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Arte colaborativa: uma observação localizada dos teatros e dos seus públicos

Abstract

A abertura da arte e das suas estruturas às comunidades locais tem servido para um maior envolvimento dos públicos na cultura e nas decisões que sobre ela são tomadas. As atividades culturais e artísticas são hoje experienciadas como património da terra e representam muito trabalho colaborativo que está para lá das lógicas mais institucionalizadas de reconhecimento da cultura. Neste artigo analisamos três contextos de arte colaborativa e pretendemos extrair os sentidos daquilo que é localmente relevante para os indivíduos. O dinamismo das estruturas, dos artistas-diretores, das equipas e públicos, a sua ligação espontânea e informal, grande proximidade e envolvimento com os públicos merecem um trabalho de campo mais aturado. Procuramos desta forma interpretar as missões de cada estrutura e comunidade, tendo como compromisso a sua observação etnográfica. Esta é reveladora da diversidade de rotinas e ruturas dos quotidianos de trabalho artístico, práticas e interações colaborativas. Veremos que as estruturas que apelam à participação da população local oferecem ao público contextos de convivialidade que podem aumentar o bem-estar de um pequeno círculo de habitantes locais.

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Arte colaborativa: uma observação localizada dos teatros e dos seus públicos

Author: Borges, Vera
Publisher: Centro em Rede de Investigação em Antropologia
Year: 2018
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/38086/1/ICS_VBorges_Arte.pdf
E nog á ica
Re is a do Cen o em Rede de In es igação em
An opologia
ol. 22 (2) | 2018
Inclui dossiê "E nog a ias u banas"
A e colabo a i a: uma obse ação localizada dos
ea os e dos seus públicos
Collabo a i e a : a localized obse a ion o hea e s and i s publics
Ve a Bo ges
Edição elec ónica
URL: h p://jou nals.openedi ion.o g/e nog afica/5655
DOI: 10.4000/e nog afica.5655
ISSN: 2182-2891
Edi o a
Cen o em Rede de In es igação em An opologia
Edição imp essa
Da a de publição: 1 Junho 2018
Paginação: 453-476
ISSN: 0873-6561
Re ê encia ele ónica
Ve a Bo ges, « A e colabo a i a: uma obse ação localizada dos ea os e dos seus públicos »,
E nog áfica [Online], ol. 22 (2) | 2018, Online desde 07 julho 2018, consul ado em 12 julho 2018. URL :
h p://jou nals.openedi ion.o g/e nog afica/5655 ; DOI : 10.4000/e nog afica.5655
E nog áfica is licensed unde a C ea i e Commons A ibu ion-NonComme cial 4.0 In e na ional
License.
e nog á ica  junho de 2018  22 (2): 453-476
A e colabo a i a:
uma obse ação localizada
dos ea os e dos seus públicos
Ve a Bo ges
A abe u a da a e e das suas es u u as às comunidades locais em se ido pa a
um maio en ol imen o dos públicos na cul u a e nas decisões que sob e ela são
omadas. As a i idades cul u ais e a ís icas são hoje expe ienciadas como pa imó-
nio da e a e ep esen am mui o abalho colabo a i o que es á pa a lá das lógicas
mais ins i ucionalizadas de econhecimen o da cul u a. Nes e a igo analisamos
ês con ex os de a e colabo a i a e p e endemos ex ai os sen idos daquilo que
é localmen e ele an e pa a os indi íduos. O dinamismo das es u u as, dos a is-
as-di e o es, das equipas e públicos, a sua ligação espon ânea e in o mal, g ande
p oximidade e en ol imen o com os públicos me ecem um abalho de campo mais
a u ado. P ocu amos des a o ma in e p e a as missões de cada es u u a e comu-
nidade, endo como comp omisso a sua obse ação e nog á ica. Es a é e elado a
da di e sidade de o inas e u u as dos quo idianos de abalho a ís ico, p á icas
e in e ações colabo a i as. Ve emos que as es u u as que apelam à pa icipação
da população local o e ecem ao público con ex os de con i ialidade que podem
aumen a o bem-es a de um pequeno cí culo de habi an es locais.
PALAVRAS-CHAVE: ea o, a e colabo a i a, público, obse ação e nog á ica.
Collabo a i e a : a localized obse a ion o hea e s and i s publics  The
opening o a and i s s uc u es o local communi ies has been helping o u he
he public’s in ol emen in cul u e and in he decisions made abou i . Cul u al
and a is ic ac i i ies a e now expe ienced as local he i age and hey ep esen a
g ea deal o collabo a i e wo k ha goes beyond he mo e ins i u ionalized ec-
ogni ion logic o cul u e. In his a icle, we analyze h ee a is ic con ex s o col-
labo a i e a wi h he aim o ex ac ing he meaning o wha is locally ele an
o hese people. The dynamism o cul u al s uc u es, hei a is -di ec o s, eams
and publics, hei spon aneous and in o mal ne wo ks, p oximi y and in ol emen
all wa an mo e in-dep h ieldwo k. Acco dingly, we y o shed ligh on he mis-
sions o each s uc u e and communi y by means o e hnog aphic obse a ion.
This e eals he di e si y o ou ines and up u e in hei day- o-day a is ic wo k,
p ac ices and collabo a i e in e ac ions. We see ha he s uc u es which call o
he local popula ion’s pa icipa ion p o ide he public wi h con ex s o con i iali y
which can enhance he well-being o a small ci cle o local inhabi an s.
KEYWORDS: hea e , collabo a ion, public, e hnog aphic obse a ion.
BORGES, Ve a ([email p o ec ed]) – ISCTE – Ins i u o Uni e si á io de
Lisboa, Dinâmia’CET-IUL; Ins i u o de Ciências Sociais da Uni e sidade de Lisboa
(ICS-ULisboa).
454  VERA BORGES e nog á ica  junho de 2018  22 (2): 453-476
PREMISSAS, CONTEXTOS E METODOLOGIA
Na úl ima década e meia, as p á icas a ís icas de ca ác e colabo a i o in en-
si ica am-se, amplia am-se e ein en a am-se.1 O enómeno az-se a uma escala
global e deco e da o ganização e modos de p odução das a es, ei as em con-
jun o e no in e io de in incadas edes colabo a i as e de coope ação (Becke
1960, 1982). Es as edes são ala gadas; no en an o, p oduzem uma ação cada
ez mais localizada e comp ome ida com a e a, com o local. As p á icas a ís-
icas colabo a i as es ão elacionadas com g andes e en os, es i ais, bienais
e capi ais da cul u a, mas es ão ambém mui o ligadas a p og amas e p oje os
de “a e do bai o” (Bo ges 2015a, 2015b). Em qualque um dos casos, os
seus canais de di ulgação e pa ilha são hoje mais acele ados do que nunca
(Kes e 2011). Assis imos, des a o ma, a uma econ igu ação da elação dos
a is as e dos g upos de ea o com os seus públicos. Es es públicos são mais
in e enien es e, mui as ezes, assumem-se como azedo es, “cocu ado es”,
de p oje os e e en os, desa iando o apa ecimen o de no os espaços de aba-
lho e de ap esen ação, e acei ando pa icipa com os a is as em p oje os de
o e con i ialidade e in o malidade, o que os ap oxima cada ez mais (B own,
Leona d-No ak e Gilb ide 2011; Ma kusen e B own 2014; Bo ges e Lima
2014).
Nes e a igo, p oponho des enda ês casos e con ex os onde p á icas e
quo idianos deixam e as a es colabo a i as dos nossos dias, nas suas peque-
nas comunidades, com egis os ex aídos da minha obse ação e nog á ica e
dos diá ios de bo do que enho indo a cons ui ao longo dos anos (Bo ges
2001, 2002, 2007, 2015b). Po isso, mais do que aze a his ó ia do abalho
a ís ico colabo a i o ou a his ó ia dos ea os na comunidade, sugi o aqui a
ap esen ação de ês e nog a ias com desc ições p ecisas dos con ex os onde
as mesmas e oluem, se ans o mam e ope am. As desc ições que ap esen o
pe mi em-me, depois, e le i sob e aspe os mais amplos, como as condições de
p odução da a e e, em pa icula , do ea o po uguês con empo âneo.2
1 Es e a igo enquad a-se no p oje o de in es igação in i ulado “Repu ação, Me cado e Te i ó io:
En e o Tea o e a A qui e u a”, que em o apoio da FCT – Fundação pa a a Ciência e a Tecnolo-
gia. O a igo oi pa cialmen e ap esen ado no seminá io “C ia i idade, cul u a e e i ó io: in es iga
pa a / com as comunidades”, ealizado no Dinâmia’CET-IUL, em Lisboa, no dia 17 de junho de 2015,
com o í ulo “A e colabo a i a: o ganizações, públicos e pequenas comunidades locais”. Uma e são
ala gada do ex o oi discu ida na Uni e sidade de Leices e , no âmbi o da con e ência in e nacional
“Is he e an al e na i e? Managemen a e c i ique”, 8-10 de julho de 2015, na linha de pesquisa
“O ganisa ion and collabo a i e p ac ices in he A s”. Ag adeço aos colegas os seus comen á ios e
suges ões que en iquece am es e ex o.
2 Com a u ilização de e mos como p á icas pa icipa i as, colabo a i as e elacionais, aço no a
que se analisa um conjun o de p ocessos e in e ações pa ilhadas que p e endo a a como o mas de
uma p áxis c ia i a ( e Kes e 2011: 9). Sendo a a e colabo a i a um complexo enómeno cul u al
com múl iplas genealogias e endências, a minha p e e ência se á apoia -me numa análise [con inua]
ARTE COLABORATIVA: UMA OBSERVAÇÃO LOCALIZADA DOS TEATROS…  455
A o mulação das mic oe nog a ias que ap esen o nes e a igo inspi a-se no
abalho de C. Bas os (2001: 303), cujos p essupos os êm sus en ado ou as
pesquisas, das quais des aco a de F. Rigal (2015) sob e a impo ância da “den-
sidade do espaço elacional na cidade”. Es as mic oe nog a ias de p á icas e
in e ações dos p o agonis as na sua elação com os e i ó ios ão pe mi i -me
alia o es udo dos indi íduos às suas in e ações com os ou os e as comunida-
des, es u u as e con ex os locais em que e oluem. Po isso, pedi aos a is as
que me alassem sob e os seus espaços de c iação, os abalhos que cons oem
e as peculia idades dos e i ó ios onde os p oduzem. Pedi ainda que me mos-
assem aquilo que mais lhes impo a na sua elação com esse e i ó io e com
os seus públicos, que e emos a ua como copa icipan es e c iado es de espe-
áculos, e en os e expe iências a ís icas.
P ocu o, assim, esboça uma “ca og a ia de in e ações” (Bas os 2001: 318)
dos a is as e g upos com o seu e i ó io e os seus públicos. Nas pala as de
J. M. Pais, es e disposi i o me odológico en ende-se como o momen o de o
in es igado “ aguea nas o as do quo idiano” (Pais 1993) dos g upos e dos
a is as, e elando as suas o inas, u u as no abalho, p á icas e in e ações.
É uma análise em modo de descobe a, mais do que a “a assalado a ânsia de
possessão” da ealidade, de udo (pa ece ) conhece e domina . A p opos a
é ul apassa essa ilusão e p omo e uma abo dagem mais heu ís ica e uma
obse ação que se “aconchega ao calo da in imidade da comp eensão” (Pais
1993: 108-110). A o ma como esc e o e ap esen o cada um des es ês casos
e con ex os obedece, em ce a medida, ao mesmo es ilo “ e a is a” que u ilizei
em Todos ao Palco! (Bo ges 2001) e Tea o, P aze e Risco (Bo ges 2008).
A minha in enção é mos a como os indi íduos e os g upos abalham,
apon ando acon ecimen os, acumulando alguns de alhes de elações e oco ên-
cias que obse ei e sob e os quais posso gene aliza . Como a i ma am Glase
e S auss (1967: 40): “No abalho de campo, con udo, as elações são mui as
ezes des endadas in i o; isso signi ica que o in es igado ê li e almen e que
es ão a oco e ”; com os sen idos c ia i amen e comp ome idos, p ocu o e e ,
sen i e ansmi i as p incipais “co espondências” (Pink 2006: 60) do que ali
i acon ece .3
Escolhi obse a de pe o as es u u as cul u ais Alma d’A ame, em
Mon emo -o-No o; a D’O eu, em Águeda; e o Tea o Vi ia o, em Viseu. As
es u u as e os seus di e o es (A. Anas ácio, L. Fe nandes, P. Ribei o) deixa-
am-me en a nos seus mic omundos das a es, pelo que enho como pon o de
pa ida a his ó ia que me é con ada pelo a is a-di e o e a obse ação da sua
das di e en es a iculações, p á icas e locais da pa icipação e colabo ação, e mos a como podem es es
ês casos e ela algumas das condições de e olução da a e con empo ânea e, em pa icula , do ea o.
3 Ve ambém o con ibu o de Becke e al. (1989) e a o ma c ia i a como ap esen am ês cen os
egionais de a i idade ea al nos Es ados Unidos – Chicago, São F ancisco e Mineápolis, eco endo a
um o ma o de esc i a do ipo “ ex o d amá ico”.
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in e ação com os indi íduos e as ins i uições com os quais se c uza no e i ó-
io. Po im, dou a e as in e seções elacionais que se ope am en e os g upos
e os seus públicos “escolhidos”, suge indo a impo ância de que se e es e o
seu “chamamen o” pa a a c iação conjun a de espe áculos e a sua pa icipação
em e en os que associam a a e, p omo ida pelo g upo, e o seu con í io em
edo de expe iências que podem se a ís ico-gas onómicas.
Em ge al, con ém sublinha que, nos ês casos, os e ei os do abalho a ís-
ico e cul u al desen ol ido pelos g upos não são homogéneos pa a os seus
públicos e comunidades locais; ambém os bene ícios ge ados pelo seu a-
balho não são linea es, nem es ão em di e a p opo ção com a in ensidade e
o ní el de pa icipação dos públicos. As di e en es ap op iações e i o iais e
o ien ações dos g upos engend am ações a ís icas, cul u ais e sociais dis in as,
o que cons i ui o undamen o da minha análise e a escolha in encional des as
es u u as. Conjugam-se, com e ei o, a obse ação e análise das ocações, mis-
sões e obje i os de indi íduos, mas ambém de pa cei os locais e públicos-pa -
icipan es, desenhando-se com es a íade as nossas pequenas comunidades de
a es colabo a i as.
“A CIDADE COMO UM CONJUNTO”:
ANÁSTÁCIO, ALMA D’ARAME, EM MONTEMOR-O-NOVO
En o no cen o his ó ico de Mon emo -o-No o, comunidade in e municipal
do Alen ejo Cen al. Passo pela elha loja do apicul o , as lojas de oupa e lojas
-a mazém que es ão semp e de po as abe as. Ao chega à es ada p incipal,
aquela que sobe a é ao Cine ea o Cu o Semedo, p oje ado pelo a qui e o
Raul Lino, a meio da ua, do lado esque do, com uma po a pin ada de e de,
ica a casa da Alma.4 A his ó ia do g upo é a mais ecen e dos ês casos ana-
lisados. A es u u a oi undada em 2006 e es á sediada nesse p édio an igo,
localizado an es do la go onde es á o ja dim e o co e o.
No p imei o anda do p édio encon a-se a sala de p odução e a sala de
ensaios do g upo, onde con e sei com Anas ácio. O g upo concen a nesse
espaço a sua equipa de p odução. Na al u a, es a am ês pessoas, uma das
quais abalha a empo in ei o no g upo e az o apoio às a i idades adminis-
a i as. Numa sala con ígua encon am-se as ma ione as u ilizadas nos espe-
áculos do g upo, ejo ambém alguns ca azes e olhe os de di ulgação de
espe áculos des e e de ou os g upos de Lisboa.
A. Anas ácio (n. 1972) é cenóg a o e manipulado de ma ione as, undado
e di e o da Alma d’A ame. Es eou-se no ea o p o issional quando ainda e a
es udan e. P imei o oi écnico de luz, depois ap endeu a aze manipulação
de ma ione as e, no im da década de 1990, sen iu que e a mesmo aquilo que
4 A Alma d’A ame si ua-se em Mon emo -o-No o, uma egião com 17.437 habi an es e 1232,97 km2.

ARTE COLABORATIVA: UMA OBSERVAÇÃO LOCALIZADA DOS TEATROS…  457
que ia aze : “ganhei-lhe o gos o”. Esse gos o c esceu enquan o azia o mação
na Escola P o issional de Cascais, sob a di eção de C. A illez, encenado e
di e o do Tea o Expe imen al de Cascais. Nes a escola concluiu o cu so de
cenog a ia de cena. Em Cha le ille (F ança), ap endeu a p o issão ea al de
a o manipulado .
A Alma d’A ame oi pensada quando Anas ácio abalha a com I. Gama no
an igo Tea o de Ma ione as de Lisboa. Nesse ea o, conheceu a o es manipu-
lado es e eco da os undado es da Ta umba, g upo de ma ione as sediado em
Lisboa. Acaba am, no en an o, po segui ou o caminho. A Alma esul ou do
incen i o de um an igo colega de escola de Anas ácio, en e an o e eado da
cul u a do município de Mon emo -o-No o. Com o passa do empo, a es u-
u a o malizou-se e passou a ope a de o ma mais a i a. Na cidade exis em
ou as es u u as cul u ais que ope am de o ma colabo a i a, de en e as quais
sublinho a ação do Co al de São Domingos, do Ensemble Mon e Mo , das O i-
cinas do Con en o, da Rede de Cidadania de Mon emo , da Sociedade An iga
Fila mónica Mon emo ense Ca lis a, dos Sinais de Fogo e do Chapa o Inquie o.
A p imei a a i idade p oduzida pela Alma d’A ame oi um es i al. “O es-
i al oi a bandei a do g upo”, disse-me Anas ácio na nossa p imei a con e sa
[diá io de bo do, 22 / 10 / 2014]. O es i al se iu pa a “ e como é que as pes-
soas eagiam. Vamos gas a dinhei o nis o, po quê?” Pa a ele, o mais impo -
an e no abalho de c iação a ís ica são “as pessoas, [elas] são a ignição, o
lume, a aísca pa a aze mos. Não me queixo. Temos salas de 100, 80 pessoas”.
Anas ácio é econhecido na cidade pelos seus abalhos de ma ione as, mas acima
de udo a ibui o seu econhecimen o ao ac o de “pe ence à e a” e de
man e uma ligação com as pessoas que ali habi am, os seus izinhos, o seu
público. O es i al oi p oduzido em colabo ação com as O icinas do Con en o,
uma associação cul u al de a e e de comunicação, localizada no Con en o de
S. F ancisco, em Mon emo -o-No o. Anas ácio abalhou nes as O icinas, na
á ea da p odução de espe áculos.
Nas suas pala as, a Alma é hoje um p oje o di e en e do p oje o inicial.
Desc e e-a como “uma pequena es u u a ol ada pa a o ea o de ma ione as,
pe o mance, ins alação, cenog a ia, escul u a” [diá io de bo do, 18 / 05 / 2015].
Não se a a apenas de um g upo de ea o de ma ione as, o seu abalho a ís-
ico econ igu ou-se e é mais ab angen e e in e disciplina . A inal, a es u u a
si ua-se a 101 km de Lisboa e é en ol ida pelos desa ios do e i ó io onde
i e: as ma ione as são bem- indas à e a, mas a ação cul u al e a in e enção
social que é solici ada ao g upo pelos seus pa cei os locais não pode cingi -se
apenas a esse ipo de abalho. A Alma é, mais do que an es, um “co upio” de
a i idades cul u ais.5
5 O g upo de e o seu nome a An ónio José da Sil a, na passagem ex aída da “Dedica ó ia à Mui
Nob e Senho a Pecúnia A gen ina” (1744), ci ada no si e da es u u a Espaço d’O Tempo, [con inua]
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Quando se sai do p édio e de, da Alma, i a-se à di ei a e chega-se à ua
da loja das lo es. São lo es que en ei am as pa edes da cidade que se pa ece
com um bai o das a es. Seguem-se mais lojas, de comé cio a iado, e chego a
um pequeno ca é, em en e à escola, acompanhada pelo di e o do g upo, que
con e sa e ala apidamen e sob e os a anços do seu p oje o com a colega do
P oje o Ruínas, que ambém es a a em ensaios. Pa a quem obse a, es e pa ece
se um quo idiano de encon os e colabo ações mui o i as, que se azem no
dia a dia.
A elação do a is a com as ou as es u u as e agen es locais o nou-se mais
o e desde que a Alma se p o issionalizou e passou a “exis i ” a empo in ei o.
Ali, o abalho a ís ico desen ol e-se de uma o ma quase ci cula , po que
udo se concen a num espaço mais ou menos delimi ado pelas on ei as geo-
g á icas da p óp ia cidade. A Alma colabo a com as O icinas do Con en o e
O Espaço d’O Tempo, no Cas elo. A O Espaço d’O Tempo oi “di ícil chega ”,
pa a u iliza as pala as do di e o , mas o g upo oi desenhando o seu cami-
nho, o nando-se um g upo-sa éli e impo an e pa a a colabo ação e i o ial
nes a comunidade. A coexis ência de inúme as es u u as cul u ais e a ís icas
alimen a as expe iências locais e as dinâmicas sociais dos a is as e dos habi-
an es locais.
Dia iamen e, Anas ácio desmul iplica-se en e as p á icas a ís icas mais iso-
ladas pa a pensa o p oje o da Alma, as con e sas com a equipa mais p óxima,
a cons ução e mon agem dos espe áculos e a p epa ação de wo kshops, passando
pelas euniões com os colegas das es u u as pa cei as pa a a ina a p og ama-
ção conjun a. Mas há ainda empo pa a o con í io com os amigos. Amigos
que pe encem a o ganizações comuni á ias com as quais Anas ácio pa ilha
momen os lúdicos e de coope ação, como acon ece, po exemplo, com o p oje o
de apoio e apêu ico a de icien es, Explo a ’ARTE, desen ol ido na Casa João
Cidade, a as ada do cen o, jun o ao acampamen o da comunidade cigana.
Num desses momen os de con í io, ou iu dize : “sei de um ex o que é
capaz de e in e essa ”, disse o amigo, p o esso , e o mado [diá io de bo do,
18 / 03 / 2015]. Es es momen os são a opo unidade de ou i uma his ó ia da
e a que pode inicia uma colabo ação espon ânea. São momen os de di agação
en e quem já se conhece há mui o. É que, eg a ge al, os esiden es locais passa-
am pelo Espaço da C iança. Esse espaço pe mi iu a Anas ácio conhece ou os
jo ens e es abelece laços de amizade que pe manecem a é aos dias de hoje.
Anas ácio le ou-me ao Espaço da C iança, onde b incou quando e a jo em,
ad e indo-me de que quem isi a o espaço “ ica como ido”. Acon ece mui o
aos a is as es angei os que isi am a e a. O Espaço em pequenas salas onde
[con inuação] pa cei a da Alma: “ udo anda num co upio… a é pa ece que a alma de a ame no co po
da co iça lhe in unde e dadei o espí i o e no o alen o”. Ve : < h p://www.oespacodo empo.p /p /
comunidade/20/340 > (úl ima consul a em junho de 2018).
ARTE COLABORATIVA: UMA OBSERVAÇÃO LOCALIZADA DOS TEATROS…  459
se desen ol em a i idades di e sas que ocupam os empos de laze das c ian-
ças, da pin u a, à cos u a, a es manuais, jogos de compu ado . É um espaço
sem janelas.
Po seu u no, os jo ens equen am o Cen o Ju enil. Nes e cen o há ma e-
ial de cos u a e lã que ocupa os jo ens à con e sa. É um espaço de con í io.
No undo, aqueles que ago a lide am g upos de ea o e es u u as cul u ais
pa ilham es e passado comum. Anas ácio pe ence à e a, desde semp e, e
essa elação acili a o seu abalho a ís ico e a acei ação pelas pessoas da “sua”
comunidade.
Como é que Anas ácio ê o seu p oje o? Ele desc e eu-me a Alma como
a his ó ia de uma es u u a que abalha “com ede pa a a consolidação de
um p oje o pa a a cidade” [diá io de bo do, 22 / 10 / 2014]. Com a e ique a de
es u u a que i e nas ma gens, o a da cidade de Lisboa, es a sua geog a ia
pa ece a inal da -lhe mais isibilidade local. No cen o de Lisboa acumulam-se
es u u as, a i idades e a is as. O sen i desse “excesso” oi-me desc i o po
Anas ácio, quando ela ou a sua saída do Tea o de Ma ione as de Lisboa e a
“passagem” pelo Tea o Nacional D. Ma ia II, no Rossio. Foi uma ques ão de
empo: Anas ácio comp eendeu en ão que Lisboa não e a sua.
Já em 2013, a a és do P oje o M, a Alma pa icipou numa pa ce ia lide-
ada po uma es u u a local mais econhecida, O Espaço do Tempo, que jun-
ou ou os pa cei os, como as O icinas do Con en o e o P oje o Ruínas.6 Em
conjun o, es as es u u as es ão associadas ao município. O P oje o M ez-se
localmen e pela p omoção de esidências a ís icas, wo kshops e no as c iações.
O P oje o da Pegada Cul u al, que a Alma desen ol eu e coo denou sem ou os
pa cei os, pe mi iu à equipa consolida -se e a i ma -se como es u u a p og a-
mado a de a i idades cul u ais egula es des inadas à população. Foi o caso dos
dois wo kshops a que assis i.
O p imei o oi conduzido po F. Meie , um engenhei o mecânico, alemão,
indo de Lisboa, onde abalha a na FabLab-EDP. Ago a diz-se “ endido a
Mon emo ” [diá io de bo do, 22 / 10 / 2014], onde i e e abalha. O wo kshop
di igiu-se a p o esso es do segundo ciclo. Po seu u no, o segundo wo kshop
des ina a-se a ensina como aze a ca ac e ização pa a cinema e inha como
público-al o jo ens-adul os. Foi di igido pelo no ueguês S. Kaa s ein. Nes e
wo kshop ealiza am-se abalhos com gesso, igu as g o escas, pessoas e ani-
mais. Uma dezena de o mandos, en e os 20 e os 45 anos, es udan es, educa-
do as de in ância, um ma ione is a e uma igu inis a. Pa icipa nes a a i idade
isa a desen ol e compe ências, ap ende no as écnicas; mas, pa a os dois
úl imos (um deles a o -manipulado de p o issão) a ou-se de “ eco da as éc-
nicas” que inham deixado de p a ica desde que ica am sem abalho [diá io
6 Es e p oje o oi inanciado no âmbi o do aco do ipa ido que a DGA es-SEC celeb ou com a
Câma a Municipal de Mon emo -o-No o e com O Espaço d’O Tempo e os seus pa cei os locais.
460  VERA BORGES e nog á ica  junho de 2018  22 (2): 453-476
de bo do, 18 / 03 / 2015]. Já no wo kshop “Momen os li e á ios”, escolhido pelo
g upo pa a mos a o seu público, a Alma ecebeu jo ens alunos, mos ando-
-me assim a di e sidade de públicos aos quais se di ige e p o ando que a escola
é um dos seus pa cei os-cha e locais ( e igu as 1 e 2).
“UMA MALHA TERRITORIAL”:
L. FERNANDES, D’ORFEU, EM ÁGUEDA
A minha en ada na D’O eu coincidiu com a passagem pelas uas da baixa de
Águeda, uas eple as de chapéus de chu a abe os, em pleno e ão. O e ei o
é colo ido e pa ece da as boas- indas a quem acaba de chega . Ao undo,
ou em-se sons de ins umen os. Ou em-se as c ianças que ensaiam no esco
ja dim da Casa d’O eu. É um espaço amplo, a céu abe o, na al u a p o e-
gido po uma enda, onde se eunia a o ques a pe cussi a da D’O eu, a opÁ.
O meu comp omisso com a obse ação e nog á ica começou nes e ja dim, com
es as c ianças e jo ens. As c ianças p epa a am o espe áculo com ins umen-
os que e am a inal obje os do nosso quo idiano: panelas, colhe es, sacos de
plás ico, la as. Aqui, es es obje os ganha am uma inalidade a ís ica e p o-
cu a am e o ça a consciência ecológica dos pa icipan es [diá io de bo do,
04 / 07 / 2014]. As c ianças acabam semp e po o na -se a is as e p o agonis as
de um espe áculo nas es as da cidade ( e igu a 3).7
Ao som des a o ques a, com mais de uma cen ena de c ianças e jo ens,
iniciou-se a nossa con e sa, que con inuou depois no in e io do edi ício que
isi ei com L. Fe nandes. A casa é an iga, oi doada aos bombei os po um
pa icula e, pos e io men e, cedida à D’O eu. Tem uma pequena biblio eca
com um impo an e espólio documen al sob e músicas adicionais, li os
in ei os de his ó ia da D’O eu, con ada em a igos, a as de euniões e o ça-
men os. Tem ambém á ias salas de ensaio, uma mon a com ma e iais de
di ulgação, ilmes, DVD pa a enda. A Casa é ocupada pela equipa de p o-
dução e, ao mesmo empo, pelos jo ens, esiden es locais, que azem os seus
ensaios.8
Fe nandes (n. 1972) con essa que se conside a um “au odida a da música”.
Di ige a D’O eu po que oi o único que esis iu às suas “ a essias di íceis”,
nos anos 90. Essas a essias de em e o nado mais o e a sua ligação aos
agen es locais, esponsá eis pela cul u a e capazes de es abelece laços coo-
pe a i os com as ins i uições na sua en ol en e mais ampla, a egional. Na
música, o seu pe cu so oi “na u al”. Desde cedo, Fe nandes acompanhou os
7 A D’O eu si ua-se em Águeda (A ei o), uma egião com 11.346 habi an es e 335,27 km2. Mais
in o mação em < h ps://www.do eu.p /no icias/ > (úl ima consul a em junho de 2018).
8 Em 2014, a D’O eu em 12 abalhado es a empo in ei o. Dois desen ol em o seu es ágio p o-
issional.
ARTE COLABORATIVA: UMA OBSERVAÇÃO LOCALIZADA DOS TEATROS…  467
Figu as 1 e 2 – “Momen os li e á ios”, EB 2,3, Mon emo -o-No o, 10 / 03 / 2015. © Alma
d’A ame.

468  VERA BORGES e nog á ica  junho de 2018  22 (2): 453-476
Figu a 3 – D’O eu, O ques a Pe cus si a de Águeda, Agi Águeda, 09 / 07 / 2014.
© Má ioAb eu.
Figu a 4 – “Repo ó io Osó io”, Sex as Cul u ais @ Cine ea o São Ped o, Águeda,
09 / 05 / 2014. © Má ioAb eu.
ARTE COLABORATIVA: UMA OBSERVAÇÃO LOCALIZADA DOS TEATROS…  469
No p imei o caso, Alma d’A ame, mos ei que o seu a is a-di e o , A. Anas-
ácio, man ém uma elação in o mal com os pa cei os locais, as di e en es
o ganizações a ís icas, sociocul u ais e e apêu icas: “são odos da e a”.
Além disso, a es u u a es á si uada num e i ó io cuja geog a ia p omo e
a con i ência de a is as p o issionais e amado es com a população izinha.
É um g upo com uma p á ica a ís ica ansdisciplina , sendo o di e o eco-
nhecido pelo público, não pela ma ca au o al dos espe áculos p oduzidos, mas
sim pela elação de comp omisso com o local, com os pa cei os cul u ais e com
os seus públicos pa icipan es, como as c ianças, os jo ens e os p o esso es ( e
igu a 1).
No segundo caso, a D’O eu, ap esen ei a o ma como o a is a-di e o a-
balha pa a a comunidade local, nomeadamen e pa a as c ianças e os jo ens
que equen am a Casa depois da escola, e mos ei como esse abalho ganha
isibilidade com a pa icipação dos jo ens na O ques a Pe cussi a de Águeda.
Na igu a 3, os jo ens a uam no “Agi Águeda A Fes i al”, e en o o ganizado
pelo município, com a in enção de p omo e o u ismo e a uição dos espa-
ços públicos. É de sublinha a colabo ação di e a dos habi an es locais nas
a i idades associa i as do g upo e nos es i ais que o mesmo o ganiza, como
o “Fes im”. Reco do as pala as de L. Fe nandes sob e um anúncio ei o no
“Fes im”: “Expe imen em o es i al no seu in e io , liguem-se ao g upo”. É um
modelo que dá p io idade à consolidação egional do g upo, numa comuni-
dade que o di e o conhece e pa a a qual o ien a os p oje os da D’O eu. Po
im, a igu a 4 mos a a ou a dimensão do seu abalho: o di e o é o a o em
“Repo ó io Osó io”, espe áculo ap esen ado no Cine ea o São Ped o. Nes a
o o ê-se o público a aplaudi de pé o seu espe áculo de ea o musical.
No e cei o caso, o Tea o Vi ia o e e, nos úl imos 16 anos, a di eção de
um econhecido co eóg a o, P. Ribei o. O ea o es á si uado num e i ó io
onde o núme o de o ganizações p o issionais e amado as locais se desen ol e
e e olui cons an emen e. A equipa da di eção man ém elações p o issionais e
ins i ucionais mui o sólidas com o município, bem como pa ce ias com ou as
ins i uições cul u ais e escolas. P ocu a ainda ab i as suas a i idades às c ian-
ças mais pequenas e às suas amílias, como se pode e nas o os das igu as 5
e 6. Mos ei que, nes e caso, o ea o alimen a uma elação p o issional com
a escola de dança, c iada pelo di e o , e acolhe esidências a ís icas de g upos
indos de Lisboa. O di e o p ocu a, des a o ma, ala ga e da isibilidade
nacional à comunidade pa a a qual abalha. Na igu a 7, o seu Ci cus Lab
Open é um exemplo das dinâmicas colabo a i as e da condição elacional dos
jo ens que habi am es e espaço u bano.
Nas ês mic oe nog a ias ap esen adas não p e alece a ideia do a is a-c ia-
do -di e o ol ado unicamen e pa a o seu abalho a ís ico. É a “qualidade
da expe iência” (Dewey 2005 [1934]: 50-51), daqueles que concebem e pa -
icipam nes es p oje os, o mais impo an e. Essa expe iência assegu a alo es
470  VERA BORGES e nog á ica  junho de 2018  22 (2): 453-476
Figu a 5 – Tea o Vi ia o, Ci cus Lab, Viseu, Amba , 22 / 05 / 2015.
© José Al edo.
Figu a 6 – Tea o Vi ia o, Ci cus Lab / Bibeu & Humph ey, Viseu, 17 / 02 / 2015.
© José Al edo.
ARTE COLABORATIVA: UMA OBSERVAÇÃO LOCALIZADA DOS TEATROS…  471
e sen idos pa ilhados que azem p og edi a es e a pública e um pequeno
“cí culo” de habi an es locais que acompanha e pa icipa nas a i idades das
es u u as: po exemplo, o a ô e a c iança ( igu a 5) no ci co, ou os jo ens que
expe imen am écnicas do no o ci co, no Tea o Vi ia o, são disso mesmo um
bom exemplo ( igu a 7). Já a o ma como os ês g upos ge em a componen e
a ís ica, cul u al e social de cada p oje o, e de cada ea o, é di e sa.
Os g upos ou es u u as cul u ais como a Alma d’A ame, a D’O eu e o
Tea o Vi ia o são di e en es, como são di e sas as aje ó ias dos seus p o is-
sionais, os espaços ( ea os) que ocupam, os e i ó ios que habi am, os p opó-
si os es é icos e a ís icos dos di e o es, as o ças ins i ucionais que in e êm
localmen e e os seus públicos, embo a haja um e hos e uma p á ica comum que
passa pela colabo ação dos seus públicos locais. Pa a alguns são os seminá ios
e wo kshops mais desligados da a uação a ís ica das suas equipas, momen os de
pa ilha de expe iências cul u ais com a população e os conhecidos / izinhos
do g upo; pa a ou os, os wo kshops uncionam como a elie s de c iação a ís ica
que aumen am as in e ações c ia i as da comunidade e dos seus a is as.
Depois, de emos ainda no a que, nos ês casos, a “pe meabilidade da
a e é adjacen e a ou as o mas de p odução simbólica (u banismo, a i ismo
ambien al, abalho social, e c.)” (Kes e 2011: 7) – do a i ismo cí ico ao
Figu a 7 – Tea o Vi ia o, Ci cus Lab Open, Viseu, 20 / 03 / 2015.
© José Al edo.
472  VERA BORGES e nog á ica  junho de 2018  22 (2): 453-476
pa icipa - azendo, à educação pela a e, à a e e comunhão. Es a comunhão
pode se ei a à ol a de uma mesa e p opo ciona a con i ência en e os indi-
íduos, po exemplo, a a és da “a e” e das expe iências gas onómicas, como
a degus ação do melho da egião de Viseu e dos países-pa cei os do ea o,
como a No uega, no caso do Tea o Vi ia o.
Nes e sen ido, as inalidades e consequências mais p o undas des es
wo kshops, a elie s, p oje os, e en os, espe áculos, ei os com e pa a a comuni-
dade – a que chamámos “ ea o com odos” (Bo ges 2015a) – es ão longe de
ica in ei amen e des endadas. Mas, de o ma esumida, pode conside a -se
desde já que, enquan o mobilizado es de pequenas comunidades, es es g upos
dão isibilidade à a e e ao local. Fazem-no alimen ando dia iamen e as suas
a i idades na comunidade, na egião, mas ambém u ilizando as edes digi-
ais, cons uindo uma comunidade digi al e ein en ando-se nela, sob e udo
no caso da D’O eu. Des e modo, aze “a es” é ambém es a conec ado ( e ,
a p opósi o des e ema, Gaun le 2011). Po im, des aco nes a discussão
alguns pon os que conside o cen ais pa a o es udo das a es colabo a i as e do
ea o po uguês con empo âneo, endo em con a os ês con ex os ap esen a-
dos e a li e a u a p oduzida sob e a emá ica:
 O ea o deu luga a p á icas a ís icas que se apoiam cada ez mais
em concei os ala gados sob e aquilo que é a a e, aumen ando ainda o
núme o de pessoas in e essadas e a sua di e sidade social. A o e a de
a i idades é coe en e com as necessidades locais e a sua pe inência é
di e en e de um e i ó io pa a ou o, como mos ei com os ês casos.
Algumas das p á icas a ís icas são wo kshops. Es es ep esen am a elie s
de c iação que jun am indi íduos com di e en es o mações. No caso do
Tea o Vi ia o, ap esen a-se, pa alelamen e ao p og ama de espe áculos
e a elie s, um conjun o de pales as cuja discussão é ala gada a ou as
comunidades e cidades do país.
 A p oli e ação da a e colabo a i a (pela qual es es ês con ex os o am
in luenciados) suge e as ans o mações que ão oco endo na na u eza
da p á ica a ís ica con empo ânea. Ap esen ei expe iências cul u ais e
a ís icas locais cujas missões são exemplos bem-sucedidos da pa ici-
pação dos indi íduos e do abalho das es u u as nos e i ó ios onde
se localizam. Respondem assim aos in e esses dos esiden es e a no os
desa ios a ís icos, como aqueles azidos pelo no o ci co que se ins alou
em Viseu (no Tea o Vi ia o) ou os wo kshops digi ais e de másca as ei os
com a população local de Mon emo -o-No o (com a Alma d’A ame).
 A ino ação é a cha e da c iação a ís ica, mas é hoje um concei o mais
amplo do que nunca. Não se a a mui as ezes de ino ação a ís ica,
mas ino ação no ipo de ges ão, di usão e espe acula ização dos e en os.
Po exemplo, é de no a que exis em p á icas a ís icas que explo am

ARTE COLABORATIVA: UMA OBSERVAÇÃO LOCALIZADA DOS TEATROS…  473
melho as ecnologias digi ais, azendo aumen a a isibilidade de algu-
mas expe iências e e en os / es i ais da e a, o alecendo o diálogo com
a sua comunidade digi al e ampliando a sua isibilidade nacional.
 Os p ocessos e as negociações man idas en e as es u u as e os pode-
es locais mos am que é possí el abalha em conjun o, p omo endo
con ex os de a e colabo a i a com in e esse – como ambém mos ou
Comunian (2011) com o es udo de caso que ealizou em Ingla e a.
O en ol imen o des as ês es u u as com os pa cei os locais – que, como
se iu pela ca og a ia de in e ações dos ês di e o es, ul apassa a es e a
pessoal – é o e e capaz de desen ol e a a i idade cul u al de uma, ou
mais, comunidades in e municipais, dando acesso a ou as o mas cul-
u ais (a o ques a da D’O eu, em Águeda, é disso um bom exemplo).
Mui as des as es u u as são pa cei as dos municípios ambém pa a p o-
g ama nos cine ea os mais p óximos. Não azem unciona plenamen e
esses cine ea os, po al a de meios ou po que não são esses os obje i os
dos in e enien es locais na ges ão cul u al; no en an o, colabo am e são
exemplos de o mas de ges ão mul ilocais que são ensaiadas e põem a
unciona os ea os (como acon ece com a D’O eu).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nes e a igo p ocu ou-se “ aguea ” po ês con ex os e aze a desc ição com-
p eensi a des es casos, des endando p á icas, in e ações e quo idianos (Pais
1993; Bas os 2001). Imbuídos numa geog a ia cul u al di e enciada, os ês
con ex os mos am equipas capazes de man e e c ia uma ligação p o unda
com o seu e i ó io e o seu público. Em qualque um dos ês casos, os ea-
os e os seus públicos, a is as e es u u as es ão a aze a sua “a e” assen e
em p á icas pa icipa i as, de con i ência, socialmen e comp ome idas com o
e i ó io e com a comunidade local (Bo ges 2015a). A ampli ude geog á ica
da ação des es g upos em indo a ala ga -se de o ma p omisso a: as comu-
nidades ala ga am o escopo das a i idades conside adas cul u ais, amplia am
a de inição de cul u a que es a am dispos as a p opo ciona aos habi an es,
o nando-a mais an opológica, di e sa em unção dos públicos, “a iculando
polí ica cul u al com educação, polí ica u bana e social” (Menge 2010: 10).
O que há de comum nas mic oe nog a ias de in e ações que ap esen ei é o
en ol imen o de pa cei os – c iado es, equipas, municípios, públicos (c ianças,
jo ens e adul os) –, es imulando-se a sua pa icipação e o seu con í io com a
população local. É a cul u a da pa icipação e da expe iência. Nes a pesquisa,
e i icou-se que os p incípios de sus en abilidade e as no as p á icas a ís icas
azem a pon e en e o ap o undamen o daquela que é a iden idade local, mais
adicional, no e i ó io onde ope am e a con empo aneidade, num con ex o
cada ez mais global, ap oximando-se des a o ma a população das suas aízes
474  VERA BORGES e nog á ica  junho de 2018  22 (2): 453-476
ao mesmo empo que se inunda com no os concei os e a es: da o ques a
que cons ói ins umen os com obje os do quo idiano e mis u a de epo ó io
do cancionei o adicional de Águeda com as exp essões í micas con empo â-
neas, às endas do chapi ô, em Viseu, onde se ap esen a e deba e o que de mais
ecen e se sabe sob e o no o ci co, o desen ol imen o de no as linguagens, a é
chega mos à Tenda de Sabo es, que à noi e eúne odos pa a as expe iências
gas onómicas da egião e do país pa cei o, a No uega, passando ainda pelo
associa i ismo de Mon emo -o-No o, e da Alma d’A ame como elo ag egado
de es u u as locais p o issionais e amado as.
Os ês g upos desen ol em p á icas ins i ucionais mais abe as e p omo-
em uma a e mais colabo a i a que c uza á eas a ís icas como o ea o, a
música, as a es isuais, a dança, o ci co. Nos dois úl imos casos, a elação
en e a ges ão, a p odução, a di usão e, a é ce o pon o, a espe acula ização
da cul u a é mais o e. No undo, o que os g upos de ea o azem no seu
e i ó io é uma (no a) a aliação daquilo que pode se a cul u a, ligando essa
no a lei u a à necessidade de os seus públicos pa icipa em, ocupa em os seus
empos li es (no caso das c ianças e dos idosos), mas ambém à necessidade
de os a is as se ein en a em nas suas ca ei as p o issionais. T a a-se, pois, de
econhece nes e conjun o de expe iências, p opos as pelos g upos à comuni-
dade local e ao seu público, que as suas p eocupações não são apenas a ís icas,
mas assegu am e consolidam a posição dos g upos num e i ó io especí ico.
Depois, as peculia idades dos p óp ios e i ó ios e dos seus habi an es mode-
lam e es u u am essas p á icas c ia i as, a sua mediação cul u al e, po im, o
sucesso dos p oje os.
É assim que emos alia -se à ideia de p á icas a ís icas e cul u ais “da
nossa e a” a ideia de sus en abilidade, i ência de uma cidadania a i a, que
apon a pa a a ligação en e a iden idade adicional local e o mundo global,
onde a in o mação e a di ulgação do abalho a ís ico online ão bem se em,
a inal, a in e ação e a pa icipação das pessoas. Faz-se ea o de ma ione as,
cons oem-se másca as ou mons os gigan es, na Alma d’A ame; mis u a-se
o epo ó io adicional com exp essões í micas mais con empo âneas, na
D’O eu; ou p a icam-se écnicas de no o ci co, no Tea o Vi ia o. Faz-se uma
a e que se comen a e discu e, o que esul a em “bene ícios in ínsecos” já
es udados (B own e Leona d-No ak 2007). Descob em-se no as ocações
dos a is as e g upos, no os espaços e empos de con í io. Faz-se mais “ ea o
com odos”, com impac o na qualidade de ida de um pequeno cí culo de
habi an es locais.
É po isso que se o na cada mais ins igan e analisa es es p ocessos e discu-
i as nossas me odologias (Bo ges, Cos a e G aça 2014), pois a inal não es a-
mos semp e a analisa obje os, pe o mances e espe áculos. Casos, con ex os,
conjun u as, dimensões p ocessuais são undamen os da nossa análise social
das a es e do nosso comp omisso com a sua obse ação e nog á ica.
ARTE COLABORATIVA: UMA OBSERVAÇÃO LOCALIZADA DOS TEATROS…  475
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