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A pergunta de Feuerbach a Stirner: “Que significa ‘ser um indivíduo’?”

Abstract

Polémica complexa, o debate entre Max Stirner e Ludwig Feuerbach é certamente um dos mais interessantes na história das ideias contemporâneas e ultrapassa, pela fecundidade nele contida, o curto período temporal em que se desenrolou. O artigo considera a polémica sob um aspecto particular: a compreensão da categoria de indivíduo, mostrando a incompatibilidade entre o indivíduo-Único de (Stirner) e o indivíduo como ser em relação (Feuerbach)

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A pergunta de Feuerbach a Stirner: “Que significa ‘ser um indivíduo’?”

Author: Serrão, Adriana Veríssimo
Publisher: Edições Colibri / Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Year: 2013
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/24177/1/Adriana%2097-108.pdf
A PERGUNTA DE FEUERBACH A STIRNER:
“QUE SIGNIFICA ‘SER UM INDIVÍDUO’?”
Ad iana Ve íssimo Se ão
(Uni e sidade de Lisboa)
Polémica complexa, que não se insc e e num p oblema clássico com
adição i mada na his ó ia da iloso ia, mas assen a, pa a mais, na lei u-
a en iesada que cada um dos in e locu o es az do pensamen o do ou o
e o eco a em unção do espec i o pon o de is a, o deba e en e Max
S i ne e Ludwig Feue bach é ce amen e um dos mais in e essan es na
his ó ia das ideias con empo âneas e ul apassa, pela ecundidade nele
con ida, o cu o pe íodo empo al em que se desen olou.
Reco dem-se os di e sos passos e documen os des a polémica:
a) Ludwig Feue bach publica Das Wesen des Ch is en ums (A Essên-
cia do C is ianismo (Leipzig: O o Wigand, 1841), que ap esen-
a uma abo dagem da eligião sob o p isma an opológico e psico-
lógico.
b) Em De Einzige und sein Eigen um (O Único e a sua P op ieda-
de), publicado ainda no inal de 1844, mas com a da a de 1845
(Leipzig: O o Wigand), Max S i ne oma como al o p e e encial
da sua c í ica os g andes eixos emá icos de A Essência do C is-
ianismo, que comp o a iam a pe sis ência na a gumen ação de
Feue bach da diluição do indi idual pelo uni e sal. Com meno
incidência, e a ambém isada a on ologia da sensibilidade, no-
meadamen e os G undsä ze de Philosophie de Zukun (P incí-
pios da iloso ia do u u o, 1843).
c) Num pequeno esc i o in i ulado “Übe das “Wesen des Ch is en-
ums” in Beziehung au S i ne s “De Einzige und sein Eigen um”
(Sob e A Essência do C is ianismo em elação com O Único e a
sua P op iedade de S i ne , publicação anónima na Wigands
Vie eljah ssch i , Leipzig, 1845), Feue bach esponde às c í icas
Philosophica, 41, Lisboa, 2013, pp. 97-108
98 Ad iana Ve íssimo Se ão
de S i ne . Mais do que uma éplica de ensi a, o esc i o cons i ui
um es o ço de dilucidação dos undamen os da iloso ia da sensi-
bilidade e ap o unda a a iculação en e sensibilidade e indi idua-
lidade.
d) S i ne e oma o deba e com Feue bach no a igo “Rezensen en
S i ne s” (Wigands Vie eljah ssch i , Leipzig, 1845), incluindo-o
no g upo dos seus c í icos, jun amen e com Szeliga, Moses Hess e
B uno Baue , cujos a gumen os p ocu a, um po um, eba e .
Não é simples delimi a ou eduzi a um pon o p eciso o que es á em
causa nes e deba e, conduzido com eemência e b ilho especula i o en e
pensado es o iginais e que dão espec i amen e início a o ien ações ilo-
só icas ino ado as. Em ques ão não es á uma di e gência concep ual ou
écnica, mas o con on o en e duas isões do mundo que, po consis en-
es, se desen ol em a pa i de p essupos os di icilmen e ha monizá eis,
ou mesmo in ei amen e inconciliá eis. Assim, qualque en a i a de e-
cons i uição global da con o é sia pode a ia signi ica i amen e conso-
an e se adop a uma ou ou a das posições em jogo ou se p ocu a uma
pe spec i a dis anciada, que co e po sua ez o isco de simpli ica os
meand os de uma polémica c uzada, ei a de sub ilezas e sem apa en e
esolução.
I. S i ne con a Feue bach: O Único con a o Homem
Não é indi e en e que enha sido S i ne a lança o deba e, ma cando,
desde logo o om e os ópicos ulc ais. Mas se do pon o de is a c onoló-
gico a polémica em início com O Único e a sua P op iedade, o p oble-
ma de undo eme e pa a A Essência do C is ianismo e incide sob e a
in e p e ação humana do di ino, ou a na u eza an opo-lógica do eo-
-lógico, desenhando daí po dian e a imagem de Feue bach como pensa-
do eligioso, que S i ne não abandona á e de que Feue bach se p ocu a-
á libe a .
Em con as e com os discu sos adicionais sob e a eligião que o-
ma am como objec o a essência do se di ino e as suas p op iedades, a
análise é cen ada no sujei o eligioso apenas pelo qual e em unção do
qual o enómeno eligioso pode se comp eendido: a eligião exis e pelo
homem, como sua c iação, e pa a o homem, como sua necessidade. As
eligiões, enquan o acon ecimen os cul u ais e his ó icos da Humanidade,
consubs anciadas em ep esen ações e ixadas em ex os sag ados, são a
ace ex e io de um mo imen o mais p o undo que lhes deu o igem e lhes
con e e con inuidade e consis ência. Subjacen e a odas as eligiões
objec i adas encon a-se a eligiosidade ou é i a, elação de ipo a ec i-
A Pe gun a de Feue bach a S i ne 99
o que une di ec amen e o c en e à ep esen ação dos seus deuses. A é
emana do ânimo (Gemü ), o ín imo da subjec i idade, coincidindo po
isso a ida eligiosa com a expe iência indi idual, uma a i ude (Ve hal en)
sen ida e p a icada com au en icidade, mas sem consciência, pelo c en e
pa a com as en idades que ene a.
O que in e essa sob e udo a Feue bach é comp eende como pode
uma o dem anscenden e despon a na consciência humana a pon o de se
o na em ealidade p imei a e ganha um es a u o supe io ao mundo
dado aos sen idos, conduzindo, pa a al, uma análise gené ica dos p oce-
dimen os da subjec i idade, econdu í eis em úl ima ins ância à o dem do
desejo e da imaginação. É a a és da imaginação que os desejos an opo-
lógicos undamen ais – o desejo de elicidade e o desejo de não mo e –
são p eenchidos, espec i amen e na ideia de sal ação e na ideia de imo -
alidade, ealizando-se o a des e mundo e endo como condição a exis-
ência de en idades sup a-humanas e de uma ida após a mo e ísica. Os
deuses são, em úl ima ins ância, a ga an ia da pe enidade e pleni ude da
ida.
O sujei o eligioso i e assim uma pa icula íssima expe iência ao
di igi -se a se es que, sendo embo a c iação sua, oma como e ec i amen-
e do ados de exis ência, deco endo daqui duas ou as eses, uma espei-
an e à au o- e e encialidade, a ou a à objec i ação: na eligião o homem
elaciona-se consigo mesmo, ou seja, com os p odu os da sua p óp ia
imaginação, que oma po ém como se es independen es; na eligião o ho-
mem objec i a-se a si mesmo, à sua essência, colocando-se po isso “ o a
de si” “e acima de si” como se osse um se di e en e.
Pa a acede ao núcleo do ânimo, Feue bach em de pa i de uma
ampla e lexão sob e a essência do homem, pa a que en e homem acio-
nal e empí ico (di igido pa a a ex e io idade mundana e humana) e ho-
mem eligioso (sen imen al, hipe -subjec i o, i ado sob e si) não se es-
abeleça um hia o en e classes, e daí uma inacei á el cli agem no géne o
humano, man endo ao mesmo empo abe a a possibilidade de econ e -
são, median e o au o-escla ecimen o de um p ocesso psicológico, que
co esponde à in enção e apêu ica do li o. Daí a ci cula idade que pe -
co e a ob a en e a an opologia – uma eo ia da essência humana uni e -
sal (o Homem) – e a psicologia da a i ude eligiosa (o homem eligioso),
com o p opósi o de aze es a à luz da azão pa a que as necessidades
que lhe dão o igem sejam comp eendidas como ilusão e acabem po se
des anece .
Se S i ne alo iza o es aziamen o da ealidade e ec i a da ans-
cendência, e daí a sua des i uição como o dem au ónoma, o ac o de
Feue bach sus en a a in e p e ação da eligião no plano da essência hu-
mana p o a ia a manu enção de um modo de pensa ainda abs ac o. Ao
comp eende os con eúdos “di inos” como con eúdos humanos, “chega-
100 Ad iana Ve íssimo Se ão
ia ao Homem a pa i de Deus”, limi ando-se a subs i ui um uni e sal
po ou o uni e sal, pe manecendo e ém do mesmo plano da abs acção
que p ocu a supe a . Como pa a S i ne o pensamen o do uni e sal não
ep esen a um simples e o eó ico, mas aca e a implicações p á icas que
hipo ecam a ida empí ica a ideais azios, na óp ica do Único, Feue bach
ilus a ia a pe sis ência do secula esmagamen o do indi idual pelo uni-
e sal ou a simples subs i uição da “Causa de Deus” pela “Causa do Ho-
mem”, um es o ço de emancipação pa cial e ainda “pene ado de eolo-
gia” (EE, 62ss).
Tudo começa, pois, com um mal-en endido da posição de Feue bach
em iloso ia da eligião, que po se comp eensi a e não emá ica, segue
uma he menêu ica ci cula que não isa cons i ui uma an opologia
comple a, mas apenas desc e e mecanismos da eligiosidade como a i u-
de subjec i a in e io , ou seja, des enda uma psicologia p o unda. Após
um b e e P e ácio que si ua a ob a sob o lema do “conhece- e a i mes-
mo” soc á ico e da con e são à azão na u al, a In odução iden i ica a
ese cen al: a essência do(s) se (es) di ino(s) em a sua aiz na cons-
ciência humana. Daí a a iculação en e “a essência do homem em ge al”
e “a essência da eligião em ge al”, mos ando a impossibilidade de a
consciência humana pode ul apassa -se de ac o, p o indo a ideia de
uma essência supe io unicamen e do deslocamen o dos con eúdos da
consciência na u al pa a uma es e a apa en emen e sob ena u al, mas de
ac o ainda e semp e imanen e.
O que Feue bach ecupe a de Deus pa a o Homem (“os seg edos
ocul os da eligião”) não pode ia, ao con á io da lei u a de S i ne , co -
esponde ao homem odo – à es e a in eg al da humanidade do humano –,
mas apenas a uma an opologia implíci a, p ecisamen e po que a aliena-
ção eligiosa nunca é absolu a e daí a possibilidade e apêu ica de um
e o no do homem a si mesmo. É po isso sem con adição que pode man-
e a e dade da eligião (ou seja, dos p edicados “di inos”, que são qua-
lidades humanas, apenas “di inizadas” quando ele adas a um g au hipe -
bólico e a ibuídas a ou o se ) e a in e dade do sujei o (di ino) como
exis en e o a da consciência. O p imado do p edicado insc e e-se na des-
-subs ancialização da ca ego ia de sujei o a que se assis e em Das Wesen
des Ch is en ums e na pos e io iloso ia de Feue bach. Um sujei o não é
mais do que o p incípio de e e ência que uni ica um complexo de quali-
dades, não exis indo sem elas ou pa a além delas: o que o sujei o é eside
exclusi amen e nos p edicados, sendo po isso o p edicado (o conjun o
dos p edicados) a e dade (objec i a) do sujei o. Na análise dos objec os
di inos a p e alência ecai in ei amen e nas qualidades, no conjun o de
p op iedades que são in es idos. Numa de e minada igu a, mais decisi o
que a en idade em si mesma, é o con eúdo o mado pelos a ibu os que a
ca ac e izam; o amo , a jus iça, a mise icó dia, a p o idência, o milag e,
A Pe gun a de Feue bach a S i ne 101
po exemplo, são conside ados di inos não po pe ence em a um Deus
de e minado, mas são-lhe, pelo con á io, a ibuídos po se em con-
side ados absolu os: o di ino signi ica com mais p op iedade o que é
di inizado. Exis e na eligião um elemen o c í ico, uma p é ia alo ação
que elege um conjun o de p op iedades, os a ibu os posi i os ou bons,
que sendo omados como sup emos são, nessa medida, ene ados como
qualidades di inas, absolu as.
Mais ce ei a é a c í ica de S i ne di igida à eo ia da essência hu-
mana como um complexo de aculdades sup a-indi iduais – o pensamen-
o, a on ade e o amo –, pode es uni e sais do géne o humano que o -
mam no seu conjun o a ideia de acionalidade. Como só o géne o humano
e não o indi íduo cons i ui, pa a Feue bach, a inca nação da essência – o
pensa , a on ade e o amo são p ecisamen e as ias pelas quais o homem
indi idual se pode ealiza em ac os conjun os, saindo do isolamen o pa a
a ida em comunidade. Não só o an i-indi idualismo de Feue bach não
pode ia passa despe cebido a S i ne , como, mais ainda, o en endimen o
da essência como complexo de pode es ans e sais a odos os indi í-
duos, p esen es em cada um, mas não se dando in ei amen e em cada um,
aca e a ia necessa iamen e a dualidade, ou mesmo o dualismo. A acei a-
ção de uma essência humana le a ia, como consequência imedia a, à
sepa ação do Eu num “eu essencial” (uni e sal) e num “eu inessencial”
(indi idual), e daí à cisão do p óp io indi íduo em si mesmo, subme ido
ao in e miná el con li o en e o “espí i o” e o “nosso se ”, a milena di i-
são en e céu e e a, en e além e aquém econduzida à essência em nós
mas acima de nós (EE, 33-34), ou, mais p ecisamen e, à essência do
Homem em mim e acima de mim.
A não cong uência en e indi idual e uni e sal, ou en e o indi íduo
e o géne o humano, que signi ica pa a Feue bach p ecisamen e a supe a-
ção da igu a acional da subjec i idade au o-su icien e ou, em e mos
eológicos, da ideia de imo alidade da alma e de Deus como subjec i i-
dade absolu a, le a de ac o à dualidade. Des-subs ancializada, a essência
humana ealiza-se como uma me a po encialidade no seio do géne o, ele
mesmo uma ealidade inde inida. Igualmen e a subs i uição do “amo a
Deus” pelo “amo do homem pelo homem”, p opos a po Feue bach co-
mo p incípio de uma no a é ica, deco e ia da con usão en e Homem e
indi íduo, que S i ne que p ecisamen e supe a . Falando do Homem-
-essência, e não do homem eal, Feue bach nunca pode ia chega ao ho-
mem de “ca ne e osso” que p oclama, mui o menos se ia capaz de da
con a da posição nuclea em S i ne da unicidade do indi íduo. O pon o
de is a da acionalidade como uni e salidade equi ale ia à impossibili-
dade, no plano e lexi o, de pensa o indi íduo e, no plano da ealidade, à
sua anulação de ac o.

102 Ad iana Ve íssimo Se ão
III. A éplica de Feue bach: o indi íduo eal con a o Único
A éplica de Feue bach, um mis o de au o-de esa e de con a-a aque,
ep esen a um es o ço de dilucidação dos g andes emas da sua iloso ia,
elabo ada, não já do pon o de is a da consciência, mas da on ologia, o
que ma ca uma signi ica i a di e ença de undamen ação. A sensibilidade
(Sinnlichkei ), enquan o ins ância da exis ência conc e a, do que exis e
sensi elmen e, se ia po si só jus i ica i a da imedia a equipa ação en e
sensibilidade e indi idualidade: o que é sensí el exis e como semp e
singula , como es e localizado, um se no mundo, exis en e no espaço,
de e minado e p o ido de qualidades dis in i as; um en e sensí el é es e,
e não ou o.
Pa a Feue bach, a con es ação de S i ne é in undada, uma ez que a
exis ência sensí el bas a pa a p o a o se conc e o como ealidade e ec-
i a do singula ; mas igualmen e, e es e é um pon o nuclea da éplica,
bas a pa a p o a a exis ência ( ealidade e ec i a) dos singula es e, com
ela, a posição da mul iplicidade, sendo que oda a exis ência é coexis ên-
cia ou exis ência em elação. Daqui, da equipa ação en e sensibilidade
– exis ência espácio- empo almen e de e minada – e co-exis ência – co-
-p esença de indi íduos em acção ecíp oca – Feue bach p ocu a de en-
de -se e eba e simul aneamen e, e com um só a gumen o, pon os con-
o e sos da sua ecepção de S i ne : o que se iam os “a ibu os” da
unicidade: a absolu idade, a abs acção, a inde e minação, o isolamen o.
Se o indi íduo exis e em elação, Eu e Tu, e sendo o se sensí el ao
mesmo empo ac i o e passi o, a ei indicação de au onomia, au ode e -
minação e au o-su iciência do Eu-Único cai ia po e a. O simples ac o
de se co po izado az já consigo a sexualização do eu: com o eu é dada
pelo menos uma de e minação – o se masculino ou se eminino –, e
com a sexualização es á dada a humanidade. A unção da de e minação
sexual na indi idualidade conc e a em um amplo eixe de implicações na
an opologia eue bachiana: p incípio di e enciado do indi íduo, p o a
da ca ência de al e idade e p incípio da dinâmica mul iplicado a e ge a-
do a do géne o humano. Logo, o Um não em qualque sen ido: o Um
implica o Dois, e daí o Mui os.
Segue os sen idos! Tu és homem da cabeça aos pés – o eu que em
pensamen os sepa as da ua essência sensí el, masculina é um p odu o
da abs acção, que em p ecisamen e an a ou ão pouca ealidade
quan o a mesidade pla ónica em oposição às mesas eais. Mas
enquan o homem e e es- e essencialmen e, necessa iamen e a um
ou o eu ou se – à mulhe . Daí que se quise econhece - e como
indi íduo, não posso es ingi o meu econhecimen o unicamen e a i,
mas enho de es endê-lo ao mesmo empo pa a além de i, à ua
A Pe gun a de Feue bach a S i ne 103
mulhe . O econhecimen o do indi íduo é necessa iamen e o econhe-
cimen o de pelo menos dois indi íduos. Mas dois não em e mo nem
sen ido; ao dois segue-se o ês, à mulhe o ilho. [...] É que em
Feue bach o géne o não signi ica, de ac o, um abs ac um, mas
apenas o u em ace do eu singula ixado po si mesmo, o ou o, e em
ge al os indi íduos humanos exis en es o a de mim. (Übe das WCh;
GW 9, 433-434).
Ao pe gun a : “que signi ica se um indi íduo?”, Feue bach econ-
duz o deba e pa a um e eno que não é o de S i ne , pa a quem os e mos
cen ais são Eu e Único, mas não “indi íduo”. P ocu a um con on o
en e p incípios da iloso ia, quando o Único não é um concei o, nem
uma ca ego ia, mas uma posição exis encial: a me a desc ição de um ac o
ei indicado de si (“Besch eibung des – Eigne s”; EE, 188), ou o sen i-
do de uma ap op iação de si (“Dies is de Sinn – des Einzigen”; EE,
406). Na au o-desc ição pela linguagem o único não pode a i ma -se se-
não numa au ologia: Eu=Eu.
A indizibilidade é, po an o, um “a ibu o” da unicidade. A con a-
-a gumen ação de S i ne em Rezensen en S i ne s apenas ei e a os g an-
des ópicos: a inde inibilidade, indizibilidade e incompa abilidade do
Único, um nome a que só a ida da á con eúdo: “único” não é uma subs-
ância nem um p edicado, ao con á io de “homem”, que se sob epõe ao
indi íduo o nando-o “inumano”. O que impo a a S i ne é sob e udo a
de esa da indi idualidade, não do indi íduo. Ou, como a i ma cla amen-
e, Único é um “nome” pa a o se p óp io (Eigenhei ), uma me a pala a:
O Único é uma pala a: e pe an e uma pala a de e -se-ia oda ia
pensa qualque coisa, uma pala a de e ia e um con eúdo de
pensamen o. Mas o Único é uma pala a des i uída de pensamen o, não
em con eúdo de pensamen o. [...] Vis o que o con eúdo do único não é
um con eúdo de pensamen o, é daí impensá el e indizí el, mas, po que
indizí el, es a ase plena, não é ao mesmo empo, uma ase. (RS, 74)
Não é en ão pelo dize -se, mas pelo aze -se que a unicidade se pe -
az. Como p op ie á io de si, das suas qualidades, de odas, sem hipo eca
nenhuma delas a qualque igu a da al e idade. Como p op ie á io do
mundo, usando-o segundo o seu exclusi o in e esse e dispondo dele pa a
a sua uição. Capacidade (pode ) e p op iedade coincidem, na medida
em que o meu pode (K a ) é o que me é p óp io (Eigenhei ) e aquilo que
aço meu (Eigen um).
Da unicidade – nome de uma ida incompa á el que não se pode e-
pe i nem se i ida po mais ninguém – que Feue bach não en ende co-
mo p oblema – a é ao isolamen o – ao “Único na e a” – ai um só um
passo. Po mais que S i ne ei e e o Único como se “de ca ne e osso”,
104 Ad iana Ve íssimo Se ão
ini o e pe ecí el, dono de udo o que conquis ou, po pouco que seja, não
escapa à compa ação com o absolu o. Passam despe cebidas a i mações
como es a:
É possí el que Eu possa aze de Mim mui o pouco, mas es e Pouco é
Tudo, e é melho do que Aquilo que Eu deixo aze de Mim (EE, 200).
Igualmen e, a in e p e ação de um se au o-ge ado, i endo sozinho
ou exis indo sem ou os não esis e à lei u a in eg al de De Einzige. Já
pa a não e e i as ideias sociais e polí icas, e odo o ema da Liga de
Egoís as (Ve ein on Egois en), bas a ia a conside ação do capí ulo “Ein
Menschenleben” pa a comp eende como a unicidade é um es ádio do
homem adul o, não uma posição na u al ác ica. A abo dagem on ogené-
ica des a secção mos a bem como a ida de homem não é a ap op iação
de uma essência, mas um p ocesso que se ai ealizando em ês ases:
I. In ância: a lu a com o mundo. Regida pelo p incípio “ ence ou
sucumbi ” / “senho ou súbdi o”, cujos pólos são cada um e udo o es o,
co esponde a uma elação de oposição com as coisas na u ais, de que se
sai quando se c ia co agem pa a se des aca das leis do mundo e a i ma
uma supe io idade. Passa-se assim, a a és da comp eensão e do co-
nhecimen o, do domínio exe cido pelas coisas pa a a busca de algo exis-
en e “po de ás” delas. Comp eende é uma o ma de pode . A in ância
ealiza o ânsi o do ealismo ao idealismo.
II. Ju en ude: o domínio do espí i o. A as amen o e supe io idade
le am à c iação de ou os “mundos” do ados de ealidade au ónoma e
alo . O “po de ás de” ans o ma-se em “acima de”, num “além”. Os
ideais (Deus, Razão, Homem, Humanidade, e dade, libe dade...) o ma-
dos pela capacidade da azão adqui em o ça p óp ia e p o am o pode da
consciência e do pensamen o sob e os obs áculos mundanos. O eino do
ideal ep esen a: a) uma p imei a solução pa a a busca de au onomia do
jo em, que o oma como e dade e o segue como mandamen o; b) mas é
no ideal que ol a ambém a pe de -se, expe imen ando o azio ao dissol-
e -se num espí i o uni e sal, “que não é meu”. É, pois, necessá io passa
do eino do ideal ao eino do in e esse.
III. Homem: a assunção de si. Es a ase ep esen a uma no a o ma
de ealismo: a acei ação do mundo como é e a acei ação de si como um
se o al em ca ne e osso, ou espí i o inca nado. P essupõe oma -se como
cen o de in e esse e e p aze em si mesmo. In e esse e p aze compõe o
“in e esse pessoal ou egoís a”: “in e esse não apenas do nosso espí i o,
mas uma sa is ação o al, sa is ação de odo o indi íduo, um in e esse que
si a o p óp io eu”. – Sou Eu que es ou “po de ás das ideias” como “seu
c iado e p op ie á io”: “Tomo o mundo como aquilo que ele é pa a mim,
A Pe gun a de Feue bach a S i ne 105
como o meu mundo, a minha p op iedade: eu sou a e e ência única de
udo.” (EE 18-19).
“Ein Menschenleben” mos a como a cons ução da iden idade do
Eu, ou a génese do Egoísmo, não é um dado p imá io nem na u al. A
assunção de si é descobe a, lu a e conquis a.
IV. O núcleo da discó dia: duas isões do indi íduo
Se á que les e A Essência do C is ianismo? Se á que les e O Único e
a sua P op iedade? – são pe gun as cons an emen e di igidas, mani es-
ando a mú ua incomp eensão e uma discussão in e miná el, sem que um
e ou o dos in e locu o es es eja dispos o a econhece pon os de con ac o
ou a inidades nos espec i os p og amas.
Comum a ambos há a ejeição da abs acção, a eleição da ida eal
como luga da iloso ia, a idên ica ecusa de uma ida humana sac i icada
a ilusões e a alo es alsos, ep esen ada po en idades me a ísicas ou
sup a-humanas. O humano é uma unidade inca nada na ida empí ica.
Feue bach não pode ia senão subsc e e a denúncia da igualdade o mal,
uni o midade deco en e de uma essência ixa, de que cada um se ia um
exemplo, um elemen o epe ido:
O a, se Eu ejo em Ti o Homem como ejo em Mim o Homem, e
nada mais ejo senão o Homem, en ão Eu cuido de Ti como Eu
cuida ia de Mim, pois Nós os dois nada mais ep esen amos do que o
p incípio ma emá ico: A=C e B=C, logo A=B. (EE, p.196).
Po ém, sob e es e undo comum, são inconciliá eis as di e gências,
que quan o ao con eúdo, que quan o ao modo do iloso a . Como a ge-
ne alidade das c í icas di igidas a S i ne pelos seus con empo âneos,
ambém a de Feue bach es á des inada ao acasso, se se p ocu a le nela
uma e u ação. Po que não unda uma dou ina nem ins i ui um p incípio
no o da iloso ia, a posição de S i ne é i e u á el. A in ei a coincidência
en e o p o agonis a (o Eu do discu so) e o enunciado pessoal que não
ins i ui qualque gene alidade coloca-o ao ab igo de odas as acusações.
A a i mação exis encial que esponde à pe gun a “Quem é?” não po-
de e con eúdo p é io. É ela mesma o ac o p é io que se ins au a como o
cen o de uma exis ência, que i e, pensa e age a pa i desse cen o ina-
liená el e insubs i uí el. É uma posição é ica, o egoísmo conscien e (cuja
negação esconde, pelo con á io, hipoc isia ou egoísmo elado): ap op i-
a -se desse mundo como meu mundo, se indo o meu in e esse e segundo
a minha uição.