na his ó ia de ida de Mao – que inclusi amen e chamou a es e bailado de O Queb a-Nozes imig an e 121 – o Fi ec acke combina a música de Tchaiko sky com peças de música adicional ípicas das geog a ias po onde a his ó ia oco e 122 . No undo, es e bailado em sido e abalhado “po á ios co eóg a os, em di e sos países, in oduzindo-se a iações em algumas das danças, pe sonagens e suas acções” 123 , como nos diz Ma ia José Fazenda. Es a au o a e e e ainda que em Po ugal a p imei a e são des e bailado deu-se no ano de 1984 po A mando Jo ge, e em 2003 e e luga a e são de Mehe Balkan. Embo a exis a uma eno me a iedade de bailados d’O Queb a-Nozes, exis e uma pe se e ação da o dem da na a i a, “uma o ganização da o ma co eog á ica-musical e concepções es ilís icas anco adas na dança clássica” 124 que azem com que se iden i ique cada espec áculo p oduzido como sendo uma a iação do mesmo balle O Queb a-Nozes. 119 The Ha lem Nu c acke - Spec um Dance Thea e 120 Ibid 121 <i>Fi ec acke </i> o Be S aged in Beijing (china.o g.cn) h p://www.china.o g.cn/english/cul u e/51061.h m 122 Ibid 123 Fazenda, Ma ia José, 2018, pp.110 124 Ibid 62 “O Queb a-Nozes, à semelhança de an os ou os clássicos, em pe sis ido nos palcos, apesa das ein e p e ações de que em sido al o, e g aças às mesmas, não obs an e as ans o mações que o êm econ igu ado, e com o con ibu o des as, mas mo endo-se no in e io de de e minadas con enções que iden i icam o mundo do balle , e que pe mi em não só a coope ação en e odos os que dele pa icipam como agen es como ambém o es abelecimen o de uma ligação do público com a ob a.” 125 125 Fazenda, Ma ia José, 2018, pp.114 63 Capí ulo IV: ESTUDO PRÁTICO IV.1. Análise de Inqué i o Pa a consegui jus i ica e dadei amen e o es udo que expus a é aqui elabo ei um ques ioná io a a és dos o mulá ios google onde p ocu ei pe cebe se as pessoas conhecem a his ó ia o iginal do Queb a-Nozes, explo ando um pouco ambém as e en es a ís icas do bailado e do cinema, e minando com uma ques ão sob e o con empo âneo. U ilizei es a pesquisa quan i a i a explo a ó ia pa a comp eende um pouco melho a elação do público com es e con o. Com es e ques ioná io ob i e um o al de 157 espos as indi iduais, sendo que nem odas as pessoas esponde am a odas as pe gun as. Como podemos pe cebe pela imagem, o inqué i o a ingiu um público maio i a iamen e eminino, com 70,7% das espos as. De seguida, começa a secção sob e a li e a u a, onde coloquei a ques ão de se alguma ez le am o con o O Queb a-Nozes e o Rei Ra o de E.T.A Ho mann, e logo de seguida, pa a e uma noção de se as pessoas conhecem uma e são mais p óxima do o iginal ou uma adap ação, pedi que indicassem qual o nome da pe sonagem p incipal da his ó ia, dando as opções de Ma ia e Cla a. Como podemos obse a , a maio ia das pessoas indica que não leu nunca o con o, com uma pe cen agem de 72,6% pa a a espos a não, e uma eduzida amos a de 27,4% que diz e lido a his ó ia. Mas com a pe gun a seguin e, sob e o nome da pe sonagem p incipal, e i ico que a maio ia das pessoas não conhece o con o inicial de E.T.A Ho mann, pois Cla a é o nome da pe sonagem p incipal numa e são adul e ada do con o, a que se con a no bailado, sendo mui o p o á el que conheçam uma e são mais p óxima da de Alexand e Dumas, pois oi a que se iu de base pa a a c iação do Bale . Fig.1 Fig.2 Fig.3 64 A im de e e mais in o mação sob e o diálogo in e ge acional, an o na secção da Li e a u a, como na do Bailado e Cinema coloquei a ques ão de se alguma ez le am ou i am o Queb a-Nozes com ou a c ianças. A maio ia das espos as em elação ao con o li e á io é nega i a, com apenas 22 pessoas que esponde am que sim, já le am o con o a c ianças, o que ep esen a 16,1% numa amos a de 137 espos as a es a pe gun a. Os es an es 83,9% indicam que não le am o con o a nenhuma c iança. De seguida, ainda sob e as c ianças. ques ionei se es as inham comp eendido o en edo, ap esen ando uma escala de 0 a 5, em que 0 co esponde a “não, de odo”, e 5 “sim, pe ei amen e”, e o g á ico, com um o al de 24 espos as (uma ez que apenas 22 inham espondido que já inham lido a his ó ia a c ianças) demons a que mais de me ade colocou a sua espos a no ní el 3, e de seguida sob essai logo o ní el 5. Ou seja, podemos deduzi que os inqui idos não se quise am comp ome e em elação à o al ap eensão do ex o po pa e das c ianças, o que se pode conside a comp eensí el, pois é um con o pa a se le e ele , e à medida que se c esce ai-se no ando cada ez mais aspec os, que não são assim ão anspa en es quando emos uma men alidade in an il. Iniciada a secção do Bailado, depa amo-nos com uma eno me di e ença em elação ao con o li e á io, pois pe cebemos que uma g ande pa e das pessoas conhece o con o a a és do bailado, como já e a de espe a . Se na li e a u a i emos uma pequena quan idade de pessoas que le am o con o, des a ez encon amos uma maio ia que já iu o bailado do Queb a-Nozes, com uma pe cen agem de 66,7% de um o al de 147 espos as a es a pe gun a. Fig.4 Fig.5 71 soldados) e o mal ( ep esen ado pelo ei dos a os e a sua b igada de oedo es); a alo ização do núcleo amilia e a cons i uição do casal como momen o de i ência ha moniosa.” 128 Pode dize -se que odos os con os, po na u eza, êm po encial pa a se o na ac uais e se con empo âneos, na medida em que le am o lei o a expe iencia um mundo que é consis en e e acional a a és da an asia. Is o pe mi e que o au o iden i ique nesse mundo an ás ico o mundo eal e, consequen emen e, o empo em que i e. E po im, nunca é demais ou i e e ob as de composi o es in empo ais, como Tchaiko sky, que é um clássico e uma inspi ação pa a an os, e que oi o p incipal mo i o de di usão do con o o iginal de E.T.A Ho mann, a a és do bailado O Queb a-Nozes. Em suma, es as á ias ea aliações da ob a o iginal esul am necessa iamen e em di e en es análises em que algum aspec o pode á sob essai . Se em alguns casos o alo es é ico pode á ocupa o p imei o luga (e.g. eja-se o bailado o iginal da dupla Pe ipa/Tchaiko sky), nou os a lei u a polí ica e social u iliza ão a ob a como o ma de media de e minada concepção da ealidade (e.g. eja-se as adap ações do bailado a pa i dos anos 90). No caso acima mencionado de Geo ge S eine (1987), o c í ico li e á io analisa qua o in e p e ações de An ígona, en e elas as dos au o es Hegel, Goe he e Hölde lin, na quais iden i ica e analisa di e enças ele an es ao ní el da abo dagem e da in e p e ação ilosó ica da ob a. Assim, o con empo âneo na ob a e ela-se na medida em que, ao longo da his ó ia, homens e mulhe es econhecem nela um meio de ansmissão dos seus ideais, e aqui se pode encon a uma possí el jus i icação pa a a pe enidade d’O Queb a-Nozes e o Rei Ra o ao longo dos úl imos dois séculos. 128 Fazenda, Ma ia José, 2018, pp.115 72 BIBLIOGRAFIA Ac i a AGAMBEN, Gio gio, O que é o Con empo âneo? e ou os ensaios, Chapecó SC: A gos, B asil, 2009 BLAMIRES, Da id, «E. T. A. Ho mann’s Nu c acke and Mouse King» in Telling Tales: The Impac o Ge many on English Child en’s Books 1780-1918, Open Books Publishe s, Camb idge, 2009 h ps://lib a y.oapen.o g/bi s eam/id/99 bb264-a7c0-4b93-a6 7- d6a18b9ea38b/646695.pd BOLTER, J. Da id, GRUSIN, Richa d, Remedia ion, Unde s anding New Media, Lib a y o Cong ess Ca aloging-in-Publica ion, 1999 BROWNE, E. Go don, Nu c acke and Mouse-king, Ilus ações de Flo ence Ande son, Geo ge G. 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Inqué i o na sua o alidade: 79 80 87 ❖ Julgo que os alo es e a magia são e e nos. O Queb a-Nozes semp e oi o meu bailado p e e ido o que se aduz numa incapacidade de opinião impa cial, no en an o, ac edi o que a alo ização do eminino po oposição a um mundo com alo es dominan emen e masculinos é uma dualidade eng açada de se con empla , que na peça, que como espelho do pa adigma ac ual. ❖ É con empo âneo po que a sua mensagem de amo , de sonhos e an asia é in empo al, e encan a odas as ge ações Ilus ações: Be all: Fig.9: Ap esen ação do Li o His oi e d’un Casse-Noise e, Ilus ações de Be all, 129 129 Dumas, Alexand e, His oi e d’un Casse-Noise e, Ilus ações de Be all, Lib ai ie Hache e, Pa is, 1921 h ps://a chi e.o g/de ails/his oi eduncasse00duma/page/n5/mode/2up 88 Fig. 10: Página 38 e 39 do Li o His oi e d’un Casse-Noise e, ilus ações de Be all 130 Mau ice Sendak: Fig. 11: Capa do Li o Nu c acke , ilus ações de M. Sendak 131 130 Ibid 131 Ho mann, E.T.A, Nu c acke , T adução de Ralph Manheim, ilus ações de Mau ice Sendak, New Yo k: C own Publishe s, 1984 h ps://a chi e.o g/de ails/nu c acke 0000ho _c3j9 89 Fig. 12: Ap esen ação do Li o Nu c acke , ilus ações de M. Sendak 132 Fig. 13: Página 6 e 7 do Li o Nu c acke , ilus ações de M. Sendak 133 132 Ibid 133 Ibid, pp.6 e 7