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Mãe solo é... contributos do design para promover redes de apoio eficazes e desejáveis

Author: Silveira, Priscila Pinheiro da
Year: 2025
Source: https://repositorium.uminho.pt/bitstreams/32570bae-315c-49fa-9c0d-53c676d61aaf/download
P iscila Pinhei o da Sil ei a
MÃE SOLO É...
CONTRIBUTOS DO DESIGN PARA
PROMOVER REDES DE APOIO
EFICAZES E DESEJÁVEIS
GH]HPEURde 2024
UMinho | 2024 P iscila Pinhei o da Sil ei a MÃE SOLO É... CONTRIBUTOS DO DESIGN PARA
PROMOVER REDES DE APOIO EFICAZES E DESEJÁVEIS
Uni e sidade do Minho
Escola de A qui e u a, A e e Design
Uni e sidade do Minho
Escola de A qui e u a, A e e Design
P iscila Pinhei o da Sil ei a
MÃE SOLO É...
CONTRIBUTOS DO DESIGN PARA
PROMOVER REDES DE APOIO
EFICAZES E DESEJÁVEIS
Disse ação de Mes ado
Mes ado em Design de P odu o e Se iços
T abalho e e uado sob a o ien ação das
P o esso a Dou o a Alison Bu ows
P o esso a Dou o a Paula T iguei os
GH]HPEUR de 2024
ii
DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS
Es e é um abalho académico que pode se u ilizado po e cei os desde que espei adas as eg as e
boas p á icas in e nacionalmen e acei es, no que conce ne aos di ei os de au o e di ei os conexos.
Assim, o p esen e abalho pode se u ilizado nos e mos p e is os na licença abaixo indicada.
Caso o u ilizado necessi e de pe missão pa a pode aze um uso do abalho em condições não
p e is as no licenciamen o indicado, de e á con ac a o au o , a a és do Reposi ó iUM da Uni e sidade
do Minho.
Licença concedida aos u ilizado es des e abalho
A ibuição-NãoCome cial
CC BY-NC
h ps://c ea i ecommons.o g/licenses/by-nc/4.0/
P iscila Pinhei o da Sil ei a
iii
AGRADECIMENTOS
Dedico es a disse ação às minhas duas es elas-guia, minha mad inha, Ri a de Cássia, e minha a ó
ma e na, Lou des Fe ei a, a quem dediquei e dedico oda a minha aje ó ia acadêmica. Dedico ambém
aos meus sob inhos e a ilhados, desejando que comp eendam que, embo a sonha seja ma a ilhoso,
conc e iza esses sonhos é ainda melho .
Em p imei o luga , mani es o minha e e na g a idão e amo aos meus pais, que semp e es i e am ao
meu lado, apoiando cada um dos meus sonhos, po mais inusi ados que ossem. Ag adeço ambém aos
meus i mãos, que segu a am minha mão, mesmo es ando do ou o lado do mundo. Em especial,
ag adeço à minha i mã, cujo seu aplauso é ão o e e al o que me az esquece aqueles que op am po
não aplaudi .
Ag adeço p o undamen e aos meus a ós pa e nos po odas as o ações e pensamen os posi i os
di ecionados a mim, mesmo quando a saudade ape a a em seus co ações. Exp esso ambém minha
g a idão à minha comad e Simoni, que semp e me incen i ou, o ceu, elogiou e demons ou since o
o gulho mesmo sem comp eende plenamen e o que aço.
Ag adeço ao meu companhei o Diogo, pelo apoio emocional e pela paciência incansá el ao me ou i le
e ele es a ese, bem como po nunca poupa es o ços pa a me apoia ao longo des a jo nada. Nos
momen os em que du idei de minha capacidade, ele es e e semp e ao meu lado, e o çando minha
con iança e mos ando minha capacidade. Sua p esença, eple a de ca inho e cuidado, oi um con o o
necessá io pa a os dias mais di íceis.
Ag adeço p o undamen e à D a. Helena Alpini, po seus aliosos conselhos e po sua p esença cons an e
ao longo de oda a minha aje ó ia acadêmica. Es endo meus ag adecimen os à sua ilha, Regina Alpini,
amiga que, desde a ma ícula da licencia u a, me incen i ou e apoiou em cada e apa. Também sou
g a a a Luisa Helena, cujo supo e oi essencial não apenas no âmbi o acadêmico, mas ambém na ida
pessoal. Exp esso minha g a idão a Gab iela To ano, amiga que o mes ado me p opo cionou e pa cei a
iel nos abalhos em g upo. O apoio dessas qua o mulhe es oi indispensá el pa a que eu chegasse
a é aqui.

i
Gos a ia de exp essa minha since a g a idão às minhas o ien ado as, D a. Alison Bu ows e D a. Paula
T iguei os, pelos aliosos conselhos, empa ia e exigências que me o e ece am ao longo des e pe cu so.
A o ien ação delas oi undamen al pa a que eu pudesse ex ai o máximo do meu po encial, o nando
essa jo nada ex emamen e g a i ican e.
A ealização des e cu so oi uma e dadei a mon anha- ussa de emoções, que é di ícil aduzi em
pala as. Cada desa io en en ado ao longo dessa aje ó ia acadêmica o nou-se uma opo unidade
aliosa de c escimen o e ap endizado, p opo cionando um sen imen o pleno de ealização. Embo a os
obs áculos do mes ado sejam signi ica i os, a expe iência é ainda mais di ícil de ido à condição de
imig an e. Con udo, sou imensamen e g a a a odos os po ugueses que me acolhe am ao longo desse
pe cu so. Sendo assim, sin o-me p epa ada pa a en en a uma no a mon anha- ussa de expe iências
e desa ios que a ida me ese a.
“Faça o eu melho na condição que ocê em, enquan o ocê não em condições melho es pa a aze
melho ainda!”
(Co ella, 2018)
DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE
Decla o e a uado com in eg idade na elabo ação do p esen e abalho académico e con i mo que não
eco i à p á ica de plágio nem a qualque o ma de u ilização inde ida ou alsi icação de in o mações
ou esul ados em nenhuma das e apas conducen e à sua elabo ação.
Mais decla o que conheço e que espei ei o Código de Condu a É ica da Uni e sidade do Minho.
P iscila Pinhei o da Sil ei a
i
RESUMO
Es a disse ação explo a o con ex o social, econômico e emocional das mães solo, in es igando suas
edes de apoio e p opondo soluções de design pa a po encializa o supo e a essas mulhe es, a a és
de len es de Design Cen ado no Humano, Design Pa icipa i o e Design Inclusi o. A pesquisa pa e do
en endimen o das amílias con empo âneas, que assumem con igu ações di e si icadas e,
equen emen e, ogem ao pad ão nuclea adicional. Enquad ando a ma e nidade solo como um
wicked p oblem
— um p oblema complexo e di e si icado, sem soluções simples — c iou-se um
oolki
de design que aplica os p incípios do
con ex mapping
, ou seja, a combinação das á ias e amen as
desen ol idas pe mi e às pa icipan es exp imi em-se de o mas di e sas e assim alcança di e en es
ní eis do seu conhecimen o. O
oolki
oi es ado em dois
wo kshops
com dois g upos dis in os de mães
solo, um no B asil e ou o em Po ugal. Cons a ou-se que o
oolki
possibili ou uma abo dagem acessí el
e menos con on ado a, pe mi indo que as pa icipan es explo assem em conjun o ques ões pessoais e
po ezes di íceis, e elando in o mações aliosas e ge ando dados signi ica i os pa a a pesquisa. Os
esul ados demons am a ealidade complexa e dinâmica das mães solo, que dependem p incipalmen e
de edes de apoio emininas in o mais e en en am limi ações no acesso a ecu sos públicos e a opções
de emp ego lexí eis. Além de consolida a necessidade de soluções sis émicas de supo e pa a mães
solo, es a pesquisa iden i icou opo unidades de in e enção pa a o Design e apon a ecomendações
pa a o desen ol imen o de soluções desejá eis, que acili a iam a cons ução de edes de apoio
colabo a i as nes e con ex o. Es a disse ação con ibui pa a a comp eensão das necessidades
especí icas das mães solo e o e ece caminhos p á icos e ino ado es pa a o design de soluções de apoio
e empode amen o, p omo endo uma isão mais inclusi a e equi a i a sob e o papel das mães solo na
sociedade.
Pala as-cha e: Con igu ações Familia es; Economia da Pa ilha; Ma e nidade; Mulhe es no Cen o
do Cuidado; T abalho In isí el do Cuidado.
ii
ABSTRACT
This disse a ion explo es he social, economic, and emo ional con ex o solo mo he s by esea ching
hei suppo ne wo ks and iden i ying design solu ions ha suppo hem, h ough Human-Cen ed
Design, Pa icipa o y Design, and Inclusi e Design lenses. The esea ch begins wi h an unde s anding o
con empo a y amilies, which ake on di e se con igu a ions and o en de ia e om he adi ional nuclea
model. By aming solo mo he hood as a “wicked p oblem” — a complex and mul i ace ed issue wi h no
simple solu ions — a design oolki was de eloped, d awing on he no ion o “con ex mapping” o
encou age pa icipan s o exp ess hemsel es in a ious ways and hus allow access o di e en laye s
o hei knowledge. The oolki was es ed in wo wo kshops ha we e conduc ed wi h wo g oups o solo
mo he s, one in B azil and ano he in Po ugal. This oolki p o ided an accessible and less
con on a ional app oach, enabling pa icipan s o explo e pe sonal and po en ially di icul issues
oge he , e ealing aluable insigh s and gene a ing meaning ul da a o he esea ch. The esul s show
he complex and dynamic eali y o solo mo he s, who p ima ily ely on in o mal emale suppo ne wo ks
and ace ba ie s in accessing public esou ces and lexible job op ions. In addi ion o consolida ing he
need o sys emic solu ions o suppo solo mo he s, his esea ch iden i ied design oppo uni ies and
pu s o wa d ecommenda ions o he de elopmen desi able solu ions, which would acili a e he
c ea ion o collabo a i e suppo ne wo ks in his con ex . This disse a ion con ibu es o he
unde s anding o he speci ic needs o solo mo he s and o e s p ac ical and inno a i e pa hways o
designing solu ions ha suppo and empowe hem, hus p omo ing a mo e inclusi e and equi able iew
o he ole o solo mo he s in socie y.
Keywo ds: Family Con igu a ions; Sha ing Economy; Mo he hood; Women a he Cen e o Ca e;
In isible Ca e Wo k.
2
Ao pe cebe que, mesmo com edes de apoio, as mães da minha amília en en a am eno mes
desa ios, comecei a e le i sob e a ealidade ainda mais di ícil das mães solo, mui as ezes
in isibilizadas pela sociedade. Essa e lexão, somada à minha aje ó ia pessoal e p o issional,
despe ou em mim o desejo de explo a como o design pode con ibui pa a melho a a ida
dessas mulhe es. Como mes anda em design, pe cebi que pode ia usa minha expe iência e
meus conhecimen os pa a desen ol e soluções que impac em posi i amen e suas ealidades.
Minha pesquisa busca iden i ica as p incipais di iculdades en en adas po mães solo e c ia
e amen as p á icas, a a és do design, que p omo am um co idiano mais equilib ado e digno.
1.2. CONTEXTUALIZAÇÃO
A ualmen e, discu e-se amplamen e o concei o de amília, econhecendo que a amília nuclea não
ep esen a mais a ealidade de mui as pessoas (Fe nandes, 2022; Machado e al., 2021; Ri a
Kehl, 2017a). As ans o mações nas con igu ações amilia es adicionais são esul an es de
di e sos a o es, o nando-se essencial o econhecimen o de odos esses a anjos amilia es. Essa
comp eensão é undamen al pa a p omo e a inclusão das a iadas o mas de amílias exis en es
na nossa sociedade con empo ânea.
A psicanalis a Ma ia Ri a Kehl (2017a) é uma das p incipais de enso as do concei o de uma amília
com uma composição di e si icada de laços a e i os, que podem se an o sanguíneos quan o não
sanguíneos. Essa abo dagem e le e uma no a comp eensão das con igu ações amilia es, nas
quais as elações são moldadas pela lexibilidade e pela mul iplicidade de ínculos. Des aca-se
pela capacidade de adap a -se às necessidades emocionais de seus memb os, p omo endo a
inclusão e a alo ização de di e en es o mas de con i ência. Sendo assim, desa ia modelos
amilia es adicionais e en a izam a plu alidade das expe iências amilia es con empo âneas,
econhecendo den e di e sas amílias, as amílias monopa en ais.
Com o aumen o das amílias monopa en ais, p edominan emen e compos as po mulhe es, o
e mo "mãe sol ei a" o nou-se amplamen e di undido, e e indo-se a mulhe es que assumem a
c iação de seus ilhos de o ma independen e. Embo a essa ealidade seja comum em di e sos
países, o discu so eminis a no B asil essal a que a ma e nidade não de e se inculada ao es ado
ci il. Nesse con ex o, o e mo “mãe solo” oi in oduzido como uma o ma de econhece e
alo iza as mulhe es que assumem sozinhas a esponsabilidade de c ia seus ilhos, des acando

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a au onomia ma e na e p omo endo a descons ução de es e eó ipos sociais associados à
condição de mães sem cônjuges (Jo nal da USP, 2022; Kup e , 2020).
A ma e nidade, po si só, ap esen a uma sé ie de desa ios ine en es ao cuidado e à educação dos
ilhos, que exigem empo, dedicação e ecu sos. No en an o, a ma e nidade solo in ensi ica ainda
mais essas di iculdades. Con o me se á explo ado ao longo des a in es igação, as mães solo
podem en en a uma sob eca ga signi ica i a, an o ísica quan o emocional, uma ez que podem
acumula esponsabilidades de ido a uma e en ual al a de ede de apoio. Essa ausência de
supo e, em mui os casos, do abandono pa e no, é um enômeno eco en e nas amílias
monopa en ais emininas (Fe nandes, 2022).
Além dos desa ios emocionais e logís icos, a condição de mãe solo em um impac o p o undo no
me cado de abalho. Essas mulhe es, que equen emen e são as p incipais ou únicas
esponsá eis pelo sus en o da amília, en en am di iculdades adicionais pa a equilib a as
demandas p o issionais e amilia es (Sa o, 2020). A al a de apoio nas a e as domés icas e nos
cuidados com os ilhos mui as ezes limi a suas opo unidades de ascensão p o issional,
esul ando em desigualdade sala ial, julgamen os e ins abilidade no emp ego. A ma e nidade solo
e ela as lacunas es u u ais na sociedade que a e am a equidade de gêne o e o apoio às amílias
(Co ell e al., 2007).
Os Es ados Memb os das Nações Unidas (ONU) êm demons ado c escen e p eocupação com a
igualdade de gêne o, e idenciada pela inclusão desse ema na Agenda 2030 dos Obje i os de
Desen ol imen o Sus en á el (ODS). Reconhecendo a impo ância da igualdade de gêne o como
um p incípio undamen al pa a o desen ol imen o social e econômico, é indispensá el que os
p ocessos de design ambém e oluam pa a e le i essa p io idade (UNFPA, 2022, p. 4).
No en an o, a ealidade en en ada pelas mulhe es em di e sas pa es do mundo, como des acado
po Ca oline C iado-Pe ez (2019), e ela uma lacuna signi ica i a en e os a anços p ome idos e
a p á ica. A al a de um design di ecionado às necessidades emininas expõe os pe igos de um
mundo que não conside a adequadamen e a ana omia e as expe iências das mulhe es. Exemplos
disso incluem a ausência de Equipamen os de P o eção Indi idual (EPIs) adap ados às
ca ac e ís icas ísicas emininas e a insu iciência de segu ança em eículos de ido à u ilização de
4
manequins de es e p edominan emen e masculinos. Esses aspec os não apenas comp ome em
a saúde e a segu ança das mulhe es, mas ambém e o çam a u gência de uma abo dagem de
design mais inclusi a e sensí el às suas especi icidades.
Alinhada às iloso ias de No man (2006), que de ende um design cen ado nos se es humanos e
suas necessidades, undamen ado na dignidade e nos di ei os humanos, es a in es igação em
como p incipal obje i o aplica e amen as do design pa a analisa e ap imo a a expe iência das
mães solo. Nes e con ex o, se ão u ilizadas écnicas e e amen as do Design Cen ado no Se
Humano, Design Pa icipa i o, Design Inclusi o, Design Thinking e e amen as não con encionais
adap adas pa a o design, não apenas pa a ga an i que as eo ias abo dadas sejam e e i amen e
aplicadas na p á ica, mas ambém pa a possibili a a iden i icação de soluções conc e as que o
design possa o e ece pa a esol e os desa ios en en ados pelas mães solo, p incipalmen e no
que diz espei o à al a de ede de apoio.
Dessa o ma, essas abo dagens se em an o pa a alida os concei os eó icos, quan o iden i ica
in e enções que melho em suas condições de ida. Além disso, se em pa a ou i essas
mulhe es du an e o p ocesso de design, pe mi indo que exp essem suas necessidades e
econheçam lacunas, bem como soluções que sejam pe inen es à sua ealidade, espei ando
suas i ências com empa ia e assegu ando sua inclusão e alo ização em odos os aspec os.
1.3. OBJETIVOS
1.3.1. OBJETIVO GERAL
Aplica e amen as do design pa a comp eende o con ex o das mães solo e iden i ica
opo unidades pa a po encializa as suas edes de apoio.
1.3.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS
OE1. Comp eende o con ex o das no as con igu ações das amílias con empo âneas;
OE2. In es iga a elação de mulhe es com a ma e nidade solo po meio do es udo de dois
g upos dis in os de mães;
OE3. C ia e alida um
oolki
de design, adap ando écnicas de exp essão e ans o mação
social;
5
OE4. Con igu a os esul ados da in es igação pa a in o ma o design de soluções que
p omo am edes de apoio mais e icazes e desejá eis pa a mães solo.
1.4. ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO
A p esen e disse ação é compos a po seis capí ulos in e ligados, que isam explo a o con ex o
e as necessidades das mães solo, p opondo soluções de design cen adas em abo dagens
pa icipa i as e inclusi as pa a o alece suas edes de apoio e p omo e uma maio qualidade
de ida.
O p imei o capí ulo, da in odução con emplou uma isão inicial sob e a mo i ação pessoal e
acadêmica da pesquisa, in oduzindo o con ex o das mães solo e a ele ância do ema no âmbi o
social e de design. São ap esen ados o obje i o ge al e os obje i os especí icos, que o ien am a
in es igação sob e o po encial do design em comp eende as demandas dessas mulhe es e
iden i ica opo unidades pa a o desen ol imen o de edes de apoio e icazes e desejá eis.
O segundo capí ulo abo da o embasamen o eó ico da pesquisa, di idindo-se em ês p incipais
á eas: (2.1) o design ao se iço das pessoas, onde são discu idos concei os como o Design
Cen ado no Humano, Design Pa icipa i o e Design Inclusi o; (2.2) uma análise sociocul u al das
mulhe es no con ex o amilia e das no as con igu ações amilia es con empo âneas; e (2.3) o
papel do design no apoio às mães solo. Esses emas o necem uma undamen ação sólida sob e
como o design pode a ua na melho ia das edes de apoio e na c iação de soluções p á icas pa a
a ma e nidade solo.
O e cei o capí ulo de alha a abo dagem me odológica da pesquisa, explicando a escolha pelo
uso de mé odos quali a i os e de design pa icipa i o. São desc i as as écnicas de cole a e análise
de dados u ilizadas nos
wo kshops
. O capí ulo jus i ica o uso de a i idades in e a i as e do
oolki
de design, que o am essenciais pa a cap u a as pe cepções e i ências das mães solo,
p omo endo uma in es igação ap o undada e pa icipa i a.
No qua o capí ulo, é de alhado o abalho de campo ealizado com g upos de mães solo no
B asil e em Po ugal. São desc i as as dinâmicas dos
wo kshops
, as a i idades aplicadas e a o ma
como essas a i idades pe mi i am às pa icipan es explo a suas iden idades e edes de apoio. A
6
aplicação do
oolki
de design possibili ou o le an amen o de dados signi ica i os sob e os desa ios
en en ados pelas mães solo e suas es a égias de supe ação.
O quin o capí ulo discu e os esul ados da pesquisa conside ando a e isão de li e a u a e dos
dados ob idos no abalho de campo. São iden i icadas e analisadas as necessidades das mães
solo, como a demanda po lexibilidade no abalho, capaci ação e desen ol imen o p o issional,
e apoio psicológico. Também são ap esen adas as opo unidades de design iden i icadas,
e idenciando o papel do design inclusi o e cen ado no se humano pa a p omo e o
empode amen o dessas mulhe es e acili a suas edes de apoio.
No sex o capí ulo, são ap esen adas as conclusões da pesquisa e uma análise do cump imen o
dos obje i os. São discu idas as limi ações do es udo, como o núme o es i o de pa icipan es e
a aplicação egional dos
wo kshops
, e são o e ecidas ecomendações pa a abalhos u u os. As
suges ões incluem expandi a pesquisa pa a no os con ex os cul u ais e desen ol e in e enções
de longo p azo que possam medi o impac o do design nas edes de apoio das mães solo.
7
2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1. DESIGN AO SERVIÇO DAS PESSOAS
2.1.1. PARTICIPAÇÃO, EMPATIA E INCLUSÃO
“Pode ia ha e maio milag e do que olha mos com os olhos do ou o po um ins an e
?” (Tho eau,
1989)
O concei o de Design de Se iço eme giu como uma abo dagem ino ado a na década de 1980,
endo sido ap esen ado po Shos ack em 1982. Essa p opos a e e como obje i o ap imo a a
comp eensão dos p ocessos in e nos de uma emp esa, bem como suas in e ações e a o ma
como es es se conec am aos p ocessos ex e nos (Shos ack, 1984). Shos ack a gumen a a que a
ges ão emp esa ial de e ia se conduzida po pa es, c iando um se iço que espondesse de
manei a g adual às demandas dos clien es. Na a ualidade, a esponsabilidade pelo Design de
Se iço não ecai apenas sob e as ope ações e a ges ão, mas em que se compa ilhada po oda
a o ganização (Gibbons, 2017; Shos ack, 1984).
O Design de Se iços concen a-se na c iação de expe iências signi ica i as pa a qualque indi íduo
ou o ganização que, de alguma manei a, seja a e ado pelas ações de uma emp esa ou p oje o-os
chamados
s akeholde s
. O concei o e o e mo
s akeholde s
oi c iado nos anos 1980 pelo ilóso o
ame icano Robe Edwa d F eeman (2001). Eme giu com o in ui o de ans o ma a lógica
p edominan e no mundo dos negócios, suge indo que as o ganizações não se de em oca
exclusi amen e nos luc os, mas ambém conside a as pessoas e g upos impac ados po suas
decisões e ope ações (F eeman & McVea, 2001).
No con ex o do Design de se iços en ende-se po ade eço, que ep esen am os a e a os ísicos
ou digi ais indispensá eis pa a a execução do se iço, e os p ocessos, que são os luxos de abalho
e p ocedimen os ealizados pelos indi íduos en ol idos (Gibbons, 2017). Os
ouchpoin s
, ou
pon os de con a o são de ex ema ele ância, pois e e em-se aos momen os de in e ação que
oco em en e o usuá io e uma emp esa ou p oje o, ao longo da sua jo nada. De aco do com a
emp esa de ma ke ing Rockcon en (2019), es e concei o é undamen al pa a comp eende a
expe iência do usuá io, uma ez que cada
ouchpoin
ep esen a uma opo unidade de con a o,
podendo oco e em di e sas o mas, di e a ou indi e amen e (Rockcon en , 2019). Essa

8
abo dagem es a égica isa an o a concepção quan o a melho ia de se iços, assegu ando que
es es a endam às necessidades e expec a i as dos clien es, além de alinha -se com os obje i os
de negócio da o ganização ou p oje o (Gibbons, 2017; S ickdo n e al., 2019).
O design ul apassa a c iação de um p odu o ou a p es ação de um se iço especí ico, a a-se de
uma abo dagem que de e se cen ada nas pessoas, en ol endo consumido es, aqueles que
o e ecem o se iço e odas as pessoas en ol idas no p ocesso. No man, co undado da emp esa
consul o a Nielsen No man G oup, de ende a impo ância de conside a o sis ema como um odo,
analisando odos os seus componen es in e ligados. Esses elemen os são apenas e amen as
pa a alcança uma expe iência e dadei amen e cen ada no se humano, sendo o esul ado inal
o p incipal obje i o. Dessa o ma, o na-se imp escindí el concen a os es o ços em acili a o
caminho das pessoas pa a alcança esse esul ado inal, e o çando a impo ância de posiciona
o se humano no cen o dos p ocessos (Gibbons, 2017; No man, 2006, 2018).
No man (2006) de ende que o design de e se cen ado no se humano, ab angendo não apenas
a usabilidade, a es é ica e a uncionalidade, mas ambém as necessidades, desejos, con ex o
social e cul u al, emoções e expe iências dos indi íduos. O design de e se undamen ado na
dignidade e nos di ei os humanos, conc e izando esses alo es nos p oje os que impac am a ida
das pessoas. Essa abo dagem econhece o se humano na sua o alidade, supe ando as
necessidades uncionais e u ili á ias, desa iando a c ia soluções que não apenas uncionem bem,
mas que ambém en iqueçam e espei em a ida das pessoas em odos os seus aspec os
(Gibbons, 2017; No man, 2006).
No man (2006) a gumen a que p oblemas i iais do co idiano, como embalagens di íceis de ab i ,
bo ões que empe am ou o nei as que não uncionam co e amen e, podem impac a
di e amen e o ní el de sa is ação de uma pessoa, sendo uma ques ão en e p aze e us ação.
Ainda segundo o au o , embo a a maio ia dos aciden es seja a ibuída a e os humanos, mui os
desses e os podem es a inculados a alhas de design. Assim, ele de ende que o design não só
acili a a ida co idiana, o nando-a mais ag adá el, mas ambém pode sal a idas quando
desen ol ido com um oco cen ado nos se es humanos:
Design ap op iado e cen ado no humano exige que odas as conside ações sejam
abo dadas desde o p incípio, com cada uma das disciplinas ele an es de design
9
abalhando jun as como uma equipe. A maio pa e do design isa se usada po pessoas,
de modo que as necessidades e exigências delas de e iam cons i ui a o ça que
impulsiona g ande pa e do abalho ao longo do p ocesso. [...] Dou des aque a es a única
dimensão [usabilidade] po que ela em sido negligenciada po mui o empo. Es á na ho a
de azê-la pa a seu luga de di ei o no p ocesso de desen ol imen o de p odu o. Isso não
signi ica que a usabilidade enha p ocedência sob e udo o mais: odas as g andes
c iações de design êm um equilíb io e uma ha monia ap op iados en e beleza es é ica,
con iabilidade e segu ança, usabilidade, cus o e uncionalidade (No man, 2006, p. 15).
A cen alidade do se humano nos p ocessos de c iação e ap imo amen o de p odu os ou se iços
eque a pa icipação e inclusão das pessoas em odas as e apas. O Design Pa icipa i o o na-se,
po an o, essencial, pois en ol e um es udo colabo a i o que in eg a odas as pessoas en ol idas.
Essa abo dagem possibili a uma comp eensão ampla dos di e sos pon os do sis ema, pe mi indo
a explo ação de no as es u u as, p o ó ipos e a é a ge ação de pon os iniciais. Baseia-se na ideia
de que as pessoas con ibuem pa a o p ocesso, ainda que indi e amen e, po meio de ela os de
eedback, adap ações de e amen as ou pe spec i as sob e p oblemas especí icos. Essas
con ibuições ep esen am ações c ia i as que podem se desdob a em múl iplas soluções,
en iquecendo o desen ol imen o e a melho ia con ínua do p odu o ou se iço (Ams el, 2008;
Bonacin, 2004; Mulle , 2002).
Segundo Bonacin (2004), o Design Pa icipa i o se undamen a em uma sé ie de écnicas e
me odologias que pe mi em o desen ol imen o de p odu os e se iços com os usuá ios, em ez
de se pa a os usuá ios. Essa abo dagem p opõe uma colabo ação a i a en e designe s e
usuá ios, assegu ando que desempenhem um papel cen al no p ocesso de c iação. Ao en ol e
di e amen e as pessoas em odas as e apas do desen ol imen o, o Design Pa icipa i o p omo e
uma oca cons an e de in o mações que são essenciais pa a a adequação e ap imo amen o
con ínuo do p oje o. Essa in e ação pe mi e que as necessidades, expec a i as e con ex os
especí icos dos usuá ios sejam in eg ados de o ma p ecisa ao p odu o ou se iço inal, ge ando
soluções mais alinhadas à ealidade de quem i á u ilizá-las, o que po encializa a e icácia e o
sucesso do design (Bonacin, 2004).
10
Além das e amen as écnicas do design, in e essa ga an i um aspec o essencial: a empa ia. De
aco do com K zna ic (2014), a empa ia em o pode de ans o ma o indi íduo e, mais impo an e,
p omo e p o undas mudanças sociais, omen ando uma e dadei a e olução nas elações
humanas. T a a-se da capacidade de alguém se coloca no luga do ou o, comp eendendo seus
sen imen os e espei ando suas pe spec i as, u ilizando essa comp eensão pa a o ien a as
p óp ias ações (Casaca, 2021; K zna ic, 2014).
A empa ia não se esume a o e ece ao ou o aquilo que gos a íamos de ecebe , mas sim a
comp eende p o undamen e as i ências, as c enças, as expe iências daquele se humano,
buscando en ende a o igem das suas necessidades e das suas do es. Esse p ocesso exige uma
escu a a i a e a disposição de i além do seu p óp io mundo, a im de se conec a com a ealidade
subje i a do ou o. Ao ado a uma pos u a empá ica, é possí el ob e uma isão mais ampla, uma
isão que se expande da sua p óp ia pe spec i a, alo izando a di e sidade das expe iências e o
impac o pa icula que cada con ex o exe ce sob e o indi íduo (Casaca, 2021; K zna ic, 2014).
Uma das men o as dos concei os de Design Inclusi o e Design Uni e sal, Pa icia Moo e, o e ece
uma de inição ele an e de empa ia do li o do au o K zna ic:
Empa ia é uma consciência cons an e do a o de que suas p eocupações não são as
p eocupações de odos e que suas necessidades não são as necessidades de odos, e
que algum aco do p ecisa se alcançado a cada momen o. Não acho que empa ia seja
ca idade, não acho que empa ia seja au o sac i ício, não acho que empa ia seja p esc i i a.
Acho que empa ia é uma o ma em cons an e e olução de i e o mais plenamen e
possí el, po que es á empu ando seus limi es e empu ando ocê pa a no as
expe iências que ocê pode não espe a ou ap ecia a é que es eja dada a opo unidade
(K zna ic, 2014, p. 15).
2
Segundo Lulio (2017), no design cen ado no se humano, a empa ia é conside ada um elemen o
undamen al. A a és dessa a i ude, é possí el iden i ica necessidades que o p óp io usuá io não
consegue a icula . A empa ia, nesse con ex o, ep esen a a essência do Design Inclusi o. O
Design Council (2008) do Reino Unido, de ine essa abo dagem como uma es a égia de design,
2
T adução pela au o a: “
Empa hy is a cons an awa eness o he ac ha you conce ns a e no e e yone’s
conce ns and ha you needs a e no e e yone’s needs, and ha some comp omise has o be achie ed momen by
momen . I don’ hink empa hy is cha i y, I don’ hink empa hy is sel -sac i ice, I don’ hink empa hy is p esc ip i e.
I hink empa hy is an e e -e ol ing way o li ing as ully as possible, because i ’s pushing you en elope and pushing
you in o new expe iences ha you migh no expec o app ecia e un il you’ e gi en he oppo uni y.”
11
não se a ando de uma ca ego ia ou gêne o isolado, mas de um aspec o essencial que de e se
conside ado em qualque p odu o ou se iço, com o obje i o de a ende ao maio núme o possí el
de pessoas, independen emen e de sua idade ou capacidade.
De aco do com Kille-Speck e e Nickpou (2022), o Design Inclusi o, o iginado no Reino Unido, e
o Design Uni e sal, nos Es ados Unidos, compa ilham os mesmos undamen os, p incípios e
obje i os. Embo a ap esen em su is di e enças em e mos de signi icado e abo dagem, ambos se
baseiam em dois eixos p incipais: o cons an e en elhecimen o da população e a conside ação das
necessidades dos usuá ios com capacidades di e enciadas den o de uma sociedade
p edominan emen e homogênea.
O Design Inclusi o des aca-se po econhece que não há uma abo dagem gené ica capaz de
a ende plenamen e odos os usuá ios, po ém alo izando a di e sidade humana, conside ando
que as necessidades a iam de aco do com idade, capacidade ísica, men al, con ex o social e
ou os a o es. Essa abo dagem p opõe soluções lexí eis e adap á eis a endendo a uma g ande
a iedade de usuá ios (Kille-Speck e & Nickpou , 2022).
O Design Inclusi o ai além da simples c iação de soluções ol adas exclusi amen e pa a pessoas
com de iciências ou com mobilidade eduzida; ele en ol e a comp eensão e conside ação das
necessidades dessas pessoas, ampliando, assim, a usabilidade pa a um público maio . Além
disso, es a abo dagem es á di e amen e elacionada com uma p á ica democ á ica que espei a
os di ei os humanos, p omo endo a equidade de opo unidades pa a odos os indi íduos. Ao
diminui as ba ei as en en adas po es as pessoas, o Design Inclusi o con ibui pa a a cons ução
de ambien es mais acessí eis e inclusi os (Simões & Bispo, 2006).
Po an o, o Design de Se iços pode ado a abo dagens que p io izem p incípios como a empa ia
e a inclusão, des acando-se como uma e amen a aliosa pa a a c iação de expe iências
signi ica i as que con emplem as necessidades dos usuá ios e demais s akeholde s. Embo a nem
odas as p á icas de Design de Se iços sejam in insicamen e empá icas, abo dagens cen adas
no se humano, como de endem No man (2006) e K zna ic (2014), demons am po encial pa a
in eg a pe spec i as di e sas e ge a soluções mais acessí eis e inclusi as. Essas p á icas,
quando bem implemen adas, não se limi am a a ende obje i os emp esa iais, mas ambém
18
in e ação, c iando um ambien e p opício pa a o es abelecimen o de elações de con iança
(Sa u nino, 2020; Walsh, 2011).
A con iança é um dos pila es undamen ais na Economia da Pa ilha, no en an o, esse a o ainda
ep esen a uma ba ei a signi ica i a. Segundo a pesquisa ei a pela CNDL e SPC (2019), 45% dos
en e is ados menciona am a al a de con iança e o eceio de se em í imas de golpes como
p eocupações cen ais. Além disso, 43% apon a am a al a de in o mações cla as, 38% des aca am
o pe igo de lida com pessoas desconhecidas e 33% ela a am a ausência de ga an ias em casos
de descump imen o dos aco dos.
Es abelece um ínculo de con iança den o da Economia da Pa ilha pode se um desa io
conside á el, dado que essa modalidade econômica se baseia na in e ação en e indi íduos que
não se conhecem an e io men e. Po an o, A pla a o ma de e i icação de iden idade Jumio
(2022), conduziu uma pesquisa que e elou que 49% dos consumido es conside am impo an e
u iliza uma iden idade digi al ao acessa pla a o mas de se iços dessa na u eza. Além disso, 67%
dos en e is ados a i ma am que es a iam mais p opensos a se en ol e em ansações se ossem
implemen adas medidas igo osas de e i icação de iden idade.
Algumas emp esas signi ica i as no con ex o da Economia da Pa ilha que são ele an es pa a
es a in es igação incluem o Banco de Tempo (Figu a 2), emp esa que se undamen a na p emissa
de que uma ho a de se iço é equi alen e a ou a, independen emen e da na u eza do se iço
p es ado. Es e sis ema acili a a oca de se iços en e seus memb os, u ilizando o empo como
moeda de oca. O uncionamen o do Banco de Tempo en ol e a solici ação de se iços po meio
de uma agência local, onde, após a p es ação do se iço, as ho as são c edi adas na con a do
p es ado e debi adas na con a do con a an e. Essa dinâmica p omo e uma abo dagem iguali á ia
e solidá ia nas in e ações en e os pa icipan es (Banco de Tempo, [s.d.]).

19
Figu a 2. F ame do ídeo ins i ucional Banco de Tempo
Fon e: h ps://bancode empo.p / - acessado em 13/10/2024
Ou o exemplo ele an e é o Nex doo (Figu a 3) é um aplica i o de ede social exclusi o dos
Es ados Unidos, desen ol ido pa a es abelece conexões en e izinhos e comunidades locais. A
pla a o ma pe mi e que os usuá ios ecomendem e solici em se iços, além de p omo e o
comé cio local e o e ece um espaço pa a comp a, enda e oca de i ens e se iços en e
esiden es da mesma á ea. Além disso, o Nex doo acili a a in e ação en e indi íduos com
in e esses em comuns. Pa a assegu a a in eg idade da ede e a segu ança de seus memb os, o
aplica i o implemen a medidas igo osas de e i icação de iden idade e ende eço dos usuá ios
(Nex doo , [s.d.]).
20
Figu a 3. Aplica i o Nex Doo
Fon e:
h ps://play.google.com/s o e/apps/de ails/Nex doo _Neighbo hood_ne wo k?id=com.nex doo
&hl=p _PT - acessado 13/10/2024
A Economia da Pa ilha su ge como uma al e na i a signi ica i a ao modelo econômico adicional,
p omo endo não apenas a sus en abilidade e o consumo conscien e, mas ambém a cons ução
de edes sociais que a o ecem a con iança mú ua e a colabo ação. A a és de pla a o mas como
o Banco de Tempo e o Nex doo , obse a-se a iabilidade e a e icácia de sis emas que p io izam
a oca de se iços e o o alecimen o das comunidades locais. No en an o, pa a que esse modelo
se consolide e supe e as ba ei as de con iança, é c ucial a implemen ação de medidas que
ga an am a segu ança dos usuá ios e a anspa ência nas ansações. A con ínua e olução e
acei ação da Economia da Pa ilha depende ão da capacidade de adap ação e ino ação das
pla a o mas en ol idas, assim como da disposição da sociedade em ab aça no as o mas de
in e ação econômica e social. Po an o, es e modelo não apenas ede ine as dinâmicas de
consumo, mas ambém pode con ibui pa a a cons ução de comunidades mais solidá ias e
esilien es.
21
2.2. UM OLHAR SOCIOCULTURAL SOBRE AS MULHERES NO CONTEXTO DA FAMÍLIA
2.2.1. O PAPEL DA SEPARAÇÃO ENTRE ESTADO E IGREJA CATÓLICA NA CONQUISTA DA
IGUALDADE DE GÊNERO NO ÂMBITO FAMILIAR
“Eu os decla o ma ido e mulhe , a é que a mo e os sepa e.”
As sociedades c is ãs ca ólicas êm como p incípio undamen al a es u u ação da amília. Embo a
a o igem da amília es eja di e amen e ligada à his ó ia da ci ilização, su gindo como um enômeno
na u al esul an e da necessidade humana de es abelece elações a e i as es á eis, o eco e
des e capí ulo, é a concepção de amília a pa i da comp eensão ca ólica c is ã. Is o po que, es a
concepção pe meou cul u almen e as sociedades ociden ais (Filho, 2016).
O C is ianismo se des aca como a eligião com o maio núme o de adep os no mundo,
ap oximando-se de 3 bilhões de seguido es (Deno a, 2022). A é eligiosa se con igu a como um
elemen o de g ande in luência sob e as pessoas, moldando sua isão de mundo e compo amen o.
Dessa o ma, o C is ianismo desempenha um papel c ucial e de g ande signi icado na sociedade,
uma ez que es á p o undamen e en aizado na cul u a de as as egiões ao edo do mundo. Sua
in luência ab ange não apenas aspec os eligiosos, mas ambém sociais, cul u ais e his ó icos,
o mando alo es e adições em uma g ande pa cela da população global.
A p incipal on e de ensinamen os pa a os iéis c is ãos é o li o mais endido no mundo, a Bíblia
(Guinness Wo ld Reco ds, 2023), den o dela encon amos a passagem do li o de Ma eus 19:6,
onde Jesus diz: “Po an o, o que Deus ajun ou não sepa e o homem”. Esse e sículo é o pila do
casamen o ca ólico e que o o na sac amen o do ma imônio. Isso implica que aquilo que “Deus
uniu” como um sac amen o, o homem não pode sepa a . Nessa pe spec i a, o ínculo
ma imonial é conside ado indissolú el, pe sis indo a é a mo e de um dos cônjuges.
O Papa F ancisco decla ou ao jo nal digi al época da Globo (2015), que a Ig eja Ca ólica man ém
a isão de que o casamen o eligioso é indissolú el, e que as esc i u as e angélicas indicam que
aqueles que se di o cia am e ol a am a se casa es ão i endo em adul é io.
22
Consequen emen e, sob essa pe spec i a, essas pessoas podem es a sujei as à excomunhão,
sendo excluídas da comunhão da ig eja (Va icano II, 2005). No en an o, o Papa F ancisco en a iza
a impo ância de acolhe e dadei amen e essas pessoas, mesmo que a posição o icial da Ig eja
Ca ólica não conco de com essa si uação (Globo, 2015).
Den o dos p ecei os do Ca olicismo, a mulhe en en ou e ainda en en a desa ios signi ica i os
dian e dos julgamen os da ig eja e da sociedade. Po exemplo, a isão adicional da Ig eja Ca ólica
sob e a submissão da mulhe no casamen o passou po uma ans o mação ao longo dos séculos,
buscando concilia p incípios eligiosos com a e olução social e cul u al.
An e io men e, a ig eja de endia a subo dinação da mulhe ao pai an es do casamen o e ao ma ido
após o ma imônio, baseando-se em in e p e ações de passagens bíblicas, como E ésios 5:22-23
7
,
Colossenses 3:18
8
, Ped o 3:1-7
9
, Timó eo 2:11-15
10
que ins uía as esposas a se em submissas
aos seus ma idos. No en an o, a pa i do Concílio Va icano II, a Ig eja Ca ólica passou a en a iza ,
a a és do documen o
Gaudium e Spes
de 1965, a impo ância de econhece e p omo e a
igualdade e a dignidade da pessoa humana, an o da mulhe quan o do homem (Va icano II, 1965).
A ualmen e, a Ig eja Ca ólica econhece que a subo dinação da mulhe no casamen o não es á de
aco do com a isão de igualdade e dignidade humana de endida pelo E angelho. O Ca ecismo da
Ig eja Ca ólica ea i ma que “Ao c ia o homem e a mulhe , Deus ins i uiu a amília humana e
do ou-a da sua cons i uição undamen al. Os seus memb os são pessoas iguais em dignidade”
(Va icano II, 1992). Apesa dos a anços, é impo an e des aca que algumas adições es ão
en aizadas e ainda pe meiam na sociedade, independen emen e da eligião, e, po ezes,
con inuam a a e a a posição e os di ei os das mulhe es.
A in luência da eligião na sociedade é ão in ínseca que se e le iu a é mesmo na legislação,
como e idenciado no Código Ci il B asilei o de 1916. O con eúdo do li o do Di ei o da Família
p ese a a os undamen os dos Di ei os Canônicos, onde es abelecia á ias exigências
7
“Mulhe es, sujei e-se cada uma a seu ma ido, como ao Senho , pois o ma ido é o cabeça da mulhe , como
ambém C is o é o cabeça da ig eja, que é o seu co po, do qual ele é o Sal ado ” (Bíblia Online, [s.d.]).
8
“Mulhe es, sujei e-se cada uma a seu ma ido, como con ém a quem es á no Senho ” (Bíblia Online, [s.d.]).
9
“Do mesmo modo, mulhe es, sujei e-se cada uma a seu ma ido, a im de que, se ele não obedece à pala a, seja
ganho sem pala as, pelo p ocedimen o de sua mulhe , obse ando a condu a hones a e espei osa de
ocês”(Bíblia Online, [s.d.])
10
“A mulhe de e ap ende em silêncio, com oda a sujeição. Não pe mi o que a mulhe ensine nem que enha
au o idade sob e o homem. Es eja, po ém, em silêncio”(Bíblia Online, [s.d.]).
23
ma imoniais pa a as mulhe es, incluindo a ob igação da mudança de sob enome da mulhe após
o casamen o, po an o, e a a ibuído à mulhe o sob enome do ma ido, o que deno a que a mulhe
es a a sob posse daquele homem. Também inha como exigência a i gindade eminina no
ma imônio, a p oibição da in es igação de ma e nidade em casos de elações ex aconjugais, a
ex inção do pode amilia da mãe em caso de no as núpcias e a classi icação da mulhe casada
como ela i amen e incapaz, necessi ando de au o ização do ma ido pa a di e sos a os da ida
ci il (B asil, 1916; Filho, 2016).
O Código Ci il B asilei o de 1916 oi p omulgado em um con ex o his ó ico dominado pelo
pa ia cado, e le indo a ealidade social da época, onde o homem de inha o pode e a au o idade
den o da amília e da sociedade. O Di ei o b asilei o passou po uma e olução signi ica i a no que
diz espei o à igualdade de gêne o.
A pa i da década de 1960, o am p omulgadas di e sas leis e e o mas com o in ui o de
assegu a a equipa ação de di ei os en e homens e mulhe es. Po exemplo, o Es a u o da Mulhe
Casada de 1962 (B asil, 1962), com essa lei, o ac éscimo do sob enome do ma ido passou a se
acul a i o; as con ibuições da mulhe passa am a se conside adas nas decisões amilia es,
embo a a úl ima pala a ainda osse do homem em caso de disco dância; as mulhe es ob i e am
libe dade pa a exe ce qualque p o issão e; além disso, as mães que se casa am no amen e não
pe diam mais o pode sob e os ilhos de elacionamen os an e io es.
A Emenda Cons i ucional do Di ó cio e a Lei do Di ó cio de 1977 (B asil, 1977) que possibili ou
a sepa ação ma imonial, onde an es esse ínculo só e a queb ado a a és da mo e. A
Cons i uição Fede al de 1988 (B asil, 1988), Lei que igualou p incípios da dignidade da pessoa
humana en e homens e mulhe es, ambém econheceu as amílias monopa en ais como amília.
Po ém, somen e em 2002, o Código Ci il B asilei o (B asil, 2002) oi inalmen e e ogado e
subs i uído po um no o código que econhece a igualdade undamen al en e os gêne os em
odos os âmbi os da ida ci il. Essa conquis a ep esen a um ma co his ó ico na lu a po igualdade
no B asil, po ém é necessá io en a iza a disc epância empo al dessa conquis a.

24
2.2.2. AS NOVAS CONFIGURAÇÕES FAMILIARES E SEUS REFLEXOS NA SOCIEDADE
CONTEMPORÂNEA
“A amília adicional b asilei a inclui a aman e enganada e a emp egada explo ada?” (Gale ia
Feminis a [@ eminis asx], 2016)
O mundo con empo âneo i e uma época de in ensas ans o mações em di e sos aspec os da
ida social, com deba es cada ez mais equen es sob e sexualidade, elacionamen os,
casamen o e con igu ações amilia es (Ri a Kehl, 2017a). Essas mudanças, en e an o, não
oco em de manei a uni o me, a iando con o me a egião, cul u a e polí icas de cada sociedade.
Em algumas, a igualdade e a di e sidade êm p ospe ado, enquan o ou as ainda se apegam a
adições, eligiões e no mas ígidas (Ma chi-Cos a & Macedo, 2020).
O concei o de amília é algo mu á el, é um o ganismo i o, dinâmico que se adap a aos
mo imen os sociais. Ao longo dos anos, e en os signi ica i os, como a sepa ação en e o Es ado
e a Ig eja Ca ólica e o mo imen o de emancipação eminina, amplia am a de inição de amília
pa a aba ca di e sas con igu ações, econhecendo a mul iplicidade de o mas de se cons i ui
uma amília. Nesse sen ido, as mudanças na composição amilia e le em uma e olução na
manei a como en endemos e i enciamos os laços a e i os e as esponsabilidades pa en ais. É
essencial econhece e alo iza essa di e sidade de a anjos amilia es, p omo endo o espei o e
a inclusão de odas as o mas de amília (Fe nandes, 2022; Machado e al., 2021; Ri a Kehl,
2017a).
Essas no as o mas de o ganização amilia não se limi am aos laços de pa en esco biológico,
mas são cons uídas com base em ínculos emocionais. As es u u as amilia es a uais ab angem
uma ampla a iedade de con igu ações, mui as das quais e am an e io men e ma ginalizadas e
não econhecidas como legí imas den o dos pad ões sociais es abelecidos (Ma chi-Cos a &
Macedo, 2020). En e as mudanças mais signi ica i as, des acam-se as amílias ecompos as,
o madas po indi íduos que econs oem suas idas após o é mino de um casamen o an e io ,
e as amílias homopa en ais, cons i uídas po casais do mesmo sexo que decidem c ia ilhos
jun os (A ais e al., 2019).
25
Essas ans o mações nas con igu ações amilia es ambém exigem adap ações legais. No as
igu as ju ídicas, como união es á el, união homoa e i a e mul ipa en alidade
11
, su gem pa a
legi ima essas o mas de o ganização amilia . Esses ins umen os legais isam p o ege os
cônjuges e as c ianças en ol idas, pe mi indo que a concepção de amília se expanda além do
modelo he e ossexual e monogâmico, adicionalmen e conside ado ideal pela sociedade, mas
que não é a única con igu ação amilia exis en e (Ri a Kehl, 2017b).
A psicanalis a Ma ia Ri a Kehl (2017a) analisa a descons ução do pa adigma da amília
adicional, p opondo o concei o de “ amília en acula ”. Es e concei o e e e-se a uma es u u a
amilia con empo ânea que se dis ingue da amília adicional, denominada po Kehl como
“ amília nuclea ”. A amília en acula é ca ac e izada po uma composição di e si icada, ma cada
po uma á o e genealógica complexa, na qual con i em i mãos consanguíneos, pad as os,
mad as as e ou os memb os que ge almen e não azem pa e da es u u a adicional. Além disso,
essa con igu ação se des aca pela lexibilidade e inclusão, e le indo a di e sidade das elações
amilia es mode nas e ep esen ando uma adap ação às mudanças sociais e cul u ais
con empo âneas.
Além disso, as amílias monopa en ais ambém se des acam e ocupam um espaço signi ica i o
na sociedade. Essas amílias, lide adas po um único pai ou mãe, que assume odas as
esponsabilidades pa en ais, es ão se o nando cada ez mais comuns. Seja po escolha ou po
ci cuns âncias como di ó cio, iu ez ou abandono pa e no, essas amílias e le em a complexidade
das es u u as amilia es a uais (Fe nandes, 2022). No en an o, é impo an e des aca que nem
odas as amílias monopa en ais são dis uncionais. Com o apoio social, polí icas públicas
adequadas e uma ede de apoio es u u ada, essas amílias podem c ia seus ilhos com amo ,
ca inho e segu ança (Machado e al., 2021).
Kehl (2017a) a gumen a que os impac os nega i os em c ianças que c escem em es u u as
amilia es di e en es da adicional são complexos e mul i ace ados. A ideia de que apenas a
dissolução do concei o adicional de amília seja esponsá el pelas c ises humanas
con empo âneas é uma isão simplis a. Se os pais conseguem e i a que os p oblemas de seu
11
Mul ipa en alidade, ou plu ipa en alidade, e e e-se ao econhecimen o ju ídico da coexis ência de múl iplos
ínculos pa en ais, an o ma e nos quan o pa e nos, em elação a um mesmo indi íduo (San os Lima & Ca alcan i,
2021).
26
elacionamen o a e em as c ianças, es as i enciam apenas o so imen o empo á io associado à
ans o mação, o que não implica necessa iamen e em uma ida p oblemá ica. O impac o nas
c ianças é in luenciado po di e sos a o es, como a qualidade das elações amilia es, o supo e
emocional e o ambien e socioeconômico, independen emen e da es u u a amilia . O que
ealmen e impo a é a p esença de um ambien e de amo , apoio e es abilidade emocional, mais
do que a adesão a um modelo adicional de amília (Fe nandes, 2022; Machado e al., 2021; Ri a
Kehl, 2017a).
Em uma pe spec i a global, há indicação de que os Es ados Unidos lide am com o maio núme o
de amílias monopa en ais, segundo a
Pew Resea ch Cen e
(2019), com 21% de odas as amílias,
seguido pela Rússia e São Tomé e P íncipe. No en an o, há uma a iação signi ica i a en e países,
com po cen agens mui o baixas egis adas em egiões como Mali e A eganis ão. A ealidade das
amílias monopa en ais e le e di e enças cul u ais, sociais e econômicas, e idenciando a
necessidade de polí icas que p omo am a igualdade e o apoio a essas amílias (K ame , 2019).
Ainda assim, não exis e um consenso cla o sob e qual país lide a a ualmen e o anking de amílias
monopa en ais globalmen e. Essa ince eza deco e de á ios a o es, incluindo di e enças na
de inição de amília monopa en al, bem como a iações na disponibilidade e qualidade dos dados
disponí eis. Exempli icando, a pesquisa do si e
Single Mo he Guide
(2024) a i ma que os Es ados
Unidos da Amé ica possuem 10,86 milhões de amílias monopa en ais no país, po ém, segundo
uma pesquisa pela Fundação Ge úlio Va gas (FGV, 2023), o B asil con ém mais de 11 milhões de
amílias monopa en ais ma e nas. Po ugal segue a mesma endência, segundo o Ins i u o
Nacional de Pesquisa (INEP, 2023) 85,6% das amílias monopa en ais são ma e nas.
A sociedade pa ia cal ainda impõe desa ios signi ica i os às amílias monopa en ais emininas,
exace bando o p econcei o con a aquelas que c iam ilhos o a de uma união conjugal adicional.
Em uma sociedade u ópica, a balança da jus iça pesa ia igualmen e pa a mães e pais,
independen e da si uação conjugal. No en an o, na sociedade pa ia cal, a ealidade das amílias
monopa en ais emininas é ou a. Essa balança é comple amen e desequilib ada, onde o
p econcei o po se mãe e não es a inse ida em um casamen o, pesa mui o mais pa a a mãe do
que pa a o pai (Gal ão, 2020).
27
Po im, o sociólogo b i ânico Giddens (2003) des aca que a pe sis ência na p o eção da amília
adicional, com seus papéis de gêne o ígidos e hie á quicos, é incompa í el com a igualdade de
gêne o e a libe dade sexual das mulhe es. Ele a gumen a que a manu enção desse modelo impede
o desen ol imen o pleno das mulhe es e, consequen emen e, o p og esso de oda a sociedade. A
subs i uição da amília adicional po modelos amilia es mais di e sos e iguali á ios é is a como
uma espos a necessá ia às mudanças sociais e econômicas, como a c escen e pa icipação das
mulhe es no me cado de abalho e a queda da na alidade.
Es udos como o publicado pelo
The Economis
em 2021 co obo am essa isão, mos ando que
sociedades que a am as mulhe es de o ma injus a endem a se mais pob es e menos es á eis
(The Economis
, 2021). A publicação e ela que o aumen o da pa icipação das mulhe es na
economia e na ida amilia en aquece as bases do pa ia cado, con ibuindo pa a uma sociedade
mais p óspe a e equi a i a.
2.2.3. MÃE SOLO: MATERNIDADE NÃO É UM ESTADO CIVIL
“Po que eu já i ex-namo ado, ex-ma ido, mas ex- ilho não exis e”
(Aze edo, 2020).
His o icamen e, a di isão de papéis a ibuía ao homem a unção de p o edo inancei o, enquan o
à mulhe cabia o cuidado do la e dos ilhos. Esse compo amen o es a a alinhado ao modelo
adicional de amília, que e o ça a a noção de que se mãe exigia o casamen o. No en an o, esse
modelo de amília já não se adequa plenamen e à sociedade con empo ânea, o que ge a um
con as e com o papel adicionalmen e a ibuído à mulhe , pe pe uando a ideia de que a
ma e nidade de e es a necessa iamen e inculada ao casamen o (San os Lima & Ca alcan i,
2021).
Com o aumen o das sepa ações ao longo dos anos, o e mo “mãe sol ei a” o nou-se amplamen e
u ilizado pa a designa mulhe es que c iam seus ilhos sozinhas. Embo a esse e mo ainda seja
comum em mui os países, a especialis a em análise de discu so e eminismo, Dan ielli Assumpção
Ga cia (2022), essal a que a ma e nidade não es á in insecamen e ligada ao es ado ci il. A
u ilização desse e mo suge e e oneamen e que a mulhe só pode se mãe den o do con ex o de
34
de saúde elacionados à con acepção o am os mais amplamen e in e ompidos em odo o
mundo (UNFPA, 2022). Nou o exemplo, o
Food and D ug Adminis a ion
(FDA)
15
ecomendou a
suspensão das imunizações da acina con a o Co id-19 da ma ca Johnson & Johnson de ido a
um isco de omboembolismo enoso es imado em 0,0001%. No en an o, es udos indicam que
mulhe es que u ilizam an iconcepcionais en en am um isco de desen ol e omboembolismo
enoso de 4 a 6 ezes maio (Godinho e al., 2023). Essa disc epância essal a a al a de
p io ização da saúde ep odu i a das mulhe es em compa ação com ou as ques ões de saúde
pública.
O planejamen o amilia é c ucial pa a ga an i que as mulhe es enham con ole sob e suas idas
ep odu i as e, consequen emen e, sob e seu des ino. Ao possibili a o acesso a mé odos
con acep i os e icazes e p omo e a educação sexual, é imp escindí el que enham leis que
assegu e que as mulhe es possam oma decisões in o madas e conscien es sob e sua saúde
ep odu i a. Isso não apenas o alece sua au onomia, mas ambém con ibui pa a a p omoção
da igualdade de gêne o e o a anço do p og esso social e econômico dos países. Po an o, é
undamen al que os go e nos e a sociedade em ge al p io izem a saúde ep odu i a das mulhe es,
econhecendo-a como um di ei o humano undamen al.
2.2.6. O IMPACTO DA MATERNIDADE NO MERCADO DE TRABALHO
“T abalha como se não i esse ilhos, se mãe como se não abalhasse o a”
(Lisauskas, 2015).
O me cado de abalho em um impac o di e en e en e homens e mulhe es, p incipalmen e de ido
às di e enças no con ex o amilia . Mulhe es equen emen e en en am mais esponsabilidades
amilia es que podem inclui uma a iedade de a i idades e ob igações. Es as podem en ol e :
di isão de abalho domés ico; licença ma e nidade
16
e polí icas de apoio à amília; expec a i as
sociais e acesso a ecu sos.
15
Food and D ug Adminis a ion
é o agen e egulado do depa amen o de saúde dos Es ados Unidos (FDA, [s.d.])
16
No B asil, a legislação e e en e à licença-ma e nidade es ipula um pe íodo mínimo de 120 dias, du an e o qual a
mãe em di ei o a ecebe seu salá io in eg al. Além disso, a legislação assegu a a es abilidade no emp ego du an e
a g a idez e po a é cinco meses após o pa o. Enquan o o pai em di ei o a 5 dias de licença-pa e nidade (Senado
Fede al, 2012).
Em Po ugal, a licença pa en al comp eende cinco modalidades: licença pa en al inicial; licença pa en al inicial
exclusi a da mãe; licença pa en al exclusi a do pai; licença pa en al pa ilhada e licença pa en al po um p ogeni o
em caso de impossibilidade do ou o. Em esumo, a licença pa en al pode a ia de 120 a 150 dias consecu i os,
du an e os quais an o a mãe quan o o pai êm o di ei o de compa ilha esse pe íodo após o nascimen o, sem
p ejuízo dos di ei os da mãe. Caso o casal op e pela pa ilha da licença, êm di ei o a um ac éscimo de 30 dias,

35
Apesa do aumen o da pa icipação das mulhe es no me cado de abalho, as esponsabilidades
domés icas ainda são a ibuídas a um abalho eminino. Essa di isão desigual do abalho
ep odu i o e domés ico pode e á ias consequências nega i as pa a as mulhe es, incluindo
meno pa icipação em posições de lide ança e a di iculdade em a ança na ca ei a de ido ao
desa io de concilia abalho e ida pessoal. Além disso, as mulhe es equen emen e são
ob igadas a eduzi suas ho as de abalho ou in e ompe suas ca ei as pa a lida com
esponsabilidades amilia es (Guiginski & Wajnman, 2019).
Con o me o jo nal Exame (2022), 56,4% das mulhe es conhecem alguém ou o am elas p óp ias
demi idas após e o na da licença ma e nidade. Essa ealidade pode se a ibuída a di e sos
a o es. Em mui as si uações, as mães solo en en am disc iminações no ambien e de abalho,
sendo is as como menos p odu i as ou comp ome idas após e o na em da licença ma e nidade.
Além disso, algumas emp esas podem pe cebe essas mulhe es como menos lexí eis ou
disponí eis pa a iagens ou ho as ex as, o que pode p ejudica suas chances de se em
emp egadas e de a ança em na ca ei a (Machado e al., 2021).
Essas disc iminações podem o na-se e iden es desde o início do p ocesso sele i o, mui as ezes
se o nando apa en es du an e a análise de cu ículos. Ge almen e, as emp esas endem a
a o ece a con a ação de homens, mesmo quando mulhe es em expe iências e quali icações
equi alen es ou a é mesmo supe io es. Essa p e e ência é mui as ezes jus i icada pelo a gumen o
de que mulhe es podem eng a ida e necessi a de licença ma e nidade, o que esul a em cus os
adicionais pa a emp esa (Machado e al., 2021).
A e is a digi al
Ha a d Business Re iew
(2016) conduziu um expe imen o de audi o ia de
cu ículos, e elando a exis ência de disc iminação du an e a análise de pe is p o issionais.
Mesmo com quali icações acadêmicas idên icas, homens de classe al a ecebe am mais con i es
pa a en e is as e e o nos de chamada do que ou os candida os em uma p opo ção supe io a
qua o ezes. Os emp egado es a i ma am que, mesmo que as mulhe es de classe al a ossem
igualmen e quali icadas, sua pe cepção e a de um maio isco pa a emp esa po pa e das
o alizando a é 180 dias. Esses 30 dias ex as podem se usu uídos po apenas um dos pais ou di ididos en e
ambos, de o ma consecu i a ou em dois pe íodos de 15 dias. (ePo ugal, [s.d.])
36
colabo ado as emininas, sendo a ma e nidade a p incipal azão a ibuída a essa pe cepção
(
Ha a d Business Re iew
, 2016).
A disc iminação pe sis e além da seleção de cu ículos e con inua du an e as en e is as. De
aco do com a Sa o (2020),
P oduc Owne
17
da pla a o ma de emp egos Vagas.com, 70% das
mulhe es ela am e em sido ques ionadas em algum momen o do p ocesso sele i o sob e o
desejo de se em mães, ou sob e quem cuida á dos ilhos quando es i e em doen es. Uma
pesquisa conduzida pelo
Ame ican Jou nal o Sociology
(2007) cons a ou que, caso haja qualque
menção à ma e nidade du an e a en e is a de emp ego, a p obabilidade de se selecionada pa a
a aga é eduzida em 37% (Co ell e al., 2007; Sa o, 2020).
De aco do com o es udo de Oli ei a (2023), as mães solo en e is adas ela a am en en a
obs áculos elacionados à al a de bene ícios adequados, ho á ios incompa í eis e disc iminação
du an e en e is as de emp ego. As mulhe es pa icipan es do es udo compa ilha am
expe iências em que i e am que enuncia a opo unidades de abalho em p ol do bem-es a de
seus ilhos.
Além disso, as mulhe es en en am uma penalização sala ial signi ica i a de ido à ma e nidade.
Co ell, Be na d e Paik (2007) e elam que a o es como educação, ocupação e si uações
domés icas explica am 24% da dispa idade sala ial pa a mães com um ilho e 44% pa a mães
com dois ou mais ilhos. Isso suge e que, embo a pa e da di e ença sala ial en e mães e
mulhe es sem ilhos possa se explicada po esses a o es, ainda exis e uma pa e conside á el
dessa dispa idade que pe manece sem explicação. Essa penalização pode esul a de uma
combinação de expec a i as sociais, disc iminação e desigualdades es u u ais no me cado de
abalho.
Na pesquisa de A aújo e Scalon (2006), 58,7% das mulhe es en e is adas a i mam que a ida
amilia ica p ejudicada se a mulhe abalha em empo in eg al, enquan o 79,8% delas a i mam
que as c ianças so em mais quando a mãe abalha o a. Ou seja, na pe spec i a das mulhe es
a dedicação ao abalho e a seus p oje os pessoais pode se p ejudicial ao desen ol imen o de
seus ilhos, azendo com que o equilíb io en e o abalho e a ma e nidade seja desa iado pa a as
17
P oduc Owne
é o esponsá el po oma as decisões inais sob e p odu o (A boleda, 2020).
37
mulhe es. Dessa o ma, su ge um dilema en e o alo do abalho, que assegu a independência,
au onomia e ealização pessoal eminina, e a ele ância da ma e nidade, que é enal ecida pela
p esença e cuidado exclusi o com os ilhos (A aújo & Scalon, 2006; Emidio & Cas o, 2021).
Dian e des as di iculdades algumas mães solo acabam decidindo po in e ompe a ca ei a que
inham an es da ma e nidade, op ando po emp egos in o mais que o e ecem lexibilidade de
ho á ios, ou decidem emp eende . A al a de uma ede de apoio adequada in ensi ica essa
ins abilidade p o issional, le ando as mães a p ocu a em al e na i as que se adequem melho às
suas esponsabilidades pa en ais. Aquelas que con am com uma ede sólida desde o início da
ma e nidade êm maio acilidade pa a busca emp ego e man e -se emp egadas (Gal ão, 2020;
Oli ei a, 2023).
A ealidade comum pa a as mulhe es é se con on ada mui as ezes com a di ícil escolha en e
ma e nidade e ca ei a, enquan o pa a os homens essa decisão pa ece se inexis en e. A ideia de
concilia com sucesso a esponsabilidade de se pai e uma ca ei a p o issional p óspe a é
conside ada algo na u al e acessí el pa a os homens, enquan o que pa a as mulhe es pode
pa ece uma a e a impossí el. Essa dico omia en e ma e nidade e ca ei a c ia ba ei as
signi ica i as pa a as mulhe es no me cado de abalho, limi ando suas escolhas e opo unidades
de a anço p o issional.
2.2.7. TRABALHO INVISÍVEL: MULHERES NO CENTRO DO CUIDADO
“O abalho in isí el das mães é, mui as ezes, o que sus en a o que odos conseguem enxe ga ”
(Ins i u o Mãe, 2022).
As dinâmicas de gêne o e os papéis a ibuídos às mulhe es no âmbi o do cuidado amilia e
comuni á io possuem aízes his ó icas p o undas que a a essam di e en es cul u as e
sociedades. Embo a essas esponsabilidades sejam dis ibuídas e in e p e adas de manei as
di e sas em cada con ex o, elas ecaem p edominan emen e sob e as mulhe es, e idenciando
uma pe sis en e desigualdade de gêne o. Mesmo sendo essencial pa a iabiliza o abalho
ealizado o a do ambien e domés ico, o abalho de cuidado pe manece sub alo izado e
equen emen e in isibilizado, e o çando as dispa idades sociais exis en es.
38
O ela ó io
Ca e Wo k and Ca e Jobs o he Fu u e o Decen Wo k
18
(2018)
de ine o abalho de
cuidado como um conjun o de a i idades e elações des inadas a sa is aze as necessidades
ísicas, psicológicas e emocionais de adul os e c ianças, sejam eles idosos e jo ens, saudá eis ou
debili ados. Em ou as pala as, essas a i idades são essenciais pa a a p omoção de uma
sociedade p odu i a, ab angendo a e as como ges a , alimen a , c ia , limpa e educa . São
a i idades essenciais que man êm o uncionamen o da sociedade. A ausência dessas a e as
esul a ia em um p ejuízo signi ica i o e uma deso ganização p o unda em escala global.
Uma das maio es demons ações da impo ância do abalho do cuidado ealizado po mulhe es,
oi a g e e das islandesas de 1975, segundo B ewe (2015), o obje i o da g e e oi des aca que
o abalho eminino e a social e economicamen e indispensá el, embo a sub alo izado. A adesão
à g e e oi p a icamen e unânime, com a pa icipação de quase 100% das mulhe es do país, o
que esul ou na pa alisação de á ias a i idades essenciais. O se iço de elecomunicações oi
o emen e impac ado, já que a unção de ele onis a e a p edominan emen e eminina, os jo nais
deixa am de ci cula de ido à ausência das ipóg a as, e ea os echa am em azão da al a de
a izes. A educação ambém oi a e ada, uma ez que mui as escolas ica am sem aulas, dado
que a maio ia do co po docen e e a compos o po mulhe es. A companhia aé ea nacional cancelou
seus oos po al a de ae omoças, en e ou as in e upções signi ica i as (B ewe , 2015).
A g e e e e e ei os du adou os, impulsionando impo an es mudanças no país. Um exemplo
no á el oi a eleição de Vigdís Finnbogadó i , a p imei a mulhe no mundo a ocupa a p esidência
de uma nação, que exe ceu o ca go en e 1980 e 1994. A p óp ia Vigdís econheceu que sua
eleição oi di e amen e in luenciada pelos impac os da g e e de 1975, a qual ma cou um pon o
de in lexão na alo ização do abalho eminino na Islândia (B ewe , 2015).
As mulhe es con inuam a assumi a maio pa e das esponsabilidades de cuidado, an o de
c ianças quan o de idosos, e le indo uma di isão de a e as baseada em no mas de gêne o. Essa
sob eca ga, no malmen e não emune ada, pe pe ua desigualdades, a e ando a pa icipação das
mulhe es no me cado de abalho e seu bem-es a (Co ey e al., 2020). Uma pesquisa publicada
no pe iódico Cade nos Saúde Cole i a (Tsuji, 2023) e o ça essa cons a ação ao e idencia a
18
T adução pela au o a: T abalhos de cuidado e emp egos de cuidado pa a o u u o do abalho decen e.
39
eminização da ges ão do cuidado, especialmen e no con ex o do en elhecimen o populacional. O
es udo demons a que as mulhe es não apenas assumem a esponsabilidade pelo cuidado dos
ilhos, mas ambém a dos ma idos e pais à medida que en elhecem. Além disso, o es udo e ela
que as p óp ias mulhe es se pe cebem como as p incipais esponsá eis po esse abalho de
cuidado, que cons an emen e pe manece in isí el e não emune ado. Con udo, embo a o abalho
de cuidado seja equen emen e associado ao ca inho e à a eição, é undamen al econhece que,
além de pode se ealizado com amo e dedicação, essas a i idades cons i uem em
esponsabilidades a ibuídas a alguém e, como ais, de em se alo izadas e econhecidas
socialmen e (Tsuji, 2023).
O abalho de cuidado e domés ico é equen emen e denominado “ abalho in isí el” de ido à
sua al a de emune ação e à pouca isibilidade que ecebe, sendo ge almen e no ado apenas
quando deixa de se ealizado (Tsuji, 2023). T adicionalmen e, espe a-se que as mulhe es
assumam esse papel, pe pe uando uma di isão de esponsabilidades p o undamen e en aizada
nas no mas de gêne o. Um es udo conduzido pela Ox am (2020) e ela que as mulhe es são
esponsá eis po 75% do abalho de cuidado não emune ado globalmen e. Dia iamen e, mais de
12 bilhões de ho as são dedicadas a essas a i idades po mulhe es e meninas em odo o mundo,
o alo mone á io ge ado po esse abalho se ia es imado em ap oximadamen e US$ 10,8 ilhões
po ano, supe ando em ce ca de ês ezes o alo p oduzido pela indús ia ecnológica global
(Co ey e al., 2020).
Ainda segundo a Ox am (2020), mulhe es e meninas são esponsá eis po mais de ês qua os
do abalho de cuidado não emune ado ealizado globalmen e, além de ep esen a em dois e ços
da o ça de abalho en ol ida em a i idades de cuidado emune adas. O alo econômico ge ado
po esse abalho de cuidado não emune ado, ealizado p edominan emen e po mulhe es, é
es imado como sendo 24 ezes supe io ao alo da economia do Vale do Silício. Essa compa ação
des aca a magni ude do abalho de cuidado não emune ado, e idenciando seu impac o
econômico subs ancial que equen emen e não é econhecido ou alo izado de o ma adequada
(Co ey e al., 2020).
A in isibilidade do abalho de cuidado a e a di e amen e o desen ol imen o escola de meninas,
que, de ido ao olume signi ica i o de a e as domés icas, ap esen am axas de equência escola

40
in e io es às de ou as meninas. A desigualdade econômica es á in insecamen e ligada à
desigualdade de gêne o, sendo que a maio ia das pessoas si uadas na base da pi âmide
econômica são mulhe es. Ao conside a um eco e mais especí ico, como o das comunidades
u ais, essa desigualdade se acen ua: mulhe es nessas á eas dedicam a é 14 ho as diá ias ao
abalho de cuidado não emune ado, cinco ezes mais do que os homens das mesmas
comunidades (Co ey e al., 2020).
A análise das dinâmicas de gêne o no abalho de cuidado e ela uma pe sis en e e p o unda
desigualdade que a a essa cul u as e sociedades. As mulhe es con inuam a se as p incipais
esponsá eis po essas a i idades essenciais, desempenhando um papel cen al na es u u a
social e no uncionamen o do co idiano da sociedade. Dian e desse cená io, a necessidade de
uma ede de apoio se o na ainda mais e iden e, especialmen e pa a mães solo, que podem
en en a a á dua a e a de concilia esponsabilidades amilia es e p o issionais sem o supo e
adequado.
2.2.8. A ESSENCIALIDADE DA REDE DE APOIO
“É p eciso uma aldeia pa a se educa uma c iança”
19
(Melo, 2022).
O ilóso o A is ó eles a i mou que o se humano é, po na u eza, um se social, necessi ando da
in e ação com ou os memb os da sua espécie pa a alcança pleni ude e elicidade (Ala io, 2009).
Es e ilóso o ambém sus en a a que a maio ealização da condição humana só pode ia se
mani es ada a a és da con i ência social. Aplicando essa iloso ia ao con ex o con empo âneo, a
ede de apoio social eme ge como um elemen o essencial pa a o bem-es a e o desen ol imen o
dos indi íduos, sendo conside ada uma das p incipais on es de p o eção e esiliência an o a ní el
indi idual quan o amilia e comuni á io (Juliano & Yunes, 2014; Robe o Ma ques, 2022).
Um es udo conduzido pelos in es igado es Dezo i, Alexand e, Tallmann, Ma um e Mazza, pela
Uni e sidade Fede al do Pa aná (2013), concluiu que as edes de apoio social desempenham um
papel c ucial na p omoção e manu enção dos ínculos amilia es. Além disso, essas edes são
pa icula men e signi ica i as pa a o alece o po encial de um desen ol imen o in an il saudá el,
19
P o é bio A icano.
41
p opo cionando um ambien e mais segu o e en iquecedo pa a as c ianças. A pesquisa essal a
que o supo e o e ecido po essas edes não apenas acili a a coesão amilia , mas ambém
con ibui de o ma decisi a pa a o bem-es a emocional e psicológico das c ianças, a o ecendo
seu c escimen o em um con ex o de es abilidade e apoio cole i o (Dezo i e al., 2013).
Um exemplo de ede de apoio di e si icada e complexa pode se obse ado no po o indígena
b asilei o Kaingang
,
onde as c ianças ecebem a enção e cuidados disseminados po oda a
comunidade, o que con ibui pa a o desen ol imen o de sua au onomia desde a in ância. Na
es u u a amilia Kaingang, o núcleo é equen emen e cen ado em uma ma ia ca, em o no da
qual se o ma uma ede de mulhe es que se apoiam mu uamen e em di e sas a i idades, desde
o abalho na oça a é a amamen ação dos ilhos umas das ou as. Essa complexa ede de elações
não é exclusi a dos Kaingang, mas ambém pode se encon ada em ou as e nias dos po os
o iginá ios, como os Tapayuna, que u ilizam a mesma pala a pa a designa “pai” e “ io”,
e le indo uma equi alência de pa en esco e esponsabilidade (D ehe , 2016).
In elizmen e, a ealidade em que a comunidade e a amília desempenham um papel a i o na
c iação das c ianças não e le e a expe iência de mui as mães solo ao edo do mundo. No B asil,
con o me dados da Fundação Ge úlio Va gas (2024), ap oximadamen e 72,4% dos la es che iados
po mães solo não dispõem de uma ede de apoio es u u ada. Uma pesquisa conduzida pelo
po al UOL (2024) apon a que 46% das mães solo iden i icam a al a de apoio inancei o como seu
p incipal desa io, enquan o 39% ela am di iculdades em encon a supo e emocional. Ou os 37%
mencionam a di iculdade de concilia o abalho com o cuidado dos ilhos, 37% a o ganização da
o ina e 37% ausência de uma ede de apoio ge al. Esses dados e idenciam a ulne abilidade de
á ias mães solo, não somen e b asilei as, mas de mães ao edo do mundo, que en en am
múl iplas demandas sem o supo e necessá io pa a ga an i seu bem-es a e o de suas amílias.
A al a de uma ede de apoio consis en e con igu a-se como um desa io c ucial pa a as mães solo,
uma ez que a ausência de um cônjuge ou pa cei o implica em um supo e signi ica i amen e
mais limi ado. Essa limi ação a e a não apenas o apoio inancei o e emocional, mas ambém a
assis ência p á ica nas a i idades co idianas elacionadas à c iação dos ilhos. A ede de apoio
desempenha um papel essencial, con ibuindo pa a que essas mães en en em com mais
segu ança e con iança os obs áculos do co idiano, ao o e ece supo e emocional, comp eensão
42
e auxílio p á ico (Oli ei a, 2023). Essa ede, que pode se compos a po amilia es, amigos,
memb os da comunidade, ins i uições ou se iços go e namen ais, desempenha um papel c ucial
na mi igação dos desa ios en en ados pelas mães solo. Ao ecebe em esse apoio, essas mulhe es
se sen em mais capaci adas pa a lida com as demandas diá ias, esul ando em uma maio
au ocon iança e esiliência. O acolhimen o e a solida iedade p o enien es dessa ede não só
e o çam o bem-es a emocional das mães, como ambém auxiliam no equilíb io de suas múl iplas
esponsabilidades (Oli ei a, 2023).
2.3. DESIGN, MULHERES E MATERNIDADE
2.3.1. A INVISIBILIDADE DAS MULHERES NO DESIGN: O HOMEM COMO REFERÊNCIA PADRÃO
“A ep esen ação do mundo, como o p óp io mundo, é ope ação dos homens; eles o desc e em
do pon o de is a que lhes é peculia e que con undem com a e dade absolu a”
(Beau oi , 1980)
.
O concei o de pad ão pe an e a sociedade, e e e-se a um modelo ou e e ência que se e como
base de compa ação ou o ien ação em di e en es con ex os. Esses pad ões implíci os ou explíci os
es ão en aizados na sociedade, in luenciando como os indi íduos e g upos são pe cebidos e
a ados. Essa pad onização é na u al dos se es humanos, desde que o mundo é mundo. No
en an o, o desa io eside no a o de que os se es humanos não se encaixam em um único pad ão.
Exis e uma di e sidade signi ica i a en e as pessoas, incluindo a iações em elação à o ma
ísica, co da pele, ca ac e ís icas é nicas, habilidades e condições de saúde, en e ou as. Nes e
con ex o, embo a seja c ucial econhece e conside a odas as di e enças exis en es, es a análise
se concen a á especi icamen e na o ma como a sociedade pe cebe o homem como um pad ão.
Essa p edominância masculina mani es a-se em di e sas escalas. Um exemplo é e iden e na
linguagem, especialmen e na língua po uguesa, ao se e e i a um g upo de pessoas, mesmo que
seja compos o majo i a iamen e po mulhe es, o e mo a se u ilizado é “eles”. Além disso, é
equen emen e emp egado como sinônimo de “se es humanos” o e mo “homens”. Essa p á ica,
embo a apa en emen e ino ensi a, ilus a uma o ma su il de exclusão.
Nou a escala, emos como exemplo um cole e a p o a de balas que é um Equipamen o de
P o eção Indi idual (EPI) p oje ado pa a sal a idas, amplamen e u ilizado po o iciais da lei. Es e
43
ma e ial balís ico, compos o po um políme o esis en e conhecido como Ke la , oi desen ol ido
pela cien is a S ephanie Kwolek em 1965, na Es ação Expe imen al da DuPon ([s.d.]). Segundo a
C iado-Pe ez (2019), a maio ia dos EPIs é p oje ada com base nas dimensões e ca ac e ís icas da
população masculina eu opeia e no e-ame icana. A pesquisa ealizada pela Re is a B asilei a de
Biome ia (2011), e o ça essa ques ão ao indica que, en e as espos as das mili a es emininas,
nenhuma conside ou as medidas dos cole es balís icos adequadas. Do o al, 39,5% classi ica am
o ajus e dos cole es como uim e 23,7% como péssimo. Além disso, 73,64% das en e is adas
ela a am que o uso do cole e balís ico in e e e nega i amen e no manuseio de seu a mamen o.
O acesso adequado aos EPIs con inua sendo um desa io signi ica i o pa a as mulhe es. De aco do
com uma pesquisa ealizada pela
Women’s Enginee ing Socie y
(WES, 2024), apenas 4% das
en e is adas a i ma am que seus EPIs se ajus am de o ma ap op iada. As mulhe es encon am
di iculdades em adqui i EPIs que a endam adequadamen e às suas necessidades, ela ando que
os equipamen os disponí eis cos umam se descon o á eis e es i i os. Como consequência,
algumas op am po modi ica os EPIs po con a p óp ia, enquan o ou as, em ce os casos,
abandonam comple amen e o uso desses equipamen os. Além disso, o es udo e ela que os EPIs
disponí eis a amen e conside am as a iações ísicas que oco em du an e a mens uação,
g a idez ou menopausa, o que ag a a ainda mais os desa ios en en ados pelas mulhe es no
ambien e de abalho.
Além de inclui iscos sé ios de ida associados ao uso inadequado e a ausência de EPIs, esses
equipamen os, quando não p oje ados com as pa icula idades emininas em men e, podem ge a
a é cons angimen os. A pesquisa da WES (2024) ambém des aca que, quando os EPIs são
di ecionados especi icamen e pa a mulhe es, o design ende a u iliza co es como osa ou oxo,
di e enciando-as isualmen e de seus colegas homens, o que pode causa descon o o.
Con e gindo com essa pesquisa, C iado-Pe ez (2019), apon a que as adap ações de p odu os
ol ados pa a o público eminino são g a emen e insu icien es em di e sos se o es, especialmen e
no campo dos ele ônicos e da ecnologia. A au o a essal a que a ino ação di ecionada às
mulhe es em, his o icamen e, se limi ado a mudanças supe iciais e es é icas, como ans o ma
p odu os em joias ou simplesmen e al e a sua co pa a osa, em ez de abo da ques ões eais
e desen ol e soluções que a endam de o ma e e i a às necessidades das mulhe es.
50
“caixa de ma e nidade” inlandesa e ecnologias como os aplica i os FeedFinde e Babysi s
ilus am o pode do Design Thinking e do design cen ado no se humano pa a apoia as mães
em momen os c uciais, desde o cuidado neona al a é a amamen ação em público e a busca po
cuidado es in an is. O c escimen o desse campo des aca a impo ância do deba e con ínuo sob e
a ma e nidade como uma ca ego ia social e polí ica, onde o design pode desempenha um papel
ans o mado .
2.3.3. DESIGN E TECNOLOGIA COMO FERRAMENTAS DE APOIO PARA MÃES SOLO
“A o ma como amos i e a ma e nidade depende não só das p á icas que possamos le a a
cabo, mas ambém do meio onde se exe ça essa ma e nidade”
(Vi as, 2019)
.
A ida de uma mãe é eple a de desa ios, e pa a mães solo, esses obs áculos podem se ainda
mais e iden es, especialmen e quando não há uma ede de apoio disponí el. Nesse con ex o, o
design pode desempenha um papel undamen al ao c ia soluções que o e eçam supo e e e i o,
acili ando o acesso a ecu sos, o e ecendo às mães solo ou as o mas de ede de apoio.
No inal de 2023 o es údio de a qui e u a pa isiense Cu wo k
(2024) inaugu ou aos a edo es de
Pa is, o p imei o
co-li ing
23
do mundo ol ado exclusi amen e pa a amílias monopa en ais. Esse
p oje o ino ado o e ece a essas amílias a opo unidade de i e em mais p óximos, p omo endo
apoio mú uo e comba endo a solidão de pais e mães solo. O ambien e oi p oje ado pa a
p opo ciona um espaço de con i ência acolhedo , com á eas p i adas adap adas an o pa a
adul os quan o pa a c ianças, além de espaços comuns onde as amílias podem in e agi e se
ajuda . A es u u a do
co-li ing
é o ganizada em ês ambien es p incipais: um dedicado
exclusi amen e às c ianças, ou o ol ado pa a os adul os, e um e cei o des inado ao encon o
cole i o de odas as amílias. Essa di isão oi pensada pa a ga an i que cada g upo enha seu
p óp io espaço, ao mesmo empo em que se omen a o con í io comuni á io (F ea son, 2024).
Es e p oje o e idencia a necessidade de adap ação de design habi acionais às no as con igu ações
amilia es, econhecendo que o modelo de amília nuclea deixou de se a no ma p edominan e.
23
Co-li ing
: É um modelo de habi ação compa ilhada no qual cada indi íduo possui um qua o p i a i o, com ou
sem banhei o in eg ado. O concei o isa p opo ciona uma con i ência comuni á ia, pau ada pela economia de
ecu sos e pela p omoção de um es ilo de ida sus en á el (M. Sil a, 2022).

51
A inicia i a busca, assim, p omo e uma con i ência mais colabo a i a e solidá ia, a endendo às
demandas con empo âneas das amílias monopa en ais.
Uma pesquisa ealizada
pela Ohio S a e Uni e si y Wexne Medical Cen e
(2024), nos Es ados
Unidos, e elou que ap oximadamen e 66% dos pais e mães ela am sen imen os de isolamen o
ou solidão, e 79% exp essam o desejo de se conec a com ou os pais ou mães de alguma o ma.
No con ex o dos elacionamen os amo osos, con o me apon ado po Kaniuk (2023), pelo po al
de no ícias Daily Mail, um em cada qua o indi íduos a i ma que não se en ol e ia oman icamen e
com pais sol ei os ou mães sol ei as. Além disso, um es udo conduzido pela pesquisado a Baliana
(2013) na Uni e sidade de Lisboa, indicou que mães solo en en am maio es di iculdades em
es abelece elacionamen os em compa ação aos homens.
De aco do com a emp esa desen ol edo a de aplica i os de encon os Ma ch G oup
([s.d.]), é
comum que pais e mães solo sejam igno ados em pla a o mas de elacionamen o ao
menciona em que possuem ilhos. A pesquisa da emp esa demons ou que 54% dos pais e mães
solo ela am se igno ados após o p imei o encon o. Com base nessas cons a ações, a emp esa
desen ol eu o aplica i o S i
(Figu a 7), ol ado exclusi amen e pa a pais e mães solo, isando
p opo ciona um espaço mais inclusi o e ecep i o pa a esse público (Ma ch G oup, [s.d.]; S i ,
[s.d.]).
O aplica i o S i
é um se iço de encon os online desen ol ido especi icamen e pa a pais sol ei os,
c iado pela Ma ch G oup, a qual é esponsá el po di e sos aplica i os de elacionamen o
popula es. Es e aplica i o oi p oje ado pa a a ende às necessidades pa icula es de pais e mães
solo que buscam es abelece elacionamen os (S i , [s.d.]). En e suas ca ac e ís icas p incipais,
des aca-se a uncionalidade “S i Time”, que pe mi e aos usuá ios encon a momen os
compa í eis em suas agendas ocupadas, acili ando o agendamen o de encon os. Pa a assegu a
a segu ança dos usuá ios, o S i implemen a um igo oso p ocesso de e i icação de pe il. Além
disso, a pla a o ma o e ece ecu sos de comunicação que pe mi em a oca de mensagens e a
in e ação en e os pais e mães solo. O obje i o do S i é c ia um ambien e p opício pa a que pais
e mães solos possam se conec a com indi íduos que comp eendem seu es ilo de ida e
esponsabilidades, p omo endo assim a busca po elacionamen os signi ica i os. O aplica i o es á
disponí el em di e sas egiões ao edo do mundo (S i , [s.d.]).
52
Figu a 7. Aplica i o S i
Fon e: h ps://play.google.com/s o e/apps/de ails?id=com.ma ch.and oid.s i &hl=p _PT -
acessado em 16/10/2024
Ou o bom exemplo ecnológico de apoio é o aplica i o ancês Mama Bea s
(Figu a 8), que é uma
inicia i a ol ada pa a o supo e às mães solo, com o obje i o de acili a a ida dessas mulhe es
po meio da disponibilização de di e sos ecu sos e ações de apoio. Es e aplica i o o e ece uma
a iedade de uncionalidades que isam p opo ciona um supo e pa a esse público. En e os
ecu sos disponí eis, des acam-se
wo kshops
p esenciais e online, um clube de assina u as
i uais que p opo ciona di e sas an agens, uma comunidade pa a conexão en e mães, uma loja
online com p odu os e se iços adap ados às suas necessidades, e uma
newsle e
com con eúdo
exclusi o (Mama Bea s, [s.d.]-a, [s.d.]-b).
O Mama Bea s es imula a in e ação en e mães solo po meio de um ó um, pe mi indo a oca
de conselhos ú eis, in o mações comuni á ias e acesso a con eúdos especializados. A a és da
pla a o ma, as usuá ias podem se insc e e na
newsle e
, pa icipa de
wo kshops
e acessa
ecu sos que incluem emas elacionados à ma e nidade solo, como ques ões legais, bem-es a ,
elacionamen os, pa en alidade, emp ego, o ganização e psicologia (Mama Bea s, [s.d.]-a, [s.d.]-
b). Dessa o ma, o aplica i o Mama Bea s cons i ui uma pla a o ma concebida pa a o e ece apoio
e in o mação, além de p odu os e se iços elacionados à ma e nidade. Também p omo e a
c iação de uma comunidade solidá ia, auxiliando as mães solo na supe ação dos desa ios
53
associados à monopa en alidade e na cons ução de uma ede de supo e online ecíp oco (Mama
Bea s, [s.d.]-a, [s.d.]-b).
Figu a 8. Aplica i o Mama Bea s
Fon e: h ps://play.google.com/s o e/apps/de ails?id=com.mamabea sapp&hl=en_GB&gl=US -
acessado em 24/04/2024
As inicia i as ol adas pa a o apoio a amílias monopa en ais demons am a impo ância de
adap a polí icas sociais e de design às no as con igu ações amilia es. Todos os exemplos
ap esen ados, desde o
co-lin ing
pa a amílias monopa en ais a é os aplica i os como S i e Mama
Bea s
,
a endem às necessidades especí icas de mães e pais solo, acili ando conexões e oca de
expe iências. Essas pla a o mas não apenas incen i am o con a o en e mães solo, mas ambém
con ibuem pa a a cons ução de uma ede de apoio. Assim, o design e a ecnologia se mos am
uma impo an e e amen a de auxílio pa a essas amílias.
54
3. METODOLOGIA
3.1. JUSTIFICATIVA
A e isão da li e a u a e elou a mul iplicidade de a o es e a o es que in e êm no co idiano das
mães solos, con ibuindo pa a es abelece as suas edes de apoio como um oco de in es igação
pe inen e e opo uno pa a o Design. Es e enquad amen o eó ico ambém oi undamen al pa a
ca ac e iza es a ealidade como
wicked p oblem
, e mo p omo ido po Ri el e Webe (1973) e
Jones (2014) pa a desc e e p oblemas sociais e sis émicos de con o nos nebulosos, dinâmicos
e imp e isí eis. Po sua ez, Buchanan (1992) apon a o Design Thinking como a cha e pa a
a ende à complexidade ine en e dos
wicked p oblems
., uma ez que econhece e capi aliza os
seus múl iplos elemen os na busca de soluções ap op iadas. Assim, a me odologia quan i a i a
des a in es igação undamen a-se no p ocesso de Design Thinking como desc i o po Gibbons
(2016). En endeu-se se essencial comp eende e iden i ica de manei a empá ica as
necessidades e di iculdades en en adas po mães solo, eunindo di e en es pe spec i as.
Ambicionou-se com is o des aca opo unidades de ino ação, alinhando-se di e amen e à ase
En ende no p ocesso de Design Thinking, especi icamen e nas e apas de Empa ia e De inição.
Nessa ase, busca-se não apenas en ende as i ências (dessas mulhe es), mas ambém delinea
os p incipais desa ios a se em abo dados. Assim, a pesquisa se si ua no início do p ocesso cíclico
de Design Thinking con o me ma cado na Figu a 9, onde a cole a de dados p imá ios e a sua
análise são undamen ais pa a embasa u u as soluções que a endam de manei a e icaz às
demandas le an adas (Gibbons, 2016).
55
Figu a 9. Localização da pesquisa den o do Design Thinking
Fon e: h ps://www.nng oup.com/a icles/design- hinking/ - acessado em 02/10/2024
A cole a de dados po meio de wo kshops, oi ado ada a abo dagem me odológica do Design
Pa icipa i o, que u iliza uma ampla a iedade de e amen as des inadas a en ol e a i amen e
os usuá ios no p ocesso de c iação. En e essas e amen as des acam-se
wo kshops
,
p o o ipagem, cená ios e
s o yboa ds
, jogos de design, obse ação pa icipan e e en e is as
con ex uais (Bonacin, 2004). Den e essas, os
wo kshops
se sob essaem pela capacidade de
in eg a di e sas dessas écnicas em um único e en o, o que se ap esen ou como uma opção
a o á el endo em conside ação que a disponibilidade de mães solo pa a pa icipa em a i idades
de pesquisa pudesse se limi ada. Além disso, um
wo kshop
pode ia o e ece uma opo unidade
de inclui di e sas a i idades que, embo a não sendo exclusi amen e écnicas de design, c iassem
um ambien e p opício à oca de conhecimen os e à co-c iação de soluções. Sabe-se que esse
o ma o a o ece a comunicação di e a en e as pa icipan es e a in es igado a, p omo endo uma
colabo ação e icien e e p odu i a (Ams el, 2008; Bonacin, 2004).
Dado o ca á e sensí el do ema, oi imp escindí el u iliza écnicas no
wo kshop
que
incen i assem as pa icipan es a se en ol e em na c iação de a e a os, como colagens, desenhos

56
ou modelos. De aco do com Visse , Van de Lug e Sande s (2005), du an e o p ocesso c ia i o,
as pessoas acessam e exp essam suas expe iências de manei a não- e bal, e ao explica em suas
c iações, acabam e elando emoções p o undas elacionadas às suas i ências, sen imen os e
necessidades. Essas écnicas são pa icula men e e icazes, pois pe mi em acessa dimensões da
expe iência que mui as ezes as pa icipan es êm di iculdade em a icula e balmen e.
Visse , Van de Lug e Sande s (2005) ambém a i mam que di e en es écnicas de cole a de
dados acessam a iados ní eis de comp eensão da expe iência do usuá io, colocando-o no cen o
do p ocesso de design. A Figu a 10 que ap esen a o diag ama
“Con ex mapping”
ilus a essa
elação po meio de ês iângulos, os quais demons am a conexão en e di e en es mé odos de
cole a de dados e os ní eis de conhecimen o sob e a expe iência do usuá io. Nesse modelo, as
écnicas gene a i as, como o wo kshop u ilizado nes a in es igação, possibili am que as
pa icipan es exp essem, de manei a mais acessí el, emoções, sen imen os, aspi ações e ideias
elacionadas ao u u o. Essas écnicas ajudam a explo a o conhecimen o áci o, ou seja, aspec os
das expe iências que os pa icipan es possuem, mas que êm di iculdade em e baliza de manei a
di e a, e conhecimen o la en e, ou seja, algo que es á ocul o, não mani es o, mas que pode eme gi
sob de e minadas condições. Pode se um conhecimen o, sen imen o ou p oblema que ainda não
oi azido à supe ície ou econhecido.
Figu a 10.
Con ex mapping
Fon e: (Visse e al., 2005)
A escolha da abo dagem me odológica u ilizada nes a pesquisa oi undamen al pa a assegu a a
p o undidade e a ele ância dos dados cole ados. Op ou-se po uma me odologia quali a i a, de
o ma a ge a uma in es igação cen ada nas expe iências eais de mães solo, pe mi indo o acesso
a suas necessidades e desa ios de manei a mais ampla e signi ica i a. A u ilização de écnicas de
57
exp essão que es imulam a c ia i idade, pe mi iu que essas mulhe es exp essassem suas
emoções, sen imen os e i ências, indo além do que pode ia se cap u ado po meio de mé odos
pu amen e e bais ou adicionais. Esse en oque ga an iu não apenas uma escu a a i a e empá ica
das pa icipan es, mas ambém a iden i icação de opo unidades de ino ação, undamen ais pa a
o desen ol imen o de soluções adequadas às suas demandas. De seguida, e êm-se algumas
écnicas de exp essão e ans o mação social usadas nou as á eas, que se i am de inspi ação
pa a as a i idades dinamizadas no abalho de campo e que ie am a cons i ui um
oolki
de
design pa a u ilização u u a em con ex os compa á eis.
3.2. TÉCNICAS DE EXPRESSÃO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
3.2.1. TEATRO E PSICOLOGIA DO OPRIMIDO COMO FERMENTA DE DESIGN
“Pode se que o ea o não seja e olucioná io em si mesmo, mas não enham dú idas:
é um ensaio da e olução!”
(Boal, [s.d.])
A op essão equen emen e le a à des alo ização de se es humanos, c iando ba ei as que
di icul am a comp eensão mú ua. Nesse con ex o, a empa ia su ge como uma e amen a pa a
supe a essas limi ações, pe mi indo que as pessoas se coloquem no luga de ou as. A
capacidade de comp eende as i ências e expe iências de um ou o se humano é imp escindí el
pa a des aze p econcei os que pe pe uam a op essão (K zna ic, 2014). Quando as ozes dos
op imidos são ou idas e alidadas, c ia-se um espaço ideal pa a o diálogo e a e lexão, pe mi indo
que os indi íduos comp eendam a do e a lu a uns dos ou os, podendo en ão a empa ia não se
apenas um a o de solida iedade, mas uma impo an e ação ans o mado a social (Boal, 1991).
O Tea o do Op imido, c iado po Augus o Boal, p omo e o pensamen o c í ico, o empode amen o
e a ans o mação social dando ozes aos op imidos, pe mi indo que compa ilhem suas his ó ias
em um espaço c ia i o. Augus o Boal (1931-2009), oi um enomado di e o ea al, acadêmico,
p o esso , ep esen an e polí ico, e eado do es ado do Rio de Janei o e indicado ao P êmio Nobel
da Paz em 2008, em i ude da c iação do Tea o do Op imido (Abos, 2008). O ea ólogo ado a a
uma pe spec i a em que odas as a i idades humanas e am conside adas in insecamen e
polí icas, incluindo o ea o, no qual ia como uma o ma de exp essão que supe a o
en e enimen o pa a se o na uma pode osa e amen a de mudança social (Boal, [s.d.], 1991).
58
Com o obje i o de capaci a comunidades ma ginalizadas, o Tea o do Op imido o e ece uma
pla a o ma pa a exp essa suas ealidades e desa ios, bem como inci a a e lexão c í ica e
p omo e a ação cole i a pa a en en a as injus iças sociais. Nessa isão, o ea o se e ela não
apenas como uma mani es ação a ís ica, mas como um ins umen o de conscien ização,
capaci ação e mobilização social. Es a capaci ação ans o ma o espec ado , que em um ea o
adicional é passi o, em um sujei o a uan e, onde o espec ado passe a se o p o agonis a da
cena, endo o pode ans o mado da ação e a au onomia pa a conduzi a cena na di eção da
libe dade da ação (A aujo, [s.d.]; Boal, [s.d.], 1991).
O Tea o do Op imido se desdob a em di e sas écnicas d amá icas, en e as quais se des acam
o Tea o-Imagem, o Tea o-Fó um e o Tea o-In isí el (Boal, 1991). O Tea o-Imagem en ol e um
g upo de a o es que ap esen a uma cena es á ica, u ilizando apenas exp essões co po ais, pa a
ep esen a um p oblema especí ico. Os espec ado es, en ão, são con idados a ans o ma a
cena, "esculpindo-a" em di eção a uma si uação ideal. O Tea o-Fó um consis e em d ama iza
uma cena que ap esen a um p oblema, após o qual os espec ado es são con idados a subs i ui
ou se inclui como a o es, buscando, po meio de suas ações cênicas, p opo soluções pa a o
p oblema em ques ão. O Tea o-In isí el segue uma lógica semelhan e, mas a di e ença es á na
encenação, que é ealizada de modo a aze com que os espec ado es não pe cebam que se a a
de uma ep esen ação ea al. Essas écnicas, en e ou as desen ol idas po Augus o Boal, isam
explo a as eações humanas e omen a a c iação de soluções p á icas pa a p oblemas sociais,
possibili ando que o espec ado possa "ensaia " sua p óp ia e olução, pa icipando a i amen e
da ans o mação social (A aujo, [s.d.]; Boal, [s.d.], 1991).
Essa linha de pensamen o con e ge com a pedagogia do educado e ilóso o Paulo F ei e (1987),
que de ende a ans o mação social como um p ocesso cole i o, ealizado em comunhão com os
demais, po meio do diálogo e de ações conjun as ol adas pa a a mudança da ealidade. O
educado essal a que a conscien ização exige "opção, decisão e comp omisso", ou seja, não
bas a apenas econhece as condições de op essão, é undamen al agi de o ma conc e a pa a
ans o má-las (F ei e, 1987).
59
F ei e, assim como Boal, a i ma se imp escindí el uma ação cul u al c í ica pa a que o op imido
alcance a libe dade. De aco do com F ei e, é necessá io que o indi íduo se insi a de manei a
conscien e e e lexi a em sua ealidade, de modo que possa exe ce plenamen e sua libe dade
c ia i a e cons u i a. Isso implica que o sujei o de e se a i o, e não um esc a o do sis ema.
Como en a iza o ilóso o, "Des e modo, a p esença dos op imidos na busca da sua libe ação,
mais do que uma pseudo-pa icipação, é o que de e se : engajamen o" (F ei e, 1987).
Po mais que as e amen as de pedagogia e écnicas ea ais possam pa ece dis an es do campo
do
design de se iços, o ce ne desses concei os e p incípios se co elacionam de ce a manei a.
A ans o mação social, a libe dade c ia i a e o p ocesso cole i o coincidem com a Pedagogia do
Op imido de Paulo F ei e, com o Tea o do Op imido do Augus o Boal e pa icula men e o Design
de Se iços, que não se limi a a soluciona p oblemas écnicos ou es é icos, mas a ua como
ca alisado pa a mudanças mais en aizadas (No man, 2006), p omo endo inclusão, engajamen o
social e uma p á ica cole i a que isa ans o ma ealidades e capaci a os indi íduos a se em
p o agonis as em suas p óp ias idas. Ao conec a empa ia, colabo ação e ino ação social, essas
abo dagens se complemen am, e o çando a ideia de que o design pode se um agen e de
ans o mação que de e i além das me as o ganizacionais, buscando impac o signi ica i o na ida
das pessoas e na sociedade como um odo.
3.2.2. CÍRCULO DE SUPORTE E A NECESSIDADE DE INCLUSÃO
"Eu pe cebi que a p óp ia exposição é um luga onde as pessoas podem es a em um espaço que
ep esen a, plenamen e, a aleg ia de i e em um mundo onde as di e enças de odos são
ap eciadas."
(Snow, 2015)
24
O se es humanos são se es sociá eis e essa na u eza de i e em sociedade é essencial pa a o
desen ol imen o e a sob e i ência da espécie. A in e ação social em sido c ucial pa a a o mação
de g upos, comunidades e sociedades, pe mi indo que os indi íduos compa ilhem ecu sos,
conhecimen os e expe iências. As elações in e pessoais não apenas p omo em um senso de
pe encimen o e iden idade, mas ambém desempenham um papel i al na saúde men al e
24
T adução pela au o a:
"I’ e ealized ha he ac ual exhibi i sel is a place whe e people can be in a space ha ully
ep esen s he joy o being in a wo ld whe e e e ybody’s di e ences a e app ecia ed."
66
indi idualmen e. O p oje o de in es igação oi explicado de o ma sucin a a odas elas. Des as, oi o
con i ma am a pa icipação, mas duas acaba am não podendo compa ece na da a p opos a. O
con a o inicial e subsequen e oi ealizado a a és do aplica i o de mensagens
Wha sApp
, pelo
qual oi en iada a Folha In o ma i a. Após o en io, as seis mulhe es con i ma am no amen e a
p esença. No en an o, no dia combinado, uma pa icipan e e e que desis i , po que seu bebê
icou doen e e não inha apoio disponí el. Dessa o ma, a in es igação p osseguiu com cinco
pa icipan es. A pa i des e pon o, o g upo des e
wo kshop
se á e e ido como GB (G upo B asil).
Em Po ugal, a in es igado a en ou eplica o mesmo p ocedimen o ealizado no B asil,
compa ilhando in o mações sob e o es udo em suas edes sociais e nas de e cei os. No en an o,
essa abo dagem não ap esen ou esul ados signi ica i os. Conside ando que, di e en emen e do
B asil, a ede social Facebook possui maio in luência em Po ugal, a in es igado a decidiu di ulga
a pesquisa em di e sos g upos des inados a mães solo em di e en es egiões do no e do país,
mencionando a Uni e sidade do Minho como o ma de demons a ele ância e c edibilidade.
Mesmo assim, essa es a égia não e e o e ei o espe ado.
Em seguida, oi ado ada uma abo dagem mais incisi a, en ando em con a o indi idualmen e po
mensagem di e a com as mulhe es desses g upos, ap esen ando-se e explicando o p opósi o da
in es igação. In elizmen e, essa en a i a ambém não ob e e êxi o. Reconhecendo o alo que a
pe spec i a das mães solo de Po ugal pode ia ag ega ao es udo, a in es igado a op ou po
con a a algumas associações que apoiam mães solo. Uma dessas associações demons ou
in e esse em colabo a , possibili ando a ealização do
wo kshop
. A in o mação sob e a pesquisa
e os c i é ios de pa icipação o am ap esen ados à assis en e social esponsá el, que en ão
selecionou cinco pa icipan es e de e minou a da a mais con enien e pa a as pa icipan es. A pa i
des e pon o, o g upo des e
wo kshop
se á e e ido como GP (G upo Po ugal).
4.2. RECOLHA DE DADOS
4.2.1. ESTRUTURA DOS
WORKSHOPS
E FERRAMENTAS
O plano de in es igação con emplou a ealização de um
wo kshop
em cada país, cada um com a
pa icipação de cinco mães solo, com du ação es imada de 2h30min po sessão. Ambas as
sessões o am cuidadosamen e planejadas pa a segui a mesma es u u a, sequência de
a i idades e ap esen ação de con eúdo, ga an indo a uni o midade me odológica en e os g upos.

67
Conside ou-se de ex ema impo ância euni p esencialmen e as pa icipan es, pe mi indo que
compa ilhassem suas his ó ias de ida e expe iências pessoais. Esse encon o p esencial oi is o
como essencial pa a omen a discussões signi ica i as e c ia um ambien e de oca de
expe iências, acili ando a c iação de laços de con iança e empa ia en e as mulhe es e com a
in es igado a. Desse modo, a es u u a do
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oi elabo ada com o in ui o de p omo e a
in e ação en e as pa icipan es, seguindo o o ma o suma iado na Tabela 1.
Tabela 1. Es u u a do
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A i idade
Du ação
Obje i os
Ma e iais
Ap esen ação
5 min.
• Ap esen a o ema e a
in es igado a;
• Escla ece dú idas;
• Ob e o consen imen o in o mado;
• Folhas de
consen imen o
in o mado
• Cane as
Quem sou eu?
25 min.
• Conhece as pa icipan es;
• Incen i a o en osamen o do g upo;
• Comp eende como elas se
pe cebem an o como mães quan o
como mulhe es no con ex o da
ma e nidade;
• Imp essão dos
ca ões (ANEXO 3
e ANEXO 4)
• Lápis de co
• Re is as
• Tesou a
• Cola
Supe mãe
20 min.
• Conhece as pa icipan es;
• Mapea pequenos obs áculos e
supe ações;
• Reconhece suas expe iências;
• Es imula a e lexão sob e ede de
apoio ma e na;
• Analisa a sob eca ga ma e na;
• Imp essão dos
ca ões (ANEXO 5)
• Cane as
Meu cí culo de
supo e
25 min.
• Facili a a e lexão e a
conscien ização das mães solo
sob e suas edes de apoio
exis en es;
• Imp essão dos
ca ões (ANEXO 6)
• Cane as
68
• Auxilia as pa icipan es na
iden i icação e ca ego ização das
di e en es edes de apoio
disponí eis em suas idas;
• P omo e a comp eensão da
impo ância de cada ipo de ede de
apoio;
• In es iga os aplica i os mais
u ilizados pelas mães solo pa a
en ende as necessidades
ecnológicas das pa icipan es;
In e alo
25 min.
Con o do op imido
40 min.
• In es iga as expe iências de
op essões elacionadas com a ede
de apoio das mães solo;
• P omo e a e lexão c í ica sob e as
causas da op essão;
• Cons ui soluções cole i as pa a os
desa ios en en ados;
• Ca olina
• Cane as
•
Pos -i
Re lexão inal
5 min.
• P omo e uma e lexão dos
esul ados encon ados;
• Ag adece a pa icipação;
O
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oi iniciado com a explicação de alhada e a assina u a do Te mo de Consen imen o
In o mado. Em seguida, a in es igado a ap esen ou-se às pa icipan es, jun amen e com a
exposição dos obje i os da in es igação (Figu a 13).
69
Figu a 13. Ap esen ação da in es igado a e assina u a do Consen imen o In o mado do GB
Fon e: Fo o i ada pela D a. Helena Alpini
A a i idade Quem sou eu? oi inspi ada na canção "Dom de Iludi ", de Cae ano Veloso, na qual
o a is a can a: “Cada um sabe a do e a delícia de se o que é”. Es a a i idade oi desen ol ida
com o p opósi o de p opo ciona às pa icipan es uma opo unidade de exp essa , de manei a
lúdica, a o ma como pe cebem a si mesmas enquan o mães. A a i idade buscou ep esen a , de
modo simbólico, an o as “do es” e quan o as “delícias” de se em mães solo. Além de omen a
a au o e lexão e o compa ilhamen o de sen imen os, es a a i idade uncionou como uma
es a égia inicial de queb a-gelo. Seu in ui o e a c ia um ambien e mais acolhedo e segu o,
acili ando que as pa icipan es se sen issem con o á eis e dispos as a discu i emas mais
complexos e p o undos nas a i idades subsequen es. Ao p omo e esse p imei o ní el de conexão,
a a i idade busca a o alece os laços de con iança en e as pa icipan es, incen i ando a pa ilha
de expe iências pessoais de o ma mais abe a e genuína (Figu a 14).
70
Figu a 14. A i idade Quem sou eu? do GP
Fon e: Fo o i ada pela au o a
A a i idade Supe Mãe oi inspi ada em uma memó ia da mãe da in es igado a, que, du an e
sua in ância, cos uma a dize que deseja a e os supe pode es da pe sonagem da sé ie de
comédia de 1965,
Jeannie é um Gênio
, pa a, com um simples aceno com a cabeça, a uma a
casa como em um passe de mágica. Embo a essa a i mação semp e pa ecesse eng açada, é
e iden e que ela e ela sinais de sob eca ga ma e na. Dessa o ma, a a i idade p opôs que as
mulhe es iden i icassem qua os aspec os p incipais da sua ealidade. P imei o, de ini o nome da
sua supe -he oína, depois de e iam de ini quem é seu “b aço-di ei o”, ou seja, a pessoa ou
elemen o que se e como o p incipal pila de sua ede de apoio. Em seguida, de e iam apon a
sua “c ip oni a” ou “ ilão”, aquela pessoa ou si uação que mais lhes causa descon o o ou i a
sua paz, pe mi indo iden i ica as p incipais on es de es esse ou di iculdades. Po im, as
pa icipan es o am con idadas a nomea quem in eg a sua “liga da jus iça”, ou seja, as pessoas
que azem pa e de sua ede de apoio (Figu a 15).
71
Figu a 15. A i idade Supe mãe do GB
Fon e: Fo o i ada pela au o a
A dinâmica Meu Cí culo de Supo e oi desen ol ida com base no modelo
Ci cles o Suppo
(Snow, 1994) com o in ui o de explo a e comp eende as edes de apoio das mães solo. Du an e
a a i idade, as pa icipan es o am incen i adas a e le i sob e as di e en es camadas de suas
edes de supo e, ca ego izando suas elações em ní eis de p oximidade, como In imidade,
Amizade, Pa icipação e T oca. Além dessas ca ego ias, o am incluídas mais duas dimensões:
Aplica i os e Go e no, econhecendo que ambos desempenham papéis ele an es no apoio
co idiano dessas mulhe es. Essa abo dagem pe mi iu às pa icipan es iden i ica pessoas, g upos,
ins i uições, e ambém e amen as ecnológicas e polí icas públicas, que exe cem unções
essenciais em suas o inas, an o no aspec o emocional quan o p á ico (Figu a 16).

72
Figu a 16. A i idade Meu cí culo de supo e do GP
Fon e: Fo o i ada pela au o a
A dinâmica Con o do Op imido oi desen ol ida com base nos p incípios do Tea o do Op imido
(Boal, 1991) e da Psicologia do Op imido (F ei e, 1987), alinhando-se com a pedagogia de Paulo
F ei e (1987) e a ans o mação social po meio da a e de Augus o Boal (1991), ambos
de endendo que a libe ação do op imido oco e po meio do engajamen o cole i o e conscien e.
Inspi ada po essas pe spec i as, a in es igado a p opôs um con o (ANEXO 7), baseado na
minissé ie
Maid
da Ne lix (2021), que e a a a aje ó ia de uma mãe solo em si uação de
ulne abilidade. O con o se iu como pon o de pa ida pa a es imula uma e lexão c í ica en e as
pa icipan es sob e suas p óp ias expe iências de op essão, especialmen e no que se e e e às
suas edes de apoio. As pa icipan es o am con idadas a discu i se iden i ica am aspec os de
suas idas no con o e a compa ilha si uações semelhan es que i encia am. Em seguida, o g upo
oi incen i ado a p opo soluções p á icas e cole i as pa a os desa ios ap esen ados, an o no
en edo ic ício quan o em suas p óp ias ealidades. A dinâmica segue um modelo es u u ado em
se e e apas p incipais: Con o, lei u a do con o; P o agonis a, discussão sob e quem é a
p o agonis a da his ó ia; Pon o de Rup u a, discussão sob e qual é o ápice da op essão;
Deba e, incen i a um deba e sob e iden i icação ou não com o con o; Possí eis Soluções,
73
b ains o ming
de soluções; Ação T ans o mado a, escolhe a melho solução pa a o caso;
No a His ó ia, e con a uma no a his ó ia. O ence amen o do
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incluiu ag adecimen os
às pa icipan es e uma e lexão sob e os p incipais pon os discu idos.
4.2.2. CONTEXTO E CONFIGURAÇÃO DOS
WORKSHOPS
O p imei o
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deco eu em junho de 2024, no espaço p i ado de um edi ício em
Flo ianópolis no B asil (Figu a 17). Pa a es e
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, a in es igado a con ou com o apoio da
D a. Helena Alpini, cuja assis ência oi undamen al pa a o êxi o da ealização do GB, assegu ando
que udo oco esse con o me o planejado. Embo a as pa icipan es não enham in o mado
an ecipadamen e que a iam seus ilhos, oi p epa ado um espaço adequado pa a que pudessem
b inca , pe mi indo que as mães pa icipassem da pesquisa sem p eocupações (Figu a 18).
Adicionalmen e, oi o ganizado um ca é da a de, le ando em conside ação a p esença das
c ianças (Figu a 19).
Figu a 17. Espaço GB
Fon e: Fo o i ada pela au o a
74
Figu a 18. Espaço de en e enimen o pa a as c ianças no GB
Fon e: Fo o i ada pela au o a
75
Figu a 19. Ca é se ido ao GB
Fon e: Fo o i ada pela au o a
O segundo
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deco eu em julho de 2024, numa associação de uma cidade média do
No e de Po ugal, que em como inalidade man e um se iço de p o eção à in ância e ju en ude,
que acolhe mães jo ens. O a o de a in es igado a não possui uma ampla ede de con a os na
egião e a associação es a localizada em uma á ea mais dis an e limi ou a disponibilidade de
apoio du an e a ealização do
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. A única pessoa disponí el pa a auxilia na o ganização
oi seu companhei o, que con ibuiu apenas com a p epa ação logís ica. No en an o, conside ando
que a associação a ende, en e ou as pessoas, sob e i en es de abuso sexual, a en ada de
homens no local e a es i a, uma no ma que oi igo osamen e cump ida. Consequen emen e, a
ausência de supo e adicional du an e as a i idades esul ou em um núme o eduzido de
o og a ias egis adas.
No
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ealizado de Po ugal, a Folha In o ma i a oi p imei amen e en egue apenas à
assis en e social esponsá el. Assim, o nou-se necessá io, an es de qualque ou a a i idade,
p o idencia a dis ibuição da Folha In o ma i a imp essa pa a as pa icipan es (Figu a 20). À
semelhança do
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an e io , oi p o idenciado um ca é da a de ao GP (Figu a 21).
82
Figu a 27. A i idade Quem sou eu? da B2
A pa icipan e B2, de 35 anos de idade, é mãe de uma menina de 10 anos. Ca ac e izada po um
espí i o jo em e li e, B2 possui uma pe sonalidade o imis a e i e com in ensidade, demons ando
cla eza em elação às suas p io idades, man endo uma isão cla a de suas p io idades. Isso ica
e iden e, po exemplo, quando ela desenha (Figu a 27) o namo ado de o ma
desp opo cionalmen e pequena em compa ação a ela e à ilha, indicando que ele não ocupa o
p imei o luga em sua ida. A sua ede de apoio é uma das mais bem es u u adas, ao se compa a
com ou as pa icipan es. A ualmen e, B2 exe ce a unção de analis a de ma ke ing em uma
g ande ede de supe me cados a acadis as, enquan o p ossegue seus es udos na á ea de
publicidade e p opaganda.

83
Figu a 28. A i idade Quem sou eu? da B3
A pa icipan e B3, de 26 anos, é mãe de uma menina de 6 anos e um menino de 2 anos. Ela se
au odesc e e como endo um empe amen o o e, ao mesmo empo em que demons a se
amo osa e con ian e. Seu pila é sua é, p a ican e de umbanda
26
, B3 emp eende em colabo ação
com sua ia no se o de p odu os pe sonalizados. Con o me desenhado, B3 des aca que, em odos
os luga es que ai, es á semp e ca egada com malas e bolsas dos seus ilhos (Figu a 28). Como
pa e de seu comp omisso con ínuo com o desen ol imen o pessoal, B3 es á a ualmen e
es udando se iço social.
26
Religião a o-b asilei a (Enciclopédia Signi icados, [s.d.]).
84
Figu a 29. A i idade Quem sou eu? da B4
A pa icipan e B4, de 39 anos, é mãe de duas ilhas, uma de 11 anos e ou a de 8 anos. B4 é
uma pessoa comunica i a, expansi a, didá ica e espi i ualizada, com uma conexão p o undamen e
en aizada com a dança, a p aia e a na u eza. A B4 exp essa is eza e exaus ão con o me ilus a
na imagem (Figu a 29), exp essa ambém uma conside á el insa is ação em elação ao pai de
suas ilhas, cuja a sua ausência e al a de apoio êm sido um desa io cons an e em sua ida. A B4
é isio e apeu a au ônoma, ge indo seu p óp io es údio, o que con ibui com uma pe spec i a
ele an e sob e os desa ios e es a égias de equilib a a ida p o issional e as esponsabilidades
ma e nas como mãe solo.
85
Figu a 30. A i idade Quem sou eu? da B5
A pa icipan e B5, de 35 anos, é mãe de dois ilhos: um menino de 14 anos e uma menina de 8
anos. Recen emen e, sua ilha mais no a oi diagnos icada com au ismo de ní el de supo e 1
27
,
le ando a B5 a deixa seu emp ego pa a dedica -se in eg almen e ao cuidado da ilha. Assim como
B2, B5 em uma ede de apoio bem es u u ada, i endo com sua mãe e sua ia na mesma casa.
Sua é é seu maio supo e, é p a ican e de umbanda, o nando o e ei o
28
seu segundo la . Além
disso, B5 é passis a em uma escola de samba, u ilizando a dança ambém como uma o ma de
equilíb io men al. B5 em uma con icção mui o o e em se um exemplo pa a seus ilhos e, po
isso, dá g ande impo ância à sua apa ência, semp e buscando es a boni a. Ela des acou esse
aspec o ao se desenha (Figu a 30) usando o seu es ido a o i o, um es ido ama elo.
27
O au ismo é uma neu odi e gência com di e en es ní eis de supo e. O ní el 1, que é o mais le e, az pa e de
uma escala que ai a é o ní el 3. (Tuchlinski, 2022)
28
Te ei o é um espaço sag ado des inado à ealização de i uais, cul os e celeb ações da umbanda. (Enciclopédia
Signi icados, [s.d.])
86
G upo P
Figu a 31. A i idade Quem sou eu? da P1
A pa icipan e P1, com 20 anos, é mãe de uma bebê que acompanhou o
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G2, sendo
segu ada no colo pela in es igado a du an e as a i idades. P1 ansmi e uma o e independência
e de e minação. Em sua pe spec i a, odas as escolhas e possí eis e os em sua aje ó ia de ida
são exclusi amen e de sua esponsabilidade, sem espe a apoio de qualque o ganização ou
mesmo de sua amília. Apesa da pouca idade, ela demons a um pleno amadu ecimen o e uma
a i ude esolu i a dian e da ida, ambém demons ando o con li o de emoções, con o me
desenhou (Figu a 31).
87
Figu a 32. A i idade Quem sou eu? da P2
A pa icipan e P2, a mais jo em des e es udo, em 19 anos e é mãe de uma bebê de quase 2
anos. Ela se mos a uma mulhe descon aída, le e e bem-humo ada, mas ambém é di e a e, ao
que pa ece, ca ega algumas do es pessoais. Ao se ques ionada pela in es igado a sob e o
signi icado dos aços e melhos em seu desenho (Figu a 32), P2 não o e eceu uma espos a
di e a, mas suge iu, de o ma implíci a, que pode ia es a elacionada a compo amen os
au odes u i o. Em pleno p ocesso de amadu ecimen o, P2 con a com um apoio signi ica i o de
sua amília e da associação da qual pa icipa.

88
Figu a 33. A i idade Quem sou eu? da P3
A pa icipan e P3, de 25 anos, é mãe de dois meninos, um de 5 anos e ou o de 4, na qual ela
e e e no ex o como se uma a e a mui o di ícil (Figu a 33). Ela é uma mulhe co ajosa, sem
medo do julgamen o das pessoas, não hesi a em expo seus aumas e mos a suas cica izes.
De e minada e esilien e, P3 enxe ga cada so imen o que en en ou como uma opo unidade de
ap endizado. Ela ac edi a que essas expe iências a o na am uma mãe ainda melho ,
especialmen e no es o ço de não epe i os e os de sua p óp ia mãe. Embo a e i e c ia aízes
pelos luga es po onde passa, numa en a i a de e i a o so imen o, ela é capaz de aze qualque
coisa pelos seus ilhos.
89
Figu a 34. A i idade Quem sou eu? da P4
A pa icipan e P4, com ap oximadamen e 24 anos e um menino de quase 6 anos, é a mulhe
mais ese ada des e es udo. Ela exp essa di e sas do es, angús ias e emoções, mas op ou po
ep imi essas mani es ações du an e as discussões, equen emen e pedindo desculpas po não
ala nada, o que oi cons an emen e espei ado. Em á ias ocasiões, demons ou g ande emoção,
e idenciando um o e desejo de se exp essa , mas acabou se con endo, o que pode signi ica
algum so imen o e con li o in e no. En e odas as pa icipan es, ela oi a que menos desenhou
acessó ios ou oupas, op ou p incipalmen e po esc e e e inclui algumas exp essões (Figu a 34).
Essa escolha pode indica a di iculdade em encon a o mas adequadas de comunicação ou o
eceio de se expo emocionalmen e.
90
Figu a 35. A i idade Quem sou eu? da P5
A pa icipan e P5 em 20 anos e um menino de 2 anos. Apaixonada pelo pe sonagem animado
S i ch
. Seu desenho (Figu a 35) e le e uma pa e da sua pe sonalidade, uma mulhe aleg e,
demons ando se o ex emo de sensações, des acando-se po sua sensibilidade acen uada. Ao
ala sob e seu ilho, se emociona acilmen e, e idenciando um p o undo amo e apego po ele.
Essa conexão se mani es a na sua disposição pa a compa ilha o og a ias e ela a as eações
do ilho em di e sas si uações, o que não apenas essal a seu a e o, mas ambém indica a
impo ância dessa elação em sua ida.
As di e enças en e os g upos são e iden es: enquan o o G upo B é compos o majo i a iamen e
po mulhe es mais elhas, o G upo P é o mado po mulhe es mais jo ens. No G upo B, a maio ia
das pa icipan es possui dois ilhos, enquan o no G upo P a p edominância é de mulhe es com
apenas um ilho. Além disso, odas as mulhe es do G upo P es a am inculadas a uma associação,
podendo is o se um indicado de maio ulne abilidade social, ao passo que as pa icipan es do
91
G upo B pa ecem pe ence a uma classe social média, buscando es udos e buscando uma
ca ei a mais consolidada. Apesa das dis in as ealidades ep esen adas pelos g upos, os dados
cole ados ap esen am g ande ele ância pa a o ema ge al do es udo.
4.4.2. MAPA TEMÁTICO
Após a classi icação de odas as alas em ca ego ias especí icas, oi elabo ado um mapa emá ico
(Figu a 37) pa a consolida as ca ego ias em emas coe en es. Esse p ocesso isou não apenas a
o ganização dos dados em ca ego ias signi ica i as, mas ambém ap esen a esul ados de o ma
anspa en e e comp eensí el. Cada seção que se segue ep esen a um ema e, den o de cada
um, as ca ego ias se ão des acadas em neg i o e as
subca ego ias
se ão ap esen adas em
i álico. O mapa emá ico pe mi iu uma isualização es u u ada, acili ando a iden i icação das
o igens dos esul ados e ga an indo que as ca ego ias e le issem de manei a p ecisa as emá icas
ele an es. O mapa emá ico oi elabo ado a pa i do Diag ama de A inidades (ANEXO 8 e Figu a
36), que o ganizou e ca ego izou em emas os assun os discu idos pelas pa icipan es, os quais
se ão explicados indi idualmen e.
Figu a 36. Diag ama de a inidades (ANEXO 8)
98
Como a P3 esc e e no seu desenho (Figu a 33) da a i idade “Quem sou eu?”. Essa mani es ação
emocional, pode des aca a in ensidade de sen imen os elacionados a ma e nidade, mos ando
uma sob eca ga emocional no dia a dia des as mães. Inclusi e a P1 a i ma: “Cho a ... sim... po
ezes eu como... se mãe é cho a .”
A subca eg ia
Con usão e Con li o In e no
e idencia a dualidade de sen imen os, a deso dem
men al e a con usão que mui as mães en en am, a sob eca ga emocional equen emen e
associada à ma e nidade. A necessidade de apoio psicológico oi mencionada di e sas ezes pelas
pa icipan es, e uma ala signi ica i a de B1 exempli ica bem essa ques ão: “E a minha men e
ambém, quando ela que me e a , ela é minha maio inimiga.”
A subca ego ia
Cansaço, Sob eca ga e Exaus ão
abo da os sen imen os associados à sob eca ga
ma e na, e idenciando o quão sob eca egadas es ão as mães em elação a emoções, a e as,
ob igações e esponsabilidades. Es a subca ego ia e le e a in ensidade das p essões en en adas
pelas mães, des acando os desa ios ísicos e emocionais que ca ac e izam sua i ência co idiana.
A sob eca ga, an o emocional quan o de esponsabilidades, é um ema eco en e nas na a i as,
e idenciando a necessidade de apoio e comp eensão no con ex o da ma e nidade. As expe iências
compa ilhadas essal am a impo ância de econhece e alida os desa ios que as mães
en en am.
Es a sob eca ga é um ema pe cebido de manei a gene alizada en e odas as pa icipan es, an o
do g upo GB quan o do GP. Nis o, a única exceção oi a pa icipan e B2, que demons ou sen i
uma meno sensação de sob eca ga, possi elmen e po con a com uma ede de apoio mais
ampla, especialmen e ago a que sua mãe passou a esidi na mesma cidade.
Embo a as alas da pa icipan e B2 não es ejam exclusi amen e inse idas na ca ego ia de
sob eca ga, em di e sos momen os ela menciona suas ob igações domés icas, a con usão men al
e a di iculdade em equilib a ma e nidade, es udos, abalho e ida social. Um ela o
especialmen e signi ica i o ei o pela pa icipan e e e e-se à di iculdade en en ada de ido à
ausência de apoio do pai da c iança. Ela con a uma his ó ia na qual a al a de uma ede de apoio
adequada du an e a p imei a in ância de sua ilha esul ou na necessidade de abandona seu
emp ego na época.

99
Essa sob eca ga e cansaço se e le em de manei a signi ica i a em di e sos momen os e
p incipalmen e nas alas das pa icipan es, mui as ezes ca egadas de emoção e om de
desaba o. As na a i as e elam o impac o p o undo do acúmulo de esponsabilidades sob e a
saúde ísica e men al dessas mulhe es, e idenciando a exaus ão deco en e da necessidade
cons an e de equilib a múl iplas unções. Esse sen imen o é bem e idenciado no desenho da B4
na Figu a 29, acompanhado po um ela o p o undamen e impac an e, onde demons a uma
p o unda sensação de sob eca ga emocional, ísica e men al associada à sua expe iência de
ma e nidade solo. Sua ala exp essa exaus ão ex ema, ai a e us ação, especialmen e em
elação à desigualdade de esponsabilidades en e ela e o pai de suas ilhas. B4 desc e e uma
o ina in ensa, na qual ela en a equilib a di e sas demandas: cuida das c ianças, man e a casa
em o dem, abalha , e ainda lida com suas p óp ias necessidades e desejos.
A minha... é... ela es á is e, exaus a, cho ando. A coisa que eu mais sin o é exaus ão e
ai a, ai a do pai delas. Elas me chamando: mãe, mãe, mãe, mãe, mãe, mãe, e em
ho as que... meu Deus... E eu en ando equilib a udo na minha ida, né. A unção do
ho á io da escola, man e a casa com u as p a come , conseguindo p a abalha ... O
que mais eu coloquei? A casa limpa, a oupa limpa, a louça la ada. Chega 10h da noi e e
eu já es ou: 'Pelo amo de Deus, amos do mi que eu es ou mo a, né.' Que é só isso
que eu que o. E meus pensamen os, né, eu pensando que eu que o dança , que eu amo
dança , que eu que o iaja , que eu que o cu i com as minhas amigas, mas al a empo,
né. O pai delas mo a do lado da escola, sabe. É biza o, sabe, é biza o, ipo, eu enho
uma noi e li e na semana, o ca a em odos os dias li es, sabe. O que mais que eu
bo ei? E eu ambém en ando me di idi en e da a enção p a elas, cuida de mim e da
minha saúde, ou i as necessidades delas, sup i as necessidades delas, que nem semp e
eu posso, e às ezes, assim, a e ol a de sabe que ele pode, e ipo, manda um áudio
dizendo: 'Poxa, es ou p ecisando disso... e al... não sei o quê.' E a pessoa nem esponde
o áudio, sabe. É isso, a gen e bo a a ai a no bolso, e é isso, em que segui .
Essa sob eca ga ambém se e idenciou quando as pa icipan es desc e e am o supe pode que
gos a iam de possui no con ex o da ma e nidade. A maio ia dos pode es mencionados en ol ia a
capacidade de ealiza múl iplas a e as simul aneamen e, es a em á ios luga es ao mesmo
empo, e á ios b aços ou se mul iplica , sendo essa úl ima opção ci ada qua o ezes, duas no
100
GB e duas no GP. Esses ela os e le em, de manei a cla a, o peso da sob eca ga ma e na, uma
ez que os supe pode es idealizados es ão di e amen e elacionados com a necessidade de
ealiza di e sas a i idades ao mesmo empo.
A subca ego ia
Culpa
demons a que, apesa dos es o ços das mães pa a p opo ciona em o
melho pa a seus ilhos, elas ainda possuem sen imen os de culpa. Seja em deco ência da
ausência do pai, das escolhas de ida que ize am, da necessidade de dedica empo apenas a si
mesmas e a é mesmo pela al a de uma ede de apoio. Des acam-se a p essão emocional e as
expec a i as sociais não a ingidas que con ibuem pa a es e sen imen o de culpa, como exp esso
na ala da B1: “Po que quando eu enho empo, eu me culpo po e empo.”
A subca ego ia
Medo e P eocupações
engloba odas as p eocupações que as mães
demons a am, incluindo p eocupações sob e a elicidade de seus ilhos, se es ão conseguindo
sup i adequadamen e às suas necessidades como na ala da B2:
E meu pensamen o eco en e, que é se ela ealmen e es á eliz, po que hoje somos mães
sol ei as, en ão a gen e semp e acha: se á que é a al a do pai? O que pode causa ? E
semp e me ques iono: se á que eu es ou azendo a minha ilha eliz?
Também oi ela ado o eceio de que algo uim possa oco e com eles, e le indo o medo p o undo
de pe da e as ansiedades que acompanham a ma e nidade. Como P3 explica: “...mui os medos,
enho mui os medos de que algo de uim acon eça com meus ilhos. Sonho mui as ezes eles
mo e am ou assim. Tenho mui o medo e panico só a sabe que alguma coisa pode me i a
acon ece .”
A subca ego ia
Rai a
oi conside ada ele an e po euni os sen imen os de ai a exp essos pelas
mães, em sua maio ia em elação ao pai de seus ilhos. Essa ai a é equen emen e alimen ada
pela ausência do pai e pela al a de apoio nas esponsabilidades pa en ais. Além disso, as mães
demons am a p eocupação em e e essa ai a, a im de e i a que ela impac e nega i amen e
no desen ol imen o de seus ilhos.
101
4.4.5. MATERNIDADE
O ema Ma e nidade é subdi idido em se e ca ego ias: Mãe É; Desejo de Se Mãe; Mé odos
Con acep i os; G a idez; Roman ização da Ma e nidade; Sen imen o de
In isibilidade; e Ob igações.
Na ca ego ia Mãe É, o am ag upados os ela os em que as pa icipan es de inem a expe iência
de se mãe, abo dando a ideia de que a mãe a ua como um espelho pa a os ilhos, que é uma
igu a p o e o a e que a ma e nidade exige semp e um plano al e na i o. Como B1 en a iza na
Figu a 26 no exe cício “Quem sou eu”, colocando a imagem de uma onça e ela a:
P imei o, uma onça, né? Po que acho que oda mãe é ep esen ada po uma onça, po que
a gen e é como se osse uma onça p o egendo os ilhos da gen e. En ão, independen e
das ou as coisas, o início de uma mãe semp e é esse... é esse excesso de p o eção. A
gen e á semp e em busca de p o ege eles...
P3 ambém compa ilha: “Mas... é como eu digo assim, se mãe é uma mis u a de um sonho,
mas é uma emoção sem explicação. É um amo que eu nunca sen i na minha ida...”
A ca ego ia Desejo de Se Mãe ab ange as aspi ações e os anseios dessas mulhe es em elação
à ma e nidade. Um ela o ma can e em da pa icipan e mais jo em, P2, que a i mou: “É, e sendo
since a, acho que nenhuma daqui que ia se mãe, ou que ia se mãe ão cedo.” Essa decla ação
e ela não apenas a e lexão pessoal de P2, mas ambém um sen imen o compa ilhado po
mui as pa icipan es, que, embo a econheçam a beleza da ma e nidade, ambém en en am a
p essão social e as expec a i as que êm com essa esponsabilidade. A ma e nidade, pa a elas,
mui as ezes é pe cebida como um papel impos o, em ez de um desejo genuíno e planejado.
Ou a ala ma can e oi do GB, quando B2 a i mou:
Eu nunca quis se mãe, sabe... semp e i e na minha cabeça que, se eu osse mãe, eu
abo a ia
30
. Eng a idei e ago a? Ah, ou e , né, aze o quê? Hoje não i o sem minha ilha,
minha ilha é udo p a mim, mas nunca oi meu sonho e ilhos.
30
No B asil, o abo o é conside ado ilegal con o me a LEI Nº 2.848, exce o em ci cuns âncias especí icas, como em
casos de má o mação e al ou quando há isco de ida pa a a mãe, en e ou os exemplos. (Jusb asil, 1984)
102
Há uma cul u a que equen emen e desconside a o desejo das mulhe es de con ola sua p óp ia
ep odução, pe pe uando a ideia de que a ma e nidade de e se p io izada, independen emen e
da capacidade da mulhe de lida com as esponsabilidades que isso aca e a. Essa pe spec i a
não apenas limi a a au onomia das mulhe es, mas ambém con ibui pa a a desin o mação e a
al a de ecu sos adequados pa a o planejamen o amilia .
A ca ego ia Mé odos Con acep i os ab ange as alas que discu em as alhas nos mé odos
an iconcepcionais, a al a de acesso a esses ecu sos, as dú idas sob e sua u ilização e as
di iculdades en en adas pa a ealiza laqueadu as
31
, e idenciando os obs áculos que as mulhe es
encon am em seus planejamen os amilia es. Esses desa ios não apenas e le em ques ões de
saúde, mas ambém ocam em aspec os sociais e econômicos que in luenciam a au onomia das
mulhe es. Um exemplo cla o dessa ealidade pode se obse ado na ala de B4:
Eles não ealizam a laqueadu a du an e o pa o. Uma conhecida minha, que e a mui o
jo em, inha apenas in e e poucos anos e já es a a no qua o ilho. O pai dela disse:
'Pedimos pa a aze a laqueadu a, mas não conseguimos; eles não azem na ho a do
pa o, além de a i ma em que ela é no a.' É um absu do! Como uma mulhe que já em
qua o ilhos ai consegui ol a pa a aze a laqueadu a? Ela p ecisa de alguém pa a
cuida das c ianças enquan o isso.
Essa si uação e ela a us ação das mulhe es que, mesmo dian e de uma demanda cla a po
planejamen o amilia , encon am ba ei as que di icul am o acesso a mé odos con acep i os
e icazes. Além da al a de acesso à laqueadu a, ambém o depoimen o de B3 apon a pa a uma
al a de acesso ao conhecimen o sob e mé odos con acep i os:
...eu es a a omando [a pílula an iconcepcional], mas po que nem o ginecologis a às ezes
passa uma in o mação decen e p a gen e. Ele diz que a gen e em que oma um
comp imido po dia, mas se u oma es um às 10h da manhã e no ou o dia às 22h da
noi e... já e a. Po que deu o ompimen o ali no meio.
E na ala da B2:
31
Em Po ugal: Laqueação
103
eu ui na ginecologis a [...] Aí ela me disse: ‘P ese a i o é só p a doença sexualmen e
ansmissí el. A chance de e um ilho é a mesma de coi o in e ompido. A p o eção chega
a só 80%.” Eu iquei, como assim? Ninguém me con ou, como ninguém ala sob e isso?
Ou o pon o que eme giu nas discussões oi a pe cepção de que a esponsabilidade pelo con ole
da con acepção ecai, quase exclusi amen e, sob e as mulhe es. Essa dispa idade é e iden e nos
ela os das pa icipan es, como o de B3, que menciona que o pai de seus ilhos, a ualmen e
assumindo apenas pela ilha mais elha, e e mais uma ilha e pa ece segui sem qualque
p eocupação em elação ao planejamen o amilia . A ala da B3 ilus a como mui os homens se
desob igam da esponsabilidade con acep i a: “Aí ele em a [ ilha mais elha], aí ele em uma
ou a menina e o [ ilho mais no o] que não assumiu, né. Ou seja, aí ele ai azendo um ilho a ás
do ou o...”
Essa isão é e o çada pelo depoimen o de B4, que ac escen a: “Aí quem em que oma
an iconcepcional é a mulhe . O homem pode aze um mon e [de ilhos]. Pode aze á ios em
um dia.” Esse ela o e idencia um cená io onde a ca ga con acep i a é cul u almen e e
socialmen e a ibuída às mulhe es, e le indo uma desigualdade de gêne o no con ex o do cuidado
quan o ao con ole da na alidade. A ausência de co esponsabilidade masculina na con acepção
não só limi a a au onomia das mulhe es, mas ambém con ibui pa a o ciclo de g a idez não
planejada.
Na ca ego ia G a idez, são eunidas na a i as sob e o pa o, desa ios elacionados à
amamen ação e as di e en es expe iências de g a idez i enciadas po cada mulhe , en a izando
que cada ges ação e pa o são expe iências únicas. Como e ela P1: “Mas isso, acho que não é
com odas, po que eu nunca sen i nada. Nada o a do luga . G a idez anquila, pa o anquilo,
amamen ação anquila.”
A ca ego ia Roman ização da Ma e nidade ala como a sociedade enxe ga a ma e nidade, e
como impac a em suas idas. Des aca-se como a endência de minimiza as di iculdades e as
do es da ma e nidade pe pe ua a sua oman ização, le ando à ep essão de sen imen os e
expe iências desa iado as. As mães exp essam o amo po seus ilhos, mas econhecem o peso

104
das esponsabilidades associadas à ma e nidade, como na ala da P1: “Eu amo a minha bebê,
mas não sei se eu que ia odas as esponsabilidades que em com ela.”
A ca ego ia Sen imen o de In isibilidade eúne as alas em que as pa icipan es ela am a
sensação de se em in isí eis na sociedade ao assumi em o papel de mães, en a izando que o
abalho de cuidado, embo a c ucial pa a o desen ol imen o in an il, é equen emen e
des alo izado e igno ado. A pa icipan e B4, ao ag adece o oco da pesquisa, en a izou essa
ques ão:
Eu que o e ag adece ambém pela escolha do ema, né. Nós mães solo... oi ema da
edação do [Exame Nacional do Ensino Médio] desse ano, a in isibilidade do abalho do
cuidado. A gen e é as cha as, as que que em cob a o pai, a amília do pai, cob a a
jus iça... a gen e es á sendo is a, e uma pesquisa que olhe pela gen e... e alguém que
es á olhando p a uma ques ão que, ipo, é in isí el.
A ca ego ia Ob igações ab ange as alas que expõem as esponsabilidades e ob igações
a ibuídas às mães, com oco nas a e as domés icas e na ca ga que essas esponsabilidades
ep esen am em suas idas.
4.4.6. REDE DE APOIO E RELAÇÕES SOCIAIS
O ema Rede de Apoio e Relações Sociais é subdi idido em qua o ca ego ias: Relações Sociais;
De inição e Pe cepção de Rede de Apoio; Tipos de Rede de Apoio; e Fal a e
Necessidade de Apoio. Den o da ca ego ia Relações Sociais es ão ag upadas as
subca ego ias:
Ou os A e os
,
In imidade e Amizades
;
Ou os Memb os da Família como Rede de
Apoio
;
Relação en e as Mulhe es da Associação
; e
Ou as Mães Solo
.
A subca ego ia
Ou os A e os, In imidades e Amizades
abo da a p esença de ou os memb os da
amília no supo e o e ecido às pa icipan es. Conside ando que a maio pa e dessa ede de apoio
é eminina, esse ema ag upa as alas que mencionam os a uais pa cei os e amizades masculinas.
O ema
Ou os Memb os da Família como Rede de Apoio
ag upa as alas onde apa ecem odos
os ou os memb os masculinos da amília como ede de apoio, como pai da pa icipan e, seu io,
seu a ô e cunhados po exemplo.
105
O ema
Relação en e as Mulhe es da Associação
eúne os ela os do GP, nos quais as
pa icipan es desc e em a elação es abelecida en e elas no con ex o da associação em que
con i em, es e ema pode se elacionado com o ema
Empa ia e so o idade
na PÁGINA 94.
Embo a os emas sejam apa en emen e dis in os, obse a-se uma con e gência signi ica i a nos
esul ados, pois ambos e le em uma p o unda necessidade de apoio e conexão en e as mulhe es.
O GP e idencia al a de apoio en e as mulhe es, que é apon ada como um a o que ag a a o
cansaço e a solidão das pa icipan es. A ca ência de elações empá icas e de supo e é des acada
como uma limi ação impo an e pa a melho a a qualidade de ida dessas mães. Isso é ilus ado
pela ala de P3: “As mulhe es inham que se mais unidas, i ia se mais le e, mais anquilo. Se
i éssemos uma união, uma conexão maio , íamos e mais apoio umas às ou as... mas é di ícil.”
Po an o, po mais que os emas abo dados en e os dois g upos sejam sob uma pe spec i a
di e gen e sob e o apoio en e as mulhe es, o pon o em comum é en ende necessidade essencial
de so o idade e apoio en e mulhe es, suge indo que a p esença ou ausência dessas conexões
em um impac o di e o na sob eca ga dessas mães.
A subca ego ia
Ou as Mães Solo
concen a as alas que ci am ou as mães solo como pa e da
ede de apoio, essal ando a impo ância de já conhece em as p incipais necessidades umas das
ou as. No GB, a p incipal solução pa a a a i idade “Con o do Op imido” apon ada oi a ampliação
da ede de apoio, ci ando p incipalmen e ou as mães solo. A pa icipan e B2, logo no início do
deba e, des acou: “Eu acho que se ia in e essan e, ealmen e, se i esse alguma o ma de se
encon a ou as mães solos que sejam edes de apoio uma da ou a.” B3 complemen ou,
a i mando:
A é po que é mais ácil uma mãe solo con ia em ou a mãe solo do que em qualque
ou a pessoa. Tu sabes o que a ou a es á passando. Se o p a escolhe en e a [amiga]
que não em ilho e a [amiga] que em ilho, eu deixo com a [amiga] [que em ilho], po
mais que ela seja meio doida, ela já sabe como é a o ina de uma c iança, né? Tem
expe iência.
Es a subca ego ia e elou a impo ância da conexão en e mães solo como uma o ma essencial
de apoio mú uo, e idenciando como essas edes se cons i uem em um espaço de comp eensão
e oca de expe iências compa ilhadas. A c iação de uma ede de apoio en e mães solo possibili a
106
um ambien e onde suas necessidades especí icas são econhecidas e a endidas, eduzindo o
isolamen o e aumen ando a sensação de acolhimen o e pe encimen o. No GB obse ou-se uma
con iança mais o e en e as mães solo, em con as e com o GP, que não ap esen ou o mesmo
ní el de con iança, como já discu ido na subca ego ia
Con iança
na PÁGINA 94. A expe iência do
GB indicou que es e ipo de ede é acili ado pela i ência em comum dos desa ios da ma e nidade
solo, ans o mando-se em um supo e não apenas p á ico, mas ambém emocional, p omo endo
esiliência e o alecendo os laços que ajudam a supe a as di iculdades do dia a dia.
A ca ego ia De inição e Pe cepção de Rede de Apoio di idiu-se em:
Apoio É
;
Apoio Não É
; e
Geog a ia
.
A subca ego ia
Apoio É
ag upa as alas nas quais as pa icipan es de inem, a pa i de sua p óp ia
pe cepção, o que cons i ui uma ede de apoio, como, po exemplo, a ideia de que apoio signi ica
ampa o e p esença. Como exempli ica a B4:
Eu enho uma amiga que é mãe solo, que ela dizia que e a minha ma ida, po que e a
quase um casamen o, assim. Ela ia lá em casa e limpa a a é o aso sani á io. Ela dizia:
‘Não, eu chego p imei o, ai pega as meninas, eu já aço a jan a.’ Ela já inha com a ilha
dela. En ão, e a o momen o que a gen e desaba a a, ala a uma sob e a ou a. Eu
ampa a a mui o ela com a ilha adolescen e, que es a a so endo com a no a mãe do pai
e quis ba e nela. En im... e a ealmen e uma ede de apoio, aquela coisa de ampa a e
es a ali.
Po ou o lado, a subca ego ia
Apoio Não É
a a das de inições opos as, ou seja, aquilo que as
pa icipan es não conside am como sendo um supo e adequado, apon ando os a o es que não
auxiliam nesse p ocesso. Como e idenciado no ela o da B1:
Po que minha i mã manda a áudio da [ ilha mais no a] cho ando. Ai, aquilo p a mim me
da a um desespe o; e a mais ácil eu não deixa com ela do que uma pessoa que es á o
empo odo me jus i icando o que es á acon ecendo. Aí ela me manda a áudio da [ ilha
mais no a] cho ando no undo.
A subca ego ia
Geog a ia
eúne as alas em que as pa icipan es des acam que é de ex ema
impo ância a localização geog á ica da ede de apoio ma e na, podendo se um a o
107
de e minan e pa a a e e i idade desse supo e. A pa icipan e B4 ilus a essa ques ão em seu
ela o: “A ques ão da localização é bem impo an e, po que [a ede de apoio] só da a ce o quando
a gen e mo a a no mesmo bai o, po que ago a [a amiga] se mudou.” Es a ala é a con inuação
do que oi ap esen ado no ema
Apoio É
da pa icipan e B4, o mando, po an o, um ela o
comple o sob e a impo ância da p oximidade geog á ica na cons i uição de uma ede de apoio
e icaz. A capacidade de p es a supo e imedia o e equen e, como no exemplo de
compa ilhamen o de a e as domés icas e apoio emocional desc i o po B4, depende da acilidade
de acesso ísico en e as pessoas en ol idas. Quando a localização impede esse con a o p óximo,
a ede de apoio na u almen e se en aquece.
Essa ques ão ambém oi mencionada no GP, onde a pa icipan e P3 e o çou a impo ância da
p oximidade geog á ica: "Mas ambém é impo an e a localização, não é? Po que eu es ando cá
em [Cidade no no e de Po ugal], não ou pega alguém p a oma con a do meu ilho em Lisboa,
inha que se no aio da nossa zona." Po an o, a localização geog á ica o na-se um pila c ucial
na ampliação e e e i idade da ede de apoio ma e na. A p oximidade acili a não apenas o supo e
p á ico, mas ambém a o ece um en ol imen o mais p o undo e uma disponibilidade que se ia
di ícil de man e quando há ba ei as ísicas signi ica i as.
Ainda den o do ema Rede de Apoio e Relações Sociais, a ca ego ia Tipos de Rede de Apoio
es á subdi idida em se e subca ego ias:
Mulhe es como Cen o do Cuidado
;
Filho Mais Velho como
Rede de Apoio
;
Relação com a Babá
;
Go e no e Ju ídico – Aspec os Posi i os
;
Espaço Físico pa a
Pa icipação
;
T oca
; e
Vícios
.
A subca ego ia
Mulhe es como Cen o do Cuidado
ag upa os ela os em que igu as emininas,
como mães, a ós, ias e i mãs, são des acadas como o núcleo cen al da ede de apoio das
pa icipan es. Como discu ido an e io men e (PÁGINA 37), as mulhe es globalmen e assumem a
maio pa e do abalho de cuidado não emune ado, e isso se e le iu ambém nes a pesquisa.
P incipalmen e na a i idade “Meu cí culo de Supo e”, odas as pa icipan es indica am mulhe es
como o p incipal supo e, exce o a P4 que con a apenas com o namo ado e a associação como
ede de apoio. Po ém, a associação é ambém compos a somen e po mulhe es. As igu as mais
mencionadas o am mães das pa icipan es, a ós pa e nas e ma e nas das pa icipan es e,
sob e udo, amigas. Um de alhe cu ioso é que, mesmo em si uações em que o pai da c iança é
114
incluem ques ões elacionadas a pensões alimen ícias
33
e ou as ob igações mone á ias que
a e am di e amen e a ida das mães solo. Um ela o impac an e é o da pa icipan e B3, que ilus a
a ensão exis en e en e o que é conside ado supo e inancei o e a ealidade da ma e nidade solo:
Aí ele pagou e, ipo, deu 900 eais, só que ele pagou a pensão a asada, né, não oi po que
ele me deu esse dinhei o. Aí eu lemb o que pos ei no s a us, az empo assim, na ede
social, que eu es a a no ba , num e en o assim, essas coisas. Pensa no an o ele alou...
Te ju o, á. Quando ui cob a a pensão, que já es a a a asada de no o, aí ele me mandou
um áudio dizendo: “Ah, dinhei o na mão ai, né, po que u achas que eu não es ou
olhando eu s o ies
34
?” Ele bem assim, á... “Achas que eu não olho eus s o ies, uas
edes sociais? Es ás passeando, dando ol inha, en ão, ens dinhei o, né?” Não sei o que...
“Ficas me cob ando, mas usas o dinhei o odo. Te dei 900 eais, aí usas e o dinhei o odo,
e daí icas aí sen indo al a, me cob ando, me enchendo o saco.” Bem assim, á. Ah, é
po que eu não abalho? Os dois, ês meses que ele icou de endo a pensão, a menina
passa ome ago a? Po que eu não abalho? Quem es á sus en ando a menina esse empo
odo? P imei o que os 300 eais que ele dá não dá p a quase nada.
Esse ela o não apenas e idencia a us ação da pa icipan e em elação à al a de
esponsabilidade inancei a do pai, mas ambém e le e a lu a co idiana das mães solo pa a
equilib a as necessidades inancei as com as ealidades da ma e nidade. A ala de B3 ilus a a
ca ga emocional que acompanha a ques ão inancei a, onde o apoio mone á io é equen emen e
ce cado de descon iança e essen imen o, e elando a complexidade das elações en e as mães
e os pais de seus ilhos em con ex os de sepa ação ou ausência.
A subca ego ia
Pai e as Ob igações
ab ange as decla ações das mães do g upo GB que discu em
as esponsabilidades que os pais de em assumi em elação aos ilhos, essal ando a impo ância
do en ol imen o pa e no na ida das c ianças. Essas alas e idenciam a expec a i a de que os
pais não apenas con ibuam inancei amen e, mas ambém se açam p esen es emocionalmen e
na c iação dos ilhos. Um ela o emblemá ico em da pa icipan e B3, que exp essa sua p o unda
decepção em elação à ausência do pai na ida dos ilhos.
33
Em Po ugal: Pensão de alimen os.
34
Com o S o ies, é possí el compa ilha momen os diá ios e ica mais pe o das pessoas e in e esses impo an es com o os e ídeos que
desapa ecem depois de 24 ho as. (Ins ag am, [s.d.])

115
Só p a pode esumi mais ou menos, ele é o pai da [ ilha mais elha] e ambém é o pai
do [ ilho mais no o], só que ele ecusou o [ ilho mais no o] po ou a pessoa. En ão, meu
ilho é assumido po ou a pessoa que e a meu pa cei o na época quando ele nasceu, e
o pai da [ ilha mais elha] inge que meu ilho não exis e, e a [ ilha mais elha] mui o
menos.
Esse ela o não apenas ilus a a us ação de B3 em elação à esponsabilidade pa e na, mas
ambém e ela a complexidade das con igu ações amilia es con empo âneas, onde a ejeição e
a al a de econhecimen o a e am não apenas a mãe, mas ambém o desen ol imen o emocional
da c iança. A a i ude do pai em nega a pa e nidade do ilho mais no o ge a um impac o
signi ica i o na ida amilia , expondo as alhas nas ob igações que de e iam se compa ilhadas
en e os pais. A si uação en a iza a necessidade de um en ol imen o a i o e comp ome ido dos
pais, não apenas em e mos inancei os, mas, sob e udo, em seu papel a e i o, que é c ucial pa a
o desen ol imen o saudá el das c ianças.
A subca ego ia
Pai como Vilão
eme ge da p edominância de depoimen os em que as pa icipan es
ca ac e izam os pais de seus ilhos como “ ilão” na a i idade “Supe mãe”. En e as dez
pa icipan es, oi o iden i ica am o pai de seus ilhos como o p incipal " ilão" du an e o exe cício
de c ia a supe -he oína (Figu a 39). As exceções o am B1 e P2, sendo que P2, apesa de
econhece a ausência do pai, não o conside a um ilão. Já B1 demons a uma pos u a mais
e lexi a e de acei ação, a i mando: "Não há azão pa a ou a pessoa se o ilão, pois cada um dá
o que pode e o e ece o que em. Se [os pais das c ianças] êm coisas uins, isso é um p oblema
deles."
116
Figu a 39. A i idade “Supe -he oína” eco e
A pe cepção de coloca o pai de seus ilhos como ilão su ge po di e sos mo i os, a iando desde
desilusões amo osas, como no caso de P5, a é si uações mais g a es, como iolência domés ica,
ela ada po P3. No en an o, há uma con e gência nesses ela os: os pais são is os como ilões
p incipalmen e po sua ausência na ida dos ilhos, po não cump i em suas esponsabilidades e
alha em em ealiza o mínimo espe ado. Um exemplo disso é a ala de B2, que desaba a:
O ilão é o pai do Wha sApp, que é o pai da minha ilha. Ele some do mapa, mas manda
a cada um ano um: 'Feliz ani e sá io, ilha, quando pude eu ou e e .' É só isso. Às
ezes, é pio do que não manda nada, ela já nem esponde mais.
A B4 nu e um sen imen o ainda mais o e de ai a do pai de suas ilhas, que além de não
compa ilha das esponsabilidades com as c ianças, se empenha em o na sua ida mais di ícil.
Es e sen imen o é e idenciado em di e sos momen os:
Que ia e o pode de magia, b uxa ia, po que, às ezes, eu que ia assim... po que eu
desejo an o o mal dele, eu que ia que ele caísse. Quando ele az uma comigo, eu alo:
‘Ca a, eu que ia que u caísses, ba esse no chão...’ Às ezes eu que ia. Se eu sou b uxa
mesmo, eu penso que ele caia, que dê udo e ado na ida dele. Aí depois eu me
a ependo, mas na ho a da ai a, assim... Eu que ia se , á. [...] O ilão é o pai delas, né,
117
e ele az ques ão de se mesmo [o ilão]. Ele alou p a mim ano passado: ‘Tu á achando
uim? Te p epa a que ano que em pio a’
A ausência do pai das c ianças é um a o ele an e que con ibui pa a a al a de apoio ma e no,
esul ando em sob eca ga e exaus ão pa a essas mulhe es. Essa ausência não se limi a apenas à
al a de p esença ísica, mas ambém se e le e na ausência de supo e emocional e na al a de
compa ilhamen o de esponsabilidades pa en ais.
4.4.8. QUESTÕES SOCIOCULTURAIS
O úl imo ema, Ques ões Sociocul u ais, es á di idido em cinco ca ego ias: Violência
Domés ica; Seques o; Machismo; Julgamen os; e Go e no e Ju ídico – Aspec os
Nega i os.
A ca ego ia Violência Domés ica é especialmen e ele an e, dado que di e sas pa icipan es
ela a am e em sido í imas de ag essões, o que as le ou a busca medidas p o e i as jun o às
au o idades compe en es. En e as dez pa icipan es, qua o a i ma am e i enciado si uações
de iolência domés ica ou a necessidade de eco e a medidas p o e i as, sendo uma pa icipan e
do GP e ês do GB. Esses ela os e idenciam a g a idade da ques ão e a ulne abilidade dessas
mulhe es em con ex os de iolência. O ela o de P3, em pa icula , é ex emamen e co ajoso e
impac an e:
Fugi da iolência domés ica e psicológica. Po que eu es a a a so e , eu e os meus ilhos...
meus ilhos es a am a so e psicologicamen e. Aquilo não e a bom p a mim e ainda i i
lá 3 anos, en ão, eu já es a a em um pon o que ele ma a-me a mim, ou ma o a ele, en ão
eu p e e i sai , daí ugi de casa, peguei minhas coisas... Aliás, peguei quase nada, saí de
casa, só com saquinho com uns documen os, umas meias, umas cuecas e a oupa do
co po.
Esse es emunho da P3 e ela o ní el de desespe o e a co agem necessá ia pa a abandona uma
si uação de abuso, mesmo sem ecu sos ou ga an ias de segu ança. A decisão de deixa o la ,
le ando apenas alguns i ens essenciais, ilus a a u gência e o isco en ol idos em escapa da
iolência.
118
A ca ego ia Seques o abo da o medo das pa icipan es do GB em elação ao seques o de seus
ilhos, especialmen e quando a ameaça em da amília pa e na. Esse eceio e le e a insegu ança
cons an e que algumas dessas mães en en am, p eocupadas com a possibilidade de pe de em
seus ilhos pa a pa en es que não espei am os aco dos judiciais ou os limi es impos os. Esse
emo é ainda mais angí el no ela o de B1, que desc e e uma si uação em que sua ilha mais
no a oi e e i amen e seques ada pela amília pa e na:
Ago a a a ó [pa e na] dela mo a em Biguaçu, né. Ela em... da pequenininha, ela em um
inal de semana sim, ou o não, udo pela jus iça, po que eu não aço nada o a do que
es á no papel. Po que a é seques a a c iança, já seques a am. En ão, udo que é den o
do papel da jus iça, po que, se eu p ecisa da jus iça... eu es ou den o dela.
O ela o de B1 e ela uma abo dagem cau elosa em elação às isi as da ilha, e idenciando a
necessidade de se man e es i amen e den o dos e mos legais pa a e i a no os episódios de
seques o e assegu a a p o eção da c iança. A expe iência aumá ica de e uma ilha
seques ada pela p óp ia amília pa e na ez com que ela se apegasse igidamen e às di e izes
es abelecidas pelo sis ema ju ídico b asilei o, econhecendo que a legalidade é sua p incipal
de esa. Es e cená io e le e não apenas a ulne abilidade das mães solo em si uações de dispu a
amilia , mas ambém des aca a impo ância de um sis ema de jus iça acessí el e e icaz que
assegu e os di ei os das mães e das c ianças. O medo de pe de um ilho pa a pessoas que
de e iam se pa e da ede de apoio o na-se um a do psicológico adicional, que mui as dessas
mães ca egam, a e ando di e amen e a o ma como elas es abelecem e man êm ínculos com a
amília pa e na.
A ca ego ia Machismo eúne as decla ações das pa icipan es do GB que iden i icam
mani es ações de machismo, an o de o ma di e a quan o indi e a, que pe meiam suas
expe iências co idianas, especialmen e no que se e e e à cob ança social desigual en e pais e
mães. As alas e idenciam como as mulhe es, ao exe ce em o papel de mães solo, en en am
julgamen os e ques ionamen os cons an es, os quais os pais a amen e p ecisam en en a . B3
des acou esse cená io ao compa ilha um exemplo cla o de machismo: “Isso quando não es ais
em um local sozinha e alguém em pe gun a p a i: ‘Cadê eus ilhos?’ Mas o pai es á em um
local sozinho, ninguém pe gun a onde es ão os ilhos dele.” Essa ala e ela como a sociedade
impõe expec a i as injus as sob e as mães, assumindo que elas de em es a semp e disponí eis
119
e acompanhando os ilhos, enquan o os homens são a amen e esponsabilizados da mesma
o ma. A mãe é is a como a única cuidado a legí ima, e sua ausência é ques ionada, enquan o a
p esença pa e na é ida como opcional.
A B5 complemen a, e o çando essa p essão social du an e um momen o de laze : “Eu ui p a
uma balada
35
, eu me sen i ho í el... C uzei meus b aços e iquei... Já chegam pe gun ando: ‘Cadê
ua ilha? Deixas e ua ilha...?’ ‘Sim, es á com a minha mãe e a minha ia’” Esse ela o demons a
a o ma como o julgamen o sob e as mães é equen emen e imedia o e in asi o, como se o
simples a o de busca momen os de descon ação signi icasse uma negligência ao papel ma e no.
A eação da B5, ao se sen i descon o á el e jus i ica seu di ei o de se di e i , e idencia o peso
da culpabilização cons an e que as mulhe es ca egam ao saí em do papel espe ado de
cuidado as em empo in eg al.
Esses ela os ilus am o quan o o machismo se mani es a em si uações co idianas, limi ando a
libe dade das mães solo e impondo-lhes expec a i as desiguais em elação à pa e nidade. As
pa icipan es e idenciam como o machismo não apenas se az p esen e em a i udes explíci as,
mas ambém em olha es e pe gun as que e o çam o papel adicional da mulhe como a única
esponsá el pelos ilhos. Essa desigualdade não só a e a a au onomia das mulhe es, mas ambém
pe pe ua uma isão limi ada e an iquada do papel dos homens e das mulhe es no cuidado dos
ilhos.
A ca ego ia Julgamen os eúne as alas das mulhe es do GB que exp essam a sensação de
se em cons an emen e a aliadas e c i icadas, pa icula men e em di e en es ases de suas
expe iências enquan o mães solo, ge almen e po pessoas p óximas, como amilia es. Esse
julgamen o, mui as ezes, não se es inge apenas ao compo amen o ma e no, mas ambém
inclui c í icas sob e como elas lidam com os desa ios da c iação dos ilhos e as escolhas que
azem pa a si mesmas e pa a suas amílias. A B3 exempli ica essa expe iência ao ela a :
Esse ipo de julgamen o às ezes em da p óp ia... Ou as mulhe es p incipalmen e, que
i e am na alda de pano. Quan as ezes eu já escu ei de conhecida da minha mãe:
‘Es ais eclamando que es ais cansada? Meu Deus, na minha época eu la a a alda de
pano na mão. Eu e a isso... eu e a aquilo...’
35
Em Po ugal: Disco eca.

120
A na a i a de B3 mos a como essa a i ude c í ica c ia uma desconexão en e ge ações, onde a
expec a i a de esiliência é impos a como um pad ão absolu o, igno ando as mudanças
con ex uais e os desa ios con empo âneos que as mães en en am. O a gumen o de que as mães
do passado inham condições ainda mais di íceis é equen emen e u ilizado pa a in alida os
sen imen os de cansaço e sob eca ga das mães de hoje. Essa compa ação não só c ia ba ei as
emocionais, como ambém impede o econhecimen o da necessidade de apoio e comp eensão
no con ex o a ual. Além disso, essa compa ação pe pe ua a ideia equi ocada de que o so imen o
é in ínseco e acei á el pa a as mães, impondo uma ca ga emocional ainda maio sob e as
mulhe es.
Po im, a ca ego ia Go e no e Ju ídico – Aspec os Nega i os
eúne os ela os das
pa icipan es sob e a pe cepção de al a de apoio go e namen al, especialmen e no que diz
espei o às ques ões legais e inancei as que en ol em a c iação dos ilhos. Essas alas,
p edominan emen e do GB, e le em as di iculdades en en adas no acesso a se iços ju ídicos
b asilei os e ao supo e inancei o adequado, e idenciando ambém as di e enças cul u ais e
es u u ais nos sis emas de apoio en e países. O oco p incipal das decla ações es á nas
di iculdades em solici a ou a ualiza pensões alimen ícias, além dos al os cus os associados aos
se iços de ad ocacia.
Um exemplo disso é o ela o da pa icipan e B3, que desc e e a al a de ga an ia e oa i a dos
di ei os de pensão: “Se ele es a a de endo um ano an es, u não ecebes nada disso po que u
não es a as na jus iça...” Es a ala ilus a como a bu oc acia e as lacunas no sis ema de jus iça
acabam po p ejudica as mães que, mesmo após pe íodos de inadimplência do pai, não
conseguem ob e os alo es que lhes são de idos caso não enham acionado a jus iça o malmen e
a empo.
Além disso, B4 des acou as ba ei as inancei as en ol idas no p ocesso de e isão da pensão:
“Fui en a com um pedido de aumen o de pensão, me cob a am 8 mil eais. Ou seja, u já es á
odid* de g ana, de onde ou i a 8 mil eais? Não az sen ido.” Es e depoimen o demons a a
eno me dispa idade en e a si uação inancei a de mui as mães solo e os cus os exo bi an es pa a
eco e à jus iça. Pa a mui as dessas mulhe es, a al a de ecu sos se o na um obs áculo
121
inacessí el, uma ez que o alo exigido pa a cus ea os hono á ios dos ad ogados es á além de
suas possibilidades.
Essas di iculdades apon am pa a uma ealidade onde o sis ema ju ídico, que de e ia o e ece
supo e e p o eção, acaba o nando-se mais um desa io. O p ocesso legal é bu oc á ico e
complicado, o que deses imula as mães solo a busca seus di ei os, especialmen e quando já
en en am di iculdades inancei as signi ica i as.
122
5. DISCUSSÃO
5.1. O CONTEXTO COMPLEXO DA MÃE SOLO
Du an e a e isão de li e a u a o am explo ados emas de g ande ele ância elacionados com as
mulhe es, a ma e nidade e, especialmen e, a expe iência das mães solo, que podem se
con ex ualizados ambém den o dos
wicked p oblems,
desc i os o iginalmen e po Ri el e Webbe
(1973). A análise desses emas e elou-se essencial pa a undamen a eo icamen e a pesquisa,
o e ecendo e lexões sob e as condições sociais, emocionais e econômicas dessas mulhe es. Os
concei os iden i icados na li e a u a e isada co obo am di e amen e com as obse ações e dados
cole ados no abalho de campo, e idenciando como as mães solo en en am desa ios complexos,
amplos e a iados. Esse con ex o e le e as ca ac e ís icas dos
wicked p oblems
, pa icula men e
no que diz espei o à busca dessas mulhe es po equidade de gêne o em di e sos aspec os de
suas idas. Assim como nos
wicked p oblems
, a esolução de suas di iculdades não se encon a
em soluções simples, mas na conside ação de múl iplas pe spec i as e na in e ação en e os
di e en es a o es sociais que impac am sua ealidade, ea i mando a necessidade de no as
abo dagens pa a en en a os desa ios con empo âneos (Buchanan, 1992; Ri el & Webbe , 1973).
O concei o de amília en acula , desc i o po Ma ia Ri a Kehl (2017a), oi amplamen e obse ado
en e as pa icipan es da pesquisa. Nenhuma delas pe ence a uma amília adicional nuclea .
Mui as delas compõem amílias monopa en ais, o madas apenas pela mãe e seus ilhos. Ou as
i em em a anjos amilia es mais complexos, como a p esença da mãe com seus ilhos, o no o
pa cei o e os ilhos desse pa cei o, ou ainda con igu ações como a da pa icipan e B5, que eside
com seus ilhos, sua mãe e sua ia. Esses a anjos co obo am o concei o de Kehl, e idenciando
uma di e sidade nas composições amilia es con empo âneas, que ogem ao pad ão nuclea
adicional.
As con igu ações amilia es con empo âneas ap esen am uma na u eza social complexa, uma ez
que não podem se comp eendidas apenas sob a pe spec i a da mãe solo e seus ilhos. É
essencial conside a os múl iplos ínculos e elações que pe meiam essas dinâmicas, incluindo a
p esença de a ôs e a ós, ios e ias, no os pa cei os, ilhos e ilhas desses pa cei os e odas as
pessoas en ol idas que azem pa e egula do co idiano dessas amílias. Essa di e sidade de
en aizamen os exige uma abo dagem mais asse i a e inclusi a na análise das si uações
123
en en adas po essas mulhe es. É undamen al econhece a in e dependência en e os di e en es
memb os da amília e as edes de apoio que in luenciam a ida das mães solo.
Con o me Gal ão (2020) e Machado (2021), o abandono pa e no é uma das p incipais azões
pa a o aumen o do núme o de amílias monopa en ais emininas. Esse enômeno ambém oi
obse ado no p esen e es udo, onde quase odas as pa icipan es desc e e am os pais de seus
ilhos como “ ilões” na dinâmica da Supe Mãe. Mui as ela a am o abandono pa e no, com os
pais dos seus ilhos equen emen e não cump indo seque os comp omissos mínimos, como o
pagamen o da pensão alimen ícia ou a demons ação de a e o. Esses ela os e o çam a ideia de
que a ausência pa e na impac a signi ica i amen e a ida dessas mulhe es, deixando sob e elas
oda a ca ga emocional e inancei a da c iação dos ilhos.
A sob eca ga emocional e a con usão men al ambém o am iden i icadas sob di e sas
pe spec i as nas alas das pa icipan es. Mui as exp essa am dú idas sob e se es ão ealmen e
p opo cionando elicidade aos seus ilhos e sup indo suas necessidades, econhecendo que azem
o melho que podem, mas que, mesmo assim, ca egam um sen imen o cons an e de culpa. Essa
culpa eme ge an o da en a i a de a ingi um pad ão idealizado de pe eição ma e na quan o pela
esponsabilização pela ausência do pai. Esse aspec o es á em consonância com a e lexão da
psicanalis a Mônica Pessanha (2021), que des aca a impo ância de uma ma e nidade conscien e,
na qual as mães p ecisam lida con inuamen e com sen imen os de culpa. Além disso, á ias
pa icipan es ela a am que a ealidade da ma e nidade di e e signi ica i amen e do que ha iam
idealizado an es de se o na em mães, o que es á de aco do com a pesquisa de Ehman e Schwenk
(2016). As au o as apon am que 83% das mulhe es en e is adas ela a am e expec a i as
p ees abelecidas sob e a ma e nidade, as quais se mos a am equi ocadas dian e da i ência eal.
No que se e e e ao planejamen o amilia , a maio ia das pa icipan es ela ou não e acesso
adequado a mé odos con acep i os, além de possuí em in o mações equi ocadas sob e o uso de
pílulas an iconcepcionais. Dois depoimen os são pa icula men e ele an es pa a ilus a essa
ealidade. A pa icipan e B2 a i mou: “Eu nunca quis se mãe, sabe... semp e i e na minha
cabeça que, se eu osse mãe, eu abo a ia. Eng a idei e ago a? Ah, ou e , né, aze o quê?...”,
enquan o P2 des acou: “É, e sendo since a, acho que nenhuma daqui que ia se mãe, ou que ia
se mãe ão cedo.” Esses ela os es ão em consonância com as obse ações do Fundo de
130
ópicos po encialmen e mais pessoais e sensí eis. Po ém, no GB, após a lei u a do con o
e a ealização de odas as a i idades p opos as no Con o do Op imido, a pa icipan e B3
sen iu-se mais enco ajada a compa ilha uma de suas p óp ias his ó ias, a qual oi bem
ecebida e discu ida pelo g upo.
2. P o agonis a
A segunda ase consis e na de inição da p o agonis a, um passo que pode pa ece
simples, mas que e ela as di e en es pe spec i as das pa icipan es. No GB, odas as
in eg an es conco da am em nomea Alex, a mãe da his ó ia, como a p o agonis a. O
consenso oco eu p incipalmen e po que ela é e a ada como uma mãe que az udo pelo
bem de sua ilha. Em con as e, no GP hou e uma discussão mais ap o undada e
di e gen e sob e quem de e ia se conside ada a p o agonis a. A pa icipan e P3
a gumen ou que Ma iana, a ilha, de e ia ocupa esse papel, essal ando que, sem a
p esença da ilha, a his ó ia não exis i ia. Essa di e ença de opiniões des aca como as
in e p e ações da na a i a podem a ia con o me as expe iências e isões de mundo das
pa icipan es.
3. Pon o de Rup u a
A e cei a ase en ol e a iden i icação do pon o de maio op essão ou so imen o na
his ó ia, um momen o que equen emen e p o oca deba es in ensos e e ela di e sas
pe spec i as ele an es pa a a in es igação. No GB, hou e um consenso em o no do
pon o de up u a, que oi a úl ima en a i a de Alex em busca apoio do pai da ilha, essa
si uação oi conside ada a úl ima espe ança de ob e uma ede de apoio. Em
con apa ida, no GP, as pa icipan es des aca am que o momen o c í ico oco eu logo no
momen o em que a c eche in o mou que a ilha es a a doen e, in e p e ando essa ligação
como o e dadei o pon o de up u a, dado que simboliza a o maio desa io en en ado po
Alex na na a i a. Essa di e gência nas in e p e ações ilus a a complexidade das
expe iências de op essão e como di e en es momen os na his ó ia podem essoa de
manei as dis in as pa a as pa icipan es.

131
4. Deba e
Essa ase em como obje i o es imula um deba e sob e o con o, demandando bas an e
a enção e sensibilidade po pa e da in es igado a. É c ucial que pe gun as-cha e sejam
ei as pa a incen i a a discussão, como: "Alguém já i eu algo semelhan e?" ou "Po que
sim? Po que não?" Dependendo das espos as, a in es igado a p ecisa adap a suas
pe gun as, semp e man endo o con o como e e ência cen al, de modo a c ia um
ambien e acolhedo e p opício à oca de expe iências. A empa ia é essencial nesse
p ocesso, já que a in es igado a de e ga an i que o deba e seja con olado de o ma
equilib ada, obse ando o compo amen o das pa icipan es, especialmen e quando
algumas são mais ex o e idas e ou as mais ese adas. Nesse sen ido, o papel da
in es igado a é o de mediado a, assegu ando que odas as pessoas enham a
opo unidade de se exp essa e que o ambien e pe maneça colabo a i o e inclusi o.
5. Possí eis Soluções
Dando sequência ao deba e, o p óximo passo é a in es igado a incen i a o g upo a suge i
possí eis soluções pa a os p oblemas ap esen ados no con o. Nesse momen o, o papel
da in es igado a como mediado a pe manece undamen al, pois é comum que a
discussão se des ie do oco p incipal. O obje i o é di eciona as ideias pa a soluções
pe inen es e ealis as, semp e elacionadas com o con ex o e o ema p opos o. Es e oco
é c ucial pa a cump i a e apa de De inição do p ocesso de Design Thinking (Gibbons,
2016). A in es igado a de e in e i de o ma su il quando necessá io, ga an indo que a
con e sa con inue p odu i a e que odas as pe spec i as sejam conside adas na
cons ução de al e na i as iá eis pa a o p oblema abo dado na his ó ia.
6. Ação T ans o mado a
Nes a ase, após a ap esen ação de odas as possí eis soluções, é o momen o de escolhe
a solução que pa ece mais e e i a pa a o con o, isando alcança uma ação
ans o mado a. O papel da in es igado a con inua sendo o de mediado a, ga an indo que
o g upo man enha o oco na busca po uma solução que enha o po encial de ge a
mudanças conc e as. É comum que su jam opiniões di e gen es du an e essa e apa, e
cabe à in es igado a acili a o deba e de o ma equilib ada, assegu ando que odas as
132
ozes sejam ou idas e que o g upo chegue a um consenso ou uma decisão colabo a i a
sob e a melho abo dagem a se ado ada.
7. No a his ó ia
A ase inal consis e no ence amen o conduzido pela in es igado a, que p opõe um
des echo pa a a his ó ia com base na ação ans o mado a escolhida pelo g upo. Esse
momen o é c ucial, pois solidi ica o ap endizado cole i o e conec a o p ocesso de
discussão à p á ica, ao mos a como a solução escolhida pode ia al e a o cu so da
na a i a. A in es igado a desempenha um papel de sín ese, ao euni as con ibuições do
g upo e des aca a ele ância da ação ans o mado a, e o çando a impo ância de
soluções colabo a i as e de empode amen o nas his ó ias de op essão discu idas. Es e
echamen o ajuda a consolida o deba e e a e lexão ge ada ao longo das ases an e io es.
Es e oolki em como pila undamen al a empa ia, concei o que, con o me a gumen ado po
Roman K zna ic (2014), possui o pode de p omo e ans o mações sociais p o undas. A empa ia
ambém é um dos p incípios cen ais do Design Cen ado nos Se es Humanos, con o me
de endido po Donald A. No man (2006). Ao ado a essa abo dagem, o
oolki
busca conside a
de o ma holís ica as necessidades, desejos, con ex os sociais e cul u ais, bem como as emoções
e i ências das pa icipan es, especialmen e as mães solo. Mais do que uma e amen a de design,
ele se undamen a na dignidade e nos di ei os humanos, ga an indo que essas mulhe es sejam
ou idas com espei o e, acima de udo, com empa ia, azendo-as pa a o cen o do p ocesso de
design pa a p omo e soluções que e li am suas ealidades.
Es e
oolki
enquad a-se no Design Pa icipa i o, uma abo dagem que en ol e a i amen e as
pa icipan es no p ocesso de c iação, p omo endo um ambien e colabo a i o de oca de
conhecimen o. Ao incen i a as mães solo a compa ilha em suas expe iências e con ibuí em
pa a a co-c iação de soluções, o
oolki
possibili a o desen ol imen o de in e enções mais
alinhadas com sua ealidade e necessidades especí icas. Essa p á ica co obo a com os p incípios
de endidos po Ams el (2008) e Bonacin (2004), que des acam o alo do en ol imen o di e o dos
usuá ios no p ocesso de design pa a ga an i que as soluções sejam mais e icazes e
ep esen a i as do con ex o social em que es ão inse idas.
133
Es e
oolki
ambém p omo e o Design Inclusi o, pois, alo iza a di e sidade humana e econhece
que não exis e uma solução única que a enda plenamen e a odas as pessoas. Inspi ado nos
p incípios do Design Inclusi o (Kille-Speck e & Nickpou , 2022), o
oolki
oi pensado pa a c ia
um espaço lexí el e adap á el, p omo endo a inclusão de di e en es pe spec i as e i ências,
ga an indo que as soluções c iadas sejam amplas o su icien e pa a acomoda a di e sidade das
pa icipan es. Além disso, ao espei a e alo iza essas di e enças, o
oolki
con ibui pa a a
democ a ização do p ocesso de design, p omo endo equidade e ga an indo que odas as ozes
sejam ou idas com espei o e empa ia, con o me de endido po Kille-Speck e e Nickpou (2022),
Simões e Bispo (2006).
Dado o ca á e sensí el dos emas abo dados, oi essencial desen ol e es e
oolki
, pois pe mi e
uma abo dagem mais acessí el e menos con on ado a. Pa icipan es nes e ipo de con ex os
podem sen i -se mais con o á eis ao comen a e p opo soluções pa a his ó ias de e cei os,
mesmo quando essas na a i as e le em suas p óp ias expe iências. Esse dis anciamen o, acili a
a discussão de ques ões di íceis, pe mi indo que in o mações aliosos sejam e elados (Visse e
al., 2005).
A in es igação en ol eu dois g upos dis in os de mulhe es com ca ac e ís icas demog á icas
dis in as, como mencionado an e io men e (PÁGINA 65). Mesmo no caso do GP, que demons ou
maio esis ência à discussão abe a, odas as pa icipan es consegui am exp essa suas ideias
du an e essa a i idade. O
oolki
oi amplamen e elogiado pelas pa icipan es, com des aque pa a
o comen á io de P5, que a i mou, ao inal do wo kshop, que apesa de e alado pouco, conseguiu
desaba a sob e ques ões que no malmen e não compa ilha ia com mui as pessoas. Ela des acou
que a expe iência oi ex emamen e posi i a, especialmen e po pe cebe que não es a a sozinha
em suas di iculdades e que ou as mulhe es ambém en en am si uações semelhan es. Esse
sen imen o de iden i icação e desaba o oi um dos pon os mais elogiados pelas pa icipan es,
demons ando a impo ância do espaço de pa ilha c iado pela a i idade e o impac o emocional
posi i o p opo cionado pelo
oolki .
Es e
oolki
unciona na lógica do Design Thinking, aplicando-se especialmen e na ase de En ende
(Gibbons, 2016), onde é undamen al desen ol e empa ia po meio de pesquisas que eúnam
di e en es pe spec i as, pe mi indo uma comp eensão ap o undada das necessidades e desa ios
134
das pa icipan es. O
oolki
ambém em po encial pa a se u ilizado na ase de Explo a ,
especi icamen e na e apa de Ideação, onde são ge adas ideias que abo dam as necessidades
iden i icadas an e io men e. Assim, de ende-se que ele não apenas acili a a iden i icação das
necessidades dos indi íduos, mas ambém pode impulsiona a c iação de soluções ino ado as
que podem se es adas e p o o ipadas em seguida, alinhando-se com as p á icas do Design
Thinking (Gibbons, 2016).
Nes a disse ação demons ou-se que es e
oolki
pode se u ilizado como uma e amen a e icaz
pa a p omo e a busca de soluções colabo a i as em pa ce ia com indi íduos equen emen e
in isibilizados pela sociedade em di e sos con ex os. Ao euni di e en es ozes e expe iências, ele
pe mi e que essas pessoas, que mui as ezes en en am ba ei as sociais, econômicas e cul u ais,
sejam a i amen e ou idas e incluídas no p ocesso de design. Essa abo dagem colabo a i a não
apenas alo iza suas pe spec i as, mas ambém con ibui pa a a cons ução de soluções que
ealmen e a endem às suas necessidades e desa ios especí icos. Dessa o ma, o
oolki
se o na
um meio de empode amen o, possibili ando que g upos ma ginalizados pa icipem a i amen e na
co-c iação de soluções que impac em suas idas de manei a posi i a e signi ica i a.
5.3. OPORTUNIDADES DE DESIGN
A e isão de li e a u a e os dados ob idos no abalho de campo e idenciam a complexidade e
a ualidade dos desa ios en en ados pelas mães solo, que epe cu em em múl iplas camadas
sociais, ge ando uma eação em cadeia. A ausência de uma ede de apoio es u u ada, que
sob eca ega essas mulhe es com as esponsabilidades exclusi as do cuidado, limi a suas
opo unidades de es udo e abalho, além de ge a sob eca ga emocional e ísica. Esse cená io
impac a não apenas a ida pessoal das mães solo, mas ambém a sociedade como um odo,
e o çando a necessidade e a ele ância de soluções de design sis émico (Jones, 2014) que
p omo am supo e adequado e inclusi o. Aqui, iden i icam-se implicações pa a o design bem
como opo unidades de in e enção na ó ica do Design de Se iços (Gibbons, 2017).
5.3.1.
STAKEHOLDERS
Pa a o con ex o das mães solo, é essencial ado a uma abo dagem ampla que conside e
uma di e sidade de
s akeholde s
, an o di e os quan o indi e os. Além das p óp ias mães solo
e mães no ge al, os esul ados demons am que é undamen al inclui mães de p imei a iagem,
135
seus ilhos, amílias — com ên ase nas igu as emininas — bem como amigas e amigos, no os
pa cei os, associações de apoio, o ganizações não go e namen ais, e ins âncias go e namen ais
em di e en es ní eis, como p e ei u as, câma as municipais, go e no es adual e ede al. O Design
Thinking (Gibbons, 2016) o e ece um p ocesso i e a i o a a és do qual se podem equaciona
p oblemas complexos e desen ol e soluções ap op iadas; o Design Inclusi o (Kille-Speck e &
Nickpou , 2022) o e ece uma iloso ia undamen al pa a iden i ica e auscul a uma di e sidade
de ozes en ol idas no con ex o; e o Design Pa icipa i o (Bonacin, 2004) o e ece e amen as
e icazes que pe mi em a um leque di e so de
s akeholde s
o mas di e sas de pa icipa em e se
exp essa em sob e uma p oblemá ica que lhes diz espei o (F eeman & McVea, 2001).
5.3.2. NECESSIDADES E OPORTUNIDADES
O abalho de campo e elou di e sas necessidades en en adas pelas mães solo, que podem se
is as como opo unidades pa a o desen ol imen o de soluções de design especí icas, que possam
apoia essas mulhe es em seu co idiano. A mensagem p incipal que se pode e i a dos esul ados
des a in es igação é a necessidade de es abelece e p omo e edes de apoio e icazes
pa a as mães solo. O desen ol imen o de qualque in e enção de design de e ambiciona
comba e es e eó ipos oman izados da “mãe pe ei a” (Be na do, 2023; Conceição da
Sil a, 2021) a a és de um conhecimen o ap o undado e ealis a das di e sas ealidades da
ma e nidade em ge al e da ma e nidade solo em especí ico. Exis em já p odu os e se iços que
ma e ializam es as p eocupações, como o Feed inde e o Mama Bea , discu idos na e isão de
li e a u a na PÁGINA 46. O Feed inde é um aplica i o que ajuda mães a encon a locais amigá eis
pa a amamen ação, p omo endo um supo e p á ico no co idiano (Balaam e al., 2015), enquan o
o Mama Bea é uma ede social ancesa pa a mães solo (Mama Bea s, [s.d.]-a). Com base nes es
exemplos, pode a i ma -se que o Design pode e um papel p agmá ico de explo a e esponde a
necessidades eais de mães solo, mas ambém um papel a i is a em salien a e de ende as suas
causas ão equen emen e igno adas na nossa sociedade a ual.
Algumas necessidades iden i icadas no abalho de campo an ecedem a ma e nidade ou
coexis em com ela, como o acesso a in o mações e mé odos con acep i os e icazes. Essa
necessidade é amplamen e econhecida na li e a u a (UNFPA, 2022), mas o abalho de campo
aqui desc i o humaniza essa ealidade ao e idencia expe iências indi iduais de mulhe es que
i encia am a al a de supo e e in o mações adequadas nessa á ea. O design pode e um papel

136
essencial na disseminação dessas in o mações, desen ol endo ma e iais educa i os
acessí eis, dis ibuídos em espaços comuni á ios e pla a o mas digi ais. Ao possibili a
que mães solo de di e sas ealidades enham acesso a o ien ações cla as sob e con acepção, o
design inclusi o assegu a que as necessidades de cada usuá ia sejam espei adas e a endidas
(Kille-Speck e & Nickpou , 2022).
O con ex o em que as mães solo es ão inse idas é complexo e di e si icado, ca ac e izando-se
como um p oblema que ul apassa o âmbi o indi idual pa a se o na uma ques ão social. As
camadas de desa ios começam no ní el pessoal da mãe solo, ab angendo aspec os de sua
iden idade como mulhe e suas necessidades p óp ias, e se expandem pa a o con ex o domés ico
e as elações imedia as. Em um ní el mais amplo, essas camadas en ol em a comunidade local
e, po im, a sociedade em ge al. Esse é um desa io con empo âneo sem uma solução de ini i a
(Ri el & Webbe , 1973). No en an o, o design pode in e i de o ma signi ica i a, p opondo
soluções que acili em a ida dessas mulhe es. Con o me demons ado na e isão de li e a u a na
PÁGINA 46 e PÁGINA 50, há uma sob eca ga emocional subs ancial, que se in ensi ica quando a
mãe solo não con a com uma ede de apoio. Po an o, iden i icou-se a necessidade de
p omo e o au ocuidado e supo e psicológico, pa a de alguma ajuda a eduzi o es esse
e sob eca ga emocional.
O abalho de campo e elou a necessidade de c ia opo unidades de emp ego com
ho á ios lexí eis e possibilidades de abalho emo o pa a mães solo, como o ma de
possibili a que conciliem as esponsabilidades ma e nas com suas a i idades p o issionais.
Mulhe es em condições de ma e nidade solo mui as ezes eco em ao emp eendedo ismo como
al e na i a, de ido à igidez do me cado de abalho adicional e à al a de polí icas que
conside em suas demandas po lexibilidade (Gal ão, 2020; Oli ei a, 2023). Esse enômeno oi
con i mado no GB no abalho de campo, onde odas as pa icipan es ela a am e emp eendido
em algum momen o, seja pela ausência de opções iá eis no me cado o mal, seja pela
necessidade de es a em mais p esen es na ida dos ilhos.
Além da lexibilidade no abalho, a pesquisa ambém des aca a impo ância de amplia o
acesso a p og amas de educação e capaci ação p o issional ol ados pa a essas
mulhe es, le ando em conside ação a dupla jo nada que en en am. Sem o supo e adequado,
137
mães solo êm menos acesso a capaci ações e p og amas de desen ol imen o pessoal e
p o issional, o que limi a suas possibilidades de c escimen o (Sa o, 2020). Essas necessidades
e le em a complexidade das demandas en en adas po mães solo e a impo ância de desen ol e
soluções que in eg em supo e p á ico e emocional. O design, ao se o ien a pa a es as
necessidades, p omo e uma abo dagem que espei a as ealidades especí icas de cada mãe solo,
possibili ando que elas se alo izem não apenas como mães, mas como mulhe es em cons an e
desen ol imen o.
5.3.3.
TOUCHPOINTS
O abalho de campo iden i icou ambém a exis ência de di e sos
ouchpoin s
que p opo cionam
in e aces en e as mães solo e os se iços que u ilizam. Em ge al, esses
ouchpoin s
podem se
ag upados em ca ego ias ísicas ou analógicas e digi ais (Rockcon en , 2019). Den e os
ouchpoin s
analógicos, des acam-se espaços ísicos como ig ejas, e ei os e cen os
espí i as, que equen emen e dispõem de locais pa a acolhimen o de c ianças. Esse ipo de
espaço e le e a p á ica de apoio comuni á io nas ins i uições eligiosas e o alece edes in o mais
de apoio, con o me discu ido po Acquie , Daudigeos e Pinkse (2017), que desc e em a Economia
Comuni á ia como uma o ma de alo iza a colabo ação local e a cons ução de edes de apoio
mú uo. Ou as o ganizações, como p oje os sociais de ó gãos públicos e associações não
go e namen ais ol adas pa a mães e c ianças, ambém se em como
ouchpoin s
ele an es ao
o e ece apoio p á ico e emocional.
En e os
ouchpoin s
digi ais, des acam-se aplica i os de saúde e bem-es a ol ados pa a
mulhe es e c ianças, edes sociais, e aplica i os pa a en e enimen o in an il, que as
mães solo menciona am como e amen as ú eis no dia a dia. Esses
ouchpoin s
digi ais e le em
uma adap ação aos ecu sos ecnológicos que acili am o acesso a se iços e o con a o com ou as
mães, p omo endo um espaço onde encon am apoio, seja po meio de in o mações ou de
en e enimen o pa a as c ianças.
Esses exemplos de
ouchpoin s
não são exclusi os pa a mães solo, mas o desen ol imen o de
soluções de design que conside em suas necessidades especí icas pode bene icia ou os ipos de
usuá ios com demandas semelhan es. Essa pe spec i a mani es a um dos p incípios do Design
Inclusi o, que se concen a na c iação de soluções adap á eis e amplamen e acessí eis. Ao ado a
138
uma abo dagem pa icipa i a e inclusi a, o design o na-se mais esponsi o às ealidades dos
usuá ios, a endendo uma ampla di e sidade de indi íduos e p opo cionando espos as e icazes
pa a uma a iedade de con ex os (Ams el, 2008; Bonacin, 2004; Mulle , 2002).
Esses
ouchpoin s
, an o ísicos quan o digi ais, ep esen am um pon o de pa ida pa a o
desen ol imen o de soluções mais e icazes e especí icas, adap adas à ealidade das mães solo.
5.3.4. A PARTILHA
Con o me a e isão de li e a u a, Walsh (2011) des aca que a Economia da Pa ilha que se
ca ac e iza po um modelo de consumo baseado na colabo ação en e indi íduos. Den o desse
con ex o, a Economia Comuni á ia eme ge como um núcleo undamen al, en ocando o
es abelecimen o de elações de oca que ão além das ansações mone á ias. Ao alo iza a
coope ação en e os memb os de uma comunidade, a Economia Comuni á ia não apenas
o alece laços sociais, mas ambém con ibui pa a a cons ução de edes de apoio que são
essenciais pa a o en en amen o dos desa ios da mãe solo (Acquie e al., 2017; Walsh, 2011).
Du an e o abalho de campo, eme gi am di e sos emas que se elacionam com a Economia
Comuni á ia. As pa icipan es do GB ela a am a di iculdade em solici a ajuda de ou as pessoas,
equen emen e de ido ao eceio de sob eca egá-las ou ao sen imen o de culpa que essa
solici ação pode aca e a . Con udo, hou e uma ên ase signi ica i a na impo ância de ap ende a
pedi ajuda, des acando que, caso essa in e ação oco esse no o ma o de uma oca de a o es,
essas ba ei as pode iam se a enuadas. Além disso, as pa icipan es salien a am a ele ância da
so o idade en e mães, econhecendo se c ucial em seu co idiano. Esse o alecimen o dos laços
sociais essal a que a cons ução de uma ede de apoio e e i a eque conexões signi ica i as o
que oi en a izado pelo p óp io g upo, o que, po sua ez, e idencia a necessidade de p omo e
in e ações sociais que omen em a colabo ação e o apoio mú uo.
No en an o, pa a o GP, a acei ação das ocas de a o es não se mos ou ão ampla, sendo a al a
de con iança a p incipal ba ei a iden i icada. Embo a essa p eocupação ambém enha sido
mencionada no GB, no GP essa ques ão oi abo dada de manei a mais en á ica, com a segu ança
e a con iança sendo conside adas obs áculos signi ica i os pa a a implemen ação de um sis ema
de oca de a o es. A pa icipan e P3 suge iu uma solução: es abelece ínculos com ó gãos
139
públicos. Essa abo dagem pode ia iabiliza as ocas de a o es, pe mi indo que as mães se
sen issem mais segu as ao in e agi e colabo a com ou as pessoas.
Qualque p opos a de design pa a a c iação de uma ede de apoio en e mães solo de e
en a iza o o alecimen o da con iança, da so o idade e das conexões in e pessoais,
po encializando a possibilidade de ocas de a o es. Essas ocas podem se mani es a an o na
oca de se iços quan o em banco de ho as, colocando a Economia Comuni á ia como um
elemen o cen al dessa inicia i a. A geolocalização se e ela undamen al nesse con ex o, já que
ambos os g upos ci a am a impo ância, uma ez que pe mi e iden i ica e conec a mães que
es ão isicamen e p óximas, acili ando o es abelecimen o de ede de apoio. A p esença de
um mediado , como um ó gão público ou associações comuni á ias, pode acili a a
implemen ação dessas in e ações. Assim, ao es abelece um ambien e segu o e
colabo a i o, essa solução de design pode á p omo e não apenas o desen ol imen o de
ínculos mais o es en e as mães, mas ambém con ibui pa a a cons ução de uma ede de
apoio mais coesa, e icaz e desejá el.