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A pergunta de Feuerbach a Stirner: “Que significa ‘ser um indivíduo’?”

Serrão, Adriana Veríssimo

Abstract

Polémica complexa, o debate entre Max Stirner e Ludwig Feuerbach é certamente um dos mais interessantes na história das ideias contemporâneas e ultrapassa, pela fecundidade nele contida, o curto período temporal em que se desenrolou. O artigo considera a polémica sob um aspecto particular: a compreensão da categoria de indivíduo, mostrando a incompatibilidade entre o indivíduo-Único de (Stirner) e o indivíduo como ser em relação (Feuerbach)

Full text

A PERGUNTA DE FEUERBACH A STIRNER: “QUE SIGNIFICA ‘SER UM INDIVÍDUO’?” Ad iana Ve íssimo Se ão (Uni e sidade de Lisboa) Polémica complexa, que não se insc e e num p oblema clássico com adição i mada na his ó ia da iloso ia, mas assen a, pa a mais, na lei u- a en iesada que cada um dos in e locu o es az do pensamen o do ou o e o eco a em unção do espec i o pon o de is a, o deba e en e Max S i ne e Ludwig Feue bach é ce amen e um dos mais in e essan es na his ó ia das ideias con empo âneas e ul apassa, pela ecundidade nele con ida, o cu o pe íodo empo al em que se desen olou. Reco dem-se os di e sos passos e documen os des a polémica: a) Ludwig Feue bach publica Das Wesen des Ch is en ums (A Essên- cia do C is ianismo (Leipzig: O o Wigand, 1841), que ap esen- a uma abo dagem da eligião sob o p isma an opológico e psico- lógico. b) Em De Einzige und sein Eigen um (O Único e a sua P op ieda- de), publicado ainda no inal de 1844, mas com a da a de 1845 (Leipzig: O o Wigand), Max S i ne oma como al o p e e encial da sua c í ica os g andes eixos emá icos de A Essência do C is- ianismo, que comp o a iam a pe sis ência na a gumen ação de Feue bach da diluição do indi idual pelo uni e sal. Com meno incidência, e a ambém isada a on ologia da sensibilidade, no- meadamen e os G undsä ze de Philosophie de Zukun (P incí- pios da iloso ia do u u o, 1843). c) Num pequeno esc i o in i ulado “Übe das “Wesen des Ch is en- ums” in Beziehung au S i ne s “De Einzige und sein Eigen um” (Sob e A Essência do C is ianismo em elação com O Único e a sua P op iedade de S i ne , publicação anónima na Wigands Vie eljah ssch i , Leipzig, 1845), Feue bach esponde às c í icas Philosophica, 41, Lisboa, 2013, pp. 97-108 98 Ad iana Ve íssimo Se ão de S i ne . Mais do que uma éplica de ensi a, o esc i o cons i ui um es o ço de dilucidação dos undamen os da iloso ia da sensi- bilidade e ap o unda a a iculação en e sensibilidade e indi idua- lidade. d) S i ne e oma o deba e com Feue bach no a igo “Rezensen en S i ne s” (Wigands Vie eljah ssch i , Leipzig, 1845), incluindo-o no g upo dos seus c í icos, jun amen e com Szeliga, Moses Hess e B uno Baue , cujos a gumen os p ocu a, um po um, eba e . Não é simples delimi a ou eduzi a um pon o p eciso o que es á em causa nes e deba e, conduzido com eemência e b ilho especula i o en e pensado es o iginais e que dão espec i amen e início a o ien ações ilo- só icas ino ado as. Em ques ão não es á uma di e gência concep ual ou écnica, mas o con on o en e duas isões do mundo que, po consis en- es, se desen ol em a pa i de p essupos os di icilmen e ha monizá eis, ou mesmo in ei amen e inconciliá eis. Assim, qualque en a i a de e- cons i uição global da con o é sia pode a ia signi ica i amen e conso- an e se adop a uma ou ou a das posições em jogo ou se p ocu a uma pe spec i a dis anciada, que co e po sua ez o isco de simpli ica os meand os de uma polémica c uzada, ei a de sub ilezas e sem apa en e esolução. I. S i ne con a Feue bach: O Único con a o Homem Não é indi e en e que enha sido S i ne a lança o deba e, ma cando, desde logo o om e os ópicos ulc ais. Mas se do pon o de is a c onoló- gico a polémica em início com O Único e a sua P op iedade, o p oble- ma de undo eme e pa a A Essência do C is ianismo e incide sob e a in e p e ação humana do di ino, ou a na u eza an opo-lógica do eo- -lógico, desenhando daí po dian e a imagem de Feue bach como pensa- do eligioso, que S i ne não abandona á e de que Feue bach se p ocu a- á libe a . Em con as e com os discu sos adicionais sob e a eligião que o- ma am como objec o a essência do se di ino e as suas p op iedades, a análise é cen ada no sujei o eligioso apenas pelo qual e em unção do qual o enómeno eligioso pode se comp eendido: a eligião exis e pelo homem, como sua c iação, e pa a o homem, como sua necessidade. As eligiões, enquan o acon ecimen os cul u ais e his ó icos da Humanidade, consubs anciadas em ep esen ações e ixadas em ex os sag ados, são a ace ex e io de um mo imen o mais p o undo que lhes deu o igem e lhes con e e con inuidade e consis ência. Subjacen e a odas as eligiões objec i adas encon a-se a eligiosidade ou é i a, elação de ipo a ec i- A Pe gun a de Feue bach a S i ne 99 o que une di ec amen e o c en e à ep esen ação dos seus deuses. A é emana do ânimo (Gemü ), o ín imo da subjec i idade, coincidindo po isso a ida eligiosa com a expe iência indi idual, uma a i ude (Ve hal en) sen ida e p a icada com au en icidade, mas sem consciência, pelo c en e pa a com as en idades que ene a. O que in e essa sob e udo a Feue bach é comp eende como pode uma o dem anscenden e despon a na consciência humana a pon o de se o na em ealidade p imei a e ganha um es a u o supe io ao mundo dado aos sen idos, conduzindo, pa a al, uma análise gené ica dos p oce- dimen os da subjec i idade, econdu í eis em úl ima ins ância à o dem do desejo e da imaginação. É a a és da imaginação que os desejos an opo- lógicos undamen ais – o desejo de elicidade e o desejo de não mo e – são p eenchidos, espec i amen e na ideia de sal ação e na ideia de imo - alidade, ealizando-se o a des e mundo e endo como condição a exis- ência de en idades sup a-humanas e de uma ida após a mo e ísica. Os deuses são, em úl ima ins ância, a ga an ia da pe enidade e pleni ude da ida. O sujei o eligioso i e assim uma pa icula íssima expe iência ao di igi -se a se es que, sendo embo a c iação sua, oma como e ec i amen- e do ados de exis ência, deco endo daqui duas ou as eses, uma espei- an e à au o- e e encialidade, a ou a à objec i ação: na eligião o homem elaciona-se consigo mesmo, ou seja, com os p odu os da sua p óp ia imaginação, que oma po ém como se es independen es; na eligião o ho- mem objec i a-se a si mesmo, à sua essência, colocando-se po isso “ o a de si” “e acima de si” como se osse um se di e en e. Pa a acede ao núcleo do ânimo, Feue bach em de pa i de uma ampla e lexão sob e a essência do homem, pa a que en e homem acio- nal e empí ico (di igido pa a a ex e io idade mundana e humana) e ho- mem eligioso (sen imen al, hipe -subjec i o, i ado sob e si) não se es- abeleça um hia o en e classes, e daí uma inacei á el cli agem no géne o humano, man endo ao mesmo empo abe a a possibilidade de econ e - são, median e o au o-escla ecimen o de um p ocesso psicológico, que co esponde à in enção e apêu ica do li o. Daí a ci cula idade que pe - co e a ob a en e a an opologia – uma eo ia da essência humana uni e - sal (o Homem) – e a psicologia da a i ude eligiosa (o homem eligioso), com o p opósi o de aze es a à luz da azão pa a que as necessidades que lhe dão o igem sejam comp eendidas como ilusão e acabem po se des anece . Se S i ne alo iza o es aziamen o da ealidade e ec i a da ans- cendência, e daí a sua des i uição como o dem au ónoma, o ac o de Feue bach sus en a a in e p e ação da eligião no plano da essência hu- mana p o a ia a manu enção de um modo de pensa ainda abs ac o. Ao comp eende os con eúdos “di inos” como con eúdos humanos, “chega- 100 Ad iana Ve íssimo Se ão ia ao Homem a pa i de Deus”, limi ando-se a subs i ui um uni e sal po ou o uni e sal, pe manecendo e ém do mesmo plano da abs acção que p ocu a supe a . Como pa a S i ne o pensamen o do uni e sal não ep esen a um simples e o eó ico, mas aca e a implicações p á icas que hipo ecam a ida empí ica a ideais azios, na óp ica do Único, Feue bach ilus a ia a pe sis ência do secula esmagamen o do indi idual pelo uni- e sal ou a simples subs i uição da “Causa de Deus” pela “Causa do Ho- mem”, um es o ço de emancipação pa cial e ainda “pene ado de eolo- gia” (EE, 62ss). Tudo começa, pois, com um mal-en endido da posição de Feue bach em iloso ia da eligião, que po se comp eensi a e não emá ica, segue uma he menêu ica ci cula que não isa cons i ui uma an opologia comple a, mas apenas desc e e mecanismos da eligiosidade como a i u- de subjec i a in e io , ou seja, des enda uma psicologia p o unda. Após um b e e P e ácio que si ua a ob a sob o lema do “conhece- e a i mes- mo” soc á ico e da con e são à azão na u al, a In odução iden i ica a ese cen al: a essência do(s) se (es) di ino(s) em a sua aiz na cons- ciência humana. Daí a a iculação en e “a essência do homem em ge al” e “a essência da eligião em ge al”, mos ando a impossibilidade de a consciência humana pode ul apassa -se de ac o, p o indo a ideia de uma essência supe io unicamen e do deslocamen o dos con eúdos da consciência na u al pa a uma es e a apa en emen e sob ena u al, mas de ac o ainda e semp e imanen e. O que Feue bach ecupe a de Deus pa a o Homem (“os seg edos ocul os da eligião”) não pode ia, ao con á io da lei u a de S i ne , co - esponde ao homem odo – à es e a in eg al da humanidade do humano –, mas apenas a uma an opologia implíci a, p ecisamen e po que a aliena- ção eligiosa nunca é absolu a e daí a possibilidade e apêu ica de um e o no do homem a si mesmo. É po isso sem con adição que pode man- e a e dade da eligião (ou seja, dos p edicados “di inos”, que são qua- lidades humanas, apenas “di inizadas” quando ele adas a um g au hipe - bólico e a ibuídas a ou o se ) e a in e dade do sujei o (di ino) como exis en e o a da consciência. O p imado do p edicado insc e e-se na des- -subs ancialização da ca ego ia de sujei o a que se assis e em Das Wesen des Ch is en ums e na pos e io iloso ia de Feue bach. Um sujei o não é mais do que o p incípio de e e ência que uni ica um complexo de quali- dades, não exis indo sem elas ou pa a além delas: o que o sujei o é eside exclusi amen e nos p edicados, sendo po isso o p edicado (o conjun o dos p edicados) a e dade (objec i a) do sujei o. Na análise dos objec os di inos a p e alência ecai in ei amen e nas qualidades, no conjun o de p op iedades que são in es idos. Numa de e minada igu a, mais decisi o que a en idade em si mesma, é o con eúdo o mado pelos a ibu os que a ca ac e izam; o amo , a jus iça, a mise icó dia, a p o idência, o milag e, A Pe gun a de Feue bach a S i ne 101 po exemplo, são conside ados di inos não po pe ence em a um Deus de e minado, mas são-lhe, pelo con á io, a ibuídos po se em con- side ados absolu os: o di ino signi ica com mais p op iedade o que é di inizado. Exis e na eligião um elemen o c í ico, uma p é ia alo ação que elege um conjun o de p op iedades, os a ibu os posi i os ou bons, que sendo omados como sup emos são, nessa medida, ene ados como qualidades di inas, absolu as. Mais ce ei a é a c í ica de S i ne di igida à eo ia da essência hu- mana como um complexo de aculdades sup a-indi iduais – o pensamen- o, a on ade e o amo –, pode es uni e sais do géne o humano que o - mam no seu conjun o a ideia de acionalidade. Como só o géne o humano e não o indi íduo cons i ui, pa a Feue bach, a inca nação da essência – o pensa , a on ade e o amo são p ecisamen e as ias pelas quais o homem indi idual se pode ealiza em ac os conjun os, saindo do isolamen o pa a a ida em comunidade. Não só o an i-indi idualismo de Feue bach não pode ia passa despe cebido a S i ne , como, mais ainda, o en endimen o da essência como complexo de pode es ans e sais a odos os indi í- duos, p esen es em cada um, mas não se dando in ei amen e em cada um, aca e a ia necessa iamen e a dualidade, ou mesmo o dualismo. A acei a- ção de uma essência humana le a ia, como consequência imedia a, à sepa ação do Eu num “eu essencial” (uni e sal) e num “eu inessencial” (indi idual), e daí à cisão do p óp io indi íduo em si mesmo, subme ido ao in e miná el con li o en e o “espí i o” e o “nosso se ”, a milena di i- são en e céu e e a, en e além e aquém econduzida à essência em nós mas acima de nós (EE, 33-34), ou, mais p ecisamen e, à essência do Homem em mim e acima de mim. A não cong uência en e indi idual e uni e sal, ou en e o indi íduo e o géne o humano, que signi ica pa a Feue bach p ecisamen e a supe a- ção da igu a acional da subjec i idade au o-su icien e ou, em e mos eológicos, da ideia de imo alidade da alma e de Deus como subjec i i- dade absolu a, le a de ac o à dualidade. Des-subs ancializada, a essência humana ealiza-se como uma me a po encialidade no seio do géne o, ele mesmo uma ealidade inde inida. Igualmen e a subs i uição do “amo a Deus” pelo “amo do homem pelo homem”, p opos a po Feue bach co- mo p incípio de uma no a é ica, deco e ia da con usão en e Homem e indi íduo, que S i ne que p ecisamen e supe a . Falando do Homem- -essência, e não do homem eal, Feue bach nunca pode ia chega ao ho- mem de “ca ne e osso” que p oclama, mui o menos se ia capaz de da con a da posição nuclea em S i ne da unicidade do indi íduo. O pon o de is a da acionalidade como uni e salidade equi ale ia à impossibili- dade, no plano e lexi o, de pensa o indi íduo e, no plano da ealidade, à sua anulação de ac o. 102 Ad iana Ve íssimo Se ão III. A éplica de Feue bach: o indi íduo eal con a o Único A éplica de Feue bach, um mis o de au o-de esa e de con a-a aque, ep esen a um es o ço de dilucidação dos g andes emas da sua iloso ia, elabo ada, não já do pon o de is a da consciência, mas da on ologia, o que ma ca uma signi ica i a di e ença de undamen ação. A sensibilidade (Sinnlichkei ), enquan o ins ância da exis ência conc e a, do que exis e sensi elmen e, se ia po si só jus i ica i a da imedia a equipa ação en e sensibilidade e indi idualidade: o que é sensí el exis e como semp e singula , como es e localizado, um se no mundo, exis en e no espaço, de e minado e p o ido de qualidades dis in i as; um en e sensí el é es e, e não ou o. Pa a Feue bach, a con es ação de S i ne é in undada, uma ez que a exis ência sensí el bas a pa a p o a o se conc e o como ealidade e ec- i a do singula ; mas igualmen e, e es e é um pon o nuclea da éplica, bas a pa a p o a a exis ência ( ealidade e ec i a) dos singula es e, com ela, a posição da mul iplicidade, sendo que oda a exis ência é coexis ên- cia ou exis ência em elação. Daqui, da equipa ação en e sensibilidade – exis ência espácio- empo almen e de e minada – e co-exis ência – co- -p esença de indi íduos em acção ecíp oca – Feue bach p ocu a de en- de -se e eba e simul aneamen e, e com um só a gumen o, pon os con- o e sos da sua ecepção de S i ne : o que se iam os “a ibu os” da unicidade: a absolu idade, a abs acção, a inde e minação, o isolamen o. Se o indi íduo exis e em elação, Eu e Tu, e sendo o se sensí el ao mesmo empo ac i o e passi o, a ei indicação de au onomia, au ode e - minação e au o-su iciência do Eu-Único cai ia po e a. O simples ac o de se co po izado az já consigo a sexualização do eu: com o eu é dada pelo menos uma de e minação – o se masculino ou se eminino –, e com a sexualização es á dada a humanidade. A unção da de e minação sexual na indi idualidade conc e a em um amplo eixe de implicações na an opologia eue bachiana: p incípio di e enciado do indi íduo, p o a da ca ência de al e idade e p incípio da dinâmica mul iplicado a e ge a- do a do géne o humano. Logo, o Um não em qualque sen ido: o Um implica o Dois, e daí o Mui os. Segue os sen idos! Tu és homem da cabeça aos pés – o eu que em pensamen os sepa as da ua essência sensí el, masculina é um p odu o da abs acção, que em p ecisamen e an a ou ão pouca ealidade quan o a mesidade pla ónica em oposição às mesas eais. Mas enquan o homem e e es- e essencialmen e, necessa iamen e a um ou o eu ou se – à mulhe . Daí que se quise econhece - e como indi íduo, não posso es ingi o meu econhecimen o unicamen e a i, mas enho de es endê-lo ao mesmo empo pa a além de i, à ua A Pe gun a de Feue bach a S i ne 103 mulhe . O econhecimen o do indi íduo é necessa iamen e o econhe- cimen o de pelo menos dois indi íduos. Mas dois não em e mo nem sen ido; ao dois segue-se o ês, à mulhe o ilho. [...] É que em Feue bach o géne o não signi ica, de ac o, um abs ac um, mas apenas o u em ace do eu singula ixado po si mesmo, o ou o, e em ge al os indi íduos humanos exis en es o a de mim. (Übe das WCh; GW 9, 433-434). Ao pe gun a : “que signi ica se um indi íduo?”, Feue bach econ- duz o deba e pa a um e eno que não é o de S i ne , pa a quem os e mos cen ais são Eu e Único, mas não “indi íduo”. P ocu a um con on o en e p incípios da iloso ia, quando o Único não é um concei o, nem uma ca ego ia, mas uma posição exis encial: a me a desc ição de um ac o ei indicado de si (“Besch eibung des – Eigne s”; EE, 188), ou o sen i- do de uma ap op iação de si (“Dies is de Sinn – des Einzigen”; EE, 406). Na au o-desc ição pela linguagem o único não pode a i ma -se se- não numa au ologia: Eu=Eu. A indizibilidade é, po an o, um “a ibu o” da unicidade. A con a- -a gumen ação de S i ne em Rezensen en S i ne s apenas ei e a os g an- des ópicos: a inde inibilidade, indizibilidade e incompa abilidade do Único, um nome a que só a ida da á con eúdo: “único” não é uma subs- ância nem um p edicado, ao con á io de “homem”, que se sob epõe ao indi íduo o nando-o “inumano”. O que impo a a S i ne é sob e udo a de esa da indi idualidade, não do indi íduo. Ou, como a i ma cla amen- e, Único é um “nome” pa a o se p óp io (Eigenhei ), uma me a pala a: O Único é uma pala a: e pe an e uma pala a de e -se-ia oda ia pensa qualque coisa, uma pala a de e ia e um con eúdo de pensamen o. Mas o Único é uma pala a des i uída de pensamen o, não em con eúdo de pensamen o. [...] Vis o que o con eúdo do único não é um con eúdo de pensamen o, é daí impensá el e indizí el, mas, po que indizí el, es a ase plena, não é ao mesmo empo, uma ase. (RS, 74) Não é en ão pelo dize -se, mas pelo aze -se que a unicidade se pe - az. Como p op ie á io de si, das suas qualidades, de odas, sem hipo eca nenhuma delas a qualque igu a da al e idade. Como p op ie á io do mundo, usando-o segundo o seu exclusi o in e esse e dispondo dele pa a a sua uição. Capacidade (pode ) e p op iedade coincidem, na medida em que o meu pode (K a ) é o que me é p óp io (Eigenhei ) e aquilo que aço meu (Eigen um). Da unicidade – nome de uma ida incompa á el que não se pode e- pe i nem se i ida po mais ninguém – que Feue bach não en ende co- mo p oblema – a é ao isolamen o – ao “Único na e a” – ai um só um passo. Po mais que S i ne ei e e o Único como se “de ca ne e osso”, 104 Ad iana Ve íssimo Se ão ini o e pe ecí el, dono de udo o que conquis ou, po pouco que seja, não escapa à compa ação com o absolu o. Passam despe cebidas a i mações como es a: É possí el que Eu possa aze de Mim mui o pouco, mas es e Pouco é Tudo, e é melho do que Aquilo que Eu deixo aze de Mim (EE, 200). Igualmen e, a in e p e ação de um se au o-ge ado, i endo sozinho ou exis indo sem ou os não esis e à lei u a in eg al de De Einzige. Já pa a não e e i as ideias sociais e polí icas, e odo o ema da Liga de Egoís as (Ve ein on Egois en), bas a ia a conside ação do capí ulo “Ein Menschenleben” pa a comp eende como a unicidade é um es ádio do homem adul o, não uma posição na u al ác ica. A abo dagem on ogené- ica des a secção mos a bem como a ida de homem não é a ap op iação de uma essência, mas um p ocesso que se ai ealizando em ês ases: I. In ância: a lu a com o mundo. Regida pelo p incípio “ ence ou sucumbi ” / “senho ou súbdi o”, cujos pólos são cada um e udo o es o, co esponde a uma elação de oposição com as coisas na u ais, de que se sai quando se c ia co agem pa a se des aca das leis do mundo e a i ma uma supe io idade. Passa-se assim, a a és da comp eensão e do co- nhecimen o, do domínio exe cido pelas coisas pa a a busca de algo exis- en e “po de ás” delas. Comp eende é uma o ma de pode . A in ância ealiza o ânsi o do ealismo ao idealismo. II. Ju en ude: o domínio do espí i o. A as amen o e supe io idade le am à c iação de ou os “mundos” do ados de ealidade au ónoma e alo . O “po de ás de” ans o ma-se em “acima de”, num “além”. Os ideais (Deus, Razão, Homem, Humanidade, e dade, libe dade...) o ma- dos pela capacidade da azão adqui em o ça p óp ia e p o am o pode da consciência e do pensamen o sob e os obs áculos mundanos. O eino do ideal ep esen a: a) uma p imei a solução pa a a busca de au onomia do jo em, que o oma como e dade e o segue como mandamen o; b) mas é no ideal que ol a ambém a pe de -se, expe imen ando o azio ao dissol- e -se num espí i o uni e sal, “que não é meu”. É, pois, necessá io passa do eino do ideal ao eino do in e esse. III. Homem: a assunção de si. Es a ase ep esen a uma no a o ma de ealismo: a acei ação do mundo como é e a acei ação de si como um se o al em ca ne e osso, ou espí i o inca nado. P essupõe oma -se como cen o de in e esse e e p aze em si mesmo. In e esse e p aze compõe o “in e esse pessoal ou egoís a”: “in e esse não apenas do nosso espí i o, mas uma sa is ação o al, sa is ação de odo o indi íduo, um in e esse que si a o p óp io eu”. – Sou Eu que es ou “po de ás das ideias” como “seu c iado e p op ie á io”: “Tomo o mundo como aquilo que ele é pa a mim, A Pe gun a de Feue bach a S i ne 105 como o meu mundo, a minha p op iedade: eu sou a e e ência única de udo.” (EE 18-19). “Ein Menschenleben” mos a como a cons ução da iden idade do Eu, ou a génese do Egoísmo, não é um dado p imá io nem na u al. A assunção de si é descobe a, lu a e conquis a. IV. O núcleo da discó dia: duas isões do indi íduo Se á que les e A Essência do C is ianismo? Se á que les e O Único e a sua P op iedade? – são pe gun as cons an emen e di igidas, mani es- ando a mú ua incomp eensão e uma discussão in e miná el, sem que um e ou o dos in e locu o es es eja dispos o a econhece pon os de con ac o ou a inidades nos espec i os p og amas. Comum a ambos há a ejeição da abs acção, a eleição da ida eal como luga da iloso ia, a idên ica ecusa de uma ida humana sac i icada a ilusões e a alo es alsos, ep esen ada po en idades me a ísicas ou sup a-humanas. O humano é uma unidade inca nada na ida empí ica. Feue bach não pode ia senão subsc e e a denúncia da igualdade o mal, uni o midade deco en e de uma essência ixa, de que cada um se ia um exemplo, um elemen o epe ido: O a, se Eu ejo em Ti o Homem como ejo em Mim o Homem, e nada mais ejo senão o Homem, en ão Eu cuido de Ti como Eu cuida ia de Mim, pois Nós os dois nada mais ep esen amos do que o p incípio ma emá ico: A=C e B=C, logo A=B. (EE, p.196). Po ém, sob e es e undo comum, são inconciliá eis as di e gências, que quan o ao con eúdo, que quan o ao modo do iloso a . Como a ge- ne alidade das c í icas di igidas a S i ne pelos seus con empo âneos, ambém a de Feue bach es á des inada ao acasso, se se p ocu a le nela uma e u ação. Po que não unda uma dou ina nem ins i ui um p incípio no o da iloso ia, a posição de S i ne é i e u á el. A in ei a coincidência en e o p o agonis a (o Eu do discu so) e o enunciado pessoal que não ins i ui qualque gene alidade coloca-o ao ab igo de odas as acusações. A a i mação exis encial que esponde à pe gun a “Quem é?” não po- de e con eúdo p é io. É ela mesma o ac o p é io que se ins au a como o cen o de uma exis ência, que i e, pensa e age a pa i desse cen o ina- liená el e insubs i uí el. É uma posição é ica, o egoísmo conscien e (cuja negação esconde, pelo con á io, hipoc isia ou egoísmo elado): ap op i- a -se desse mundo como meu mundo, se indo o meu in e esse e segundo a minha uição.