Uni e sidade do Minho
Ins i u o de Ciências Sociais
Helena To e i Noguei a
Iden idades e ep esen ações em
mo imen o: um es udo sob e o ilme
de animação Coco
janei o de 2024
UMinho | 2024 Helena To e i Noguei a Iden idades e ep esen ações em mo imen o:
um es udo sob e o ilme de animação Coco
Helena To e i Noguei a
Iden idades e ep esen ações em
mo imen o: um es udo sob e o ilme
de animação Coco
Disse ação de Mes ado
Mes ado em Comunicação, A e e Cul u a
T abalho e e uado sob a o ien ação da
P o esso a Dou o a Ri a Ribei o
P o esso a Dou o a Isabel Mo ei a Macedo
Uni e sidade do Minho
Ins i u o de Ciências Sociais
janei o de 2024
i
DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS
Es e é um abalho académico que pode se u ilizado po e cei os desde que espei adas as eg as e boas
p á icas in e nacionalmen e acei es, no que conce ne aos di ei os de au o e di ei os conexos. Assim, o
p esen e abalho pode se u ilizado nos e mos p e is os na licença abaixo indicada.
Caso o u ilizado necessi e de pe missão pa a pode aze um uso do abalho em condições não p e is as
no licenciamen o indicado, de e á con ac a o au o , a a és do Reposi ó iUM da Uni e sidade do Minho.
Licença concedida aos u ilizado es des e abalho
A ibuição
CC BY
h ps://c ea i ecommons.o g/licenses/by/4.0/
ii
AGRADECIMENTOS
Todas as pessoas mais p óximas de mim sabem o quão desa iado oi o p ocesso de p odução dessa
disse ação, que du ou mui o mais do que o espe ado e en ol eu uma pandemia global, ansiedades,
dú idas, saudades e mui o ap endizado. Di o is o, ag adeço p imei amen e às minhas o ien ado as P o .
Ri a Ribei o e P o . Isabel Macedo po oda a paciência e compa ilhamen o de ideias e po ac edi a em
nes a in es igação a é o im.
Ag adeço ambém ao Daniel Schia oni, meu namo ado e pa cei o em odos os momen os dessa
disse ação, po e me apoiado, ou ido e ajudado em odas as ases des e longo p ocesso, seja lendo
os meus ex os seja o e ecendo supo e e mo i ação.
Ag adeço ambém às minhas amigas-i mãs, Sab yna Esme aldo e Elayne Esme aldo, po me apoia em,
ajuda em e escu a em minhas eclamações, e po se aze em p esen es em an os momen os dessa
minha jo nada acadêmica e da minha ida em Po ugal.
Ag adeço semp e à minha mãe, Bea iz Helena Ca doso To e i, po e semp e me incen i ado a es uda ,
le e me dedica academicamen e, além de es a semp e p on a pa a o e ece seu supo e incondicional.
E ag adeço imensamen e ao meu pai, O á io Augus o de Mo aes Noguei a, po e semp e me ce cado
de li os e me ensinado a ques iona e pensa c i icamen e, po mais que isso signi ique que hoje ele
enha uma ilha mais “ espondona”.
Ag adeço à minha Vó Bi z, po e sido semp e minha maio incen i ado a na esc i a e po me mos a
que os li os ab em po as pa a os luga es mais emo os e pa a as ideias mais di e sas.
Finalmen e, ag adeço aos amigos e colegas de mes ado Luan San os, Ra aela San ana e Tais Mo ena
pelo companhei ismo e amizade ão impo an es nes e e em odos os momen os.
iii
Es e abalho oi ealizado no âmbi o do p oje o Mig aMediaAc s – Mig ações, Média e A i ismos em
Língua Po uguesa: Descoloniza Paisagens Mediá icas e Imagina Fu u os Al e na i os ( e . p dc/com-
css/3121/2021), inanciado pela Fundação pa a a Ciência e Tecnologia ( c ).
i
DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE
Decla o e a uado com in eg idade na elabo ação do p esen e abalho académico e con i mo que não
eco i à p á ica de plágio nem a qualque o ma de u ilização inde ida ou alsi icação de in o mações ou
esul ados em nenhuma das e apas conducen e à sua elabo ação.
Mais decla o que conheço e que espei ei o Código de Condu a É ica da Uni e sidade do Minho.
Uni e sidade do Minho
___/___ /___
Helena To e i Noguei a: _____________________________
RESUMO
Com a expansão das ideias elacionadas ao consumo, aliadas à in e conec i idade, elocidade e
in ensi icação dos luxos mig a ó ios ad indos de no as ecnologias e do p ocesso de globalização, uma
das p eocupações cen ais do sujei o con empo âneo es á em o no da ideia de iden idade e, mais
especi icamen e, da iden idade cul u al. Não é à oa o c escen e núme o de ob as e abalhos de
in es igação nas á eas de comunicação, a e e cul u a abo dando a emá ica iden i á ia. O cinema,
es udado a pa i das ês á eas ci adas, es á p esen e em di e sos desses abalhos, den o e o a da
academia. Longa-me agens, cu as, icção ou documen á ios, se azem p esen es em um amplo núme o
de pesquisas elacionando a sé ima a e com a ques ão da iden idade. Po ém, é bem menos ex ensa a
lis a en ol endo ilmes de animação, um gêne o capaz de alcança públicos das mais di e sas idades.
Conside ando o cinema de animação como uma impo an e e amen a de ep esen ação social capaz
de dialoga com o con ex o em que oi p oduzido como mídia e exp essão a ís ica, es a disse ação
buscou comp eende como o ilme de animação Disney-Pixa
Coco
(2017) dialoga com os desa ios
iden i á ios con empo âneos. Pa a além disso, a pa i da análise e in e p e ação do ilme e da análise
da ecepção de
Coco
pelo público, a a és de comen á ios deixados no IMDB, discu imos o modo como
o ilme ep esen a a iden idade cul u al mexicana. Foi possí el conclui que
Coco
(2017) se a as a de
ep esen ações hegemônicas nega i as de mexicanidade e dialoga com acon ecimen os e desa ios
iden i á ios con empo âneos. Cons a amos, ambém, que o ilme de animação analisado ab e po as
pa a ou as en a i as de descons ução e ques ionamen o dos modos de ep esen ação das iden idades
no cinema, podendo con ibui pa a in oduzi no as pe spec i as e na a i as iden i á ias ao senso
comum.
Pala as-cha e: Iden idade, cul u a, iden idade cul u al, cinema, animação, ep esen ação, Pixa ,
Disney.
i
ABSTRACT
Wi h he expansion o ideas ela ed o consump ion, combined wi h he in e connec i i y, speed and
in ensi ica ion o mig a o y lows esul ing om new echnologies and he globaliza ion p ocess, one o
he cen al conce ns o he con empo a y subjec is a ound he idea o iden i y and, mo e speci ically,
cul u al iden i y. I 's no wonde ha a g owing numbe o wo ks and esea ch p ojec s in he ields o
communica ion, a and cul u e a e add essing he issue o iden i y. Cinema, s udied om he h ee a eas
men ioned, is p esen in se e al o hese wo ks, bo h inside and ou side academia. Fea u e ilms, sho s
and documen a ies a e p esen in a la ge numbe o s udies ela ing he se en h a o he issue o
iden i y, bu he lis in ol ing anima ed ilms, a gen e capable o eaching audiences o all ages, is much
sho e . Conside ing anima ed ilms as an impo an ool o social ep esen a ion capable o dialoguing
wi h he con ex in which i was p oduced as a media and a is ic exp ession, his disse a ion sough o
unde s and how he Disney-Pixa anima ed ilm Coco (2017) dialogues wi h con empo a y iden i y issues
and how Mexican cul u al iden i y is ep esen ed h ough he na a i e cons uc ion o he anima ion. The
chosen anima ion was analyzed and in e p e ed, as well as he ilm's ecep ion by he public h ough
commen s le on IMDB. F om he en i e p ocess o heo e ical backg ound, con ex ualiza ion and
analysis, i was possible o conclude ha Coco (2017) posi i ely ep esen s Mexican cul u al iden i y,
mo ing away om nega i e hegemonic ep esen a ions o Mexicanness and dialoguing wi h impo an
con empo a y iden i y issues. I was also possible o see ha he anima ed ilm analyzed opens doo s o
o he a emp s a decons uc ion and ques ioning in ilm p oduc ions ha can se e o in oduce new
pe spec i es and iden i y na a i es o common sense.
Keywo ds: Iden i y, cul u e, cul u al iden i y, cinema, anima ion, ep esen a ion, Pixa , Disney.
xiii
ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1: Compa ação de Esquemas e Te minologia. Adap ada de “A Jo nada do Esc i o ” po
Ch is ophe Vogle , 2015. ……………………………………………………………….………………………………. 100
Tabela 2: Compa ação en e a Jo nada do He ói de Vogle e a jo nada de Miguel em Coco ………. 140
Tabela 3: Temas e ideias cen ais da análise emá ica.…………………………………………………………193
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INTRODUÇÃO
Com a expansão do consumo, aliado à in e conec i idade, elocidade e à in ensi icação dos luxos
mig a ó ios ad indos de no as ecnologias e do p ocesso de globalização, uma das p eocupações
cen ais do sujei o con empo âneo es á em o no da ideia de iden idade e, mais especi icamen e, da
iden idade cul u al. No pano ama con empo âneo, as iden idades, assim como a cul u a, as ins i uições
mode nas e a p óp ia sociedade em que o sujei o se inse e, não são ixas, uni icadas ou c iadas
na u almen e, como essência. Nesse con ex o “líquido” (Bauman, 2001), odas as pa es in luenciam e
são in luenciadas mu uamen e.
A pa i des a pe spec i a, o p esen e abalho buscou nas ob as de au o es como Hall (1996, 1997,
2006, 2017), Bauman (2001, 2005, 2007, 2012, 2017) e Giddens (2002) as e amen as
epis emológicas pa a uma melho comp eensão dos p ocessos de cons ução iden i á ia na
con empo aneidade, em que os iden idade e ep esen ação são undamen ais de ido à di e sidade
cul u al e ao luxo global de in o mações. Os p ocessos de cons ução de iden idades e ep esen ações
in luenciam como nos pe cebemos e como emos os ou os, moldando a manei a como in e agimos e
nos elacionamos com o mundo. Ambos os p ocessos es ão in e ligados, pois é a pa i da ep esen ação
que signi icamos e classi icamos udo ao nosso edo , incluindo as pessoas, cul u as e nossa p óp ia
iden idade.
Conside ando es e pano ama con empo âneo, em que esses p ocessos são dinâmicos e luidos,
e le indo a na u eza em cons an e mudança das sociedades e das in e ações humanas, buscamos a
pa i de au o es como Hall (1996, 1997, 2006, 2017), Mosco ici (1988, 1998, 2001), Howa h (2006,
2011), Gube niko (2016) e Coda o (2010) não só comp eende melho como acon ecem os p ocessos
de ep esen ação, mas ambém seu papel na cons ução, di usão, manu enção e ans o mação de
iden idades cul u ais. Nes e sen ido, e idencia-se o papel undamen al dos média, is o que os p ocessos
de c iação e disseminação das ep esen ações a a és da comunicação passa não apenas pelas
in e ações co idianas en e indi íduos e g upos, mas az-se ambém nos discu sos polí icos, nos média
e nos p odu os cul u ais de en e enimen o amplamen e inse idos na ida do sujei o con empo âneo.
O cinema não apenas e a a isões p eexis en es do mundo, mas ambém desempenha um papel a i o
na o mação dessas ep esen ações sociais. Enquan o pode pe pe ua es e eó ipos e alida
p econcei os, ambém pode desempenha um papel na esis ência e mudança desses concei os
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es abelecidos. Desde o ad en o de ecnologias como VHS e DVD, o cinema aden ou os la es, o nando-
se pa e in eg an e da o ina diá ia de mui as amílias. O su gimen o e c escimen o de pla a o mas de
s eaming, como Ne lix e Disney Plus, especialmen e após a pandemia de Co id-19 em 2020,
e o ça am ainda mais a p esença signi ica i a do cinema no co idiano. Nesse sen ido, a comp eensão
do cinema como uma ace a da ida e a impo ância das na a i as ic ícias na cons ução de
ep esen ações e na o ganização da nossa ealidade o na-se cada ez mais ele an e. A pa i des a
pe spec i a, as ob as de au o es como Aumon (1994), Be na de (2006), Fi ush (2008), Lucena Junio
(2001), Wells (2013, 2004) e Fu niss (2007) o am undamen ais pa a aça mos um b e e pano ama
his ó ico do cinema e da animação, buscando melho comp eende a elação des es com o eal e seu
papel na cons ução e na ans o mação de iden idades.
Não é à oa o c escen e núme o de ob as e abalhos de in es igação nas á eas de comunicação, a e e
cul u a abo dando a emá ica iden i á ia. O cinema, in eg an e das ês á eas ci adas simul aneamen e,
es á p esen e em di e sos desses abalhos, den o e o a da academia. Filmes de icção e documen á ios
(longa e cu a-me agem) se azem p esen es em um núme o bas an e conside á el de pesquisas
elacionando a sé ima a e com a ques ão da iden idade, po ém, é bem menos ex ensa a lis a en ol endo
ilmes de animação, um gêne o capaz de alcança públicos das mais di e sas idades, cul u as e g upos.
A in luência inegá el da Disney no cená io cinema og á ico e de animação é amplamen e econhecida,
sendo p a icamen e impossí el abo da a his ó ia da animação sem e e enciá-la. Desde a anços
écnicos e ecnológicos a é o es ilo na a i o e isual, a Disney deixou uma ma ca p o unda na indús ia,
impac ando não só ques ões a ís icas, mas ambém aspec os co po a i os do cinema de animação
mundial. Além disso, seu alcance ai além das on ei as da animação, es endendo-se a en idades como
a Ma el En e ainmen e a Pixa Anima ion S udios, es a úl ima desempenhando um papel c ucial não
apenas na e olução da animação, mas ambém na ans o mação da Disney no con ex o da animação
digi al. Com seu pode social, cul u al e econômico con empo âneo, comp eende melho a in luência
do uni e so Disney-Pixa o na-se essencial. Con o me salien a Pallan (2019), em um pe íodo em que
gigan es co po a i os, como a Disney, p ocu am molda nossas idas, é i al pe sis i mos em ques iona
a manei a como nos elacionamos com essas en idades. Nes e sen ido, empenhamo-nos pa a, a pa i
dos con ibu os de au o es como Pallan (2011, 2019), Haswell (2019), Da is (2019), A z (2002, 2004),
Molle (2017), Colling on (2016), He hu h (2017), P ice (2008) e Meinel (2016), p ocu amos aça um
b e e pano ama his ó ico da Disney, desde seus clássicos a é a e a digi al, analisando a elação en e
a e, en e enimen o e mensagem na animação, além do papel da na a i a clássica. Des acamos
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ambém as mudanças na Disney na e a digi al, com ên ase na in luência da Pixa não só na emp esa,
mas na animação em ge al, con ex ualizando assim nosso obje o de es udo no seu uni e so de p odução.
Conside ando o cinema de animação como uma impo an e e amen a de ep esen ação social capaz
de dialoga com o con ex o em que oi p oduzido como mídia e exp essão a ís ica, es a in es igação
buscou comp eende , a pa i da análise do ilme
Coco
(2017) e de comen á ios ei os sob e a ob a, de
que manei a os ilmes de animação podem ep esen a , in e e i e con ibui pa a o p ocesso de
o mação das iden idades e acei ação do “ou o”. O ilme
Coco
oi selecionado como obje o de es udo
conside ando c i é ios como da a de lançamen o, sucesso de bilhe e ia, a aliação c í ica e,
p incipalmen e, po ap esen a uma na a i a di e gen e dos emas con encionais associados aos
es údios Disney e Pixa . Des acando-se como o p imei o longa-me agem com um p o agonis a la ino no
uni e so Disney-Pixa , o ilme ecebeu ampla aclamação an o do público quan o da c í ica. Sua
ep esen ação da iden idade cul u al mexicana no con ex o cinema og á ico se man ém como uma
ele an e e e ência, in luenciando a p odução de ou os ilmes mais ecen es, como
Encan o
(2021),
p imei o ilme de animação da Disney a e uma p o agonis a colombiana e
Tu ning Red
(2022), p imei o
ilme da Pixa a aze uma p o agonis a chinesa-canadense.
Jus i ica i a do ema, obje i os e ques ões de in es igação.
A c ise iden i á ia con empo ânea, como explo ada po Hall (2004), e a p oli e ação de discu sos de ódio
e emo es em elação ao "ou o", amplamen e di undidos nas edes sociais e na sociedade em ge al,
êm ge ado deba es in ensos sob e iden idade cul u al e a con i ência mul icul u al. Enquan o o cinema
em sido obje o de es udo nesse con ex o, a análise especí ica de ilmes de animação, uma e en e
capaz de alcança um público di e si icado, incluindo an o c ianças quan o adul os, é no a elmen e
escassa nas pesquisas.
O ques ionamen o undamen al que impulsionou es e p oje o de in es igação oi:
de que manei a os
ilmes de animação podem ep esen a , in e e i e con ibui pa a o p ocesso de o mação das
iden idades e acei ação do “ou o”?
A pa i dessa ques ão cen al, o am delineadas cinco pe gun as
que no eiam es e abalho: 1-
qual é a lei u a ap esen ada em ilmes ecen es de animação sob e a
ques ão da iden idade, e, mais especi icamen e, da iden idade cul u al?
2-
De que manei a essas
animações dialogam com o con ex o em que se inse em e com as eo ias a uais sob e a cons ução
iden i á ia?
3-
Qual é a ep esen ação cons uída nos ilmes das iden idades cul u ais neles e a adas?
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4 -
Como as ep esen ações são ecebidas e pe cebidas pelo espec ado ?
5-
Qual é o papel das
animações na cons ução iden i á ia e na pe cepção do ou o?
Pa indo das cinco pe gun as indicadas acima, o am es abelecidos dois obje i os p incipais pa a es a
disse ação, ambos undamen ados na comp eensão da iden idade como um p ocesso em cons ução
con ínua e in luenciado pelo con ex o social e global. A iden idade, con o me en a iza Bauman (2004),
não é uma en idade p é-de e minada, mas sim um p ocesso em cons an e e olução, pe meado po
escolhas, con li os e ans o mações. A jo nada do sujei o não é descob i uma iden idade já exis en e,
mas sim c ia e p o ege sua iden idade con a imposições ex e nas.
Sob essa pe spec i a p ocessual da iden idade, embasada em eo ias cul u ais de au o es como Zygmun
Bauman e S ua Hall, es e es udo em como p opósi o comp eende como os ilmes de animação
con empo âneos abo dam as ques ões a uais sob e a cons ução da iden idade. O oco ecai sob e como
essas ob as e a am a emá ica iden i á ia em suas pe sonagens e en edo, bem como a ecepção dessas
ep esen ações pelos espec ado es. Em esumo, os dois p incipais obje i os des e p oje o são: 1- analisa
de que manei a as lei u as/ ep esen ações p esen es nas animações se elacionam com as ques ões
le an adas na a ualidade no que conce ne à cons ução das iden idades cul u ais; 2- comp eende como
se dá a ecepção dos ilmes pelo público e como es es pe cebem as cons uções iden i á ias
ap esen adas na animação.
Le ando em conside ação an o os obje i os especí icos da disse ação, como o enquad amen o eó ico,
buscamos ado a mé odos que não apenas escla ecessem a emá ica e os obje os de es udo, mas
ambém os inse issem em seu con ex o ele an e. Pa a isso, a seleção de e amen as me odológicas
ab angeu um conjun o di e si icado, pe mi indo a conexão e con ex ualização ab angen e do abalho.
Além disso, oi u ilizado um e e encial me odológico mais amplo que possibili ou uma isão mais
ap o undada da ob a selecionada como obje o. Nes e sen ido, à base me odológica possibili ada pela
He menêu ica de P o undidade, unimos a análise na a i a e a análise emá ica, cada uma con ibuindo
pa a uma abo dagem analí ica mul i ace ada e ab angen e.
Pe spec i a de análise e posicionamen o da pesquisado a
Depois de conclui uma g aduação em Comunicação Social – Jo nalismo, cujo abalho inal culminou
em um p oje o de in es igação elacionando o cinema aos elacionamen os humanos na
con empo aneidade, a pesquisado a passou mais no e anos a uando em sala de aula como p o esso a
18
da língua inglesa e abalhando p incipalmen e com c ianças a é ing essa , em se emb o de 2018, no
início do Mes ado em Comunicação, A e e Cul u a da Uni e sidade do Minho. Já no início do cu so, na
disciplina de Sociologia da Cul u a, minis ada pela p o esso a Ri a Ribei o, a pesquisado a oi
ap esen ada à ob a de S ua Hall sob e iden idade cul u al na pós-mode nidade. Tendo alguma
expe iência eó ica com o ema, de ido p incipalmen e ao con a o com ob as de Bauman du an e o
abalho de g aduação, su gi am da epis emologia dos dois au o es, jun amen e com a expe iência em
sala de aula e com a in es igação p é ia em comunicação e cinema, ques ões ela i as ao papel do
cinema na cons ução das iden idades na sociedade pós-mode na.
Pa a além da expe iência em sala de aula e da exposição eó ica, a impo ância dos p ocessos de
cons ução e ep esen ação de iden idades na con empo aneidade oi ainda mais e idenciada de ido às
i ências pessoais da in es igado a em um país es angei o. Como uma mulhe b asilei a que i e em
Po ugal e já i eu nos Es ados Unidos, e, po an o, la ina e imig an e, a pesquisado a depa ou-se com
uma necessidade ainda mais cla a de pe cebe a iden idade como uma cons ução, como um p ocesso
que en ol e mudanças, escolhas e con li os. Ao mesmo empo que o ca á e híb ido e lexí el da
iden idade icou mais e iden e, mo a ão longe da amília e do país de o igem ouxe mais e lexões
sob e a impo ância do pe encimen o e as o ças es abilizado as da iden idade cul u al.
A pa i dos p ocessos de cons ução iden i á ia e de um enquad amen o eó ico baseado em au o es
como Hall (1996, 1997, 2006, 2017), Bauman (2001, 2005, 2007, 2012, 2017), Giddens (2002) e
Howa h (2006, 2011), a p esen e disse ação de mes ado p ocu ou analisa o ilme de animação
Coco
(2017) a pa i de uma pe spec i a que pe cebe a iden idade e a ep esen ação como p ocessos sociais
inse idos em um con ex o his ó ico, e que, po an o, es ão em cons an e diálogo os concei os de cul u a
e di e ença. Nes e sen ido, pe cebemos o obje o de es udo como uma e amen a de comunicação com
alcance in e nacional que in luencia e é ambém in luenciada pelo con ex o sócio-his ó ico em que se
inse e, sendo, po an o, ex emamen e ele an e pa a a cons ução iden i á ia e a pe cepção do “ou o”.
19
CAPÍTULO 1 – O CONCEITO DE IDENTIDADE: REFLEXÕES SOBRE A
CONTEMPORANEIDADE
Temos is o nas úl imas décadas uma c escen e p esença da ques ão iden i á ia no cen o de discussões
den o, e o a da academia. O que le a, po ém, algo apa en emen e ão simples como a iden idade a se
um pon o cha e na con empo aneidade na isão de an os au o es? Sabemos que a iden idade es á longe
de se algo no o, mas, se a ques ão iden i á ia cons i ui uma á ea de in es igação cen al na a ualidade,
é po que exis em ca ac e ís icas e es u u as p esen es hoje que azem eme gi a p imo dialidade do
deba e. Em ou as pala as, o maio deb uçamen o sob e a ques ão iden i á ia só é possí el e necessá io
den o do con ex o sócio-his ó ico con empo âneo, logo é p eciso pe cebe um pa a en ão comp eende
o ou o.
Comp eende o empo e espaço onde i emos nunca é uma a e a ácil, pois implica pensa e analisa
a nossa manei a de se e de es a no mundo, o que pode causa insegu ança e esis ência. Es a
p oximidade e o descon o o que ela implica no olha sob e o hoje é, segundo Espe andio (2007), um
dos mo i os pa a a “polêmica” em o no da ideia de pós-mode nidade. Apesa de odas as di iculdades,
no en an o, “o es o ço de comp eende o que em a se pós-mode nidade implica, necessa iamen e, um
mo imen o pa a comp eende o nosso p óp io modo de exis ência hoje” (Espe andio, 2007, p. 11).
A segunda me ade do século XX oi ma cada, p incipalmen e den o do uni e so acadêmico ociden al,
po um amplo deba e sob e as mudanças que e iam le ado o mundo da mode nidade pa a o que se ia
uma possí el pós-mode nidade, azendo as mais di e sas pe spec i as sob e o que oi e o que é. A pa i
disso, Espe andio (2007) nos lemb a da impossibilidade de de ini uma essência da pós-mode nidade,
pois qualque de inição ão echada se ia apenas mais uma pe spec i a den e ou as. Sendo assim, a
au o a p opõe que ao in és de enxe ga a pós-mode nidade como um concei o echado ou de busca o
que se ia a sua essência, o que se pode aze é coloca em e idência “a cons ução de sen ido sob e
um p ocesso de ecomposição de di e sos elemen os (polí icos, econômicos, cul u ais, eligiosos e c.),
que le a à eme gência do que se em chamado hoje de pós-mode nidade” (Espe andio, 2007, p. 8).
Segundo Espe andio (2007), o deba e sob e a condição pós-mode na en ol e pon os como a impo ância
do capi alismo pa a a ase que i emos hoje, a ques ão das ecnologias de in o mação como p odu o as
de uma no a con igu ação, a impo ância da imagem e da emoção sob e a azão e a agmen ação de
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es u u as mode nas. Uma das maio es con o é sias em o no da ideia de pós-mode nidade, no en an o,
é a c í ica quan o ao é mino ou não da mode nidade.
Alguns pensado es, ais como Jean Baud illa d e Jean-F ançois Lyo a d, en e ou os, de endem que
as ecnologias da in o mação (compu ado es, media), no as o mas de conhecimen o e mudanças
no sis ema socioeconômico es ão p oduzindo uma no a con igu ação, di e sa da mode nidade. Já
F ed ic Jameson e Da id Ha ey in e p e am pós-mode nidade em e mos de desen ol imen o do
capi alismo em sua úl ima ase - um "capi alismo a dio" que, pa a seu p óp io desen ol imen o,
se e-se da cul u a como base; um capi alismo que in e pene a, homogeneíza e agmen a a cul u a
plane á ia, p oduzindo uma no a expe imen ação do espaço e empo e uma no a subje i idade.
(Espe andio, 2007, p.28)
De um modo ge al, enquan o alguns au o es de endem o é mino da mode nidade pa a o início de uma
no a ase, ou os pe cebem a pós-mode nidade como uma con inuação, uma ase di e en e den o da
p óp ia mode nidade, ou uma mode nidade exage ada. Di o isso, enquan o au o es como Da id Ha ey
(2001) e F ed ic Jameson (2004) usam os concei os de mode nidade e pós-mode nidade pa a delinea
as mudanças no cená io a ual, ou os au o es nos alam de mode nidade a dia ou al a mode nidade
(Giddens 2002), mode nidade líquida (Bauman, 2001), hipe mode nidade (Lipo e sky e Cha les, 2001),
ou mesmo mundialização (O iz, 1994).
Independen emen e dos a o es mais especí icos, de um modo ge al, o que se pe cebe é que exis em
sim ca ac e ís icas singula es do momen o em que i emos. Segundo And é Lúcio Ben o (2013), as
di e en es denominações não são excluden es; es as somen e “ ocam mais luz em de e minado elemen o
que compõe a in incada ede de ans o mações que se e i icam no mundo con empo âneo” (Ben o,
2013, p. 268). Apesa de di e en es au o es en ende em as concepções de mode nidade e pós-
mode nidade de manei a di e en e, di e gindo inclusi e quan o ao pe íodo especí ico ab angido e à
nomencla u a mais adequada, em linhas ge ais, pode-se encon a em odos alguns aspec os
di e enciando o passado do p esen e. Ou seja, “pa imos de concei os como uni e salismo,
homogeneidade, mono onia e cla idade pa a a p oli e ação de en endimen os em que p e alecem
concei os associados ao indi idualismo, à luidez, con ingência e ambi alência” (Macedo, 2012, p. 138).
Zygmun Bauman abalhou bas an e a ques ão da luidez na con empo aneidade. Em ob as mais
an igas, o au o chegou a usa o e mo pós-mode nidade como um “concei o imp o isado” (2007, p. 4),
mas mais a de passou a usa “mode nidade líquida” pa a se e e i aos empos a uais, pois o p imei o
"suge ia, e adamen e, que a mode nidade ' e minou' e já es amos em ou a e a". Pa a o au o , o
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concei o de “mode nidade líquida” e i a esse úl imo e o e en a iza que “somos ão, senão mais,
mode nos quan o nossos pais e a ós” (Bauman, 2007, p. 4). Ou a ques ão bas an e abalhada na ob a
de Bauman é a indi iduação, concei o que pa ece inclusi e causa algum consenso den e as di e sas
pe spec i as sob e a pós-mode nidade. Ao ala sob e a mode nidade líquida, o au o a i mou que
i emos “uma e são indi idualizada e p i a izada da mode nidade, e o peso da ama dos pad ões e a
esponsabilidade pelo acasso caem p incipalmen e sob e os omb os dos indi íduos” (Bauman, 2001,
p. 14).
A combinação de libe dade e esponsabilidade, globalização e p i a ização, lexibilidade e luidez desenha
a mode nidade líquida, azendo à ona o que Bauman (2004) chama de “c ise de pe encimen o'' e
azendo da iden idade uma ques ão p imo dial do nosso empo. Essa luidez que causa um peso maio
sob e os omb os do sujei o pós-mode no é abo dada ambém po An hony Giddens (2002) quando es e
nos ala sob e o peso que é pa a o sujei o c ia e man e uma “na a i a do eu”. Giddens, assim como
Bauman, pa e da pe spec i a de que ainda não i emos o im da mode nidade, mas sim uma “al a
mode nidade” ou “mode nidade a dia”, em que nós, como sujei os, “não emos escolha senão
escolhe ” (Giddens, 2002, p.79).
Na al a mode nidade dispomos de uma plu alidade de escolhas em elação ao nosso es ilo de ida.
Isso não signi ica que odas as possibilidades es ão abe as pa a odos, nem que as pessoas açam
suas escolhas sabendo de odas as al e na i as disponí eis. A seleção de es ilos de ida é
in luenciada em g ande pa e po p essões de g upo e pela isibilidade de de e minados es ilos, ou
limi ada a de e minadas condições socioeconômicas. (Mocellin, 2008, p. 17)
S ua Hall (1998) ambém nos ala sob e a plu alidade e agmen ação das iden idades na mode nidade
a dia, em con as e com a ideia de iden idade mais ixa e es á el da mode nidade. Segundo o au o , “o
p óp io p ocesso de iden i icação, a a és do qual nos p oje amos em nossas iden idades cul u ais,
o nou-se mais p o isó io, a iá el e p oblemá ico” (Hall, 1998, p. 12). Ao abalha a elação en e
iden idade, cul u a e ep esen ação, Hall o e ece uma pe spec i a bas an e ica sob e a pós-mode nidade
e az-se ambém essencial pa a es e abalho de in es igação.
Di o is o, den e di e sas pe spec i as e concei os sob e a con empo aneidade, pa a im des a pesquisa
usa emos as con ibuições e concei os de Bauman (2001, 2005, 2007, 2012, 2017) e suas
conside ações sob e a “mode nidade líquida”, as obse ações sob e a “al a mode nidade” ou
“mode nidade a dia” de Giddens (2002) e os con ibu os de Hall (1996, 1997, 2006), que ap esen a
suas ideias sob e os empos de hoje, u ilizando an o e mos como pós-mode nidade e sujei o pós-
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mode no, quan o mode nidade a dia. Tal eco e de e-se ao a o de conside a mos que um diálogo en e
ais eó icos em o po encial de c ia um quad o mais comple o, e ex emamen e ele an e pa a a
p esen e pesquisa, sob e as ca ac e ís icas e peculia idades ine en es ao momen o em que i emos e
sob e o luga que a ques ão iden i á ia ocupa nesse empo e espaço. Des a o ma, os e mos u ilizados
nes e capí ulo pa a abo da a con empo aneidade e le em não só o eco e eó ico escolhido, mas a
ideia de diálogo/comunicação en e os eó icos e concepções u ilizadas nes e abalho.
A pa i das ideias ap esen adas a é aqui, é possí el pe cebe o iés con adi ó io e agmen ado da
con empo aneidade. Todo esse con li o in luencia os es udos da cul u a e da comunicação, azendo su gi
da c ise de iden idade do sujei o (Hall, 2006) e da c ise de pe encimen o (Bauman, 2004), a cen alidade
da ques ão da iden idade den o e o a da academia. Des e modo, no deco e des e capí ulo, en a emos
aça um b e e pano ama eó ico dos es udos sob e a iden idade, passando po emas como cul u a,
di e ença, ep esen ação e in ância.
1.1 En e essência e cons ução
A ques ão da iden idade e suas possí eis implicações na al a mode nidade (ou mode nidade a dia) êm
sido amplamen e discu idas, e um dos nomes mais cen ais no deba e em o no da emá ica é o c í ico
cul u al S ua Hall, em cuja ex ensa ob a o e mo “iden idade” encon a amplo espaço a gumen a i o.
Em
A Iden idade Cul u al na Pós-Mode nidade
(2006), o au o b i ânico, nascido na Jamaica dos anos
1930, nos ap esen a ês di e en es concepções de iden idade: a do sujei o do Iluminismo, a do sujei o
sociológico e a do sujei o pós-mode no.
Em Hall (2006), a iden idade do sujei o Iluminis a é ap esen ada como a essência do indi íduo, c iada e
ans o mada desde o nascimen o, mas sem nunca pe de sua in eg idade; ela pe manece
essencialmen e a mesma. Ela es á ligada, assim como os alo es iluminis as de o ma ge al, à azão e
en ende o sujei o como um se cen ado e uni icado. Des a o ma, o sujei o iluminis a e a sua iden idade
são mais “indi idualis as” ou independen es da sociedade.
Já a concepção de iden idade do sujei o sociológico conside a que a iden idade do sujei o depende não
só dele p óp io, mas ambém de udo aquilo (e aqueles) ao seu edo . Tal isão é menos “indi idualis a”
e mais cen ada na in e ação e nas elações sociais do sujei o como a o ans o mado da iden idade:
“o sujei o ainda em um núcleo ou essência in e io que é o ‘eu eal’, mas es e é o mado e modi icado
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à "nossa po a” e a quem se o na mais ácil culpa po odos os males ge ados pela conjun u a
polí ica e económica da globalização. (de And ade, 2017, p. 724)
Bauman (2017) a i ma ainda que a mig ação não é um enômeno no o, mas que o pano ama econômico
e social da con empo aneidade in ensi ica os luxos mig a ó ios com o aumen o da dispa idade
socioeconômica en e di e en es países e g upos sociais. Pa a o au o , a c ise mig a ó ia demanda uma
espos a imedia a com polí icas que obse em odos os lados do p oblema, de o ma a in ensi ica o
diálogo no luga do medo e do ódio ao di e en e. A indi e ença, diz Bauman não é uma solução, is o
que “do modo como as coisas es ão e p ome em con inua po mui o empo, é imp o á el que a
mig ação em massa enha a se in e ompe , seja pela al a de es ímulo, seja pela c escen e
engenhosidade das en a i as de sus ê-la” (Bauman, 2017, p. 10).
A in ensi icação dos luxos mig a ó ios e a c escen e in e conec i idade global êm o nado e iden e que
um maio ní el de con ac o en e pessoas de di e en es cul u as não se aduz au oma icamen e num
maio in e conhecimen o e diálogo in e cul u al. Pelo con á io, ecen emen e a explosão dos discu sos
de ódio nas edes sociais e a di ulgação de
ake news
(incluindo ídeos alsos) a a és das edes sociais
digi ais (sonhadas como uma p omessa de maio in e ação en e pessoas, anscendendo as adicionais
on ei as ísicas), o na am e iden e que a maio “mis u a” no mundo não signi ica necessa iamen e
maio espei o pela di e sidade (Cabecinhas, Macedo & F ança, 2019, p. 5).
Fica cla o, en ão, que a expe iência mul icul u al po si só não se aduz em um maio espei o pela
di e sidade, assim, como os media ou as ob as de a e não são sozinhos a espos a pa a o p oblema
que exige uma e dadei a ans o mação social. É p eciso um olha mais amplo e c í ico ao pa adigma
a ual. É impe a i o ap o unda mos um pouco mais o concei o de cul u a, base pa a a ques ão da
iden idade, assim como é p eciso en ende a elação des es concei os com o de ep esen ação, pa e
undamen al do “ci cui o da cul u a”.
1.3 Iden idade, cul u a e ep esen ação
Quando alamos em iden idade, e mais especi icamen e em iden idade cul u al, es amos abo dando algo
que não "apenas exis e", algo que não é um elemen o da na u eza. Como já desen ol ido aqui
p e iamen e, as iden idades são c iadas den o de con ex os sociocul u ais, e a iden idade cul u al se
e e e aos pon os de iden i icação ei os no in e io des e con ex o, den o da cul u a e da his ó ia. Como
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já imos ambém, o ca á e lexí el, mó el, híb ido e mesmo ágil da iden idade do sujei o da
mode nidade a dia ou líquida es á di e amen e ligado à ins abilidade do p óp io con ex o em que se
inse e. Ou seja, a cul u a é ambém lexí el, mó el, híb ida e mesmo ágil, o que ica mais e iden e
quando aden amos um pouco mais nos concei os e na o mação do que en endemos como cul u a.
Hall (1997) nos ala de algumas das á ias de inições de cul u a ao longo da his ó ia, começando com
a ideia de al a cul u a, algo como uma coleção do que há de melho den e pensado es, a is as e
in elec uais, ep esen ados po clássicos da li e a u a, pin u a, música e iloso ia. Já um pouco mais
mode na, mas ainda den o do mesmo e e encial, i ia a ideia de cul u a de massa, e e en e às
p oduções a ís icas, a i idades de laze e en e enimen o que azem pa e da ida co idiana da “pessoa
comum”. O con as e en e al a cul u a e cul u a de massa (
popula cul u e
) oi po mui o empo o jei o
clássico de se deba e cul u a, e ca ega a um pode oso peso de alo que da a uma cono ação posi i a
de qualidade pa a a p imei a e nega i a (de baixa qualidade) pa a a segunda.
Em empos mais ecen es, p incipalmen e den o das ciências sociais, passou-se a ado a a de inição
an opológica, que segundo Hall (1997), é a ideia de cul u a como es ilo de ida de um po o,
comunidade, nação ou g upo social. Com um concei o pa ecido, mas com um olha mais sociológico,
em-se a isão de cul u a a elada a “ alo es compa ilhados” po um g upo ou sociedade. Ambas as
de inições con inuam em diálogo no pano ama con empo âneo, mas Hall desen ol e mais amplamen e
uma ideia mais especializada da cul u a, com ên ase pa a a cons ução de sen ido.
Den o des a pe spec i a, a cul u a es á di e amen e ligada à cons ução de sen ido e ao
compa ilhamen o/ oca das ideias e concei os o mados nesse p ocesso en e memb os de uma
sociedade ou g upo. O “sen ido” é, en ão, undamen al pa a a p óp ia de inição de cul u a, que depende
de seus memb os se em capazes de in e p e a o mundo ao seu edo e da sen ido às coisas de manei a
pa ecida, lemb ando que den o de uma cul u a podem exis i á ios signi icados di e en es pa a o
mesmo ópico, e mais de uma manei a de in e p e a ou ep esen a a mesma coisa. Além disso, a
cul u a en ol e, concei os e ideias, sen imen os, laços e emoções. De uma o ma ge al, esses
sen idos/signi icados cul u ais são comunicados, o ganizando e egulando p á icas sociais e
in luenciando a condu a e a p óp ia iden idade do sujei o (Hall, 1997, p. 2).
De aco do com o “ci cui o da cul u a” ap esen ado po S ua Hall, essa cons ução de sen ido se dá de
di e sas manei as: o “sen ido” é p oduzido em in e ações sociais, na mídia, quando inco po amos
“coisas” cul u ais em nossas p á icas o inei as lhes dando assim alo e signi icado, quando ecemos
31
na a i as e an asias ao seu edo . Ou seja, a ques ão da cons ução de sen ido es á elacionada a odos
os momen os e p á icas do ci cui o da cul u a. Ela es á na cons ução da iden idade e ma cação da
di e ença, na p odução, no consumo, na egulação de p á icas sociais e, p incipalmen e, na linguagem
(Hall, 1997, p. 4).
Os memb os da mesma cul u a, segundo Hall, compa ilham os mesmos códigos cul u ais e linguís icos,
di idem o mesmo conjun o de concei os, imagens e ideias que possibili am in e p e a o mundo de
manei a ela i amen e simila . Ao mesmo empo, pa a que possam comunica esses
sen idos/signi icados, os memb os de uma mesma cul u a alam a mesma língua, no sen ido mais amplo
de linguagem como sis ema de ep esen ação, um meio (pala as, imagens, sons, oupas, exp essões
aciais, e c.) pa a exp essa um pensamen o, concei o ideia ou pensamen o.
Is o pos o, ica e iden e que a ep esen ação em um impo an e papel den o da cul u a e,
consequen emen e, no p ocesso de cons ução da iden idade. A ep esen ação conec a a linguagem e a
cons ução de sen ido à cul u a. Ela diz espei o ao uso da linguagem pa a exp essa / ep esen a um
sen ido/signi icado ao ou o e, ao mesmo empo, é o p ocesso usado pelo sujei o pa a c ia os
signi icados e concei os pa a ele mesmo.
Hall escla ece a ideia de ep esen ação ap esen ando ês abo dagens di e en es: a e lexi a (ou
mimé ica), a in encional e a cons u i is a. A abo dagem e lexi a de ende que a linguagem apenas e le e
ou imi a os signi icados que já exis em no mundo ma e ial, enquan o a abo dagem in encional en ende
que a linguagem exp essa apenas o que o au o que dize , is o é, o signi icado in encional já p e endido
pelo alan e, esc i o , pin o , ou p odu o da mensagem de modo ge al. A abo dagem cons u i is a, po
sua ez, de ende que o sen ido é cons uído den o e a a és da mensagem, ou seja, a ep esen ação
es á na p óp ia cons i uição do sen ido. Na ep esen ação, segundo os cons u i is as, usa-se signos
o ganizados em di e en es ipos de linguagem pa a comunica signi ica i amen e com ou os; e esses
signos podem se e e i an o a obje os, e en os e pessoas do mundo ma e ial quan o a concei os
abs a os, an ás icos ou imaginá ios.
A ep esen ação não é simplesmen e um meio anspa en e de exp essão de algum supos o
e e en e. Em ez disso, a ep esen ação é, como qualque sis ema de signi icação, uma o ma de
a ibuição de sen ido. Como al, a ep esen ação é um sis ema linguís ico e cul u al: a bi á io,
inde e minado e es ei amen e ligado a elações de pode . (Sil a, 2000, p. 91)
32
A cons ução de sen ido, na pe spec i a cons u i is a, acon ece a a és de dois sis emas de
ep esen ação elacionados en e si, sendo o p imei o o p ocesso em que concei os que são o mados
na men e classi icam e o ganizam o mundo em ca ego ias signi ica i as, uncionando como um sis ema
de ep esen ação men al. Pa a comunica os sen idos cons uídos, po ém, é p eciso u iliza a linguagem,
que se ia en ão o segundo sis ema de ep esen ação. A linguagem, explica Hall, consis e em signos
o ganizados e elacionados de di e en es o mas pa a ansmi i sen ido, desde que enhamos os códigos
que nos pe mi em aduzi os nossos concei os em linguagem e ice- e sa. Esses códigos, c iados a a és
de con enções sociais, são undamen ais pa a a cul u a, is o que os in e nalizamos inconscien emen e
ao nos o na mos memb os de uma cul u a.
Esses signos que são o mados e compa ilhados não êm um sen ido ixo ou essencial. Eles são de inidos
em elação a ou os signos, a a és da dema cação da di e ença. Nesse sen ido a ideia que emos de
“b asilei o” não em de uma essência de b asilidade, mas sim da compa ação que azemos com o
concei o de “ame icano”, “po uguês”, “b i ânico”, “mexicano” e assim po dian e. A manei a mais ácil
de dema ca a di e ença, apesa de se conside ada po c í icos como simplis a ou incomple a, é po
oposições biná ias como p e o/b anco, cla o/escu o ou dia/noi e.
Segundo Sil a, as elações de iden idade e di e ença são o madas em o no das oposições biná ias, e
nessa cons ução não exis e uma di isão em duas classes simé icas. Ao ci a o ilóso o ancês Jacques
De ida, ele diz que em uma oposição biná ia, "um dos e mos é semp e p i ilegiado, ecebendo um
alo posi i o, enquan o o ou o ecebe uma ca ga nega i a". Um exemplo cla o se ia a oposição "nós"
e "eles" em que cla amen e “nós” é o e mo ou concei o p i ilegiado. Essa assime ia e le e, segundo
Sil a, uma cla a ligação da linguagem com a iden idade e a di e ença, e de odas essas com as elações
de pode (Sil a, 2000, p. 83).
Di idi o mundo social en e "nós" e "eles" signi ica classi ica . O p ocesso de classi icação é cen al
na ida social. Ele pode se en endido como um a o de signi icação pelo qual di idimos e o denamos
o mundo social em g upos, em classes. A iden idade e a di e ença es ão es ei amen e elacionadas
às o mas pelas quais a sociedade p oduz e u iliza classi icações. As classi icações são semp e
ei as a pa i do pon o de is a da iden idade. Is o é, as classes nas quais o mundo social é di idido
não são simples ag upamen os simé icos. Di idi e classi ica signi ica, nes e caso, ambém
hie a quiza . De e o p i ilégio de classi ica signi ica ambém de e o p i ilégio de a ibui di e en es
alo es aos g upos assim classi icados. (Sil a, 2000, p. 83)
33
A ques ão da di e ença é ambém amplamen e desen ol ida po Hall, que além de menciona a
impo ância linguís ica des a pa a a cons ução de sen ido po con as e, abo da ambém a sua
impo ância nas pe spec i as social, cul u al e psicológica. Socialmen e a di e ença impo a ambém
po que a cons ução de sen ido é ei a a a és do ou o, de o ma que o sen ido é en ão dialógico,
podendo se modi icado na in e ação com o ou o. Além disso, a cul u a depende da a ibuição de
signi icado às coisas a a és de um sis ema classi ica ó io (p imei o sis ema de ep esen ação), de modo
que a dema cação da di e ença é a base da o dem simbólica que denominamos de cul u a. Pa a além
disso, de uma pe spec i a psicológica, o ou o é undamen al pa a a cons ução do eu (
sel
), pa a a
cons ução da iden idade. Hall conclui com dois pon os em comum en e os di e en es ângulos
abo dados: em p imei o luga , a ques ão da di e ença em um papel cada ez mais ele an e no con ex o
da mode nidade a dia; em segundo luga , a di e ença é ambi alen e (Hall, 1997, p. 238).
Ela [a di e ença] pode se an o posi i a quan o nega i a. Po um lado, é necessá ia pa a a p odução
de signi icados, pa a a o mação da língua e da cul u a, pa a as iden idades sociais e pa a a
pe cepção subje i a de si mesmo como um sujei o sexuado. Po ou o, é, ao mesmo empo,
ameaçado a, um local de pe igo, de sen imen os nega i os, de di isões, de hos ilidade e ag essão
di igidas ao 'ou o'. (Hall, 2016, p.160)
Tan o Hall quan o Sil a abo dam alguns pe igos em elação ao concei o de di e ença. Com o olha ol ado
pa a a di e ença acial e pa a o acismo, Hall es ende-se p incipalmen e na ques ão da es e eo ipagem
como p á ica ep esen acional, abo dando pon os ela i os ao seu uncionamen o como a
essencialização, o educionismo, a na u alização e as oposições biná ias, assim como a sua elação com
jogos de pode , desde a ques ão da hegemonia e a in e ação en e conhecimen o e pode a é a alguns
e ei os mais p o undos e inconscien es como a an asia, o e ichismo e a e a ação.
Sil a abalha aspec os simila es, mas se ol a mais pa a a elação da dema cação da di e ença em
elação à cons ução da iden idade, desen ol endo alguns pon os de i ados da p oblema ização das
oposições biná ias. Nes a pe spec i a su gem ques ões como a hie a quização da iden idade a a és da
no ma ização, que implica a eleição a bi á ia de uma iden idade especí ica como pa âme o em elação
ao qual as ou as iden idades são a aliadas e hie a quizadas. Nes e p ocesso aquilo que é conside ado
no mal é is o como na u al, desejá el e único; é “a iden idade”. As ou as iden idades, as “ano mais”,
é que p ecisam se p oblema izadas (Sil a, 2000, p. 83).
Ambos os au o es disco em ambém sob e algumas con a-es a égias pa a en a in e i nos aspec os
nega i os da dema cação da di e ença pela ep esen ação. Enquan o Hall nos ala da “ anscodi icação”
34
de imagens nega i as pa a imagens nega i as das iden idades is as como di e en es, Sil a usa o
concei o de pe o ma i idade unido à ideia de uma queb a de ci acionalidade como uma possibilidade
de e e e a nega i ação da di e ença na iden idade. Em esumo, a ideia é que os a os linguís icos êm
o pode não só de desc e e , mas de de ini e e o ça iden idades, p incipalmen e a a és da
possibilidade de epe ição da linguagem (ci acionalidade). Desde modo, uma queb a de ci acionalidade
signi ica que a epe ição pode se ques ionada, con es ada e in e ompida, o que implica a possibilidade
de cons ução de no as e eno adas iden idades.
O que ica cla o no que oi expos o po ambos os au o es é que a lu a e o empenho con a o p ocesso
de signi icação nega i a da di e ença ainda es ão em cons ução. É um p ocesso inacabado. É um
p ocesso que implica mudanças, que pede ações pa a que seja possí el usu ui /explo a o que há de
posi i o no con ex o mul icul u al, híb ido e lexí el da mode nidade a dia. É p eciso ainda acha mos a
manei a de ap o ei a mos a “chance” de que nos ala Bauman ou a “opo unidade” de que ala Giddens
pa a que caminhemos pa a uma ideia de iden idade mais p óxima da ideia de humanidade.
1.4 Mul icul u alidade, mul icul u alismo e ou os concei os ele an es
Apesa de não se a a a con usão en e mul icul u alidade e mul icul u alismo, a p imei a coisa elucidada
po au o es como Mo ei a (2008) e Mendes (2010) é que mul icul u alidade é um a o, ou uma si uação
de a o. Já a pala a mul icul u alismo não designa um es ado de coisas nem uma si uação de a o, mas
sim "uma a i ude alo a i a, aduzida, ou não, em mili ância cul u al ou em ação polí ica, e que se
exp ime na de esa dos bene ícios da di e sidade cul u al e da mul icul u alidade" (Mendes, 2010, p. 35).
Nes e sen ido, a mul icul u alidade se e e e à coexis ência de di e en es cul u as em sociedades
con empo âneas, con i ência que pode e olui pa a in e ações colabo a i as ou con li uosas. Sob es a
pe spec i a, Mendes (2010) explica como mui as sociedades chamadas desen ol idas, como a
es adunidense e as eu opeias, i em em si uação de mul icul u alidade po azões his ó icas mais ou
menos ecen es. Segundo o au o , os Es ados Unidos, onde oi p oduzido o ilme escolhido como obje o
de es udo des a in es igação, êm uma “mul icul u alidade gené ica" po con a das di e en es populações
que os compõem, embo a a in eg ação desses g upos enha sido desa iado a, esul ando em ensões
aciais e é nicas pe sis en es. Apesa disso, a o-ame icanos e hispânicos o na am-se mino ias
signi ica i as no país. Já na Eu opa Ociden al, segundo Mendes, alguns países êm sido des inos
habi uais de g andes luxos mig a ó ios, p incipalmen e po azões socioeconômicas, com pessoas
35
buscando abalho o a de seus países de o igem. Isso le ou a á eas me opoli anas e suas pe i e ias
nos países de des ino a se o na em espaços de in e ação é nica, acial, linguís ica, eligiosa e cul u al,
ligadas à mão de ob a mig an e.
A si uação de mul icul u alidade não implica necessa iamen e a exis ência de con ac os e in e ações
signi ica i as en e as cul u as cop esen es, que podem coexis i no mesmo e i ó io ou em
e i ó ios con íguos em me a posição de ace-a- ace. Mas ende a e olui pa a in e aces o a
colabo a i os, o a con li uais, o a de ambas as espécies, como sabemos pela expe iência his ó ica,
à escala local, da i ência social das g andes me ópoles. (Mendes, 2010, p. 32)
A mul icul u alidade eminen e da al a mode nidade exige medidas polí icas pa a ga an i a jus iça social
e o espei o às di e en es cul u as e iden idades con i endo den o de um mesmo con ex o social, e é a
pa i des a necessidade que su ge o concei o de mul icul u alismo. É, po an o, a conscien ização de
que as sociedades são cons i uídas de uma eno me di e sidade de g upos que dá o igem ao e mo que
se e e e a p á icas polí icas e isenções de na u eza ju ídica com o obje i o de “p omo e o espei o pela
di e sidade cul u al e é nica, ga an i igualdade de a amen o e de opo unidades en e as maio ias
dominan es e as mino ias his ó icas e cul u ais, en im, a o ece a in eg ação de mino ias cul u ais”
(Mo ei a, 2008, p. 219).
É um "ismo", como as pala as c is ianismo, libe alismo, socialismo ou indi idualismo, que dize :
designa uma a i ude polí ica, uma ideologia, uma escola de pensamen o, uma c ença eligiosa ou
de ou a na u eza, um sis ema de con icções, que se con e em, ou não, em acção in e en i a.
Assim, exis em Es ados mul icul u ais que podem se , ou não, mul icul u alis as, do mesmo modo
que podem exis i indi íduos i endo em si uação mul icul u al, mas que não alo izam
posi i amen e essa si uação nem p o essam qualque mul icul u alismo. (Mendes, 2010, p. 35)
His o icamen e iniciado no Canadá, país que oi de inido pelo en ão p imei o-minis o Pie e-Elio
T udeau (no ca go de 1968 à 1979 e 1980 à 1884) como uma nação mul icul u al, cons i uída po
di e en es comunidades his ó icas e cul u ais, mais especi icamen e na época, po os indígenas,
quebequenses e imig an es. O país e e o mul icul u alismo insc i o em sua cons i uição em 1982,
escla ecendo e admi indo que o espei o pelas di e enças cul u ais é compa í el com a igualdade en e
odos os cidadãos (Mo ei a, 2008).
Segundo Mo ei a (2008), o nascimen o do mul icul u alismo, em e mos eó icos, e e o igem no deba e
en e comuni a is as e libe ais no inal da década de 1970. Em suma, os libe ais de endiam que o Es ado
não de e in e i nas di e en es concepções de bem dos seus cidadãos e nem nas di e en es noções de
36
ida boa das comunidades que o cons i uem. Os comuni a is as, po sua ez, e am a a o de ações
mul icul u alis as po de ende em que a comunidade é a p incipal on e de iden idade pessoal e que o
Es ado em o de e de p o egê-la. Com o c escen e luxo de mig ações e o g ande aumen o do núme o
de Es ados polié nicos, no en an o, os es ados libe ais começa am a pe cebe o mul icul u alismo como
uma solução polí ica pa a di e sos p oblemas su gidos em o no da mul icul u alidade.
Mo ei a (2008) nos p opo ciona uma e lexão ilosó ica do quad o eó ico do mul icul u alismo abo dando
algumas das con ibuições que conside a mais signi ica i as den o do ema, sendo es as p opos as pelos
ilóso os polí icos Cha les Taylo , Will Kymlicka e I is Ma ion Young. Taylo de ende a necessidade de um
diálogo cul u al po encializado de "polí icas de econhecimen o iguali á io" ex ensí eis à sociedade como
um odo, p esumindo, de ce o modo, um al o ní el de ole ância e boa on ade de di e en es g upos e
indi íduos pa a dialoga , oca e ans o ma suas es u u as em p ol da on ade cole i a de uma ida
comum. Kymlicka, po sua ez, de ende uma ein eg ação do libe alismo e ap esen a uma "jus i icação
libe al do econhecimen o de di ei os di e enciados de g upo" pa a as mino ias nacionais e é nicas, pa a
an o p e endo a necessidade de obse a es ições in e nas e p o eções ex e nas, o que implica ia uma
análise caso a caso na de esa dos di ei os das mino ias. Já a con ibuição de Young az o iginalidade à
ques ão do mul icul u alismo ao ala ga o c i é io de g upos com necessidade de econhecimen o ao
iden i ica a exis ência não só de mino ias nacionais e cul u ais, mas ambém de mino ias ans e sais,
p opondo assim "polí icas da di e ença" des inadas a compensa esses g upos mino i á ios í imas de
op essão.
A pa i das ideias colocadas pelos ês au o es, Mo ei a (2008) conclui econhecendo o iés ainda
incomple o do mul icul u alismo, assim como o seu ca á e ambi alen e:
A o mação de um ho izon e undido de c i é ios acili ado es do diálogo in e cul u al, a c iação de
Es ados mul inacionais e mul ié nicos e a de esa das polí icas da di e ença no âmbi o da democ acia
delibe a i a são mecanismos que podem e en ualmen e eduzi as en ações agmen á ias. Po ém,
podem ambém aze consigo o gé men sepa a is a: ao o alece em as iden idades cul u ais
especí icas, em ez de e i a em a agmen ação polí ica, quando pos os em p á ica acabam po
o alece g upos secessionis as e g upos libe ais que se opõem à Democ acia e aos Di ei os
Humanos. (Mo ei a, 2008, p. 239)
Essa ambi alência do mul icul u alismo é explicada po ou os au o es como uma alha de i ada de uma
concepção adicional, e, na isão desses, já ul apassada de cul u a. Den o dessa pe spec i a de
au o es como Wol gang Welsch, an o as ideias de mul icul u alidade e mul icul u alismo, quando o
37
concei o de in e cul u alidade, que segundo a UNESCO ( e Mendes, 2010, p.33) eme e pa a a
exis ência e pa a a in e ação equi a i a de di e sas cul u as, bem como pa a a possibilidade de ge a
exp essões cul u ais pa ilhadas pelo diálogo e pelo espei o mú uo, são concei os ainda a elados a uma
concepção de cul u a baseada em homogeneização social, consolidação é ica e delimi ação in e cul u al.
Em
T anscul u ali y - he Puzzling Fo m o Cul u es Today
, de 1999, Welsch a i ma que an o o
mul icul u alismo quan o o in e cul u alismo en am lida com a plu alidade cul u al con empo ânea e os
con li os su gidos ao seu edo a pa i de uma ideia de cul u a ainda baseada nos p ecei os idealizados
po Johann Go ied He de , no inal do século XVIII. Segundo o au o , ambos os concei os, apesa de
en a em a ança , e alcança em algum p og esso, no sen ido de ins i ui a ole ância e o espei o à
di e sidade cul u al, alham po pe cebe em as di e en es cul u as ainda como “es e as” ou “ilhas”
cla amen e delimi adas.
Pa a Welsch (1999), essa isão “ adicional” e mesmo “an iga” de cul u a, desc e e um aspec o
homogêneo (den o da cul u a) e delimi ado (en e cul u as) que não co esponde à complexa ealidade
anscul u al das sociedades con empo âneas, ca ac e izadas po mis u as e pe meações. Des a o ma,
Welsch de ende a aplicação do concei o de anscul u alidade, que pa e do p incípio de que den o de
qualque cul u a no mundo de hoje exis e an a es angei idade/di e ença quan o o a, e que, po an o,
as delimi ações cul u ais são i ealis as e con ap odu i as.
A di e sidade da anscul u alidade, segundo Welsch (1999), es á não em di e en es cul u as con i endo
den o do mesmo espaço social, mas em di e en es cul u as e es ilos de ida odos deco en es de
pe meações, odos com suas simila idades e di e enças esul an es não de uma jus aposição, mas de
conexões anscul u ais. Apesa dessa endência de ce a o ma uni icado a, exis e a demanda po
pa icula ismos e iden idades especí icas como uma eação ao e ei o globalizado , que, segundo Welsch,
não pode se igno ada.
De o ma ge al, o quad o ap esen ado pela anscul u alidade de Welsch, apesa de pa i de um concei o
de cul u a mais híb ido, é bas an e simila ao ap esen ado po alguns au o es mul icul u alis as como
S ua Hall. Mesmo Hall pa indo de um en endimen o de cul u a menos plu al a p incípio, ambos
chegam à conclusão de que no con ex o da mode nidade a dia ou líquida, as sociedades e iden idades
são ma cadas pela mobilidade, pelo hib idismo e pela lexibilidade. O que di e e no ex o de Welsch é a
ideia de que ao liga mos cul u a à anscul u alidade, o concei o em si ealiza ia uma mudança cul u al,
ou seja, o concei o de cul u a in luencia ia a “ ealidade” da cul u a.
38
Se alguém nos diz (como ez o an igo concei o de cul u a) que a cul u a de e se um e en o de
homogeneidade, en ão p a icamos as coe ções e exclusões necessá ias. P ocu amos sa is aze a
a e a que nos oi a ibuída – e se emos bem sucedidos em o aze . Po ou o lado, se alguém nos
disse , ou disse às ge ações subsequen es, que a cul u a de e inco po a o es angei o e aze
jus iça aos componen es anscul u ais, en ão ealiza emos essa a e a e os ei os de in eg ação
co esponden es pe ence ão à es u u a eal de nossa cul u a. A “ ealidade” da cul u a é, nesse
sen ido, semp e uma consequência ambém das nossas concepções de cul u a. (Welsch, 1999, p.
9)
A ideia das concepções cul u ais como concei os a i os, que eme em à p óp ia es u u a da linguagem
explo ada an e io men e com concei os como a pe o ma i idade, é um dos pon os in e essan es da
anscul u alidade. Apesa da noção de cul u a como comple amen e híb ida e sem aços de dis inção
de aiz é nica ou geog á ica soa , em alguns aspec os, um pouco ex ema, a ideia anscul u alis a de
Welsch ap esen a uma isão bas an e in e essan e da cul u a e das iden idades na con empo aneidade
e pode se mais uma e amen a eó ica pa a analisa mos o ilme selecionado pa a es a in es igação.
Não é a p e ensão des a pesquisa chega a uma solução pa a os con li os iden i á ios, mas sim
ap esen a uma lei u a de como o con ex o lexí el, híb ido e ao mesmo empo ágil e con li uoso da
con empo aneidade e as iden idades que nele se inse em, in luenciando e sendo in luenciadas
socialmen e, são ap esen adas no ilme de animação escolhido como obje o des a in es igação. Sendo
assim, dado o oco do ilme em ques ão na expe iência i ida po uma c iança, com con eúdo di ecionado
p incipalmen e pa a o público in an il, o na-se impe a i o comp eende melho as especi icidades de
como se dá esse p ocesso an es da idade adul a.
1.5 A in ância na con empo aneidade - imagem e iden idade
As c ianças e adolescen es possuem suas p óp ias manei as de e , comp eende e ans o ma o
con ex o social do qual azem pa e. Nes e sen ido, é impo an e conside a que não só exis em
singula idades ca ac e ís icas da in ância e da adolescência, mas que essas singula idades ao mesmo
empo que dependem de um con ex o sócio-his ó ico, ambém o in luenciam. Pa a Robyn Fi ush (2008),
a in ância e a adolescência são ases de ex ema impo ância pa a o p ocesso de cons ução de
iden idade e da na a i a indi idual do sujei o.
Há dois pe íodos c í icos do desen ol imen o: os anos p é-escola es, quando a au obiog a ia começa
a eme gi , e a adolescência, quando as memó ias au obiog á icas começam a aglome a -se numa
na a i a de ida global em que nos de inimos, de inimos os ou os e os nossos alo es. Na
45
de inem, delimi am e ques ionam as nossas p óp ias iden idades, e nós “lu amos po elas po que são
impo an es - e essas são dispu as das quais podem ad i consequências g a es. Elas de inem o que é
'no mal', quem pe ence - e, po an o, quem é excluído” (Hall, 1997, p.10).
No p imei o capí ulo des a disse ação, a noção de ep esen ação oi abo dada den o do uni e so eó ico
da cul u a e em sua elação com a iden idade, mas não cabia naquele con ex o um maio
ap o undamen o dos p ocessos ep esen acionais e da elação en e ep esen ação, comunicação e
cinema. Di o isso, ao conside a mos o obje o de es udo p opos o aqui, o na-se essencial pa a o p esen e
abalho de in es igação comp eende melho como acon ecem os p ocessos de ep esen ação, e como
es es se elacionam com a comunicação e com o cinema, escla ecendo a p óp ia elação en e os
sujei os e seus con ex os sócio-his ó icos.
O concei o de ep esen ações sociais é ão ins á el e plu al quan o o é a p óp ia ep esen ação. É
necessá io comp eendê-lo não mais como e amen a de desc ição, mas u ilizá-lo pa a explica os
mecanismos de ans o mação que so e o sujei o mode no en e ao uni e so de imagens no qual
ele i e. (Coda o, 2010, p. 55)
Pa a melho pe cebe mos os e ei os e consequências da ep esen ação é p eciso amplia o oco e
abso e ideias p o enien es de di e en es pe spec i as eó icas. Nes e sen ido, uma melho
comp eensão da Teo ia das Rep esen ações Sociais, de Mosco ici, pode nos ajuda a pe cebe os
p ocessos sociais e psicológicos que con e em às ep esen ações uma o ça, ao mesmo empo
p esc i i a e abe a a con li os, esis ência e ans o mação. Da mesma o ma, a pe spec i a de S ua
Hall, anco ada nos Es udos Cul u ais, o e ece uma isão mais ampla sob e as causas e e ei os das
ep esen ações a a és de um iés mais polí ico. Des a o ma, uma isão a iculada pode o e ece um
caminho pa a en ende as possibilidades de esis ência na comunicação e o papel do cinema como
ins umen o na c iação, di usão e ans o mação de iden idades cul u ais.
2.1 Rep esen ações sociais
O concei o ep esen ações sociais ad ém do abalho do psicólogo social Se ge Mosco ici,
decla adamen e in luenciado pelo sociólogo Émile Du kheim e po seu concei o de “ ep esen ações
cole i as”. Conside ado um dos pais da Sociologia, Du kheim (1895/1987) p eocupou-se em es abelece
o es udo da ealidade social como ciência, endo como obje o de es udo a consciência cole i a que ege
o compo amen o dos sujei os em sociedade. Manei as de se , pensa e agi cole i amen e que não só
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são ex e nas ao sujei o, mas que agem sob e es e, in luenciando e condicionando o compo amen o dos
indi íduos em sociedade. Ou seja, as o ças e es u u as que sus en am uma in eg ação/união da
sociedade con a p ocessos de agmen ação/desin eg ação.
Um dos p ecei os básicos pa a a sociologia de Du kheim é a comp eensão dos a os sociais como coisa,
ou seja, como um obje o cien í ico que de e se analisado empí ica e obje i amen e, supe ando as
limi ações do senso comum. Vale essal a aqui que, pa a o au o , exis e uma sepa ação, uma di e ença
en e consciência cole i a e consciência indi idual, endo a p imei a uma exis ência p óp ia pa a além
da exis ência do indi íduo, com pode coe ci i o sob e es e. Pa a Du kheim (1893/1989), en ão, se
quise mos comp eende a o ma como a sociedade ep esen a o mundo e a si mesma, de emos
conside a a na u eza da sociedade e não a dos indi íduos (Du kheim, 1893/1989, p.18).
Essa dico omia en e indi íduo e sociedade es abelecida po Du kheim com o in ui o de delimi a o obje o
de es udo da sociologia oi impo an e pa a o nascimen o des a e da an opologia como ciências
empí icas, e oi ambém undamen al pa a a psicologia, se indo como base pa a a concepção de uma
psicologia cen ada na noção de ep esen ação. Se ia en ão o pon o de pa ida pa a a c iação da
psicologia social, de Mosco ici, que po sua ez abalhou com a ligação en e indi íduo e sociedade, em
luga da di isão ei a po Du kheim (Coda o, 2010, p. 50).
Enquan o o concei o de ep esen ações cole i as de Du kheim suge e uma dico omia en e as
ep esen ações indi iduais e cole i as, sendo as p imei as obje o da psicologia e as segundas obje o da
sociologia, Mosco ici cons ói uma pon e en e as duas ciências com a ideia de ep esen ações sociais.
A Teo ia das Rep esen ações Sociais (TRS) de Mosco ici pa e de uma pe spec i a mais cons u i is a e
p ocessual que in luenciou di e sas á eas cien í icas além da p óp ia psicologia (Macedo, 2016, p. 105).
Apesa de o p óp io Se ge Mosco ici (2001) e e i -se à impossibilidade de uma dis inção cla a en e os
e mos “social” e “cole i o”, enquan o o pode coe ci i o de in eg ação e p ese ação das ep esen ações
cole i as em luga undamen al no concei o de Du kheim, en a izando o ca á e mais es á el e quase
in ocá el de uma consciência cole i a, a Teo ia das Rep esen ações Sociais (TRS) concen a-se
jus amen e na possibilidade de mudança e ans o mação das sociedades a a és dos p ocessos de
ep esen ação. A p óp ia ideia de di e sidade é cen al pa a Mosco ici, pois implica a al a de
homogeneidade das sociedades mode nas, onde se az p esen e uma dis ibuição de pode
desp opo cionada, c iando dissemelhança nas p óp ias ep esen ações (Du een, 2001).
47
Segundo Du een (2001), a TRS deixa de conside a a ep esen ação como um concei o pa a enxe gá-la
como um enômeno, ocando assim não só nas es u u as de ep esen ação e sua o ça coe ci i a, mas
nos p ocessos, na cons ução dessas ep esen ações. Essa abo dagem e idencia o ca á e dinâmico das
ep esen ações sociais em con as e com o ca á e hi o das ep esen ações cole i as como is as po
Du kheim.
Essa concepção de ep esen ação dinâmica e p o undamen e ligada à comunicação eme e ambém à
isão de S ua Hall (1997), abo dada no p imei o capí ulo des e abalho. Tan o Mosco ici quan o Hall
pe cebem a ep esen ação como um p ocesso indissociá el da cul u a, da linguagem, das elações de
pode , da di e ença e da o mação e ans o mação da ealidade social e das iden idades an o indi iduais
como cul u ais. Segundo Mosco ici, somos odos p é-condicionados pelas ep esen ações, linguagem e
cul u a, is o que “pensamos, a a és da linguagem, o ganizamos nossos pensamen os, de aco do com
um sis ema que é condicionado po nossas ep esen ações e po nossas cul u as” (Mosco ici, 2001, p.
23).
A odo momen o ecebemos no as in o mações que p ecisam se comp eendidas e in e p e adas, e es e
a o cogni i o não se dá indi idualmen e e nem su ge do nada. Quando ecebemos uma no a in o mação
e c iamos uma ideia e uma imagem de um no o obje o, dando a es e um sen ido, azemo-lo a a és de
sis emas e ep esen ações p é-exis en es. Des a manei a, o mundo como o pe cebemos no p esen e
es á semp e a elado ao passado, azendo consigo ambém ansiedades e expec a i as pa a o u u o.
Pa a além disso, quan o mais es as pe cepções de mundo são ep oduzidas e compa ilhadas po um
g upo, mais es as ep esen ações se colocam como a p óp ia ealidade, a uando no senso comum e
o nando-se uma eg a de comunicação.
No que conce ne à nossa ealidade, Mosco ici (2001, p. 20) nos diz que as ep esen ações são udo
que emos; an o o nosso sis ema pe cep i o quan o o cogni i o es ão habi uados a elas. A a és de sua
au onomia e do pode de coe ção que exe cem, as ep esen ações “(apesa de es a mos pe ei amen e
cien es de que elas não são ‘nada além de ideias’) são, de a o, como ealidades inques ioná eis que
somos le ados a enxe gá-las” (Mosco ici, 2001 p. 26).
2.2 Rep esen ação, comunicação e ans o mação
A o ça com a qual as ep esen ações sociais se impõem sob e nós não implica a impossibilidade de
di e gência en e ep esen ações e nem signi ica que as ep esen ações sociais não possam so e
48
mudanças. A cha e pa a que a o ça iniludí el e a capacidade de ans o mação sejam ambas ine en es
ao p ocesso de p odução e disseminação das ep esen ações sociais es á na comunicação.
Comunicação e ep esen ação são indissociá eis, e ao mesmo empo que não pode ha e comunicação
sem as ep esen ações sociais, o con á io ambém é e dade, pois as ep esen ações sociais são
cons uídas/c iadas nos p ocessos de comunicação.
As ep esen ações (como es u u as comuns de conhecimen o e p á ica social p oduzidas na
a i idade psicológica social) só podem exis i na comunicação a a és do desen ol imen o de
sis emas de alo es, ideias e p á icas; e ep esen ação social (como um p ocesso psicológico que é
ao mesmo empo cogni i o e cul u al) só é possí el a a és da comunicação de iden idades
eme gen es e elacionais, mudando ei indicações de di e ença e ei indicações de semelhança.
(Howa h, 2011, p. 6)
Pa a nos comunica mos usamos con enções e códigos que, ao mesmo empo que exp essam nossa
isão da ealidade, podem se comp eendidos e ans o mados no diálogo com o ou o. Essas
con enções e códigos são u o e unções p imei as das ep esen ações sociais e são exp essas a a és
da linguagem. De aco do com Mosco ici (2001), isso signi ica que o mamos e o ganizamos nossas
ideias e opiniões de aco do com um sis ema condicionado an o às nossas ep esen ações como à nossa
cul u a. De a o, as ep esen ações sociais são ge adas no p ocesso comunica i o e dependem dessa
oca en e indi íduos e g upos an o pa a aze -se ealidade quan o pa a ans o ma -se em ou as
ep esen ações dis in as, ou seja, as ep esen ações sociais nascem no ansco e dos p ocessos de
comunicação, oca e coope ação, e mais a de “elas le am uma ida p óp ia, ci culam, undem-se,
a aem-se e epelem-se, dando luga a no as ep esen ações” (Mosco ici, 2001, p. 27).
Pa a que as ep esen ações sociais exis am e ci culem de manei as dinâmicas e em cons an e
mudança, os indi íduos de em in e p e a e e-in e p e a oda e qualque ep esen ação abe a a
eles. Po an o, as ep esen ações podem con e an o con li o e con adições quan o con o midade
ou consenso. (Howa h, 2006, p. 697)
Segundo Mosco ici (2001), a p óp ia escolha do e mo “social” deu-se pela ca ga da pala a que eme e
à ideia de in e ação en e pessoas, de mo imen o, de comunicação. Sob a pe spec i a da Teo ia das
Rep esen ações Sociais, a ep esen ação não é algo que c iamos a a és de um p ocesso cogni i o
indi idual, mas sim daquelas imagens, concei os e ações que são c iadas den o de um p ocesso
elacional, na in e ação e colabo ação en e os indi íduos. Assim as ep esen ações sociais se
di e enciam das a i udes, pois, ao con á io des as, elas não são o madas po indi íduos isolados, mas
sim “na in e ação, no diálogo e na p á ica com ou os, (...) e são anco adas nas nossas adições e
49
ideologias” (Howa h, 2006, p. 695). Nesse sen ido ica cla a a impo ância da comunicação pa a a
cons ução e cons an e ans o mação das ep esen ações sociais. A comunicação é, den o des a
pe spec i a, ao mesmo empo a cons u o a, o e o e o esul ado da ep esen ação, como indica Jodele
(2001).
P imei o, ela (a comunicação) é o e o de ansmissão da linguagem, po ado a em si mesma de
ep esen ações. Em seguida, ela incide sob e os aspec os es u u ais e o mais do pensamen o
social, à medida que engaja p ocessos de in e ação social, in luência, consenso ou dissenso e
polêmica. Finalmen e, ela con ibui pa a o ja ep esen ações que, apoiadas numa eme gência
social, são pe inen es pa a a ida p á ica e a e i a dos g upos (Jodele , 2001, p. 32).
Mosco ici (2001, p. 23), nos ala de duas unções p incipais das ep esen ações sociais, sendo a p imei a
possibili a a con enção de pessoas, obje os e e en os que encon amos, dando a eles uma o ma,
colocando-os em ca ego ias e g adualmen e es abelecendo ce os modelos compa ilhados po pessoas
de um mesmo g upo, pa a mais a de se em colocados dian e de ou os modelos que e o çam ou
esis em a esses signi icados. A segunda unção, da qual ala emos mais pa a en e, é a p esc ição.
Essa con encionalização pode se di idida em duas unções-cha e das ep esen ações sociais, de aco do
com Howa h (2006): o ganiza e con encionaliza obje os, pessoas concei os e e en os, localizando-os
nas nossas his ó ias compa ilhadas e con es adas; e possibili a a comunicação en e memb os de uma
comunidade ao p opo ciona códigos pa a o in e câmbio social e pa a nomea e classi ica as coisas
sem ambiguidades (Howa h (2006, p. 695). Des a o ma, as ep esen ações sociais ope am de aco do
com ou as ep esen ações sociais a a és do diálogo, e do compa ilhamen o de ealidades, e da
cons an e in e p e ação e ein e p e ação de discu sos e signi icados. A manei a como pensamos o
mundo e as coisas e pessoas ao nosso edo es á semp e a elada a expe iências, ideologias e i ências
passadas, e ao mesmo empo é u o de an ecipações e anseios sob e o u u o. Na pe spec i a da eo ia
das ep esen ações sociais, é impossí el nos li a mos de odas as con enções e p econcei os, pois a
p óp ia mecânica do nosso pensa se az po ep esen ações. Nes e caso, o melho é en a en ende
esse p ocesso e “p ocu a isola quais ep esen ações são ine en es às pessoas e obje os que
encon amos e exa amen e o que eles ep esen am” (Mosco ici, 2001, p. 23).
Tudo o que ecebemos de in o mação p ecisa se econhecido e in e p e ado de uma manei a que aça
sen ido, mesmo que com um es anhamen o inicial. Não sabemos lida com nada que seja
comple amen e es anho, e é en ão papel cen al das ep esen ações sociais o na aquilo que nos é
es anho ou desconhecido em amilia , azendo assim o no o pa a den o de um sis ema de signi icados
50
já es abelecidos e conhecidos, azendo o que é ex e io ao nosso uni e so pa a den o dele. Segundo a
TRS, pa a que seja possí el ans o ma pala as, ideias, pessoas e e en os es anhos em algo habi ual,
azemos uso de dois mecanismos de pensamen o baseados na memó ia e em conclusões p é-
es abelecidas: a anco agem e a obje i icação (Mosco ici 2001, p. 41).
Anco agem é o p ocesso em que algo no o ou es anho é azido pa a o nosso p óp io sis ema de
ca ego ias e compa ado a um pa adigma p é-exis en e que pa eça adequado. Esse p ocesso acon ece
quase au oma icamen e quando nos depa amos com algo ou alguém que nos é es anho, o que não
signi ica que esse seja um p ocesso neu o. Pelo con á io, a anco agem implica a ca ego ização e
classi icação do no o obje o em bom ou uim, de alo nega i o ou posi i o, inse indo-o em uma
hie a quia classi ica i a. “Anco a é en ão classi ica e da nome a algo” (Mosco ici, 2001, p. 42). Na
anco agem esse no o é ans o mado pa a cabe em um sis ema de signi icados e concei os que já
possuímos, e ao mesmo empo, concei os p é-exis en es ambém se modi icam no encon o com o no o.
A obje i icação, assim como a anco agem, não é um p ocesso neu o, mas enquan o a anco agem
acon ece quase au oma icamen e, a obje i icação é um p ocesso mui o mais a i o e ambém mais
demo ado pois é quando se dá a ma e ialização de algo abs a o, é quando um concei o, uma imagem
ou uma ideia que nos e a es anha se o na não só amilia , mas conc e a. Des a o ma as ep esen ações
sociais en am pa a o campo da isão, pa a o eal, se obje i icando como algo eal e já independen e do
sujei o.
As ep esen ações sociais se colocam pa a o sujei o como a p óp ia ealidade, pois, como imos, odo o
p ocesso de acei ação, comp eensão, classi icação e in e p e ação de no as in o mações se dá a a és
de ep esen ações. Pa a Mosco ici (2001), odos os sis emas de classi icação, odas as imagens e
desc ições e mesmo concei os cien í icos que emos na sociedade implicam uma ligação com sis emas
e imagens p é ios, logo o passado es á semp e a i o no p esen e. Isso signi ica que as ep esen ações,
ao c ia em con enções de signos da ealidade e ao p esc e e em a a és de es u u as po ezes
milena es ou consolidadas, acabam po cons i ui um ambien e eal, ou seja, exe cem um pode eno me
em como pensamos, agimos e pe cebemos o mundo, mas não as emos, o que o na mais di ícil esis i
a elas.
A ideia de p esc ição é um dos aspec os mais c i icados da Teo ia das Rep esen ações Sociais, pois a
ideia de uma o ça ine i á el e ex emamen e con incen e az pa ece impossí el que exis am di e enças
e con li os nas ep esen ações sociais, ou mesmo que es as sejam passí eis de ans o mação. Como
51
pon ua Howa h (2006), no en an o, mesmo que as ep esen ações sociais sejam ela i amen e
esis en es à mudança, exis em ep esen ações di e en es e con li os e dispu as não só en e
ep esen ações dis in as, mas den o de uma mesma ep esen ação, o que pode le a à ans o mação
social.
O que é "i esis í el" sob e as ep esen ações sociais é o p óp io p ocesso de e-ap esen ação. Não
é possí el pensa , comunica e deba e na sociedade sem e-ap esen ação. Além disso, há ambém
ep esen ações hegemônicas (Mosco ici, 1988), o que Du een (2001) pode chama de
ep esen ações "impe a i as" que são aspec os ão cen ais de nossa cul u a que não podemos
ejei a em nosso senso comum. (Howa h, 2006, p. 696)
A ideia de que a Teo ia das Rep esen ações Sociais não admi e a possibilidade de esis ência ou de
mudança social é, segundo Howa h (2006), uma in e p e ação inco e a da eo ia de Mosco ici, pois o
mo imen o de ans o mação é básico pa a a p óp ia exis ência das ep esen ações. Conside ando que
as ep esen ações sociais são c iadas no p ocesso de comunicação, o diálogo, o con li o, a dispu a, a
con o midade e, logo, a ans o mação são ine en es ao p óp io concei o de ep esen ação social. A
mesma o ça que as le a a se em compa ilhadas e inco po adas po an os, nos le a a e-in e p e ação
e a esis ência pa a a c iação de no as ep esen ações.
2.3 Rep esen ações: uma in e p e ação a iculada
A escolha do e mo “ ep esen ações sociais” po Mosco ici, demons a a di e ença da TRS em elação
ao a o social de Du kheim, não apenas ao conside a a pon e en e o indi idual e o social nos p ocessos
de ep esen ação, mas ambém ao comp eende que exis em g andes di e enças en e as sociedades
adicionais, em que se inha mais uni o midade em c enças, sabe es e p á icas comunica i as e as
sociedades con empo âneas, em que di e en es sis emas de conhecimen o compe em e se mis u am
o mando campos de ep esen ação mui o mais dinâmicos, ins á eis e opos os. Essa pe cepção de um
p ocesso dinâmico, ico em signi icados e bas an e polí ico e idencia o a o de que o p ocesso de
ep esen ação em si já implica mudanças sociais e psicológicas.
Pelo pano ama eó ico da psicologia social, Mosco ici consegue abo da ques ões essenciais à
comp eensão do papel das ep esen ações nas p á icas comunica i as, ansmissão de conhecimen o e
na ap esen ação de iden idades. Com um oco maio nos p ocessos sociais psicológicos en ol idos,
Mosco ici consegue en a iza a na u eza simul aneamen e ideológica e colabo a i a das ep esen ações,
52
e sua elação com a comunicação, di e ença e iden idade, além das possibilidades de esis ência e
ans o mação den o da comunicação (Howa h, 2011, p. 6).
O oco nos p ocessos, na u al pa a as in es igações na psicologia social, escola de Mosco ici, é bas an e
ele an e pa a comp eende mos como nascem e a uam as ep esen ações sociais. No en an o, pa a
melho pe cebe mos os e ei os e consequências da ep esen ação é undamen al ab angemos aqui a
pe spec i a abo dada pelo amplo abalho de S ua Hall, já mencionado acima. Hall (1997) desc e e
sua abo dagem como
mais p eocupado com os e ei os e consequências da ep esen ação - sua "polí ica". Ela examina
não apenas como a linguagem e a ep esen ação p oduzem signi icado, mas como o conhecimen o
que um de e minado discu so p oduz se conec a com o pode , egula a condu a, c ia ou es inge
iden idades e subje i idades e de ine a manei a como ce as coisas são ep esen adas, pensadas,
p a icadas e es udadas. (p. 6)
Vindo de uma pe spec i a ligada aos es udos cul u ais, S ua Hall consegue aze uma discussão mais
polí ica e p eocupada com os jogos de pode e as ques ões ideológicas ela i as à ep esen ação,
possibili ando assim uma pe cepção mais ampla “do papel dos media no desen ol imen o e na
disseminação de ep esen ações e das possibilidades pa a o su gimen o de iden idades esis en es nas
p á icas de comunicação” (Howa h, 2011, p. 6). Pa a além disso, uma isão a iculada da
ep esen ação, u ilizando ideias de ambos (Hall e Mosco ici), nos possibili a oca an o nos gêne os
p imá ios de comunicação (con e sas e deba es diá ios) quan o nos secundá ios (comunicação de
massa, a e, discu sos ins i ucionalizados, e c.); e ambos são ele an es à p esen e in es igação.
Um pon o de in e seção in e essan e en e as ideias azidas pela TRS e po Hall é a ligação es abelecida
en e os di e en es es ágios da ep esen ação. Ambas as eo ias abo dam ês modalidades/gêne os de
comunicação: a di usão, a p opagação e a p opaganda. Segundo Howa h (2011), na di usão acon ece
o anco amen o daquilo que não nos é amilia ao que já o é, de uma manei a ela i amen e neu a com
ên ase na in o mação, sem omadas explíci as de posição da pa e do emisso . Já na p opagação az-se
a associação do não- amilia a c enças pa icula es, es abelecidas po au o idades cen ais como a Ig eja
ou uma lide ança polí ica, isando assim p oduzi uma no ma ge al de modo a o ganiza e concilia
posições e elemen os di e gen es. A p opaganda po sua ez já é cla amen e ideológica, manipulando
no as ideias de modo a de ende e da supo e a in e esses polí icos de de e minados g upos, de uma
o ma dico omizada.
53
No abalho de Hall, as ês modalidades são bas an e abo dadas ao a a -se da comunicação de massa,
quando o au o desc e e o p ocesso de Codi icação-Decodi icação (
encoding-decoding
), segundo o qual
exis e um mo imen o ci cula dos códigos/signi icados p oduzidos e ecebidos. O modelo p opos o po
Hall a ua nos ês gêne os comunica i os (di usão, p opagação e p opaganda) e sus en a uma
pa icipação a i a do ecep o na decodi icação de mensagens, uma ez que es e depende de seu p óp io
con ex o social, e pode se capaz de muda as mensagens po meio de ações cole i as. Howa h (2011)
desc e e o modelo de Codi icação-Decodi icação da seguin e manei a:
Um p ocesso ci cula pelo qual a comunicação de massa é imp essa com signi icados (códigos) e
lida a a és dos signi icados salien es pa a di e en es públicos. Mui as ezes há uma " al a de
equi alência" en e os p ocessos de codi icação (ou a p odução de comunicações) e decodi icação
(a ecepção e in e p e ação das comunicações). Ambos os p ocessos se alimen am e, às ezes,
desa iam um ao ou o. (Howa h, 2011, p. 2)
Segundo Howa h (2011), Hall demons a a al a de equi alência en e o p ocesso ci cula de codi icação
(pelos p odu o es) e a decodi icação (pelas audiências) e as manei as pelas quais isso ab e possibilidades
pa a alo es polissêmicos e ela os de oposição se desen ol e em. Esses con as es são possí eis de ido
à ime são cul u al e à di e sidade de con ex os singula es das ep esen ações. Os p odu o es e
ecep o es das mensagens e in o mações ocadas no p ocesso comunica i o signi icam e in e p e am
as ep esen ações de aco do com con ex os e his ó ias di e en es, ge ando con adições e esis ência no
quad o comunica i o.
Enquan o Hall nos ala de alo es polissêmicos ao abo da a al a de equi alência no p ocesso
comunica i o a ní el social, Mosco ici usa o e mo poli ásico pa a a a de uma al a de equi alência
en e sis emas ep esen acionais ambém a ní el indi idual, azendo a ideia de que exis e ambi alência,
ensão e con adição “ an o no ní el da psicologia quan o no ní el da cul u a; an o em e mos do que os
indi íduos dizem, azem e pensam quan o em e mos de como as ep esen ações são comunicadas e
comp eendidas de o ma mais ampla” (Howa h, 2011, p. 10).
Pa a os dois eó icos, a al a de equi alência nas ep esen ações e idencia o a o de que não es amos
odos posicionados da mesma o ma no campo comunicacional. As ep esen ações êm o ças a iadas,
no sen ido de que exis em ep esen ações hegemônicas que sa u am o senso comum dando supo e à
o dem cul u al dominan e, e exis em ou as ep esen ações que azem oposição aos discu sos
dominan es, e que, po an o, encon am uma ba ei a conside a elmen e maio . As úl imas são as
ep esen ações polêmicas (Mosco ici) ou lei u as negociadas (Hall).
54
De a o, o p ocesso de c iação e disseminação das ep esen ações não é um p ocesso neu o, como já
abo dado acima. Ao aze o p ocesso de anco agem pa a ans o ma o que é es anho em amilia ,
classi icamos no as in o mações, imagens, obje os e pessoas dando a es es um peso posi i o ou
nega i o, e esse é um p ocesso não apenas psicológico, mas ambém ideológico. No p ocesso de
obje i icação ans o mamos e ma e ializamos essas ep esen ações de o ma a aze dessas imagens e
signos pa e da ealidade, ou a p óp ia essência des a. A a és da anco agem e da obje i icação,
discu sos dominan es manipulam alo es e ideias e passam a se conside ados ealidade. Se a maio ia
das pessoas se sen e mais segu a no cla o do que no escu o, po exemplo, é po que a ep esen ação de
escu o já oi anco ada e obje i icada com uma classi icação nega i a e en ou assim pa a o senso comum,
pelas ocas comunica i as “nas comunidades sociais, cien í icas, polí icas ou eligiosas, nos mundos do
ea o, do cinema, da li e a u a ou do laze ” (Mosco ici, 2001, p. 225).
Ambos, Hall e Mosco ici, abalha am a ques ão de como as pessoas cons oem suas ealidades sociais,
mas Hall dedicou-se mais amplamen e ao papel ideológico dos média em p oduzi sis emas de
ep esen ação que a o ecem alguns in e esses e iden idades em de imen o de ou os, dis o cendo
ep esen ações e sus en ando sis emas de pode e desigualdade. De aco do com Howa h (2011, p. 12),
é nos aspec os cul u ais, his ó icos e ideológicos da p á ica comunica i a que emos algumas
ep esen ações e iden idades ligadas a elas se em ma ginalizadas e excluídas dos sis emas de discu so
con encionais, sus en ando discu sos de di e ença, p i ilégio e pode .
Seguindo a mesma ideia, é impo an e essal a que os mesmos p ocessos que possuem o pode de
causa a di e ença e a desigualdade en e di e en es iden idades e g upos, ca ega ambém a
possibilidade de en en amen o, esis ência e ans o mação dessas desigualdades e di e enças. Nesse
sen ido, an o a TRS quan o Hall essal am que as ep esen ações êm ambém seu lado dinâmico e
abe o a no as e ansg esso as manei as de elabo ação. A ep esen ação e a comunicação en ol em
an o a con enção e o con ole quan o a esis ência.
Como Mosco ici a gumen a “A comunicação nunca é edu í el à ansmissão das mensagens
o iginais, ou à ans e ência de dados que pe manecem inal e ados. A comunicação di e encia,
aduz e combina” (2008, p. xxxii). Da mesma o ma, Hall p opõe que p ocu emos momen os de
negociação, lu a e “ esis ências imagina i as” onde as pessoas exp essam seu descon en amen o
e agência, desen ol em no as iden idades e p opõem elações sociais al e na i as. Enquan o ou as
ep esen ações podem se in e nalizadas e, po an o, ep esen a uma ameaça à iden idade e
es ima, nossa psicologia in ínseca e capacidades comunica i as pa a o diálogo, deba e e c í ica
azem à ona as possibilidades de mudança psicológica, social e polí ica. (Howa h, 2011, p. 15)
61
No cinema clássico, ende-se a da a imp essão de que a his ó ia es á se con ando sozinha, po
con a p óp ia, e que na a i a e na ação são neu as, anspa en es: o uni e so diegé ico inge se
o e ece aí sem in e mediá io, sem que o espec ado enha o sen imen o de que de e eco e a
uma e cei a ins ância pa a comp eende o que es á endo. (Aumon , 2002, p. 120)
Apesa do que de endia o “cinema da anspa ência”, conside a o cinema como um meio de ep odução
na u al da ealidade implica igno a o p ocesso comple o de c iação e p odução cinema og á ica, o qual
necessi a de oda uma ins ância na a i a, que é segundo Aumon , o “luga abs a o em que se elabo am
as escolhas pa a a condu a na a i a e da his ó ia, de onde abalham ou são abalhados os códigos e
de onde se de inem os pa âme os de p odução da na a i a ílmica” (Aumon , 2002, p. 111).
Já imos, no deco e dos capí ulos an e io es des e abalho, como a linguagem é pa e undamen al do
ciclo da cul u a e como ela es á ambém di e amen e ligada aos p ocessos de ep esen ação social e
iden idade cul u al; e o cinema, an o como obje o a ís ico quan o como meio de comunicação, não
pode ia ugi dessa pe spec i a de linguagem. Di o isso, a linguagem cinema og á ica, apesa de es a
cla amen e ligada ao con ex o sócio-his ó ico e cul u al em que se inse e, en ol e uma gama de escolhas
que não são ei as alea o iamen e.
Nes e sen ido, um ilme não pode se conside ado uma ep odução na u al da ealidade, pois odo o
p ocesso de p odução cinema og á ica exige um conjun o de escolhas que não são ei as ão
na u almen e. Em ou as pala as, den e as mais di e sas possibilidades na a i as, cada ilme
ap esen a uma his ó ia com planos, cená ios, diálogos, obje os, ambien es e ilhas sono as especí icas
que ão mui o além do eal, e nes e sen ido, odo ilme é um ilme de icção. Em ou os e mos, apesa
do ínculo exis en e en e a ob a e as ci cuns âncias his ó icas e sociais, as his ó ias são ecidas,
cons uídas.
A linguagem cinema og á ica é uma sucessão de seleções, de escolhas: escolhe-se ilma o a o de
pe o ou de longe, em mo imen o ou não, des e ou daquele ângulo; na mon agem desca am-se
de e minados planos, ou os são escolhidos e colocados numa de e minada o dem. Po an o, um
p ocesso de manipulação que ale não só pa a a icção como ambém pa a o documen á io, e que
o na ingênua qualque in e p e ação do cinema como ep odução do eal. (Be na de , 2006, p. 37)
Ao conside a mos odas as escolhas ine en es ao p ocesso de p odução cinema og á ica, podemos
pe cebe que po mais que um cineas a quei a en ega um ilme sem qualque in e e ência, mos ando
apenas a ealidade, não é possí el man e -se impa cial. Qualque ob a de a e ou peça de comunicação
diz algo sob e seu au o e sob e o con ex o em que oi p oduzida. Den o des a mesma pe spec i a é que
62
Aumon (2002) nos ala sob e o discu so cinema og á ico. Pa a o au o , ao ap esen a o ilme de icção
como uma his ó ia que dispensa o supo e de uma ins ância na a i a, o cinema clássico se o na um
discu so dis a çado de his ó ia. Com ou as pala as, Be na de (2006) ambém ece suas c í icas às
en a i as de na u alização do cinema clássico, a i mando que, ao en a esconde odo o p ocesso
écnico necessá io na linguagem cinema og á ica, ende-se a esconde ambém um pon o de is a.
Dize que o cinema é na u al, que ele ep oduz a isão na u al, que coloca a p óp ia ealidade na
ela, é quase como dize que a ealidade se exp essa sozinha na ela. Eliminando a pessoa que ala,
ou az cinema, ou melho , eliminando a classe social ou a pa e dessa classe social que p oduz
essa ala ou esse cinema, elimina-se ambém a possibilidade de dize que essa ala ou esse cinema
ep esen a um pon o de is a. (Be na de , 2006, p. 19)
Além do discu so e do pon o de is a a que se e e em Aumon (2002) e Be na de (2006), ela i os ao
p ocesso de p odução do ilme e às ep esen ações e isões de mundo azidas po aqueles que
c iam/p oduzem um ilme, exis em ainda as in e p e ações e ep esen ações que a ob a encon a depois
de p on a. Nes e sen ido, Machado (2006) nos ala sob e a complexidade do concei o de ap oximação
da ealidade e pon ua como a bagagem azida po quem assis e ao ilme em ambém um papel
undamen al no cinema. Ao ala da ap oximação da ealidade, a au o a nos diz que es a não se ealiza
de o ma simples, linea e di e a, ao con á io, ela é in e mediada po uma sé ie de emoções, p é-
concei os e p é-julgamen os, que ca ac e izam os indi íduos de uma dada sociedade (Machado, 2006,
p. 27).
A imagem do cinema como a a e do eal e e um papel c ucial na his ó ia do cinema e na pe cepção
des e como a e, e es á ligada a di e sos a o es, en e eles com o a o de o ilme se capaz de ep oduzi
a imagem em mo imen o. Essa pa icula idade do que hoje chama-se de sé ima a e, ac escida mais
a de da co e do som, é capaz de causa no espec ado a imp essão de es a p esenciando uma his ó ia
eal, mesmo que es e já saiba que se a a de uma icção.
O cinema dá a imp essão de que é a p óp ia ida que emos na ela, b igas e dadei as, amo es
e dadei os. Mesmo quando se a a de algo que sabemos não se e dade, como o
Pica Pau
Ama elo
ou
O mágico de Oz
, ou um ilme de icção cien í ica como
2001
ou
Con a os imedia os de
e cei o g au
, a imagem cinema og á ica pe mi e-nos assis i a essas an asias como se ossem
e dadei as; ela con e e ealidade a es as an asias. (Be na de , 2006, p. 12)
Um dos a o es bas an e signi ica i os pa a a imp essão de ealidade é a o e ligação do cinema com a
na ação. Em uma época em que o ea o e o omance já ocupa am seus luga es como a e, o cinema
63
começa a como uma me a a ação de ei a, e p ecisou mos a -se capaz de con a mui o bem boas
his ó ias pa a se p o a me ecedo do seu p óp io luga cul u al e do s a us de a e. Em ou as pala as,
“ oi em pa e pa a se econhecido como a e que o cinema se empenhou em desen ol e suas
capacidades de na ação” (Aumon , 2002, p. 91).
Robyn Fi ush (2008) disse ou sob e como as his ó ias que ou imos e con amos desde a p imei a
in ância são a base pa a a nossa memó ia au obiog á ica, e a i ma que são essas mesmas his ó ias que
dão o ma a nós mesmos e ao mundo em que i emos. Gonçal es (1998), po sua ez, abalhou a ideia
de que os se es humanos são comp eendidos como con ado es de his ó ias, dado o ca á e
essencialmen e me a ó ico e imagina i o do pensamen o humano, que ende a p ocu a sen ido em udo
que o odeia. A ealidade, segundo o au o , “é is a como uma es u u a complexa, caó ica e
mul ipo encial, p e e encialmen e acedida a a és de disposi i os de na u eza he menêu ica e na a i a”
(Gonçal es, 1998, p. 257).
O cinema, como a e e meio de comunicação, ap esen a-se como uma e amen a impo an e no
p ocesso de cons ução das na a i as do sujei o. Segundo Be olin e B i o (2011), os ilmes a que
assis imos auxiliam na expansão dos concei os de acionalidade da sociedade con encional, le ando as
pessoas a olha em o mundo ao seu edo sob ou as pe spec i as e in luenciando nos p ocessos de
ep esen ação social. Segundo os au o es, o cinema se e como um ins umen o capaz de escla ece o
que signi ica "se -no-mundo" e, mais ainda, "se -no-mundo-social" (Be olin & B i o, 2011). Nes e
sen ido, Gube niko (2016) ala ainda sob e o papel do cinema como supo e pa a que o sujei o possa
lida com o eal e enxe ga seus p óp ios desejos e compo amen os.
O que o homem p ocu ou no ansco e de seu desen ol imen o his ó ico-cul u al, po meio das
ábulas, da eligião, ou da magia, oi a ideia de um "e e no e o no", que se mani es ou no cinema
po in e médio de uma his ó ia semp e econ ada, que az com que o espec ado ol e semp e ao
cinema – assim como ol a semp e pa a a missa, em que semp e a mesma his ó ia é desc i a.
Essa oi a o ma encon ada pelos homens pa a supo a o seu dia a dia. Po que o cinema é o
espelho do homem e e um ilme signi ica e le i nele seus p óp ios desejos e econ i ma o que
é socialmen e pe mi ido. (Gube niko , 2016, p. 37)
Pe cebemos que, apesa de o cinema não se exa amen e o espelho da ealidade no sen ido de se um
meio de ep odução na u al da ida eal, exis e sim uma o e elação en e uma ob a cinema og á ica e
o seu con ex o sócio-his ó ico, azendo do cinema um espaço é il aos es udos dos enômenos sociais.
Aumon (2002) nos ala sob e como o pe il de um ou á ios pe sonagens pode se ep esen a i o não
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apenas de um pe íodo especí ico da his ó ia do cinema, mas ambém de um pe íodo da p óp ia
sociedade em que o ilme oi p oduzido. De a o, uma ob a cinema og á ica az em si di e sas
ep esen ações sociais de aco do com onde e quando oi c iada, mas, pa a além disso, esses discu sos
(Aumon , 2002) e pon os de is a (Be na de 2006) ambém in luenciam a sociedade e ajudam na
cons ução, hegemonização e ans o mação das ep esen ações sociais, in luenciando di e amen e o
p ocesso de cons ução das iden idades cul u ais e da iden idade do sujei o de o ma ge al.
3.2 Cinema e iden idade
A ques ão da iden idade em sido discu ida e abalhada nos mais di e sos meios e con ex os da
con empo aneidade. Em um mundo líquido (Bauman, 2001), em que os pila es es u u an es da
sociedade não mais sus en am um eu baseado em es u u as adicionais, as quais se iam de e e ência
e p opo ciona am aos indi íduos uma es abilidade no mundo social, a ideia de iden idade como algo em
cons an e cons ução e ans o mação cai nos omb os do sujei o que p ecisa en ão escolhe den e
al e na i as. O sujei o con empo âneo es á en ão cons an emen e decidindo, de inindo e ede inindo o
que é, como é e a que g upos pe ence, e, consequen emen e, es abelece em suas escolhas o que não
é e de que g upos não az pa e, ou seja, o ou o.
Apesa do peso que ecai sob e os omb os do sujei o con empo âneo quan o à cons ução iden i á ia, é
impo an e lemb a que es a não se dá indi idualmen e, pois a iden idade é de a o uma cons ução
social. Nes e sen ido, a ideia que emos de nós mesmos é o mada ambém pela imagem que os ou os
possuem de nós e pelas ep esen ações sociais que desenham o mundo ao nosso edo . Segundo Hall
(1997), nossas iden idades es ão in insecamen e ligadas à cul u a e são c iadas a pa i daquilo que
nos é ex e no an o quan o do que nos é pa icula .
[...] o que denominamos “nossas iden idades” pode ia p o a elmen e se melho concei uado como
as sedimen ações a a és do empo daquelas di e en es iden i icações ou posições que ado amos
e p ocu amos “ i e ”, como se iessem de den o, mas que, sem dú ida são ocasionadas po um
conjun o especial de ci cuns âncias, sen imen os, his ó ias e expe iências únicas e peculia men e
nossas, como sujei os indi iduais. Nossas iden idades são, em esumo, o madas cul u almen e.
Is o, de odo modo, signi ica dize que de emos pensa as iden idades sociais como cons uídas no
in e io da ep esen ação, a a és da cul u a, não o a delas. (Hall, 1997, p. 26)
Ao abalha a ques ão da iden idade cul u al, Hall (2006) abo da a ideia de cul u as nacionais. Segundo
o au o , uma das p incipais on es de iden idade cul u al do mundo mode no em sido a cul u a nacional,
65
que, enquan o “comunidade imaginada”, con ibui pa a c ia uma ideia de iden idade nacional uni icada,
apesa das di e enças. Nes e sen ido, Hall nos ala sob e uma na a i a nacional c iada a pa i de
es a égias discu si as que pe mi em a iden i icação dos di e en es indi íduos de uma nação como uma
unidade. Den e essas es a égias, as na a i as passadas pelos meios de comunicação êm uma o ça
conside á el, assim como ambém a em a a e. Com os e ei os da globalização e a agmen ação das
iden idades na con empo aneidade, hou e um “a ouxamen o de o es iden i icações com a cul u a
nacional, e um e o çamen o de ou os laços e lealdades cul u ais, ‘acima’ e ‘abaixo’ do ní el do es ado-
nação” (Hall, 2006, p. 73)
Em empos pós-mode nos as cul u as êm suas imagens, linguagens e símbolos mais di e sos e
cambian es do que nunca e a na a i a nacional di ide seu peso no p ocesso de cons ução de
iden idades com ou as an as na a i as e iden i icações como gêne o, aça, classe social, a iliações
polí icas e es ilos de ida. Nes e con ex o de luidez e queb a da elação espaço- empo, o peso das
na a i as e ep esen ações ap esen adas pelos meios de comunicação é ainda maio e e le e
di e amen e na cul u a e na o mação de iden idades.
Cada ez mais os média se azem p esen es nos mais di e sos espaços e momen os da ida do sujei o
con empo âneo, inse indo-se na o ina das pessoas desde a in ância. Essa o e p esença dos meios de
comunicação de massa ez su gi no as in e ações sociais, do sujei o consigo mesmo e com o ou o.
Segundo Mo ei a (2003), ao in luencia o p ocesso de cons ução de iden idades, es imulando ce os
pe encimen os e a o ecendo de e minadas isões de mundo, o complexo midiá ico-cul u al no qual o
cinema es á inse ido o nou-se, na con empo aneidade, um dos p incipais agen es no p ocesso cul u al.
A pa i dos discu sos e das isões de mundo p oduzidos pelos sis emas de ep esen ação simbólica,
os sujei os podem se posiciona e cons ui sua iden i icação com de e minados papéis, pe is,
signi icados. Baseados nessa iden i icação subje i a, na qual semp e es ão p esen es desejos e
dinâmicas do inconscien e, os sujei os a i mam ou não seu pe encimen o: isso somos nós (e não
aquilo), azemos pa e dessa cul u a/po o/comunidade (e não daquela ou a). (Mo ei a, 2003, p.
1211)
Não só a na a i a nacional ou as na a i as no sen ido de di e en es cons uções sociais como emos
em Hall (2006), mas mesmo no seu sen ido li e al, a na a i a em um papel p imo dial na cons ução
da iden idade; a inal, não é sem azão que Giddens (2002) nos ala de uma “na a i a do eu”. Como
se es humanos, somos se es sociais, cujas iden idades são cons uídas socialmen e, e somos ambém,
de ce a o ma, con ado es de his ó ias, como suge iu Gonçal es (1998), pois alamos, pensamos,
66
imaginamos e sonhamos em cons uções na a i as. É po essa azão que as his ó ias mos adas no
cinema na a i o pa ecem ão eais, p óximas e mesmo amilia es ao espec ado . Ou imos e con amos
his ó ias (con os, mi os, memó ias, ábulas, icções, e c.) desde a p imei a in ância, e essas na a i as
ajudam a cons ui nossa iden idade e nossa manei a de e o mundo, como apon a Fi ush (2008). Em
empos pós-mode nos, em que a imagem e os p odu os cul u ais são pa es massi as das nossas idas,
mui as dessas na a i as que nos acompanham desde mui o cedo êm do que nós e aqueles ao nosso
edo ecebem pelos meios de comunicação, de modo que os ilmes a que assis imos desde c ianças
pa icipam conside a elmen e do nosso p ocesso de cons ução iden i á ia.
Os meios de comunicação, a ualmen e, são impo an es mediado es de ep esen ações que
pe passam o social, e que, com isso, ajudam a p oduzi discu sos em o no da iden idade cul u al
de um g upo. Den o des es meios, os audio isuais são os mais comumen e consumidos, daí a
necessidade de e le i sob e os discu sos iden i á ios que pe passam es es meios. (Rossini, 2005,
p. 96)
O pensamen o de Rossini, exp essado acima, nos ajuda a comp eende não só a impo ância das
na a i as audio isuais pa a a iden idade do sujei o, mas ambém a ele ância que êm as in es igações
que buscam e le i sob e os discu sos iden i á ios e a ados em ob as cinema og á icas. A linguagem,
como já abo dado no início des e capí ulo, é pa e undamen al no ciclo da cul u a e, consequen emen e,
na p odução de iden idades. É a a és da linguagem que cada indi íduo exp essa seus pensamen os e
ideias, e é ambém a a és dela que são compa ilhados os signos, códigos, imagens e na a i as que
econhecemos como cul u a. Nes a pe spec i a, a linguagem especí ica do cinema é um a o
undamen al pa a o seu papel na cons ução, manu enção e ans o mação de ep esen ações e
iden idades.
A p odução de uma linguagem es á ligada ao abalho e ao modo de p odução nela en ol idos. No
caso do cinema, a p odução de signi icado se dá a a és de uma plu alidade de discu sos. De ido
ao monopólio que ainda exe ce no me cado de exibição, o cinema ame icano e, mais
especi icamen e o cinema ame icano clássico, aquele ligado às ideologias dos g andes es údios,
p oduz signi icados que ci culam e, sendo inco po ados socialmen e a a és dos anos, encon am-
se p esen es na o mação social do indi íduo expos o a esse ipo de comunicação. Po an o, o
cinema clássico não só disseminou uma o ma de p odução de ilmes, mas ambém e,
p incipalmen e, alo es e ideologias en aizados socialmen e e en aizados em ní el de sujei o, num
p ocesso con ínuo desde a sua ins alação. É undamen al conside a -se a sua impo ância à
o mação ideológica do sujei o e às cons uções sociais (Gube niko , 2009, p.69)
67
Den o de uma pe spec i a simila , Te esa de Lau en is nos ala do cinema como um p ocesso semió ico
que es á “di e amen e implicado na p odução e ep odução de signi icados, de alo es e ideologia, an o
na sociabilidade quan o na subje i idade” (Lau en is, 1978, p. 37). Segundo a au o a, no luga de
enxe ga mos o cinema apenas como um apa a o de ep esen ação, melho se ia pe cebê-lo como uma
p á ica signi ican e, “um abalho que p oduz e ei os de signi icação e de pe cepção, au o-imagem e
posições subje i as, pa a odos aqueles en ol idos, ealizado es e espec ado es” (Lau en is, 1978, p.
37). Com um olha ap oximado ainda, Pi es e Sil a (2014) ambém explo am o papel do cinema como
uma o ma de discu so que con ibui pa a a cons ução de signi icados sociais. Sob a pe spec i a des es
au o es, o cinema pode se is o como um “a e a o cul u al de o dem simbólica que con ibui pa a a
consolidação do imaginá io con empo âneo” (Pi es & Sil a, 2014, p. 609).
As imagens, como ex os, são o mas de ep esen a e encob i o mundo. Se em pa a desc e e
as coisas e lhes da sen ido, sup imindo e in eg ando, desdob ando e es ingindo a ealidade ao
mesmo empo. O cinema, como a e a o cul u al que é, pode e de e se explo ado como o ma de
discu so que con ibui pa a a cons ução de signi icados sociais. A junção das écnicas de ilmagem
e mon agem com elenco e o p ocesso de p odução esul am num conjun o de signi icações que
p ecisam se pa ilhadas po quem o acessa, pa a que as imagens i adiadas possam p oduzi
sen idos que, mui as ezes, o nam-se de e minan es pa a suas idas. (Pi es & Sil a, 2014, p. 608)
É pe cep í el que ob as audio isuais de g ande alcance azem pa e da ida do sujei o con empo âneo
de al o ma que chegam a e um impac o pa ecido com o de ins i uições como a amília ou a escola,
a uando como agen es de socialização e con ibuindo conside a elmen e pa a a de inição de alo es
mo ais e o mas de compo amen o. Des a o ma, segundo Belmon e e Guillamón (2008), ob as
cinema og á icas podem e g ande impac o nos sujei os e na sociedade de modo ge al, “ajudando a
cons ui iden idades e con ibuindo, des a o ma, pa a es abelece os sis emas simbólicos a a és dos
discu sos e do imaginá io que ansmi em" (Belmon e & Guillamón, 2008, p. 116).
De a o, os ilmes a que assis imos ao mesmo empo que dizem algo do luga e do empo em que o am
ei os, ajudam ambém a de ini o que somos, como emos o mundo e como somos no mundo. As
his ó ias e pe sonagens a que assis imos azem pa e das nossas idas desde a p imei a in ância, c iando
ep esen ações e en ando no imaginá io de odos os que assis em e pa ilham suas imagens e signos.
Sob a mesma pe spec i a, Falcón (2013) apon a que his ó ias na adas em ilmes como algumas
animações da Disney são "as p imei as e amen as sociais com as quais codi ica a ansmissão, desde
a in ância, das expec a i as g upais de desen ol imen o, compo amen o e con i ência" (Falcón, 2013,
p. 36).
68
Nes e sen ido, podemos enxe ga alguns ilmes que nos acompanham desde a in ância, a o es
impo an es pa a a o mação de ep esen ações ou isões de mundo que se man ém mesmo na idade
adul a. Segundo as ideias de Elio (1993), os ilmes de animação conseguem pe mea odas as ases da
ida do espec ado , is o que além de sua p esença ma can e na in ância, ais ob as possibili am aos
jo ens um en e enimen o segu o e des i uído da suges ão e da pe sonalização, ao mesmo empo que,
pa a os adul os, azem um e o no à in ância, somado a uma p o undidade emá ica ep esen ada
abs a amen e.
3.3 Cinema de animação - mo imen o, imaginação e ans o mação
A a e da animação al ez seja a o ma de exp essão da linguagem audio isual mais plena de nossa
época, usando ao mesmo empo a imagem, a música, a esc i a, o desenho, a pin u a, udo ganhando
ida a a és do mo imen o c iado quad o a quad o. Segundo Wells (2004), as úl imas décadas ouxe am
a pe cepção da animação como uma das o mas mais p oeminen es na p á ica cinema og á ica. Pa a o
au o , depois de passa mui o empo sendo pe cebida como apenas um “p imo de segundo g au” do
cinema
li e-ac ion
( ilme de ação ao i o)
,
a animação encon a já no século XXI o econhecimen o c í ico
e come cial como a linguagem de base das cul u as isuais con empo âneas (Wells, 2004, p. 214).
Apesa de o econhecimen o e ap eciação das inúme as possibilidades c ia i as do cinema de animação
se conside a elmen e ecen e, Lucena Junio (2001) apon a que a elação do se humano com a
animação em de longa da a, se conside a mos a o igem e o signi icado do e mo. De aco do com o
au o , a pala a anima , assim como as pala as animação, animado e animado, de i a do e bo la ino
anima e
(da ida a), e só passou a se usada pa a desc e e imagens em mo imen o no século XX, o
que demons a que “a despei o de es a inse ida no conjun o das a es isuais, a animação em sua
essência no mo imen o” (Lucena Júnio , 2001, p. 33).
A noção de mo imen o apa ece nas mais di e sas o mas de ela o desde empos bas an e p imi i os, o
que mos a que o se humano possui uma elação bas an e es ei a com essa ideia. Lucena Júnio (2001)
ela a que desde os empos das ca e nas, homens e mulhe es já desenha am imagens de animais que
mos a am mo imen o; e segundo Wells (2013, 2004), exis e e idência de um mecanismo que p oje a a
imagens em mo imen o em uma ela da ando de
70 aC
. Não é à oa que o mo imen o em sido ema
de abalhos a ís icos há an o empo, a inal essa a ação do se humano pela cinesia es á ligada a um
69
p ocesso e olu i o da espécie, em que os olhos se desen ol e am como ins umen os de sob e i ência,
le ando o mo imen o a se "a a ação mais in ensa da a enção" (Lucena Junio , 2001, p. 33).
Assim, encon amos, ao longo da his ó ia da a e, o desejo a á ico do homem pela animação de
suas c ia u as – inicialmen e com uma in enção mágica (P é-His ó ia), mais a de como código
social (Egi o an igo), passando pelo e o ço da na a i a (O ien e P óximo an igo em dian e), a é
a ingi o pu o desejo o mal com a a e mode na. Em di e sos exemplos emos suges ões de
mo imen o ainda mais in enso, como animais pin ados em ca e nas os en ando bem mais pa as
do que êm na ealidade. (Lucena Júnio , 2001, p. 33)
Fica cla o que a elação da animação com o mo imen o é indissociá el e essencial pa a o
desen ol imen o da a e e da écnica nesse campo, no en an o, a de inição de cinema de animação é
uma a e a complexa e que ai além da ligação en e imagem e mo imen o. Segundo Wells (2013, p.
10), uma de inição possí el pa a a animação na p á ica se ia a de um ilme ei o à mão, quad o a quad o,
ge ando uma ilusão de mo imen o que não oi g a ado no sen ido o og á ico con encional, como se ia
no caso de um ilme
li e ac ion
. O p oblema com es a de inição, segundo o au o , é que apesa de se i
bem pa a a animação mais adicional, ela não aba ca as no as o mas do cinema de animação, em que
as no as ecnologias possibili am imagens ge adas digi almen e. A pa i des a cons a ação, Wells (2013)
suge e que se ia impo an e olha não apenas pa a o que acon ece em cada quad o da animação, mas
ambém pa a o que acon ece en e os quad os, como já ha ia apon ado No man McLa en, undado do
depa amen o de animação do Comi ê Nacional de Filme do Canadá, segundo o qual:
A animação não é a a e de desenhos que se mo em, mas a a e de mo imen os que são
desenhados; o que acon ece en e cada quad o é mui o mais impo an e do que o que exis e em
cada quad o; a animação é, po an o, a a e de manipula os in e s ícios in isí eis que se encon am
en e os quad os. (McLa en, ci ado em Fu niss, 2007, p. 5)
Segundo Wells (2013, p. 10), a isão de McLa en é in e essan e po apon a que a essência da animação
es á na c iação do mo imen o an es mesmo de a imagem ou obje o se o og a ado, de manei a quase
in ui i a, mas como apon a Fu niss (2007, p. 5), ao oca na essência da animação, McLa en não abo da
an o as ques ões p á icas. Nes e sen ido, a au o a ci a Cha les Solomon pa a abo da dois a o es base
pa a uma de inição mais p á ica do cinema de animação, sendo o p imei o a imagem g a ada quad o a
quad o (
ame by ame
) e o segundo a ilusão de mo imen o que é c iada, em ez de g a ada (Fu niss,
2007, p. 5).
70
Os dois a o es apon ados po Fu niss (2007) es ão bas an e p óximos da p imei a de inição de Wells
(2013), já ap esen ada acima, e ambos os au o es apon am pa a o a o de ais a o es não se em mais
su icien es pa a uma de inição do cinema de animação con empo âneo. Na isão de Fu niss (2007),
melho do que en a de ini a animação de manei a ão echada se ia pensá-la em elação ao cinema
li e-ac ion
, não como duas es e as sepa adas, mas c iando uma linha (
con inuum
) onde as duas
modalidades se es endem ep esen ando odos os ipos de imagem possí el sob a ampla ca ego ia de
ilme. Pa a que seja possí el classi ica melho as ob as, a au o a suge e ainda que es as sejam pensadas
em e mos de mimesis e abs ação, sendo a p imei a ela i a ao desejo de ep esen a a ealidade
na u al, mais p óxima do ilme
li e-ac ion
e a segunda desc i i a do uso da o ma li e, mais p óxima da
animação. Apesa de os e mos usados pela au o a suge i em endências opos as, a classi icação dos
ilmes a pa i des e modelo é semp e ela i a, pois nenhuma ob a cinema og á ica é uma coisa só. Em
ou as pala as, “a ques ão é que a elação en e
li e ac ion
e animação, ep esen ada po mimese e
abs ação, é ela i a. Ambas são endências na p odução cinema og á ica, ao in és de p á icas
comple amen e sepa adas” (Fu niss, 2007, p. 6).
O mé odo suge ido po Fu niss (2007) é bas an e in e essan e, pois se e pa a analisa ilmes ei os com
as mais di e en es écnicas, buscando as simila idades pa a posiciona as ob as em elação umas às
ou as em ez de busca di e enças pa a sepa a as ob as em ca ego ias echadas. Des a o ma, Fu niss
ap esen a uma pe spec i a que possibili a pensa os ilmes além da écnica de animação u ilizada. Nes e
sen ido, Wells (2013) nos coloca uma pe spec i a di e en e, mas que ai ao encon o da linha de análise
de Fu niss no que se e e e ao enquad amen o mais amplo do cinema de animação.
Assim como Fu niss (2007), Wells (2013) de ende que o cinema de animação não em o obje i o de
ep oduzi a ealidade na u al, nem mui o menos de igno á-la, ou seja, não es á nem o almen e den o
da ideia de mimesis nem comple amen e inse ido no polo da abs ação. Segundo o au o , é impo an e
econhece o cinema de animação como um p ocesso écnico e man e em men e a o igem da pala a
anima , de da ida a algo inanimado, de modo a pe cebe que a animação ai além da ealidade na u al.
Den o des a pe spec i a, o cinema de animação é aquele que nos possibili a enxe ga a ealidade sob
ou os ângulos, a pa i de di e en es pon os de is a.
[...] a animação pode ede ini o co idiano, sub e e nossas noções acei as de ' ealidade' e desa ia
a comp eensão e acei ação o odoxa de nossa exis ência. A animação pode desa ia as leis da
g a idade, desa ia nossa isão pe cebida do espaço e do empo e do a as coisas sem ida com
p op iedades dinâmicas e ib an es. A animação pode c ia e ei os o iginais - um pon o bem
77
98). Ambos os au o es econhecem o abalho de B ay na adoção de um sis ema de linha de p odução
e na c iação dos es údios de animação.
B ay, en ão, p ocu ou implan a na animação p incípios cien í icos de ge enciamen o à moda das
eo ias de F ede ick W. Taylo sob e p odu i idade no abalho. Sua es a égia pa a iabiliza a
p odução a aca a qua o pon os: p imei o, desca a ou modi ica a manei a en ão igen e de
p oduzi animação com es o ços em de alhes p oibi i os; segundo, abandona a p odução indi idual
e pa i pa a a di isão do abalho; e cei o, p o ege os p ocessos po meio de pa en e; qua o,
ape eiçoa a dis ibuição e o ma ke ing dos ilmes. (Lucena Júnio , 2001, p. 98)
B ay ambém oi pionei o na p odução de ilmes de animação u ilizando ace a o, po ém, o c iado do
mé odo e dono da pa en e é o animado Ea l Hu d, que abalha a nos es údios B ay. Apesa de a olha
de ace a o se algo simples, o mé odo oi e olucioná io pa a as p oduções cinema og á icas de animação
sendo ado ado como p á ica comum pela maio ia dos animado es e es údios po décadas (Lucena
Júnio , 2001).
Segundo Wells (2004), os desenhos animados eme gi am no me cado ame icano ao mesmo empo que
animações mais abs a as e expe imen ais es a am su gindo no cinema
a an -ga de
eu opeu e a
combinação da explo ação dos limi es es é icos de ob as eu opeias com os ápidos a anços ecnológicos
ame icanos enco aja am o su gimen o de á ios es údios de animação, incluindo o Fleishe B o he s,
esponsá el po animações com Be y Boop, Popeye e Supe -homem, sendo o p imei o es údio a
abalha o som em animações. Foi Wal Disney, no en an o, o p imei o a lança desenho animado com
som sinc onizado em 1928. Apesa da impo an e con ibuição dos i mãos Fleishe , é Wal Disney que
con inua a se e e ência pa a o cinema de animação a é hoje. A a és de suas ino ações adicais an o
ecnicamen e quan o es e icamen e, Disney oi o g ande nome da chamada “e a de ou o” do cinema de
animação, e seu legado segue a é hoje nos mais di e sos campos da animação.
78
CAPÍTULO 4 – O EFEITO DISNEY-PIXAR
Pa a mui as pessoas a pala a Disney ep esen a an asia, a en u a, música, di e são, amília, nos algia
e an as ou as ideias elacionadas à in ância, an o a eal quan o a que gua damos na memó ia. Nada
mais na u al is o que há décadas a Disney e as his ó ias, imagens e p odu os po es a p oduzidos
dominam o me cado do en e enimen o amilia , de modo que há pe sonagens e na a i as ma can es
e p esen es já em an as ge ações. E da mesma o ma que pa a um núme o imenso de pessoas a Disney
eme e a um ideal boni o de elicidade, an asia e inocência, pa a an as ou as a pala a ep esen a o
clichê na a i o, a monopolização de me cado, a manu enção de ideologias e o que há de mais
ganancioso no uni e so co po a i o e no con ex o capi alis a.
A pa i de al pe spec i a, o a o é que são poucas as pessoas que podem dize since amen e que nunca
ou i am o nome Disney, ou que desconhecem odo e qualque pe sonagem den e os an os ligados à
emp esa. Como disse Da is (2019), “ame ou de es e - en enda ou não - a Disney é impo an e” (Da is,
2019, p. 1). A ele ância e in luência de Wal Disney e da Disney pa a o cinema e pa a a animação é
inegá el, a pon o de se quase impossí el esc e e um li o sob e a his ó ia da animação sem ci a
ambos. Desde as con ibuições écnicas e ecnológicas, ao es ilo na a i o e isual, passando po
ques ões a ís icas e co po a i as, a Disney in luenciou e con inua a in luencia ex ensamen e o cinema
de animação mundial.
É impo an e des aca ambém que a ab angência da Disney hoje ai mui o além do cinema de animação
e dos pa ques emá icos. Como nos lemb a Haswell (2019), desde os anos 1980, i emos em um
con ex o em que a maio ia dos es údios de cinema e animação de maio ele ância in e nacional êm
sido comp ados/assimilados po g andes conglome ados midiá icos e, de a o, “The Wal Disney S udios
é o único g ande es údio a e i a a aquisição po um conglome ado, uma açanha que pa ece e
conseguido ao se o na um” (Haswell, 2019, p. 91).
A emp esa, que já oi uma pequena p odu o a independen e à me cê de gigan es co po a i os, é hoje
um conglome ado mul inacional de mídia de massa e en e enimen o que possui e ope a á ias
emp esas em odo o mundo. A Wal Disney Company possui um ex enso po ólio, comp eendendo a
p op iedade de di e sas emp esas subsidiá ias. Essa gama di e si icada de emp esas ab ange á ios
se o es, incluindo emisso as e edes midiá icas, pa ques e eso s, es údios de en e enimen o e p odu os
de consumo e mídia in e a i a (Haswell, 2019).
79
No a elmen e, a Disney de ém um g ande in e esse em edes e canais de ele isão p oeminen es, como
ABC, ESPN e A&E Ne wo ks
, que ab ange os amplamen e econhecidos
Li e ime
e
The His o y Channel
.
Além disso, a in luência da Disney se es ende pa a inclui a p op iedade de en idades es imadas como
a Ma el En e ainmen e a Pixa Anima ion S udios, a qual é não só ex emamen e ele an e den o da
his ó ia e e olução da animação, mas ambém undamen al pa a o desen ol imen o da p óp ia Disney
no con ex o da animação digi al.
Po mui os anos, a Disney em sido a maio co po ação de en e enimen o do mundo. Mas ainda
mais signi ica i o - pelo menos pa a aqueles de nós que es udam a cul u a popula em suas mui as
o mas - a Disney em sido uma ins i uição ex emamen e signi ica i a du an e g ande pa e do
século XX e du an e odo o século XXI, incluindo du an e os anos em que oi um es údio
independen e. Seus a i os incluem c iações que se o na am icônicas mesmo enquan o e am
símbolos da p óp ia emp esa. (Da is, 2019, p. 2)
No con ex o des a in es igação, de emos conside a a impo ância da Disney (e da Pixa ) como c iado a
do ilme de animação escolhido como obje o de es udo, p incipalmen e ao conside a mos os emas já
abalhados no capí ulo an e io que en ol em a elação do cinema com a ep esen ação social e a
iden idade. Pa a além dessas ques ões, no en an o, uma melho comp eensão sob e a Disney ambém
se az necessá ia de ido ao pode que es a em socialmen e, cul u almen e e economicamen e na
a ualidade. Como apon a Pallan (2019), “numa época em que g andes co po ações como a Disney
p ocu am adminis a nossa jo nada pela ida, é ex emamen e impo an e que con inuemos a
ques iona os e mos em que in e agimos com elas” (Pallan , 2019, p. 252).
Pa indo des a pe spec i a, no p esen e capí ulo aça emos um b e e pano ama his ó ico abo dando as
di e en es ases da Disney, desde o começo do es údio e dos ilmes de animação conhecidos hoje como
clássicos Disney a é a e a digi al mais a ual da emp esa. Passa emos po ques ões como a elação en e
a e, en e enimen o e discu so na animação; o ínculo en e o cinema de animação e a na a i a
clássica; e conclui emos abo dando algumas ans o mações da Disney na e a digi al, en a izando
ambém a in luência da Pixa nesse con ex o, não só no que conce ne a p óp ia Disney, mas ambém
em e e ência à animação como um odo.
4.1 O legado Disney e o cinema de animação clássico
Não é o in ui o des e abalho de in es igação con a ou analisa oda a his ó ia e ca ei a de Wal Disney,
mesmo po que já exis em inúme as ob as nas mais di e sas mídias com es udos bas an e ap o undados
80
sob e o ema. Di o is o, e is o que o obje o de análise do p esen e abalho são ilmes de animação dos
es údios Disney/Pixa , az-se pe inen e abo da aqui algumas das con ibuições de Wal Disney pa a a
animação e pa a o cinema de o ma ge al, p incipalmen e no pe íodo que icou conhecido como a “e a
de ou o” da animação. Esse b e e pano ama em o in ui o de ajuda -nos a melho comp eende o que
le a Disney a se a maio e e ência pa a o cinema de animação a é hoje e como as ob as p oduzidas
po seus es údios conec am-se com a indús ia cinema og á ica e com o con ex o his ó ico e sociocul u al
em que se inse em.
Pa a a maio ia das pessoas o p imei o nome que em à men e quando se pensa em animação é Wal
Disney e isso mos a o quan o as ob as e ideias p oduzidas pela emp esa o am di undidas pelo mundo.
Segundo Fu niss, “é segu o dize que em nenhum ou o meio as p á icas de uma única emp esa o am
capazes de domina as no mas es é icas an o quan o as da Disney” (2007, p. 107). Pa a Wells (2004),
po sua ez, apesa de impo an es con ibuições de ou os nomes da indús ia, é Disney que con inua
a se “sinônimo” de animação desde as suas ino ações écnicas e es é icas adicais en e os anos de
1920 e 1940 (p. 217). Apesa de as animações da Disney ep esen a em apenas uma pequena
po cen agem da animação c iada no mundo ao longo da his ó ia, ambos os au o es explicam se
impe a i o es uda es e es údio e en ende o quão o e e ex ensi a em sido sua in luência po ge ações.
Sob a mesma pe spec i a, Lucena Júnio a i ma não se exage o nenhum a i ma que “o século XX não
e ia as eições cul u ais que o ca ac e iza am sem a in luência do imaginá io do mundo de an asia
c iado a pa i dos desenhos animados de Wal Disney” (2001, p. 158). Pa a o au o , Wal Disney
conseguia uni uma g ande sensibilidade a ís ica com um olha emp eendedo e uma capacidade
emp esa ial isioná ia que o ans o ma am em um enômeno do uni e so da animação.
Sua ex ao diná ia sensibilidade a ís ica e a noção p ecisa de cinema enquan o a e associada à
explo ação como en e enimen o con ibuí am pa a que ele e seus a is as es abelecessem nada
menos que os concei os undamen ais da a e da animação. Ac escen e-se sua eno me capacidade
emp esa ial, decisi a pa a iabiliza p odu os que se des inam ao consumo de massa, e emos essa
pode osa pe sonalidade ão admi ada quan o odiada. (Lucena Júnio , 2001, p. 158)
Algumas das maio es con ibuições da Wal Disney pa a o uni e so da animação o am ei as en e 1928
e 1942, ou seja, em pouco mais de uma década, no pe íodo que ainda é conside ado po mui os como
a “e a de ou o” da animação. Nes e pe íodo, o es údio Disney in oduziu di e sas ino ações écnicas e
es é icas em suas animações com o in ui o de a ança pa a o es abelecimen o de um p ocesso indus ial
81
e um e hos e iden idade de es údio que osse compe i i o e compa á el aos es údios de Hollywood, na
época já es abelecidos no mundo da a e e do en e enimen o (Wells, 2004).
Segundo Lucena Júnio (2001), o sucesso inicial de Disney se de e ao en en amen o de ques ões
ela i as ao es abelecimen o de uma linguagem que do asse a animação de ca ac e ís icas a ís icas
p óp ias. De aco do com o au o , Disney e seus a is as consegui am ealmen e uni a a e e a ecnologia
com uma linguagem que possibili a a a exp essão de uma a a és da ou a. Em ou as pala as, “ao
sujei o que possuía o lápis (a ecnologia) oi o e ecido um al abe o (a a e), pa a que ele pudesse
exp essa -se” (Lucena Júnio , 2001, p. 158).
Um pouco an es das p imei as ino ações do es údio Disney começa em a ans o ma o pano ama da
animação na época, Disney, apesa de sua o mação a ís ica, azia algumas pequenas p oduções de
cu as, em sua maio ia publici á ios ou ob as baseadas em clássicos li e á ios como
Cinde ela,
Chapeuzinho Ve melho
e
Ga o de Bo as,
mas nada além que que já e a ei o em ou os pequenos
es údios com condições p ecá ias de abalho, p oduções ap essadas pa a a ende ao me cado e uso de
poucos ecu sos g á icos. O p imei o ilme que endeu a Disney um sucesso mais signi ica i o oi
Alice’s
Wonde land
(1923) ainda no es údio
Laugh-O-G am
, em que um pe sonagem animado, o ga o Julios,
i ia no mundo eal com Alice, unindo assim animação e g a ações em
li e ac ion
com uma a iz eal
(Lucena Júnio , 2001; Fu niss, 2007).
Esse p imei o ilme endeu a Disney um bom con a o com Winkle , a maio dis ibuido a de animações
da época, pa a ou os ilmes numa sé ie de
Alice 's Comedies
(Comédias da Alice). Es e icamen e, a
sé ie dizia mui o sob e o momen o em que oi ei a, com uma es u u a baseada em
gags
(piadas sol as)
e sem nenhuma ên ase na a i a, mui o de ido ao que Winkle ac edi a a se a ó mula do sucesso da
época. Apesa de não ende mui o c ia i amen e, o con a o oi essencial pa a que Disney se jun asse
ao i mão na Cali ó nia e ab isse o es údio Wal Disney P oduc ions em 1924. No en an o, a es u u a que
mis u a a animação e
li e ac ion
começou a se ma ginalizada. Disney começou a da cada ez mais
ên ase à p odução de animações, e a junção desse a o ecimen o com a ma ginalização de Alice no
es ilo na a i o, que já não azia an o sucesso com o público e inha um cus o mui o al o que não
compensa a a p odução, le ou ao inal da sé ie em 1927 (Fu niss, 2007).
Pa a subs i ui a sé ie, Disney c iou
Oswald he Lucky Rabbi
(Oswald, o Coelho So udo), ou o
pe sonagem o iginal que apa ece ia em uma sé ie o almen e animada (1928 sob Disney; 1928-1938
sob Wal e Lan z). Foi na p odução de Oswald que Disney começou a usa o
pencil es
( es e a lápis),
82
uma das p imei as g andes con ibuições écnicas do seu es údio pa a a animação. A écnica consis ia
em o og a a uma sequência de desenhos pa a checa sua qualidade de mo imen o e au en icidade
an es de es es se em passados pa a o ace a o ou se em pin ados. Apesa de simples, o
pencil es
oi
um g ande a anço écnico economizando empo e dinhei o em di e sas p oduções, an o que décadas
depois o es e passa a se simulado pelos sis emas de animação digi al, nos quais unciona como
p e iew
(Fu niss, 2007; Lucena Júnio , 2001).
Oswald oi um sucesso ins an âneo como es ela de cinema e se p o ou ambém luc a i o pa a o
me chandising de spin-o . No en an o, esse sucesso e e algumas consequências ad e sas pa a Disney,
pois Cha les Min z, ma ido de Ma ga e Winkle e no o esponsá el pelos negócios, decidiu ica com o
pe sonagem e i a Disney do p oje o. Vis o que Disney não inha os di ei os do pe sonagem pa a
con es a as demandas de Min z, es e acabou icando com odos os di ei os do p oje o e ainda le ou
consigo alguns animado es alen osos do es údio Disney (Fu niss, 2007).
Pa a es abelece o es údio, e a p eciso c ia um no o pe sonagem, e oi assim que su giu Mickey Mouse.
C iado pelo animado Ub Iwe ks, um dos g andes nomes dos es údios Disney, Mickey e e sua es eia
no ilme
S eamboa Willie
(1928). O ilme uniu os desenhos de Iwe ks e as composições de Ca l S alling
e oi o p imei o ilme de animação a e som sinc onizado. Pa a além disso, os ilmes do Mickey
ma ca am o começo de uma no a es é ica pa a o es údio Disney, com maio ên ase no desen ol imen o
de na a i as linea es, o que ez com que as animações p oduzidas po Disney se di e enciassem do que
inha sendo ei o po ou os es údios (Fu niss, 2007).
Depois de ompe seus laços com Cha les Min z, que de endia o uso das gags, assim como sua
esposa, Disney e e mais libe dade pa a es u u a seus ilmes da manei a que desejasse. Ou o
a o a a o do desen ol imen o na a i o oi que, com o im do cinema mudo, a popula idade do
humo ísico diminuiu em g ande medida e oi subs i uída pela comédia da pala a alada.
Ce amen e, os ilmes de 'Mickey' con inua am a se in luenciados pelas piadas dos comedian es
mudos, mas, como Robin Allan obse ou, a p eocupação de Disney com a na a i a con ínua o
di e encia a de seus i ais. E en ualmen e, as na a i as dos cu as de Mickey o am desen ol idas
ainda mais com a adição de á ias no as es elas: Pa o Donald, Plu o e ou os pe sonagens que
o nece am e sa ilidade nas amas pois cada um inha uma pe sonalidade única e, po an o, podia
se e a ado em di e en es ipos de a i idades. (Fu niss, 2007, p. 201)
Segundo Fu niss (2007), a sé ie de cu as ( ilmes de cu a du ação) do Mickey oi apenas uma das sé ies
bem-sucedidas do es údio depois da inco po ação da no a ecnologia de som, sendo ou a sé ie a
Silly
Symphonies
, a qual possuía um o ma o bas an e di e en e. Em ez de u iliza os mesmos pe sonagens
83
pa a da con inuidade nos ilmes, como nos cu as de Mickey, os ilmes de sé ie
Silly Symphonies
e am
is os como ob as sepa adas, sem pe sonagens e cená ios eco en es, o que ab ia mais espaço pa a a
expe imen ação. Também Lucena Júnio (2001), abo da a ques ão da expe imen ação ei a na sé ie, e
a i ma que a
Silly Symphonies
cump iu a unção de labo a ó io do es údio de Disney, c iando “no as
possibilidades pa a expe imen ações em di eção à ão almejada ‘ilusão da ida’” (Lucena Júnio , 2001,
p. 169).
Os esul ados des e labo a ó io, como apon a Lucena Júnio (2001), podem se is os desde o p imei o
ilme da sé ie musical,
Flowe s and T ees
(1932), que oi o p imei o ilme de animação o almen e
colo ido com a ecnologia Technicolo , emp esa com a qual Disney ez um con a o de exclusi idade de
dois anos.
Flowe s and T ees
oi ambém o p imei o ilme de animação a ganha um p êmio Osca . As
ino ações e o modelo de expe imen ações podem se is os ambém em ou os cu as da sé ie
Silly
Symphonies
, como
Os T ês Po quinhos
(1933), que, pa a Solomon (1954, p. 56), é o mais signi ica i o
ilme da sé ie, pois pela p imei a ez, pe sonagens isicamen e pa ecidos e ela am sua pe sonalidade
pela manei a de agi . Além disso, segundo Lucena Júnio (2001), o ilme in oduziu ambém o uso do
s o yboa d,
uma solução encon ada pelo es údio pa a o ganiza a es u u a dos ilmes, usada a é hoje
nos mais di e sos campos da imagem e comunicação. No ano seguin e, segundo (Fu niss, 2007),
The
Goddess o Sp ing
(1934), se iu como p á ica pa a o ape eiçoamen o do desenho da o ma humana,
já em p epa ação pa a o p imei o longa
1
que i ia mais a de. Já
Old Mill
(1937) oi o p imei o ilme
g a ado usando a câme a mul iplanos, ou a impo an e con ibuição não só pa a o cinema de animação,
mas pa a a indús ia cinema og á ica de o ma ge al. Segundo Wells (2004), a câme a mul iplanos oi
essencial pa a que Disney conseguisse ob e o ealismo que busca a em seus ilmes, pois possibili a a
uma ilusão de pe spec i a mui o mais ealis a.
Em 1937, o es údio Disney ealizou um dos seus maio es ei os écnicos com o lançamen o de seu
p imei o ilme de longa-me agem,
B anca de Ne e e Os Se e Anões
. Apesa de já e sido c edi ado
como p imei o longa de animação do mundo, há conhecimen o de pelo menos ês ilmes lançados de
ou os países an es de B anca de Ne e, no en an o nenhum deles oi ão in luen e, en á el e
ecnicamen e a ançado como o longa da Disney.
B anca de Ne e e Os Se e Anões
uniu di e en es
écnicas ap esen adas nos cu as
Silly Symphonies
como a câme a mul iplanos, ago a com uma es é ica
1
De ido ao a o de a p esen e pesquisa e sido esc i a em po uguês b asilei o, os e mos "longa(s)" ( e e en e a ilme(s) de longa-me agem) e "cu a(s)"
( e e en e a ilme(s) de cu a-me agem) são u ilizados no masculino, di e en e da e minologia usual em Po ugal.
84
já mais a ançada, co es echnicolo , som sinc onizado, e desen ol imen o de pe sonalidade (Fu niss,
2007).
Um dos maio es desa ios, no en an o, oi consegui o e ei o ealis a ão p ocu ado po Disney em uma
p odução com an os pe sonagens complexos e cená ios e com uma his ó ia que p ecisa a man e uma
na a i a sólida e en ol en e, p incipalmen e conside ando que a a e da animação ende na u almen e
à abs ação e simpli icação. "Em ou as pala as, a animação de longa-me agem eo icamen e é um
con assenso, pois a o ma g á ica aduz uma ap eensão sin é ica do mundo, ende à comp essão e à
simpli icação da ação. Po aí dá pa a pe cebe o g au de di iculdade que se e i ica num p oje o dessa
na u eza" (Lucena Junio , p. 188).
Tudo começou com Mickey e Plu o, um menino de desenho animado e seu cacho o, que pa ecia
pensa e suge i a ilusão da ida. En ão, as "Silly Symphonies" e a a am emoções em seus
pe sonagens, e hou e um sen imen o de ida. Finalmen e, ao con a con os de longa-me agem
sob e pe sonagens especí icos que e am con incen emen e eais, a ilusão plena de ida oi
alcançada. (Thomas & Johns on, 1995, p. 25)
Segundo Lucena Júnio (2001), pa a a ingi uma unidade es é ica com o pad ão de qualidade e ealismo
exigidos po Disney, ele e seus animado es p ecisa am busca concei os a ís icos que pe mi issem a
comunicação con incen e da imagem. Vis o isso, o es údio desen ol eu o que icou conhecido como
p incípios undamen ais da animação. Esses no os p ocedimen os o am su gindo e sendo es udados
isoladamen e pa a depois se em associados enquan o os animado es busca am es abelece a pe ei a
elação en e um desenho e ou o, de modo a consegui esul ados cons an es e p e isí eis e alcança o
que oi chamado pelos animado es de “ilusão da ida”. Disney e seus animado es chega am en ão a 12
p incípios: comp imi e es ica , an ecipação, encenação, animação di e a e posição-cha e, con inuidade
e sob eposição da ação, acele ação e desacele ação, mo imen o em a co, ação secundá ia,
empo ização, exage o, desenho olumé ico, apelo. A pa i desses p incípios, a animação “passa a a
dispo de um conjun o de eg as básicas, uma linguagem com sua p óp ia sin axe, que, adequadamen e
comp eendida e emp egada, possibili a a a ob enção de mo imen os ealis icamen e con incen es, uma
animação de boa qualidade" (Lucena Júnio , 2001, p. 186).
No início dos anos de 1930, com p oje os ão g andes como
B anca de Ne e e Os Se e Anões
, o es údio
p ecisou passa po di e sas mudanças, incluindo um aumen o conside á el no núme o de animado es.
Os no os a is as p ecisa am se capazes de man e a qualidade e a es é ica já p esen e nos ilmes da
Disney e inham que consegui aplica odos os p incípios básicos já c iados pelo es údio. A pa i des a
85
demanda, oi c iado o p og ama de einamen o dos es údios Disney, com o in ui o de capaci a odos
os animado es nas écnicas e habilidades necessá ias na cons an e busca do ealismo p opos o pelo
es údio. (Fu niss, 2007; Lucena Júnio , 2001; Wells, 2004)
Segundo Wells (2004), apesa de Disney lida com uma o ma a ís ica na u almen e mais ol ada pa a
a exp essão abs a a e não- ealis a, ele insis ia em uma e ossimilhança em seus pe sonagens, con ex os
e na a i as, de o ma que odas as igu as animadas se mo imen assem como igu as eais e agissem
a pa i de mo i ações plausí eis. Essa busca pelo ealismo não signi ica a, no en an o, que os ilmes
de essem ap esen a uma cópia da ealidade, mas sim que os pe sonagens de e iam ap esen a um
es ado de con icção que unisse ealismo e ca ica u a, de o ma que ambos inham um papel essencial,
is o que os elemen os ca ica os e exage ados, i onicamen e, pa eciam deixa os pe sonagens ainda
mais eais na ela (Wells, 2004, p. 217).
O que Wal busca a não e a uma imi ação da ida al qual ela é, mas da ida a é onde se pode
exage á-la – uma ‘ca ica u a da ida’, como Wal a chama a, com aízes no ealismo, mas
expandindo-se além dele. A animação de Wal não se ia apenas mais exage ada que a ida; ela
se ia simples, mais cla a, mais in eligen e e, inalmen e, melho . (Gable , 2006, p.206)
Segundo Lucena Júnio (2001), o que Disney e seus animado es consegui am aze a a és da busca
pela “ilusão da ida” e do ape eiçoamen o dos p incípios básicos da animação, oi c ia uma linguagem
com uma sin axe p óp ia que pe mi ia a exp essão da a e pela écnica e que ainda é usada, de alguma
o ma, pela maio ia dos animado es, pois se baseia em i mes noções cul u ais e biológicas. No en an o,
Wells (2004) apon a pa a o a o de que a linguagem c iada pela Disney, inspi ada nos ilmes de
li e
ac ion
não é a única no cinema de animação. Segundo es e au o , ao es abelecimen o da Disney como
sinônimo de animação le ou o cinema de animação a se pe cebido de o ma mui o limi ada
negligenciando ou os ipos de animação. Em suas pala as, “a ascensão da Disney e da ideologia
u ópica populis a que a aiu o g ande público ame icano esul ou na negligência de ou os ipos de
animação, mas al ez ainda mais signi ica i amen e, o desenho animado” (Wells, 2004, p. 217).
Essa obse ação ei a po Wells não é a única c í ica ei a à Disney nes e sen ido, e abo da emos a
ques ão mais a undo no p óximo i em des e capí ulo. Toda ia, se em um pon o em que pa ece ha e
consenso en e os au o es ci ados a é aqui é o a o de que o abalho p oduzido pelo es údio de Disney
du an e os anos da “e a de ou o” oi essencial pa a a consolidação do cinema de animação como a e
e pa a o amadu ecimen o dessa a e enquan o pa e da sociedade con empo ânea. Isso só oi possí el
po que a e olução p opo cionada pela Disney “ eio in eg ada, desen ol endo-se simul ânea e
86
simbio icamen e nos ês segmen os básicos: ino ação écnica, concei os a ís icos (com um es ilo bem
de inido) e es a égia de p odução” (Lucena Júnio , 2001, p. 193).
4.2 A e, en e enimen o ou discu so?
Em pa e, po e um maio di ecionamen o pa a o público in an il, u ilizando animais animados e
colo idos, música e his ó ias mui as ezes baseadas em con os de ada, o cinema de animação ende a
se cons an emen e is o como uma me a o ma de en e enimen o sem mui a p o undidade ou
in e e ência em âmbi os sociais mais adul os. Isso acon ece não apenas com o público ge al das ob as,
mas mesmo den o da c í ica e da academia, o que explica o a o de o núme o de publicações
acadêmicas sob e ilmes de animação se ela i amen e pequeno ainda hoje (Molle , 2017) e mesmo o
a o de o começo da censu a nos Es ados Unidos e deixado passa animações com con eúdo que
jamais passa ia em um ilme
li e-ac ion
da época (Wells, 2004).
De a o, os ilmes de animação, p incipalmen e os de g ande ci culação como os da Disney e Pixa , êm
sim uma o e ligação com a in ância, sendo capazes de “mobiliza an asias pode osas sob e a in ância
e a do de deixá-la” (Fo gacs, 1992, p. 374). No en an o, sendo essa ligação com as an asias e desejos
da in ância, segundo Fo gacs (1992), um impo an e a o pa a o sucesso da Disney, não signi ica que
essas ob as não enham implicações sociocul u ais signi ica i as. Segundo Molle (2017), ilmes de
animação como os p oduzidos pela Disney não apenas molda am ge ações de espec ado es que
assis i am às p oduções quando c ianças, mas em ambém êm um peso conside á el em di e sos
aspec os sociais e polí icos.
Es a disse ação abalha com a pe spec i a de que odo ilme, seja de animação ou
li e ac ion
, semp e
az consigo um discu so (Aumon , 2002) ou um pon o de is a (Be na de , 2006), como ica e iden e
ao obse a mos oda a gama de escolhas en ol idas no p ocesso de p odução de uma ob a
cinema og á ica. A pa i des a concepção de cinema como a e e comunicação, e, po an o, pa e do
que Hall (1997) chama de ciclo da cul u a, mesmo que uma ob a seja ei a com o obje i o p imei o de
en e e as pessoas ou nas pala as de Disney “ aze p aze , pa icula men e aze os ou os so i em,
ao in és de es a p eocupado em ‘exp essa ’ com imp essões c ia i as obscu as” (Disney, ci ado em
Thomas & Johns on, 1995, p. 24), ainda assim a ob a a á em si um discu so.
Com olha es análogos em elação ao cinema, alguns au o es abalham a ques ão do discu so
cinema og á ico com a ideia de ideologia. Tan o Be na de (2006) quan o Thompson (2011) enxe gam
93
p oduções mui o complexas que ão mui o além do pu o en e enimen o, azendo em si ep esen ações
sociais e pon os de is a polí icos que e le em e in luenciam a sociedade. Pa a além disso, pe cebemos
o cinema de animação como uma e amen a não só de manu enção dos discu sos e ep esen ações
sociais dominan es, mas de en en amen o e ans o mação des es.
4.3 Animação e a na a i a clássica
Como já abo dado em ou os momen os do p esen e abalho, o cinema em uma ligação mui o o e
com a na ação. Seja a a és da pe spec i a de que o se humano é na u almen e um con ado de
his ó ias (Gonçal es, 1998), seja a pa i da ideia de que as his ó ias que ou imos e con amos ajudam
a cons ui a nossa p óp ia iden idade (Fi ush, 2008), o a o é que, de alguma o ma, a es u u a na a i a
es á mui o p esen e na ida dos sujei os das mais di e sas cul u as e ge ações, e o cinema de animação
em impo ância signi ica i a como meio de ansmissão e ans o mação dessas na a i as.
As na a i as, como es u u as de comunicação, se inse em nas mais di e sas o mas, como mi os,
ábulas, con os, ea o e cinema, independen emen e do amanho ou do ní el de elabo ação da ob a.
Pa a mais, “a na a i a es á p esen e em odos os empos, em odos os luga es, em odas as sociedades;
a na a i a começa com a p óp ia his ó ia da humanidade” (Ba hes, 1973, p. 19). O a o de con a
his ó ias é in ínseco à nossa cul u a, ao nosso p ocesso de cons ução iden i á ia e à nossa p óp ia
condição humana. Essas na a i as ão in ínsecas à nossa o mação cul u al e social são sus en adas
não só pela linguagem o al e esc i a, mas ambém a a és de ges os, imagens e pelas mais di e sas
combinações possí eis den e es es (Ba hes, 1973).
Segundo Aumon (2002), a na ação consis e em o ganiza uma sequência de a os, em que os
pe sonagens se mo imen am num de e minado espaço, de aco do com o passa do empo. O i mo e a
o dem da na a i a são colocados pa a o espec ado de aco do com os e ei os na a i os (enigma,
suspense, in e esse d amá ico...) p e endidos pelo ilme, sem que seja necessá io segui uma o dem
c onológica. Sob pe spec i a semelhan e, Paul Wells (2013) ambém nos ala sob a pe cepção de e en os
na a i os como uma sequência de e en os que oco em em um de e minado pe íodo de empo. O au o
sus en a ainda que esses e en os “são in o mados po uma cadeia de causas e e ei os, su is e explíci os,
cujo esul ado inal é um momen o especí ico de esolução” (Wells, 2013, p. 68). Com um olha mais
ol ado pa a as ob as de animação, Wells pe cebe que a o ma animada, mesmo em ob as mais
con encionais, consegue ap esen a a na a i a de manei as singula es, ou seja, pa a o au o , o que é
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pa icula men e in e essan e na animação é “a ap esen ação desses e en os e, mais especi icamen e,
como a o dem, ou o núme o, ou a ex ensão dos e en os encon a sus en ação e execução únicas na
o ma animada” (Wells, 2013, p. 68).
De aco do com Fossa i (2010), as his ó ias con adas a pa i de na a i as clássicas ou o mas simples
em o pode de encan a e en ol e o público, que consegue enxe ga sua p óp ia expe iência a pa i do
que é i ido pelos pe sonagens da his ó ia. Segundo a au o a, o encan amen o dessas cons uções
na a i as possui um ca á e a e i o e psíquico que esponde ao que es á la en e em seu espec ado .
Fossa i de ende ainda que a união dessas es u u as na a i as clássicas com o apelo isual da o ma
animada po encializa ainda mais o en ol imen o do espec ado , pois segundo a au o a, “a na a i a
in eg ada pela imagem, despe a, pela ia do a e i o, sen imen os la en es e pe cepções, suge indo a
pa icipação do espec ado , que se ap op ia da in ensidade do que lhe é ap esen ado” (Fossa i, 2010,
p. 106).
De o ma ge al, na a i a, ou o ex o na a i o, é a es u u a que se enca ega da his ó ia a se con ada.
Seja con os li e á ios, peças de ea o, ilmes
li e-ac ion
, documen á ios ou ilmes de animação, esse
ex o baseia-se na ação, que en ol e pe sonagens, espaço, empo, con ex o, con li o, den e ou os
aspec os. Segundo Aumon (2002), esse enunciado que, no omance, é o mado apenas pela linguagem
esc i a, no cinema, comp eende imagens, pala as, menções esc i as, uídos e música, o que o na a
na a i a ílmica mais complexa. Em ou as pala as, no cinema o concei o de his ó ia possui suas
especi icidades, e pa a da con a des as, eó icos do cinema mui as ezes subs i uem o e mo his ó ia
pela exp essão diegese.
Sua acepção é, po an o, mais ampla do que a de his ó ia, que ela acaba englobando: é ambém
udo que a his ó ia e oca ou p o oca no espec ado . Po isso, é possí el ala de uni e so diegé ico,
que comp eende an o a sé ie das ações, seu supos o con ex o (seja ele geog á ico, his ó ico ou
social), quan o o ambien e de sen imen os e de mo i ações nos quais elas su gem. (Aumon , 2002,
p. 114)
Não é à oa que an as his ó ias encon adas em p oduções cinema og á icas de animação em mui o se
pa ecem com as na a i as clássicas de mi os, ábulas e con os de adas. Mui os ilmes clássicos de
animação o am di e amen e baseados em ob as li e á ias adicionais que azem pa e desse uni e so
na a i o, e mesmo os ilmes com o ei os o iginais em mui o se assemelham em sua es u u a e
con eúdo com a na a i a desses con os clássicos que com o empo o am inco po ados pela adição
popula . Sob es a pe spec i a, Fu niss (2007) az um olha mais ocado à Disney e obse a que um
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g ande núme o de ilmes do es údio oi baseado em con os de ada (ou con os popula es), ábulas, mi os
e lendas já bas an e conhecidas.
Segundo Fu niss (2007), an o os con os de ada quan o as ábulas podem en ol e an o pe sonagens
humanos quan o animais. Po ém, as ábulas êm um cla o p opósi o didá ico e possuem uma implicação
mo al ou uma lição a se ap endida, em ou as pala as, é nas ábulas que encon amos a amosa "mo al
da his ó ia". Pa a a au o a, en ão, podemos classi ica
B anca de Ne e e Os Se e Anões
como um con o
de adas, enquan o uma his ó ia como A Ta a uga e A Leb e, lançada em 1935 como uma
Silly
Symphony
, pode se classi icada como ábula. Quan o aos mi os, Fu niss sus en a que sua unção é
explica os g andes mis é ios do mundo, em en edos que mui as ezes ão além do mundo eal e que
em como uma o ma de ajuda o se humano a lida com as ques ões pa a as quais não se em ainda
espos as. As lendas, po sua ez, são baseadas em e en os his ó icos, apesa de se em his ó ias
bas an e exage adas. Segundo a au o a, podemos pensa no ilme
Hé cules
(1997) como um exemplo
de ilme baseado em mi o e em
Robin Hood
(1973), como uma animação baseada em uma lenda
(Fu niss 2007).
Como os con os adicionais o am ansmi idos po con ado es de his ó ias ao longo de g ande
pa e da his ó ia, eles ge almen e e am simples e di e os, mas es u u ados pa a man e o in e esse.
A na a i a o al se p es a ao con li o e ao es e eó ipo, que é usado pa a e i a o desen ol imen o de
ca á e e boso que pode diminui o in e esse do ou in e. Os con os popula es, em pa icula ,
endem a se anscul u ais e êm equi alen es di e os em á ias cul u as, embo a alguns sejam
comumen e associados a uma on e cen al de disseminação. (Fu niss, 2007, p. 114)
Com uma pe spec i a semelhan e e ol ada pa a o es udo da animação em ge al, Colling on (2016)
explica as di e en es o mas na a i as adicionais a pa i do concei o de alego ia, que se ia uma his ó ia
que pode se in e p e ada pa a e ela camadas ocul as de signi icado. Pa a a au o a, mi os, con os de
ada e con os popula es são o mas alegó icas adicionais uni e sais e podem se de inidas da seguin e
manei a:
Mi o: Uma his ó ia ic ícia que explica um mis é io ou enômeno na u al/social
Con o olcló ico/popula : Uma his ó ia mo al ic ícia, mui as ezes baseada em supe s ição, e
ansmi ida de boca em boca
Con o de adas: Um equi alen e mais ic ício e mágico do con o popula , ge almen e na o ma
esc i a (Colling on, 2016, p. 47)
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Tan o Fu niss (2007) quan o Colling on (2016) de endem que as o mas na a i as clássicas são uma
g ande on e de inspi ação pa a a p odução de ilmes de animação a é hoje, seja com base na his ó ia
con ada, seja na es u u a na a i a usada pa a con a as mais di e sas his ó ias. Di o is o, Fu niss
(2007) apon a ainda algumas das ob as clássicas mais u ilizadas na p odução de animações ao longo
dos anos. Segundo a au o a
As Fábulas de Esopo
(Fables o Esope), uma cole ânea de his ó ias
publicadas jun as pela p imei a ez po William Cax on em 1484, con ém algumas das his ó ias mais
usadas em di e en es p oduções animadas p incipalmen e nos p imei os anos do cinema, sendo
conside ada uma das p incipais on es de inspi ação pa a ilmes de animação, com his ó ias como
A
Ta a uga e a Leb e
. Ou a impo an e on e da li e a u a adicional são os
Con os da Mamãe Gansa
(The Tales o Mo he Goose), publicados pela p imei a ez po Cha les Pe aul em meados dos anos
1600, com his ó ias como
Cinde ela
e
Ga os de Bo as
, que o na am-se bas an e popula es um século
depois com o c escimen o da classe média. Nessa época, an o
As Fábulas de Esopo
quan o
Os Con os
da Mamãe Ganso
o am eedi adas po John Newbe y e ob i e am bas an e sucesso, mos ando as
possibilidades do me cado de li e a u a in an il. Anos depois, em 1812, eio a p imei a edição das
his ó ias dos I mãos G imm, que se ia a ou a publicação cha e pa a os ilmes de animação, com
his ó ias como
Chapeuzinho Ve melho
e
B anca de Ne e
.
Mau een Fu niss (2007) explo a ambém a na u eza e o p opósi o do con o de adas ao abo da as isões
do psicólogo in an il ame icano B uno Be elheim, o qual ia o con o de adas como um p ocesso ú il
pa a lida com aumas de in ância. Segundo Fu niss, Be elheim de ende que os con os de adas,
di e en e de ou as o mas de li e a u a, são capazes de es imula a imaginação das c ianças e ajudá-las
a desen ol e seu in elec o e melho comp eende suas emoções, deixando-as mais a en as às suas
ansiedades e aspi ações e mais ap as a econhece suas di iculdades, ao mesmo empo que suge e
soluções pa a os p oblemas que as pe u bam. A au o a suge e ainda, seguindo a pe spec i a de
Be elheim, que as his ó ias iolen as e assus ado as ap esen adas em alguns con os adicionais em
sua o ma o iginal são bas an e ep esen a i as das expe iências da in ância, e que "ao ap esen a
soluções a essas si uações, o con o de adas o nece à c iança um modelo pa a lida com seus medos"
(Fu niss, 2007, p. 115).
Ma ia Ri a Kehl (2006) ambém abo da algumas ques ões psicanalí icas elacionadas às na a i as
clássicas quando esc e e sob e as signi icações inconscien es. Segundo es a au o a, as na a i as
clássicas, que o am ao longo do empo sendo cada ez mais ecobe as pelo simbolismo, pe mi em a
c iação de símbolos e signi icados e o nam possí el a esolução de con li os psicológicos a a és da
97
subje i ação. Sob es a pe spec i a, an o as ob as mais clássicas da li e a u a quan o os ilmes de
animação a uais são capazes de despe a nas c ianças momen os de iden i icação com as his ó ias e
pe sonagens, is o que essas na a i as es ão embebidas no “ epe ó io imaginá io de que ela necessi a
pa a abo da os enigmas do mundo” (Kehl, 2006, p. 17).
Colling on (2017) e oma o pensamen o de Fu niss (2007) sob e a elação das na a i as clássicas com
o uni e so in an il ao abo da os es udos do o malismo usso. Sob es a pe spec i a, a au o a apon a
pa a a impo ância de melho comp eende e expandi a unção dos con os de ada pa a um con ex o
mais amplo de desen ol imen o in an il. Segundo es a au o a, den o desse con ex o pode-se pe cebe ,
em um g ande núme o de animações, emas eco en es que e le em "o i o de passagem ou o
c escimen o, como ap ende a se independen e de nossos pais, sabe aça uma iagem segu a po
um luga desconhecido, como lida com es anhos e assim po dian e" (Colling on, 2017, p. 48).
O i o de passagem de um p o agonis a (o pe sonagem p incipal de uma his ó ia) ambém pode se
desc i o como um a co de pe sonagem. Isso ilus a como uma sé ie de e en os molda o
desen ol imen o da pe sonalidade de um pe sonagem ao longo de uma his ó ia, que mui as ezes
pode se os desa ios da ida en en ados desde a in ância a é a idade adul a. (Colling on, 2017, p.
48)
Um dos maio es nomes do o malismo usso, Vladimi P opp é ainda hoje uma g ande e e ência no
es udo da na a i a clássica. Em seu li o
Mo ologia do Con o
, publicado pela p imei a ez em 1926, o
eó ico analisa a es u u a dos con os popula es ussos e de ine uma sequência de in a e um es ágios
na a i os que pode iam se aplicados a odos os con os ussos. A pa i do abalho de P opp oi possí el
obse a a adição o al do con o popula a pa i da adição esc i a do con o de adas, azendo assim
uma ideia de uni e salidade na a i a que pode aze e e ências não só do pe íodo da in ância, mas de
ou as na a i as que se o mam du an e a ida do sujei o (Colling on, 2017).
Além dos in a e um es ágios na a i os, P opp iden i icou ambém se e a qué ipos ípicos que apa ecem
no deco e de uma na a i a popula adicional que podem se comp eendidas como es e as de ação.
Esses a qué ipos ou es e as de ação o ganizados po P opp são: 1) o an agonis a (ou mal ei o ); 2) o
doado (ou p o edo ); 3) o auxilia ; 4) a p incesa (pe sonagem p ocu ado) e seu pai; 5) o mandan e; 6)
o he ói e 7) o also he ói. O conjun o de e apas e a qué ipos o ganizado po P opp suge e uma base
es u u al cons an e nos con os, em que as unções exe cidas du an e a na a i a comp eendem a pa e
in a iá el, enquan o ou as ca ac e ís icas mais pa icula es como nomes, a ibu os pessoais e cená ios
98
cons i uem a pa e a iá el en e os con os. Di o is o, obse a-se que o modelo p opos o po P opp
p eocupa-se p imei amen e com a es u u a na a i a dos con os (Colling on, 2017; Fossa i 2010).
A análise de P opp, em suma, e o ça a isão de que a na a i a é undamen almen e sin agmá ica
no modo. Mas o g ande a anço ep esen ado em seu abalho de i a de sua insis ência de que no
con o de adas o elemen o uni icado é encon ado, não em um ní el quase ' oné ico', den o dos
'pe sonagens' que apa ecem na his ó ia, mas em um ní el ' onêmico', na unção dos ca ac e es; o
papel que desempenham na ama. (Hawkes, 2003, p. 51)
Pa alelamen e ao o malismo usso de P opp, desen ol e am-se ambém á ias eo ias na a i as
es u u alis as, e, den e es as, o abalho de Lé i-S auss em ainda g ande ele ância. De aco do com
Colling on (2017), Lé i-S auss es a a mais p eocupado com a es u u a mais p o unda, ou com o sen ido
da na a i a, e ao es uda como os mi os ope am em di e en es ci ilizações pela his ó ia, ele cons a ou
que, apesa de á ias di e enças supe iciais, exis ia uma semelhança undamen al na manei a como os
mi os unciona am, ou seja, es udando as elações pa adigmá icas en e os g upos de signi ican es
usados nos mi os e seu con ex o cul u al ou semân ico mais amplo, oi possí el pe cebe que exis ia um
ema undamen al nos mi os. Mais especi icamen e, "Lé i-S auss obse ou a manei a em que a men e
humana p imi i a signi ica a os enômenos na u ais no mundo" (Colling on, 2017, p. 51).
As his ó ias mí icas são, ou pa ecem, a bi á ias, sem sen ido, absu das, mas mesmo assim
pa ecem eapa ece em odo o mundo. Uma c iação ‘ an asiosa’ da men e em um luga se ia única
- ocê não espe a ia encon a a mesma c iação em um luga comple amen e di e en e. Meu
p oblema e a en a descob i se ha ia algum ipo de o dem po ás dessa apa en e deso dem -
isso é udo. (Lé i-S auss, 2001, p. 3)
Ba hes (1991) cujos es udos o am ambém bas an e signi ica i os pa a o es u u alismo e a semió ica,
es a a p incipalmen e in e essado em ilus a o pode e uso dos mi os na cul u a de massa mode na.
De o ma semelhan e a Lé i-S auss (2001), o au o ambém obse ou como, den o de um mi o, as
signi icações e simbolismos de um obje o pa icula pode o na -se uma me á o a pa a alo es cul u ais
e mesmo pa a as p o ações ou con li os i idos pelo se humano du an e a ida. Sob es a pe spec i a,
o au o ap esen a a ideia de " o em", como um obje o com ep esen ações simbólicas, como é
exempli icado pelo inho, o qual o nou-se um símbolo oman izado da iden idade ancesa, mas pode
se ambém associado à maldade de ido às suas p op iedades ans o ma i as. Segundo Ba hes (1991),
a mi ologia do inho pode ajuda na comp eensão da ambiguidade comum da ida co idiana, pois ao
mesmo empo que o inho é uma bebida boa e subs anciosa, sua p odução se inse e nos modos do
99
capi alismo e es á associada às elações de pode . Pa a o au o , "como odos os o ens esis en es, o
inho sus en a uma mi ologia a iada que não se p eocupa com as con adições" (Ba hes, 1991, p. 58).
Se le a mos o pensamen o de Ba hes (1991) pa a as p oduções animadas dos es údios Disney,
p incipalmen e os ilmes de animação mais ecen es, é possí el obse a como a ideia de o em segue
ainda p esen e nos dias a uais. Não apenas alguns obje os ganham signi icados especiais a pa i da
na a i a dos ilmes, mas além de se em p oduzidos an es den o de um sis ema capi alis a, o pode
mí ico dado aos obje os pelo ilme amplia ainda mais seu alo de p odu o uma ez que o ilme é assis ido
po milhões de pessoas em odo o mundo. As in e p e ações e o sen ido de um mesmo obje o podem
a ia de cul u a pa a cul u a e de indi íduo pa a indi íduo, mas a es u u a básica do pode mí ico segue
cons an e, assim como a p edisposição a con adições.
Quan o à elação da es u u a na a i a mí ica adicional com as his ó ias p esen es em ilmes de
animação a uais de g andes es údios, como a Disney e a Pixa (hoje ambém pa e da Disney), é
impo an e no a que ainda hoje as ideias de au o es como P opp (1984), Lé i-S auss (2001) e Ba hes
(1991) êm g ande in luência no con eúdo cinema og á ico p oduzido em di e sos países. Segundo
Colling on (2017), a consolidação, desen ol imen o e g ande popula ização dessas eo ias na a i as
de e mui o a Joseph Campbell, cujo abalho em mi ologia compa a i a "essencialmen e combina
abo dagens es u u alis as e o malis as pa a c ia es u u a na a i a e signi icado" (Colling on, 2017, p.
54). Joseph Campbell (2008), in luenciado po o malis as e es u u alis as como os já aqui ci ados,
de iniu o seu p óp io conjun o de dezeno e es ágios na a i os baseados na compa ação de á ios mi os
de di e sas pa es do mundo. Mais especi icamen e, o au o de iniu um ema eco en e uni e sal das
na a i as clássicas undamen ado nas a en u as e ans o mações do he ói das his ó ias, o que chamou
de "Jo nada do he ói".
Um he ói se a en u a do mundo co idiano em uma egião de ma a ilhas sob ena u ais: o ças
abulosas são encon adas e uma i ó ia decisi a é conquis ada: o he ói ol a des a mis e iosa
a en u a com o pode de concede bênçãos a seus semelhan es. (Campbell, 2008, p. 23)
Vogle (1998), de ende que as na a i as clássicas ap esen am ideias e es u u as que ajudam a
diagnos ica os p oblemas e as soluções pa a odas as his ó ias, e segundo es e au o , a con ibuição de
Joseph Campbell oi essencial, is o que oi ele que euniu, econheceu, a iculou, nomeou e o ganizou
essas ideias, ou seja “ oi ele quem expôs, pela p imei a ez, o pad ão subjacen e a oda e qualque
his ó ia que jamais se con ou” (Vogle , 1998, p. 32). Segundo Vogle (1998), a maio ealização de
100
Campbell oi consegui a icula cla amen e “os p incípios de ida embu idos na es u u a das his ó ias”
(Vogle , 1998, p. 13). Pa a es e au o as e apas desc i as na Jo nada do He ói não só es abelece am as
eg as não esc i as da na a i a, mas desc e em ambém as e apas e p o ações da ida, agindo como
um guia pa a o sujei o comum lida com o mundo e os desa ios que su gem em sua p óp ia jo nada.
Também Colling on (2017) abo da a elação da Jo nada do He ói como ap esen ada po Campbell
(2008) com os desa ios, emoções e elacionamen os da ida eal. Segundo a au o a, econhece esses
momen os que en en amos du an e a ida em con os de adas e ilmes dos quais gos amos e que azem
pa e da nossa expe iência iden i á ia “ o nece um meio de e lexão, mas ambém de uga, de nossas
idas co idianas” (Colling on, 2017, p. 54).
Assim, se o abalho de Campbell o ganizou, desen ol eu e popula izou eo ias o malis as e
es u u alis as da na a i a, pode-se dize que Vogle oi esponsá el po uma g ande popula ização,
adap ação e u ilização das ideias de Campbell no cinema de animação con empo âneo. Esc i o ,
p odu o , p o esso e consul o de his ó ias pa a di e sos es údios de Hollywood, incluindo a Disney,
Vogle condensou ainda mais as e apas da es u u a na a i a p opos as po Campbell, chegando a um
o al de doze es ágios na a i os. Segundo Colling on (2007), o abalho de Vogle in luenciou di e amen e
di e sos ilmes de animação e ajudou es údios como a Pixa a c ia seu p óp io modelo na a i o baseado
na Jo nada do He ói.
Vogle (1992), pa e da pe spec i a de que odas as his ó ias são o madas po alguns elemen os
es u u ais comuns que podem se encon ados em con os de adas, ilmes, sonhos e qualque ou a
o ma na a i a. Segundo o au o , as his ó ias cons uídas a pa i do modelo da Jo nada do He ói,
encan am e en ol em qualque pessoa, pois ad êm de um inconscien e compa ilhado e e le em
concei os uni e sais. Vogle (1992) suge e ainda que as ques ões às quais a Jo nada do he ói se e e e
são ão simples e uni e sais que podem a é mesmo pa ece in an is, e de a o eme em ambém à
in ância, abo dando ques ões como "Quem sou eu? De onde im? Pa a onde ou quando mo e ? O que
é bem e o que é mal? Como de o agi com o bem e o mal? Como se á o amanhã? Pa a onde oi o on em?
Se á que em alguém lá em cima?" (Vogle , 1992, p. 33).
Baseado nos dezeno e es ágios na a i os de Campbell e ambém nas unções na a i as de P opp,
Vogle (1992) começou a o ganiza seu abalho sob e as es u u as na a i as e suas unções pa a a
c iação, o ganização e análise de his ó ias du an e a sua ca ei a como consul o e analis a de his ó ias
em Hollywood, onde p oduziu um “guia p á ico” pa a se u ilizado po es údios e colegas de p o issão
101
quase como um manual na a i o. Es e mesmo guia oi se expandindo a é i a um ensaio que o au o
passou a usa pa a leciona no P og ama de Ex ensão pa a Esc i o es da UCLA. Só mais a de, depois
de e á ios es údios e di e o es u iliza em o ensaio, o en ão consul o na a i o decidiu aumen a a
pesquisa e publica o li o
Jo nada do Esc i o
, onde explica não só as doze e apas na a i as que
o ganizou, mas ambém di e en es unções e a qué ipos de pe sonagens que cons oem a Jo nada do
He ói. Comple amen e en ol ido com a indús ia cinema og á ica, Vogle (1992) modi icou os es ágios
na a i os p opos os po Campbell, buscando a e lexão de alguns dos emas comuns no cinema, com
exemplos i ados de ilmes a uais e de alguns clássicos (Vogle , 1992).
COMPARAÇÃO DE ESQUEMAS E TERMINOLOGIA
A Jo nada do Esc i o
O he ói de mil aces
PRIMEIRO ATO
PARTIDA, SEPARAÇÃO
Mundo Comum
Mundo Co idiano
Chamado à A en u a
Chamado à A en u a
Recusa do Chamado
Recusa do Chamado
Encon o com o Men o
O Auxílio Sob ena u al
T a essia do P imei o Limia
A Passagem do P imei o Limia
O Ven e da Baleia
SEGUNDO ATO
DESCIDA, INICIAÇÃO, PENETRAÇÃO
P o as, Aliados e Inimigos
O Caminho De P o as
Ap oximação da Ca e na Sec e a
P o ação
O Encon o com a Deusa,
A Mulhe como Ten ação
Sin onia com o Pai
A Apo eose
Recompensa
A Benção Úl ima
TERCEIRO ATO
RETORNO
O Caminho De Vol a
A Recusa do Re o no
A Fuga Mágica
Resga e com Auxílio Ex e no
T a essia do Limia
Re o no
Ressu eição
Senho de Dois Mundos
Re o no com Elixi
Libe dade pa a Vi e
Tabela 1: Compa ação de Esquemas e Te minologia. Adap ada de “A Jo nada do Esc i o ” po Ch is ophe Vogle , 2015.
O modelo da Jo nada do He ói, baseado em uma es u u a clássica de ês a os, é u ilizado a é hoje po
di e sos es údios de cinema. Com o passa dos anos, po ém no as pe spec i as su gi am em o no das
na a i as clássicas, e alguns c í icos suge i am que es as his ó ias não abo da am ou sup iam ques ões
la en es da con empo aneidade, além de a o ece em um modo de p odução cinema og á ico menos
c ia i o. Em espos a a es as c í icas, Vogle a i ma que a Jo nada do He ói de e se usada “como uma
102
o ma e não uma ó mula, um pon o de e e ência e uma on e de inspi ação, não uma o dem di a o ial”
(Vogle , 1992, p. 17). Pa a mais, os es ágios suge idos pelo modelo de Vogle (1992) não são
comple amen e ixos, e segundo o au o “os di e en es es ágios se adap am às necessidades especí icas
de uma his ó ia em pa icula e à cul u a em que essa his ó ia oi esc i a” (Vogle , 1992, p. 31). Da
mesma o ma, os a qué ipos ou unções na a i as de em ambém se adap a à his ó ia a se con ada,
de modo que um mesmo pe sonagem pode ap esen a mais de uma unção ou pode muda de unção
du an e o ilme (Vogle , 1992).
Em elação a ques ões de ep esen ação, Colling on (2017) abo da os opos os biná ios e sua p esença
signi ica i a em di e sos con os de adas, ilmes e ou as ob as que ap esen am uma na a i a clássica.
Segundo a au o a, esses con as es e con li os são uma ca ac e ís ica ípica dos mi os e ou as na a i as
popula es, mas podem ambém c ia e p opaga ep esen ações sociais que ajudam a man e sis emas
simbólicos dominan es. Pa a Colling on (2017), no en an o já é possí el pe cebe uma melho ia em
elação à pe pe uação de algumas ideias biná ias que man ém as elações de pode ípicas de
sociedades capi alis as e pa ia cais, pois em ob as mais ecen es an o os a qué ipos quan o os es ágios
êm sido ap esen ados com maio lexibilidade, mos ando po exemplo um maio núme o de he oínas
mulhe es e pe sonagens que ogem ao pad ão clássico eu ocên ico.
De a o, é impo an e e le i não só sob e as es u u as na a i as, mas sob e a indús ia cinema og á ica
como um odo. A pa i des a pe spec i a, é possí el comp eende que cabe ambém aos es údios,
di e o es e o ei is as con empo âneos, assim como aos c í icos e ao p óp io público pe cebe em as
ep esen ações sociais c iadas e ansmi idas po p oduções cinema og á icas con empo âneas e sua
elação com as ques ões sociais con empo âneas. Sob es a pe spec i a, pe cebe-se que p oduções
ecen es como as animações escolhidas pa a es a in es igação, já ap esen am á ias mudanças
4.4 As di e en es ases da Disney
Em um ídeo in i ulado “Na a o Mundo” (2022), do canal do YouTube Tempe o D ag, Guilhe me Te e i,
como Ri a Von Hun y, sua
d ag queen,
ap esen a, a a és de uma pe spec i a eó ica baseada nos
Es udos de Cul u a, um olha bas an e signi ica i o em elação à ep esen ação is a na
con empo aneidade. Em seu ídeo, Ri a Von Hun y (2022) u iliza a ob a Mimesis, de E ich Aue bach,
pa a analisa ques ões ela i as à cons ução iden i á ia no mundo con empo âneo a pa i de uma
e lexão en ol endo linguagem e ep esen ação. Apesa de o ídeo não a a especi icamen e de
109
da Pixa com a Disney, is o que es a e e di e sos ma cos de desen ol imen o da animação elacionados
a ape eiçoamen os écnicos em sua his ó ia. A Pixa , no en an o, e e seu início ainda mais ol ado pa a
a écnica e pa a a ecnologia, is o que a emp esa começou não como es údio, mas como uma
desen ol edo a de so wa e.
Meinel (2016) ambém abo da a es ei a elação en e a his ó ia da Pixa e a ecnologia. Pa a o au o , é
impo an e obse a que o que hoje conside amos pa es básicas da ida co idiana, como sma phones
e able s, pla a o mas de pesquisa online como o Google, e mesmo ilmes ei os a pa i de imagens
digi ais e am quase inimaginá eis. Em suas pala as, “a ideia de in eg a imagens ge adas po
compu ado em ilmes ou mesmo anima um ilme in ei o usando compu ado es de e e pa ecido
igualmen e impensá el” (Meinel, 2016, p. 3). Sob es a pe spec i a, a his ó ia da Pixa es á in e ligada
ao a anço écnico que es a o nou possí el, mas de manei a ainda mais ampla a Pixa pode se
enxe gada como uma das p incipais bases pa a o cinema de animação a ual, com ilmes que es ão
comple amen e inse idos no con ex o sociocul u al das sociedades con empo âneas.
À medida que a Pixa Inc. (que mais a de se o na ia a Pixa Anima ion S udios) se desen ol eu
den o de uma indús ia cul u al em ápida ans o mação, moldada po no os a anços ecnológicos
e modelos de negócios, esc e e sob e a Pixa Anima ion S udios implica esc e e sob e o
desen ol imen o da ecnologia digi al, o cinema de Hollywood de sucesso e a animação dos úl imos
qua en a anos. Mas mesmo que a emp esa Pixa seja um dos pináculos da cul u a popula
con empo ânea, sem o conhecimen o ecnológico, a isão c ia i a e a apos a come cial de Ed
Ca mull, John Lasse e e S e e Jobs, essa his ó ia não pode ia e sido con ada. (Meinel, 2016, p.3)
Fo mada inicialmen e den o da LucasFilm, a Pixa e e suas p imícias em 1979 com o ec u amen o de
Ed Ca mull po Geo ge Lucas, c iado da saga
S a Wa s
, pa a lide a a Di isão de Compu ado es do
es údio, uma equipe enca egada de desen ol e ecnologia compu acional de úl ima ge ação pa a a
indús ia cinema og á ica. Segundo Meinel (2016), desde o começo, Ca mull e sua equipe ambiciona am
explo a as po encialidades isuais e na a i as da p og amação digi al, buscando demons a as
capacidades da animação digi al, mesmo com alguma esis ência da LucasFilm.
Em 1984, John Lasse e , ex-aluno do Ins i u o de A es da Cali ó nia (CalA ), onde oi einado no inal
dos anos 1970 po animado es de longa da a da Disney, en ou ambém pa a o mesmo g upo de Ca mull
como designe de in e ace, e nesse mesmo ano, a Di isão de compu ado es ap esen ou o p imei o
p o ó ipo do
Pixa Image Compu e
, compu ado desen ol ido pa a p oduzi imagens digi ais de al a
de inição. Segundo He hu h (2017), apesa de um início ol ado mais pa a a p odução de ha dwa e e
110
so wa e, “o sonho que uniu esses écnicos c ia i os ao longo dos anos oi aze um longa-me agem com
animação po compu ado , um ei o impossí el quando sua jo nada começou” (He hu h, 2017, p. 3).
A ecnologia desen ol ida pela equipe da Di isão de Compu ado es chamou a a enção de á ias pessoas
da indús ia, mas oi S e e Jobs, c iado da Apple, que decidiu comp a , em 1986, a Di isão da
LucasFilm, o mando uma emp esa independen e com 40 uncioná ios chamada Pixa . Recen emen e
demi ido do ca go de ice-p esiden e da Apple, Jobs possuía na época o empo, a isão e o capi al pa a
in es i numa emp esa que ainda não e a mui o luc a i a, mas que inha o po encial pa a c ia p odu os
digi ais bas an e p omisso es. A ideia inicial de S e e Jobs e a in es i nas possibilidades do Pixa Image
Compu e
,
po ém o sucesso come cial dos compu ado es oi bas an e limi ado, e o que man e e a
emp esa uncionando o am ou os p oje os como o desen ol imen o de um so wa e pa a ilmes e a
p odução de come ciais pa a a ele isão (Meinel, 2016).
Foi nesse con ex o que se deu a p imei a colabo ação o icial en e Pixa e Disney no P oje o CAPS, he
Compu e Anima ion P oduc ion Sys em (Sis ema de P odução de Animação Compu ado izada), que oi
o p imei o p oje o da Pixa como uma emp esa sepa ada da LucasFilm. Com início em 1986, o CAPS
acabou endo um g ande impac o na manei a como os ilmes de animação e am p oduzidos. Além disso,
segundo P ice (2018), o CAPS oi o p imei o passo pa a a pa ce ia p o issional en e Disney e Pixa . “Foi
o p imei o de uma sé ie de abalhos de sucesso que se i iam de ca ão de isi a pa a a Pixa quando
ela es i esse p on a, anos depois, pa a passa pa a os longas-me agens” (P ice, 2008, p. 95).
No mesmo ano em que e e início o CAPS, oi inalizado ambém o p imei o cu a da Pixa mais ligado
ao uni e so do cinema de animação. O cu a-me agem
Luxo J ,
oi a es eia o icial de John Lasse e
como di e o e o nou-se mais a de o p imei o ilme de animação idimensional a se indicado ao Osca ,
ecebendo uma indicação de Melho Cu a-Me agem (Animação). Seguindo o sucesso de
Luxo J
, já em
1989,
Tin Toy
, se ia o p imei o a ence o Osca da ca ego ia Melho cu a-me agem animado. Segundo
Fossa i, (2010), o cu a ep esen ou um ma co pa a o cinema de animação, is o que a pa i dele, “a
compu ação g á ica passou a pa icipa incisi amen e das p oduções, con ibuindo com a o mação de
pe sonagens complexos, en ol os po alo es emocionais e do ados da mesma na u alidade obse ada
nas p oduções an e io es” (Fossa i, 2010, p. 61).
O sucesso do CAPS e dos dois cu a-me agem animados ci ados acima, jun amen e com o êxi o do
so wa e de ende ização Rende man, cujo modelo a ual ajuda a de ini a supe io idade ecnológica de
Pixa a é hoje, muda am o umo da Pixa como emp esa. Tendo em conside ação o esul ado come cial
111
us an e do compu ado da Pixa , especialmen e is o os ní idos ace os nas á eas de so wa e e de
animação, S e e Jobs decidiu ence a o almen e a p odução de ha dwa e e concen ou odos os
ecu sos da emp esa na expansão de seu desen ol imen o de so wa e e p oduções ílmicas e
publici á ias. Com o empo, os come ciais o am pe dendo a p io idade da emp esa e em 1995 o sonho
dos undado es da Pixa de c ia um ilme longa-me agem compilado in ei amen e po e amen as de
compu ação g á ica o nou-se ealidade com o lançamen o de
Toy S o y
(1995) (Meinel, 2016).
Apesa de
Toy S o y
(1995) se hoje econhecido como o p imei o ilme de animação longa-me agem
ei o o almen e com imagens ge adas po compu ado (CGI - Compu e -gene a ed Image y), é impo an e
conside a que exis em con o é sias em o no do í ulo de ido a algumas conside ações eme en es ao
ilme de animação b asilei o
Cassiopéia
(1996). O maio deba e do caso se dá em elação ao a o de,
em
Toy S o y
, os moldes dos pe sonagens e em sido c iados p imei amen e em a gila pa a depois se em
escaneados digi almen e, p ocesso chamado de o oscopia. Já Cassiopéia, que começou a se p oduzido
an es do início da p odução de
Toy S o y
, oi uma p odução ealizada comple amen e em CGI. A p odução
b asilei a con a a com um o çamen o e um pode publici á io bem mais enxu o do que a p odução
es adunidense, o que con ibuiu pa a um lançamen o a dio. Vis o que o longa
Cassiopéia
(1996) oi
lançado quase ês meses depois de
Toy S o y
(1995), es e úl imo ainda é conside ado pionei o no
campo dos ilmes de animação de longa-me agem digi ais (Is ael & Con e, 2015; Suppia, 2016).
Toy S o y
oi um g ande desa io pa a a Pixa , pois mui o do que o es údio a ia pa a a c iação e p odução
do longa es a a a se ei o pela p imei a ez, e, po an o, não é de odo su p eenden e que i a a ideia
do papel enha sido um longo p ocesso. Di e sos au o es mencionam as di iculdades de negociações
pa a que se iniciasse ealmen e a p odução de
Toy S o y
, (P ice (2008), Pallan (2011), He hu h (2017)
e Haswell (2019). De o ma ge al, odos os au o es ci ados mencionam os meses de negociação en e a
Pixa e a Disney a é que ambas as emp esas en assem em um aco do e assinassem um con a o onde
cons a a que a Disney inancia ia o desen ol imen o, p odução e dis ibuição do p imei o longa de
animação da Pixa , mas, em con apa ida, a p imei a ica ia com g ande pa e dos luc os, eduzindo ao
máximo o isco do in es imen o. Nas pala as de P ice, “os e mos inancei os do con a o de eze
páginas e am desiguais o su icien e pa a que, a menos que o ilme osse um sucesso no ní el de
A
Pequena Se eia
, os ganhos da Pixa com ele se iam insigni ican es” (P ice, 2008, p. 123).
De a o, o lançamen o de
Toy S o y
em 1995 oi um sucesso de público e c í ica. O ilme conseguiu
a ecada mais de ezen os e sessen a milhões de dóla es mundialmen e, o maio a ecadamen o do
112
cinema naquele ano, e oi nomeado a ês Osca s. Além disso, John Lasse e , di e o do ilme e che e
c ia i o da Pixa na época, ecebeu da academia o P êmio de Realização Especial (Special Achie emen
Academy Awa d).
Toy S o y apidamen e ga an iu um luga pa a si como um ma co na his ó ia da animação, assim
como
Ou o he Inkwell
,
S eamboa Willie
,
Snow Whi e
,
Road Runne
,
Tom and Je y, M Magoo
e
Who F amed Roge Rabbi ?
an es de e mina , e o ilme oi de idamen e econhecido e aclamado
po undi com sucesso a écnica com o co ação da na a i a. (Cla k, 2013, p. 53)
Em 1997, após o no ó io êxi o de
Toy S o y
, Pixa e Disney enegocia am os e mos da sua colabo ação,
de o ma que o no o aco do ma ca a um comp omisso de cinco no os longas em um pe íodo de dez
anos. O no o con a o, segundo Da ies (2019), muda a os e mos inancei os do p imei o, de
Toy S o y
,
e p e ia que as duas emp esas di idi iam cus os, luc os e c édi os.
O p imei o dos ilmes p e is os a se lançado oi
A Bug's Li e
(1998), o qual excedeu imidamen e a
a ecadação de
Toy S o y
, e, apesa de e uma ecepção menos a eba ado a do que o p imei o ilme
do es údio, oi ambém um sucesso de público e c í ica. Ainda no pe íodo de p odução de
A Bug's Li e
,
começou a se p oduzido ambém o que se ia o e cei o longa da Pixa ,
Toy S o y 2
(1999), o qual
segundo Ed Ca mull, um dos c iado es da Pixa , oi decisi o pa a o desen ol imen o da iden idade do
es údio.
Lu a pela p odução de Toy S o y 2 i ou nossas cabeças, azendo-nos olha pa a den o, se
au oc í icos e muda a manei a como pensá amos sob e nós mesmos. Quando digo que es e oi o
momen o decisi o pa a a Pixa , que o dize no sen ido mais dinâmico. (Ca mull & Wallace, 2014,
p. 97)
Du an e as negociações pa a o con a o en e a Disney e a Pixa em 1997, a p imei a deixou explíci o
que se desse a p odução de cinco ilmes o iginais, po essa azão,
Toy S o y 2
se ia lançado, a p incípio,
di e amen e em ídeo, algo que a Disney já azia há algum empo com á ias de suas animações,
p incipalmen e
sequels
( ilmes de con inuação). O longa começou a se p oduzido exa amen e nesse
o ma o, o qual cos uma implica um olha a ís ico menos pe eccionis a e uma p odução mais ápida.
Exa amen e po o ilme se um
sequel
, que já inha uma base na a i a p on a, e po se p e endido
como uma animação di e a pa a ídeo, ou seja, que não i ia pa a as g andes elas de cinema, a Pixa
escolheu dois di e o es es ean es pa a di igi
Toy S o y 2
, com a ideia de que o p ocesso se ia mais
simples do que aqueles dos longas o iginais. A ealidade, no en an o, oi di e en e e logo os di e o es da
113
Pixa pe cebe am que aze o ilme dessa o ma i ia con a a iden idade do es údio, o que le ou a mais
negociações com a Disney pa a que o ilme osse lançado nos cinemas (Ca mull & Wallace, 2014).
Além da mudança de o ma o, o e cei o ilme da Pixa e ia ambém uma mudança de di e o es. Mesmo
depois de decidi p oduzi a animação den o dos pad ões de suas animações, a Pixa con inuou a e
p oblemas com
Toy S o y 2
. Segundo Ca mull (2014), a na a i a es a a aca e o desa io es a a além
das capacidades dos di e o es es ean es esponsá eis pelo ilme, mas is o que os di e o es mais
expe ien es es a am ainda abalhando na p odução de
A Bug’s Li e
(1998), o es údio en ou man e a
equipe o iginal no p oje o, seguindo o man a de “con ia no p ocesso”, pois segundo o p óp io Ca mull
(2014), odas as animações da Pixa são uins no começo.
Uma das cha es pa a o p ocesso de p odução de qualque animação da Pixa é o que icou conhecido
como
B ain us
, um g upo de di e o es e p o issionais mais expe ien es do es údio que se eúne a cada
dois ou ês meses pa a assis i o que se em p on o dos ilmes e que em a inalidade de encon a
p oblemas e soluções nas animações du an e á ias e apas de cada p oje o. O sis ema começou
o ganicamen e na p odução de
Toy S o y
(1995), mas só oi quando o g upo p ecisou se euni pa a
esol e a c ise de
Toy S o y 2
que o e mo
B ain us
en ou pa a o ocabulá io o icial do es údio. Depois
de algumas euniões do
B ain us
, icou e iden e que o p oje o p ecisa a de uma equipe mais expe ien e
na di eção, e depois do lançamen o de
A Bug’s Li e
, John Lasse e e sua equipe assumi am a di eção
do no o longa com apenas 9 meses pa a o lançamen o des e, o que implicou mui as ho as ex as e
es esse pa a oda a equipe de p odução, que e e que aze mudanças conside á eis no p oje o o iginal.
Na Pixa , Toy S o y 2 nos ensinou es a lição – que de emos es a semp e ale as pa a as mudanças
dinâmicas, po que nosso u u o depende disso – de uma ez po odas. Iniciado como uma
sequência di e a pa a ídeo, o p oje o p o ou não apenas que e a impo an e pa a odos que não
ole a emos ilmes de segunda classe, mas ambém que udo o que azíamos - udo associado ao
nosso nome - p ecisa a se bom. Pensa dessa manei a não e a apenas uma ques ão de mo al; oi
um sinal pa a odos na Pixa de que eles e am donos em pa e do maio pa imônio da emp esa -
sua qualidade. (Ca mull & Wallace, 2014, p. 96)
Depois de odas as di iculdades encon adas na p odução do longa,
Toy S o y 2
oi lançado em no emb o
de 1999 e e e uma excelen e espos a de público e c í ica, conseguindo a ecada , in e nacionalmen e,
497 milhões de dóla es, a maio a ecadação da Pixa a é en ão. O ilme oi conside ado po di e sos
c í icos como sendo supe io inclusi e ao ilme o iginal da saga (Haswell, 2019).
114
Depois de
Toy S o y 2
, a Pixa lançou dois longas o iginais,
Mons e s, Inc.
(2001) e
Finding Nemo
(2003),
ambos ambém mui o bem-sucedidos an o em c í ica e público, quan o inancei amen e. Segundo
Haswell (2019),
Finding Nemo
(2003) a ecadou, in e nacionalmen e, a imp essionan e quan ia de 940
milhões, o nando-se, na época, o ilme de animação com a maio a ecadação de odos os empos. Os
dois ilmes ap esen a am, como seus an ecesso es, uma cuidadosa a enção com a na a i a. As his ó ias
cons uídas nas animações chama am a a enção pela capacidade de jun a emoção e humo ,
simplicidade e p o undidade, ino ação e nos algia. A capacidade na a i a das ob as conseguia oca
an o o público in an il quan o o adul o, qualidade que eme ia ambém aos ilmes mais bem sucedidos
da Disney, p incipalmen e nos pe íodos clássicos e do enascimen o do es údio.
Pa a além da capacidade na a i a dos ilmes, a Pixa ha ia se o nado sinônimo de qualidade e ino ação
écnica. As animações ei as digi almen e pelo es údio ap esen a am um ealismo e beleza isual cada
ez mais imp essionan es, le ando a expe iência cinema og á ica das animações a um pa ama bas an e
ele ado. Di o is o, ica cla o que a Pixa ha ia alcançado um luga de des aque na animação mundial, e
que, além de e se p o ado digno da negociação com a Disney, o es údio es a a a ans o ma a
animação como um odo. O sucesso da Pixa le ou a um c escimen o signi ica i o da animação digi al
no uni e so cinema og á ico, e di e sos es údios passa am a in es i cada ez mais no o ma o digi al.
O c escen e sucesso dos longas-me agens ge ados po compu ado da Pixa du an e esse pe íodo
p o a elmen e deslocou as adições desenhadas à mão den o da animação ame icana
con encional. Em 2004, a D eamWo ks Anima ion dissol eu seu depa amen o de animação
desenhada à mão pa a se concen a na animação CG, p oduzindo uma sé ie de ilmes de sucesso,
incluindo Sh ek
(2001),
Madagasca
(2005
), Kung Fu Panda
(2008) e
How o T ain You D agon
(2010). Es údios de animação subsequen es, como Blue Sky S udios, que ez
Ice Age
(2002) e suas
sequências, o am c iados e ol ados especi icamen e pa a a animação em CG. (Haswell, 2019, p.
95)
Du an e esse mesmo pe íodo de ascensão da Pixa , a Disney ha ia lançado á ias animações que i e am
uma ecepção pouco posi i a an o come cialmen e como de c í ica. Esse pe íodo é e e ido po Pallan
(2011) como Neo-Disney e, como is o an e io men e nes e capí ulo, é desc i o pelo au o como uma
ase do cinema de animação que di e ge, an o em ques ões a ís icas como em na a i a, do es ilo
ep esen a i o do es údio a é en ão. A ase Neo-Disney, que ai de 1999 a 2004, ab ange os ilmes
Fan asia 2000
(1999),
The Empe o 's New G oo e
(2000),
A lan is: The Los Empi e
(2001),
Lilo and
S i ch
(2002),
T easu e Plane
(2002),
B o he Bea
(2003), e
Home on he Range
(2004). Os se e ilmes
115
a ecada am um o al combinado de bilhe e ia de 1,1 bilhão de dóla es em odo o mundo, apenas 160
milhões de dóla es a mais do que
Finding Nemo
a ecadou sozinho (Haswell, 2019).
Seguindo o pouco sucesso da e a Neo-Disney, o es údio do Mickey, assim como an os ou os es údios,
ambém en ou na co ida pela animação digi al in luenciada pelo sucesso da Pixa . Com o in ui o de
man e sua posição de pionei ismo e e e ência p incipal na indús ia da animação, a Disney passou a
oca na p odução de longas-me agens ge ados po compu ado , po ém, os dois p imei os ilmes ei os
in ei amen e em animação digi al i e am ambém uma ecepção pouco a o á el. Apesa de uma
a ecadação bem mais signi ica i a do que a dos úl imos longas da ase Neo-Disney, an o
Chicken Li le
(2005) como
Mee The Robinsons
(2007) i e am á ias c í icas nega i as, como explica Helen Haswell
(2019).
O momen o de ascensão da Pixa e da animação digi al e idencia a as di iculdades da Disney em man e -
se no opo da indús ia de en e enimen o. A Pixa assumia a p imei a posição como e e ência no cinema
de animação e a colabo ação en e as duas emp esas pa ecia en aquece . Segundo Pallan (2011), em
2004, depois de quase um ano de enegociações de con a o, S e e Jobs, di e o execu i o da Pixa ,
anunciou que a pa ce ia en e Pixa e Disney acaba ia ao inal do con a o co en e. Em elação aos
con li os que le a am à decisão de ence a a colabo ação en e os es údios, an o Pallan (2011) quan o
Haswell (2019) des acam a impo ância do posicionamen o do en ão di e o execu i o da Disney, Michael
Eisne , pa a a decisão, o que endeu a es e se e as c í icas, que associadas ao declínio so ido pela
Disney du an e odo o pe íodo Neo-Disney, esul a am na saída de Eisne da emp esa.
Em 2005, Eisne oi emo ido do ca go de CEO e subs i uído po Robe Ige , que imedia amen e
abo dou S e e Jobs com a possibilidade de uma usão Disney-Pixa . Em 24 de janei o de 2006, a
Disney anunciou que ha ia "... conco dado em adqui i a Pixa po 287,5 milhões de ações da
Disney, no alo de ce ca de $7,4 bilhões". Como execu i o-che e da Pixa , Jobs o nou-se memb o
do conselho de adminis ação da The Wal Disney Company, enquan o Ca mull e Lasse e se
o na am p esiden e e di e o de c iação da Pixa e da Disney Anima ion S udios, espec i amen e.
(Haswell, 2019, p. 96)
A comp a da Pixa pela Disney p o ocou g andes mudanças nos dois es údios, mas os e ei os da
aquisição p o a am-se essenciais pa a a eno ação da Disney. Com a saída de Eisne , Robe Ige
assumiu a di eção execu i a da co po ação, es abelecendo como p io idades a expansão in e nacional,
a ino ação ecnológica e um maio oco no se o de animações, e a aquisição da Pixa se ia pa e
undamen al do u u o da Disney. Apesa de os dois es údios e em sido man idos sepa ados e de ce a
116
o ma independen es, as mudanças começa am logo, pois como imos acima nas pala as de Haswell
(2019), Ed Ca mull e John Lasse e , c iado es e di e o es da Pixa , o na am-se p esiden e e di e o de
c iação de ambos os es údios. Pa a Pallan (2011), apesa de, simbolicamen e, a Disney e assumido a
Pixa , “a eo ganização in e na que oco eu após a aquisição da Pixa signi ica a que, na e dade, e a a
hie a quia da Pixa que ago a le a ia adian e a animação da Disney” (Pallan , 2011, p. 128).
Seguindo a aquisição, Ca mull e Lasse e ize am mudanças signi ica i as na es u u a dos es údios
Disney. A p imei a medida omada po eles oi echa o
Ci cle 7 Anima ion
, uma subdi isão que inha o
p opósi o de c ia con inuações de ilmes da Pixa sem a con ibuição des a. Além disso, Ca mull e
Lasse e econ a a am alguns memb os da equipe Disney que ha iam sido demi idos ecen emen e,
incluindo os di e o es de longa da a John Muske e Ron Clemen s. Vis o que Lasse e começou sua
his ó ia com a animação na Disney, e que ambos os c iado es da Pixa o am imensamen e in luenciados
em suas ca ei as pela animação e animado es da Disney, eles ize am ambém ques ão de eequipa o
depa amen o de animação desenhada à mão com o in ui o de da no a ida à o ma a ís ica sob e a
qual o es údio oi cons uído. Ou a mudança impo an e ei a pela dupla oi a implemen ação do
Disney
S o y T us
, baseado no modelo do
B ain us
da Pixa , e que começou a a ua já na p odução do ilme
Bol
(2008), o qual ha ia en ado em p odução an es mesmo da aquisição, mas que passou po
melho ias conside á eis sob a supe isão de Lasse e e Ca mull (Ca mull & Wallace, 2014).
Apesa de e sua p odução iniciada an es de odas as mudanças,
Bol
(2008), como p imei a animação
lançada depois da aquisição da Pixa e ees u u ação dos es údios Disney, se ia a p imei a medida das
ans o mações que inham oco endo. Vis o que o ilme e e uma espos a bas an e posi i a de público
e c í ica, a ecadando 310 milhões de dóla es in e nacionalmen e, pode-se dize que o começo oi
posi i o.
Ou a inicia i a impo an e implemen ada po Lasse e oi o p og ama de cu as, o qual inha o in ui o de
aumen a as opo unidades c ia i as e de ino ação pa a os animado es. Desde
Luxo J (1986)
, a Pixa
o gulha a-se dos cu as ino ado es bem es u u ados p oduzidos pelo es údio, os quais e am ei os com
o in ui o p incipal de se em uma pla a o ma de pesquisa e desen ol imen o. Segundo Haswell (2019),
os ilmes de cu a-me agem são não apenas uma pla a o ma pa a a expe imen ação de ideias e écnicas,
mas ambém uma manei a de a icula a pe sonalidade de cada es údio sem an a p essão do luc o
come cial, algo que a Disney já ha ia comp eendido e u ilizado no passado com a sé ie
Silly Symphonies
(1929 - 1939). Com a no a es u u ação, a Disney ol ou a e sucesso com os cu as, desen ol endo
117
uma no a ecnologia híb ida e c iando ilmes mui o bem ecebidos pela c í ica. As ino ações c iadas a
pa i do labo a ó io de cu as se i am não apenas pa a o sucesso des as, mas o am ambém usadas
em longas e ajuda am a es abelece a Disney como pionei a den o da animação.
Os úl imos cu as p oduzidos pela Disney Anima ion es abelecem o es údio como p ecu so no
desen ol imen o de ecnologia de pon a, an es uma p io idade pa a o p óp io Wal Disney.
Pape man, lançado nos cinemas com
W eck-i Ralph
, usa o p og ama Meande , desen ol ido pela
Disney, um sis ema híb ido de desenho e animação baseado em e o / as e que o e ece aos
a is as uma manei a in e a i a de c ia o ilme, combinando animação desenhada à mão com
imagens ge adas po compu ado . A abo dagem di e encia a Disney da Pixa ao coloca em pa alelo
as adições do es údio e suge i um u u o pa a a Disney Anima ion. (Haswell, 2019, p. 98)
O p imei o longa da Disney p oduzido in ei amen e sob a no a lide ança do es údio oi
The P incess and
The F og
(2009), o qual é bas an e signi ica i o não só po se o p imei o, mas ambém po ein oduzi
a animação desenhada à mão e po ap esen a a p imei a p incesa e p o agonis a a odescenden e da
Disney. O ilme ecebeu, de modo ge al, c í icas posi i as ma cadas p incipalmen e pelas menções à
écnica mais adicional de animação e à cons ução da pe sonagem da p incesa Tiana, que queb a a
imagem da p incesa submissa e guiada p ima iamen e pelo omance (Haswell, 2019).
O êxi o de
The P incess and The F og
ez eme gi pa a alguns c í icos a ideia de que a Disney ol a a
ago a a ameaça a posição de lide ança da Pixa na animação, uma pe cepção no mínimo in e essan e,
is o que os dois es údios já aziam pa e da mesma co po ação, e, pa a além disso, Ca mull e Lasse e
ocupa am as posições de p esiden e e di eção de c iação dos es údios Disney, sendo Lasse e ambém
c edi ado como p odu o execu i o do longa. Pa a odos os e ei os, o que ica e iden e a pa i da espos a
da c í ica ao ilme é “após anos de ince eza, a Disney Anima ion expe imen ou um súbi o momen o de
enascimen o pa alelo ao do pe íodo enascen is a do es údio” (Haswell, 2019, p. 99).
Du an e o auge do sucesso da Pixa , o es údio e a comumen e chamado de "a No a Disney",
subs i uindo a Disney como o p incipal es údio de animação. Ago a, à medida que a Disney
Anima ion eno ada começa a ganha o ça, o es údio começa a se chamado de “a No a Pixa ”.
(Haswell, 2019, p. 99)
Seguindo o sucesso do p imei o longa, os ilmes seguin es lançados depois da aquisição da Pixa
mos a am um e dadei o c escimen o nas animações da Disney. Nes a no a ase do es údio, colocada
den o do pe íodo “Disney Digi al” po Pallan (2011) e e e ido po Haswell (2019) como “Pe íodo Pós-
118
Pixa ”, o es údio conseguiu es abelece sua posição de e e ência den o da animação e conquis a o
sucesso de público e c í ica is o na e a enascen is a do es údio.
Sob essa pe spec i a, Haswell (2019) des aca algumas lições ap endidas an o pela Disney quan o pela
Pixa du an e a ealização dos p imei os p oje os pós-aquisição, além de in luências mú uas pe cep í eis
nas ob as de ambos os es údios. Nesse sen ido a au o a menciona um maio cuidado com a di ulgação
dos ilmes com in ui o de a ingi um público mais amplo e di e so, is a ni idamen e na compa ação
en e
The P incess and The F og
(2009) e o ilme seguin e da Disney,
Tangled
(2010), assim como no
ilme
B a e
(2012), da Pixa . Os ilmes mais ecen es com p incesas e/ou p o agonis as emininas e i am
usa a pala a p incesa nos í ulos e aumen am o empo de ela dos pe sonagens masculinos e de ou os
pe sonagens de apoio que azem comédia e ação nos aile s pa a que os ilmes não limi em o público
po gêne o.
Pa a além de ques ões de di ulgação, ca ac e ís icas clássicas das animações da Pixa como o con as e
da ecnologia com a nos algia icam mais apa en es em animações Disney, como no caso de
W eck-i
Ralph
(2012), que az a noção de nos algia do analógico ao mesmo empo que usa a ecnologia digi al
mais a ançada em sua c iação. Da mesma o ma, emos a Pixa lança seu p imei o ilme de p incesa,
B a e
, e ganha o Osca com um modelo de animação ão associado à Disney.
Po mais e iden e que ossem os e ei os posi i os da aquisição da Pixa pa a as animações Disney desde
o começo, as c í icas, de o ma ge al, ainda iam as animações da Pixa como supe io es às da Disney,
como demons a a i ó ia de
B a e
no Osca em que conco ia com
W eck-i Ralph
. Foi só com o
lançamen o de
F ozen
(2013) que esse cená io mudou e imos a Disney ol a ao opo com um enômeno
mundial que se o nou a animação de maio a ecadação da his ó ia.
F ozen
icou ma cado po aze
uma na a i a p og essi a com pe sonagens não-con encionais e po ede ini o concei o de con o de
adas, algo que já ha ia começado nas duas p imei as animações da Disney Pós-Pixa e no p imei o
ilme de p incesa da Pixa ,
B a e
.
O ilme oi seminal pa a o enascimen o bem-sucedido da Disney Anima ion e simboliza o impac o
posi i o da usão Disney-Pixa pa a a Disney. O sucesso sem p eceden es de F ozen o es abelece
como o auge do Pe íodo de Aquisição Pós-Pixa da Disney e é o ca alisado pa a a mudança que
apon a pa a o a o i ismo da Disney na animação ame icana con encional e o consequen e
deslocamen o da Pixa . (Haswell, 2019, p. 102).
125
de que manei a as ob as de animação analisadas dialogam com o con ex o em que o am p oduzidas e
com as eo ias sob e a ques ão da iden idade.
Além dos aspec os abo dados a é aqui, Thompson (1995) ainda nos ala de um úl imo conjun o de
condições pa a a análise sócio-his ó ica das o mas simbólicas: os meios écnicos de cons ução de
mensagens e de ansmissão. Esses meios são subs a os ma e iais que pe mi em a p odução e
ansmissão das o mas simbólicas. Vis o que os meios écnicos es ão semp e inse idos em con ex os
sociais especí icos, sua análise de e i além de uma in es igação écnica, a im de elucida sua
con ex ualização.
No caso do obje o de análise des e abalho, os meios écnicos de cons ução de mensagens e de
ansmissão eme em à ins ância cinema og á ica e as especi icidades da animação, inicialmen e
si uadas no e cei o e qua o capí ulo do p esen e abalho. Os ecu sos, as eg as e as habilidades
disponí eis ao cineas a e animado o nam possí el a p odução de um ilme de animação com exp essões
signi ica i as; e es e p ocesso p odu i o es á o ien ado, explíci a ou implici amen e, pa a a ci culação e
ecepção desse ilme den o do campo social.
A o ien ação pa a a ecepção de que nos ala Thompson, pode se lida ambém em Gomes (2003)
quando es e nos diz que uma ob a de a e pode se analisada a pa i dos seus des ina á ios. Dessa
o ma, o ilme é uma composição de es a égias e ecu sos com o in ui o de causa de e minados e ei os
(sensações, sen imen os e sen idos) no ap eciado , con o me analisado no segundo i em des e capí ulo.
O e ei o é semen e plan ada na c iação, a desab ocha somen e na ap eciação. De o ma que, se a
composição é ob a apenas quando se ealiza, como e e i idade, como e ei o, na ap eciação, po
ou o lado, é ob a que se ealiza po a e, is o é, a a és das des ezas do poe a, a quem cabe p e e
e conduzi a ap eciação. O que signi ica que a c iação é a i idade de a gúcia, planejamen o, p e isão
e p o isão de e ei os. (Gomes, 2004, p. 95)
As o mas simbólicas que ci culam nos campos sociais são ambém cons uções simbólicas complexas
que ap esen am uma es u u a a iculada, e, po essa azão, demandam uma segunda ase pa a a HP
denominada de “análise o mal ou discu si a”. Essa e apa da análise es á in e essada na o ganização
in e na das o mas simbólicas, de aco do com suas ca ac e ís icas es u u ais, com os seus pad ões e
com as elações que es abelece. Assim como acon ece com a análise sócio-his ó ica, Thompson (1995)
escla ece que a análise o mal ou discu si a pode se conduzida de di e sas manei as, a depende dos
obje os e das conjun u as pa icula es da pesquisa. Apesa dos inúme os mé odos ou ipos de análise
126
possí eis pa a es a ase da HP, o au o abo da cinco p incipais, sob e as quais disco e ei de o ma
bas an e sin e izada a segui .
O p imei o ipo de análise o mal e e ida é a semió ica, a qual se p eocupa com o “es udo das elações
en e os elemen os que compõem a o ma simbólica, ou signo, e das elações en e esses elemen os e
os do sis ema mais amplo, do qual a o ma simbólica, ou signo, podem se pa e” (Thompson, 1995, p.
370). A semió ica abs ai o con ex o e cen a-se na análise de imagens quan o ao sen ido da mensagem
que é ansmi ida.
Segundo Thompson (1995), alguns mé odos es ão mais cen ados em uma análise o mal das
ca ac e ís icas es u u ais das exp essões linguís icas; nesses episódios, pode-se ala de análise
discu si a. É o caso da análise de con e sação, que em como p incípio me odológico-cha e o es udo
das “ins âncias da in e ação linguís ica nas si uações conc e as em que elas oco em” (p. 372). No
mesmo conjun o, inse em-se a análise sin á ica e a análise a gumen a i a. A p imei a se p eocupa com
a sin axe ou g amá ica p á ica, e pode “ajuda a ealça algumas das manei as como o signi icado é
cons uído den o das o mas quo idianas do discu so” (p. 373). Já a segunda em como obje i o
“ econs ui e o na explíci os os pad ões de in e ência que ca ac e izam o discu so” (p. 374). Essa
e en e analí ica pode se bas an e ú il pa a o es udo abe amen e polí ico.
Ou o mé odo possí el pa a o es udo das ins âncias do discu so é a análise de sua es u u a na a i a.
Es e ipo de análise se in e essa pela sequência do en edo, pelos pe sonagens e suas elações e pelos
di e sos aspec os ine en es à na a i a que o am discu idos mais de alhadamen e no segundo capí ulo
des e abalho. De ido à p oximidade en e cinema e na ação, es e ipo de análise é bas an e pe inen e
pa a a análise ílmica e oi es e o mé odo escolhido pa a a análise o mal/discu si a do ilme de animação
selecionado pa a análise,
Coco
(2017).
Ao es uda a es u u a na a i a, podemos p ocu a iden i ica os e ei os na a i os especí icos que
ope am den o de uma na a i a pa icula , ou elucida seu papel na na ação da his ó ia [...] Mas
nós podemos ambém examina [...] os pad ões, pe sonagens e papéis que são comuns a um
conjun o de na a i as e que cons i uem uma es u u a subjacen e comum. (Thompson, 1995, p.
374)
A análise na a i a nos pe mi e obse a di e en es aspec os das ep esen ações iden i á ias cons uídas
nos ilmes a pa i de sua es u u a na a i a e das e amen as na a i as u ilizadas pa a a ingi
de e minados e ei os no espec ado . O cinema ai além da imagem, po an o as e amen as en ol em
127
não apenas ângulos e planos, mas ambém música, diálogos, silêncios, ma cação empo al e a o ma
como odos esses elemen os in e agem. Adicionalmen e, conside amos que a p oximidade do se
humano com as es u u as na a i as possibili a ambém uma conexão da cons ução na a i a com a
ideia de cons ução iden i á ia ou de uma “na a i a do eu” (Giddens, 2002). Sob es a pe spec i a, a
análise da es u u a e das e amen as na a i as das animações possibili a uma melho comp eensão
da cons ução iden i á ia e das ep esen ações de iden idade cul u al p esen es nas ob as.
O p ocesso de análise do ilme oi ealizado em di e en es e apas de obse ação, ap eciação e c í ica. A
p imei a e apa é cons i uída de uma análise mais especí ica do con ex o, dos p ocessos de p odução e
dos aspec os ex e nos da animação a pa i de pesquisa bibliog á ica que incluiu en e is as, a igos e
c í icas publicadas sob e o ilme e sob e o con ex o sócio-polí ico en ol endo seu lançamen o e p odução.
Es a p imei a e apa é essencial pa a consegui mos depois obse a a es u u a na a i a do ilme a pa i
de uma o ma que espei e sua na u eza como p odu o moldado pelas ci cuns âncias sociais e his ó icas.
Pa a a análise da na a i a, p imei o o ilme oi assis ido sem pausas, pa a obse a mos a es u u a
na a i a do ilme e sua p oximidade com a es u u a de na a i a clássica abo dada no qua o capí ulo
da disse ação. Des a o ma, oi possí el iden i ica na ob a uma o ganização clássica da na a i a que
segue um modelo de jo nada do he ói como is o em Vogle (1998). Com base nes a p imei a
obse ação, o ilme oi di idido em momen os-cha e da na a i a, os quais depois o am analisados a
pa i de uma pe spec i a ol ada pa a a cons ução iden i á ia, ou jo nada iden i á ia, cons uída na
ob a.
Pa a uma análise mais de alhada de cada momen o-cha e, as espec i as cenas e sequências o am
assis idas e eassis idas di e sas ezes com pausas e o am egis adas no as mais especí icas sob e as
di e en es e amen as na a i as u ilizadas e os e ei os na a i os p oduzidos. A análise da cons ução
na a i a do ilme a pa i dos momen os-cha e, obse ando os di e en es aspec os da ins ância na a i a,
oi undamen al pa a consegui mos in e p e a as o mas simbólicas de manei a mais ap o undada, o
que cons i ui a e apa seguin e do p ocesso de análise.
A e cei a e úl ima ase do en oque da He menêu ica de P o undidade é a in e p e ação/ ein e p e ação,
que se cons ói sob e a análise sócio-his ó ica e a análise o mal ou discu si a, mas ac escen a a es as
a cons ução c ia i a do signi icado. A in e p e ação p ocede po sín ese e em pa a sup i a necessidade
de uma explicação in e p e a i a do que es á ep esen ado ou do que é di o.
128
As o mas simbólicas ou discu si as possuem o que eu desc e i como "aspec o e e encial", elas
são cons uções que ipicamen e ep esen am algo, e e em-se a algo, dizem alguma coisa sob e
algo. É esse aspec o e e encial que p ocu amos comp eende no p ocesso de in e p e ação.
(Thompson, 1995, p. 375)
Segundo Thompson, o p ocesso de in e p e ação é, simul aneamen e, um p ocesso de ein e p e ação,
pois as o mas simbólicas já são in e p e adas pelos sujei os que cons i uem o mundo sócio-his ó ico,
mas podem se analisadas mais além, a a és de seus con ex os e de suas es u u as in e nas. No caso
do cinema, o ilme já é uma in e p e ação do cineas a, po an o o analis a es a á p oje ando na ob a um
ou o signi icado possí el, que pode inclusi e di e gi do signi icado cons uído p imei o. “A possibilidade
de con li o de in e p e ação é in ínseca ao p óp io p ocesso de in e p e ação” (Thompson, 1995, p.
376).
O p ocesso de in e p e ação ou ein e p e ação da animação analisada oi di idido em qua o momen os.
O p imei o momen o oi a in e p e ação das cons uções iden i á ias desen ol idas a pa i da jo nada
do p o agonis a na es u u a na a i a do ilme, em que analisamos como a cons ução de uma “na a i a
do eu” pa a o p o agonis a dialoga com ques ões le an adas na a ualidade no que conce ne à cons ução
da iden idade do sujei o. O segundo momen o oi a in e p e ação da ep esen ação da iden idade cul u al
mexicana ap esen ada no ilme e sua elação com o con ex o sociocul u al e polí ico de p odução das
ob as.
Pa a uma análise mais ap o undada das ep esen ações, possibili ando ambém a obse ação de como
é cons uída no ilme a elação en e as iden idades ep esen adas e o espec ado , u ilizamos a
con ibuição de an Leeuwen (2008) sob e a ep esen ação isual de a o es sociais. Vis o que o abalho
do au o não é ol ado pa a o cinema e sim pa a imagens e ex os, adap amos as ideias pa a o obje o
ílmico e as emp egamos como base pa a a in e p e ação da elação do ilme analisado com as
es a égias de ep esen ação do ou o abo dadas pelo au o , com o in ui o de melho de ini mos como a
cons ução na a i a consegue ou não descons ui es e eó ipos nega i os da iden idade cul u al
ep esen ada no ilme. Segundo an Leeuwen (2008), é impo an e in es iga não apenas como as
pessoas são ep esen adas numa imagem, mas ambém como é ep esen ada a elação do espec ado
com essas pessoas.
No capí ulo de sua ob a em que a a especi icamen e da ep esen ação isual, an Leeuwen (2008)
abo da di e en es opções/escolhas que a “linguagem das imagens” nos dá pa a e a a as pessoas,
mencionando cinco pon os signi ica i os: a exclusão, os papéis/ unções, o con as e en e especí ico e
129
gené ico, o con as e en e g upo e indi íduo e a ca ego ização, que pode se po ca ac e ís icas cul u ais
ou biológicas. De aco do com o au o , a obse ação desses cinco pon os nas escolhas da ep esen ação
isual de pessoas, e idencia cinco di e en es es a égias pa a ep esen a as pessoas como ou os, as
quais explica emos esumidamen e a segui .
A p imei a es a égia mencionada po an Leeuwen (2008) é a da exclusão, a qual implica a escolha de
não ep esen a as pessoas em con ex os em que, na ealidade, elas es ão p esen es. A segunda
es a égia é a da agência nega i a, a qual consis e em e a a as pessoas como agen es de ações que
são associadas a baixa es ima ou conside adas subse ien es, des ian es, c iminosas ou más. A e cei a
es a égia é a da homogeneidade, em que as pessoas são mos adas como g upos homogêneos e, assim,
êm suas ca ac e ís icas e di e enças indi iduais negadas, eme endo a uma ideia de que as pessoas de
de e minado g upo “são odas iguais”. A qua a es a égia é a das cono ações cul u ais nega i as, que
consis e na ca ego ização das pessoas como “ou o” a pa i de ca ac e ís icas cul u ais, as quais são
is as como modi icá eis. A quin a e úl ima es a égia mencionada pelo au o é dos es e eó ipos aciais
nega i os, a qual ambém consis e na ca ego ização de pessoas como ou os, po ém ei a a pa i de
ca ac e ís icas biológicas is as como imu á eis.
Depois dos ês p imei os momen os da pa e in e p e a i a da análise, chegamos a um qua o e úl imo
momen o, no qual ecemos algumas conclusões undamen ais sob e o ilme a pa i da análise na a i a
e odos os pon os de in e p e ação mencionados acima. O obje i o do úl imo momen o de in e p e ação
é exp essa de o ma sucin a as obse ações do analis a que se ão depois e isi adas de aco do com os
esul ados da análise dos comen á ios, que consis e na segunda pa e do pe cu so me odológico des a
disse ação.
5.3 Análise emá ica dos comen á ios
Como explicado an e io men e, além da análise ílmica, oi ealizada ambém a análise da ecepção do
ilme pelo público a a és de comen á ios ei os po espec ado es no IMDB (In e ne Mo ie Da abase),
si e que cons i ui uma das maio es bases de dados online de in o mação sob e cinema. Pa a a p esen e
pesquisa, os dados o am cole ados a a és dos p imei os cinquen a comen á ios deixados na seção de
c í icas do si e (
use e iews
) sob o il o baseado no o al de o os dos comen á ios, o que pe mi iu uma
maio a iedade de da as e de opiniões dis in as en e comen á ios mais posi i os e mais nega i os.
130
Os comen á ios e i ados da pla a o ma o am odos esc i os o iginalmen e em inglês, em seguimen o
às eg as do p óp io IMDB pa a pos agem de comen á ios. Além de esc e e na língua inglesa, os
u ilizado es p ecisam ambém aze um cadas o básico no si e, com e-mail e senha, pa a pode pos a
suas opiniões. As da as de pos agem dos comen á ios analisados a iam en e ou ub o de 2017, quando
o ilme oi lançado, e julho de 2020. É impo an e essal a , no en an o, que a g ande maio ia dos
comen á ios oi publicada en e o inal de ou ub o de 2017 e o começo de janei o de 2018, enquan o o
ilme ainda es a a nos cinemas.
A seção de c í icas dos u ilizado es do IMDB é acilmen e encon ada po meio de mecanismos de busca
e é acessí el sem egis o ou p o eção po senha. O si e não em condições de uso que não pe mi am
que as mensagens sejam usadas em pesquisas, e a o ien ação ao usuá io do ó um econhece
explici amen e que a á ea do ó um de mensagens do si e é pública.
Os dados o am anonimizados com a emoção dos nomes de u ilizado es de cada comen á io, os quais
o am subs i uídos po um código compos o pela le a "U", de u ilizado , e um núme o de 1 a 50. A
o dem dos comen á ios na pla a o ma u ilizada muda de aco do com as no as pos agens e com os no os
o os de u ilizado es, o que signi ica que os 50 p imei os comen á ios hoje já não são os mesmos que
cons a am na da a de e i ada dos dados, em se emb o de 2023. Pa a além disso, odos os comen á ios
o am aduzidos pa a po uguês, deixando apenas os e mos esc i os o iginalmen e em espanhol, pa a
se em u ilizados na p esen e pesquisa.
O mé odo escolhido pa a analisa os dados nes a pa e da pesquisa oi a Análise Temá ica Re lexi a,
p opos a po B aun e Cla ke (2021). Segundo as au o as, de modo ge al a Análise Temá ica (AT) é “um
mé odo pa a desen ol e , analisa e in e p e a pad ões em um conjun o de dados quali a i os, que
en ol e p ocessos sis emá icos de codi icação de dados pa a desen ol e emas” (B aun & Cla ke, 2021,
p. 4). O mé odo possibili a não só a o ganização e desc ição do co pus de análise, mas ambém a
in e p e ação de á ios aspec os dos ópicos de pesquisa e de cada ema desen ol ido.
O p ocesso analí ico da AT de e segui algumas di e izes, mas B aun e Cla ke en a izam a impo ância
de econhece que es as di e izes “não são eg as e, seguindo os p ecei os básicos, p ecisa ão se
aplicadas com lexibilidade pa a se adequa em às pe gun as e aos dados da pesquisa” (B aun & Cla ke,
2006, p. 86). Adicionalmen e, as au o as essal am que a Análise Temá ica não segue uma sequência
linea de ansição di e a de uma ase pa a a seguin e, consis indo em um p ocedimen o mais i e a i o,
131
onde há um ai e em, con o me exigido, ao longo das e apas. A AT possui 6 e apas ou ases, as quais
são ambém desc i as po B aun e Cla ke (2021):
●
Fase 1 - Familia iza -se com o ema:
Es a e apa en ol e uma ime são comple a nos dados
disponí eis pa a adqui i uma comp eensão p o unda e ab angen e do con eúdo. É um p ocesso
de lei u a e elei u a dos dados, pe mi indo uma amilia ização in ensa com o ma e ial.
●
Fase 2 - Ge a códigos iniciais:
Nes a ase, são iden i icados segmen os de dados que pa ecem
po encialmen e in e essan es, ele an es ou signi ica i os pa a a pe gun a de pesquisa e são
aplicadas a eles desc ições concisas e anali icamen e signi ica i as.
●
Fase 3 - Busca emas:
Nes a e apa é ei a uma busca po pad ões eme gen es nos dados. Os
códigos p e iamen e aplicados são ag upados e o ganizados com base em semelhanças,
p ocu ando po emas ou ideias cen ais que possam su gi desses ag upamen os.
●
Fase 4 - Re isa emas:
Após a iden i icação dos pad ões, é ealizada uma análise mais p o unda.
Os pad ões iden i icados são a aliados em elação ao conjun o o al de dados, e i icando se
azem sen ido den o do con ex o mais amplo e se ealmen e cap u am os elemen os essenciais
da pesquisa.
●
Fase 5 - De ini e nomea emas:
Nes a e apa, os emas iden i icados passam po e inamen os
inais. São nomeados de o ma cla a e p ecisa, ga an indo que cada ema es eja bem de inido e
ep esen e de manei a adequada os elemen os essenciais do conjun o de dados.
●
Fase 6 - P oduzi o ela ó io:
A úl ima e apa en ol e o desen ol imen o da esc i a analí ica com
ex a os í idos e con incen es dos dados. Es a e apa inclui a e isão minuciosa do ex o,
buscando c ia uma na a i a coesa que in eg e os emas iden i icados, ap esen ando uma
análise cla a e con incen e dos dados, obse ando-se ambém a elação en e a análise, a
ques ão de pesquisa e o quad o eó ico u ilizado.
Segundo B aun e Cla ke (2021), apesa de a Análise Temá ica se comumen e e a ada como um
mé odo uni o me, exis em á ias abo dagens e p ocedimen os dis in os pa a a sua execução. A
ca ac e ís ica comum en e as di e en es a iações da AT eside no in e esse em iden i ica pad ões de
signi icado, de i ados po meio de p ocessos de codi icação. Con udo, esses mé odos são
132
undamen ados po uma di e sidade de ideias, às ezes incompa í eis, sob e os c i é ios que cons i uem
as melho es p á icas pa a a ealização da AT, embasados em di e en es alo es da pesquisa quali a i a.
Obse ando o pano ama ge al de u ilização do mé odo em di e en es campos, as au o as delinea am
ês ca ego ias p incipais de Análise Temá ica:
Coding Reliabili y
(con iabilidade na codi icação, adução
li e), a de ipo
Codebook
(li o de códigos), e a
Re lexi e
( e lexi a). De aco do com as au o as, a Análise
Temá ica Re lexi a é o ipo de AT que engloba abo dagens inse idas den o de um quad o es u u al
o almen e quali a i o, ou
Big Q
2
; a AT de Con iabilidade na Codi icação, po sua ez, aba ca abo dagens
inse idas em um quad o es u u al
small q
; já a AT do Li o de Códigos comp eende abo dagens inse idas
no que é ca ac e izado como um quad o es u u al
MEDIUM Q
(B aun & Cla ke, 2021, p. 235).
Na pesquisa Big Q ou " o almen e quali a i a", os p ocessos endem a se lexí eis, in e p e a i os
e subje i os/ e lexi os. A Big Q ejei a as noções de obje i idade e e dades independen es do
con ex o ou do pesquisado e, em ez disso, en a iza a na u eza con ex ual ou si uada do signi icado
e a subje i idade ine i á el da pesquisa e do pesquisado . O Small q quali a i o ou "posi i ismo
quali a i o" ge almen e en ol e uma abo dagem mais es u u ada pa a a cole a e análise de dados,
o ien ada pela p eocupação de: (a) minimiza a in luência do pesquisado no p ocesso de pesquisa
- concei uada como "pa cialidade" - e (b) ob e esul ados p ecisos e obje i os. Essas aspi ações e
p á icas são incompa í eis com uma abo dagem Big Q. (B aun & Cla ke, 2021, p. 228)
A pa i das conside ações acima, e, is o que a p esen e pesquisa, como já e e ido an e io men e, é
guiada me odologicamen e po alo es quali a i os, com uma base es u u al que se apoia na
He menêu ica de P o undidade (Thompson 1995), e e encial me odológico que econhece a
impo ância dos p ocessos de con ex ualização e cons ução de signi icados, a AT Re lexi a mos ou-se
uma escolha adequada pa a a análise dos comen á ios sob e
Coco.
Conside ando o quad o es u u al quali a i o da Análise Temá ica Re lexi a, a e lexibilidade az-se
essencial pa a es e ipo de análise. Segundo B aun e Cla ke (2021), “a pesquisa e lexi a a a o
conhecimen o como si uado e ine i a elmen e moldado pelos p ocessos e p á icas de p odução do
conhecimen o, incluindo as p á icas do pesquisado " (B aun & Cla ke, 2021, p. 12). Sob es a
pe spec i a, a subje i idade do pesquisado e a p á ica alinhada da e lexi idade são conside adas
2
O e mo
Big Q
oi u ilizado pelas psicólogas eminis as dos Es ados Unidos, Louise Kidde e Michelle Fine, pa a se e e i em à pesquisa " o almen e
quali a i a". Elas compa a am isso com a u ilização es i a de dados quali a i os ou com alo es mais alinhados à pesquisa quan i a i a posi i is a, o que
elas denomina am como "
small q
".
133
undamen ais pa a uma análise emá ica bem-sucedida, ainda mais ao conside a mos a lexibilidade do
mé odo.
De a o, uma das p incipais an agens da AT e lexi a é que ela o e ece mui a lexibilidade aos
pesquisado es. Você pode aze a AT e lexi a usando di e en es es u u as eó icas amplas, ocos
de signi icado e o ien ações pa a os dados. Essa a iabilidade da AT e lexi a é um dos mo i os
pelos quais o pesquisado p ecisa se a i o, engajado e ponde ado quan o à abo dagem que ado a.
(B aun & Cla ke, 2021, p. 9)
Uma das maio es an agens da Análise Temá ica, de o ma ge al, é a lexibilidade que pe mi e o
engajamen o com dados de a iadas on es, o mas e amanhos, além de di e en es o mas de
abo dagem eó ica e me odológica de aco do com os obje i os e alo es especí icos de cada pesquisa.
Segundo B aun e Cla ke (2021), a Análise Temá ica Re lexi a (AT Re lexi a) a ia em sua abo dagem
com base em á ias dimensões undamen ais. A o ien ação aos dados pode se mais indu i a, onde a
análise es á p o undamen e en aizada nos p óp ios dados, o ien ando a codi icação e o desen ol imen o
dos emas, ou mais dedu i a, moldada po cons u os eó icos p é-exis en es que se em como uma
len e pa a a codi icação e in e p e ação dos dados. O oco de signi icado pode se mais semân ico, onde
a análise explo a signi icados explíci os em ní eis supe iciais, ou mais la en e, onde a análise ap o unda
em camadas mais implíci as de signi icado. Den o do quad o quali a i o, uma abo dagem expe iencial
isa cap u a e explo a as pe spec i as indi iduais, enquan o uma abo dagem c í ica en ol e ques iona
e des enda a signi icância em o no do ema ou ques ão. Po im, di e en es es u u as eó icas ambém
impac am a análise, uma ez que, enquan o uma abo dagem ealis a e essencialis a busca cap u a a
e dade e a ealidade ine en es ao conjun o de dados, uma abo dagem mais ela i is a/cons ucionis a
isa ques iona e disseca as ealidades exp essas den o do conjun o de dados.
Pa a a p esen e in es igação, a lexibilidade eó ica da Análise Temá ica Re lexi a possibili ou a aplicação
das eo ias ela i as à cons ução iden i á ia e a ep esen ação melho desen ol idas nos p imei os
capí ulos des a disse ação. Nossa abo dagem analí ica emá ica c í ica e cons ucionis a a iou du an e
o p ocesso analí ico en e modos mais indu i os e dedu i os, e de uma o ien ação inicialmen e semân ica
pa a uma mais la en e.
Du an e as duas p imei as ases, amilia ização e codi icação, a análise oi ei a po uma pe spec i a
mais indu i a, o ien ada pelos comen á ios e buscando pe cebe as di e en es cons uções de signi icado
den o do ex o de cada u ilizado seman icamen e. Com o p og esso do p ocesso analí ico, a
in e p e ação e análise dos dados oi ambém sendo moldada po cons uções eó icas ligadas ao
134
pano ama concei ual desen ol ido du an e a undamen ação da in es igação, com ideias e e en es à
cons ução iden i á ia e aos p ocessos de ep esen ação, que o nece am as "len es" pa a le e codi ica
os dados e desen ol e emas. Com o ap o undamen o do p ocesso de análise, oi possí el pe cebe e
abalha cons uções de signi icados em um ní el mais subjacen e ou implíci o, o nando a análise inal
mais la en e.
Ao inal do p ocesso de análise o am iden i icados cinco emas p incipais: 1. Rep esen ação,
ep esen a i idade e o espelho do cinema; 2. A emoção como cha e; 3.
Coco
como uma pon e pa a a
cul u a mexicana; 4. Re e encial Pixa -Disney; 5. Pon os de desconexão. Os emas o am abalhados e
desen ol idos de o ma in eg ada no ela ó io esc i o pa a uma comp eensão mais ab angen e dos dados
em elação à ecepção das ep esen ações da iden idade cul u al mexicana em
Coco
.
Em “Rep esen ação, ep esen a i idade e o espelho do cinema”, a cen alidade emá ica eside na
pe cepção do ilme de animação
Coco
como uma espécie de espelho social po espec ado es que se
iden i ica am como mexicanos, la inos ou descenden es de mexicanos. Sob es a pe spec i a, a animação
p opo ciona aos espec ado es um sen imen o de acei ação e alidação iden i á ia, e, apesa de se um
ilme de animação p oduzido po um dos maio es conglome ados de comunicação do mundo, apa ece
nos comen á ios como uma na a i a de esis ência a ep esen ações hegemônicas nega i as da
iden idade cul u al mexicana.
Em “A emoção como cha e”, a ideia de emoção como um a o undamen al pa a a conexão do
espec ado com a ob a é cen al e possibili ou uma melho comp eensão sob e quais e am os elos en e
os di e en es comen á ios que ap esen am a emá ica da emoção e de que manei a essa conexão
emocional oi cons uída no ilme. A pa i des a análise, oi possí el pe cebe a impo ância da
cons ução isual e sono a da na a i a e de um equilíb io en e uni e sal, especí ico e pessoal pa a o
es abelecimen o de um ínculo en e
Coco
e di e en es públicos.
Em “Coco como uma pon e pa a a cul u a mexicana”, a cen alidade do ema eside na comp eensão
do ilme como um a o de ap oximação en e di e en es g upos e iden idades com a cul u a mexicana.
Os di e en es códigos encon ados demons a am que á ios u ilizado es enxe ga am um po encial
pedagógico na animação, que an o ouxe in o mações ele an es sob e a cul u a mexicana, como
ins igou alguns u ilizado es a busca mais conhecimen o sob e o ema.
141
6.1 Análise na a i a -
Coco
A animação da Pixa ,
Coco,
segue o modelo na a i o clássico de ês a os, como g ande pa e dos ilmes
de g andes es údios. A na a i a possui ca ac e ís icas es u u ais ípicas dos mi os e con os clássicos
eme endo às ideias de Campbell (2008) e Vogle (1998) no que se e e e à jo nada do he ói ou
monomi o. No longa acompanhamos a jo nada de Miguel, um menino mexicano que se iden i ica mui o
com a música mexicana, especialmen e a ma iachi, e que sonha se músico, mas que encon a em sua
amília um obs áculo. Inspi ado po seu ídolo, o menino en a p o a seu alen o, mas acaba sendo
en iado ao Mundo dos Mo os, onde encon a aliados e mais obs áculos a é que en im consegue
comp eende melho a his ó ia de sua amília e conec á-la com a música e com impo an es aspec os
da cul u a de seu país.
A JORNADA DO HERÓI DE ACORDO COM
VOGLER (2015)
A JORNADA DE MIGUEL NO FILME
COCO
1. He óis são in oduzidos no MUNDO COMUM,
onde
1. Conhecemos Miguel e sua amília na pequena cidade de SANTA CECÍLIA
2. ecebem o CHAMADO À AVENTURA.
2. Miguel descob e que ha e á um CONCURSO DE TALENTOS, mas
3. Ficam RELUTANTES no início ou RECUSAM O
CHAMADO, mas
3. Diz que NÃO PODE PARTICIPAR, pois sua amília é con a
4. são incen i ados po um MENTOR a
4. Miguel é incen i ado po VÍDEOS E CANÇÕES DE DE LA CRUZ e pela o o que
encon a de seu a a a ô
5. CRUZAR O PRIMEIRO LIMIAR, e en am no
Mundo Especial, onde
5. Miguel ENFRENTA A FAMÍLIA e en a pega o iolão de De la C uz de sua umba,
o que o le a ao Mundo dos Mo os
6. encon am p o as, ALIADOS E INIMIGOS.
6. Miguel descob e que p ecisa de bênção da amília pa a ol a , FOGE DOS
ANTEPASSADOS E CONHECE HÉCTOR
7. APROXIMAM-SE DA CAVERNA SECRETA,
c uzando um segundo limia
7. Miguel CHEGA A ERNESTO E LA CRUZ, que
8. onde passam pela PROVAÇÃO.
8. O PRENDE NUMA GRUTA com Héc o
9. Tomam posse da RECOMPENSA
9. Miguel DESCOBRE QUE HÉCTOR É SEU TATARAVÔ
142
10. e são pe seguidos no CAMINHO DE VOLTA
ao Mundo Comum.
10. Mas p ecisa en en a De la C uz, que TENTA IMPEDI-LO DE VOLTAR
11. T ans o mados pela expe iência.
11. Miguel em ajuda da amília pa a de o a o ilão e VOLTAR À CASA
12. RETORNAM COM O ELIXIR, uma bênção ou
esou o pa a bene icia o Mundo Comum.
12. Miguel VOLTA COM A O CONHECIMENTO DE SEUS ANTEPASSADOS E A
MÚSICA DE HÉCTOR e consegue uni sua amília e a música a a és da memó ia
de Coco
Tabela 2: Compa ação en e a Jo nada do He ói de Vogle e a jo nada de Miguel em Coco
O modelo de Vogle com 12 “cha es” oi usado como e amen a pa a melho en ende mos a
p oximidade da na a i a do ilme com o modelo clássico inco po ado na Jo nada do He ói, no en an o,
pa a a análise da animação, decidimos obse a , sepa a e nomea as cha es de aco do com a
impo ância das mesmas pa a a cons ução na a i a especí ica da ob a analisada, de modo a obse a
os pon os na a i os mais signi ica i os na cons ução iden i á ia do pe sonagem e na ep esen ação da
iden idade cul u al mexicana no longa. A pa i des es pa âme os, o p imei o passo oi di idi mos o ilme
em momen os na a i os c uciais, ou momen os-cha e. Em
Coco
, a na a i a oi di idida em 14
momen os-cha e que se ão en ão analisados a segui a pa i de uma pe spec i a ol ada pa a a
cons ução iden i á ia ap esen ada na animação.
1- Ap esen ação e con ex o
An es mesmo de o ilme começa , já no amos algo di e en e com a abe u a. Todos os ilmes da Disney
começam com a abe u a do es údio em que emos o cas elo e ou imos a música ema da Disney. Em
Coco
somos ap esen ados a uma união dessa abe u a clássica com a música adicional mexicana, pois
a música ema do es údio ganha um no o a anjo inspi ado no i mo mexicano ma iachi. Ex emamen e
impo an e pa a a cons ução da iden idade mexicana e pa a a de Miguel Ri e a, pe sonagem p incipal,
a música mexicana pe meia o ilme, an o músicas adicionais, como emas o iginais inspi ados em
di e sos es ilos musicais mexicanos.
A p imei a cena do ilme é na e dade um p ólogo que con a a his ó ia da amília de Miguel desde a sua
a a a ó Imelda. A cena acon ece no cemi é io já deco ado pa a o e iado e iluminado pelas elas. No
início da cena, somos ap esen ados a símbolos do
Dia de Los Mue os
mexicano como as lo es
143
cempasúchil
4
, as o e endas, a ca ei a deco ada e as elas ( e igu a 1). Logo apa ece uma senho a que
emos de pe il acendendo uma das elas no cemi é io ( e igu a 2), e en ão acompanhamos a umaça
da chama acesa a subi a é apa ece “Coco” esc i o numa deco ação de papel eco ado, ípica do
Día
de Los Mue os
. Esse início do plano sequência ajuda o espec ado a iden i ica já nos p imei os segundos
de ilme o espaço e o momen o em que a his ó ia se passa, além de já da indícios da emá ica do ilme,
que ica cla a logo a segui com o início da na ação.
Figu as 1 e 2: No cemi é io emos obje os que eme em ao Dia de Los Mue os e logo depois uma senho a acende uma
ela em sua o e enda.
A pa i da imagem da p imei a bandei inha deco a i a de papel eco ado (papel picado)
5
, o p ólogo
começa a se con ado na oz de Miguel ( e igu as 3 e 4), como na ado pa icipan e, an es mesmo de
ele apa ece em cena. O plano sequência inicial con inua ao acompanha mos o mo imen o das olhas
de papel colo ido, inse indo as á ias cenas de p ólogo sem co a o plano sequência, is o que os co es
e mudanças são ei os apenas nas bandei inhas, mas não no plano em si. Toda a his ó ia de Mamá
Imelda e de como a amília ocou a música pelos sapa os é mos ada em 2D nas deco ações de papel
picado enquan o ou imos a na ação de Miguel e a música mexicana ocando ao undo. O mo imen o
da câme a segue os papéis eco ados a é a úl ima imagem de Mamá Imelda ( e igu a 5), depois da
qual a câme a desce mos ando a o o da pe sonagem no opo da o e enda da amília de Miguel ( e
igu a 6).
4
A
cempasúchil
(nome em espanhol pa a a age es pa ula) é uma lo de colo ação que a ia en e o ama elo e o ala anjado e é popula men e conhecida
no B asil e em Po ugal como c a o-de-de un o, pois é comumen e usada pa a en ei a caixões e úmulos. Em inglês, a lo é chamada de
ma igold.
5
O papel picado é um a esana o deco a i o adicional mexicano ei o co ando desenhos elabo ados em olhas de papel de seda. O papel picado é
conside ado uma a e popula mexicana e é uma deco ação clássica do
Dia de Los Mue os
.
144
Figu as 3 e 4: As cenas do p ólogo apa ecem nas bandei inhas deco a i as de papel eco ado (papel picado).
A na ação de Miguel conec a o p ólogo ao empo c onológico do ilme, ligando o p imei o ao con li o que
dá início à his ó ia e à c ise iden i á ia do pe sonagem. Miguel começa a na ação dizendo “Às ezes
acho que es ou amaldiçoado... po causa de algo que acon eceu an es mesmo de eu nasce ”. Essa
p imei a ase demons a exa amen e o con li o em que se encon a Miguel, pois ao mesmo empo em
que ele diz que algo pa ece e ado nele, a causa é a ibuída a um a o ex e no. O so imen o de Miguel
não é causado pelo lado musical de sua p óp ia iden idade, mas sim po não se sen i acei o pela amília.
Como imos em Bauman (2004), aqui a c ise iden i á ia nasce de uma c ise de pe encimen o. Ou o
elemen o que e o ça a pe cepção de dis anciamen o en e Miguel e a amília é o a o de, du an e oda
a na ação do p ólogo, Miguel con a a his ó ia de um pai que abandonou esposa e ilha pa a segui seu
sonho de se músico, o çando a mãe a p ocu a uma o ma de sus en o na ab icação de sapa os, que
assim se o nam símbolo de união pa a a amília que segue abalhando na áb ica há á ias ge ações.
Apesa de se a his ó ia da amília de Miguel, essa conexão só é ei a ao inal do p ólogo quando ele
con a que Imelda é sua a a a ó e a emos na o e enda.
Figu as 5 e 6: A úl ima imagem que emos no p ólogo de papel picado é a de Mamá Imelda (à esque da), e logo em seguida
a câme a desce e emos a o o de Imelda com a pequena Coco em seu colo e o ma ido, que e e a cabeça asgada da o o,
ao seu lado (à di ei a).
Em sua na ação, Miguel con a a his ó ia como uma espécie de con o undado passado de ge ação em
ge ação pa a uni iden idades en e o passado e o u u o. Apesa de Miguel e in e nalizado a his ó ia
de Imelda Ri e a como pa e de sua iden idade enquan o um Ri e a, os acon ecimen os ainda lhe soam
dis an es como uma lenda, como ica exp esso quando ele inicia a na ação dizendo “ eja, há mui o
empo a ás ha ia essa amília”. É só ao inal desse con o que Miguel diz “Sabem, aquela mulhe e a
minha a a a ó, Mamá Imelda”. Nessa ala de Miguel, emos a o o de Mamá Imelda com a Coco c iança
145
em seu colo e o ma ido, pa cialmen e asgado da o og a ia, ao seu lado ( e igu a 6). Logo depois, a
câme a se a as a ampliando o plano e emos a o e enda da amília Ri e a ( e igu a 7), onde no opo
se encon a a p imei a o o.
Figu a 7: No al a da amília Ri e a emos o os dos amilia es que já alece am, com Imelda no opo. O al a em
ca ac e ís icas adicionais de uma o e enda mexicana, com cempasúchils (Tage es pa ula), elas e comidas de que os
alecidos gos a am.
É a pa i da o e enda que começamos a se ap esen ados à amília Ri e a no mundo dos i os. Ainda
mos ando um ce o dis anciamen o, Miguel con a que Mamá Imelda mo eu mui o an es de ele nasce ,
mas que sua amília ainda con a sua his ó ia odos os anos no Dia dos Mo os, “e sua ilhinha?” diz
Miguel, enquan o a câme a echa o plano dando um close na c iancinha da o o, “é minha bisa ó, Mamá
Coco” ( e igu a 8), segue o menino quando passamos pa a o p óximo plano pa a conhece Mamá Coco
já mui o idosa em sua cadei a de odas ( e igu a 9).
Figu as 8 e 9: À esque da emos a o og a ia Mamá Coco c iança ao colo da mãe e ao undo da o o emos o e lexo dela
no p esen e. À di ei a emos Miguel com Mamá como no p esen e, na p imei a cena em que o p o agonis a apa ece.
Mamá Coco é pa a Miguel um elo en e ele e o con o undado da amília, é ela que az a his ó ia pa a
o mundo eal, po ém como ela já pouco ala e de pouco se lemb a, esse elo es á um pouco en aquecido.
É ambém Mamá Coco com quem Miguel em um elacionamen o mais p óximo à sua manei a e é
b incando com ela que emos Miguel pela p imei a ez no ilme. O p o agonis a, de doze anos, é
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ap esen ado como um menino ené gico, b incalhão e ca inhoso, e o maio con as e em seu núcleo
amilia é sua a ó, Elena, a che e da amília, que é ap esen ada como uma mulhe cen ada na amília
e que demons a seu a e o e cuidado an o com ab aços, elogios e comidas casei as, quan o com suas
eg as ígidas, b oncas com o chinelo na mão.
A
abueli a
( o ó em espanhol), como é chamada po Miguel, assumiu o papel de Imelda em sua ge ação,
e em como obje i o man e a amília unida, p o endo seu p óp io sus en o a a és da áb ica de sapa os.
A a ó ê na música uma ameaça pa a a união amilia e en a p o ege Miguel de qualque ipo de
musicalidade. Os pais de Miguel apoiam a a ó, que é a ma ia ca e igu a de maio au o idade na amília,
e são ap esen ados como pais abalhado es e amo osos que ambém alo izam mui o os
elacionamen os e adições amilia es.
2. Relação de Miguel com a música e o Ídolo
Depois de se mos ap esen ados à his ó ia de Mamá Imelda e e mos como Abueli a man ém a casa
a as ada de qualque ipo de música, a na a i a mos a en ão o ou o lado do con li o iden i á io de
Miguel, o seu lado musical, o seu amo pela música ma iachi e a sua admi ação pelo ídolo E nes o de
la C uz. Quando emos as cenas de Abueli a “p o egendo” a casa de qualque ipo de melodia com
b ados de “música não!” ( e igu as 10 e 11), é a oz de Miguel que ainda na a a his ó ia e demons a
seu descon en amen o com o desgos o de sua amília em elação à música quando diz “acho que somos
a única amília no México que odeia música. E minha amília es á bem com isso... Mas eu? Eu NÃO
(ên ase dada pelo pe sonagem) sou como o es o da minha amília”. Miguel pe cebe a música como
pa e de sua iden idade cul u al como mexicano, mas não como pa e de sua iden idade como um Ri e a.
Figu as 10 e 11: Helena “p o ege” Miguel da música. À esque da a a ó oma a ga a a que o menino sop a a pa a aze
sons. À esque da a Abueli a dá uma chinelada no ma iachi que deixou Miguel pega seu iolão.
Du an e a na ação somos ap esen ados a cenas o inei as dos Ri e a na pequena cidade de San a
Cecília, uma paca a ila no in e io do México. A a ó, ma ia ca, alimen a a amília e man ém a o dem
em casa e odos os adul os abalham na áb ica de sapa os que ica no mesmo e eno da esidência
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dos Ri e a. O in e esse de Miguel pela música é semp e p esen e. O menino encan a-se com os sons
ei os po acaso, as melodias que escu a pela cidade, o can o Ma iachi de quem eng axa os sapa os e
a quem con a da sua paixão pela música, po ém udo lhe é p oibido po sua
abueli a
. Sua maio
admi ação, no en an o, é com o alecido can o E nes o de la C uz, ídolo de oda a cidade, onde nasceu,
e ado ado no país in ei o po suas canções e ilmes da época de ou o
6
. O a is a é ão impo an e pa a a
cidade que sua es á ua es á na p aça onde se ap esen ou pela p imei a ez.
Figu as 12 e 13: Miguel admi a a es á ua de E nes o De La C uz em um ângulo e ical, de baixo pa a cima, e o çando a
ideia de ídolo e di ino.
Ainda como na ado , Miguel diz: “eu sei que não de o ama música - mas não é minha culpa! É dele!
E nes o de la C uz!”. Logo depois ou imos uma guia explica sob e a es á ua pa a u is as e emos
Miguel en e eles admi ando a es á ua. A cena mos a o menino a olha pa a a ob a num ângulo e ical,
de baixo pa a cima, o que ealça a ideia de di indade que o menino p oje a no ídolo ( e igu as 12 e
13). Enquan o Miguel na a a aje ó ia a ís ica de seu ídolo, emos cenas de seus ilmes e de g andes
conce os musicais, onde ou imos pela p imei a ez a música ema do ilme, “Remembe Me” (Lemb e-
se de mim), can ada pelo a is a. O p o agonis a se iden i ica com o ídolo po compa ilha em a mesma
o igem e sonho musical, o que o na de la C uz uma e e ência pa a Miguel. O can o é ao mesmo empo
um símbolo do que o menino que se no u u o e a p o a de que seu sonho é possí el. É a a és da
ob a de E nes o que Miguel ap ende a oca o iolão que ele mesmo ez inspi ado no ins umen o de seu
ídolo, e são as imagens e alas de E nes o em seus ilmes e ídeos musicais que azem do a is a um
he ói e men o aos olhos do menino.
Depois que Elena encon a Miguel na p aça com o iolão do ma iachi, de quem o menino eng axa a os
sapa os, nas mãos, a a ó o ep eende e o le a pa a casa. Na áb ica, os pais de Miguel e oda a sua
amília apoiam a a ó, e quando Miguel diz que que pa icipa do concu so de alen os que i á acon ece
6
Segundo A ila (2020), a época cinema og á ica de ou o (ap oximadamen e 1936–1952) oi um pe íodo que ap esen ou um sis ema de es elas em
ascensão, sucessos de bilhe e ia nacional e o desen ol imen o de gêne os cinema og á icos como a comédia anche a (comédia de ancho) e o melod ama
de que azia ca ac e ís icas únicas e ap esen ações musicais.
148
no dia seguin e, ou seja, no e iado do
Día de los Mue os
, ecebe um não e algumas isadas dos pa en es
que não sabem o que o menino pode ia ap esen a . Pa a explica po que negou o pedido do ne o de
pa icipa do concu so, a a ó le a o menino à o e enda dos Ri e a e explica a impo ância da celeb ação
daquele dia pa a a amília, que em apenas uma chance no ano de se euni com os que já pa i am do
mundo dos i os, e que ol am no
Día de los Mue os
a a és da o e enda com suas o os, comidas e
cempasúchil
. Miguel comp eende, mas demons a pouco in e esse, no en an o é logo depois dessa cena
que descob imos o esconde ijo de Miguel com o al a dedicado a de la C uz ( e igu a 14). Des e modo,
emos que Miguel em sua p óp ia o e enda.
Figu a 14 (mon agem de 4 quad os): Miguel em seu esconde ijo, onde cons uiu um al a pa a E nes o de la C uz e
onde dá azão à sua paixão pela música, ocando o iolão cus omizado po ele mesmo e inspi ado pelo ins umen o de seu
ídolo.
Mesmo amoso em odo o México, E nes o de la C uz é o seg edo mais p ecioso de Miguel, conhecido
apenas pelo cão i a-la a, Dan e, que Miguel a a como seu e em como companhei o. Mesmo com a
p oibição de qualque ipo de música pela amília, o menino esconde no só ão de casa um al a pa a o
ídolo, onde escu a suas músicas, assis e aos ilmes e p a ica iolão. O al a é a ep esen ação ísica da
ado ação de Miguel po de la C uz, e sua es é ica e de alhes eme em às imagens que emos nas
o e endas dos
Día de Los Mue os
e demons am um iés de espi i ualidade. Na sequência em que
somos ap esen ados ao esconde ijo de Miguel, emos no amen e o uso do ângulo e ical quando o
menino olha pa a as imagens do ídolo, pa a o qual ambém acende elas, como as amílias azem pa a
os seus an epassados e en es que idos da adição do
Día de Los Mue os
.
Du an e oda a cena em que Miguel es á em seu esconde ijo ocando iolão e assis indo as cenas de
E nes o de la C uz em sua pequena ele isão, di e sos ecu sos écnicos e na a i os são usados pa a
149
que o espec ado comp eenda o quan o a música mexicana é impo an e pa a o menino e o quan o as
canções e alas do ídolo desc e em seus p óp ios desejos e ba alhas in e nas. Na maio pa e da cena,
emos planos mais echados, com o enquad amen o a iando p incipalmen e en e o os o de Miguel e
a ela em que es e assis e a um compilado de cenas de E nes o de la C uz g a adas em uma i a VHS.
A ques ão da iden idade es á cla a já desde o começo, is o que a p imei a ala de E nes o no ídeo é a
cena de um ilme em que ele diz “Eu enho que can a . Eu enho que oca . A música não só es á em
mim. Ela sou eu” (E nes o de la C uz, 12:33).
Figu a 15: Miguel e le ido na ela du an e a ala de E nes o de la C uz, enquan o a ela é e le ida nos olhos do menino.
E ei o de iden i icação e p ojeção da iden idade.
A ap oximação do os o de Miguel po longos momen os az com que o espec ado possa acompanha
cada exp essão do p o agonis a, acili ando uma melho comp eensão dos sen imen os do pe sonagem
e do seu amo pela música mexicana e ap oximando o espec ado do p o agonis a. Tan o as canções de
E nes o quan o suas alas em ilmes e en e is as e le em mui o do con li o de Miguel en e a música e
as eg as da amília, e podemos e os e ei os dessas pala as e melodias nas exp essões do
pe sonagem. A úl ima ala de E nes o de la C uz no ídeo é uma en e is a dada pelo a is a e é assis ida
po Miguel com mui a a enção ( e igu a 15). O menino se ap oxima ainda mais da ela e ab e mais os
olhos. Vemos que o menino já conhece bem a ala, pois diz o inal des a ao mesmo empo em que a
assis e no ídeo (13:50 à 14:07).
ENTREVISTADOR (CLIPE DO FILME):
Seño
de la C uz, o que oi p eciso pa a ocê ap o ei a
o seu momen o?
DE LA CRUZ (CLIPE DO FILME): Eu inha que e é no meu sonho. Ninguém i ia en egá-lo pa a
mim. Coube a mim alcança esse sonho, aga á-lo com o ça e o ná-lo ealidade.
MIGUEL (AO MESMO TEMPO): ...e o ná-lo ealidade.
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Pa a deixa e iden e o quan o Miguel se p oje a em seu ídolo, a cena mos a isualmen e o os o do
p o agonis a e le ido na ela enquan o es e ala jun o com de la C uz no momen o inal do ídeo g a ado,
e emos ainda a ela e le ida nos olhos do menino ( e igu a 9). Miguel e mina de assis i à i a VHS
decidido a pa icipa do concu so de alen os no dia seguin e e, olhando o pan le o do e en o diz a Dan e,
seu único con iden e, “Chega de se esconde , Dan e. Tenho que ap o ei a meu momen o! Vou oca na
Ma iachi Plaza
nem que isso me ma e!” (14:11)
3. P imei o con li o amilia e e ol a de Miguel
Na manhã do
Día de los Mue os
Miguel en a escapa pa a a p aça com seu iolão e Dan e pa a
pa icipa do concu so, mas escu a os pais e a a ó e esconde o ins umen o e o cacho o embaixo da
mesa das o e endas. Quando a amília en a na sala de o e endas, Miguel dis a ça enquan o o pai lhe
con a uma no idade: Miguel ai jun a -se à amília na o icina pa a aze sapa os e segui a adição
iniciada po Mamá Imelda. A ideia eio da a ó pa a que Miguel icasse mais p óximo da amília e não
osse mais eng axa sapa os na p aça, e a no ícia é dada po ela e pelos pais com mui a aleg ia, e com
a cla a expec a i a de uma ecepção posi i a po Miguel. Quando o menino diz não sabe se se á bom
em aze sapa os os pais o lemb am de que ele e á oda a amília pa a guiá-lo e inicia o lema amilia
“Um Ri e a é…”, pa a que Miguel comple e dizendo “um sapa ei o em odos os aspec os” (15:39).
Miguel não ica nada eliz com a no idade, mas ninguém pe cebe.
Figu as 16 e 17: À esque da, Miguel descob e o iolão de E nes o de la C uz na o o de seu bisa ô; à di ei a, Mamá Coco
econhece o iolão do pai.
Quando os pais e a a ó de Miguel saem, Dan e sobe na mesa pa a come as comidas da o e enda, e
quando o menino en a impedi-lo, a o o de Mamá Imelda com Coco e o ma ido cai no chão e o id o do
po a- e a o se queb a, possibili ando que Miguel eja a pa e dob ada da o o e descub a que seu bisa ô
segu a a na o o o iolão de E nes o de la C uz ( e igu a 16). Mamá Coco, que es a a na sala da
o e enda desde o começo da cena, econhece o iolão do pai e diz “
papá, papá
!” (papai em espanhol),
o que pa a Miguel oi uma con i mação de suas suspei as ( e igu a 17). A e elação de que seu ídolo
pode ia mesmo se seu bisa ô deixa o menino ex á ico e es e en ão co e pa a con a sua descobe a e