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“Que hacen los conservadores?” A propósito do incomodativo problema da existência de mestres desconhecidos nas tabelas dos museus

Abstract

As tabelas nos museus servem para comunicar um conhecimento tão sintético e objectivo quanto supostamente sólido acerca das peças que neles se expõem. Daí que a menção “Autor desconhecido” seja a maior decepção que o visitante, ávido de saber quem foi o criador do que interessadamente vê, pode enfrentar nesses sumários registos de informação. Este artigo procura explorar, com base na experiência do Museu Nacional de Arte Antiga e sua colecção de pintura, o “fogo cruzado” a que se sujeita o conservador quando assume o anonimato autoral de algumas das peças que expõe nas salas do museu: dum lado, a autoridade da connoisseurship, do erudito ou do académico que julga deter claras e definitivas soluções sobre mistérios autorais; do outro, o público que, perante a menção a “Mestre desconhecido”, pode deduzir que o conservador é ignorante ou preguiçoso. Através do caso de um pintor quinhentista que terá sido colaborador e continuador de Garcia Fernandes mas cuja identidade por enquanto se ignora, o texto procura ainda comprovar que, neste como noutros casos, o anonimato não prejudica o aprofundamento do conhecimento de um grupo de pinturas atribuídas a um mestre desconhecido.

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“Que hacen los conservadores?” A propósito do incomodativo problema da existência de mestres desconhecidos nas tabelas dos museus

Author: Carvalho, José Alberto Seabra
Publisher: Instituto de História da Arte - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/UNL
Year: 2011
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/16684/1/RHA_8_ART_7_JASCarvalho.pdf
Resumo
As abelas nos museus se em pa a comunica um conhecimen o ão sin é ico e
objec i o quan o supos amen e sólido ace ca das peças que neles se expõem. Daí que
a menção “Au o desconhecido” seja a maio decepção que o isi an e, á ido de
sabe quem oi o c iado do que in e essadamen e ê, pode en en a nesses sumá-
ios egis os de in o mação. Es e a igo p ocu a explo a , com base na expe iência do
Museu Nacional de A e An iga e sua colecção de pin u a, o “ ogo c uzado” a que se
sujei a o conse ado quando assume o anonima o au o al de algumas das peças que
expõe nas salas do museu: dum lado, a au o idade da
connoisseu ship,
do e udi o ou
do académico que julga de e cla as e de ini i as soluções sob e mis é ios au o ais; do
ou o, o público que, pe an e a menção a “Mes e desconhecido”, pode deduzi que
o conse ado é igno an e ou p eguiçoso. A a és do caso de um pin o quinhen is a
que e á sido colabo ado e con inuado de Ga cia Fe nandes mas cuja iden idade po
enquan o se igno a, o ex o p ocu a ainda comp o a que, nes e como nou os casos,
o anonima o não p ejudica o ap o undamen o do conhecimen o de um g upo de pin-
u as a ibuídas a um mes e desconhecido. •
Abs ac
The museums’ insc ip ions a e mean o communica e b ie and objec i e knowledge,
as well as a supposedly solid knowledge, o he pieces i exhibi s. The e o e he men-
ion “
Unknown au ho
” may be he bigges decep ion a isi o , who is keen in lea n-
ing who c ea ed wha he looks a , may con on wi h in hese summa y egis e s o
in o ma ion. This a icle in ends o explo e, based on he expe ience o he Museu
Nacional de A e An iga [Na ional Museum o Ancien A ] and i s pain ing collec-
ion, he “c oss i e” he conse a o is subjec o when he assumes he anonymi y
o he au ho ship o some o he pieces he shows in he museum’s ooms: on one
side, he au ho i y o he
connoisseu ship
, o he e udi e o academic who belie es
he holds clea and de ini i e solu ions o he au ho mys e ies; on he o he , he pub-
lic, who be o e he men ion “
Unknown au ho
”, sees he conse a o as someone
who is igno an and lazy. Wi h he example o a pain e om he 16 h cen u y who
would ha e been a collabo a o and a con inue o Ga cia Fe nandes bu whose iden-
i y is o now unknown, his ex will also p o e ha , in his case and in many o h-
e s, anonymi y does no p ejudice he deepe unde s anding o a g oup o pain ings
a ibu ed o an unknown mas e . •
pala as-cha e
Au o desconhecido
Mes e desconhecido
A ibuição
Ga cia Fe nandes
Manuel And é
key-wo ds
Unknown au ho
Unknown mas e
A ibu ion
Ga cia Fe nandes
Manuel And é
“O anonima o p eside a oda es a gale ia de ob as po uguesas”
João Cou o, 1956
No li o de suges ões do Museu Nacional de A e An iga, um isi an e de língua
espanhola esc e eu o seguin e comen á io: “
Hay demasiadas ob as non a ibuidas.
No es no mal pa a una pinaco eca an buena. Que hacen los conse ado es?
”. A pe -
gun a aduzi á,
po supues o
, uma elha ec iminação à qualidade e es o ço da
in es igação no museu de a e ( adicionalmen e, aliás, mais ao museu
la ino
que ao
anglo-saxónico
), à sua capacidade cien í ica como ins ância p odu o a de conheci-
men o, ao descuido com as expec a i as do isi an e in e essado que espe a se
escla ecido ace ca daquilo que nele encon a e admi a, e ou as ques ões des e ipo
que cos umam alimen a disse ações em cong essos de museologia. Mas é simples-
men e e iden e que o comen á io se a a de um modo de dize algo mais incisi o:
se as pin u as são boas mas pe manecem anónimas, é po que os conse ado es não
as es udam, is o é,
hacen muy poco
.
Desca ado, po desin e essan e, o aspec o labo al da coisa (nes a, como nou as
classes p o issionais, há na e dade os que azem pouco, os que azem mui o e os
que azem o que podem…), al juízo exp oba ó io pa ece exp essa igualmen e a
pe plexidade do emisso ace ca do assun o, is o é, ace ca da azão e signi icado do
anonima o au o al das ob as, mas e oca-me, sob e udo, o eco en e “libelo” con-
a uma cul u a de “dis anciação” e de alegada p udência do museu ace à in es i-
gação e p odução his o iog á icas desen ol idas em e i ó ios ex e nos. Ou seja, e
pa a coloca um pouco linea men e a ques ão, como e a é que pon o de e á o con-
“QUE HACEN LOS
CONSERVADORES?”
A PROPÓSITO DO INCOMODATIVO PROBLEMA
DA EXISTÊNCIA DE MESTRES DESCONHECIDOS
NAS TABELAS DOS MUSEUS
JOSÉ ALBERTO SEABRA CARVALHO
Museu Nacional de A e An iga
139
REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011
se ado in o mado segui e concede c édi o ao que ai expendendo a uni e sidade,
a c í ica ou o publicismo na his ó ia da a e quando chega o momen o de elabo a a
abela da peça, a olha de sala ou a sucin a e e ência que lhe compe e no b e e
o ei o a edi a . Nes e, como nou os aspec os, o Museu Nacional de A e An iga oi
en e nós o chamado “Museu No mal”, aquele cuja expe iência endia a de ini c i-
é ios e, como ago a banalmen e se diz, a exempli ica “as boas p á icas”. Vejamos
como João Cou o, seu di ec o , ia a ques ão na década de 50 quan o à pinaco eca
das Janelas Ve des, po si exposi i amen e di idida em pin u a po uguesa e pin u-
as de escolas es angei as.
Na “
Ad e ência”
in odu ó ia ao
Ro ei o das Pin u as
edi ado em 1951 (e depois
eedi ado du an e mais de uma década sem al e ação desse ex o), Cou o es ipu-
la a dois c i é ios. O p imei o: “
Pa a as pin u as das escolas es angei as seguem-se
na maio pa e dos casos as lições o necidas pela his o iog a ia da a e
”. Nada mais
cla o, mesmo com uma essal a logo adian ada – “
Não signi ica isso, en enda-se
bem, que nos associamos semp e a esses pa ece es. Sabemos po expe iência que
o momen o ac ual em ma é ia de a ibuições
(…)
é de p o unda e isão dos con-
cei os adian ados
(…)”. Nada mais cla o, mesmo cons a ando nós a omissão, não
despicienda, de que es e sec o da pinaco eca igno a a con ibu os epis emológi-
cos mode nos e con inua a assaz de edo a de a ibuições oi ocen is as desde há
mui o a p ecisa em de p o unda e isão c í ica. Toda ia, pa a o mais impo an e seg-
men o da colecção de pin u a po uguesa, o c i é io adop ado inha a se ou o e
bem mais di uso: “
Na pin u a po uguesa dos séculos XV e XVI, o lei o no a á, al-
ez com espan o, o g ande núme o de ob as execu adas po mes es desconheci-
dos, mas pa a as quais, no en an o, se em p ocu ado es abelece iden i icações
mais ou menos engenhosas. O ac o de omi i mos a maio pa e dessas en a i as
não signi ica meno ap eço pelos abalhos, alguns mui o e udi os, dos in es iga-
do es e dos c í icos que êm p e endido encon a os nomes dos au o es de ce as
pin u as. Mas em ma é ia ão as a e ainda ão desp o ida de indicações p ecisas,
pa eceu-nos se , po o a, mais indicado limi a as a ibuições àquelas ob as de que
os con a os ou as assina u as apos as nos quad os documen am a au o ia, ou
semp e que es a apa eça assen a em bases que não so am discussão. Não nos
esqueçamos po ém que nesses empos ecuados as encomendas ealizadas em pa -
ce ia e am as usuais; que elas e am semp e e ec uadas em ape ada colabo ação de
mes es, o iciais e ap endizes e que, po ezes, os con a an es não e am os exe-
cu o es das ob as
”.
Des e modo, como o p óp io João Cou o admi ia em ex o pos e io 1, “
o anonima o
p eside a oda es a gale ia de ob as po uguesas
”. Is o não obs an e “
a endência
de odos os isi an es
” se di igi “
semp e no sen ido de sabe o nome da pessoa que
execu ou o abalho
”. Cou o ac edi a a sob e udo num “colec i ismo” (o concei o
é mani es amen e simpli icado , hoje como nessa al u a) de p odução des as pin-
u as: “
Nada há que es anha na subsc ição anónima. Resul ado de ob a colec i a,
pode ia quando mui o conhece -se o nome do a is a que assinou o con a o e que
1“A pin u a ep esen ada no Museu das Janelas
Ve des e o c i é io da sua ap esen ação na gale ia.
I - A Escola Po uguesa”,
Bole im do Museu Na-
cional de A e An iga
, ol. III, asc. III, Lisboa,
1956, p. 15.
QUE HACEN LOS CONSERVADORES?
140 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011
pode mesmo não e ido qualque in e enção na ac u a do mesmo
”. E ac edi a a,
po consequência, que a de e minação au o al e pe sonalizada de ais ob as cons-
i ui ia uma possibilidade emo a, algo enal e bem menos impo an e que a sua
dimensão “es é ica”: “
Po isso, epe imos, a maio pa e das pin u as an igas são
anónimas, ac o que em nada as p ejudica. Quando são belas, não é pelo ac o de
es a em ou não a ibuídas que o seu me ecimen o se al e a. Os es e as con inua-
ão a bem lhes que e . Os his o iado es e os c í icos, desejosos de lhes comple a a
icha, odeiam-nas de in es igações a u adas e o mulam a seu espei o as mais
desencon adas e as mais desconce an es hipó eses. Pa a os que se p eocupam
com o seu alo ma e ial e pa a os negocian es, o nome do au o em luga essen-
cial e dele depende, mais do que do me ecimen o da ob a, a sua co ação no me -
cado das ob as de a e. Isso, po ém, não in e essa
”2.
A adopção de um al c i é io, sob ele ando uma a i ude “es é ica” pe an e as peças
e p essupondo que o p óp io público indis in o a adop a ia dada a “beleza” das
ob as, c eio que e a, p edominan emen e, uma a i ude eac i a a um meio em que
o di ec o do Museu Nacional de A e An iga só ia, aliás com bas an e acuidade,
“desencon adas” e “desconce an es hipó eses” u o de más p á icas a ibu i as,
não signi icando de modo algum aco in e esse ou alheamen o da sua pa e pelo
ap o undamen o do conhecimen o his ó ico e a ís ico das pin u as. Ma ca a en e-
an o, é ce o, uma adical dis ância ace à ansiedade in elec ual da
connoisseu ship
,
a qual, desde F iedlande , ca ac e iza a o anonima o como signo de um conheci-
men o impe ei o ou de ei uoso.
Da mesma o ma que o c i e ioso A mando Viei a San os, nas en adas a seu ca go
pa a o
Dicioná io da Pin u a Po uguesa
3, con empla a nada menos que qua o
dezenas de mes es de nome con encional só pa a a á ea dos P imi i os Po ugue-
ses, nas abelas da sua exposição de pin u a po uguesa Cou o en endia, pacien e-
men e, o con á io de F iedlande . E o esul ado e a, nas salas da pinaco eca
po uguesa das Janelas Ve des, o hegemónico p edomínio dos mes es desconheci-
dos ou dos mes es de nome con encional, es es po ezes debilmen e “in en ados”
apenas a pa i de um e ábulo (“
Mes e do Re ábulo de San a Au a
”, “
Mes e do
Re ábulo de S. Ben o
”, “
Mes e do Re ábulo de San os-o-No o
”, e c., e c.). A a i-
ude a ingia pa icula adicalidade numa espécie de “negacionismo” aplicado ao
chamado Mes e da Lou inhã, pin o de designação con encional a quem Luís Reis
San os (que o “in en ou”4) da a duas pin u as do Museu (
San o An ónio e S. F an-
cisco
,
San a Cla a e San a Cole a
) mas em cujo o ei o es as e am simplesmen e a i-
buídas a um “
Es ilo luso- lamengo
”. E le a a, no mesmo o ei o sucessi amen e
eedi ado, a ou as si uações algo insóli as, como a inexis ência de qualque ob a a i-
buída a Ga cia Fe nandes, um dos mes es mais des acados na p imei a me ade do
século XVI.
Reis-San os, nos olumes monog á icos das Edições A is que lhe coube esc e e 5,
azia en e an o o con á io. Em cada um a a a de cons ui e o ganiza em pe ío-
dos c onológicos odo um as o
co pus
de pin u as de um mes e quinhen is a, ela-
QUE HACEN LOS CONSERVADORES?
2Idem, ibid., p. 16.
3Vol. III do
Dicioná io da Pin u a Uni e sal
, Lis-
boa, Edi o ial Es údios Co , 1973.
4Luís Reis-San os, “Pin u a da Renascença”,
Diá-
io de No ícias
, Lisboa, 25 de Dezemb o de 1938.
Idem, “Duas ob as-p imas de um g ande pin o
igno ado na Mise icó dia da Lou inhã”,
Es udos de
Pin u a An iga
, Lisboa, Edição do Au o , 1943.
5Os olumes
G egó io Lopes
;
Ga cia Fe nandes
;
C is ó ão de Figuei edo
;
Vasco Fe nandes
;
O Mes-
e da Lou inhã
;
Jo ge A onso;
odos da “No a
Colecção de A e Po uguesa”, Edições A is.
141
REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011
bo ando lis as de peças sem apa en es hesi ações a ibu i as e, ao mesmo empo,
não se p eocupando em undamen a ou jus i ica al a iculado de ob as e pe íodos.
Pode dize -se que se o Museu Nacional de A e An iga não p omo ia exposições
monog á icas de pin o es dessa época po , mani es amen e, não acha que alguma
coisa de subs ancial se pudesse euni sob uma mesma e segu a a ibuição, Reis-San-
os assegu a a sucedâneos de ais “exposições” nas e ocadas ilus ações em o o-
g a u a dos li os da A is, que supos amen e exibiam o segu o ca álogo de ob as de
cada au o impo an e…
Os empos hoje são ou os, que nos museus, que na his o iog a ia. A p óp ia noção
de au o , na pin u a dos séculos XV e XVI6, é hoje mais ela i izada e complexi icada
g aças aos es udos écnicos espei an es à ma e ialidade e p ocesso c ia i o das
ob as, bem como à in es igação sob e a encomenda, o me cado ou a o ganização o i-
cinal que es u u a am o sis ema de p odução das pin u as. A colabo ação en e con-
se ado es, his o iado es e cien is as ace ca de odos es es aspec os endem a
cons i ui em o no da a ibuição uma so is icada me odologia. A abela da pin u a
no museu ala gou assim o seu leque de possibilidades de classi icação e po ezes,
na secu a e concisão do seu o ma o in o ma i o, não consegue aduzi a sub ileza
do assun o ou as dú idas que ele p óp io ence a. Tem de se complemen ada po
ou os supo es de comunicação. Ac ualmen e, nas salas de pin u a do Museu Nacio-
nal de A e An iga, a in o mação é bem mais “audaz” e gene osa que na época de
João Cou o, que no que se e e e à objec i idade a ibu i a, que no que espei a à
in o mação his ó ica sob e as ob as. Mas con inuam a exis i , necessá ia e p uden-
emen e, pin u as não a ibuídas, admi indo que o aspec o mais ecundo do conhe-
cimen o que elas con ocam não se esgo a essencialmen e (ao con á io do que
ambém p opugna a F iedlände ) na elucidação da iden idade do seu au o . Tal ano-
nima o não deco e, po an o, nem da p eguiça nem da igno ância do conse ado .
As pin u as que o museu ai expondo e elacionando, em di e sas si uações mais ou
menos ocasionais ou empo á ias, azendo peças das ese as ou ecebendo emp és-
imos, pe mi em a é ce os con on os que p omo em o ag upamen o iden i á io de
algumas ob as em o no de um mes e ainda desconhecido mas iden i icá el pelo
es ilo, comum, dessa sé ie de pin u as. O museu p omo e assim um ap o unda-
men o do conhecimen o que não é p ejudicado pelo anonima o au o al, ab indo a
possibilidade p oposi i a, em e mos a ibu i os, de um no o “nome de con enção”.
O caso de que se ocupa a segunda pa e des e ex o esul a de uma soma de si ua-
ções exposi i as que oco e am no Museu Nacional de A e An iga nos úl imos anos
– exposições empo á ias como
A Espada e o Dese o
(2002) e algumas emodela-
ções da exposição na Gale ia de Pin u a Po uguesa na úl ima década. Ele p opõe um
ag upamen o de pin u as que de inem a p odução de mais um “au o anónimo”,
cu iosamen e na es ei a do pin o igno ado nos o ei os de João Cou o: Ga cia Fe -
nandes.
6C . Ma yan Wynn Ainswo h, “Wha ’s in a Name?
The ques ion o a ibu ion in Ea ly Ne he landish
Pain ing”,
Recen de elopmen s in he echnical
examina ion o Ea ly Ne he landish Pain ing. Me -
hodology, limi a ions & pe spec i es
, Camb idge e
Tu nhou , Ha a d Uni e si y A Museums e B e-
pols Publishe s, 2003.
QUE HACEN LOS CONSERVADORES?
142 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011

Um colabo ado ou seguido
de Ga cia Fe nandes ainda sem nome
Pelos meados do século XVI a pin u a po uguesa a a essa um empo de eno ação
de ge ações. O desapa ecimen o dos p incipais mes es eme gen es no âmbi o da já
“longínqua” conjun u a manuelina7(longínqua não só pelo simples co e do empo
mas ambém pelas ans o mações i alianizan es da década de 30) e os sinais de ac i-
idade independen e de alguns pin o es “meno es” – e ainda anónimos – que ac ua-
iam jun o das o icinas ou na ó bi a de ais mes es e que e elam pa ilha os seus
modelos, con igu am uma si uação ípica de
c ise
no sen ido his o iog á ico do e mo.
De ac o a
ansição
só se cump i á plenamen e com a adopção de no os pa adigmas
a ís icos, is o é, com a ob a-mani es o e a mode nidade omana de um pin o nos
Je ónimos, An ónio Campelo, cuja idade ou biog a ia se desconhecem po ém quase
em absolu o. En e an o, a si uação de c ise e lec e-se na nossa p óp ia di iculdade
de indi iduação e in e p e ação dos enómenos de con inuidade e descon inuidade
que se de ec am na p á ica a ís ica desses meados do século. Dando exemplos, aliás
bem conhecidos: a des inça en e a p odução inal de G egó io Lopes e a ac i idade
do chamado Mes e de Ab an es (possi elmen e C is ó ão Lopes); a p oximidade de
exp essões pic ó icas en e alguns painéis dados ao Mes e de Ab an es e ce as
ob as iniciais da ca ei a de F ancisco de Campos em Po ugal; a iden i icação de an e-
ceden es o mais e “exp essi os” do Mes e de A uda dos Vinhos, que em Lopes ou
Ga cia Fe nandes, que em Diogo de Con ei as. Po ou o lado, a his o iog a ia em
e elado algum descon o o no emp ego de noções como “
o icina de
”, “
cí culo de
”
ou “
con inuado de
” pa a ca ac e iza a ibu i amen e um bom núme o de peças ou
g upos e abula es de ou a na u eza, ob as em que se p essen e um ce o g au de
iliação es ilís ica e ao mesmo empo de sensí el de ogação o mal ace a modelos
pic u ais iden i icados com as já e e idas g andes o icinas da época. Na maio pa e
dos casos são ob as que “in laciona am” quan i a i amen e o ca álogo dos chamados
Mes es de Fe ei im, ainda a a és dos céleb es olumes das Edições A is, e hoje c i-
icamen e enca adas, segundo uma análise mais exigen e e menos a ibuicionis a, à
luz das e e idas noções ope a i as – es as quase semp e de “geome ia” a iá el
quan o à de inição dos seus limi es quali ica i os, ou seja, da sua eal alia ope a i a.
In e essa-me, nes a úl ima pe spec i a, des aca suma iamen e a possí el unidade de
uma sé ie de pin u as e abula es que se iliam p edominan emen e no es ilo pic u al
de Ga cia Fe nandes – ou o que dele mais segu amen e conhecemos enquan o al e
que acaba po se cingi a uma abundan e p odução e abula no empo b e e de uma
só década, a que ai de 1531, da a do íp ico de San a Cla a de Coimb a (Museu
Nacional de Machado de Cas o), a 1541, da a do
Casamen o de San o Aleixo
pa a a
Mise icó dia de Lisboa e sua úl ima peça iden i icada (Museu de S. Roque) –, mas que
não me pa ecem pode se a ibuídas a es e ope oso mes e, pin u as cuja o una c í-
ica mais ecen e em sido agmen á ia ou casuís ica, com p ejuízo de uma pe spec-
QUE HACEN LOS CONSERVADORES?
143
REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011
7En e 1540, da a do es amen o e p esumí el
mo e de Jo ge A onso, e 1565, ano em que du-
idosamen e ainda i e ia Ga cia Fe nandes, desa-
pa ecem de cena os ou os p incipais ul os: Vas-
co Fe nandes (1542?), G egó io Lopes († 1550),
C is ó ão de Figuei edo (ainda ac i o em 1555
mas já mui o elho) e Diogo de Con ei as (que em
1565 já inha alecido).
i a uni icado a enden e ao seu ag upamen o em o no de um pin o de que desco-
nhecemos a iden idade mas cuja ob a pode i a dema ca -se à cus a, jus amen e, de
algum “emag ecimen o” de an igas e dila adas e sões do
co pus
de Fe nandes.
Da á eis de c.1550, as qua o ábuas da Lenda e Ma í io de San a Ca a ina que pe -
encem ao MNAA8ajus am-se bem à demons ação da di iculdade de aça ní idas
on ei as au o ais. O painel da
Ele ação do co po de San a Ca a ina
é al ez um ele-
men o de o e ap oximação com o ciclo do mesmo ema na sac is ia da Sé de Velha
Goa, dado a Fe nandes e da á el do inal da década de 1530, mas as ês pin u as es-
an es e idenciam com maio cla eza, que nas igu as secundá ias, que nas a -
qui ec u as, um ipo de concepção mais simpli icada da o ma e um c oma ismo
ela i amen e es i o e pouco ib an e. Aquilo que no e ábulo de Goa é sedu o a
demons ação de um desenho sin é ico e ondulan e no p i ilegia da igu a, no ou o
conjun o ca a inis a passa a se simpli icação e alguma secu a da o ma, pa a além das
ambém no ó ias di e enças de a iculação das pe sonagens com o espaço pic ó ico
8
San a Ca a ina dispu ando com os Dou o es
,
Des uição da máquina do ma í io
,
Ma í io de
San a Ca a ina
e
Ele ação do co po de San a Ca-
a ina pelos Anjos
. Vd. João Cou o, “Qua o pin-
u as da ida de San a Ca a ina”, in
Belas-A es,
Re is a e Bole im da Academia Nacional de Belas-
-A es
, Lisboa, 1950.
QUE HACEN LOS CONSERVADORES?
FIG. 1-
Degolação de San a Ca a ina de Alexand ia
, 114 x 85 cm, MNAA, in .1837
Pin . © José Pessoa, DDF/IMC.
FIG. 2 -
Deposição de C is o no Túmulo
, 168 x 98,4 cm, Museu F ancisco
Ta a es P oença Júnio , in .15.25 MFTPJ. © José Pessoa, DDF/IMC.
144 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011
en ol en e (FIG. 1). Pa a usa uma ó mula simples, o conjun o do MNAA c eio pode
cons i ui ob a e abula não
de
mas, quando mui o,
com
Ga cia Fe nandes9.
Du ido que seja exac amen e em ais pa âme os que se pode ques iona , po seu
u no, a
Deposição de C is o no Túmulo
do Museu de Ta a es P oença Júnio (Cas elo
B anco) (FIG. 2), ob a p o a elmen e an e io , ainda da década de 1540-50, mui o con-
cen ada num esplêndido a amen o do co po exangue de C is o e do sudá io que o
en ol e, p es es a epousa em numa belíssima a ca de má mo e, lisa e despojada, de
salien e p esença plás ica no conjun o da composição. Há aqui pa icula idades de
“es ilo” que eme em, sem dú ida, pa a Ga cia Fe nandes, a in e enção dominan e do
pin o nes a ob a pa ece con igu a -se como mui o plausí el, mas con inua a se imp u-
den e assaca -lhe sem e icências al au o ia. Con inua a se uma ob a mui o complexa
nesse ní el de análise. C eio en e an o pode da -lhe uma “descendência”, ou seja,
apon a uma pin u a, com idên ica c onologia, que de ém alguma iliação no pa icu-
la “es ilo” do painel de Cas elo B anco. T a a-se da
Lamen ação
(FIG. 3) expos a no
Museu G ão Vasco10, ais a inidades se e idenciando no “ edondo” a amen o de igu-
as e panejamen os, no seu en ol en e agenciamen o, bem como em igu ações de pla-
nos secundá ios e elemen os comuns de opog a ia da paisagem.
A pa i des as duas ob as e i ico e oco ido uma “mig ação” de elemen os igu-
a i os pa a um painel um pouco mais a dio, julgo que da á el da década de 1550,
ac ualmen e expos o na ig eja de S. Ped o de Mou a mas pe encen e a um an igo
e ábulo da ig eja do con en o do Ca mo na mesma localidade. Falo de uma
Lamen-
ação sob e C is o Mo o
11 (FIG. 4) que oma de emp és imo à
Deposição
de Cas elo
B anco as duas igu as secundá ias de San as Mulhe es e ao painel de Viseu a ipo-
logia essencial das pe sonagens da Vi gem e de S. João, pa a além das ep esen a-
QUE HACEN LOS CONSERVADORES?
FIG. 3 -
Lamen ação
, 83 x 133 cm, Museu G ão Vasco, depósi o do MNAA, in .62 Pin
© Ca los Mon ei o, DDF/IMC.
FIG. 4 -
Lamen ação
, 122 x 84 cm, Ig eja
de S. Ped o, Mou a © MNAA.
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REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011
9Opinião idên ica exp essa Joaquim Oli ei a Cae-
ano no ca álogo da exposição que comissa iou
em 1998 sob e Ga cia Fe nandes: “
O seu desenho
esquemá ico e o a amen o dos panos lemb am
mui o a pin u a de Ga cia Fe nandes, mas ambém
mui o di e e do seu modo de pin a , nomeada-
men e uma mais o e abe u a à paisagem e uma
colocação mais abe a das igu as no espaço
”
(
Ga cia Fe nandes, um pin o do Renascimen o
elei o da Mise icó dia de Lisboa
, Museu de S. Ro-
que, Lisboa, 1998, p.72).
10 Pe ence à colecção do MNAA, in . 62 Pin . C .
Dalila Rod igues,
Museu G ão Vasco – Ro ei o
,
Viseu, 2004, p.151.
11 C . Joaquim Oli ei a Cae ano, ob. ci . na no a 3,
p.72, e Joaquim Oli ei a Cae ano e Ví o Se ão,
A pin u a em Mou a, séculos XVI, XVII e XVIII
,
Mou a, 1999. Também os ca álogos de exposição
En e o Céu e a Te a. A e sac a da Diocese de
Beja
, Beja, 2000 ( icha c í ica de Ví o Se ão e
José An ónio Falcão a p. 158 e ss. do ol. II) e
As
o mas do espí i o. A e sac a da Diocese de Be-
ja
, Beja, 2003 ( icha c í ica de Fe nando An ónio
Bap is a Pe ei a e José An ónio Falcão a p. 60 do
omo II).
ções do úmulo de C is o e do Cal á io, aqui eunidas no lado esque do da compo-
sição. A pin u a de Mou a exibe no en an o um modelado mais sumá io, um con o no
e es u u a das igu as mais ígido e menos exp essi o, uma cons ução do espaço e
da paisagem que cump e a sua ocação na a i a mas que esul a inapela elmen e
esquemá ico, con igu ando o luga da acção mas não pa icipando da d ama icidade
do episódio. E é essa igidez e esquema ismo que po seu u no o ap oxima, mais
pelo
pin a
que pelo
igu a
, do conjun o da lenda de San a Ca a ina a que aludi
acima, ais ca ac e ís icas o nando-se ainda mais e iden es no ou o painel ema-
nescen e do e ábulo de Mou a, um
Ma í io de S. Sebas ião
hoje pe encen e a
colecção pa icula 12.
Os painéis do Ca mo de Mou a podem assumi -se, des e modo, como um pon o de
con e gência e de eu ilização de modelos igu a i os c iados na o icina de Ga cia
Fe nandes, a ando-se já de uma p odução au ónoma ela i amen e ao abalho do
mes e e não de um es emunho a dio da sua igno ada ca ei a depois de 1541. Ob a
c onologicamen e mais ecuada desse pin o do es ei o cí culo de Fe nandes pode á
se o painel da
Vi gem das Do es
odeada pelos se e co esponden es episódios da
Vida e Paixão de Jesus (dado po Luís Reis-San os à “
e cei a época [1531-40]
” de
ac i idade de Ga cia Fe nandes) (FIG. 5), onde que a igu a cen al que a ep esen-
QUE HACEN LOS CONSERVADORES?
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FIG. 7 -
Ma í io e milag e de S. C is ó ão
, 118 x 85 cm, MNAA, in .1270
Pin . © José Pessoa, DDF/IMC.
FIG. 5 -
As Se e Do es da Vi gem
, 73 x 56 cm, MNAA,
in .947 Pin © José Pessoa, DDF/IMC.
FIG. 6 -
C is o descido da C uz
, 226 x 206 cm, MNAA, in .1265 Pin © MNAA.