ESTUDOS DO DISCURSO: CAMINHOS E TENDÊNCIAS
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MARQUES, Ma ia Aldina | Todos os ios ão da a Ma ço. O mo imen o dos indignados e a cons ução de um e hos cole i o | 07-24
Todos os ios ão da a Ma ço. O mo imen o dos
indignados e a cons ução de um e hos cole i o
Ma ia Aldina MARQUES (CEHUM-ILCH – UM)
[email p o ec ed]
1. A con ex ualização social e polí ica dos discu sos
No quad o de uma linguís ica dos discu sos, omo como p essupos o de análise que os discu sos são
p á icas sociais, a im de abo da - na designação p opos a pela sociologia - os “no íssimos mo imen os
sociais” de con es ação como o ma de cidadania a i a e que, independen emen e da designação ado ada
em cada caso, são conhecidos como mo imen o dos indignados, po explici amen e ei indica em “o di ei o
à indignação”.
São mo imen os de con es ação que, desde 2008, êm ma cado a cena in e nacional, em di e en es
momen os, países e con inen es, desde a P ima e a Á abe, de que a Tunísia e o Egi o são casos ma can es,
a é ao mo imen o Occupy, nos Es ados Unidos, e na Eu opa, em pa icula , as Acampadas em Espanha e, em
Po ugal, en e ou os, o mo imen o Que se lixe a T oika! aqui em análise.
Tendo como con ex ualização mais salien e o supo e das edes sociais, es es mo imen os p e endem,
num momen o de c ise polí ica, económica e social gene alizada, cong ega oda a sociedade ci il num
desígnio comum de cidadania a i a, en e ecido numa ede ideológica que assen a na possibilidade de
compa ibiliza ações comuns a pa i da di e sidade de o igens, si uações, in e esses. É pelos discu sos que
p e endem consegui a pa icipação popula . Assim, na cons ução dos discu sos de mani es ação, es e é um
e o undamen al.
1.1. Que se lixe a T oika! um mo imen o dos indignados
O mo imen o Que se lixe a oika! em luga nes e enquad amen o sociopolí ico. C iado em se emb o
de 2012, em Lisboa, em como documen o undado um Tex o de apelo, subsc i o po 29 elemen os, po que,
como e e em, “É p eciso aze qualque coisa de ex ao diná io. É p eciso oma as uas e as p aças das
cidades e os nossos campos. Jun a as ozes, as mãos.” P e ende se um mo imen o social, de p o es o an i
“polí icos”, de o ma di e a an i-go e no, mas essencialmen e an i ins i uições polí icas, alimen ado po uma
ideologia explici amen e assumida como não pa idá ia
1
e anco ada nas edes sociais.
1
É uma si uação que na e dade não em es a cla eza. Se no Tex o de Apelo se a i ma que “Es e é um apelo de um g upo de cidadãos
e cidadãs de á ias á eas de in e enção e quad an es polí icos, a e dade é que os seus subsc i o es são apidamen e ligados à
mili ância em pa idos de ex ema-esque da. O Jo nal i, de 15 de ma ço, az-se eco des a discussão: “O mo imen o ap esen a-se (…)
como apa idá io, mas, segundo di e sas on es do mo imen o ela a am ao i, qua o dos seis memb os que compõem o núcleo du o
são mili an es ac i os do Bloco de Esque da (BE) e do Pa ido Comunis a Po uguês (PCP)”.
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1.2. A denominação do mo imen o
Em julho de 2012, o p imei o-minis o de Po ugal, Ped o Passos Coelho, num jan a com o g upo
pa lamen a do PSD, a i mou: «E que o ea i ma , ao im des e p imei o ano pa lamen a , que se algum dia
i e de pe de umas eleições em Po ugal pa a sal a o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que
in e essa é Po ugal». Es a exp essão, apesa do dis anciamen o que o locu o es abelece ace à o ma
coloquial do seu dize , pela a ibuição da esponsabilidade a um ou o enunciado de na u eza doxal – no
uso do ma cado de um discu so segundo (“como se diz”) -, ge ou acesa polémica pelo inusi ado uso de
calão, a pa de uma possí el meno ização do a o elei o al, dado o seman ismo de indi e ença que ca eia
ace a uma si uação, no caso em análise a pe da das eleições, que a exp essão “que se lixe!” eicula e alguns
pa idos explo am.
É es e ac o discu si o que es á na o igem da denominação do mo imen o social Que se lixe a T oika
2
.
Con udo, o alo semân ico da exp essão é aqui ou o; con oca uma elação de an agonismo in e pessoal,
que oco e, po exemplo, na exp essão Vai- e lixa !, que ag ega um alo ilocu ó io complexo de insul o e
imp ecação.
O enunciado Que se lixem as eleições! dá o igem a uma cadeia dialógica
3
in eg ando di e en es
discu sos públicos de desaco do e con on o, que se lixe o go e no, que se lixem os impos os, que se lixe a
Eu opa, e, pa icula men e, que se lixe a T oika!, que con ocam a oz do P imei o Minis o pa a mais
iolen amen e o con es a ; em uma dimensão sub e si a que se encon a p esen e nou os p ocedimen os
discu si os do discu so mani es an e.
1.3. Todos os ios ão da a ma ço
Em Po ugal, o mês de ma ço de 2013 oi ma cado po (mais) uma mani es ação. Todos os ios ão da
a ma ço é o ópico cen al da mani es ação, di ulgado po odo o país, em ca azes a iados que con ocam
esse e en o:
2
T oika: designação da comissão que eúne as ês en idades, FMI, Banco Cen al Eu opeu e Comissão Eu opeia com quem Po ugal
negociou o esga e inancei o.
3
O e mo é de Vion (2010): “Nous appelons chaîne dialogique un nomb e indé ini d’énoncés cons ui s pa le dé ou nemen d’un
même énoncé de base”.
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Figu a 1.
É um enunciado polissémico, me a ó ico e poli ónico, que, mesmo isualmen e, joga com os lexemas
ma /ma ço, o mês da mani es ação, pa a con oca , de modo mais explíci o, o p o é bio Todos os ios ão
da ao ma , mas ambém ou os enunciados de ozes impo an es pa a o mo imen o, como é o caso de Zeca
A onso, um can o ícone do 25 de ab il e da esis ência à di adu a, na sua Balada do Ou ono:
Rios que ão da ao ma
Deixem meus olhos seca
Águas das on es calai
Ó ibei as cho ai
Que eu não ol o a can a
4
.
Todos os ios ão da ao ma é ainda a me á o a da compa ibilização da di e sidade num desígnio
comum, ca a à ideologia dos no íssimos mo imen os sociais, acima e e idos. O campo semân ico da água
em mo imen o con igu a, aliás, a es u u a des e e en o, o ganizado em “ma és”, como a ma é da educação
ou a ma é da saúde, is o é, em g upos a iados que, de di e en es pon os da cidade, con e gem pa a um
pon o cen al “ ei indicando as suas p óp ias ques ões mas undindo-as num p o es o comum” (CAMARGO,
2013, p. 136). A elação en e mani es an es e ma /ma é e oca ainda cons uções ixas como ma de gen e,
ios de gen e que ajudam à cons ução da imagem da mul idão em p o es o como uma o ça da na u eza, à
semelhança das águas dos ios que nada pode á de e . O jogo de e ei os g á icos c iados pela al e nância de
co es do ca az, epe ido como ma ca de iden idade em odas as a iações a ixadas pelo país, sublinha a
plu alidade de lei u as possí eis.
2. Quad o eó ico-me odológico
O obje i o do p esen e abalho é analisa , a p opósi o da mani es ação de 2 de ma ço, o modo como
se cons ói o e hos cole i o do mo imen o Que se lixe a T oika!, com a enção pa icula às es a égias
mul imodais selecionadas pelos di e sos pa icipan es nes a p á ica social e e bal complexa. P e endo
4
A canção, como ma ca iden i á ia do po o po uguês, ai se explo ada nou os ca azes (c 3.4.).
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mos a que as imagens de si que o(s) locu o (es) cons ói(cons oem) são necessá ias à comp eensão dos
sen idos dos discu sos e dos mo imen os sociais.
A hipó ese de base é que a mani es ação de 2 de ma ço dá co po a um e hos cole i o popula : um
co po plu al ei o ambém de imagens que se p e endem plu ais, mas semp e con e gen es. Essa cons ução
esul a de es a égias mul imodais, e bais e não- e bais.
A análise a ealiza passa, essencialmen e, po de e mina as es a égias e mecanismos de cons ução
do e hos nos discu sos da mani es ação, com a enção especial à elação en e e hos cole i o e e he
singula es.
A pe spe i a eó ica que oi p i ilegiada é uma pe spe i a discu si a-enuncia i a, que se assume
in e disciplina , conjugando di e en es abo dagens eó icas. Em pa icula , a eo ia do e hos, al como é
desen ol ida po au o es como Maingueneau (1999), Amossy (1999, 2000, 2010) ou ainda Cha audeau
(2005) cons i ui o supo e eó ico da abo dagem.
O co pus é cons i uído po ma e iais disponí eis online. Em p imei o luga , é cons i uído po o og a ias
dos ca azes e aixas da con ocação e do des ile da mani es ação de 2 de ma ço de 2013, com a enção
pa icula aos ex os que in eg am, e comple ado po ex os, ambém online, sob e o mo imen o Que se lixe
a T oika!. Es es ex os, jo nalís icos, mas ambém p og amá icos, são necessá ios à con ex ualização global
dos discu sos enquan o p á icas sociais e, no caso e en e, à elabo ação e di usão de uma imagem do
mo imen o; pe mi em con ex ualiza os e he do discu so mani es an e, cons uídos nos discu sos icónico-
e bais dos ca azes e aixas da mani es ação. O ac o de se aze a análise a pa i de o og a ias em
ob iamen e condicionan es, ica excluída oda a e en e da o alidade, mas pe mi e po ou o lado uma
abo dagem me odológica plu issemió ica des e géne o discu si o.
2.1. Teo ia do e hos
Pa a a eo ia do e hos - ou imagem de si -, um concei o ecupe ado da adição e ó ica, con e gem
con ibu os, nem semp e conco dan es, de di e en es au o es ( izemos já e e ência a Mainguenau, Amossy,
Cha audeau, ou ainda Adam (2010) e Ke b a -O ecchioni (2002), en e ou os). Assen e, de aco do com
Amossy (2010:25), que o e hos discu si o é “[...] l’image que l’o a eu cons ui de lui-même dans son
discou s a in de se end e c édible. Fondé su ce qu’il mon e de sa pe sonne à a e s les modali és de son
énoncia ion [...]”, a e lexão sob e es a ques ão eó ica ica aqui eduzida a apenas ês pon os que são
c uciais pa a a análise:
a. A insc ição da p oblemá ica do e hos num quad o dialógico: o locu o az a ap esen ação de si em
unção do alocu á io, pois é necessá io que es e iden i ique e se iden i ique, po ezes, com es e
e hos.
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b. E hos discu si o e e hos p é-discu si o: há uma elação dinâmica, o locu o con i ma, e o mula,
modi ica as ep esen ações sociais mais ou menos c is alizadas que de si ci culam na comunidade.
c. E hos di o e e hos mos ado: con empla os modos como o(s) locu o (es) se cons oem no discu so.
Ob iamen e, abo da a cons ução do e hos é indissociá el da conside ação do géne o discu si o em
que é cons uído (e hos de géne o), uma ques ão a que Maingueneau (2013, §27) az explici amen e
e e ência: « Pou end e les analyses plus opé a oi es, il aud ai s’appuye su une connaissance p éalable
de la maniè e don el ype ou gen e de ex e peu ê e app éhendé en e mes d’e hos, au lieu de pa i à
chaque ois de zé o.».
2.2. Mo imen os sociais e discu so. A mani es ação como géne o discu si o
Uma segunda ques ão eó ica diz espei o à mani es ação como géne o de discu so. G inshpun (2013,
§9), na ca ac e ização des e géne o discu si o, p opõe duas ca ego ias desc i i as, discu so mani es an e,
que de ine como “l’ensemble de la p oduc ion sémio ique ( e bale ou iconique) d’une mani es a ion ou
d’une sé ie de mani es a ions qui on un même objec i ”, e enunciados mani es an es, is o é, “l’ensemble
des énoncés e baux scandés pa les mani es an s ou insc i s su les bande oles ou les a iche es”. A
impo ância des a ca ego ização não esgo a as pa icula idades do géne o; nomeadamen e des acamos
como ca ac e ís icas a e em con a:
a. A mani es ação é um géne o do discu so polí ico;
b. É um e en o público, de exe cício da cidadania;
c. In eg a mecanismos de e o ço g upal, po um lado, e de con es ação e desquali icação de (discu sos)
ad e sá ios, po ou o
5
;
d. Es a o ien ação do discu so mani es an e em supo e na ealização de dois mac oa os de
inci amen o e de con es ação.
e. É um discu so de plu ilocu o es, es u u ado em dois momen os empo almen e dis in os de (i)
con ocação e (ii) des ile;
. É mul imodal, po ou as pala as, é mul icanal, ma cado pela cooco ência da esc i a, em aixas e
ca azes, e da o alidade, em pala as de o dem, e é plu issemió ico conjugando os sis emas e bal,
icónico e ges ual.
A mani es ação de 2 de ma ço é um e en o discu si o que se enquad a nes e géne o discu si o.
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Mesmo que se a e de uma mani es ação de apoio, que pode se ca ego izada como subgéne o do géne o mani es ação, p essupõe
semp e um ad e sá io.
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3. E hos cole i o e e he singula es na con ocação da mani es ação de 2 de ma ço
3.1. Supo e do discu so e e hos: os ca azes de con ocação da mani es ação
A elabo ação e a ixação de ca azes e aixas con ocando a mani es ação de 2 de ma ço cons i ui a
p imei a pa e des e e en o discu si o. A cons ução do e hos do locu o , na necessá ia elação com o
alocu á io, não é indi e en e ao ma e ial não- e bal de supo e do discu so. Com e ei o, conside amos, com
Maingueneau (1998, p. 57), que o supo e da comunicação é undamen al: “[...] le médium n’es pas un
simple moyen de anspo pou le discou s, il con ain ses con enus e commande les usages qu’on peu en
ai e”.
No discu so mani es an e, es a impo ância é ac escida, pelas implicações que o ca az impõe
enquan o supo e p e e encial de comunicação. De ac o, a con ocação da mani es ação põe em cena
es a égias icónico- e bais em que ganham des aque p op iedades ipog á icas como a o ma, amanho e
co das le as ou ainda o luga ocupado pelo enunciado no espaço g á ico, como no exemplo seguin e:
Figu a 2.
A opção po um es ilo manusc i o, o jogo de co es, en e azul e e melho, e de amanhos dos g a emas
bem como a pseudo-impe eição do esul ado, com iscos e sob eposições, é es a égica
6
; são a i ícios que
camu lam um abalho e e i o de cons ução g á ica e imp essão dos ca azes, pa a impo em uma imagem
de espon aneidade, de imp o iso, do locu o . A es as imagens não deixam de ag ega ou os e he, de
au en icidade e libe dade, a que es a al a de ecu sos pa a adqui i ma e iais mais elabo ados, ao con á io
do que acon ece nas a i idades pa idá ias, dá o ça. É que es a a i idade em na sua o igem o cidadão
anónimo, que, na u almen e, e es e é um p essupos o doxal, não dispõe de uma máquina pa idá ia que o
auxilie, nem é condicionado po ela, an es a supe a no engenho e simplicidade dos ma e iais usados
7
. Tais
6
Segundo Adam (2010, p. 18), “Ch is ophe Luc e Jacques Vi bel pa len o jus emen à p opos de p op ié és ‘ ypo-disposi ionnelles’
de la mise en o me ma é ielle des énoncés”.
7
Es a capacidade az pa e dos es e eó ipos ela i os ao po o po uguês, e e ida habi ualmen e como desen ascanço.
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imagens de au omobilização, de au o-o ganização e de dinamismo sus en am a imagem global do
mo imen o e e o çam os alo es de apa ida ismo p oclamados desde a sua cons i uição. Salien e-se, ainda,
a ac escida in luência des as ca ac e ís icas, coinciden es com imagens do po o po uguês, semp e
ep esen ado de o ma mui o posi i a, e que ci culam no discu so público
8
. Po isso, a iden i icação com o
po o é a a i mação de uma supe io idade; em nome do po o, o mo imen o cons ói uma posição al a, de
pode , pa a daí con on a os pode es o iciais.
Cabe e e i que es e é um ca az undamen al em e mos de cons ução do “discu so mani es an e”
e do e hos cole i o global em pa icula , po que os enunciados, Que se lixe a T oika! e O Po o é quem mais
o dena!, indissociá eis do aspe o g á ico que os ma e ializa nes e ca az, uncionam não só como pala a de
o dem, e omada nou os ca azes, mas ambém como uma espécie de logo ipo iden i icado do mo imen o.
É, pois, uma ma ca de coesão e coe ência global do e en o.
Es a es a égia pe mi e que o locu o cons ua um e hos ei indica i o, ague ido, c iado no con on o
com o go e no e suas “ligações pe igosas”, p esen i icadas na oika, e e o çado pelo alo ilocu ó io do a o
linguís ico de imp ecação que o enunciado Que se lixe a oika! assume.
3.2. Vozes con ocadas e cons ução do e hos
O a o de con ocação da mani es ação põe em cena á ias ozes, desde um locu o cole i o a
locu o es singula es; é um complexo jogo de ozes que se sob epõem e in e agem. Em p imei o
luga , os discu sos/enunciados mani es an es põem em cena um locu o cole i o, cuja iden i icação
é ambígua. Se po um lado é iden i icado com o mo imen o Que se lixe a oika!, pela p esença do
logo ipo, a sua e dadei a assina u a, ab e-se, po ou o lado, a um cole i o que pode inclui o po o,
a pa i das o mas de deixis pessoal usadas
9
:
(1) Vamos aze Po ugal eme
Em segundo luga , quando apagada da supe ície ex ual, é pela cons ução de um dialogismo
in e discu si o que a imagem do locu o se mos a. De ac o, o locu o põe em cena ou as ozes a que se
assimila: são discu sos em ci culação que azem ozes p o e biais (2) e ozes da His ó ia da democ acia
po uguesa (3), ambas com o e alo a gumen a i o, pela a ualização de um imaginá io que ga an e a
coesão g upal:
(2) - Ma ço ma çagão
manhã de in e no
8
O discu so polí ico em, nes e domínio, um compo amen o p o o ípico, “Todos os locu o es con êm unanimemen e na
ca ac e ização de um po o do ado dos aços mais nob es que um se humano pode e e que o le am a um compo amen o
exempla ” (MARQUES, 2007, p. 3128).
9
É um mo imen o que se p e ende popula , em p imei o luga . Veja-se o seguin e exce o: «Segundo My iam, oi nessa eunião [em
junho de 2012] que “ oi ap esen ada a ideia de uma g ande mani es ação”, endo ambém sido ei e ada “a necessidade de que
ossem pessoas indi iduais a con oca e não um colec i o ou uma associação”.
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a de de e olução
- Todos os ios ão da a ma ço
(3) – [O po o é] endencialmen e se eno
– O po o é quem mais o dena!
Nes e úl imo enunciado, O po o é quem mais o dena!, pa a além da ele ância que já oi e e ida, as
ozes que se azem ou i , e às quais o locu o se ag ega, são ozes de au o idade incon es á el. T a a-se de
um e so da canção G ândola, Vila Mo ena, esc i a e can ada po Zeca A onso, ao es ilo dos can a es
popula es alen ejanos, e que oi a senha pa a o Mo imen o das Fo ças A madas na mad ugada da e olução
de 25 de Ab il de 1974. En oada epe idamen e em momen os de celeb ação da democ acia ou de p o es o,
em nome dessa mesma democ acia, é a oz de ab il que odos os po ugueses iden i icam. Ao aze es a oz
de au o idade, oz mí ica mesmo, como pala a de o dem pa a a mani es ação, o mo imen o Que se lixe a
T oika! insc e e-se numa adição democ á ica, mos a-se num e hos “de e olucioná io”
10
. A oz o iginal da
democ acia o na-se a oz do po o que ago a se mani es a. Se, como e e e Amossy (1999, p. 127), “[…]
l’e icaci é de la pa ole es liée à l’au o i é de l’o a eu ”, o locu o assegu a a e icácia da con ocação, pelas
ozes que az pa a o discu so e a que se assimila.
3.3. Discu sos “ eciclados” e cons ução do e hos
Mas o abalho de cons ução do e hos assen a em es a égias e mecanismos linguís icos mais
di e si icados. O locu o não se limi a a con oca discu sos de au o idade; p ocede ambém a modi icações,
a al e ações, pa a melho os in eg a no discu so mani es an e, con ibuindo pa a a ( e)cons ução do e hos
global do locu o e a eo ien ação a gumen a i a e emá ica dos discu sos.
Es a es a égia pe mi e, po exemplo, a cons ução de um e hos discu si o popula , a que o uso de
p o é bios adap ados ao con ex o
11
da mani es ação dá o ça, ou pe mi e, ainda, e abalha , e o mula , o
e hos popula p é-discu si o, de modo a azê-lo con e gi com uma no a imagem, mais adequada aos
obje i os de con es ação do g upo. É o caso do es e eó ipo de paciência, quando não de passi idade,
associado à imagem do po o po uguês. A es a ep esen ação o locu o subs i ui um e hos de comba i idade,
pela modi icação do discu so con ocado. Assim O po o é se eno é e o mulado pa a endencialmen e se eno,
pela adjunção da modalização ad e bial; do mesmo modo, o enunciado Os po ugueses são um po o de
10
A au o idade das ozes con ocadas é uma es a égia de c edibilização eco en e. Comple ando a análise dos enunciados acima
ansc i os, ale a pena assinala que “[O po o é] endencialmen e se eno” con oca um momen o de c ise da ecém-implan ada
democ acia; “O po o é se eno” oi a eação do p imei o-minis o, Almi an e Pinhei o de Aze edo, a umul os ci is, em 9 de no emb o
de 1975, em en e à Assembleia da República.
11
No e-se que a e são o iginal do p o é bio Todos os ios ão da a ma ço é “Todos os ios ão da ao ma ”; es e p o é bio e ou as
exp essões ixas modi icados es ão ao se iço des e obje i o discu si o. Do mesmo modo, Ma ço, ma çagão, manhã de in e no a de
de e olução de i a da o ma Ma ço ma çagão, manhã de in e no a de de e ão.
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b andos cos umes, es e eó ipo equen emen e con ocado, é ambém modi icado a a és da p edicação Os
b andos cos umes êm limi es
12
.
A sub e são dos es e eó ipos, o ien ada pa a uma a i ude in e en i a, isa a adesão dos des ina á ios
e a consequen e cons ução de uma iden idade g upal pela assimilação à imagem de si cons uída no
discu so.
3.4. Discu so icónico e iden i icação do locu o
Re omando a me á o a dos ios e ma és, iden i icado a da mani es ação em análise, são di e en es
locu o es que conco em pa a a cons ução da imagem global. Pa a além da linguagem e bal, a linguagem
icónica em uma unção nuclea nes a iden i icação.
As imagens que complemen am os discu sos dos ca azes êm, po an o, uma unção iden i icado a
do locu o ; p opõem um co po pa a uma oz. Com e ei o, o discu so icónico dá ele o aos co pos que
assumem es as ozes. Nos exemplos abaixo, epe ida(s) em dois ca azes di e en es, é possí el iden i ica
a(s) imagem(ns) de um locu o jo em e i e e en e. São undamen ais, na cons ução des a imagem do
locu o , os énis, calçado p e e ido dos jo ens, em combinação com o jogo de linguagem en e o nome do
he ói cinema og á ico Ba man e o enunciado ba [e], man [ o ma de a amen o usada po jo ens]”,
associado à imagem de um bas ão
13
. Es as dimensões enquad am os enunciados cen ais (pelo des aque
g á ico) A gen e que can a já não ai em can igas e Bas a de b andos cos umes
14
:
Figu a 3.
Figu a 4.
12
Há um abalho sis emá ico de e o mulação da imagem do po o po uguês. Veja-se, no mesmo sen ido de e o mulação, o
enunciado do ca az (Fig. 5) A gen e que can a já não ai em can igas, no uso da exp essão ixa “não i em can igas”, is o é, “não se
deixa engana ”, que ganha ou os sen idos na elação com a p imei a pa e da p edicação “A gen e que can a”. É que, mais uma
ez, es amos pe an e uma imagem do po o po uguês c iada du an e a di adu a pela p opaganda salaza is a, a do camponês que
abalha, can a e eza. T az ainda pa a o espaço discu si o a memó ia de uma sé ie de documen á ios ele isi os de Michel Giacome i
e Al edo T opa, ealizados du an e dois anos nos inícios dos anos 70 do século XX, sob e can igas popula es, e in i ulada “Po o que
can a”. Um po o de b andos cos umes é um cha ão da di adu a do Es ado No o, c iado po Salaza . B andu a é aqui sinónimo de
esignação.
13
A no a de humo dada pelo po meno do cãozinho a “ ega ” a oika enquad a-se no es e eó ipo do espí i o jo em e i e e en e.
14
Reco de-se que es amos pe an e imagens do po o po uguês c iadas du an e a di adu a pela p opaganda salaza is a. São ozes
da di adu a que, po o ça da econ ex ualização, são assimiladas ao go e no e ou as ins i uições ad e sá ias.
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pa icula de se po o. Num egis o popula , as imas, os jogos de linguagem a ní el lexical e oné ico são
pos os em ele o em ca azes onde o g a ismo sob essai:
(15) - Rel as, Coelho e Gaspa
Pio es que Salaza
- A egião ansmon ana
Dispensa es e sacana
(16) - Se o PASSOS p ecisa do RELVAS
nós PASSAMOS bem sem eles!
- Sóc a es, Po as e Coelho ão pa a a oika que os pa iu!!!
- Pá em de me óba
- Pá xapu a cú pa iu!
É um uso ansg esso da linguagem que não é alheio ao cómico, à i e e ência e a um espí i o mo daz,
que conjugam, po um lado, as ca ac e ís icas de um géne o polí ico que dessac aliza o pode ins i ucional
e, po ou o, ep esen ações sociais do po o po uguês que ecuam às can igas de escá nio e maldize , po
exemplo.
6. Conside ações inais
A análise de um único e en o discu si o, como o que acabámos de ap esen a , em necessa iamen e
limi ações, mas o seu enquad amen o num mo imen o cí ico mais ala gado, de que a mani es ação de 2 de
ma ço não é um “episódio único”, a pa do ac o de es a e sido uma mani es ação que pode emos classi ica
como p o o ípica do géne o e, sob e udo, o enquad amen o eó ico que supo a a in es igação assegu am
a pe inência do es udo e a ans e ibilidade do conhecimen o ob ido pa a ou as análises e ou os con ex os.
Da análise da cons ução do discu so mani es an e, sob essai a exis ência de um p ocesso de lide ança,
em pa icula na ase da con ocação da mani es ação, mas que não deixa de es a p esen e em odo o e en o
discu si o ainda que apagado da supe ície discu si a, ao se iço da cons ução de uma imagem do
mo imen o que os seus p omo o es p e endem que seja uma imagem de espon aneidade, de
au omobilização dos cidadãos. Cons ói-se, des e modo, um mo imen o cidadão in eg ado de
singula idades que con luem na globalidade e unidade de um posicionamen o discu si o, polí ico,
en o mado, po um lado, po um e hos popula p é io, ecupe ado discu si amen e em modos de dize e
aze alidados pela memó ia doxal, mas e o mulado em algumas das suas ep esen ações sociais-
discu si as ou e o çado nou as, a im de melho se ha moniza com a imagem p e endida de um po o de
esque da, a que a con ocação de ozes símbolo da e olução dá saliência.
Mas as es a égias de mobilização popula des es “no íssimos mo imen os sociais”, no apelo às
o igens democ á icas, à sobe ania popula , à unidade do po o, à cul u a popula , são es a égias já clássicas
nou os géne os do discu so polí ico, como e e e A. Do na (2007, p. 19):
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Le discou s poli ique, enco e da an age populis e, s’appuie su l’é oca ion des c i è es
d’iden i é commune. C’es un appel de la mémoi e cul u elle, a in de elance en
pe manence la cohé ence e la cohésion de l’ensemble. Ce qui di ise es minimisé e les
élémen s d’uni é son mis en elie à a e s des symboles e des commémo a ions. Les mo s
d’o d e son oujou s ma elés: e eni aux acines, essou ce les ins i u ions, e ou e
l’âme de la na ion e alle au peuple!
Mas não são únicas. Coexis em com a dinâmica o e e, essa sim, “no íssima” da mobilização
p opo cionada pelas edes sociais, com impac o nacional e in e nacional.
Na adição de ou as mani es ações popula es, a cons ução e bal do discu so mani es an e a ualiza
um es ilo de géne o, que se in eg a na chamada e ó ica dos mo imen os sociais, e onde sob essaem os jogos
de linguagem, a coloquialidade e mesmo os insul os. A p eca iedade dos ma e iais usados é coe en e com o
es ilo.
A cons ução de um e hos global do mo imen o esul a de es a égias mul imodais, e bais e não-
e bais, que dão isibilidade a p e endidos e he indi iduais in e p e á eis, no en an o, em e mos de e he
cole i os pela simbologia que ca eiam; es es p ocedimen os isam susci a a adesão a a és de um modo
de dize que é um modo de se , ope acionalizado, desde o início, como assina u a do mo imen o Que se lixe
a T oika!.
A cons ução desse e hos global, um e hos de iden i icação popula , não é a me a soma de e he
indi iduais, pelo con á io, é o e hos global, p e endido pelos a i is as do mo imen o, que de e mina os e he
indi iduais. Nes e con ex o, a au o ia dos discu sos é uma das ques ões undamen ais a conside a .
As ozes que o discu so mani es an e a ualiza desenham um e hos cole i o popula de esque da; sem
ma cas discu si as iden i icado as, apenas alusões, as ozes i em no discu so po uma memó ia comum
que e o ça o g upo, Nós, con a os ou os, Eles.
Dois obje i os undamen ais sob ede e minam odas as es a égias de cons ução do e hos: mobiliza
o po o e con on a os pode es ins i uídos. E, nes e caso, a mani es ação p op iamen e di a, o des ile,
con i ma a ealização desses obje i os com sucesso, já que a mani es ação de 2 de ma ço oi uma das maio es
mani es ações do Po ugal democ á ico.
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