scieee Open visual document viewer

Mundanidade e secularização: um diálogo entre Kierkegaard e Agostinho

Paula, Márcio Gimenes de

Abstract

O objetivo do nosso artigo é empreender, uma análise do conceito de mundanidade (verdslighed) em Kierkegaard e seu diálogo com a tradição agostiniana. Tal conceito pode ser tomado em Kierkegaard tanto como mundanidade como por secularização, por isso o usaremos com esse duplo sentido. Para tanto, serão analisados com especial atenção o livro XV da Cidade de Deus (As duas cidades na Terra) de Agostinho e o discurso A imutabilidade de Deus de Kierkegaard (1855).

Full text

MUNDANIDADE E SECULARIZAÇÃO: UM DIÁLOGO ENTRE KIERKEGAARD E AGOSTINHO Ma cio Gimenes de Paula (Uni e sidade Fede al de Se gipe) Em memó ia do meu amigo Re . Richa d W. I win (1925- -2008), que nunca ac edi ou em mudanças nas coisas go e nadas pelo e e no a) Em o no do concei o agos iniano de mundanidade e secula iza- ção: algumas no as sob e a Cidade Te ena e a Cidade Celes ial e seu diálogo com a iloso ia kie kegaa diana A emá ica da mundanidade pode se abo dada de di e sas manei as na ob a de Agos inho. Aliás, ela es á p esen e em p a icamen e oda a sua ob a e, po essa azão, delimi amos aqui o nosso oco na análise do li o XV da Cidade de Deus. Ali Agos inho, num li o que é não o ui amen e denominado As duas cidades na e a, a alia al emá ica, após já e começado, no li o décimo p imei o (A o igem das duas cidades) a a ali- a a gênese das duas cidades, ou seja, a a-se de um ex o que almeja in es iga os p imó dios da polí ica en e os homens segundo a pe spec i- a agos iniana da his ó ia. Logo no p imei o capí ulo do e e ido li o, Agos inho a i ma que há duas o mas dos homens i e em: uma pio e ou a melho . Aqueles que i em apenas go e nados po homens, nos limi es das suas cidades e neles con iam, i em de modo pio e condená el. Já aqueles que i em nas cidades, mas cul i am sua pá ia nos alo es celes iais ou na pe spec- i a do e e no, i em de aco do com a melho manei a. A p imei a ma- nei a conduz à condenação, a segunda conduz à sal ação. A pa i daí, o ex o desen ol e uma ins igan e a gumen ação que hoje oma íamos como os p imó dios ou o esboço de um ex o de iloso- Philosophica, 35, Lisboa, 2010, pp. 33-44 34 Ma cio Gimenes de Paula ia da his ó ia, mas que consis e, na e dade, numa in e p e ação his ó i- co-dogmá ica do c is ianismo, como ão bem já salien ou Ka l Löwi h: “A Cidade de Deus de San o Agos inho (412-26) é o esquema de oda a pe spec i a concebí el da his ó ia que pode se conc e amen e apelidada de ‘c is ã’. Não é uma iloso ia da his ó ia mas uma in e p e ação his ó i- co-dogmá ica do c is ianismo” (LÖWITH, 1990: 167). Pa a Agos inho, a cha e de udo eside, ao menos pa a sua in e p e ação alegó ica e pa a e ei os didá icos, na explicação da his ó ia bíblica de Caim e Abel. Caim é o p imei o a nasce , Abel, seu i mão, o segundo. Abel se ia o espelho da cidade de Deus enquan o Caim ep esen a ia o ípico modelo da cidade dos homens. Pa a além das su ilezas eológicas e genealógicas aqui expos as – e que são inúme as – in e essa-nos a alia , pa a a ci cunsc ição do nosso ema, a sabe , o concei o de mundanidade em Agos inho, que o bispo de Hipona oma, seguindo a na a i a bíblica, Caim como o p imei o unda- do de uma cidade, enquan o seu i mão é o ep esen an e do pe eg ino, al como se pode a es a no ex o: “Diz a Esc i u a que Caim cons uiu uma cidade e Abel, como pe eg ino, nenhuma e gueu. Po que a Cidade dos san os es á no céu, embo a cá na e a ge e cidadãos, em quem pe eg ina a é chega o empo do seu einado” (AGOSTINHO, 2003: 174). Com e ei o, Abel é aquele que não possui luga nes e mundo e, po esse mo i- o, jamais pode ia unda qualque cidade. Tal coisa é signi ica i a e undamen al. Pa a Agos inho, Abel ep esen a a igu a do p o o-c is ão, pois o c is ianismo ambém segue, na es ei a dos p o e as e do p óp io C is o, a sina de não possui luga nesse mundo e de não se comp eendido. O a o da gênese da cidade humana es a ligada a um assassina o ambém não pa ece desp ezí el. Pa a Agos inho, a idéia de paz, de gue a e as elações de pode e enos são mais do que p opícios pa a al coisa. Aliás, a concei uação do p óp io pode e eno só pode oco e se i e - mos al coisa em men e. O pensado não se con en a aqui em apenas da o exemplo da his ó ia bíblica, mas apon a ambém pa a a céleb e his ó ia de Rômulo e Remo, que, po ocasião da undação de Roma, ambém espelha a dispu a, a mo e e a iolência como elemen os cons i u i os do pode humano. Agos inho sabe que mesmo i endo no empo p esen e, is o é, na mundanidade, os c is ãos não es ão imunes aos males. Os cidadãos da pá- ia celes ial pa icipam dos so imen os de odos os homens, mas possuem espe anças em um mundo o a dos alo es da mundanidade. Seus unda- men os es ão calcados sob e uma ou a lógica, es ão baseados em algo in ei amen e ou o. Nesse sen ido, o c is ianismo é uma u opia, um não luga no mundo. Cu iosamen e, Agos inho apon a que Caim é um exemplo daquele que se u iliza de Deus pa a seu in e esse pessoal. A inal, nunca é demais lemb a , que al como na a a his ó ia bíblica, ele azia sac i ícios a Mundanidade e secula ização 35 Deus. Desse modo, o mo i o do assassina o do seu i mão es á ligado ao a o de Caim o in eja de ido a acei ação dos seus sac i ícios. Cabe no a aqui que Caim ep esen a uma espécie de opção pelo mal, is o é, ele escolhe aze o mal. Um homem mau, com más in enções, com o assassina o do seu i mão pesando-lhe nos omb os se á o cons u o da cidade humana. Em ou as pala as, a polí ica é, em sua p óp ia gêne- se, is a com mui a descon iança po Agos inho. Há aqui um cu ioso pon o de conexão en e Agos inho e Kie kega- a d. No capí ulo XVI do li o XV aqui examinado, o pensado de Tagas e a alia que oda cidade e ena necessi a de núme o, pois eles são unda- men ais na composição de um Es ado. Nesse sen ido, odo Es ado o ma- do po homens necessi a de ge ação. Já pa a Kie kegaa d, c í ico da cul- u a e da c is andade da Dinama ca no século XIX, o núme o ambém ep esen a o selo da agédia do c is ianismo o icial: “O ‘Es ado’ é di e amen e p opo cional às ci as (o numé ico); po is- so quando um Es ado se eduz, as ci as podem p og essi amen e o - na -se ão pequenas que o Es ado deixe de exis i , que o concei o mo - a. O c is ianismo se elaciona de um ou o modo com as ci as: um só c is ão e dadei o é su icien e pa a que seja e dade que o c is ianis- mo exis e. Sim, o c is ianismo é in e samen e p opo cional às ci as, e quando odos se i e em ei o c is ãos, o concei o ‘c is ão’ es a á mo - o, pois o concei o c is ão é um concei o polêmico. Somen e se pode se c is ão po oposição ou na con a-co en e. Assim sucede ambém no No o Tes amen o, com elação ao a o de que Deus que se amado, e p ecisamen e po isso exige o an agonismo pa a po encializa o amo , de modo que o c is ão que ame a Deus, no an agonismo com ou as pessoas, chegue a so e delas o ódio e a pe seguição. Tão ápido como a oposição se elimina, se c is ão con e e-se em dispa - a e, al como sucede na ‘c is andade’, que so a ei amen e em su- p imido o c is ianismo em i ude disso: odos somos c is ãos. Pois bem, o concei o de ‘c is ão’ é in e samen e p opo cional às ci- as, ainda que o de ‘Es ado’ seja di e amen e p opo cional às ci as. E, não obs an e, os em implicado mu uamen e – em bene ício do dis- pa a e e dos pas o es; pois jun a desse modo Es ado e c is ianismo em an o sen ido como ala de um me o de man eiga, ou com menos sen ido ainda, pois man eiga e me o não gua dam nenhuma elação en e si, con udo Es ado e c is ianismo se elacionam de modo in e so ou, ainda melho , se excluem mu uamen e” (KIERKEGAARD, 2005: 53). Pa a Agos inho, é po isso que a cidade celes e ala de egene ação (e não de ge ação). Tal coisa ambém pode se no ada em Kie kegaa d como a o da consciência e da on ade, al como já ha ia enunciado o 36 Ma cio Gimenes de Paula pseudonímico Clímacus em seu p oje o de icção, que pa ece disse a sob e coisas mui o p óximas do c is ianismo, mas ao modo g ego: “Cha- memos de enascimen o es a passagem pela qual o discípulo em ao mundo uma segunda ez, udo como pelo nascimen o, como um homem isolado, que ainda não sabe nada do mundo em que nasce, se é habi ado, se exis em ou os homens, pois pode-se ce amen e se ba izado en mas- se, mas jamais enasce en masse.” (KIERKEGAARD, 1995: 39) An es de Abel e Caim ha ia, segundo a na a i a bíblica, seu pai Adão. Pa a Agos inho, o p imei o homem possui uma dupla ace: a p i- mei a é di ina, a segunda é humana. Ele é di ino po e sido ge ado pelo p óp io Deus e é humano po escolhe os alo es mundanos. Com a mo e de Adão, sob am duas de suas po ções: Abel, que pa ece pende mais ao lado di ino e Caim, o seu lado mais e eno e pecado . Com o assassina o de Abel, sob a apenas a ace mais e ena e pecaminosa. Desse modo, es a a Agos inho a i ma a o al desc ença no homem e a i ma , cada ez com maio ên ase, sua egene ação em Deus. Nessa mesma es ei a é que podemos en ende sua in e p e ação da queda do homem e do quan o o mesmo necessi ou de uma in e enção di ina pa a pode no amen e co- nec a -se com Deus. No e-se aqui, uma ez mais, a semelhança en e Kie kegaa d e Agos inho: “Se, ago a, o ap endiz de e adqui i a e dade, en ão o mes e em de azê-la a ele, e não só is o, mas é p eciso que lhe dê jun amen e a condição pa a comp eendê-la; pois se o p óp io ap endiz osse, po si mesmo, a condição, en ão p ecisa ia apenas eco da -se; pois sucede com a condição pa a se comp eende a e dade o mesmo que com o pode pe gun a sob e ela: a condição e a pe gun a con êm o condicio- nado e a espos a. (Caso as coisas não ossem assim, o ins an e só pode- ia se comp eendido soc a icamen e)” (KIERKEGAARD, 1995: 33-34). A imagem u ilizada po Agos inho como o dilú io, po exemplo, em um con a o undamen al como a água egene ado a e pu i icado a das impu ezas, já a a ca possui ainda uma o e conexão com a ig eja como a no a aliança de Deus com os homens. Po isso, julgamos que é den o dessa mesma pe spec i a que podemos comp eende a ob a de Kie kegaa d como uma espécie de no a in e p e ação da concepção agos- iniana mais ao modo do século XIX. Nesse sen ido, a despei o de es a si uado num século de p o undas mudanças, o au o dinama quês é capaz de en a iza a imu abilidade de Deus. Em ou as pala as, ele, al como ambém podemos no a em au o es do mesmo pe íodo como Nie zsche e Schopenhaue , mos a-se, po azões di e en es desses, e uma p o unda descon iança na emancipação da humanidade e em p oje os que pa eciam ão e iden es como ecomendá eis no século XVIII. Nesse sen ido, con- Mundanidade e secula ização 37 ém ago a a alia como se desen ol e o concei o de mundanidade kie - kegaa diano no discu so A imu abilidade de Deus. b) A mundanidade e a secula ização no discu so A imu abilidade de Deus de Kie kegaa d O discu so sob e A imu abilidade de Deus, esc i o em 1851, é e o- mado po Kie kegaa d em 05 de Maio de 1854, dia em que o au o com- ple a a qua en a e um anos de idade. O li o se á, en e an o, e e i amen- e publicado em 1855, em meio a polêmica kie kegaa diana com a c is andade. Assim como os demais discu sos edi ican es, ele p incipia po uma p ece, uma o ação ao Deus imu á el. Nessa pequena o ação in odu ó ia, já é possí el islumb a a dialé ica que o pensado dinama - quês ealiza en e o Deus que a ua po amo e sua imu abilidade. Seu in ui o é abo da o sen ido e o signi icado da imu abilidade na essência di ina. O ex o bíblico u ilizado como pon o de pa ida pa a al discu so é Tiago 01: 17-24. A igo , o mesmo ex o que já ha ia se ido de inspi a- ção pa a ês discu sos edi ican es, esc i os po Kie kegaa d em 1843. Segundo o au o do discu so, os homens êm acilidade em ala sob e mudanças e, dian e da melancolia de um mundo semp e em mudanças, é p eciso aleg ia e con en amen o pa a c e na imu abilidade di ina. Deus é pe ei o, ou seja, aquele que se pe ez e é o almen e comple o; logo, ele não pode em nada muda . O homem de e segui os conselhos do ex o bíblico e obse a com a enção o Deus pe ei o, pai de odas as luzes, em quem não exis e nenhuma a iação. Semp e que os homens ou em com a enção e são a dios pa a ala e se i a , eles o nam-se ap os a ecebe os dons pe ei os da pa e de Deus, al como suge e a na a i a do ex o de Tiago. Deus semp e o nece ao homem, no en ende de Kie kegaa d, um ale a e uma possibilidade de mudança. Toda ia, al como Sóc a es que, segundo ela os do diálogo pla ônico Tee e o, oi a acado com mo didas po um de seus in e locu o- es, C is o se á, em inúme as ocasiões, igualmen e incomp eendido: “Um pagão, e apenas um se humano, o sábio simples da an igüidade, eclama a que semp e quando se p opunha a a anca de um homem um ou ou o engano, ajudando-o a e melho , assim p es ando-lhe um bene ício, equën emen e no a a que o ou o ica a zangado e que a é mesmo deseja a mo dê-lo, como o sábio simples disse an as ezes i onicamen e. Ah, e o que Deus em supo ado nesses seis mil anos; o que não em ido que supo a de manhã à noi e de cada um dos mui- os milhões de homens – pois algumas ezes nos i amos quando ele abalha pa a o nosso bem-es a .” (KIERKEGAARD, 2000: 96). 38 Ma cio Gimenes de Paula O homem necessi a se admoes ado po Deus, is o que, pe an e o se di ino, ele é como uma c iança, incapaz de econhece os dons que êm do al o em seu a o . Em ou as pala as, ele em semp e a endência pa a pedi mudanças em odas as coisas, e seque econhece aquilo que Deus az em seu a o . Tal desejo de mu abilidade é uma a i ude ípica do paganismo: “Pon os de is as di e en es! A endência me amen e humana (como o paganismo ealmen e e idencia) é ala menos sob e Deus e quase exclusi amen e e com is eza sob e a mu abilidade das coisas hu- manas” (KIERKEGAARD, 2000: 97). Toda ia, a ad e ência que o discípulo Tiago az aos homens é exa- amen e sob e a imu abilidade de Deus. Um discípulo (e ambém um após olo) é um homem o almen e en egue ao se iço di ino, obedecen- do-o in eg almen e, coisa que não pode se plenamen e en endida po quem não pa icipa de al i ência. O ema da imu abilidade de Deus é pe inen e exa amen e po Ele se plenamen e aquilo que é, al como enunciam os seus a ibu os: “Deus é imu á el. Na sua onipo ência ele c iou es e mundo isí el – e se ez in isí el. Ele es iu-se no in isí el mundo como que com uma oupa – ele mesmo imu á el. Assim é no mundo das coisas sensí eis. No mundo dos e en os, ele es á p esen e em oda a pa e e em odo o momen o; em um sen ido mais e dadei o do que podemos dize da mais a en a jus iça humana que es á em odos os luga es.” (KIERKE- GAARD, 2000: 98). A imu abilidade di ina e sua p esença em odos os e en os se cons i- uem num di e encial. Ele pode muda odas as coisas do mundo ex e io em luxo, mas ainda assim sua imu abilidade pe sis e. Sua p esença se dá mesmo nos e en os em que os homens o julgam plenamen e dispensá el. Numa e a de mo imen os e olucioná ios e de elucidação de odas as dú idas a a és da azão, a igu a de Deus pa ece desnecessá ia. Toda ia, pa a Kie kegaa d, o mundo da polí ica e da cul u a azem pa e da es e a sensí el, ou seja, das coisas pe inen es ao homem. Tal coisa não signi i- ca que exis a na ob a kie kegaa diana um epúdio à polí ica ou ao pensa , apenas um econhecimen o das di e en es es e as. Em ou as pala as, a es e a sensí el é ligada apenas com as coisas do mundo e eno, enquan o Deus age em odos os e en os. Kie kegaa d ad e e, con udo, que não se de e ans o ma a imu a- bilidade de Deus em um consolo ba a o, is o é, num seda i o dian e de um mundo em p o undas mudanças. Desse modo, o homem de e espon- de a ês pe gun as dian e de Deus: a) qual é a on ade de Deus imu á el pa a mim?; b) os meus pensamen os são adequados aos pensamen os de Deus?; c) o meu caminho é adequado ao caminho de Deus? Não espon- Mundanidade e secula ização 39 de a ais ques ões, ou não con e i a elas nenhuma impo ância é, no en ende kie kegaa diano, o que de mais e í el pode oco e a um ho- mem: “E quan a e dade há nisso, se a ua on ade, se a minha, se a on ade desses mui os milha es acon ece de não es a ão in ei amen e em ha monia com a on ade de Deus; mas as coisas omam o seu cu so ão bem como se es i essem no umul o do chamado mundo a ual, como se Deus não p es asse qualque a enção. É como se um homem jus o (se exis isse al homem!), con emplando es e mundo (o mundo que, como dizem as Esc i u as, é dominado pelo mal), de esse sen i -se com o co ação pa ido po que Deus pa ece não que e aze sen ido.” (KIERKEGAARD, 2000: 101). Dian e daquilo que Deus deseja muda , Ele semp e age de duas ma- nei as: iolen amen e, ou assis indo aquilo que azem os homens. A se- gunda manei a é, no en ende de Kie kegaa d, a mais e í el. Deus, a quem os homens en am mui as ezes ludib ia , apa ece anqüilo, como quem calmamen e espe a: “Po que, en ão, pensas u que ele es á ão quie o? Po que ele sabe com ele mesmo que ele é e e namen e imu á el. E se Deus não es i esse e e namen e ce o dele mesmo, não pode ia se man e ão calmo, mas pode ia se le an a na sua o ça. Apenas aquele que é e e namen e imu á el pode pe manece dessa manei a ão anqüilo” (KIERKEGA- ARD, 2000: 102). A calma de Deus pode se um empo p ecioso pa a o homem, pode se uma opo unidade de mudança. En e an o, a mudança exige um no o comp omisso de ida, uma mudança nos seus caminhos e uma con e são do p óp io olha . Em ou as pala as, o homem p ecisa enxe ga , a a és da sua elação com o Deus imu á el, a no a signi icação de odas as coisas: “E po an o, quem que que sejas, oma empo pa a conside a o que eu digo pa a mim mesmo, que pa a Deus nada há de signi ica i o e nada há de insigni ican e, que em ce o sen ido o signi ica i o é pa a ele insigni ican e; e, em ou o sen ido, mesmo o que há de mais insig- ni ican e é pa a ele in ini amen e signi ica i o.” (KIERKEGAARD, 2000: 104). Se a on ade de Deus é, al como Ele p óp io, imu á el, o homem de e adequa sua on ade a Ele. Não se pode que e iludi a Deus, azen- do-o acei a a on ade humana. A mu abilidade das coisas oco e, de manei a única e exclusi a, nas elações humanas. Po isso, segundo Kie - kegaa d, cabe ao homem e i a os seus desejos das somb as e colocá-los 40 Ma cio Gimenes de Paula dian e das luzes de Deus. É ce o, en e an o, que dian e da imu abilidade de Deus a p imei a eação humana é o assomb o: “Há conseqüen emen e um epen ino emo e emo nes e pensamen o da imu abilidade de Deus, quase como se es i esse dis an e, acima da expec a i a do pode de qualque se humano de sus en a um elacio- namen o com amanho e imu á el pode ; sim, como se es e pensamen- o osse di igi a al descon o o e ansiedade da men e a azê-lo ao li- mi e do desespe o.” (KIERKEGAARD, 2000: 108). Con udo, em Deus o homem encon a descanso e aleg ia. Po isso, ainda que num p imei o momen o a imu abilidade de Deus apa en e se um assomb o, ela é um e igé io pa a o homem. A humanidade, ao mu- da , julga que Deus es á mudando, e po isso se equi oca. O emédio pa a al equí oco é jamais se esquece da imu abilidade de Deus: “Meu ou in e, es a ho a ago a em apidamen e passado, bem como o discu so. A mesmo que u mesmo não o quei as, es a ho a e esse dis- cu so logo se ão esquecidos. E a menos que u mesmo não o quei as, o pensamen o da imu abilidade de Deus ambém se á logo esquecido em meio às mudanças da ida. Mas po isso ele ce amen e não se á es- ponsá el, ele que é imu á el! Mas se não e azes culpado ou esqueci- do com espei o a isso, encon a ás nesse pensamen o o su icien e pa a a ua ida in ei a, ah, pa a a e e nidade.” (KIEKEGAARD, 2000: 110). Dessa manei a, cabe, po an o, a cada indi íduo, a busca pelo Deus imu á el e pela e e na lemb ança – e epe ição – de sua imu abilidade. Kie kegaa d az um apelo ao seu lei o indi idual pa a que semp e p ocu- e em Deus o seu apoio: “Assim es ás imu a elmen e semp e e em oda pa e disponí el a se encon ado. E seja quando qualque se humano enha a i, em qual- que e a, em qualque ho a do dia, em qualque luga : se em em sin- ce idade semp e encon a á eu amo igualmen e e no, como o esco imu á el da on e, ó u que és imu á el! Amén.” (KIERKEGAARD, 2000: 111-112). A c is andade p ecisa ecupe a a since idade do co ação daqueles que sabem ecebe os dons que são o necidos po Deus e econhecem a sua imu abilidade, mesmo i endo em mundo de p o undas mudanças. No en ende kie kegaa diano, o c is ianismo é semp e um exe cício, uma p á ica da since idade e da hones idade. Mundanidade e secula ização 41 c) Conclusão: Kie kegaa d e o p oblema da mundanidade e secula i- zação A o igem do e mo secula ização, em ge al, es á p imei amen e li- gada ao sen ido eclesiás ico e explici a, em si mesmo, a di e ença exis en- e en e o p esen e século, is o é, o empo passagei o dos homens e a e e nidade, que se elaciona com o di ino. Tal dis inção já su ge, a igo , como pudemos e , na iloso ia de San o Agos inho, com sua céleb e dis inção en e a Cidade de Deus e a Cidade dos homens. Pa a o bispo de Hipona, os homens são passagei os aqui na e a e só comple a ão plena- men e a sua cidadania nos céus, is o que pe encem a ele. No e-se a o e in luência pla ônica: no mundo dos homens exis e a apa ência e o e ême- o, no mundo di ino, a essência e o e e no. Em Agos inho o eco e é mais o e ainda: ele é neo-pla ônico, po isso acen ua ão o emen e a sepa ação e c ia p oblemas pa a uma abo dagem polí ica, a o que al ez não oco a da mesma manei a na polí ica de Pla ão p op iamen e di a. Po isso, semp e que se disse a ace ca da secula ização, abo da-se uma ela- ção en e céus e e a. A conseqüência de al a i ude se ia um desp ezo dos homens pela polí ica e pela sua sociedade. A inal, se sua cidadania es á ese ada pa a os céus, de que ale p oduzi algo pa a se i ido nesse mundo passagei o? Kie kegaa d, au o ão o emen e si uado den o da adição c is ã, lei o e ap eciado de Agos inho pa ece segui os mesmos p oblemas na elação com o p esen e século. De e-se essal a , en e an o, o quan o o mesmo, c í ico da polí ica e da cul u a do seu empo, não oi um au o isolado ou me amen e an i-polí ico, mas an es az uma p opos a polí ica baseada numa é ica dos E angelhos, al como se pode no a nas suas Ob as do Amo de 1847. É ins igan e ainda no a que, ao con á io do que al ez se possa ima- gina , ou do que uma dada adição nos legou, a secula ização, mesmo quando is a como desc is ianização ou dessac alização não implica, ne- cessa iamen e, em desc ença ou a eísmo. A inal, se segui mos, po exem- plo, as suspei as de Max Webe , eó ico do chamado desencan amen o do mundo e da secula ização, e emos cla amen e as di e enças en e p o e a, sace do e, ca isma, ca isma domes icado, eligião acional e e c. O que udo isso ep esen a? Sem en a na análise minuciosa de cada um desses emas, podemos a i ma que a p óp ia eligião c is ã az, no seu bojo, os elemen os da secula ização. Aqui al ez enha sido o pon o que Kie kega- a d, seguindo as pis as de Agos inho, não quis enxe ga ou com o qual não conco da a. Po exemplo, se nas an igas eligiões pagãs exis ia o sac i ício de p imogêni os es es, de o ma g ada i a, ão sendo subs i uídos pelo sac i ício de pequenos animais. Com o passa dos anos e com o es abele-