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As “fontes inexauríveis dos escritores da Antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins

Abstract

Inserida na “Biblioteca das Ciências Sociais” (de que viria a ser o último volume, publicado em 1885), a História da República Romana responde ao objectivo específico delineado por Oliveira Martins: difundir conhecimento por um vasto público. Será, porventura, esse propósito que justifica alguma contenção e certa simplicidade com que se citam ou referem autores antigos, capacidade que neste ensaio se estuda para concluir acerca do proveito que Oliveira Martins tirou dos testemunhos da literatura greco-latina: verificar-se-á que a insistência com que se recorre a Valério Máximo ou Suetónio como fontes históricas é uma singularidade admirável, sobretudo em contraste com a parcimónia com que são mencionados quer historiadores como Tito Lívio, Dionísio de Halicarnasso ou Plutarco, quer testemunhos contemporâneos da última parte da História da República Romana como o de Júlio César; citações de Tácito e dos Evangelhos parecem deslocados do contexto e cronologia, enquanto Cícero configura um caso inteiramente à parte, pois a sua convocação é frequente, sobretudo para demonstrar antipatia pela personagem; identificam-se versões latentes de Apiano, Díon Cássio ou Séneca; e assinalam-se discursos poéticos de Horácio, Propércio, Virgílio e de Catulo usados como fonte histórica. Em muitos casos, porém, os contextos originais foram distorcidos ou manipulados.

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As “fontes inexauríveis dos escritores da Antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins

Author: Nobre, Ricardo Miguel Guerreiro
Publisher: Imprensa da Universidade de Coimbra
Year: 2023
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/61101/1/Nobre%202023.%20As%20Fontes%20Inexauri%cc%81veis%20dos%20Escritores%20da%20Antiguidade.pdf
Nuno Simões Rod igues
Ália Rod igues
(Coo ds.)
Iden idade Romana e
Con empo aneidade
HVMANITAS SVPPLEMENTVM • ESTUDOS MONOGRÁFICOS
ISSN: 2182-8814
Ap esen ação: es a sé ie des ina-se a publica es udos de undo sob e um leque a iado de
emas e pe spe i as de abo dagem (li e a u a, cul u a, his ó ia an iga, a queologia, his ó ia
da a e, iloso ia, língua e linguís ica), man endo embo a como denominado comum os
Es udos Clássicos e sua p ojeção na Idade Média, Renascimen o e eceção na a ualidade.
B e e no a cu icula sob e a Coo denação do olume
Nuno Simões Rod igues é Dou o em Le as, na especialidade de His ó ia da An iguidade
Clássica, é P o esso Associado da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa, onde
leciona ma é ias elacionadas com a An iguidade Clássica, em g aduações e pós-g aduações.
In es igado dos Cen os de His ó ia e de Es udos Clássicos da ULisboa e de Es udos
Clássicos e Humanís icos da Uni e sidade de Coimb a, em dedicado a sua in es igação à
His ó ia Cul u al da G écia An iga (mi o, eligião e ea o) e à His ó ia Social e Polí ica da
Roma An iga ( inais da República e inícios do P incipado). A eceção da An iguidade Clássica
no cinema e na banda desenhada em ambém me ecido a sua a enção como in es igado .
T aduziu Eu ípides (Alces e e I igénia en e os Tau os), Plu a co (Co iolano) e algumas da idas
da His ó ia Augus a. De momen o, abalha na adução da Vida de An ónio de Plu a co.
Ália Rod igues é dou o ada pela Uni e sidade de Coimb a em Es udos Clássicos e é
a ualmen e in es igado a pós-dou o anda no P ojec o BioRom sediado no Cen o de
Es udos Clássicos e Humanís icos.
Nos úl imos anos em abalhado sob e udo na á ea de his ó ia in elec ual das ideias
polí icas, ocando-se nas adições polí icas g ega e omana.
Sé ie Humani as Supplemen um
Es udos Monog á icos
ESTRUTURAS EDITORIAIS
Sé ie Humani as Supplemen um
Es udos Monog á icos
ISSN: 2182-8814
DIRETOR PRINCIPAL
MAIN EDITOR
Del im Leão
Uni e sidade de Coimb a
REVISÃO
REVIEW
Guilhe me Ma ques
Uni e sidade de Coimb a
COMISSÃO CIENTÍFICA
EDITORIAL BOARD
An onio Duplá Ansua egui
(Uni e sidad del País Vasco)
Cláudia A. Teixei a
(Uni e sidade de É o a)
Fe nando Wul Alonso
(Uni e sidad de Málaga)
José Ca doso Be na des
(Uni e sidade de Coimb a)
José Damião Rod igues
(Uni e sidade de Lisboa)
Ma ia Alexand e Lousada
(Uni e sidade de Lisboa)
Ma ia C is ina de Sousa Pimen el
(Uni e sidade de Lisboa)
Ma ia João Bap is a Ne o
(Uni e sidade de Lisboa)
Ma ia Manuela Ta a es Ribei o
(Uni e sidade de Coimb a)
Ma in M. Winkle
(Geo ge Mason Uni e si y)
Paola S. Sal a o i
(Scuola No male Supe io e – Pisa
e Uni e si à degli S udi Roma T e)
Paula Mo ão
(Uni e sidade de Lisboa)
Raquel Hen iques da Sil a
(Uni e sidade No a de Lisboa)
Sé gio Campos Ma os
(Uni e sidade de Lisboa)
Todos os olumes des a sé ie são subme idos a a bi agem cien í ica independen e.
Nuno Simões Rod igues
Ália Rod igues
(coo ds.)
Iden idade Romana e
Con empo aneidade

Tí ulo Ti le
Iden idade Romana e Con empo aneidade
Roman Iden i y and Con empo anei y
Coo d. Ed.
Nuno Simões Rod igues
Ália Rod igues
Edi o es Publishe s
Imp ensa da Uni e sidade de Coimb a
Coimb a Uni e si y P ess
www.uc.p /imp ensa_uc
Con ac o Con ac
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Coo denação Edi o ial Edi o ial Coo dina ion
Imp ensa da Uni e sidade de Coimb a
Conceção G á ica G aphics
Rodol o Lopes, Nelson Fe ei a
In og a ia In og aphics
Jo ge Ne es
Imp essão e Acabamen o P in ed by

ISSN
2182-8814
ISBN
978-989-26-2479-2
ISBN Digi al
978-989-26-2480-8
DOI
h ps://doi.o g/10.14195/978-989-26-2480-8
© Ou ub o 2023
T abalho publicado ao ab igo da Licença This wo k is licensed unde
C ea i e Commons CC-BY (h p://c ea i ecommons.o g/licenses/by/3.0/p /legalcode)
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Imp ensa da Uni e sidade de Coimb a
Classica Digi alia Vni e si a is Conimb igensis
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Cen o de Es udos Clássicos e Humanís icos
da Uni e sidade de Coimb a
Sé ie Humani as Supplemen um
Es udos Monog á icos
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(PTDC/LLT-OUT/28431/2017). Financiado pelo P oje o
Ge al do Cen o de Es udos Clássicos e Humanís icos
da Uni e sidade de Coimb a (UIDB/00196/2020
e UIDP/00196/2020)
Iden idade Romana e Con empo aneidade
Roman Iden i y and Con empo anei y
Coo denado es edi o s
Nuno Simões Rod igues
Ália Rod igues
Filiação A ilia ion
Uni e sidade de Lisboa
Uni e sidade de Coimb a
Resumo
Es e conjun o de ensaios e de es udos p e ende o e ece ao lei o uma pe spec i a sis ema izada da p esença
e in luência da cul u a omana, sob e udo ao ní el das p oblemá icas da iden idade, na con empo aneidade,
en endendo-se aqui po “con empo ânea” a ealidade his ó ica que se segue à Re olução F ancesa, no inal
do século XVIII. Des e modo, eúnem-se es udos que ab angem ealidades polí icas e ins i ucionais, mas
ambém his o iog á icas e a ís icas, da Li e a u a, às A es Plás icas e ao Pa imónio. Os ex os eunidos
cen am-se sob e udo na ealidade po uguesa, mas incluem-se ambém e lexões mais ab angen es que
êm como ho izon e a Eu opa e os EUA.
Pala as-Cha e
Iden idade Romana, Es udos de Receção, Roma An iga, Con empo aneidade
Abs ac
This se o essays aims o o e he eade a sys ema ized pe spec i e o he p esence and in luence o Roman
cul u e, especially a he le el o iden i y issues, in con empo anei y, “con empo aneous” being unde s ood
he e as he his o ical eali y ha ollowed he F ench Re olu ion, a he end o he 18 h cen u y. The s udies
b ough oge he co e poli ical and ins i u ional eali ies, bu also his o iog aphical and a is ic opics,
om Li e a u e o Fine A s and He i age. The collec ed ex s ocus mainly on he Po uguese eali y, bu
also include b oade e lec ions such as Eu ope and he USA.
Keywo ds
Roman Iden i y, Recep ion S udies, Ancien Rome, Con empo anei y
6
Coo denado es
Nuno Simões Rod igues
Dou o em Le as, na especialidade de His ó ia da An iguidade Clássica, é P o esso Associado
da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa, onde leciona ma é ias elacionadas com a
An iguidade Clássica, em g aduações e pós-g aduações. In es igado dos Cen os de His ó ia
e de Es udos Clássicos da ULisboa e de Es udos Clássicos e Humanís icos da Uni e sidade de
Coimb a, em dedicado a sua in es igação à His ó ia Cul u al da G écia An iga (mi o, eligião e
ea o) e à His ó ia Social e Polí ica da Roma An iga ( inais da República e inícios do P incipado).
A eceção da An iguidade Clássica no cinema e na banda desenhada em ambém me ecido a
sua a enção como in es igado . T aduziu Eu ípides (Alces e e I igénia en e os Tau os), Plu a co
(Co iolano) e algumas da idas da His ó ia Augus a. De momen o, abalha na adução da Vida
de An ónio de Plu a co.
Ália Rod igues
Ália Rod igues é dou o ada pela Uni e sidade de Coimb a em Es udos Clássicos e é a ualmen e
in es igado a pós-dou o anda no P ojec o BioRom sediado no Cen o de Es udos Clássicos e
Humanís icos.
Nos úl imos anos em abalhado sob e udo na á ea de his ó ia in elec ual das ideias polí icas,
ocando-se nas adições polí icas g ega e omana.
Con en s Índice
In odução 9
Nuno Simões Rod igues, Ália Rod igues
I. DA HISTÓRIA
Building a New Poli ical Model: Lessons om he Roman Republic 19
Clelia Ma inez Maza
O eg esso às o igens do c is ianismo no al o do p o es an ismo
po uguês: a p oblemá ica da iden idade omana na imagé ica
p o es an e oi ocen is a 39
Ri a Mendonça Lei e
Impe ialismo, La inidade e Romanidade no No e de Á ica
ancês e i aliano 67
Vasco Man as
II. DA HISTÓRIA E DA HISTORIOGRAFIA
Os his o iado es oi ocen is as po ugueses e a omanização 133
And é Teixei a
A ap op iação de Vi ia o (e dos Lusi anos) no séc. XIX em Po ugal 163
Amílca Gue a
III. DA HISTÓRIA, DA LITERATURA E DA FILOLOGIA
As « on es inexau í eis dos esc i o es da An iguidade» na His ó ia
da República Romana (1885), de J. P. Oli ei a Ma ins 191
Rica do Nob e
Es udos da ida omana e no as memo ialís icas em Os dois Plínios
de Júlio de Cas ilho 219
Vi gínia Soa es Pe ei a
Ca ão – Uma Memó ia na Ribal a. Abo dagem de Ca ão, uma T agédia
de Joseph Addison 243
Adelaide Mei a Se as
A agédia Ca ão de Almeida Ga e . O seu débi o a Plu a co 265
José Ribei o Fe ei a
196
As “ on es inexau í eis dos esc i o es da an iguidade” na His ó ia da República Romana (1885),
de J. P. Oli ei a Ma ins
dos “subsídios” da “e udição con empo ânea” e das “ on es inexau í eis dos
esc i o es da An iguidade”19. Nes a omada de posição, Oli ei a Ma ins pa ece
e seguido a suges ão que An e o de Quen al lhe de a em Ma ço de 1875; o
poe a, a p opósi o de um a igo ace ca “Da Mo al Religiosa en e os G egos”
(imp esso nesse ano na Re is a Ociden al), decla a a: “sou de pa ece que i e
as ci ações de 2.ª mão, e deixe só as dos an igos”20.
A His ó ia da República Romana, no en an o, não es á isen a de emis-
sões bibliog á icas. Dos es udos c í icos, apenas são mencionadas, po no ma
em odapé, ob as da p óp ia “Biblio eca das Ciências Sociais”21, po en u a
com o in ui o de cimen a os concei os de Oli ei a Ma ins sob e os enóme-
nos his ó icos a ados. Pa a isso, conco e a ideia de que “Si uações análogas
p oduzem semp e esul ados idên icos; a na u eza humana é uma e a mesma,
e o omano do ii século da sua e a o na a-se, sob o pon o de is a social
e polí ico, idên ico ao eu opeu ociden al do xix século da e a de C is o”22.
Assim, ais emissões pa a ou as ob as da “Biblio eca das Ciências Sociais”
su gem em momen os em que se p e ende c ia uma ligação en e o passado
omano e o p esen e (ou passado p óximo): os Romanos, no empo da omada
de Veios, e am “uma gen e bisonha, c en e e pe inaz, que nos pa ece assime-
lha -se à nossa gen e po uguesa a é ao x século, aos bu gueses que ize am ei
D. João I e aos soldados que conquis a am a Á ica ma oquina”23; aspec os da
expansão po uguesa se em pa a explica o papel de Ca ago nas éspe as da
p imei a gue a con a Roma: “Lisboa oi no século x i da nossa e a a Ca ago
da Eu opa”24.
Mul iplicam-se exemplos com a F ança (“Olhe-se pa a qualque socie-
dade mode na colocada em si uação análoga à da F ança no pe íodo 1851-70
e e -se-á, mudando os nomes, o quad o in ei o dos pa idos polí icos oma-
nos nes e pe íodo”25), a Alemanha (“Roma […] em uma si uação análoga à
da P ússia de hoje no impé io ge mânico”26), a Ingla e a (“As ei indicações
aná quicas dos comícios pe an e uma cons i uição desconjun ada inham […]
p epa ando assim, com o caos cons i ucional, uma si uação análoga à que em
19 Ma ins 1885: I. xxx ii.
20 Quen al 2009: I. 404.
21 O único au o mode no e ec i amen e ci ado, a p opósi o de Júlio Césa , é Mon es-
quieu: “Nunca se o ende mais os homens […] do que quando se lhes a acam os seus usos e
ce imónias. Op imi é mui as ezes uma p o a de conside ação, e i os usos é uma p o a
de desp ezo” (Ma ins 1885: II. 409-410). A on e não é iden i icada, po ém a p imei a ob a
indicada na bibliog a ia inal é G andeu e décadence des omains, de Mon esquieu.
22 Ma ins 1885: II. 7.
23 Id.: I. 106-107.
24 Id.: I. 185.
25 Id.: II. 144.
26 Id.: I. 172.

197
Rica do Nob e
Ingla e a C omwell esol eu dissol endo o Longo-pa lamen o (1653)”27) ou
a Espanha (“Os omanos ala am da Gália como os espanhóis mode nos do
México e do Pe u”28).
Ou a es a égia semelhan e a es a é a iden i icação de igu as an igas com
mode nas: Má io es e e numa si uação idên ica ao do “nosso Saldanha em
1835”29, Gaio G aco é um Dan on30, Quin o Róscio um Talma31, Ma co C asso
um Ro schild32, Ca ão um Alexand e He culano33, Cíce o um Cha eaub iand,
um Thie s ou um Ga e 34, en e mui os ou os exemplos possí eis35.
Em simul âneo, as e e ências aos au o es an igos na His ó ia da República
Romana são mui o comedidas e sem pa icula elabo ação: numas ocasiões
são ei as po pa á ases di usas, nou as po meio de ci ações em po uguês,
a amen e apenas em la im, ha endo exemplos em que se ap esen a a ci ação
la ina (amiúde com e os de o og a ia36) acompanhada de adução po uguesa.
Mui as ezes não se menciona a ob a e, excep o num caso, nunca se indica o
passo37. É, ainda assim, no ó io que exis em mui os ou os momen os em que
a na a i a da His ó ia da República Romana é subsidiá ia de e sões an igas.
Es e ensaio p ocu a es uda o p o ei o que Oli ei a Ma ins i ou dos au o es
an igos pa a a elabo ação da sua ob a. O i ine á io a pe co e não igno a que,
dos i ens omi idos na “Bibliog a ia”, se encon am “Os au o es clássicos, que
se ão e e namen e lidos como esc i o es, mas que hoje não podem em g ande
pa e oma -se como ex o his ó ico; sendo po ém as suas ob as e mui as das
disse ações com que êm acompanhados nas edições mode nas a p incipal das
on es pa a o his o iado ”38.
27 Id.: II. 11.
28 Id.: II. 43.
29 Id.: II. 69.
30 Id.: II. 22.
31 Id.: II. 128.
32 Id.: II. 149.
33 Id.: II. 146, 263.
34 Id.: II. 202, 247, 251.
35 Id.: II. 185, 201-202, 209, 225, 234-235, 236, e c.
36 Cla o que os e os podem se in e p e ados como g alhas, mas, nes e ensaio, as ci a-
ções la inas são co igidas de aco do com as edições e e idas na bibliog a ia. A minha única
in e enção uni icado a é a de u iliza o amis a em odas as ci ações. Além disso, são
minhas as aduções cuja au o ia não es eja assinalada.
37 A excepção é uma ci ação da Eneida, como mais à en e se indica.
38 Ma ins 1885: II. 457. Conside o que as ci ações po uguesas dos ex os an igos,
não indicando au o (e sem que eu enha iden i icado nenhuma adução na His ó ia da
República Romana com as exis en es em 1885, como depois se pa icula iza á), são da es-
ponsabilidade de Oli ei a Ma ins (se á pouco ele an e se o am ei as a pa i do o iginal
g ego ou la ino ou de aduções es angei as).
198
As “ on es inexau í eis dos esc i o es da an iguidade” na His ó ia da República Romana (1885),
de J. P. Oli ei a Ma ins
Valé io Máximo exempli ica bem odos es es ipos de u ilização: no capí-
ulo sob e o senado, es e é de inido (no co po do ex o, em adução) como “a
alma da epública, a ca iel dos pensamen os mais p o undos, p o egido po um
seg edo impene á el”39; em odapé, su ge o o iginal la ino acompanhado da
au o ia, mas não do passo40.
No início do capí ulo sob e Pi o, a o igem da ci ação é silenciada:
Quando os embaixado es omanos o am a Ta en o pedi sa is ação pelo assal o
b u al da esquad a, a u ba que eina a à sol a na cidade apinha a-se nas uas
e p aças pa a os e passa , cump imen ando-os com assobios p olongados.
O senado a en ino deu-lhes um banque e que e minou po um insul o
imundo: um g ego le an ou-se indo, aos pulos, e u inou sob e a oga dum
embaixado . “Ri”, disse-lhe es e, se eno e e í el; “ i u, que ainda me hás-de
e a oga la ada com o sangue dos eus”41.
O episódio (acon ecido em 282 a. C.42) é mencionado po Valé io
Máximo43, que não log a se , po ém, a p incipal on e do que acaba de se
ci a ; a espos a ansmi ida po Apiano, que nomeia o a en ino como Filó-
nides e o omano como Lúcio Pos úmio, adequa-se mais li e almen e à e -
são de Oli ei a Ma ins: “κλετε ἔ ττ αματ λλ ττ
ρεσκμε γλωσ”44. Ou a possibilidade menos acei á el se ia a his ó ia de
Díon Cássio45. No en an o, como nem Apiano nem Díon Cássio alam em u ina,
a mediação de Valé io Máximo pa ece in luencia o con ex o da decla ação.
Como se ê, quando não se iden i icam as on es, é possí el que as na a i-
as sejam con aminadas po á ios es emunhos (seleccionando os po meno es
a desc e e ). Ou o exemplo desse p ocesso é o seguin e; ao na a um episódio
da ida de Má io, em Min u nas, Oli ei a Ma ins esc e e:
39 Ma ins 1885: I. 52-53
40 Val. Max. 2.2.1: Fidum e a e al um ei publicae pec us cu ia silen ique salub i a e
muni um (“a cú ia e a o pei o iel e ilus e do es ado e p o egido pela salub idade do
silêncio”).
41 Ma ins 1885: I. 146.
42 Reco de-se que es a c onologia co esponde à po ção pe dida da ob a de Ti o Lí io.
43 Val. Max. 2.2.5: cum g a issimas ibi iniu ias accepissen , unus e iam u ina espe sus
esse (“ endo aí ecebido g a íssimas injú ias, endo a é um sido salpicado com u ina”).
44 App. Sam. 7.2: “‘la a eis is o’, disse, ‘com mui o sangue, ós que es ais g a os com os
isos’”.
45 A espos a do embaixado omano em Díon Cássio (9.8) é: “γελτε ἔ γελτε ω
ἔεστ μ κλασεσθε γρ  μακρτατ τα τ σθτα τατ τ αματ μ
λτε” (“‘Ride’, disse, ‘ ide enquan o os é possí el! Po mui o longo empo cho a eis
enquan o la a des es a es e com o osso sangue’”).
199
Rica do Nob e
Pob e Má io sozinho e pe dido nos a olei os, endo a ba ca da sua sal ação
a as a -se ao la go! Caído sob e o lodo, cho a lág imas de do e ai a! Todo ele
é lama! Cha u da, opeça, asga-se, e e-se, desespe a, cai, le an a-se… Se ei
cônsul uma ez ainda! Cônsul? não: um demónio!… Ia cismando des ai ado,
a as ando o seu co po mise á el a é à cabana que além desco ina ao longe…
Chega, ba e, ab em-lhe: Quem és u? Má io!… O camponês cai-lhe aos pés:
e a um e e ano d’Á ica. Esconde-o; mas já e a a de. A gen e amo inada
em co endo, oma-o, dei a-lhe uma co da ao pescoço e le a-o como se le a
um boi laçado, pe an e o ibunal de Min u nas que o sen enceia à mo e…46
Su gem assim amalgamadas in o mações que se encon am an o em Valé-
io Máximo (2.10.6) como em Plu a co (Má io, 38-39).
Inse ido no subcapí ulo “A Vida Ai ada” da sociedade no im da epública,
o acon ecimen o que es á na o igem de um dos di os céleb es de Júlio Césa em
como p o agonis a Clódio, que, es ido de mulhe , “dis a çado em ocado a de
li a”, se imiscuiu na casa daquele pa a celeb a a Bona Dea jun o de Pompeia,
a quem ama a:
Reconhece am-no: que escândalo! um homem no gineceu! Au élia[,] a sog a[,]
g i a a açodada, as ce imónias in e ompiam-se, Clódio ugia a esconde -se
no qua o de uma esc a a, onde as mulhe es o o am acha expulsando-o.
Não se ala a em Roma nou a cousa no dia seguin e: os ca u as pediam o
cas igo do sac ílego; mas o po o, in ei amen e ímpio, ia da a sa, indi e en e
ao sac ilégio, com a sua simpa ia indis in a pelos ascá ios. Ainda assim, pa a
se ob e a absol ição do éu[,] que e a ão ico como a e ido, oi necessá io
comp a os juízes aus e os enchendo-lhes os bolsos e saciando-lhes a luxú ia:
diz Valé io Máximo que as nou es desses juízes cus a am ios de dinhei o.47
Com e ei o, em Valé io Máximo, encon a-se es e es emunho sob e o
julgamen o:
P. au em Clodi iudicium quan a luxu ia e libidine abunda i ! in quo, u e i-
den e inces i c imine nocens eus absol e e u , noc es ma ona um e adu-
lescen ium nobilium magna summa emp ae me cedis loco iudicibus e oga ae
sun . 48
Quão abundan e de luxú ia e lascí ia oi o julgamen o de P. Clódio! Nele,
pa a que o éu osse conside ado culpado pelo c ime de inces o, com magnas
somas, o am gas as pa a os juízes noi es de ma onas e de jo ens nob es como
me cado ias comp adas.
46 Ma ins 1885: II. 91.
47 Ma ins 1885: II. 228.
48 Val. Max. 9.1.7.
200
As “ on es inexau í eis dos esc i o es da an iguidade” na His ó ia da República Romana (1885),
de J. P. Oli ei a Ma ins
A ci ação do di o que jus i icou o epúdio da mulhe – “Po que é necessá io
que a mulhe de Césa nem seque seja suspei ada”49 – não az iden i icação
da on e. Sue ónio, que ambém o menciona em discu so di ec o, ap esen a
uma o mulação di e en e: “quoniam”, inqui , “meos am suspicione quam c i-
mine iudico ca e e opo e e”50. Plu a co, que na a o acon ecimen o com bas-
an e po meno 51, ci a a espos a que Césa deu no julgamen o quando lhe
pe gun a am po que se inha di o ciado – “τ ἔ τ μ  μ
θα”52 –, e es a e são pa ece es a mais p óxima ex ualmen e da de
Oli ei a Ma ins53.
Quando, depois da mo e de Cíce o, a sua cabeça oi en iada a Ma co
An ónio, segundo Oli ei a Ma ins, es e e á exclamado ao examiná-la: Hunc
ego no um non habui (com a cu iosa adução “Quem e conhece que e com-
p e”54). A exp essão, que se encon a em Valé io Máximo (9.5.4), diz oda ia
espei o ao senado Cesécio Ru o.
Valé io Máximo ol a ainda a se ci ado no mesmo subcapí ulo:
Ca ilina, pe dido de amo es po Au élia O es ila, quis desposá-la e, como o
ilho des a se opusesse, co ia que Ca ilina o en enena a, “acendendo na pi a
do ilho o acho do himeneu com a mãe”, assim o con a Valé io Máximo que
ambém diz como em 651 Valé io Valen ino o a acusado po um poema po -
nog á ico em que e am can ados o es up o de uma i gem e o des lo amen o
de um apaz, com uma lub icidade genuinamen e ealis a.55
As e e ências são a 9.1.956 e 8.1.abs.857, espec i amen e, mas pode ia
ainda menciona -se Salús io58 (que de e á se , pelo menos em pa e, on e de
Valé io Máximo).
49 Ma ins 1885: II. 228.
50 Sue . Caes. 74: “po que penso que é p eciso que os meus es ejam ão longe da suspei a
quan o do c ime”.
51 Caes. 9-10; . ambém Plu. Cic. 28-29.
52 Plu. Caes. 10: “‘Po que’, disse, ‘pensa a que ela não de ia es a sob qualque suspei a’”.
53 A e são de Díon Cássio, em discu so indi ec o, é mais gené ica: τ γρ σρα
ρα μ μ μ μαρτάε λλ μ’  α ασρ κεσθα (“é neces-
sá io que uma mulhe cas a não só não come a um e o, mas ambém não chegue a uma
deson osa suspei a”).
54 C . Plu. Cic. 49.
55 Ma ins 1885: II. 234.
56 9.1.9: esano amo e Au eliae O es illae co ep us, cum unum impedimen um ide e
quominus nup iis in e se iunge en u , ilium suum […], eneno sus uli p o inusque ex ogo
eius ma i alem acem accendi ac no ae ma i ae o bi a em suam […] e oga i (“ omado pelo
louco amo de Au élia O es ila, endo is o como único impedimen o que se unissem po
núpcias en e si o ilho dela, subme eu-o ao eneno e da pi a une á ia dele simul aneamen e
acendeu a ocha nupcial e pagou à no a esposa com a sua al a de descendência”).
57 8.1.abs.8: Vale i Valen ini accusa o is eius eci a um in iudicio ca men, quo pue um
201
Rica do Nob e
58 São poucas as ci ações em discu so di ec o no co po do ex o (com e são
la ina e e en ualmen e o au o em odapé): a ci ação de uma ase do ac o
Dí ilo59 não iden i ica Valé io Máximo (6.2.9), mas, na sín ese dos a aques a
Pompeio, lêem-se os seguin es episódios, com iden i icação sis emá ica da on e
em odapé: “Um o ado 60 e be a a-o da ibuna e o po o aplaudia com enesi:
‘Aclamai, cidadãos, aclamai, enquan o sois li es!’ Um dia Pompeu apa eceu
com uma ligadu a b anca na pe na e Fa ónio disse logo: ‘Que impo a o luga
onde põe o diadema?’”61 Re e em-se, espec i amen e, Valé io Máximo 6.2.6 e
6.2.7, e as aduções são iéis.
A insis ência com que se eco e a Valé io Máximo como on e his ó ica
é uma singula idade admi á el, sob e udo em con as e com a con enção com
que, pa a o mesmo im, é mencionada a ob a de his o iado es como Ti o Lí io,
au o de uma ob a que na a a his ó ia de Roma, com algum po meno , desde
as o igens a é ao iun o de Emílio Paulo em Pidna (conside ando apenas os
li os comple os que es am62), na qual se incluem ela os de g andes acon eci-
men os his ó icos como a sedição da plebe, em 494 a. C., a segunda e a e cei a
gue as púnicas, en e ou os. Con udo, Ti o Lí io é me amen e pa a aseado63,
ci ado em la im sem iden i icação (nem de au o nem de passo64) e, ao disco e
sob e o ambien e em que ai deco e a co upção de Ve es, e ocado nes es
e mos: “Ti o Lí io disse que onde que que um publicano en a a, a jus iça e a
libe dade ugiam logo co idas. E a que a ás dos exé ci os ma cha a o pelo ão
p ae ex a um e ingenuam i ginem a se co up am poe ico ioco signi ica e a (“ oi eci ado
em ibunal um poema do acusado dele, Valé io Valen ino, no qual exp imi a com uma
g aça poé ica que um moço de p e ex a e uma menina de condição li e ha iam sido co -
ompidos po ele”). Sublinhe-se que a exp essão “lub icidade genuinamen e ealis a” pa ece
que e aduzi poe ico ioco.
58 Sal. Ca . 15.2: Pos emo cap us amo e Au eliae O es illae, cuius p ae e o mam nihil
umquam bonus lauda i , quod ea nube e illi dubi aba imens p i ignum adul a ae a e, p o
ce o c edi u neca o ilio acuam domum sceles is nup iis ecisse (“Po im, ca i o pelo amo de
Au élia O es ila, de quem jamais alguém hones o lou ou senão a beleza, po que ela hesi a a
em casa -se, emendo um en eado de idade adul a, c ê-se po ce o que, mo o o ilho, deixou
a casa azia pa a as c iminosas núpcias”).
59 “São as nossas desg aças que o o nam g ande” (Mise ia nos a magnus es ) (Ma ins
1885: II. 258).
60 O o ado mencionado e a o p óp io cônsul.
61 Ma ins 1885: II. 272.
62 Reco de-se que es ão igualmen e em al a os li os que con a am a his ó ia dos anos
293 a 219 a. C., incluindo, po an o, a gue a con a Pi o, a conquis a de Ta en o e a p i-
mei a gue a púnica.
63 A o mulação “O cônsul, in e ogando no silêncio da nou e (o iens noc e silen io) o
seg edo dos agou os indica o di ado (dici dic a o em); o di ado escolhe o mes e da ca a-
la ia (magis e equi um) dando-lhe pode es de cônsul, e goza de uma au o idade absolu a e
i esponsá el” (Ma ins 1885: I. 58) é uma pa á ase de Li . 8.23.15.
64 Ma ins 1885: I. 156; a exp essão delec a manus impe a o is encon a-se em Li . 2.20.5.

202
As “ on es inexau í eis dos esc i o es da an iguidade” na His ó ia da República Romana (1885),
de J. P. Oli ei a Ma ins
dos homens de negócio caindo como ampi os sob e as populações, explo an-
do-as como uma ciência ce a”65.
Igualmen e mo i o de admi ação é a e e ência a Táci o numa ob a que
nada diz ace ca da época sob e a qual es e his o iado esc e eu, is o é, a pa i
da mo e de Augus o66. O au o do início do século ii da nossa e a, além de
log a de Oli ei a Ma ins um elogio é ico ao compa á-lo a Ca ão, é me ecedo
de uma ci ação:
Os po os en eixados pelo cesa ismo sob o mando de um impé io p o ec o
espi a am a inal da i ania epublicana. Di-lo o p óp io Táci o, po cuja pena
ala a ainda o espí i o de Ca ão, quando nos a i ma que “enquan o às p o ín-
cias a no a o dem de cousas es a a longe de lhes desag ada : o go e no do
senado e do po o inha-lhes pesado assaz, com a i alidade dos g andes e a
cobiça dos magis ados; as leis da epública nunca as inha p o egido, impo-
en es como e am con a o dinhei o, con a as b igas, con a o despo ismo”.
Nunca mais nas p o íncias hou e sedições; as al e ações pos e io es são ape-
nas p onunciamen os mili a es. Nunca mais os po os buli am67.
Ci am-se os Annales68, em con ex o da acei ação ge al do egime impe ial
impos o po Augus o; na His ó ia da República Romana, no en an o, as a i -
mações que as pala as de Táci o sus en am dizem espei o à polí ica de Júlio
Césa .
Au o de biog a ias da maio pa e das pe sonalidades mencionadas na His-
ó ia da República Romana, se ia de espe a que Plu a co osse e e ido como
au o idade em di e sos momen os da ob a de Oli ei a Ma ins. Além de uma
e e ência sem menção da ob a69, exis em ci ações únicas da Vida de Camilo70,
65 Ma ins 1885: II. 180.
66 Lamen a elmen e, a “Biblio eca das Ciências Sociais” oi descon inuada an es de se
publica o olume da His ó ia do Impé io Romano, anunciado desde cedo na colecção, pois
o subsídio de Táci o pa a a composição de al ob a se ia hoje um excelen e ema de es udo.
67 Ma ins 1885: II. 372. Numa ou a si uação, ap esen a-se a damna io memo iae dos
G acos – “a memó ia dos ibunos p osc i a, e sua mãe, cho osa, p oibida de dei a lu o”
–, a que se ac escen a uma obse ação é ica que az lemb a Táci o: “eis aí a sen ença do
Senado que, não con en e com ence no p esen e, que ia go e na o u u o, pa a semp e,
condenando a memó ia dos he óis” (Ma ins 1885: II. 31); c . Tac. Ann. 4.35: quo magis
soco diam eo um in ide e libe qui p aesen i po en ia c edun ex ingui posse e iam sequen is
ae i memo iam (a p opósi o do caso de C emúcio Co do).
68 Ann. 1.2. Oli ei a Ma ins não eco e à adução de José An ónio Canu o de Fo jó
(1821) nem à de José Libe a o F ei e de Ca alho (1830).
69 Ma ins 1885: I. 72.
70 “Camilo ia que o ce co de Fale os (358) du a ia la go empo, mas ag ada a-lhe e os
omanos o a da cidade a im de lhes i a a ocasião dessas e ol as em que eles se empenha-
am du an e a paz, à oz dos seus demagogos. Pois e a esse o emédio que emp ega am quási
203
Rica do Nob e
da Vida de C asso71 e da Vida de B u o. Es a úl ima é a que ecebe o a amen o
e ó ico mais in e essan e: nas éspe as de Filipos, B u o começa a sen i emo -
sos po causa do assassínio de Césa e a e sonhos e isões: “O an asma que lhe
apa ece a logo em seguida ao assassina o de Césa o nou a isi á-lo. […] De
manhã, a e ado, con ou a isão a Cássio, que lhe espondeu se em ilusões dos
sen idos, ecomendando-lhe que não i esse medo”72 – es a espos a de Cássio é
um esumo de Plu a co, que Oli ei a Ma ins ci a em odapé73, depois de aze
uma obse ação em que sublinha que ais pala as são “dignas de qualque
psicólogo con empo âneo” e es emunhas “do es ado de lucidez a que o espí i o
humano inha chegado an es da Idade Média”74.
Po seu u no, Sue ónio é um esc i o mui as ezes mencionado e ex ual-
men e ci ado nos capí ulos de que Júlio Césa é, pode dize -se, p o agonis a. Da
ob a do bióg a o dos Césa es, ap o ei am-se sob e udo di os céleb es, po ezes
ci ados, sem espan o, em con ex os di e en es daqueles em que as on es an igas
os colocam. Um exemplo é o da eacção de Júlio Césa ao ac o de os seus sol-
dados anda em pe umados; em Oli ei a Ma ins al su ge an es da na a i a da
gue a con a Ve cingé o ix, como desc ição do ambien e dos acampamen os
de In e no do gene al, que “ azia odos [os soldados que ecebia na enda]
con en es: da a-lhes dinhei o quan o que iam, da a-lhes a madu as iquíssi-
mas, e quando algum e e ano cabeçudo lhe objec a a o mal de os apazes se
pe uma em an o, Césa e o quia ‘que impo a que se pe umem, se se ba em
bem?’”75 Em Sue ónio, a ci cuns ância é ou a, sem e e anos cabeçudos como
sujei o das objecções: Ac nonnumquam pos magnam pugnam a que ic o iam
emisso o icio um mune e licen iam omnem passim lasci iendi pe mi eba ,
iac a e soli us mili es suos e iam unguen a os bene pugna e posse76.
semp e os pa ícios, quais médicos hábeis, pa a pu ga em o co po polí ico dos humo es
iciosos que lhe pe u ba am a economia” (Ma ins 1885: I. 119) é ci ado de Plu. Cam. 9.2.
71 “E a o exé ci o do gene al Su ena, ap esen ando aos omanos a sua en e de ca alei os
cou açados de e o ‘como as íbo as e cí alas’, diz Plu a co, ‘céleb es pelo seu ex e io
e í el, mas cujo en e só em pod idão e enenos’” (Ma ins 1885: II. 309); a e e ência
diz espei o a Plu. C ass. 32.4.
72 Ma ins 1885: II. 433.
73 Ci o um pouco des a e são de Plu a co: “Nem semp e sen imos ou emos ealmen e
o que ac edi amos e e sen i , pois os nossos sen idos, abe os a odas as imp essões, são
enganado es e a nossa imaginação, mais móbil ainda, exci a-os sem cessa e imp ime-lhes
uma soma d’ideas que nunca exis i am… Dis o são es emunho as di e sas imagens que se
nos ap esen am em sonhos du an e o sono: a imaginação exci a-as com o mais le e mo i-
men o; depois az-lhes oma oda a so e de eições ou igu as an ás icas…” (Ma ins 1885:
II. 433-434).
74 Ma ins 1885: II. 433.
75 Ma ins 1885: II. 300.
76 Sue . Caes. 67: “Po ezes, após uma g ande ba alha e uma i ó ia, desob igando os
seus homens de odo o se iço, deixa a-os, in ei amen e li es, dispe sa -se a abandona -se
204
As “ on es inexau í eis dos esc i o es da an iguidade” na His ó ia da República Romana (1885),
de J. P. Oli ei a Ma ins
Também pa a desc e e di e sos acon ecimen os que es emunham a sá i a
anónima ei a a decisões polí icas (como a admissão de Gauleses no senado77) e
à condu a sexual ( an o a p o agoniza adul é ios78 mas ambém a e elações
homossexuais79) de Júlio Césa , Oli ei a Ma ins soco e-se amiudamen e de
Sue ónio, que é ci ado em adução (com o la im em odapé). De igual modo, a
mesma on e é con ocada pa a e e i en a i as anónimas de despe a B u o
pa a a lide ança da esis ência à ascensão de Césa 80.
Con udo, o episódio da insu eição das legiões que se ecusa am a pa i
pa a a campanha em Á ica (em 47 a.C.) encon a-se cheio de po meno es
(incluindo desc ição de mo imen os, ges os e diálogos). Embo a não sejam
e e enciadas on es his o iog á icas an igas, Oli ei a Ma ins p oduz uma na -
a i a81 (a que não al am conside ações sob e a psicologia de Júlio Césa mo i-
aos p aze es, pois cos uma a dize ‘que os seus soldados, mesmo pe umados, sabiam ba e -
-se’” ( adução de João Gaspa Simões).
77 “Co iam no a as can igas: “Césa ouxe os gauleses à Cú ia: despi am as b agas
pa a sob aça o la iclá io”“ (Ma ins 1885: II. 361-362) é baseado em “can a a-se po oda a
pa e: / Depois de e iun ado dos gauleses, Césa ab e-lhes a cú ia / Os gauleses la ga am
os cuei os, pa a es i em o la icla e” (Sue . Caes. 80, adução de João Gaspa Simões); “os
pasquins diziam: “A iso. Recomenda-se que ninguém ensine aos senado es no os o caminho
da Cú ia”“ (Ma ins 1885: II. 362) eme e pa a “Sal e a odos! Roga-se que ninguém indique
ao no o senado o caminho da cú ia” (Sue . Caes. 80, adução de João Gaspa Simões).
78 A in o mação de que “Ha ia pasquins pelas esquinas. ‘Cuidado com as esposas,
cidadãos: azemos connosco o cal o galan eado que pagou com o osso dinhei o as suas
opelias gaulesas” (Ma ins 1885: II. 375) em como on e “Ao que pa ece, nem mesmo
espei ou o álamo das mulhe es dos p o inciais, como o az c e , po exemplo, esse dís ico,
igualmen e en oado pelos seus soldados du an e o iun o das Gálias: / Cidadãos, cuidado
com as ossas mulhe es: aqui ai o cal o adúl e o. / O ou o que na Gália despendes es em
olias, a Roma o ies es busca ” (Sue . Caes. 51, adução de João Gaspa Simões).
79 A pa i de “du an e o iun o das Gálias, en e os e sos sa í icos que os seus sol-
dados, como de cos ume, can a am à ol a do ca o do encedo , en oa am, mesmo, es es,
mui o conhecidos: / Césa subme eu as Gálias, Nicomedes subme eu Césa , / Eis que hoje
Césa iun a, po e subme ido as Gálias, / Mas não iun a Nicomedes po e subme ido
Césa ” (Sue . Caes. 49, adução de João Gaspa Simões), Oli ei a Ma ins esc e e: “e os
soldados aleg es can a am em coplas g o escas e obscenas como Césa conquis a a as Gálias,
depois de Nicomédio o conquis a a ele, e como Césa iun a a e Nicomédio não” (Ma ins
1885: II. 375).
80 “Uma manhã no Fo o apa eceu a es á ua do B u o an igo com es a legenda: ‘Fosses u
i o!’ e a es á ua de Césa com es a ou a: “B u o, o que acabou com os eis, oi o p imei o
cônsul; es e que acabou com os cônsules é o úl imo ei” (Ma ins 1885: II. 408) em po
base “Hou e quem insc e esse po baixo da es á ua de Lúcio B u o: ‘Ah! Se u osses i o!’
e po baixo da do p óp io Césa : / B u o, po e expulso os eis, oi o p imei o a se cônsul;
/ Césa , po e expulso os cônsules, é o úl imo a se ei” (Sue . Caes. 80, adução de João
Gaspa Simões).
81 Imedia amen e an es, decla a-se que “Mandou [Césa ] Salús io (o his o iado ) de
Roma à Campânia com á ios senado es pa a con ence em as legiões; mas elas insul a am
o emissá io, ma a am alguns dos senado es, e ma cha am pa a Roma a eclama de Césa
205
Rica do Nob e
adas pela sua p óp ia in e p e ação82) apa en emen e mais con o me Apiano
do que Sue ónio: Júlio Césa “pe gun ou às legiões o que que iam. ‘As baixas!’
clama am a uma oz mui os mil soldados. Ele en ão disse-lhes com desp ezo
que as inham já e e iam udo, absolu amen e udo o que lhes p ome e a –mas
no dia do seu iun o… com ou as opas!”83.
O momen o climác ico do episódio acon ece quando os soldados são cha-
mados qui i es – que Oli ei a Ma ins aduz e in e p e a como “bu gueses,
com desdém”84 –, pois a segui os soldados pedem desculpa, epondo a dispo-
nibilidade pa a a campanha mili a no e i ó io onde es a a a mobiliza -se a
esis ência sena o ial ao pode de Césa . Sue ónio a i ma a que, ao di igi -se
às legiões, o gene al “não lhes chama a ‘soldados’, mas nome bem mais lison-
jei o: ‘companhei os de a mas’”85, em ní ido con as e com o que, ao desc e e
es e le an amen o, o mesmo bióg a o e e e ace ca do discu so de Júlio Césa :
“não hesi ou em ap esen a -se dian e deles, […] licenciando-os; mas bas ou-lhe
uma pala a – chamou-lhes ‘qui i es’ em ez de ‘soldados’ – pa a os e ga ”86.
Oli ei a Ma ins en ende o oca i o da mesma o ma, pois deduz que “o nome
de cidadão é uma o ensa”87.
Apiano, po seu lado, ac escen a que a es a égia e ó ica e a “sinal de que
inham sido libe ados do se iço e e am cidadãos p i ados”88. O mesmo his-
as baixas e as e as p ome idas” (Ma ins 1885: II. 349). Díon Cássio (42.52) e e e que os
soldados “quase ma a am Salús io, que o a nomeado p e o ”, e que acaba iam po ma a
dois senado es.
82 A p opósi o des e le an amen o mili a a i ma-se que “O gene al não pe deu o ânimo:
pa a cada c ise in en a a um expedien e no o; e a um g ande psicólogo e po igual sabia
o meio de o ce um homem, de ence um obs áculo e de domina uma mul idão impon-
do-se-lhe com a a e de ac o consumado de que de a p o as em Ra ena ao começa a
gue a” (Ma ins 1885: II. 348). Nou os momen os, é e iden e a incisão nos pensamen os
da pe sonagem: “Césa pensa i o, de pé, com o punho ce ado con a os lábios e a es a oda
em ugas, cisma a… Depois, num ges o de decisão, dando um passo iolen o, dizia consigo:
‘Assim o quise am, assim o i e am… E a impossí el deixa de ealiza os meus planos,
po que um isioná io [Ca ão] e um aidoso [Pompeio] se lhes opunham… Os meus planos
são g andiosos, são nob es, são excelen es…’” (Ma ins 1885: II. 359). Es a úl ima ci ação,
depois da ba alha de Fa salo, encon a pa alelo em Sue ónio: “Assim o quise am: após ão
g andes ei os eu, Caio Césa , e ia sido condenado, se não pedisse soco o ao meu exé ci o”“
(Caes. 30, adução de João Gaspa Simões); c . Plu a co, Vida de Césa , 46.
83 Ma ins 1885: II. 349. Es a a i mação em App. BC 2.93.
84 Ma ins 1885: II. 349.
85 Sue . Caes. 67 ( adução de João Gaspa Simões).
86 Sue . Caes. 70 ( adução de João Gaspa Simões); c . Luc. 5.357 e Tac. Ann. 1.42.
87 Ma ins 1885: II. 349. Díon Cássio (42.53) conside a que “qui i es” oi um e mo exa-
ó io e humilhan e ao se di igido aos mili a es.
88 BC 2.93; Díon Cássio (42.53) ci a a ase in eg ando o oca i o logo no início da es-
pos a de Júlio Césa aos soldados (“ alais co ec amen e, Qui i es”), a quem se di ige “como
se não i esse necessidade deles”.
212
As “ on es inexau í eis dos esc i o es da an iguidade” na His ó ia da República Romana (1885),
de J. P. Oli ei a Ma ins
Plínio-o-Velho pelo uso da exp essão “imensa majes ade da paz omana”129 e
de Políbio, que, desc e endo os g upos e á ios do exé ci o omano, é ci ado em
la im130. Pa a lá des es au o es, há a egis a os a os es emunhos poé icos que
são ambém usados como on e his o iog á ica, sendo iden i icados Ho ácio131,
P opé cio132, Vi gílio133 e Ca ulo134. Sob e o úl imo, conside e-se a simpa ia com
que Oli ei a Ma ins az uso da poesia pa a delinea um es ilo de ida galan e
no empo de Césa :
Ca ulo, o poe a que não adula a ninguém, nem es endia a mão pedindo
esmola […], a uinado pela ida dissipada que le ou com Clódia, a ex-aman e
de Célio “achando no bolso eias d’a anha em ez de dinhei o”; Ca ulo […]
deixa a-se i à oa na co en e da de assidão, a undando-se nela, mas indo-se
e conhecendo-a:
“Vi amos! amemos! minha Lésbia, indo-nos das ca u ices dos elhos se e-
os e g a es. Mo e o sol pa a enasce ; mas nós, quando se nos apaga a nossa
ida b e e, dei amo-nos a do mi um sono e e no de que se não despe a…
Dá-me u mil beijos, depois cem, depois mil, mais cem ainda, po cima ou os
mil, e no im um cen o… E quando nos i e mos ab açado um ao ou o mui-
as mil ezes, ba alhemos a con a pa a esquece mos o núme o e pa a que os
ciumen os não enham um p e ex o de nos in eja quando soube em os beijos
que ocámos…”135
As ci ações epo am-se aos poemas 13136 e 5 ( espec i amen e) e dão um
bom p isma da qualidade de adu o Oli ei a Ma ins.
O po o es ebucha a!” (Ma ins 1885: II. 167). Em no a de odapé su ge a ci ação la ina das
alas em discu so di ec o, p o enien es de Pompeio Fes o (285M.), cuja on e não se indica.
129 Na . His . 27.1: inmensa Romanae pacis maies a e.
130 Ma ins 1885: I. 155. Dando indicação de que se a a de Políbio não se iden i ica o
passo (6.21).
131 “Ho ácio diz: ‘Em Roma não se conheceu du an e séculos ou o p aze nem ou o
di e imen o que não osse o ab i a po a ao ompe do dia, explica a lei aos clien es,
e emp ega endosamen e os dinhei os em emp és imos com bons penho es. Inqui ia-se
dos elhos e ensina a-se aos moços a a e de eng ossa as economias e de ugi às loucu as
uinosas’” (Ma ins 1885: I. 24-25). A ci ação é de Epis . 2.1.103-107: Romae dulce diu ui
e sollemne eclusa / mane domo igila e, clien i p ome e iu a, / cau os nominibus ec is
expende e nummos, / maio es audi e, mino i dice e pe quae / c esce e es posse , minui
damnosa libido. A adução não é de An ónio Luís de Seab a (1846).
132 P op. 4.1.13 ci ado em odapé em Ma ins 1885: I. 60.
133 Ve g. A. 8.685-695 ci ado apenas em la im em Ma ins 1885: II. 447.
134 Há ainda uma e e ência a Pacú io, mas num con ex o di e so daquele que aqui se
analisa (Ma ins 1885: II. 418).
135 O poema é ci ado em la im no odapé; Ma ins 1885: II. 229-230.
136 Ca ul. 13.7-8: nam ui Ca ulli / plenus sacculus es a anea um.

213
Rica do Nob e
O cená io que acabou de se desc e e e ela que, embo a o au o enha
in o mado o lei o de que a His ó ia da República Romana oi esc i a com base
na his o iog a ia mais ecen e, esse con ibu o pe manece la en e, sendo ape-
nas e eladas on es da An iguidade. Es e es udo p oblema izou semelhan e
mé odo, ealçando que a ob a de his o iado es em uma u ilização bas an e
acessó ia na His ó ia da República Romana, ao mesmo empo que ou os au o-
es da An iguidade me ecem mais insis en emen e e e ência (como Valé io
Máximo, Sue ónio, Césa , Cíce o, passando po Séneca, Ca ulo, Vi gílio e P o-
pé cio), suge indo o ecu so a es as on es uma o ma de manipulação ou dis-
o ção dos con ex os o iginais. Es e desequilíb io nas e e ências das on es é,
nos dias de hoje, a maio agilidade da His ó ia da República Romana, que só
com uma signi ica i a descon acção do igo que uma ob a des a na u eza
impõe, se pode á conside a “uma peça da cul u a eu opeia”137, pelo menos
seguindo os ac uais pad ões cien í icos.
As c í icas que êm sido expos as ao longo des as páginas são comuns a
algumas conside ações que, no seu empo, ize am An e o de Quen al138, Lobo
de Mou a139 ou Eça de Quei ós. Na co espondência des e encon am-se, aliás,
algumas obse ações que desc e em com pe inência o abalho de Oli ei a
Ma ins enquan o his o iado 140 – e que cons i uem, p o a elmen e, o que com
melho in uição e acuidade se em di o sob e ele: numa ca a esc i a em Pa is a
23 de Julho de 1891, Eça de Quei ós ala d’Os Filhos de D. João I como “ econs-
ução do sen i passado, como a e, e como insu lação de ida a esse punhado
de pó seco de que se compõe as nossas c ónicas. Rec ias e homens […]! O eu
D. Ped o, o eu D. Dua e são c iações supe io es. E am assim? Se e am, ben-
di a seja a ua a e de essusci a ! Se não e am, hon a à alma nob e que pôde
in en a ais almas”141. A 26 de Ab il de 1894, ace ca d’A Vida de Nun’Ál a es, o
137 Ma ins 2003: 51.
138 An e o inha suge ido em 1880 co ecções a ob as como His ó ia da Ci ilização
Ibé ica (Quen al 2009: II. 226-227).
139 João Lobo de Mou a en ia a a Oli ei a Ma ins uma lis a de e os e p oblemas na
His ó ia de Po ugal (Mou a 2002: 50, 54, 58-66, 68-75), ob a ace ca da qual demons a
mui as ese as. Sob e a His ó ia da República Romana, a i ma: “O 1.º olume em coisas de
p imei a o dem, en e as quais ci a ei […] os p imei os capí ulos da o igem e o mação da
cidade – o iun o de Paulo Emílio – Ca ão o jus o (ca ác e mui o bem es udado assim como
o homem omano em ge al) e os úl imos capí ulos sob e inanças e cons i uição. É necessá io
po ém co igi g a es inco ecções, e os de ci ações, e os de cálculo na edução da moeda
omana aos nossos alo es mone á ios, e al a de es ilo que se o nam mais salien es numa
ob a clássica como es a: assim o iun o de Paulo Emílio que é uma peça supe io es á
deson ado pela ase ulga ou comum que a musa da his ó ia não admi e” (Mou a 2002: 96).
140 É, po isso, legí imo que se ala guem essas conside ações, ei as a ob as pos e io es, à
His ó ia da República Romana, já conside ada uma ob a de ma u idade (Ma ins 2003: 51).
141 Quei oz 2008: II. 131.
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As “ on es inexau í eis dos esc i o es da an iguidade” na His ó ia da República Romana (1885),
de J. P. Oli ei a Ma ins
omancis a, sem economiza elogios, insis e na ideia de que ais ob as essus-
ci am os mo os:
A sua beleza es á em não se quase um “li o”, uma coisa imp essa, mas uma
g ande ealidade i a, em que nada é de papel e udo de subs ância i a. É
mesmo mais que uma dessas essu eições his ó icas, nas quais se sen e sem-
p e a cada linha a maes ia do essusci ado . A a és da Salambô, nunca se
pe de de is a o génio e a ciência de Flaube . No Nun’Ál a es, a pe sonalidade
do his o iado -a is a desapa ece na p imei a imp essão, e ica-se, ou pelo
menos iquei, em comunicação di ec a, numa comunhão de con empo âneo,
com as coisas e os homens e ocados142.
Ou as ques ões que são e e idas po Eça de Quei ós dizem espei o à
pe spec i a demasiado im-de-século que ca ac e iza algumas pe sonagens:
“o Andei o me pa ece e aços demasiados do Ma iano de Ca alho […].
O ilus e che e da Casa dos Cas os, o pob e D. Ál a o, ambém me pa ece um
pouco poussé à ca ica u a”143. E adian a que “Dece o, já no século x ha ia
P udhommes: mas D. Ál a o é, an es do Conselhei ismo, quase um Conse-
lhei o”, pa a conclui : “E aí es á o que é um g ande his o iado cha u da na
Polí ica: insensi elmen e anspo a pa a os homens do passado a i onia ou o
desdém que lhe inspi a am os homens na éspe a – e desaba a nas cos as dos
mo os!”144. E no momen o mais amoso da ca a, que em sido ci ado amiúde,
an o pela g aça da exposição como pela impo ância do p oblema que le an a,
Eça ques iona:
Também não me ag adam mui o ce as minudências do de alhe plás ico, como
a no ação dos ges os, e c. Como os sabes u? Que documen o ens pa a dize
que a Rainha num ce o momen o cob iu de beijos o Andei o, ou que o Mes-
e passou pensa i amen e a mão pela ace?… Es a as lá? Vis e? Esses aços,
penso eu, não dão mais in ensidade de ida, e c iam uma aga descon iança145.
Menos ci ada é a ca a com que Oli ei a Ma ins esponde a Eça de Quei-
ós a p opósi o des e ópico: “Tens oda a azão e quando eimp imi o Nun’Ál-
a es elimina ei essas exc escências que êm do meu p ocesso psicológico. Eu
ejo, sin o e i o as cenas que esc e o. Po isso al ez o Nun’Ál a es, esgo an-
142 Quei oz 2008: II. 260-261.
143 Id.: II. 261.
144 Ibid.
145 Ibid. A ca a con inua com elogios à a e e à composição de pe sonagens, que azem
Oli ei a Ma ins quase iguala um dos mais impo an es omancis as da época (ibid.). É
e iden e que es a pe spec i a se cen a mais na c iação e iccionalidade do que na edacção
da his ó ia.
215
Rica do Nob e
do-me os ne os me deu es a doença, epílogo de mui os meses de so imen o
len o”146. Mais adian e, de ende uma ideia a que já aludi:
o homem não se es uda senão in i o. A na u eza é pouco é il em combina-
ções e com a di e ença dos empos os ipos epe em-se. Os homens de qualque
época êm na ac ualidade os seus e a os. Po isso, oma a obse ação dos
indi íduos i os como c i é io pa a a ap eciação dos mo os é p ocesso acon-
selhado e seguido pelos mes es: Mommsen, Renan147.
Depois de publicada a His ó ia da República Romana, Oli ei a Ma ins
suspendeu a Biblio eca das Ciências Sociais pa a se dedica à polí ica. Eça de
Quei ós es anha a ansição numa ca a148 e ol a ia a eco da essa ansição
no In Memo iam de An e o de Quen al (publicado em 1896):
Oli ei a Ma ins i ia en ão na sua linda e ecolhida casa das Águas-Fé eas
[…] – enquan o não eio ba e à po a a Polí ica […]. A biblio eca ica a em
baixo, ab igada no silêncio p opício de ielas dese as: aí i eu Oli ei a Ma -
ins os seus dias mais doces, e esc e eu os seus li os mais o es, numa eg a
e concen ação de Benedi ino, co adas às ezes po umul uosas inspi ações
de a is a, como quando ao e i e a His ó ia da República Romana, du an e
qua en a ho as, sem descanso, sus en ado a ca é, ele oi empu ando com
pena magní ica, a a és das uas de Roma, da po a Ca men al ao Capi ólio, o
iun o de Paulo Emílio.149
Des e modo, é possí el le a His ó ia da República Romana como uma
essu eição de Roma An iga, das mais emo as o igens a é à ba alha de Áccio,
e conside a i as as pe sonagens desc i as e ib an es os acon ecimen os na -
ados – pa a esse sucesso conco e am ce amen e as mui as lei u as, dis o cida
e c ia i amen e in e p e adas, dos au o es da An iguidade.
146 Ma ins 1926: 265.
147 Id.: 265-266.
148 En iada de B is ol a 5 de Maio de 1885: “quando i e es empo, dize-me pois po que
é que, indo uma a de pela ia Flamínia abaixo, de b aço dado com Césa , – abandonas e
b uscamen e o ilus e au o dos Comen á ios e la gas e a co e como um pe didinho pa a
o La go de Camões” (Quei oz 2008: I. 360).
149 Quei ós 2011: 315.
216
As “ on es inexau í eis dos esc i o es da an iguidade” na His ó ia da República Romana (1885),
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Es e conjun o de ensaios e de es udos p e ende o e ece ao lei o uma pe spec i a
sis ema izada da p esença e in luência da cul u a omana, sob e udo ao ní el das
p oblemá icas da iden idade, na con empo aneidade, en endendo-se aqui po
“con empo ânea” a ealidade his ó ica que se segue à Re olução F ancesa, no inal
do século XVIII. Des e modo, eúnem-se es udos que ab angem ealidades polí icas e
ins i ucionais, mas ambém his o iog á icas e a ís icas, da Li e a u a, às A es Plás icas e
ao Pa imónio. Os ex os eunidos cen am-se sob e udo na ealidade po uguesa, mas
incluem-se ambém e lexões mais ab angen es que êm como ho izon e a Eu opa e os EUA.
OBRA PUBLICADA
COM A COORDENAÇÃO
CIENTÍFICA