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“Que hacen los conservadores?” A propósito do incomodativo problema da existência de mestres desconhecidos nas tabelas dos museus

Carvalho, José Alberto Seabra

Abstract

As tabelas nos museus servem para comunicar um conhecimento tão sintético e objectivo quanto supostamente sólido acerca das peças que neles se expõem. Daí que a menção “Autor desconhecido” seja a maior decepção que o visitante, ávido de saber quem foi o criador do que interessadamente vê, pode enfrentar nesses sumários registos de informação. Este artigo procura explorar, com base na experiência do Museu Nacional de Arte Antiga e sua colecção de pintura, o “fogo cruzado” a que se sujeita o conservador quando assume o anonimato autoral de algumas das peças que expõe nas salas do museu: dum lado, a autoridade da connoisseurship, do erudito ou do académico que julga deter claras e definitivas soluções sobre mistérios autorais; do outro, o público que, perante a menção a “Mestre desconhecido”, pode deduzir que o conservador é ignorante ou preguiçoso. Através do caso de um pintor quinhentista que terá sido colaborador e continuador de Garcia Fernandes mas cuja identidade por enquanto se ignora, o texto procura ainda comprovar que, neste como noutros casos, o anonimato não prejudica o aprofundamento do conhecimento de um grupo de pinturas atribuídas a um mestre desconhecido.

Full text

Resumo As abelas nos museus se em pa a comunica um conhecimen o ão sin é ico e objec i o quan o supos amen e sólido ace ca das peças que neles se expõem. Daí que a menção “Au o desconhecido” seja a maio decepção que o isi an e, á ido de sabe quem oi o c iado do que in e essadamen e ê, pode en en a nesses sumá- ios egis os de in o mação. Es e a igo p ocu a explo a , com base na expe iência do Museu Nacional de A e An iga e sua colecção de pin u a, o “ ogo c uzado” a que se sujei a o conse ado quando assume o anonima o au o al de algumas das peças que expõe nas salas do museu: dum lado, a au o idade da connoisseu ship, do e udi o ou do académico que julga de e cla as e de ini i as soluções sob e mis é ios au o ais; do ou o, o público que, pe an e a menção a “Mes e desconhecido”, pode deduzi que o conse ado é igno an e ou p eguiçoso. A a és do caso de um pin o quinhen is a que e á sido colabo ado e con inuado de Ga cia Fe nandes mas cuja iden idade po enquan o se igno a, o ex o p ocu a ainda comp o a que, nes e como nou os casos, o anonima o não p ejudica o ap o undamen o do conhecimen o de um g upo de pin- u as a ibuídas a um mes e desconhecido. • Abs ac The museums’ insc ip ions a e mean o communica e b ie and objec i e knowledge, as well as a supposedly solid knowledge, o he pieces i exhibi s. The e o e he men- ion “ Unknown au ho ” may be he bigges decep ion a isi o , who is keen in lea n- ing who c ea ed wha he looks a , may con on wi h in hese summa y egis e s o in o ma ion. This a icle in ends o explo e, based on he expe ience o he Museu Nacional de A e An iga [Na ional Museum o Ancien A ] and i s pain ing collec- ion, he “c oss i e” he conse a o is subjec o when he assumes he anonymi y o he au ho ship o some o he pieces he shows in he museum’s ooms: on one side, he au ho i y o he connoisseu ship , o he e udi e o academic who belie es he holds clea and de ini i e solu ions o he au ho mys e ies; on he o he , he pub- lic, who be o e he men ion “ Unknown au ho ”, sees he conse a o as someone who is igno an and lazy. Wi h he example o a pain e om he 16 h cen u y who would ha e been a collabo a o and a con inue o Ga cia Fe nandes bu whose iden- i y is o now unknown, his ex will also p o e ha , in his case and in many o h- e s, anonymi y does no p ejudice he deepe unde s anding o a g oup o pain ings a ibu ed o an unknown mas e . • pala as-cha e Au o desconhecido Mes e desconhecido A ibuição Ga cia Fe nandes Manuel And é key-wo ds Unknown au ho Unknown mas e A ibu ion Ga cia Fe nandes Manuel And é “O anonima o p eside a oda es a gale ia de ob as po uguesas” João Cou o, 1956 No li o de suges ões do Museu Nacional de A e An iga, um isi an e de língua espanhola esc e eu o seguin e comen á io: “ Hay demasiadas ob as non a ibuidas. No es no mal pa a una pinaco eca an buena. Que hacen los conse ado es? ”. A pe - gun a aduzi á, po supues o , uma elha ec iminação à qualidade e es o ço da in es igação no museu de a e ( adicionalmen e, aliás, mais ao museu la ino que ao anglo-saxónico ), à sua capacidade cien í ica como ins ância p odu o a de conheci- men o, ao descuido com as expec a i as do isi an e in e essado que espe a se escla ecido ace ca daquilo que nele encon a e admi a, e ou as ques ões des e ipo que cos umam alimen a disse ações em cong essos de museologia. Mas é simples- men e e iden e que o comen á io se a a de um modo de dize algo mais incisi o: se as pin u as são boas mas pe manecem anónimas, é po que os conse ado es não as es udam, is o é, hacen muy poco . Desca ado, po desin e essan e, o aspec o labo al da coisa (nes a, como nou as classes p o issionais, há na e dade os que azem pouco, os que azem mui o e os que azem o que podem…), al juízo exp oba ó io pa ece exp essa igualmen e a pe plexidade do emisso ace ca do assun o, is o é, ace ca da azão e signi icado do anonima o au o al das ob as, mas e oca-me, sob e udo, o eco en e “libelo” con- a uma cul u a de “dis anciação” e de alegada p udência do museu ace à in es i- gação e p odução his o iog á icas desen ol idas em e i ó ios ex e nos. Ou seja, e pa a coloca um pouco linea men e a ques ão, como e a é que pon o de e á o con- “QUE HACEN LOS CONSERVADORES?” A PROPÓSITO DO INCOMODATIVO PROBLEMA DA EXISTÊNCIA DE MESTRES DESCONHECIDOS NAS TABELAS DOS MUSEUS JOSÉ ALBERTO SEABRA CARVALHO Museu Nacional de A e An iga 139 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 se ado in o mado segui e concede c édi o ao que ai expendendo a uni e sidade, a c í ica ou o publicismo na his ó ia da a e quando chega o momen o de elabo a a abela da peça, a olha de sala ou a sucin a e e ência que lhe compe e no b e e o ei o a edi a . Nes e, como nou os aspec os, o Museu Nacional de A e An iga oi en e nós o chamado “Museu No mal”, aquele cuja expe iência endia a de ini c i- é ios e, como ago a banalmen e se diz, a exempli ica “as boas p á icas”. Vejamos como João Cou o, seu di ec o , ia a ques ão na década de 50 quan o à pinaco eca das Janelas Ve des, po si exposi i amen e di idida em pin u a po uguesa e pin u- as de escolas es angei as. Na “ Ad e ência” in odu ó ia ao Ro ei o das Pin u as edi ado em 1951 (e depois eedi ado du an e mais de uma década sem al e ação desse ex o), Cou o es ipu- la a dois c i é ios. O p imei o: “ Pa a as pin u as das escolas es angei as seguem-se na maio pa e dos casos as lições o necidas pela his o iog a ia da a e ”. Nada mais cla o, mesmo com uma essal a logo adian ada – “ Não signi ica isso, en enda-se bem, que nos associamos semp e a esses pa ece es. Sabemos po expe iência que o momen o ac ual em ma é ia de a ibuições (…) é de p o unda e isão dos con- cei os adian ados (…)”. Nada mais cla o, mesmo cons a ando nós a omissão, não despicienda, de que es e sec o da pinaco eca igno a a con ibu os epis emológi- cos mode nos e con inua a assaz de edo a de a ibuições oi ocen is as desde há mui o a p ecisa em de p o unda e isão c í ica. Toda ia, pa a o mais impo an e seg- men o da colecção de pin u a po uguesa, o c i é io adop ado inha a se ou o e bem mais di uso: “ Na pin u a po uguesa dos séculos XV e XVI, o lei o no a á, al- ez com espan o, o g ande núme o de ob as execu adas po mes es desconheci- dos, mas pa a as quais, no en an o, se em p ocu ado es abelece iden i icações mais ou menos engenhosas. O ac o de omi i mos a maio pa e dessas en a i as não signi ica meno ap eço pelos abalhos, alguns mui o e udi os, dos in es iga- do es e dos c í icos que êm p e endido encon a os nomes dos au o es de ce as pin u as. Mas em ma é ia ão as a e ainda ão desp o ida de indicações p ecisas, pa eceu-nos se , po o a, mais indicado limi a as a ibuições àquelas ob as de que os con a os ou as assina u as apos as nos quad os documen am a au o ia, ou semp e que es a apa eça assen a em bases que não so am discussão. Não nos esqueçamos po ém que nesses empos ecuados as encomendas ealizadas em pa - ce ia e am as usuais; que elas e am semp e e ec uadas em ape ada colabo ação de mes es, o iciais e ap endizes e que, po ezes, os con a an es não e am os exe- cu o es das ob as ”. Des e modo, como o p óp io João Cou o admi ia em ex o pos e io 1, “ o anonima o p eside a oda es a gale ia de ob as po uguesas ”. Is o não obs an e “ a endência de odos os isi an es ” se di igi “ semp e no sen ido de sabe o nome da pessoa que execu ou o abalho ”. Cou o ac edi a a sob e udo num “colec i ismo” (o concei o é mani es amen e simpli icado , hoje como nessa al u a) de p odução des as pin- u as: “ Nada há que es anha na subsc ição anónima. Resul ado de ob a colec i a, pode ia quando mui o conhece -se o nome do a is a que assinou o con a o e que 1“A pin u a ep esen ada no Museu das Janelas Ve des e o c i é io da sua ap esen ação na gale ia. I - A Escola Po uguesa”, Bole im do Museu Na- cional de A e An iga , ol. III, asc. III, Lisboa, 1956, p. 15. QUE HACEN LOS CONSERVADORES? 140 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 pode mesmo não e ido qualque in e enção na ac u a do mesmo ”. E ac edi a a, po consequência, que a de e minação au o al e pe sonalizada de ais ob as cons- i ui ia uma possibilidade emo a, algo enal e bem menos impo an e que a sua dimensão “es é ica”: “ Po isso, epe imos, a maio pa e das pin u as an igas são anónimas, ac o que em nada as p ejudica. Quando são belas, não é pelo ac o de es a em ou não a ibuídas que o seu me ecimen o se al e a. Os es e as con inua- ão a bem lhes que e . Os his o iado es e os c í icos, desejosos de lhes comple a a icha, odeiam-nas de in es igações a u adas e o mulam a seu espei o as mais desencon adas e as mais desconce an es hipó eses. Pa a os que se p eocupam com o seu alo ma e ial e pa a os negocian es, o nome do au o em luga essen- cial e dele depende, mais do que do me ecimen o da ob a, a sua co ação no me - cado das ob as de a e. Isso, po ém, não in e essa ”2. A adopção de um al c i é io, sob ele ando uma a i ude “es é ica” pe an e as peças e p essupondo que o p óp io público indis in o a adop a ia dada a “beleza” das ob as, c eio que e a, p edominan emen e, uma a i ude eac i a a um meio em que o di ec o do Museu Nacional de A e An iga só ia, aliás com bas an e acuidade, “desencon adas” e “desconce an es hipó eses” u o de más p á icas a ibu i as, não signi icando de modo algum aco in e esse ou alheamen o da sua pa e pelo ap o undamen o do conhecimen o his ó ico e a ís ico das pin u as. Ma ca a en e- an o, é ce o, uma adical dis ância ace à ansiedade in elec ual da connoisseu ship , a qual, desde F iedlande , ca ac e iza a o anonima o como signo de um conheci- men o impe ei o ou de ei uoso. Da mesma o ma que o c i e ioso A mando Viei a San os, nas en adas a seu ca go pa a o Dicioná io da Pin u a Po uguesa 3, con empla a nada menos que qua o dezenas de mes es de nome con encional só pa a a á ea dos P imi i os Po ugue- ses, nas abelas da sua exposição de pin u a po uguesa Cou o en endia, pacien e- men e, o con á io de F iedlande . E o esul ado e a, nas salas da pinaco eca po uguesa das Janelas Ve des, o hegemónico p edomínio dos mes es desconheci- dos ou dos mes es de nome con encional, es es po ezes debilmen e “in en ados” apenas a pa i de um e ábulo (“ Mes e do Re ábulo de San a Au a ”, “ Mes e do Re ábulo de S. Ben o ”, “ Mes e do Re ábulo de San os-o-No o ”, e c., e c.). A a i- ude a ingia pa icula adicalidade numa espécie de “negacionismo” aplicado ao chamado Mes e da Lou inhã, pin o de designação con encional a quem Luís Reis San os (que o “in en ou”4) da a duas pin u as do Museu ( San o An ónio e S. F an- cisco , San a Cla a e San a Cole a ) mas em cujo o ei o es as e am simplesmen e a i- buídas a um “ Es ilo luso- lamengo ”. E le a a, no mesmo o ei o sucessi amen e eedi ado, a ou as si uações algo insóli as, como a inexis ência de qualque ob a a i- buída a Ga cia Fe nandes, um dos mes es mais des acados na p imei a me ade do século XVI. Reis-San os, nos olumes monog á icos das Edições A is que lhe coube esc e e 5, azia en e an o o con á io. Em cada um a a a de cons ui e o ganiza em pe ío- dos c onológicos odo um as o co pus de pin u as de um mes e quinhen is a, ela- QUE HACEN LOS CONSERVADORES? 2Idem, ibid., p. 16. 3Vol. III do Dicioná io da Pin u a Uni e sal , Lis- boa, Edi o ial Es údios Co , 1973. 4Luís Reis-San os, “Pin u a da Renascença”, Diá- io de No ícias , Lisboa, 25 de Dezemb o de 1938. Idem, “Duas ob as-p imas de um g ande pin o igno ado na Mise icó dia da Lou inhã”, Es udos de Pin u a An iga , Lisboa, Edição do Au o , 1943. 5Os olumes G egó io Lopes ; Ga cia Fe nandes ; C is ó ão de Figuei edo ; Vasco Fe nandes ; O Mes- e da Lou inhã ; Jo ge A onso; odos da “No a Colecção de A e Po uguesa”, Edições A is. 141 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 bo ando lis as de peças sem apa en es hesi ações a ibu i as e, ao mesmo empo, não se p eocupando em undamen a ou jus i ica al a iculado de ob as e pe íodos. Pode dize -se que se o Museu Nacional de A e An iga não p omo ia exposições monog á icas de pin o es dessa época po , mani es amen e, não acha que alguma coisa de subs ancial se pudesse euni sob uma mesma e segu a a ibuição, Reis-San- os assegu a a sucedâneos de ais “exposições” nas e ocadas ilus ações em o o- g a u a dos li os da A is, que supos amen e exibiam o segu o ca álogo de ob as de cada au o impo an e… Os empos hoje são ou os, que nos museus, que na his o iog a ia. A p óp ia noção de au o , na pin u a dos séculos XV e XVI6, é hoje mais ela i izada e complexi icada g aças aos es udos écnicos espei an es à ma e ialidade e p ocesso c ia i o das ob as, bem como à in es igação sob e a encomenda, o me cado ou a o ganização o i- cinal que es u u a am o sis ema de p odução das pin u as. A colabo ação en e con- se ado es, his o iado es e cien is as ace ca de odos es es aspec os endem a cons i ui em o no da a ibuição uma so is icada me odologia. A abela da pin u a no museu ala gou assim o seu leque de possibilidades de classi icação e po ezes, na secu a e concisão do seu o ma o in o ma i o, não consegue aduzi a sub ileza do assun o ou as dú idas que ele p óp io ence a. Tem de se complemen ada po ou os supo es de comunicação. Ac ualmen e, nas salas de pin u a do Museu Nacio- nal de A e An iga, a in o mação é bem mais “audaz” e gene osa que na época de João Cou o, que no que se e e e à objec i idade a ibu i a, que no que espei a à in o mação his ó ica sob e as ob as. Mas con inuam a exis i , necessá ia e p uden- emen e, pin u as não a ibuídas, admi indo que o aspec o mais ecundo do conhe- cimen o que elas con ocam não se esgo a essencialmen e (ao con á io do que ambém p opugna a F iedlände ) na elucidação da iden idade do seu au o . Tal ano- nima o não deco e, po an o, nem da p eguiça nem da igno ância do conse ado . As pin u as que o museu ai expondo e elacionando, em di e sas si uações mais ou menos ocasionais ou empo á ias, azendo peças das ese as ou ecebendo emp és- imos, pe mi em a é ce os con on os que p omo em o ag upamen o iden i á io de algumas ob as em o no de um mes e ainda desconhecido mas iden i icá el pelo es ilo, comum, dessa sé ie de pin u as. O museu p omo e assim um ap o unda- men o do conhecimen o que não é p ejudicado pelo anonima o au o al, ab indo a possibilidade p oposi i a, em e mos a ibu i os, de um no o “nome de con enção”. O caso de que se ocupa a segunda pa e des e ex o esul a de uma soma de si ua- ções exposi i as que oco e am no Museu Nacional de A e An iga nos úl imos anos – exposições empo á ias como A Espada e o Dese o (2002) e algumas emodela- ções da exposição na Gale ia de Pin u a Po uguesa na úl ima década. Ele p opõe um ag upamen o de pin u as que de inem a p odução de mais um “au o anónimo”, cu iosamen e na es ei a do pin o igno ado nos o ei os de João Cou o: Ga cia Fe - nandes. 6C . Ma yan Wynn Ainswo h, “Wha ’s in a Name? The ques ion o a ibu ion in Ea ly Ne he landish Pain ing”, Recen de elopmen s in he echnical examina ion o Ea ly Ne he landish Pain ing. Me - hodology, limi a ions & pe spec i es , Camb idge e Tu nhou , Ha a d Uni e si y A Museums e B e- pols Publishe s, 2003. QUE HACEN LOS CONSERVADORES? 142 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 Um colabo ado ou seguido de Ga cia Fe nandes ainda sem nome Pelos meados do século XVI a pin u a po uguesa a a essa um empo de eno ação de ge ações. O desapa ecimen o dos p incipais mes es eme gen es no âmbi o da já “longínqua” conjun u a manuelina7(longínqua não só pelo simples co e do empo mas ambém pelas ans o mações i alianizan es da década de 30) e os sinais de ac i- idade independen e de alguns pin o es “meno es” – e ainda anónimos – que ac ua- iam jun o das o icinas ou na ó bi a de ais mes es e que e elam pa ilha os seus modelos, con igu am uma si uação ípica de c ise no sen ido his o iog á ico do e mo. De ac o a ansição só se cump i á plenamen e com a adopção de no os pa adigmas a ís icos, is o é, com a ob a-mani es o e a mode nidade omana de um pin o nos Je ónimos, An ónio Campelo, cuja idade ou biog a ia se desconhecem po ém quase em absolu o. En e an o, a si uação de c ise e lec e-se na nossa p óp ia di iculdade de indi iduação e in e p e ação dos enómenos de con inuidade e descon inuidade que se de ec am na p á ica a ís ica desses meados do século. Dando exemplos, aliás bem conhecidos: a des inça en e a p odução inal de G egó io Lopes e a ac i idade do chamado Mes e de Ab an es (possi elmen e C is ó ão Lopes); a p oximidade de exp essões pic ó icas en e alguns painéis dados ao Mes e de Ab an es e ce as ob as iniciais da ca ei a de F ancisco de Campos em Po ugal; a iden i icação de an e- ceden es o mais e “exp essi os” do Mes e de A uda dos Vinhos, que em Lopes ou Ga cia Fe nandes, que em Diogo de Con ei as. Po ou o lado, a his o iog a ia em e elado algum descon o o no emp ego de noções como “ o icina de ”, “ cí culo de ” ou “ con inuado de ” pa a ca ac e iza a ibu i amen e um bom núme o de peças ou g upos e abula es de ou a na u eza, ob as em que se p essen e um ce o g au de iliação es ilís ica e ao mesmo empo de sensí el de ogação o mal ace a modelos pic u ais iden i icados com as já e e idas g andes o icinas da época. Na maio pa e dos casos são ob as que “in laciona am” quan i a i amen e o ca álogo dos chamados Mes es de Fe ei im, ainda a a és dos céleb es olumes das Edições A is, e hoje c i- icamen e enca adas, segundo uma análise mais exigen e e menos a ibuicionis a, à luz das e e idas noções ope a i as – es as quase semp e de “geome ia” a iá el quan o à de inição dos seus limi es quali ica i os, ou seja, da sua eal alia ope a i a. In e essa-me, nes a úl ima pe spec i a, des aca suma iamen e a possí el unidade de uma sé ie de pin u as e abula es que se iliam p edominan emen e no es ilo pic u al de Ga cia Fe nandes – ou o que dele mais segu amen e conhecemos enquan o al e que acaba po se cingi a uma abundan e p odução e abula no empo b e e de uma só década, a que ai de 1531, da a do íp ico de San a Cla a de Coimb a (Museu Nacional de Machado de Cas o), a 1541, da a do Casamen o de San o Aleixo pa a a Mise icó dia de Lisboa e sua úl ima peça iden i icada (Museu de S. Roque) –, mas que não me pa ecem pode se a ibuídas a es e ope oso mes e, pin u as cuja o una c í- ica mais ecen e em sido agmen á ia ou casuís ica, com p ejuízo de uma pe spec- QUE HACEN LOS CONSERVADORES? 143 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 7En e 1540, da a do es amen o e p esumí el mo e de Jo ge A onso, e 1565, ano em que du- idosamen e ainda i e ia Ga cia Fe nandes, desa- pa ecem de cena os ou os p incipais ul os: Vas- co Fe nandes (1542?), G egó io Lopes († 1550), C is ó ão de Figuei edo (ainda ac i o em 1555 mas já mui o elho) e Diogo de Con ei as (que em 1565 já inha alecido). i a uni icado a enden e ao seu ag upamen o em o no de um pin o de que desco- nhecemos a iden idade mas cuja ob a pode i a dema ca -se à cus a, jus amen e, de algum “emag ecimen o” de an igas e dila adas e sões do co pus de Fe nandes. Da á eis de c.1550, as qua o ábuas da Lenda e Ma í io de San a Ca a ina que pe - encem ao MNAA8ajus am-se bem à demons ação da di iculdade de aça ní idas on ei as au o ais. O painel da Ele ação do co po de San a Ca a ina é al ez um ele- men o de o e ap oximação com o ciclo do mesmo ema na sac is ia da Sé de Velha Goa, dado a Fe nandes e da á el do inal da década de 1530, mas as ês pin u as es- an es e idenciam com maio cla eza, que nas igu as secundá ias, que nas a - qui ec u as, um ipo de concepção mais simpli icada da o ma e um c oma ismo ela i amen e es i o e pouco ib an e. Aquilo que no e ábulo de Goa é sedu o a demons ação de um desenho sin é ico e ondulan e no p i ilegia da igu a, no ou o conjun o ca a inis a passa a se simpli icação e alguma secu a da o ma, pa a além das ambém no ó ias di e enças de a iculação das pe sonagens com o espaço pic ó ico 8 San a Ca a ina dispu ando com os Dou o es , Des uição da máquina do ma í io , Ma í io de San a Ca a ina e Ele ação do co po de San a Ca- a ina pelos Anjos . Vd. João Cou o, “Qua o pin- u as da ida de San a Ca a ina”, in Belas-A es, Re is a e Bole im da Academia Nacional de Belas- -A es , Lisboa, 1950. QUE HACEN LOS CONSERVADORES? FIG. 1- Degolação de San a Ca a ina de Alexand ia , 114 x 85 cm, MNAA, in .1837 Pin . © José Pessoa, DDF/IMC. FIG. 2 - Deposição de C is o no Túmulo , 168 x 98,4 cm, Museu F ancisco Ta a es P oença Júnio , in .15.25 MFTPJ. © José Pessoa, DDF/IMC. 144 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 en ol en e (FIG. 1). Pa a usa uma ó mula simples, o conjun o do MNAA c eio pode cons i ui ob a e abula não de mas, quando mui o, com Ga cia Fe nandes9. Du ido que seja exac amen e em ais pa âme os que se pode ques iona , po seu u no, a Deposição de C is o no Túmulo do Museu de Ta a es P oença Júnio (Cas elo B anco) (FIG. 2), ob a p o a elmen e an e io , ainda da década de 1540-50, mui o con- cen ada num esplêndido a amen o do co po exangue de C is o e do sudá io que o en ol e, p es es a epousa em numa belíssima a ca de má mo e, lisa e despojada, de salien e p esença plás ica no conjun o da composição. Há aqui pa icula idades de “es ilo” que eme em, sem dú ida, pa a Ga cia Fe nandes, a in e enção dominan e do pin o nes a ob a pa ece con igu a -se como mui o plausí el, mas con inua a se imp u- den e assaca -lhe sem e icências al au o ia. Con inua a se uma ob a mui o complexa nesse ní el de análise. C eio en e an o pode da -lhe uma “descendência”, ou seja, apon a uma pin u a, com idên ica c onologia, que de ém alguma iliação no pa icu- la “es ilo” do painel de Cas elo B anco. T a a-se da Lamen ação (FIG. 3) expos a no Museu G ão Vasco10, ais a inidades se e idenciando no “ edondo” a amen o de igu- as e panejamen os, no seu en ol en e agenciamen o, bem como em igu ações de pla- nos secundá ios e elemen os comuns de opog a ia da paisagem. A pa i des as duas ob as e i ico e oco ido uma “mig ação” de elemen os igu- a i os pa a um painel um pouco mais a dio, julgo que da á el da década de 1550, ac ualmen e expos o na ig eja de S. Ped o de Mou a mas pe encen e a um an igo e ábulo da ig eja do con en o do Ca mo na mesma localidade. Falo de uma Lamen- ação sob e C is o Mo o 11 (FIG. 4) que oma de emp és imo à Deposição de Cas elo B anco as duas igu as secundá ias de San as Mulhe es e ao painel de Viseu a ipo- logia essencial das pe sonagens da Vi gem e de S. João, pa a além das ep esen a- QUE HACEN LOS CONSERVADORES? FIG. 3 - Lamen ação , 83 x 133 cm, Museu G ão Vasco, depósi o do MNAA, in .62 Pin © Ca los Mon ei o, DDF/IMC. FIG. 4 - Lamen ação , 122 x 84 cm, Ig eja de S. Ped o, Mou a © MNAA. 145 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 9Opinião idên ica exp essa Joaquim Oli ei a Cae- ano no ca álogo da exposição que comissa iou em 1998 sob e Ga cia Fe nandes: “ O seu desenho esquemá ico e o a amen o dos panos lemb am mui o a pin u a de Ga cia Fe nandes, mas ambém mui o di e e do seu modo de pin a , nomeada- men e uma mais o e abe u a à paisagem e uma colocação mais abe a das igu as no espaço ” ( Ga cia Fe nandes, um pin o do Renascimen o elei o da Mise icó dia de Lisboa , Museu de S. Ro- que, Lisboa, 1998, p.72). 10 Pe ence à colecção do MNAA, in . 62 Pin . C . Dalila Rod igues, Museu G ão Vasco – Ro ei o , Viseu, 2004, p.151. 11 C . Joaquim Oli ei a Cae ano, ob. ci . na no a 3, p.72, e Joaquim Oli ei a Cae ano e Ví o Se ão, A pin u a em Mou a, séculos XVI, XVII e XVIII , Mou a, 1999. Também os ca álogos de exposição En e o Céu e a Te a. A e sac a da Diocese de Beja , Beja, 2000 ( icha c í ica de Ví o Se ão e José An ónio Falcão a p. 158 e ss. do ol. II) e As o mas do espí i o. A e sac a da Diocese de Be- ja , Beja, 2003 ( icha c í ica de Fe nando An ónio Bap is a Pe ei a e José An ónio Falcão a p. 60 do omo II). ções do úmulo de C is o e do Cal á io, aqui eunidas no lado esque do da compo- sição. A pin u a de Mou a exibe no en an o um modelado mais sumá io, um con o no e es u u a das igu as mais ígido e menos exp essi o, uma cons ução do espaço e da paisagem que cump e a sua ocação na a i a mas que esul a inapela elmen e esquemá ico, con igu ando o luga da acção mas não pa icipando da d ama icidade do episódio. E é essa igidez e esquema ismo que po seu u no o ap oxima, mais pelo pin a que pelo igu a , do conjun o da lenda de San a Ca a ina a que aludi acima, ais ca ac e ís icas o nando-se ainda mais e iden es no ou o painel ema- nescen e do e ábulo de Mou a, um Ma í io de S. Sebas ião hoje pe encen e a colecção pa icula 12. Os painéis do Ca mo de Mou a podem assumi -se, des e modo, como um pon o de con e gência e de eu ilização de modelos igu a i os c iados na o icina de Ga cia Fe nandes, a ando-se já de uma p odução au ónoma ela i amen e ao abalho do mes e e não de um es emunho a dio da sua igno ada ca ei a depois de 1541. Ob a c onologicamen e mais ecuada desse pin o do es ei o cí culo de Fe nandes pode á se o painel da Vi gem das Do es odeada pelos se e co esponden es episódios da Vida e Paixão de Jesus (dado po Luís Reis-San os à “ e cei a época [1531-40] ” de ac i idade de Ga cia Fe nandes) (FIG. 5), onde que a igu a cen al que a ep esen- QUE HACEN LOS CONSERVADORES? 146 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 FIG. 7 - Ma í io e milag e de S. C is ó ão , 118 x 85 cm, MNAA, in .1270 Pin . © José Pessoa, DDF/IMC. FIG. 5 - As Se e Do es da Vi gem , 73 x 56 cm, MNAA, in .947 Pin © José Pessoa, DDF/IMC. FIG. 6 - C is o descido da C uz , 226 x 206 cm, MNAA, in .1265 Pin © MNAA.