MUNDANIDADE E SECULARIZAÇÃO:
UM DIÁLOGO ENTRE KIERKEGAARD E AGOSTINHO
Ma cio Gimenes de Paula
(Uni e sidade Fede al de Se gipe)
Em memó ia do meu amigo Re . Richa d W. I win (1925-
-2008), que nunca ac edi ou em mudanças nas coisas
go e nadas pelo e e no
a) Em o no do concei o agos iniano de mundanidade e secula iza-
ção: algumas no as sob e a Cidade Te ena e a Cidade Celes ial e
seu diálogo com a iloso ia kie kegaa diana
A emá ica da mundanidade pode se abo dada de di e sas manei as
na ob a de Agos inho. Aliás, ela es á p esen e em p a icamen e oda a sua
ob a e, po essa azão, delimi amos aqui o nosso oco na análise do li o
XV da Cidade de Deus. Ali Agos inho, num li o que é não o ui amen e
denominado As duas cidades na e a, a alia al emá ica, após já e
começado, no li o décimo p imei o (A o igem das duas cidades) a a ali-
a a gênese das duas cidades, ou seja, a a-se de um ex o que almeja
in es iga os p imó dios da polí ica en e os homens segundo a pe spec i-
a agos iniana da his ó ia.
Logo no p imei o capí ulo do e e ido li o, Agos inho a i ma que
há duas o mas dos homens i e em: uma pio e ou a melho . Aqueles
que i em apenas go e nados po homens, nos limi es das suas cidades e
neles con iam, i em de modo pio e condená el. Já aqueles que i em
nas cidades, mas cul i am sua pá ia nos alo es celes iais ou na pe spec-
i a do e e no, i em de aco do com a melho manei a. A p imei a ma-
nei a conduz à condenação, a segunda conduz à sal ação.
A pa i daí, o ex o desen ol e uma ins igan e a gumen ação que
hoje oma íamos como os p imó dios ou o esboço de um ex o de iloso-
Philosophica, 35, Lisboa, 2010, pp. 33-44
34 Ma cio Gimenes de Paula
ia da his ó ia, mas que consis e, na e dade, numa in e p e ação his ó i-
co-dogmá ica do c is ianismo, como ão bem já salien ou Ka l Löwi h: “A
Cidade de Deus de San o Agos inho (412-26) é o esquema de oda a
pe spec i a concebí el da his ó ia que pode se conc e amen e apelidada
de ‘c is ã’. Não é uma iloso ia da his ó ia mas uma in e p e ação his ó i-
co-dogmá ica do c is ianismo” (LÖWITH, 1990: 167). Pa a Agos inho, a
cha e de udo eside, ao menos pa a sua in e p e ação alegó ica e pa a
e ei os didá icos, na explicação da his ó ia bíblica de Caim e Abel. Caim
é o p imei o a nasce , Abel, seu i mão, o segundo. Abel se ia o espelho
da cidade de Deus enquan o Caim ep esen a ia o ípico modelo da cidade
dos homens.
Pa a além das su ilezas eológicas e genealógicas aqui expos as – e
que são inúme as – in e essa-nos a alia , pa a a ci cunsc ição do nosso
ema, a sabe , o concei o de mundanidade em Agos inho, que o bispo de
Hipona oma, seguindo a na a i a bíblica, Caim como o p imei o unda-
do de uma cidade, enquan o seu i mão é o ep esen an e do pe eg ino, al
como se pode a es a no ex o: “Diz a Esc i u a que Caim cons uiu uma
cidade e Abel, como pe eg ino, nenhuma e gueu. Po que a Cidade dos
san os es á no céu, embo a cá na e a ge e cidadãos, em quem pe eg ina
a é chega o empo do seu einado” (AGOSTINHO, 2003: 174). Com
e ei o, Abel é aquele que não possui luga nes e mundo e, po esse mo i-
o, jamais pode ia unda qualque cidade. Tal coisa é signi ica i a e
undamen al. Pa a Agos inho, Abel ep esen a a igu a do p o o-c is ão,
pois o c is ianismo ambém segue, na es ei a dos p o e as e do p óp io
C is o, a sina de não possui luga nesse mundo e de não se comp eendido.
O a o da gênese da cidade humana es a ligada a um assassina o
ambém não pa ece desp ezí el. Pa a Agos inho, a idéia de paz, de gue a
e as elações de pode e enos são mais do que p opícios pa a al coisa.
Aliás, a concei uação do p óp io pode e eno só pode oco e se i e -
mos al coisa em men e. O pensado não se con en a aqui em apenas da o
exemplo da his ó ia bíblica, mas apon a ambém pa a a céleb e his ó ia de
Rômulo e Remo, que, po ocasião da undação de Roma, ambém espelha
a dispu a, a mo e e a iolência como elemen os cons i u i os do pode
humano.
Agos inho sabe que mesmo i endo no empo p esen e, is o é, na
mundanidade, os c is ãos não es ão imunes aos males. Os cidadãos da pá-
ia celes ial pa icipam dos so imen os de odos os homens, mas possuem
espe anças em um mundo o a dos alo es da mundanidade. Seus unda-
men os es ão calcados sob e uma ou a lógica, es ão baseados em algo
in ei amen e ou o. Nesse sen ido, o c is ianismo é uma u opia, um não
luga no mundo. Cu iosamen e, Agos inho apon a que Caim é um exemplo
daquele que se u iliza de Deus pa a seu in e esse pessoal. A inal, nunca é
demais lemb a , que al como na a a his ó ia bíblica, ele azia sac i ícios a
Mundanidade e secula ização 35
Deus. Desse modo, o mo i o do assassina o do seu i mão es á ligado ao
a o de Caim o in eja de ido a acei ação dos seus sac i ícios.
Cabe no a aqui que Caim ep esen a uma espécie de opção pelo
mal, is o é, ele escolhe aze o mal. Um homem mau, com más in enções,
com o assassina o do seu i mão pesando-lhe nos omb os se á o cons u o
da cidade humana. Em ou as pala as, a polí ica é, em sua p óp ia gêne-
se, is a com mui a descon iança po Agos inho.
Há aqui um cu ioso pon o de conexão en e Agos inho e Kie kega-
a d. No capí ulo XVI do li o XV aqui examinado, o pensado de Tagas e
a alia que oda cidade e ena necessi a de núme o, pois eles são unda-
men ais na composição de um Es ado. Nesse sen ido, odo Es ado o ma-
do po homens necessi a de ge ação. Já pa a Kie kegaa d, c í ico da cul-
u a e da c is andade da Dinama ca no século XIX, o núme o ambém
ep esen a o selo da agédia do c is ianismo o icial:
“O ‘Es ado’ é di e amen e p opo cional às ci as (o numé ico); po is-
so quando um Es ado se eduz, as ci as podem p og essi amen e o -
na -se ão pequenas que o Es ado deixe de exis i , que o concei o mo -
a.
O c is ianismo se elaciona de um ou o modo com as ci as: um só
c is ão e dadei o é su icien e pa a que seja e dade que o c is ianis-
mo exis e. Sim, o c is ianismo é in e samen e p opo cional às ci as, e
quando odos se i e em ei o c is ãos, o concei o ‘c is ão’ es a á mo -
o, pois o concei o c is ão é um concei o polêmico. Somen e se pode
se c is ão po oposição ou na con a-co en e. Assim sucede ambém
no No o Tes amen o, com elação ao a o de que Deus que se amado,
e p ecisamen e po isso exige o an agonismo pa a po encializa o
amo , de modo que o c is ão que ame a Deus, no an agonismo com
ou as pessoas, chegue a so e delas o ódio e a pe seguição. Tão
ápido como a oposição se elimina, se c is ão con e e-se em dispa -
a e, al como sucede na ‘c is andade’, que so a ei amen e em su-
p imido o c is ianismo em i ude disso: odos somos c is ãos.
Pois bem, o concei o de ‘c is ão’ é in e samen e p opo cional às ci-
as, ainda que o de ‘Es ado’ seja di e amen e p opo cional às ci as.
E, não obs an e, os em implicado mu uamen e – em bene ício do dis-
pa a e e dos pas o es; pois jun a desse modo Es ado e c is ianismo
em an o sen ido como ala de um me o de man eiga, ou com menos
sen ido ainda, pois man eiga e me o não gua dam nenhuma elação
en e si, con udo Es ado e c is ianismo se elacionam de modo in e so
ou, ainda melho , se excluem mu uamen e” (KIERKEGAARD, 2005: 53).
Pa a Agos inho, é po isso que a cidade celes e ala de egene ação
(e não de ge ação). Tal coisa ambém pode se no ada em Kie kegaa d
como a o da consciência e da on ade, al como já ha ia enunciado o
36 Ma cio Gimenes de Paula
pseudonímico Clímacus em seu p oje o de icção, que pa ece disse a
sob e coisas mui o p óximas do c is ianismo, mas ao modo g ego: “Cha-
memos de enascimen o es a passagem pela qual o discípulo em ao
mundo uma segunda ez, udo como pelo nascimen o, como um homem
isolado, que ainda não sabe nada do mundo em que nasce, se é habi ado,
se exis em ou os homens, pois pode-se ce amen e se ba izado en mas-
se, mas jamais enasce en masse.” (KIERKEGAARD, 1995: 39)
An es de Abel e Caim ha ia, segundo a na a i a bíblica, seu pai
Adão. Pa a Agos inho, o p imei o homem possui uma dupla ace: a p i-
mei a é di ina, a segunda é humana. Ele é di ino po e sido ge ado pelo
p óp io Deus e é humano po escolhe os alo es mundanos. Com a mo e
de Adão, sob am duas de suas po ções: Abel, que pa ece pende mais ao
lado di ino e Caim, o seu lado mais e eno e pecado . Com o assassina o
de Abel, sob a apenas a ace mais e ena e pecaminosa. Desse modo,
es a a Agos inho a i ma a o al desc ença no homem e a i ma , cada ez
com maio ên ase, sua egene ação em Deus. Nessa mesma es ei a é que
podemos en ende sua in e p e ação da queda do homem e do quan o o
mesmo necessi ou de uma in e enção di ina pa a pode no amen e co-
nec a -se com Deus. No e-se aqui, uma ez mais, a semelhança en e
Kie kegaa d e Agos inho:
“Se, ago a, o ap endiz de e adqui i a e dade, en ão o mes e em de
azê-la a ele, e não só is o, mas é p eciso que lhe dê jun amen e a
condição pa a comp eendê-la; pois se o p óp io ap endiz osse, po si
mesmo, a condição, en ão p ecisa ia apenas eco da -se; pois sucede
com a condição pa a se comp eende a e dade o mesmo que com o
pode pe gun a sob e ela: a condição e a pe gun a con êm o condicio-
nado e a espos a. (Caso as coisas não ossem assim, o ins an e só pode-
ia se comp eendido soc a icamen e)” (KIERKEGAARD, 1995: 33-34).
A imagem u ilizada po Agos inho como o dilú io, po exemplo,
em um con a o undamen al como a água egene ado a e pu i icado a
das impu ezas, já a a ca possui ainda uma o e conexão com a ig eja
como a no a aliança de Deus com os homens. Po isso, julgamos que é
den o dessa mesma pe spec i a que podemos comp eende a ob a de
Kie kegaa d como uma espécie de no a in e p e ação da concepção agos-
iniana mais ao modo do século XIX. Nesse sen ido, a despei o de es a
si uado num século de p o undas mudanças, o au o dinama quês é capaz
de en a iza a imu abilidade de Deus. Em ou as pala as, ele, al como
ambém podemos no a em au o es do mesmo pe íodo como Nie zsche e
Schopenhaue , mos a-se, po azões di e en es desses, e uma p o unda
descon iança na emancipação da humanidade e em p oje os que pa eciam
ão e iden es como ecomendá eis no século XVIII. Nesse sen ido, con-
Mundanidade e secula ização 37
ém ago a a alia como se desen ol e o concei o de mundanidade kie -
kegaa diano no discu so A imu abilidade de Deus.
b) A mundanidade e a secula ização no discu so A imu abilidade de
Deus de Kie kegaa d
O discu so sob e A imu abilidade de Deus, esc i o em 1851, é e o-
mado po Kie kegaa d em 05 de Maio de 1854, dia em que o au o com-
ple a a qua en a e um anos de idade. O li o se á, en e an o, e e i amen-
e publicado em 1855, em meio a polêmica kie kegaa diana com a
c is andade. Assim como os demais discu sos edi ican es, ele p incipia
po uma p ece, uma o ação ao Deus imu á el. Nessa pequena o ação
in odu ó ia, já é possí el islumb a a dialé ica que o pensado dinama -
quês ealiza en e o Deus que a ua po amo e sua imu abilidade. Seu
in ui o é abo da o sen ido e o signi icado da imu abilidade na essência
di ina.
O ex o bíblico u ilizado como pon o de pa ida pa a al discu so é
Tiago 01: 17-24. A igo , o mesmo ex o que já ha ia se ido de inspi a-
ção pa a ês discu sos edi ican es, esc i os po Kie kegaa d em 1843.
Segundo o au o do discu so, os homens êm acilidade em ala sob e
mudanças e, dian e da melancolia de um mundo semp e em mudanças, é
p eciso aleg ia e con en amen o pa a c e na imu abilidade di ina. Deus é
pe ei o, ou seja, aquele que se pe ez e é o almen e comple o; logo, ele
não pode em nada muda . O homem de e segui os conselhos do ex o
bíblico e obse a com a enção o Deus pe ei o, pai de odas as luzes, em
quem não exis e nenhuma a iação.
Semp e que os homens ou em com a enção e são a dios pa a ala e
se i a , eles o nam-se ap os a ecebe os dons pe ei os da pa e de Deus,
al como suge e a na a i a do ex o de Tiago. Deus semp e o nece ao
homem, no en ende de Kie kegaa d, um ale a e uma possibilidade de
mudança. Toda ia, al como Sóc a es que, segundo ela os do diálogo
pla ônico Tee e o, oi a acado com mo didas po um de seus in e locu o-
es, C is o se á, em inúme as ocasiões, igualmen e incomp eendido:
“Um pagão, e apenas um se humano, o sábio simples da an igüidade,
eclama a que semp e quando se p opunha a a anca de um homem
um ou ou o engano, ajudando-o a e melho , assim p es ando-lhe um
bene ício, equën emen e no a a que o ou o ica a zangado e que a é
mesmo deseja a mo dê-lo, como o sábio simples disse an as ezes
i onicamen e. Ah, e o que Deus em supo ado nesses seis mil anos; o
que não em ido que supo a de manhã à noi e de cada um dos mui-
os milhões de homens – pois algumas ezes nos i amos quando ele
abalha pa a o nosso bem-es a .” (KIERKEGAARD, 2000: 96).
38 Ma cio Gimenes de Paula
O homem necessi a se admoes ado po Deus, is o que, pe an e o
se di ino, ele é como uma c iança, incapaz de econhece os dons que
êm do al o em seu a o . Em ou as pala as, ele em semp e a endência
pa a pedi mudanças em odas as coisas, e seque econhece aquilo que
Deus az em seu a o . Tal desejo de mu abilidade é uma a i ude ípica do
paganismo: “Pon os de is as di e en es! A endência me amen e humana
(como o paganismo ealmen e e idencia) é ala menos sob e Deus e
quase exclusi amen e e com is eza sob e a mu abilidade das coisas hu-
manas” (KIERKEGAARD, 2000: 97).
Toda ia, a ad e ência que o discípulo Tiago az aos homens é exa-
amen e sob e a imu abilidade de Deus. Um discípulo (e ambém um
após olo) é um homem o almen e en egue ao se iço di ino, obedecen-
do-o in eg almen e, coisa que não pode se plenamen e en endida po
quem não pa icipa de al i ência. O ema da imu abilidade de Deus é
pe inen e exa amen e po Ele se plenamen e aquilo que é, al como
enunciam os seus a ibu os:
“Deus é imu á el. Na sua onipo ência ele c iou es e mundo isí el – e
se ez in isí el. Ele es iu-se no in isí el mundo como que com uma
oupa – ele mesmo imu á el. Assim é no mundo das coisas sensí eis.
No mundo dos e en os, ele es á p esen e em oda a pa e e em odo o
momen o; em um sen ido mais e dadei o do que podemos dize da
mais a en a jus iça humana que es á em odos os luga es.” (KIERKE-
GAARD, 2000: 98).
A imu abilidade di ina e sua p esença em odos os e en os se cons i-
uem num di e encial. Ele pode muda odas as coisas do mundo ex e io
em luxo, mas ainda assim sua imu abilidade pe sis e. Sua p esença se dá
mesmo nos e en os em que os homens o julgam plenamen e dispensá el.
Numa e a de mo imen os e olucioná ios e de elucidação de odas as
dú idas a a és da azão, a igu a de Deus pa ece desnecessá ia. Toda ia,
pa a Kie kegaa d, o mundo da polí ica e da cul u a azem pa e da es e a
sensí el, ou seja, das coisas pe inen es ao homem. Tal coisa não signi i-
ca que exis a na ob a kie kegaa diana um epúdio à polí ica ou ao pensa ,
apenas um econhecimen o das di e en es es e as. Em ou as pala as, a
es e a sensí el é ligada apenas com as coisas do mundo e eno, enquan o
Deus age em odos os e en os.
Kie kegaa d ad e e, con udo, que não se de e ans o ma a imu a-
bilidade de Deus em um consolo ba a o, is o é, num seda i o dian e de
um mundo em p o undas mudanças. Desse modo, o homem de e espon-
de a ês pe gun as dian e de Deus: a) qual é a on ade de Deus imu á el
pa a mim?; b) os meus pensamen os são adequados aos pensamen os de
Deus?; c) o meu caminho é adequado ao caminho de Deus? Não espon-
Mundanidade e secula ização 39
de a ais ques ões, ou não con e i a elas nenhuma impo ância é, no
en ende kie kegaa diano, o que de mais e í el pode oco e a um ho-
mem:
“E quan a e dade há nisso, se a ua on ade, se a minha, se a on ade
desses mui os milha es acon ece de não es a ão in ei amen e em
ha monia com a on ade de Deus; mas as coisas omam o seu cu so
ão bem como se es i essem no umul o do chamado mundo a ual,
como se Deus não p es asse qualque a enção. É como se um homem
jus o (se exis isse al homem!), con emplando es e mundo (o mundo
que, como dizem as Esc i u as, é dominado pelo mal), de esse sen i -se
com o co ação pa ido po que Deus pa ece não que e aze sen ido.”
(KIERKEGAARD, 2000: 101).
Dian e daquilo que Deus deseja muda , Ele semp e age de duas ma-
nei as: iolen amen e, ou assis indo aquilo que azem os homens. A se-
gunda manei a é, no en ende de Kie kegaa d, a mais e í el. Deus, a
quem os homens en am mui as ezes ludib ia , apa ece anqüilo, como
quem calmamen e espe a:
“Po que, en ão, pensas u que ele es á ão quie o? Po que ele sabe com
ele mesmo que ele é e e namen e imu á el. E se Deus não es i esse
e e namen e ce o dele mesmo, não pode ia se man e ão calmo, mas
pode ia se le an a na sua o ça. Apenas aquele que é e e namen e
imu á el pode pe manece dessa manei a ão anqüilo” (KIERKEGA-
ARD, 2000: 102).
A calma de Deus pode se um empo p ecioso pa a o homem, pode se
uma opo unidade de mudança. En e an o, a mudança exige um no o
comp omisso de ida, uma mudança nos seus caminhos e uma con e são
do p óp io olha . Em ou as pala as, o homem p ecisa enxe ga , a a és da
sua elação com o Deus imu á el, a no a signi icação de odas as coisas:
“E po an o, quem que que sejas, oma empo pa a conside a o que
eu digo pa a mim mesmo, que pa a Deus nada há de signi ica i o e
nada há de insigni ican e, que em ce o sen ido o signi ica i o é pa a
ele insigni ican e; e, em ou o sen ido, mesmo o que há de mais insig-
ni ican e é pa a ele in ini amen e signi ica i o.” (KIERKEGAARD,
2000: 104).
Se a on ade de Deus é, al como Ele p óp io, imu á el, o homem
de e adequa sua on ade a Ele. Não se pode que e iludi a Deus, azen-
do-o acei a a on ade humana. A mu abilidade das coisas oco e, de
manei a única e exclusi a, nas elações humanas. Po isso, segundo Kie -
kegaa d, cabe ao homem e i a os seus desejos das somb as e colocá-los
40 Ma cio Gimenes de Paula
dian e das luzes de Deus. É ce o, en e an o, que dian e da imu abilidade
de Deus a p imei a eação humana é o assomb o:
“Há conseqüen emen e um epen ino emo e emo nes e pensamen o
da imu abilidade de Deus, quase como se es i esse dis an e, acima da
expec a i a do pode de qualque se humano de sus en a um elacio-
namen o com amanho e imu á el pode ; sim, como se es e pensamen-
o osse di igi a al descon o o e ansiedade da men e a azê-lo ao li-
mi e do desespe o.” (KIERKEGAARD, 2000: 108).
Con udo, em Deus o homem encon a descanso e aleg ia. Po isso,
ainda que num p imei o momen o a imu abilidade de Deus apa en e se
um assomb o, ela é um e igé io pa a o homem. A humanidade, ao mu-
da , julga que Deus es á mudando, e po isso se equi oca. O emédio pa a
al equí oco é jamais se esquece da imu abilidade de Deus:
“Meu ou in e, es a ho a ago a em apidamen e passado, bem como o
discu so. A mesmo que u mesmo não o quei as, es a ho a e esse dis-
cu so logo se ão esquecidos. E a menos que u mesmo não o quei as, o
pensamen o da imu abilidade de Deus ambém se á logo esquecido em
meio às mudanças da ida. Mas po isso ele ce amen e não se á es-
ponsá el, ele que é imu á el! Mas se não e azes culpado ou esqueci-
do com espei o a isso, encon a ás nesse pensamen o o su icien e pa a
a ua ida in ei a, ah, pa a a e e nidade.” (KIEKEGAARD, 2000: 110).
Dessa manei a, cabe, po an o, a cada indi íduo, a busca pelo Deus
imu á el e pela e e na lemb ança – e epe ição – de sua imu abilidade.
Kie kegaa d az um apelo ao seu lei o indi idual pa a que semp e p ocu-
e em Deus o seu apoio:
“Assim es ás imu a elmen e semp e e em oda pa e disponí el a se
encon ado. E seja quando qualque se humano enha a i, em qual-
que e a, em qualque ho a do dia, em qualque luga : se em em sin-
ce idade semp e encon a á eu amo igualmen e e no, como o esco
imu á el da on e, ó u que és imu á el! Amén.” (KIERKEGAARD,
2000: 111-112).
A c is andade p ecisa ecupe a a since idade do co ação daqueles
que sabem ecebe os dons que são o necidos po Deus e econhecem a
sua imu abilidade, mesmo i endo em mundo de p o undas mudanças.
No en ende kie kegaa diano, o c is ianismo é semp e um exe cício, uma
p á ica da since idade e da hones idade.
Mundanidade e secula ização 41
c) Conclusão: Kie kegaa d e o p oblema da mundanidade e secula i-
zação
A o igem do e mo secula ização, em ge al, es á p imei amen e li-
gada ao sen ido eclesiás ico e explici a, em si mesmo, a di e ença exis en-
e en e o p esen e século, is o é, o empo passagei o dos homens e a
e e nidade, que se elaciona com o di ino. Tal dis inção já su ge, a igo ,
como pudemos e , na iloso ia de San o Agos inho, com sua céleb e
dis inção en e a Cidade de Deus e a Cidade dos homens. Pa a o bispo de
Hipona, os homens são passagei os aqui na e a e só comple a ão plena-
men e a sua cidadania nos céus, is o que pe encem a ele. No e-se a o e
in luência pla ônica: no mundo dos homens exis e a apa ência e o e ême-
o, no mundo di ino, a essência e o e e no. Em Agos inho o eco e é
mais o e ainda: ele é neo-pla ônico, po isso acen ua ão o emen e a
sepa ação e c ia p oblemas pa a uma abo dagem polí ica, a o que al ez
não oco a da mesma manei a na polí ica de Pla ão p op iamen e di a. Po
isso, semp e que se disse a ace ca da secula ização, abo da-se uma ela-
ção en e céus e e a. A conseqüência de al a i ude se ia um desp ezo
dos homens pela polí ica e pela sua sociedade. A inal, se sua cidadania
es á ese ada pa a os céus, de que ale p oduzi algo pa a se i ido
nesse mundo passagei o?
Kie kegaa d, au o ão o emen e si uado den o da adição c is ã,
lei o e ap eciado de Agos inho pa ece segui os mesmos p oblemas na
elação com o p esen e século. De e-se essal a , en e an o, o quan o o
mesmo, c í ico da polí ica e da cul u a do seu empo, não oi um au o
isolado ou me amen e an i-polí ico, mas an es az uma p opos a polí ica
baseada numa é ica dos E angelhos, al como se pode no a nas suas
Ob as do Amo de 1847.
É ins igan e ainda no a que, ao con á io do que al ez se possa ima-
gina , ou do que uma dada adição nos legou, a secula ização, mesmo
quando is a como desc is ianização ou dessac alização não implica, ne-
cessa iamen e, em desc ença ou a eísmo. A inal, se segui mos, po exem-
plo, as suspei as de Max Webe , eó ico do chamado desencan amen o do
mundo e da secula ização, e emos cla amen e as di e enças en e p o e a,
sace do e, ca isma, ca isma domes icado, eligião acional e e c. O que
udo isso ep esen a? Sem en a na análise minuciosa de cada um desses
emas, podemos a i ma que a p óp ia eligião c is ã az, no seu bojo, os
elemen os da secula ização. Aqui al ez enha sido o pon o que Kie kega-
a d, seguindo as pis as de Agos inho, não quis enxe ga ou com o qual não
conco da a. Po exemplo, se nas an igas eligiões pagãs exis ia o sac i ício
de p imogêni os es es, de o ma g ada i a, ão sendo subs i uídos pelo
sac i ício de pequenos animais. Com o passa dos anos e com o es abele-