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Redes e rimas: NetnoRetratos do Rap em Portugal e no Brasil

Author: Gravato, Davide
Year: 2025
Source: https://repositorium.uminho.pt/bitstreams/931932ff-4d80-4a1b-95bf-4e47109d8b10/download
Da ide Miguel de Jesus Fe nandes G a a o
Redes e Rimas: Ne noRe a os do Rap em
Po ugal e no B asil
Maio de 2025
UMinho | 2025
Da ide G a a o
Redes e Rimas: Ne noRe a os do Rap em Po ugal e no B asil
Uni e sidade do Minho
Ins i u o de Ciências Sociais
Ins i u o de Ciências Sociais
Da ide Miguel de Jesus Fe nandes G a a o
Redes e Rimas: Ne noRe a os do Rap em
Po ugal e no B asil
Tese de Dou o amen o
Es udos Cul u ais
T abalho e e uado sob a o ien ação de
P o esso a Dou o a Rosa Cabecinhas
P o esso Dou o Fabio Malini
Maio de 2025
ii
DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS
Es e é um abalho académico que pode se u ilizado po e cei os desde que espei adas as eg as
e boas p á icas in e nacionalmen e acei es, no que conce ne aos di ei os de au o e di ei os
conexos. Assim, o p esen e abalho pode se u ilizado nos e mos p e is os na licença abaixo
indicada. Caso o u ilizado necessi e de pe missão pa a pode aze um uso do abalho em
condições não p e is as no licenciamen o indicado, de e á con ac a o au o , a a és do
Reposi ó iUM da Uni e sidade do Minho.
Licença concedida aos u ilizado es des e abalho
A ibuição-NãoCome cial
CC BY-NC
h ps://c ea i ecommons.o g/licenses/by-nc/4.0/
iii
Ag adecimen os
Que o deixa um ag adecimen o especial àqueles que me incen i a am a inicia es a
pesquisa, pa icula men e, Se gio Denicoli e a P o esso a Rosa Cabecinhas, ambém minha
o ien ado a. De o econhece ainda o apoio dos docen es, colegas e colabo ado es do ICS e
ELACH, pela pa ilha e con ibu os nes a caminhada que, sem eles, e ia sido bem mais soli á ia.
Que ia ainda ag adece a Fabio Malini, meu coo ien ado , e colegas do Labo a ó io de In e ne e
Ciência de Dados (LABIC) pelas e lexões e discussões ao longo des e abalho.
Ag adeço à equipa do p oje o Mig a Media Ac s pelo companhei ismo, ao Cen o de
Es udos em Comunicação e Sociedade da Uni e sidade do Minho e ao Cen o de Ciências
Humanas e Na u ais da Uni e sidade Fede al do Espí i o San o pelo acolhimen o. Não posso
esquece de ag adece à Fundação pa a a Ciência e Tecnologia po me e pe mi ido desen ol e
es a pesquisa com o supo e de uma Bolsa de Dou o amen o.
Valo izo ainda a o ça que me oi dada pela amília, an o a po uguesa quan o b asilei a,
e a paciência de amigos, colegas e a é es anhos em me ou i ala des e p oje o.
“São de o as e i ó ias,
acassos e gló ias jun os numa única his ó ia
que odo o dia esc e emos sem papel, sem cane a,
mas odo passo que damos mudamos o plane a”
Cigas – À p ocu a, 2007
Financiamen o
Es e abalho oi inanciado pela Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia (FCT) com a e e ência
SFRH/BD/145837/2019. Es e oi ealizado no âmbi o do p oje o Mig aMediaAc s – Mig ações,
Média e A i ismos em Língua Po uguesa: Descoloniza Paisagens Mediá icas e Imagina Fu u os
Al e na i os (PTDC/COM-CSS/3121/2021).

i
DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE
Decla o e a uado com in eg idade na elabo ação do p esen e abalho académico e con i mo que
não eco i à p á ica de plágio nem a qualque o ma de u ilização inde ida ou alsi icação de
in o mações ou esul ados em nenhuma das e apas conducen e à sua elabo ação.
Mais decla o que conheço e que espei ei o Código de Condu a É ica da Uni e sidade do Minho.
Uni e sidade do Minho, 28 de Janei o de 2025.
Da ide G a a o
Redes e Rimas: Ne noRe a os do Rap em Po ugal e no B asil
RESUMO: Es a ese p opõe um quad o eó ico-me odológico denominado Ne noRe a os, o qual
in eg a abo dagens quali a i as e quan i a i as pa a a análise de obje os cul u ais no ambien e
digi al. A pesquisa aplica esse mé odo ao oca nos mo imen os cul u ais Rap nos con ex os de
Po ugal e B asil. As dinâmicas des es mo imen os nas edes são analisadas a pa i da
iden i icação de pe spe i is as, combinando ne nog a ia e a aliação de dados es u u ados, com
uma cons an e a enção aos enómenos que in e e em nos p ocessos de análise de dados digi ais.
A p á ica de eco e a dados de in e ne pa a analisa enómenos que oco em nos ambien es
online pode e ela a exis ência de pad ões na sociabilidade dos u ilizado es, discu sos eco en es
sob e de e minados ópicos, luxos de in o mação, en e mui os ou os aspe os sob e o obje o
es udado. U iliza mé odos digi ais pode, no en an o, ac escen a desa ios a uma pesquisa, sejam
eles de na u eza écnica, eó ica, é ica, e c. É impo an e conside a os con ex os dos obje os e
espei a as pe spe i as encon adas, segui um mé odo que se adap e à ans o mação das edes,
po ém, endo em a enção à pa cialidade das es u u as que as en ol em. A pa i da explo ação
do Rap na es e a pública online, nos con ex os de Po ugal e B asil, es a disse ação demons a
como o quad o eó ico-me odológico desen ol ido - o Ne noRe a o - pode se u ilizado pa a
mapea edes simbólicas e na a i as, bem como iden i ica dinâmicas sociais e cul u ais na
in e ne . Es e exe cício p ocu a expandi as possibilidades de lei u a e in e p e ação de enómenos
cul u ais online e o e ece um modelo que pe mi a pesquisado es e p o issionais comp eende
obje os a pa i das suas múl iplas mani es ações em ede.
PALAVRAS-CHAVE: Mé odos digi ais; Ne noRe a o; Pe spe i ismo nas edes; Rap b asilei o;
Rap po uguês;
i
Ne wo ks and Rhymes: Ne noPo ai s o Po uguese and B azilian Rap
ABSTRACT: This hesis p oposes a heo e ical-me hodological amewo k named Ne noPo ai s,
which in eg a es quali a i e and quan i a i e app oaches o he analysis o cul u al objec s in digi al
en i onmen s. The esea ch applies his me hod by ocusing on Rap cul u al mo emen s in he
con ex s o Po ugal and B azil. The dynamics o hese mo emen s in online ne wo ks a e analyzed
by iden i ying pe spec i es, combining ne nog aphy and s uc u ed da a e alua ion, wi h consis en
a en ion o he phenomena ha may in e e e wi h he p ocesses o digi al da a analysis. The
p ac ice o using in e ne da a o analyze phenomena occu ing in online en i onmen s can unco e
pa e ns in use sociabili y, ecu ing discou ses on speci ic opics, in o ma ion lows, and many
o he aspec s o he s udied objec . Howe e , employing digi al me hods in oduces challenges,
whe he echnical, heo e ical, e hical, o o he wise. I is essen ial o conside he con ex s o he
objec s s udied, espec he pe spec i es encoun e ed, and adop me hods ha adap o he e e -
e ol ing na u e o online ne wo ks, while emaining mind ul o he pa iali y and biases inhe en in
hei s uc u es. Th ough he explo a ion o Rap in he online public sphe e, wi hin he con ex s o
Po ugal and B azil, his disse a ion demons a es how he de eloped heo e ical-me hodological
amewo k — Ne noPo ai s — can be used o map symbolic and na a i e ne wo ks, as well as
iden i y social and cul u al dynamics on he in e ne . This e o seeks o b oaden he possibili ies
o eading and in e p e ing online cul u al phenomena and o p o ide a model ha enables
esea che s and p o essionals o unde s and objec s h ough hei mul iple mani es a ions in digi al
en i onmen s.
KEYWORDS: B azilian ap; Digi al me hods; Ne noPo ai ; Online pe spe i ism; Po uguese ap;
ii
Índice
In odução ................................................................................................................................ 1
1. Cul u a no plu al................................................................................................................... 7
1.1. Es udos Cul u ais: con ex os e panos de undo no CCCS .............................................. 11
1.2. Es udos Cul u ais: á ea disciplina ansnacional .......................................................... 18
1.3. En e a in e disciplina idade e a ansdisciplina idade .................................................. 24
1.4. En e a cul u a e a anscul u alidade .......................................................................... 37
1.4.1. Cul u a como p odução de signi icado .................................................................. 40
1.4.2. Cul u a como iden idade e di e ença .................................................................... 43
1.4.3. Cul u a como pode e dominação ......................................................................... 45
1.4.4. Subcul u a como e minologia con olu a............................................................... 47
1.4.5. Cul u a como cons ução social da ealidade ........................................................ 50
1.4.6. Cul u a como sis ema de comunicação ................................................................ 52
1.5. Glossá io de concei os ................................................................................................. 55
2. Ne noRe a o: Redes e mónadas em pe spe i a .................................................................. 57
2.1. A sociedade na in e ne e a in e ne social ................................................................... 57
2.1.1. Tecnologia como cul u a ...................................................................................... 57
2.1.2. Os p incipais es ágios da in e ne ......................................................................... 59
2.1.3. A Comunicação Agenciada po Compu ação na sociedade em ede, da igilância e
algo í mica ..................................................................................................................... 60
2.2. Ne noRe a os ............................................................................................................. 68
2.2.1. Ne noRe a o – Pon o de si uação con ex ual na in e ne ....................................... 68
2.2.2. Ne noRe a o - Análise pe spe i is a de edes sociais ............................................ 73
3. Ne noRe a os: um me a-mé odos ....................................................................................... 94
3.1. Ne nog a ia: es a no digi al ......................................................................................... 94
3
pe mi a analisa dinâmicas sociocul u ais no ambien e digi al, conside ando as complexidades
écnicas, eó icas e é icas ine en es aos con ex os a elas adjacen es? Es a ese p opõe en en a
esses desa ios po meio de uma abo dagem ansdisciplina , que in eg a conhecimen os
académicos e p á icas p o issionais. O nosso obje i o cen al é cons ui um modelo que á além
da dico omia en e eo ia e p á ica e que pe mi a analisa obje os digi ais de o ma con ex ualizada
e si uada, conside ando an o as in aes u u as ecnológicas quan o os signi icados cul u ais que
eme gem das in e ações online. Assim, en a emos c ia uma in eg ação de abo dagens que aja
segundo um “desenho con e gen e” (Mo gan, 2017), de modo que p og essos e desdob amen os
da análise a po enciem nos passos seguin es. A p opos a ap esen ada nes a ese – o Ne noRe a o
– su ge como uma espos a a essa necessidade. Nes e abalho en amos aze ap oximações
en e o conhecimen o académico de p á icas de me cado, po an o, p ocu amos e idencia as
po encialidades de análise de dados digi ais ao di e si ica os exemplos de p á icas e dinâmicas
nela en ol idas.
Uma segunda e impo an e ques ão des a pesquisa ecai na a ual con igu ação online das
comunidades Rap em Po ugal e no B asil. Is o é, quais dinâmicas e na a i as são comuns na
es e a pública online, e como es as o am e oluindo desde o su gimen o da cul u a Hip-Hop?
P e endemos assim iden i ica as di e en es ases e con ex os do mo imen o cul u al em Po ugal
e no B asil.
No capí ulo um in oduzimos os Es udos Cul u ais como pon o de pa ida. En endemos
que a análise das dinâmicas digi ais con empo âneas exige um olha que ul apasse os limi es das
disciplinas adicionais. Des a o ma, es e es udo posiciona os Es udos Cul u ais enquan o pano
de undo alioso pa a sus en a uma abo dagem ansdisciplina . Es a á ea de conhecimen o, ao
ompe com a sepa ação en e academia e sociedade, pe mi e que a me odologia po nós p opos a
ansi e en e o conhecimen o o mal e a p á ica aplicada, acili ando um diálogo en e as
ealidades do “social”, me cado e ciência. A ansdisciplina idade o na-se, po an o, uma peça
essencial pa a pensa e aze pesquisa sob e a cul u a digi al, in eg ando pe spe i as di e sas e
múl iplas o mas de p odução de sen ido. Nes e con ex o, o capí ulo ambém es abelece a
impo ância de ado a uma pos u a que nunca igno a a ap endizagem cons an e po meio da
p á ica. Como e emos adian e, esse posicionamen o é ele an e pa a na ega pelos con ex os
dinâmicos e imp e isí eis que ma cam as in e ações sociais e cul u ais no ambien e online. Além
disso, de endemos o concei o de anscul u alidade (Welsch, 1999) como cha e pa a comp eende
a complexidade dos p ocessos cul u ais con empo âneos. Po im, o capí ulo ap esen a uma

4
abo dagem mul i ace ada da cul u a e p epa a o caminho pa a a p opos a me odológica que se á
ap esen ada nos capí ulos seguin es.
No capí ulo dois iniciamos po con ex ualiza dinâmicas e o p ocesso e olu i o da in e ne ,
pa a em seguida de ini mos o Ne noRe a o. O oco des e capí ulo passa po explica as ês
p incipais bases eó icas, e a an agem da simbiose en e elas. A p imei a a a de se es ende
sob e o pe spe i ismo “ame índio” de Vi ei os de Cas o (2004), e como es e nos ap oxima de
uma mundi idência an opológica simé ica, a qual se á impo an e pa a depois analisa e
iden i ica pe spe i as de o ma mais anspa en e, is o é, sem que os pesquisado es e
p o issionais in e i am nos seus signi icados no momen o de os ap esen a . Fazemos uma pon e
pa a a segunda eo ia, a ANT de La ou (2012), pa a es abelece quem pode se sujei o numa
ede, e a impo ância des a pa a a análise das mónadas digi ais, a qual comple a o nosso quad o
eó ico. Es as, a ualizadas an o a pa i dos con ibu os de Leibniz quan o da isão do “social” de
Gab iel Ta de (1890/2004), são unidades au ónomas de in o mação e in e ação no cibe espaço,
onde cada uma con ém dados, unções e um ce o g au de "pe ceção" ou ep esen ação do
mundo digi al, in e agindo com ou as sem pe de sua indi idualidade.
O capí ulo ês, co esponden e à segunda pa e da desc ição e explicação do
Ne noRe a o, apoia-se nas componen es mais p á icas da nossa e amen a me odológica.
In oduzimos a abo dagem ne nog á ica e a análise de Big Da a, como o mas complemen a es
de cole a de dados na in e ne . Damos ainda a enção a ques ões é icas elacionadas com es es
modelos de p odução de conhecimen o. Não só desc e emos os desa ios é icos que os
pesquisado es e p o issionais en en am ao cole a e analisa dados, como deba emos que
p ecauções e p ocedimen os podem se omados pa a en a mi igá-los. Pos e io men e,
elacionamos a eo ia dos g a os como pon o ulc al pa a a ap esen ação de pe spe i as e
mónadas digi ais, assim como os concei os base a ela associados. É nes e capí ulo que
mencionamos a “in aobje i idade”, uma o ma de conjuga posicionamen os e abo dagens
(au o)c í icos pa a auxilia os pesquisado es e p o issionais, não só na análise de dados cole ados,
mas na pe ceção da in e e ência das pla a o mas na es e a pública, nas epe cussões do que
chamamos de “pa cialidade do código” e na p odução de conhecimen o si uado (Ha away, 1988),
e minamos o capí ulo com ou as conside ações ele an es sob e o Ne noRe a o.
Os dois úl imos capí ulos mos am o mas de aplica as abo dagens do Ne noRe a o. No
qua o, mos amos a impo ância da con ex ualização do obje o, uma ez que analisámos os panos
5
de undo da cul u a Hip-Hop pa a en ende a ans o mação dos mo imen os Rap que mais a de
chega iam a Po ugal e ao B asil. A necessidade des a con ex ualização ala gada passa pela
ele ância de si ua os enómenos digi ais den o de na a i as mais amplas. Assim, começamos
a analisa a cul u a Hip-Hop desde a pa i dos anos 1930, em ez a si ua mos adicionalmen e
no con ex o dos mo imen os de di ei os ci is nos Es ados Unidos da Amé ica nos anos 1960.
Ou o dos mo i os pa a al escolha cen ou-se na análise do Hip-Hop enquan o anscul u al. De
seguida azemos um pa alelo en e a e olução do Hip-Hop e a desen ol imen o ecnológico nas
comunidades e sociedade. Pa imos assim pa a a exposição global des e enómeno sociocul u al
e a chegada e adap ação do mesmo aos con ex os po uguês e b asilei o. Depois de os
ca ac e iza mos, es abelecemos quais o am as suas di e en es ases e a amos da ansição dos
mo imen os Rap da ua pa a a in e ne . Te minamos o capí ulo con ex ualizando es es
mo imen os nos dias a uais.
No capí ulo cinco, começamos po conside a aspe os ele an es dos mo imen os Rap
nos dois países, pa a inicia mos as demais análises p e is as num Ne noRe a o. Es e capí ulo
se e, sob e udo, pa a exempli ica as possí eis implemen ações eó icas e p á icas da nossa
me odologia, e ap o unda o pon o de si uação a ual dos mo imen os Rap quan o à discussão
pública nas edes sociais. U ilizamos abo dagens como ne nog a ia e análise de Big Da a enquan o
desc e emos dinâmicas p óp ias de cada pla a o ma. Ao longo des a exposição amos e elando
pad ões de in e ações, na a i as e discu sos sob e o deba e público de emas gene alis as
associados aos mo imen os cul u ais. Po im, mos amos como a análise pe spe i is a, is o é, a
in eg ação do quad o eó ico desc i o no capí ulo dois, auxilia os pesquisado es e p o issionais a
e o “ odo p esen e nas pa es”.
P ecisamos, an es de pa i mos pa a o capí ulo um, olha pa a den o e si ua es a ese e
aqueles en ol idos. Com es e exe cício, os lei o es ica ão in o mados à p io i dos panos de undo
e con ex os associados a es a ese de dou o amen o em Es udos Cul u ais. O p oje o de
in es igação oi inanciado pela Fundação pa a a Ciência e Tecnologia (FCT), possui um ínculo
com o Cen o de Es udos de Comunicação e Sociedade (CECS), o qual es á inse ido no Ins i u o
de Ciências Sociais (ICS) da Uni e sidade do Minho. Adicionalmen e, a pesquisa az pa e do
P oje o Mig aMediaAc s, pionei o no es udo do a i ismo decolonial na es e a pública em língua
po uguesa (Cabecinhas, 2024), sediado no mesmo cen o e uni e sidade, e coo denado po Rosa
Cabecinhas, que o ien ou es e p oje o. Como p opos o pelo nosso p oje o de in es igação, du an e
um ano, es a pesquisa cump iu um es ágio de mobilidade no Cen o de Ciências Humanas e
6
Na u ais, sob o p og ama dou o al em Linguís ica na Uni e sidade Fede al do Espí i o San o
(UFES), com a supe isão de Fabio Malini, co-o ien ado des e p oje o e c iado do Labo a ó io de
es udos sob e Imagem e Cibe cul u a (Labic), labo a ó io esse que o neceu dados pa a a nossa
pesquisa. Ou a en idade que nos ajudou na cole a e análise de dados oi a AP Exa a, emp esa
luso-b asilei a especializada em es a égias de comunicação o ien ada po dados. Po im, cabe
salien a que, endo iniciado em 2019, a nossa in es igação oi a e ada pelas epe cussões globais
da Co id19.
Po úl imo, enquan o au o des e abalho, essal o que a escolha des e ema pa e da
junção das minhas expe iências académicas, p o issionais e a ís icas. Comecei a aze Rap
po uguês em 2005, aos 15 anos, momen o de ansição do mo imen o cul u al pa a a in e ne .
A é hoje pa icipei em di e sas cole âneas e p oje os, an o em Po ugal quan o no B asil. O
in e esse na cul u a Hip-Hop ala gou-se no con ex o uni e si á io, uma ez que oi ema de á ios
dos meus a igos e da disse ação de mes ado (G a a o, 2017). Possuo expe iência p o issional
em ges ão de p oje os, ma ke ing e análise de dados de in e ne . Em suma, es a ese é u o de
odas essas expe iências, ou seja, uma mis u a de conhecimen o áci o com a usão de um
in e esse pessoal e a ís ico, que pos e io men e mig ou pa a um pe cu so académico. Penso
ainda se ele an e in o ma os lei o es de que, apesa de se po uguês, aço uso eco en e de
es u u as ásicas mais usuais no B asil, como a u ilização do ge úndio, de ido à minha longa e
cons an e i ência nesse país.
7
1. Cul u a no plu al
“Il y a de quoi se ai e du souci
Quan au de eni de l'homme su la planè e,
À commence pa ce pays dans lequel je is,
Où l'on cul i e la di é ence, laissan l'uni é dans l'oubli.”
Saian Supa C ew - La P eu e Pa 3, 1999
Inicia uma jo nada pelos Es udos Cul u ais é me gulha num labi in o de signi icados, p á icas e
in e ações que en am de ini , ou pelo menos aduzi , a expe iência humana. "Cul u a no Plu al",
o capí ulo inicial des a ese, não se limi a a con ex ualiza aspe os desse labi in o; aspi a
comp eende como os seus pe cu sos se en ec uzam e ul apassam as suas on ei as apa en es.
A anscendência da cul u a, enca ada não como uma en idade única e imu á el, mas como um
mosaico de exp essões dinâmicas em cons an e diálogo, conduz a na a i a des e capí ulo. Aqui,
desdob a-se a cul u a em múl iplas dimensões, des endando a capacidade de in e conexão e
ans o mação que de ine a anscul u alidade. Es e capí ulo assume, pois, a o ma de um con i e
à e lexão sob e a complexidade cul u al na e a da (pós-)globalização, salien ando o alo ine en e
na comp eensão das suas di e sas o mas e na ap eciação da sua cons an e o ganicidade e
e olução enquan o concei o. A abo dagem que ado amos p ocu a ilumina a ex u a mul i ace ada
das cul u as em in e ação, suge indo um modo de obse a que econhece e celeb a a di e sidade
como elemen o ulc al pa a a comp eensão do se humano.
Um enquad amen o eó ico e me odológico pode se ealizado de a iadas o mas, po ém,
se e um p opósi o que é an o uncional quan o a gumen a i o. Podemos assumi que um
enquad amen o eó ico-me odológico é uncional pelo seu papel enquan o e amen a es u u al
pa a uma pesquisa. Na sua ausência, pesquisado es não es a iam a p oduzi ciência com c i é io
e mé odo, mas ex os opina i os ou simila . Mas a uncionalidade se desdob a ambém a a o
dos lei o es, is o acili a a comp eensão do abalho quan o aos con ex os le ados em con a,
concei os, eo ias, e c. Um enquad amen o eó ico e me odológico ambém se e ela
a gumen a i o pois, dian e da imensidão de conhecimen os ge ados ao longo da humanidade, os
pesquisado es p ecisam escolhe caminhos eó icos e me odológicos adequados, mas ambém
que con ençam os demais sob e os seus abalhos e esul ados.
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Assim, esc e e um es ado-da-a e se e pa a con ex ualiza a pesquisa e es abelece um
pon o de e e ência pa a o es udo de de e minado obje o, e i ando ainda que sejam ei os es o ços
edundan es sob e es e. Adicionalmen e, a e isão bibliog á ica ajuda a si ua o conhecimen o do
pesquisado quan o à á ea de in es igação, eo ias, e minologia, e c., assim como in o ma os
lei o es quan o às suas in luências (Randolph, 2019, p. 2). Além do enquad amen o eó ico se i
pa a alice ça uma pesquisa, o e ecendo-lhe di eção e c edibilidade, ambém auxilia na a e a de
iden i ica lacunas em es udos an e io es. Já o enquad amen o me odológico, apesa de ambém
e o ça a alidade dos esul ados ob idos, acili a a ep odu ibilidade da pesquisa ao de alha os
mé odos e a e as da mesma. De alha a e as me odológicas assegu a que o p ocesso de
pesquisa oi anspa en e, o nando-o ainda comp eensí el pa a ou os pesquisado es.
Nes a pesquisa di idimos e, ao mesmo empo, unimos es es enquad amen os en e os
ês p imei os capí ulos. Sepa a o enquad amen o eó ico do enquad amen o me odológico pode
se adequa po es abelece um luxo lógico de esc i a e lei u a, no en an o, exis em algumas azões
pa a discu i-los em conjun o. As ês que no ea am a nossa decisão são: a in eg ação de
disciplinas; a especi icidade da nossa p opos a me odológica; e a de esa de que a p á ica pode
emana eo ia.
Como e emos no deco e des e capí ulo, es a pesquisa possui um pano de undo e
ópicos in e e ansdisciplina es. Mas o que é uma disciplina? Se ão os Es udos Cul u ais
ealmen e uma, ou um conjun o de á ias? Eles ap esen am-se como uma á ea de in es igação
di e sa nas suas eo ias e abo dagens, englobando-as a pa i de á ias disciplinas. Além disso,
u ilizamos mé odos associados à Ciência de Dados, o que ala ga o espec o disciplina des a
pesquisa. Com a con ex ualização e análise de mui os aspe os do Hip-Hop na in e ne , se o na á
cla a a nossa necessidade de o a a sob um pon o de is a in e e ansdisciplina . No nosso
caso, a abo dagem in e - e ansdisciplina nos le ou à u ilização de mé odos mis os, que po
coloca ques ões de pesquisa eó icas den o de um design me odológico (C eswell, 2015, p. 14),
nos ob iga a discu i a eo ia e me odologia em simul âneo. Assim, decidimos abo da
de e minados concei os e con ex os eó ico-me odológicos em momen os dis in os dos nossos
enquad amen os, com o im de es es acompanha em os uni e sos disciplina es que amos
in oduzindo.
A segunda azão cen a-se na especi icidade da nossa p opos a me odológica. Decidimos
sepa a um enquad amen o pa a es a p opos a, nos capí ulos dois e ês, po se a a de um

9
elemen o cen al da in es igação e, des a o ma, demanda uma ele ada o ganização de ideias e
eo ia especí icas sob e a nossa e amen a me odológica. P ecisamos conside a esses aspe os
nesse momen o pa a jus i ica ca a e ís icas e nuances ine en es à e amen a. Pe sonaliza a
es u u a da ese de aco do com a sua necessidade pa ece-nos azoá el pa indo do p incípio que
(…) não exis e um esquema pad ão que odas as eses ou disse ações de am segui ,
mas que os í ulos dos capí ulos que suge em ap esen am uma o dem ge almen e ípica
pa a um ex o inal, mesmo que a na u eza e o con eúdo do es udo possam a ia
consoan e o ipo de abalho. (Pal idge, 2002, p. 130)
Po im, a úl ima azão des a es u u a pa a os nossos enquad amen os pa e da nossa
pe ceção, no caso des a in es igação, en e a elação de eo ia com a p á ica. Is o é, po ezes, a
p á ica pode emana eo ia e, nesse momen o, di idi-las se ia i azoá el. Embo a não enhamos
conhecimen o de algum au o que enha li e almen e di o “a p á ica já é eo ia”, a discussão
epis emológica en e a in e ligação das duas não é ecen e. A enção, não es amos aqui a alo iza
a p á ica sob e a eo ia, nem a aze uma di e a compa ação ou aplicação dos seguin es
a gumen os ao nosso caso, mas apenas de ende que é possí el que a p á ica já inco po e o mas
de eo ização. Podemos ecua a Ma x e Hegel com a ase “Não é a consciência que de e mina
a ida, mas a ida que de e mina a consciência.” (2007, p. 94), apon ando pa a uma p á ica ( ida
ma e ial e a i idade p á ica) em elação com a eo ia (consciência, ideologia). Ma x u iliza es a
ideia pa a desen ol e o ma e ialismo his ó ico, um enquad amen o eó ico pa a analisa as
sociedades humanas e as suas ans o mações ao longo do empo, onde as condições ma e iais
de uma sociedade de e minam a es u u a e desen ol imen o da mesma. No caso p esen e, a
minha expe iência p o issional na á ea de análise de dados de in e ne cla amen e in luenciou a
me odologia que u ilizamos nes a in es igação. P á icas p o issionais nem semp e conseguem se
aplicadas a quad os eó icos exis en es ou, po ezes, as es u u as e os enquad amen os eó icos
simplesmen e não se adequam o al ou pa cialmen e a essas p á icas.
Fo mas complexas de in e ligação en e p á ica e eo ia ambém já o am analisadas no
passado, po exemplo, po Bou dieu. Pa a explica a sua ideia de habi us, um conjun o de
disposições inco po ado es u u almen e no espaço social, Bou dieu (1989) ansmi e a noção de
que a p á ica é in o mada pela eo ia, mas ambém que a p á ica con ibui pa a a eo ia quando
a p imei a e ela no os conhecimen os sob e as es u u as sociais. Enquan o a eo ia é a o ma
de comp eende o mundo social, a p á ica é a o ma de nele agi , sendo que as dimensões es ão
10
in e ligadas, e oalimen ando-se. Ao c i ica a adição dominan e da Sociologia, Bou dieu de ende
a indissociabilidade da eo ia e me odologia, suge indo ainda que a sua di isão é a i icial e
baseada em p essupos os posi i is as.
A di isão « eo ia» / «me odologia» cons i ui em oposição epis emológica uma oposição
cons i u i a da di isão social do abalho cien í ico num dado momen o (como a oposição
en e p o esso es e in es igado es de gabine es de es udos). Penso que se de e ecusa
comple amen e es a di isão em duas ins âncias sepa adas, pois es ou con encido de que
não se pode eencon a o conc e o combinando duas abs ações. (Bou dieu, 1989, p.
24)
Es as ideias sob e a in e ação eo ia-p á ica são comuns ambém na á ea da educação. A
conscien ização, pa e cen al da pedagogia de Paulo F ei e, ecai num p ocesso dialógico
en ol endo es udan e e educado ho izon almen e, onde ques iona a ealidade é o a o libe ado
pa a o sujei o op imido que o le a á à mudança (1992). Teo ia e p á ica são is as como in eg adas
nes e p ocesso, a é po que o au o ac edi a a numa p á ica educa i a e lexi a: “Não é no silêncio
que os homens (sic) se azem, mas na pala a, no abalho, na ação- e lexão.” (1987, p. 50).
Seguindo es e luxo de ideias, ac edi amos que es a in es igação possui uma ace a aliada à
ap endizagem expe imen al de que Donald Schön ê como uma o ma de in eg a a eo ia e p á ica
signi ica i amen e. Schön, in oduzindo o concei o de “p a ican e e lexi o”, a gumen a que a
e lexão na ação é essencial pa a a p á ica p o issional e icaz, pois pe mi e que os p o issionais
ap endam a pa i das suas expe iências, adap ando as suas ações de aco do (Schön, 1991). A
nossa e amen a me odológica su giu nes a lógica, is o é, a pa i de uma sequência de ações e
e lexões, numa junção de conhecimen os áci os e assimilação de eo ias.
Qualque p o issional compe en e pode econhece enómenos (…) pa a os quais não
pode da uma desc ição azoa elmen e exac a ou comple a. Na sua p á ica quo idiana, o
p o issional az inúme os juízos de qualidade pa a os quais não pode indica c i é ios
adequados, e demons a compe ências pa a as quais não pode indica as eg as e os
p ocedimen os. Mesmo quando az uso conscien e de eo ias e écnicas baseadas na
in es igação, es á dependen e de econhecimen os áci os, juízos e desempenhos hábeis.
(Schön, 1991, pp. 49-50)
Em suma, a decisão de a a dos enquad amen os eó icos e me odológicos en e ês
capí ulos pa e de:
11
• O espec o disciplina ala gado se mais cla amen e explicado con o me mencionado.
• A e amen a me odológica que p opomos me ece se a ada em sepa ado de ido à sua
ino ação e cen alidade na in es igação.
• Pa i mos do p incípio de que a e amen a me odológica p opos a nasce da junção de
conhecimen o áci o com p ocedimen os e lexi os e expe imen ais, que se desen ol e
a a és da in e ligação en e eo ia e p á ica.
Des a o ma, es e capí ulo um baliza um enquad amen o mais ala gado da in es igação,
con ex ualizando-a nos Es udos Cul u ais e no espec o da disciplina idade, mas ambém de inindo
concei os base de cul u a, iden idade e ou os ele an es a es a ese. Já nos capí ulos dois e ês,
além de comple a mos um enquad amen o me odológico ge al, in oduzimos a nossa p opos a de
e amen a me odológica e a amos de ou os concei os eó icos e me odológicos aliados a es a.
P imei amen e i emos delinea o nosso enquad amen o eó ico quan o aos aspe os
angen es aos Es udos Cul u ais, enquan o pano de undo des e es udo. Pa a além de uma simples
con ex ualização de um de e minado es ado da a e, es e pon o oca á em jus i ica ambém a
adequação da á ea de conhecimen o à análise do nosso obje o. Nesse sen ido, em sequência,
p oblema iza emos ainda o concei o de (sub)cul u a, con emplando as di e en es ca gas que es e
emana.
Se na discussão dos Es udos Cul u ais i emos abo da ques ões ela i as à in e e
ansdisciplina idade, isi a emos a Ciência Cul u al pa a expo a anscul u alidade como
elemen o-cha e de nosso enquad amen o eó ico-me odológico.
1.1. Es udos Cul u ais: con ex os e panos de undo no CCCS
Embo a ci a o e mo “Es udos Cul u ais” numa con e sa possa eme e pa a di e en es
conceções e con ex os, a sua his ó ia es á comummen e associada à o mação do Cen e o
Con empo a y Cul u al S udies (CCCS) na Uni e sidade de Bi mingham. Com a in enção de não
oca na a amada e são b i ânica, a emos em seguida uma b e e con ex ualização dos Es udos
Cul u ais enquan o á ea de in es igação in eg ando as di e en es co en es de pensamen o que,
de ce a o ma, ansnacionalmen e a compõem. Ainda assim, é pe inen e ealiza uma
ap esen ação ci cuns ancial dos Es udos Cul u ais a pa i da o mação do CCCS, uma ez que a
abe u a do cen o em 1964 acaba, de algum modo, po ins i ucionaliza a á ea disciplina .
12
U ilizamos aqui a o mação do CCCS como um pon o de e e ência, não um pon o de
pa ida o iginá io. Como é no ado po Du ing (2005), a inicial ausência de uma sólida base
me odológica dos Es udos Cul u ais (EC), assim como a sua dispe são geog á ica e disciplina ,
azem uma ce a ambiguidade pa a a sua his ó ia. Po ou as pala as, os EC não possuem um
passado linea ao pon o de pode mos u iliza a c iação do CCCS como um mapa empo al, de
onde conseguimos iden i ica acon ecimen os his ó icos especí icos, os quais e iam dado aso à
o mação de um núcleo de au o es acilmen e nomeá el. Como o au o e e e (2005, p.35), se
pensa mos globalmen e
não de e ia Fe nando O iz, o eó ico cubano da “ anscul u ação" e da diáspo a a icana,
se um an epassado dos es udos cul u ais ao lado de Raymond Williams ( e O bi z
1998)? Ou, se o mos po aí, po que não Oc a io Paz, José En ique Rodó, Al onso Reyes
e mui os ou os - an o mais que mui os des es comen ado es cul u ais la ino-ame icanos
(que, de um modo ge al, não e am académicos p o issionais) ajuda am a o ma a
pe sonalidade in elec ual de eó icos como Nes ó Ga cía Canclini (um A gen ino,
educado em Pa is, ago a a abalha no México) que pa icipa na academia global de
es udos cul u ais.
É a pa i des a p emissa que Du ing (2005) p opõe ipa i o pano de undo dos EC en e: as
on es
, os
p ecu so es
e os
p a ican es
. As
on es
se iam aqueles au o es que in luencia am os
EC, seja a a és da con ibuição de concei os ou eo ias pos e io men e u ilizados, sem que os
seus abalhos e linhas de pesquisa ecaíssem sob e a á ea de conhecimen o (Roland Ba hes,
Michel Foucaul , Gilles Deleuze, e c.). O concei o de
on es
acaba po se algo ab angen e uma
ez que nos pe mi e e oca di e en es nomes dependendo de aquilo que conside a mos a p opos a
dos Es udos Cul u ais. Lemb ando, cla o, que essa p opos a se ans o ma ao longo dos anos,
di e si icando assim as possí eis in e p e ações sob e o que se ia uma on e da á ea disciplina .
Já numa con igu ação menos ins i ucional ou académica es ão os
p ecu so es
, que ainda assim
p oduzi am abalhos numa linha p óxima aos eó icos con empo âneos. O au o (2005) dá o
exemplo de como os comen á ios sócio-jo nalís icos de Geo ge O well sob e a in isibilidade da
classe abalhado a b i ânica, e a “cul u a come cial popula ” pa a ela p oduzida, i iam mais a de
encon a luga na academia dos EC enquan o “populismo cul u al”. Po im,
p a ican es
se iam
aqueles que es ão en ol idos no desen ol imen o de concei os ou mé odos nos Es udos Cul u ais
pós a sua ins i ucionalização. Nos
p a ican es
es ão ainda incluídos aqueles que, após se e
o nado uma á ea disciplina , di undi am os EC ou desempenha am algum ipo de men o ia a
19
on es
,
pe cu so es
e
p a ican es
ele an es, um pouco po odo o globo, os quais ampliam o
diálogo pa a além das on ei as geog á icas e in elec uais adicionalmen e es abelecidas. Pa a
uma comp eensão mais holís ica da á ea disciplina , conside a es as pe spe i as o na-se
essencial uma ez que nos ajuda a en ende as dinâmicas cul u ais globais, conjun u as
especí icas de de e minados locais ou egiões, assim como aquelas que anscendem as
singula idades nacionais e egionais. Além disso, é impo an e en ende que nós conside amos a
exis ência de sob eposições e in e câmbios signi ica i os en e as di e en es “escolas” dos Es udos
Cul u ais, conside ando a na u eza ansnacional da á ea disciplina , ou seja, não es amos a
implica uma necessá ia sepa ação quando mencionamos o que as une ou di e encia.
No caso dos Es ados Unidos, po exemplo, pode íamos ci a os abalhos de James Ca ey,
Law ence G ossbe g ou Geo ge Lipsi z pa a aça uma ce a con inuidade dos EC b i ânicos,
po ém, é com Michael Denning que emos um es o ço em es abelece uma sé ie de ascenden es
ame icanos pa a a á ea disciplina (Du ing, 2005, pp. 23-24). Denning si ua os Es udos Cul u ais
nos Es ados Unidos a pa i do con ex o do Popula F on , uma aliança es a égica de g upos
p og essis as anos 1930, a qual inco po ou elemen os simbólicos pa io as pa a comba e as
co en es ascis as, além de se cul u almen e engajada. O au o (1997, p. 4) ca a e iza o Popula
F on enquan o mo imen o in luenciado pelo socialismo, eminismo e sindicalismo dos anos 1910,
assim como os mo imen os New Le , da libe ação neg a e do eminismo dos anos 1960 e 70.
Embo a Denning nunca enha abe amen e de endido uma pa en alidade ame icana dos Es udos
Cul u ais, oco e aqui uma ci cuns ancial e são do que i ia a se a á ea disciplina nos Es ados
Unidos. Assim, le a em con a o con ex o e o abalho in elec ual p oduzido a pa i das ideias com
aízes no Popula F on c ia, de ce a manei a, moldes especí icos e ca a e izan es pa a os EC nos
Es ados Unidos, p incipalmen e assen es nas ans o mações sociocul u ais e económicas do pós-
segunda gue a do país. Po ou as pala as,
o mo imen o social a que chamei Popula F on , deu o igem ao aco do a que chamámos
pós- odismo, pós-mode nismo, a e olução passi a do Ame ican Cen u y. (…) Os nossos
p óp ios "es udos cul u ais" su gi am dessa ansição do mode nismo pa a o pós-
mode nismo, do o dismo pa a o pós- o dismo. (Denning, 1997, p. 462)
Exis em ou os aspe os “ame icanizan es” pa a uma e são es adunidense dos Es udos Cul u ais,
po ém, podem apa en a uma o çada en a i a de nacionaliza um campo de es udo que não

20
p eza po isso. Se á, na nossa opinião, mais an ajoso assumi esses aspe os como
pa icula idades do que elemen os es u u ais da á ea disciplina .
Du ing (2005) dá o exemplo de conside a
on es
como W.E.B. Du Bois e a he ança dos
in elec uais Black Powe dos anos 1960 como uma o ma especí ica de análise c í ica da
expe iência neg a nos Es ados Unidos. Os seus con ibu os explo a am a in e seção de aça, classe
e gêne o, con es ando ques ões como o acismo e a desigualdade social, chamando a a enção
pa a a necessidade de uma análise cul u al e polí ica em de alhe. En ão, pode-se a gumen a que
a incidência em de e minados ópicos c ie, de ac o, p op iedades ca a e ís icas dos Es udos
Cul u ais (no e) ame icanos. Seguindo Rey Chow, Du ing (2005) des aca qua o dessas
emá icas: C í ica pós-colonial da ep esen ação de cul u as não ociden ais no ociden e;
P eocupação com os subal e nos; Discu so das mino ias; e Hib idismo. Es as emá icas i ão
apa ece mais adian e na nossa pesquisa, sendo que a am de pon os signi ica i os pa a o
en endimen o do mo imen o Hip-Hop.
Podemos ambém conside a a “In e Asia”, aqui uma mac o egião em ez de um país,
com impo an es abalhos nos Es udos Cul u ais. Em e mos e i o iais, In e Asia pode
comp eende a “Ásia Ociden al a a és da Eu ásia a é à Ásia Cen al, Ásia Me idional, Sudes e
Asiá ico e Ásia O ien al”, onde países e egiões, além do habi ual imaginá io do con inen e asiá ico,
são con emplados ansnacional e egionalmen e de o ma dinâmica, a a és dos con ex os das
suas “conceções, con e gências e compa ações” (SSRC, 2024). O e mo ambém pa e da
pe ceção de alguns au o es em conside a que “não exis e unidade na en idade imaginá ia
chamada ‘Ásia’”, au o es esses que em p ocu am p omo e pesquisas esc i as em idiomas
asiá icos, aduzindo-as pa a inglês, numa en a i a de “conec a comunidades asiá icas”, mas
ambém de “conec a Ásia à comunidade global” (Chen & Hua , 2014, pp. 1-5). Pensa em
Es udos Cul u ais In e Asiá icos pa ece-nos a) econhece necessidade de analisa a plu alidade
dos con ex os em asiá icos de o ma ansnacional/ egional, indo inclusi e além das habi uais
limi ações geog á icas; e b) iden i ica na á ea disciplina de EC a adequação pa a uma análise de
al complexas ca a e ís icas. Vá ios dos ópicos abo dados passam po pesquisas em adicionais
ques ões dos EC, como a globalização, pós-colonialismo, cul u a popula , e c… se indo-se
ambém do con ex o egional e local pa a discu i esses concei os e eo ias, assim como a
subje i idade das iden idades (in e )asiá icas. Es as, mui as ezes discu idas sob e a ó ica de
“descons ui o imaginá io cul u al colonial do espaço nacional e epensa a elação en e os
es udos cul u ais e o Es ado ( ansnacional)” (Chen, 2005, p. 26).
21
Especialmen e de ido à elação, p oximidade e con ex o socio-his ó ico Ásia/Oceânia,
ce os au o es comummen e ci ados nos EC aus alianos, po exemplo, ambém cos umam se
ci ados na lis a de au o es dos EC in e asiá icos. John F ow e Meaghan Mo is (1993) a gumen am
que a ino ação dos EC na Aus ália ecai pelo in e esse nas “implicações de o mas pa icula es
de ação simbólica”, em ez de o en a “p o a de o aze pe an e an igas eo ias da cul u a”. Po
ou as pala as, não se deu um o e ou longo deba e na Aus ália ace ca de ópicos es u u an es
dos Es udos Cul u ais nou os locais, como humanismo e sus o malismo, no o his o icismo,
e nog a ia, e c. Segundo eles,
(…) os es udos cul u ais aus alianos não o am apenas uma espos a aos mo imen os
polí icos e sociais das úl imas ês décadas (is o pode se di o dos es udos cul u ais como
um p ojec o em ge al), mas ambém de i ou mui os dos seus emas, das suas p io idades
de in es igação, das suas polémicas e, de ce a o ma, as suas ên ases eó icas e
p i ilegiados mé odos de abalho, e de um en ol imen o com esses mo imen os – e os
“quad os his ó icos” (…) em que eles ope am. (F ow & Mo is, 1993, p. 15)
Pode íamos des aca mui os ou os, como os abalhos de Ien Ang e a sua pesquisa sob e
mig ação e dinâmicas ligadas à mul icul u alidade aus aliana, ou como, de ido às di e en es
cul u as asiá icas e às in e ações en e a Ásia e o es o do mundo, exis e ainda in e esse ac escido
em concei os como o hib idismo (Homi K. Bhabha) e a anscul u alidade, po ém, ais discussões
egionais p ecisa iam de mais empo e espaço nes e capí ulo do que aquele que aqui dispomos.
O mesmo ale pa a ou as conjun u as especí icas, como o caso de Hong Kong, as quais podem
e oca os Es udos Cul u ais enquan o disciplina impo an e no en endimen o do momen o sócio-
his ó ico, po ém, con igu am-se mais num “es udo local” (Du ing, 2005, p. 27) do que uma
“escola” dos EC.
Nou o con inen e e mac o egião, os Es udos Cul u ais A icanos equen emen e
analisam as di e en es expe iências sociais e cul u ais na Á ica, assim como as a o-diaspó icas.
As iden idades neg as e esis ência cul u al são igualmen e impo an es emá icas, sendo que aqui
ambém acon ece um pon o de encon o pa a ce os au o es equen emen e ci ados nou os
luga es o a dos EC a icanos, como é o caso de Paul Gil oy. De um modo ge al, os EC a icanos
apa ecem “num con ex o das na a i as da a icanização, nas quais há uma necessidade de
eo ien ação in elec ual e de pe spec i a his ó ica dos EC em e mos da aje ó ia da cul u a
a icana” (Jacks e al., 2022, p. 165).
22
Exis e, no en an o, uma noção de que os con ex os a icanos não podem se se i de um
enquad amen o eó ico e me odológico dos EC assen e nas lógicas eu opeias/ociden ais, co endo
ainda o isco de co obo a com uma ideia da globalização da á ea disciplina a pa i dos polos
angló onos, p essupondo um pon o his ó ico o iginal ( e Tomaselli & Mbo i, 2013 sob e Du ing,
2005). É necessá io e em con a que as ealidades a icanas eque em uns EC que dialoguem
com as con adições no con inen e, e que não se limi em à “ ex ualidade” (Tomaselli & Mbo i,
2013). Dinâmicas que ligam os EC a icanos a emá icas como colonização e descolonização, ao
equen emen e explo a o legado da colonização eu opeia na Á ica e os p ocessos de
descolonização, assim como a lu a pela independência que se segui am. Com is o, ques ões sob e
pe encimen o e iden idade é nica, nacional, cul u al, …, desempenham um papel impo an e nos
Es udos Cul u ais a icanos, especialmen e à luz da di e sidade é nica e cul u al do con inen e,
di e sidades essas ambém ópicos eco en es. Es es emas podem se analisados a pa i das
pe spe i as de á ios au o es, como Njabulo Ndebele e a sua análise c í ica da sociedade sul-
a icana pós-apa heid, G ace Musila sob e as in e seções en e li e a u a, gêne o e polí ica na
Á ica, como Achille Mbembe examina as ques ões de nec opolí ica e biopode em con ex os
a icanos enquan o o mas con empo âneas de dominação, en e mui os ou os au o es. A di eção
em descoloniza a men e e essigni ica iden idades pa ece-nos ans e sal a es a escola dos EC.
E a quase como se, ao escolhe esc e e em Gikuyu, eu es i esse a aze algo de ano mal.
Mas Gikuyu é a minha língua ma e na! O p óp io ac o de o que o senso comum di a na
p á ica li e á ia de ou as cul u as es a a se ques ionado num esc i o a icano é uma
medida de a é que pon o o impe ialismo dis o ceu a isão das ealidades a icanas. (wa
Thiong’o, 1988, pp. 27-28)
Não podemos esquece da mac o egião que diz espei o aos Es udos Cul u ais La ino-
Ame icanos, os quais ão p opo epensa os con ex os his ó icos e cul u ais do con inen e. Essa
mo i ação coloca os EC La ino-Ame icanos não como coadju an es ou ami icações dos EC
b i ânicos ou no e-ame icanos, mas como uma á ea disciplina com um p óp io co po de p á icas
di ecionadas às aje ó ias e p oblemá icas da egião, o que pode esul a em desalinhamen os ou
con li os com as escolas ociden ais já mencionadas (Sa o e al., 2004). Au o es como Jesus
Ma ín-Ba be o, Nes o Ga cia Canclini e Guille mo O ozco Gomez são habi ualmen e mencionados
nas discussões sob e a elação en e os indi íduos e os meios de comunicação, assim como po
ou os con ibuido es impo an es pa a a á ea disciplina . Ma ín-Ba be o, po exemplo, de endeu
que uma mensagem dos média pode se in e p e ada e a i amen e ans o mada de o mas
23
di e en es pelos ou in es, p ocesso que dá luga às “mediações sociocul u ais”, en e os espaços
de p odução e eceção, um quad o me odológico pa a analisa essas dinâmicas de emissão-
eceção de mensagem, o qual adiciona mais complexidade à lógica de como a indús ia cul u al
in luencia as massas (Ma ín-Ba be o, 2002). Po ou as pala as, é ambém uma o ma de
ela i iza o pode dos meios de comunicação sob e as opiniões e ações dos ece o es. As
emá icas nos EC La ino-Ame icanos não es ão ci cunsc i as à comunicação, sendo comummen e
discu idos concei os de iden idade, esis ência cul u al e cul u a popula na Amé ica La ina, sem
esquece as linhas de pesquisa que analisam as cul u as indígenas. Já mencionamos Canclini,
po exemplo, conhecido pelo concei o de hegemonia cul u al ou a sua abo dagem do hib idismo
cul u al na Amé ica La ina. Em ob as como "Cul u as híb idas: es a égias pa a en a e sai da
mode nidade" (1989), ele examina como as cul u as na egião são in luenciadas po uma mis u a
de elemen os cul u ais indígenas, eu opeus e a icanos, o que esul a em con igu ações únicas e
complexas.
Como os EC La ino-Ame icanos endem a p io iza a p odução simbólica e as expe iências
e ealidades sociais da egião enquan o “ ex os cul u ais”, eles “p oduzem os p óp ios obje os de
es udo du an e o p ocesso de in es igação” (Sa o e al., 2004, pp. 3-4), o que suge e a não
de inição de EC a a és dos mé odos ou ópicos u ilizados. Seja pelos au o es já mencionados,
pela eo ia da anscul u ação de Fe nando O iz, pela adicional c í ica ensaís ica la ino-
ame icana, ou po ou a pa icula idade p o enien e da egião, pa ece-nos cla a a di e sidade de
ca a e ís icas p óp ias das on es, pe cu so es e p a ican es dos EC La ino-Ame icanos. Alguns
au o es suge em que essas pa icula idades e pos u a dos EC na egião iabilizam uma p opos a
de e undação da á ea disciplina na á ea, nos seus países, e a pa i dessa di e sidade eó ica e
emá ica (Ca alho, 2010).
Segundo Du ing (2005), ou os ios condu o es dos Es udos Cul u ais não possuem
ínculos geog á icos, mas es ão elacionados a ques ões associadas ao an i-eli ismo e ao o diná io.
Ele dá o exemplo de como o “populismo cul u al” não apenas coloca a cul u a popula como o
opos o à al a cul u a, mas ambém como a dominan e. Vol ando à ideia dos
p ecu so es
e
on es
dos Es udos Cul u ais, é-nos impossí el menciona odos os nomes, não apenas pela quan idade,
mas ambém po que a lis a i ia a ia de aco do com os di e en es Es udos Cul u ais a que nos
e e i mos. Após es a pequena in odução dos EC enquan o á ea disciplina , pensámos que se
o nou cla a a eco ência de ce as emá icas e a exis ência de á ios con ex os que adap a am
os EC às ci cuns âncias onde geog a icamen e o am aplicadas. No que diz espei o a es a
24
pesquisa enquan o um abalho nos Es udos Cul u ais, i emos ope a consoan e a necessidade
do obje o.
1.3. En e a in e disciplina idade e a ansdisciplina idade
No pon o an e io alamos sob e a ins i ucionalização dos Es udos Cul u ais enquan o á ea
disciplina , o que nos le ou a essal a aspe os quan o à sua mul iplicidade disciplina . Aqui i emos
explo a essa ques ão, assim como si ua a nossa pesquisa no espec o disciplina .
Nós, os se es humanos, ca ego izamos enómenos desde empos imemo iais, o que
esul a na o ganização dos mesmos a pa i de de e minados ocabulá ios, concei os, ..., em
e minologias que di e enciam ou elacionam conhecimen os. Des a o ma, conseguimos mais
acilmen e nos e e i e analisa esses enómenos, ou seja, o a o de sis ema iza os conhecimen os
nos pe mi e melho comunica sob e eles. A inicia i a de di idi o conhecimen o po á eas de
ins ução es á ligada ao pano ama his ó ico da especialização académica. Fo ma uma disciplina
eque impo on ei as en e essas á eas, o que signi ica agmen a o conhecimen o e es abelece
pad ões de compe ência. Es e p ocesso le ou séculos, sendo que não é possí el menciona a
“pessoa in en o a” do concei o de disciplina. No en an o, exis em au o es que di e a ou
indi e amen e con ibuí am signi ica i amen e pa a al.
Um dos casos mais no ó ios se á possi elmen e René Desca es. Ainda no século XVII,
Desca es ai in luencia o desen ol imen o da eo ia do conhecimen o com “Discu so do Mé odo”
em 1637, a pa i de uma abo dagem analí ica com oco no que i ia se o na o acionalismo
mode no, li o esse que desc e e a p á ica humana de dis ingui e sis ema iza enómenos. Na
secção do “qua o discu so” des e li o, Desca es suge e um mé odo que di ide um p oblema
em pa es meno es, u ilizando um conjun o de eg as pa a busca a “ e dade”, pa indo do
p incípio de que “exis em di e en es ipos de expe iência que são ele an es pa a di e en es ipos
de conhecimen o, e que é mais p o á el que sejamos bem-sucedidos na nossa p ocu a de
conhecimen o se adap a mos o nosso mé odo ao ipo de conhecimen o p ocu ado.” (Cla ck, 2005,
p. 162). O alemão Wilhelm Dil hey de endeu, mais a de, a sepa ação das ciências na u ais
(Na u wissenscha en) das ciências do espí i o (Geis eswissenscha en), pois ac edi a a que as
ciências humanas podiam “comp eende ” a “en idade indi idual” enquan o as ou as en am
encon a “o ge al, o ipo” (Palme , 1969, p. 105). A lis a de nomes a menciona é demasiado
g ande pa a se aqui expos a. Podíamos ala da de esa da c iação de de e minadas disciplinas,

25
como ez Émile Du kheim ao p opo uma abo dagem cien í ica pa a analisa a sociedade
(Sociologia), ou como Thomas Kuhn a gumen a que a ciência a ança em unção de ce os
pa adigmas, que após um pe íodo de consenso se ão subs i uídos. No en an o, cabe-nos aqui
comp eende que o concei o de uma disciplina pode se a iá el, pois a en a i a de sis ema iza
o conhecimen o a a és de um conjun o de pad ões e eg as é passí el de se e u ado po
elemen os p oduzidos po se es humanos que azem no os pa âme os pa a a discussão:
ans o mações sociais, no as ecnologias, su gimen o de no os pa adigmas, en e ou os.
No que oca aos Es udos Cul u ais enquan o á ea disciplina , a discussão não se
simpli ica. Já imos como os EC bebem de á ias on es e que, dependendo da egião geog á ica
ou década, exis e uma a iação nas disciplinas que exe cem in luência sob as eo ias e
me odologias ado adas pelos seus p a ican es. Consequen emen e, su gem dois deba es
ele an es quan o a es e ópico: a p oblemá ica da con adisciplina idade; e se os Es udos
Cul u ais podem se conside ados um conjun o de disciplinas ao in és de uma unidade disciplina .
Es es deba es são comuns e se elacionam.
A p oblemá ica da con adisciplina idade (Gi oux e al., 1984) ab ange ambém a
discussão quan o à legi imação dos Es udos Cul u ais na qualidade de disciplina.
Concei ualmen e, dize que os Es udos Cul u ais são con adisciplina es é a i ma que es es
ejei am on ei as e hie a quias disciplina es academicamen e es abelecidas. Inco po a
conhecimen os de di e en es á eas po si só não é su icien e pa a o na EC con adisciplina , pois
isso acon ece de ido ao seu posicionamen o c í ico ace aos p essupos os e es u u as subjacen es
às disciplinas es abelecidas. Um dos a gumen os cen a-se, como já i emos opo unidade de
menciona , no p essupos o de que comp eende a complexidade da cul u a eque anscende
on ei as disciplina es adicionais. Mas es a pos u a e luidez disciplina ouxe am ensões.
Mencionado a abe u a do CCCS, S ua Hall e e e que
No dia da inaugu ação, ecebemos ca as de memb os do depa amen o de Inglês a dize
que não nos podiam da as boas- indas; sabiam que es á amos lá, mas espe a am que
não os incomodássemos enquan o con inua am com o abalho que inham pa a aze .
Recebemos ou a ca a, um pouco mais incisi a, dos sociólogos, que dizia, de ac o,
"Lemos As U ilizações da Cul u a e espe amos que não pensem que es ão a aze
sociologia, po que não é isso que es ão a aze de odo.” (Hall, 1990, p.13)
26
O concei o de con adisciplina idade dos EC ambém en ol e a discussão des es enquan o
á ea disciplina . Mencionando S ua Hall no amen e, no seu ensaio “Es udos cul u ais: Dois
pa adigmas” (1980), si ua os EC como um campo de elações ab angendo á ias disciplinas e
abo dagens. Simila men e, Simon Du ing (2005) dá a en ende que os EC podem se conside ados
um conjun o de p á icas in e disciplina es, mas ambém se podem conside a uma disciplina. Nós
de endemos que al discussão não é p op iamen e impo an e pa a a nossa pesquisa, sendo que
a nossa p incipal p eocupação nes e ópico passa po des aca e assumi o hib idismo e luidez
na u al des e campo de es udos. Po isso, classi icamos es e abalho um es udo in e disciplina .
O e mo in e disciplina idade pode acilmen e eme e pa a mais do que uma de inição.
Aliados à discussão sob e o que ealmen e signi ica abo da um obje o de o ma in e disciplina ,
es ão os deba es sob e as suas di e izes e p oblemá icas. T a emos es es assun os po essa
mesma o dem: concei o(s), abo dagens e di e izes/p oblemá icas.
Um ela ó io sob e o le an amen o de li e a u a ace ca da in e disciplina idade (ID) e
ansdisciplina idade (TD), e ambém sob e os a o es de sucesso de sua implemen ação, apu ou
que a de inição de Julie Thompson Klein é a mais u ilizada no es o ço de en a de ini o e mo,
sendo que ela con ex ualiza que:
A in e disciplina idade em sido de inida de á ias o mas ao longo do século: como uma
me odologia, um concei o, um p ocesso, um modo de pensa , uma iloso ia e uma
ideologia e lexi a. A in e disciplina idade é uma o ma de esol e p oblemas e de
esponde a ques ões que não podem se abo dadas de o ma sa is a ó ia u ilizando
mé odos ou abo dagens isoladas. Que o con ex o seja uma ins umen alidade de cu o
alcance ou uma conce ualização de longo alcance da epis emologia, o concei o
ep esen a uma en a i a impo an e de de ini e es abelece um e eno comum. (Klein,
1990, p. 196 em B. V. Bap is a e al., 2020, pp. 32-33)
Podemos en ão conside a a in e disciplina idade um p ocesso colabo a i o que p ima pela
in e ação disciplina que en ol e a explicação conjun a de enómenos. Seja o seu esul ado a
esolução de p oblemas, a c iação de p odu os ou de no as ami icações de discussão, o
impo an e é que os p ocessos eme am pa a o en ol imen o de di e en es disciplinas, p á icas e
p a ican es, desde as suas e minologias aos conhecimen os e abo dagens. A necessidade da
u ilização da ID pa e ambém da complexidade dos obje os de es udo. Como Jane Gilbe (2016,
p.192) a gumen a, “ udo ago a é complexo, ou seja, p o undamen e ema anhado, in e conec ado,
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imp e isí el e abe o”, onde os p oblemas não possuem mais uma espos a ce a, o que le a a
“ ealidade” a se “incomp eendida pelas disciplinas adicionais”, as quais se sus en am na
“ edução do sis ema a uma seleção de unidades disc e as, deixando ine i a elmen e de o a
aspe os undamen ais”.
A in e disciplina idade possui di e en es ace as dependendo do deba e a que nos
e e imos, no malmen e ipa ido em (B. V. Bap is a e al., 2021):
Discu so ilosó ico – Es e con ex o cos uma en ol e ques ões quan o à epis emologia e
on ologia. Os au o es sucedem assim à explo ação da cons ução do conhecimen o
in e disciplina . Se do pon o de is a epis emológico se analisam os p ocessos que le am a esse
conhecimen o in e disciplina , on ologicamen e se examina como as disciplinas supo am uma
isão mais comple a da ealidade. Au o es como Edga Mo in chegam a a a a ID num cená io
holís ico, des acando a in e cone i idade das disciplinas como o sis ema in eg ado que pe mi e a
comp eensão dos enómenos complexos, a qual não é possí el a a és da indi idualização
disciplina :
Po ém, es es p og essos es ão dispe sos, desunidos, de ido jus amen e à especialização
que mui as ezes agmen a os con ex os, as globalidades e as complexidades. Po isso,
eno mes obs áculos somam-se pa a impedi o exe cício do conhecimen o pe inen e no
p óp io seio de nossos sis emas de ensino. Es es sis emas p o ocam a disjunção en e
as humanidades e as ciências, assim como a sepa ação das ciências em disciplinas
hipe especializadas, echadas em si mesmas. (Mo in, 2000, p. 40)
Discu so de esolução de p oblemas – No amen e, exis e uma de esa da abo dagem
in e disciplina como espos a a desa ios mul i ace ados, embo a es e discu so eco a a uma
abo dagem mais p á ica. A p omoção de uma colabo ação das di e en es á eas de conhecimen o
se es ende pa a além dos mu os académicos, sendo que a oca de ideias, dados ou esul ados
con e em pa a um en endimen o mais ab angen e das p oblemá icas analisadas.
Discu so c í ico – Nele se analisam “o p incípio da unidade, a esolução ins umen al de
p oblemas, a disciplina idade e a in e disciplina idade.” (B. V. Bap is a e al., 2020, p. 35). É
discu ida a elação en e as úl imas duas, e como a análise c í ica pode con ibui pa a a
ees u u ação das disciplinas e a necessidade de epensa a es u u a p edominan e do
conhecimen o. O desen ol imen o da sob eposição disciplina em de imen o da
depa amen alização do conhecimen o implica a) mudanças nas es u u as académicas onde o
28
hib idismo e he e ogeneidade se o nam ca a e ís icas do p óp io conhecimen o e, b) uma elação
en e a disciplina idade e in e disciplina idade no sen ido de olha além das suas ób ias ensões
e dico omia, buscando assim uma complemen a idade (Klein, 1996, pp. 3-4).
De ini o concei o ID não apa en a se ão u gen e e impe a i o po aqueles que a ela
eco em, uma ez que en ol e demasiadas p á icas e p incípios pa a se acilmen e de inido (B.
V. Bap is a e al., 2021). Assim, mais do que en a a alia a sua de inição, e endo em con a a
nossa pesquisa, pa ece-nos ele an e olha ambém pa a possí eis abo dagens in e disciplina es.
Além das expe iências e conhecimen os dos au o es, as abo dagens a iam de aco do a á ea de
conhecimen o a que as pesquisas pe encem, is o é, pesquisado es da á ea de Di ei o e Filoso ia
mui o p o a elmen e i ão aze di e en es ques ionamen os sob e um de e minado enómeno ou
obje o. Tais a iações se es endem pa a á eas conside adas in e disciplina es, como a Psicologia
Social ou Es udos Cul u ais. Na ealidade, a necessidade de abo da um ópico de o ma
in e disciplina ambém pode pa i das especi icidades do mesmo. E como não nos pa ece
coe en e analisa o Rap de o ma isolada da cul u a Hip-Hop, dos con ex os socioeconómicos dos
mo imen os cul u ais, en e ou as ques ões, usa uma abo dagem in e disciplina nes e con ex o
não é ealmen e uma escolha nossa.
As abo dagens in e disciplina es êm ganho mais espaço em sis emas de ensino po
en ol e em um sen ido de in eg ação, uma o ma holís ica de ap endizagem, po le a em em
con a as necessidades de um leque mais ala gado de alunos e po e em p oduzido esul ados
posi i os quan o à e enção dos alunos (Klein, 1999, pp. 19-23). Ainda sob e abo dagens
in e disciplina es no ensino, Klein (1999) lis a uma sé ie de pon os impo an es quan o às
es a égias de in eg ação de cu iculum, às es a égias de desen ol imen o das aculdades
(escolas/cen os), às pedagogias e quan o aos esul ados ideais de p og amas in e disciplina es.
Gos a íamos de aqui des aca alguns dos pon os-cha e ci ados po Klein, momen o que
ap o ei amos ambém pa a enquad a ainda mais a nossa pesquisa. Segundo a au o a, uma das
es a égias de in eg ação de cu iculum passa po o e ece aos alunos, não apenas modelos, mas
ambém p ocessos de in eg ação de conhecimen o in e disciplina . Es e é um dos obje i os des a
pesquisa, is o é, disponibiliza um conjun o de e amen as eó icas e me odológicas que, a a és
da sua in eg ação e coope ação sequencial, le em ou os a analisa obje os de es udo complexos
e mul i ace ados p esen es na in e ne . Se a abo dagem in e disciplina bene icia do conhecimen o
ap o undado e especí ico dos en ol idos, de endemos ambém que o nosso modelo possa se
ele an e pa a o desen ol imen o de aculdades/cen os se u ilizado pa a “enco aja g upos
35
A segunda simila idade que que emos apon a ecai no
oco em ques ões complexas
. E é
de ido aos desa ios do “mundo eal” que a pesquisa ansdisciplina acaba po se aplicada a
ques ões mul i ace adas, como análises de obje os ambien ais, sociais ou na saúde. Os cená ios
conc e os aliados a es es emas são o oco dos p oje os ansdisciplina es po es es aze em
“a ança a ciência e as humanidades ao desen ol e em uma comp eensão de elações
complexas, ao descob i em no as o mas de coloca ques ões” (Pohl & H. Hado n, 2007, p. 13).
Seguindo es e aciocínio, os dois concei os encon am uma e cei a simila idade ao
p opo em uma abo dagem mais holís ica
. Se po um lado a análise dos complexos desa ios do
“mundo eal” bene iciam da colabo ação disciplina en ão, po ou o, ambém i am pa ido ao i
além das on ei as das p óp ias disciplinas en ol idas. (Jan sch, 1972)
Pa a le a es as pesquisas a cabo é necessá io e , o que conside amos a qua a
simila idade en e os concei os,
lexibilidade me odológica
. Te lexibilidade nos mé odos a u iliza
numa pesquisa ansdisciplina mos a-se impe a i o pelo p e ex o da mesma se e de adequa a
um obje o complexo. Flexibilidade de e se conside ada a é mesmo “pa a pe mi i múl iplas ias
de in eg ação e colabo ação.” (Klein, 2008, p. 117).
Tais p á icas le am à quin a simila idade en e os concei os, a
in eg ação do
conhecimen o
. Inse indo-se aqui no já mencionado discu so ilosó ico, as abo dagens
ansdisciplina es ambém p ocu am in eg a conhecimen os, me odologias e pe spe i as
independen emen e das disciplinas, o que acaba po solidi ica a ideia da busca po uma
comp eensão mais comple a dos obje os. De uma o ma ge al, a g ande ques ão epis emológica
da ansdisciplina idade é a p ocu a pela unidade (Klein, 2017).
Embo a as simila idades ci adas acima ap oximem os dois concei os, é nesses mesmos
ópicos que as di e enças acon ecem. Podemos dize que a ID e TD possuem, de g osso modo, a
mesma in enção com mundi idências dis in as.
A na u eza da colabo ação na TD expande a ede académica, azendo ambém a
pa icipação de edes p o issionais e da sociedade ci il em ge al. Is o não que dize que a ID não
eco a ao conhecimen o o a dos mu os académicos, al acon ece mesmo nas disciplinas
adicionais. A di e ença consis e na o ma inclusi a como a ansdisciplina idade in es e em
p ocessos que in eg am

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uma a iedade de disciplinas e a o es de o ganismos públicos, da sociedade ci il e do
se o p i ado, a im de iden i ica e analisa p oblemas com o obje i o de desen ol e
conhecimen os e p á icas que p omo am o que é en endido como o bem comum (Pohl
& H. Hado n, 2007, p. 16)
Assim, a pa icipação ansiada engloba in e enien es ex e nos pa a
molda o p ocesso de in es igação. A mo i ação pa a a concen ação em p oblemas do
mundo da ida é o desejo de oma em conside ação a esponsabilidade da ciência
pe an e a sociedade e de en en a os desa ios cien í icos de lida com ques ões empí icas
e o ien adas pa a a p á ica em o ganismos públicos, no se o p i ado e na sociedade ci il.
(Pohl & H. Hado n, 2007, p. 26)
Embo a não enha sido o p imei o a azê-lo, Nicolescu p opõe (2010, p. 19) a ideia é i além das
disciplinas e o p óp io es a u o de disciplina. Embo a não subsc e amos à ideia de que uma
“ideologia do cien ismo” es eja a ameaça a nossa espécie, conco damos com o au o de que é
necessá io le a em con a conhecimen o o a do escopo cien í ico, e de que coloca o
en endimen o do “sujei o” é ão álido quan o o en endimen o do académico. Não se a a de um
julgamen o de alo , a é po que no campo da subje i idade não é a obje i idade que impe a, ou
ice- e sa, mas sim de uma abo dagem de inclusão de uma pe spe i a o gânica e ex e na ao
mé odo cien í ico.
Es a abo dagem ans e e-se pa a o design das pesquisas ansdisciplina es. Uma
pesquisa que quei a se conside ada ansdisciplina p ecisa le a em con a não só os di e en es
pa adigmas disciplina es, como ambém pe spe i as do “mundo da ida”. Dependendo da
pe gun a de pa ida se á necessá io oca em um conjun o de pon os e obje i os, semp e
conside ando desa ios elacionados às di e en es o mas de conhecimen o a se ge ado (Pohl &
H. Hado n, 2007):
• Conhecimen o de Sis emas (Sys ems Knowledge) – O impo an e aqui é sabe lida com as
“ince ezas”, p opondo a ans e ência de conhecimen os abs a os pa a um caso conc e o,
independen emen e da sua p o eniência (modelo, eo ia, labo a ó io, e c.). Aqui si uam-se as
pe gun as sob e a génese e o possí el desen ol imen o pos e io de um p oblema, mas
ambém sob e as in e p e ações do p oblema no “mundo da ida”.
• Me as de Conhecimen o (Ta ge Knowledge) – Re e e-se à mul iplicidade de obje i os sociais
e a pesquisa, os p oblemas p á icos sociais e a elação en e a ciência e os a o es no “mundo
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da ida” no con ex o da colabo ação ansdisciplina . A ideia é p omo e conhecimen o e
p á icas que bene iciem o bem comum. Assim, são ele an es as ques ões de iden i icação e
undamen ação da necessidade de mudança, me as almejadas e p á icas ecomendadas.
• Conhecimen o de T ans o mação (T ans o ma ion Knowledge) – O desa io passa po o na o
“es abelecido” mais “ lexí el”, uma ez que as opo unidades de mudança dependem das
exis en es in aes u u as, egulações, elações de pode , p e e ências cul u ais ou
ecnologias. As ques ões e e em-se en ão aos meios écnicos, sociais, ju ídicos, cul u ais e
ou os que isam ans o ma as p á icas exis en es e in oduzi as p á icas desejadas.
Pohl e Ha don (2007) a gumen am que as o mas de conhecimen o não es ão isoladas, e que
uma pe gun as de pesquisa numa de e minada o ma de p odução de conhecimen o apenas pode
se espondida elacionando as ou as duas. Assim, e po mui o que olhemos pa a a p opos a
assumindo “ elações en e sis emas e com is a a opções especí icas de ans o mação das
p á icas exis en es” (p. 38) – Conhecimen o Al o – pe cebemos que di e en es es ágios des a
pesquisa exijam a conside ação de p oblemas a pa i de ou os p ismas. Além disso, uma
pesquisa ansdisciplina e á ases de colabo ação dis in as, sendo que ha e á momen os em que
uma a e a se á apenas disciplina ou in e disciplina .
1.4. En e a cul u a e a anscul u alidade
Tendo em con a a plu alidade de disciplinas, a e as e abo dagens en ol idas nes a pesquisa,
“escolhe ” um concei o pa a cul u a o nou-se um dos mais di íceis desa ios epis emológicos.
Além disso, p ecisamos desambigua o e mo do uso que lhe é dado pelas comunidades Hip-Hop.
Como e emos no capí ulo qua o, es as eco en emen e mencionam “a cul u a” pa a se e e i
ao Hip-Hop ou iden i ica udo aquilo que o en ol e.
Uma ez en e a in e e ansdisciplina idade, exis e uma p edisposição pa a assumi um
concei o de cul u a ab angen e. Algo que dê espaço pa a as disciplinas en ol idas se encaixa em,
mas que não seja demasiado ago ao pon o de inclui con adições en e elas. Assim, e
conside ando ainda a complexidade do Hip-Hop, op amos po u iliza o concei o de
anscul u alidade.
A p opos a des e concei o oi ei a po Wol gang Welsch (1999) po acha que os concei os
de cul u a não mais se adequam aos dias de hoje. Welsch inicia po si ua o concei o de cul u a.
Embo a á ios au o es enham desen ol ido e expandido o concei o, colocando em oco di e en es
38
ques ões como e emos adian e, a noção de cul u a do século XVIII mencionada pelo au o ainda
é ele an e. Falamos aqui da de inição de Johann Go ied He de , ap esen ada po Welsch, a
qual assen a em ês pila es: homogeneização social, consolidação é nica e delimi ação
in e cul u al (1999, p. 1). O p imei o deno a uma unidade nos compo amen os e cos umes de
de e minada população. O segundo em um ca á e undacional e quase essencialis a do pon o
de is a é nico. Po im, o e cei o, sublinha um pe encimen o de uma cul u a a um de e minado
g upo de pessoas, sepa ando-a de ou os g upos e cul u as. Es as ca a e ís icas pa ecem se mais
pe inen es pa a de ini o modelo de es ado-nação a pa i das comunidades imaginadas de
Benedic Ande son, do que aduzi um concei o de cul u a ep esen a i o da a ualidade.
P imei o, pa a desmis i ica a homogeneização social, Welsch essal a a exis ência de
á ios pad ões de ida e da mul iplicidade de cul u as que cons i uem as sociedades a uais (1999,
p.2). Po ou as pala as, se ia edu o en a engloba di e sos aspe os sociocul u ais num paco e
pa a ca a e iza uma supos a cul u a po uguesa, b asilei a ou qualque ou a, seja pela len e
nacional, é nica, en e ou as. No caso de Po ugal, po exemplo, mui os de nós e ocam os
an epassados lusi anos em con e sas in o mais como se de um po o o iginá io e uni á io se
a asse. Não só eles são descenden es de populações P o ocel as e Cel as, como se o na ób io
que po ugueses descendem de a iados ou os g upos é nicos que pelo e i ó io passa am, desde
os omanos aos sue os ou mou os. Especialmen e com os mo imen os mig a ó ios do século XX
e XXI, o na-se impossí el a i ma que “uma cul u a po uguesa” es á ci cunsc i a a um g upo
é nico. Além dis o, e de ido à en âse na delimi ação ex e na, “es e ipo de apelo à iden idade
cul u al acaba po se ambém uma ameaça de sepa a ismo” (Welsch, 1999, p. 2).
Ainda segundo Welsch (1999, p. 3), a in e cul u alidade apenas p ocu a uma o ma das
cul u as se en ende em e se econhece em. Es e concei o não é adequado pa a con empla mos
as dinâmicas cul u ais a uais pois ainda assume cul u as enquan o “es e as” ou “ilhas”. A
“comunicação en e es as cul u as” (p. 3) não é acili ada no modelo de cul u a enquan o es e a
ou ilha, o que ambém não e le e aspe os como a in luência de enómenos i e u á eis como, po
exemplo, da globalização. Na opinião de Welsch, a mul icul u alidade não o e ece mui o mais do
que a in e cul u alidade. Embo a a busca de “opo unidades pa a a ole ância e a comp eensão,
bem como pa a e i a ou ge i con li os” (p. 3) sejam bem-in encionadas, p og edindo pa a uma
“comunidade es a al” com múl iplas cul u as, a pe manência da isão de cul u a enquan o algo
homogéneo pe mi e oco ências como a “gue ização” em ez de queb a as ba ei as que as
sepa am. Algo que é alcançá el com o concei o de anscul u alidade.
39
Num mac o con ex o, Welsch coloca a anscul u alidade enquan o consequência da
“di e enciação in e na e complexidade das cul u as mode nas” (1999, p. 4). Ou seja, cul u as e
modos de ida são esul ado de uma elação cons an e en e si, e não ambien es isolados ou
pon os que con i em num espaço geog á ico es i o. Po es a em in e conec adas, as cul u as
a uais não se es ingem a on ei as nacionais. Elas mig am com os indi íduos c iando assim um
imaginá io mais ab angen e sob e os es ilos de ida possí eis, os quais podem se ans e sais a
á eas de in e esse, conhecimen o, e c. Nes a ese alamos de Hip-Hop po uguês e b asilei o,
sendo es es e mos quase uma con adição on ológica is o que o Hip-Hop se o iginou nos Es ados
Unidos, u o ele ambém de in luências á ias. Ou seja, se Hip-Hop osse algo exclusi amen e
no e-ame icano, como pode ia es e es udo e luga ? Como e emos adian e, o Hip-Hop é
anscul u al.
Ainda sob e o mac o con ex o da anscul u alidade, “as cul u as a uais ca ac e izam-se,
em ge al, pela hib idação” (Welsch, 1999, p. 5). Po exemplo, es e enómeno pode se analisado
a pa i de elemen os simbólicos nacionais que possuem in luência de ou as comunidades. Pense-
se no ecu so de melismas
1
no Fado, aço ca a e ís ico da música á abe, ou a o e p esença de
poli i mia
2
no Samba, amplamen e comum em música com o igem a icana. Podemos ainda
eco e a exemplos do dia-a-dia e assis i à hib idação cul u al quando um po uguês ê uma
no ela b asilei a, a inglesa almoça comida indiana, ou ancês que c esceu sendo in luenciado
pelo anime D agon Ball Z, e c., podem acilmen e se conside adas expe iências comuns no
imaginá io de in ei as comunidades nacionais. E a pa i des as expe iências nascem ou os
eben os híb idos.
Es a ideia de cul u a híb ida em luga ambém no mic o con ex o. Ou seja, indi íduos
podem abso e in luências cul u ais não pa ilhadas po um g ande g upo de pessoas. Is o sucede
po que, pa a mui os de nós,
as múl iplas ligações cul u ais são decisi as pa a a nossa o mação cul u al. Somos
híb idos cul u ais. Os esc i o es de hoje, po exemplo, sublinham que não são moldados
po uma única pá ia, mas po di e en es países de e e ência, pela li e a u a ussa,
alemã, sul e no e-ame icana ou japonesa. A sua o mação cul u al é anscul u al (pense-
1
Ex ensão de uma única sílaba em á ias no as.
2
Sob eposição ou combinação simul ânea de dois ou mais i mos di e en es.
40
se, po exemplo, em Naipaul ou Rushdie) - a das ge ações seguin es sê-lo-á ainda mais.
(Welsch, 1999, p. 5)
T anscul u alidade não ad oga uni o mização cul u al ou iden i á ia, e ai além dos
concei os de globalização e pa icula ização, cob indo ambos os seus aspe os na u almen e
(Welsch, 1999, p. 11). Is o acon ece po que o concei o assume que as cul u as num mundo
globalizado não são en idades echadas ou es á icas. A hib idização cul u al econhece a luidez
das iden idades cul u ais, azendo sen ido das no as ca a e ís icas azidas e le adas pelas
pessoas pa a os di e en es con ex os. A di e ença é econhecida a a és do diálogo e negociação,
dando luga a um no o modo de di e sidade
De ac o, a di e sidade, al como adicionalmen e se ap esen a sob a o ma de cul u as
únicas, es á a desapa ece cada ez mais. Em ez disso, po ém, oma o ma um no o
ipo de di e sidade: a di e sidade de di e en es cul u as e o mas de ida, cada uma delas
esul an e de pe meações anscul u ais. (Welsch, 1999, p. 9)
Pode a é pa ece uma desc ição ci cula pa a ca a e iza a anscul u alidade, mas a pa i do
momen o que acei amos a exis ência de elos en e cul u as, como pa e de si mesmas, a di e ença
o na-se menos uma “dispu a en e con eúdos opos os ou adições an agónicas de alo cul u al”,
e mais em “uma disposição de sabe es ou uma dis ibuição de p á icas que exis em umas ao lado
das ou as” (Bhabha, 1994, pp. 162-164).
Nes a pesquisa, emos endência em conco da com au o es que a am o concei o de
cul u a de uma o ma que nos pe mi e aplicá-lo às dinâmicas da anscul u alidade. Es es são
cinco a ibu os concei uais ele an es de “cul u a” pa a a nossa ese: Cul u a como p odução de
signi icado (S ua Hall); Cul u a como iden idade e di e ença (Edwa d Said); Cul u a como pode
e dominação (Michel Foucaul ); Cul u a como cons ução social da ealidade (Pe e L. Be ge e
Thomas Luckmann); e Cul u a como sis ema de comunicação (Ma shal McLuhan). Es a o dem
apenas ap esen a uma lógica sequencial e não uma o dem de impo ância. Não p e endemos
ampouco a i ma que os concei os são exclusi os ou undados pelos au o es mencionados. Assim,
i emos ago a pe ila es a equação de concei o de cul u a e como a si uamos no con ex o da
anscul u alidade.
1.4.1. Cul u a como p odução de signi icado
De ce o modo, já mencionamos S ua Hall e a sua eo ia da codi icação e descodi icação, onde

41
ele a gumen a que as mensagens cul u ais são in e p e adas de manei a di e en e pelos ece o es,
dependendo de seu con ex o cul u al. Es a ideia conec a-se, en e an o, à o ma como o au o
co elaciona cul u a e p odução de signi icado. Tal se mos a impo an e enquan o um alice ce
concei ual, pois pa ece-nos que é a a és da con e ência de signi icado às coisas, e a sua emissão-
eceção, que elas anga iam sen ido e se ans o mam.
Em
Cul u a e Rep esen ação
(2016), Hall nos chama a a enção pa a a cen alidade da
cul u a na ida dos humanos, pela sua in e ação com a iden idade indi idual e cole i a, mas
ambém pelas ep esen ações sociais c iadas pelo sen ido que damos às coisas que nos odeiam.
Uma conceção de cul u a assim não se equipa a àquela que busca engloba o que “de melho ”
oi p oduzido pela sociedade, “a al a cul u a de uma época” (Hall, 2016, p. 19). Não aze dis inção
en e “al a” e “baixa” cul u a é impo an e pa a nós, não só pelo pano de undo dos Es udos
Cul u ais, mas, ambém, po que não que emos associa o e mo “subcul u a” ao Hip-Hop.
Ques ão comum e a ada mais adian e.
Vol ando à cul u a enquan o p odução de signi icado, Hall (p. 21) explica p imei o que
“nós damos signi icados a obje os, pessoas e e en os po meio de pa adigmas de in e p e ação
que le amos a eles. Em pa e, damos sen ido às coisas pelo modo como as u ilizamos ou as
in eg amos em nossas p á icas co idianas.”. O signi icado é en ão a ibuído num momen o,
indi idual ou compa ilhado, na expe iência de incula ca a e ís icas e a ibu os ao que nos odeia.
Vis o que es a expe iência é subje i a, as ca a e ís icas e a ibu os que cada um de nós con e e às
coisas podem a ia . Não apenas de ido à subje i idade de cada um. A a iação acon ece ambém
en e os espec os da psique e da on ologia, is o é, os “obje os, pessoas e e en os” podem se
in e p e ados consoan e o seu alo ela i o pa a o sujei o, ou consoan e aspe os in ínsecos a eles
mesmos, igualmen e con e idos pelo sujei o. Des e modo, e como suge ido po Hall, o signi icado
é ealçado ambém na o ma como usamos e agimos es es elemen os “em nossas p á icas
co idianas”. Uma música pode e oca nos algia pa a uns e, pa a ou os, se sonoplas ia de
ele ado , mas nada impede que ela seja dedicada a alguém e ma que o início de uma elação.
nós concedemos sen ido às coisas pela manei a como as
ep esen amos
— as pala as
que usamos pa a nos e e i a elas, as his ó ias que na amos a seu espei o, as imagens
que delas c iamos, as imagens que associamos a elas, as manei as como as
classi icamos e concei uamos, en im, os alo es que nelas embu imos. (Hall, 2016, p.
21)
42
A ci ação acima não se limi a a comple a o pensamen o do au o como nos pa ece ele an e pelo
pon o e e en e à comunicação do signi icado. Essas “pala as que usamos” que Hall menciona
pe encem a um mecanismo impo an e pa a a p opagação do signi icado de qualque a e ac o
cul u al. É na linguagem que inse imos múl iplos o ma os de “signos e símbolos” num “sis ema
ep esen acional” que, ul imamen e, ansmi e os “pensamen os, ideias e sen imen os (…)
ep esen ados numa cul u a” (Hall, 2016, p. 18).
Po es a lógica, cul u a o na-se num concei o mais ab angen e do que p oduções
a ís icas e cien í icas de um conjun o de indi íduos, mas, acima de udo, o p óp io meio que
iabiliza a comunicação e con i ência desses indi íduos. Além disso, quaisque obje os,
acon ecimen os ou ações humanas p o idas de signi icado se o nam a e ac os cul u ais. Os
signi icados nunca são ixos, pois os a e ac os cul u ais habi am um “mapa concei ual” que cada
um de nós ca ega (Hall, 2016, p. 36). Somos capazes de comunica os signi icados des es
a e ac os po que “compa ilhamos p a icamen e os mesmos mapas concei uais” (p. 36). Dois
g upos de indi íduos podem não ac edi a no mesmo deus, ou e em hábi os alimen ícios
simila es, mas pa ilham semp e algo no seu leque de concei os. Quan o mais p óximos são esses
mapas concei uais, mais ácil se o na dize que se “pe ence à mesma cul u a”. Os mapas
concei uais, e os signi icados que a ibuímos aos obje os cul u ais, podem coincidi em á ios
con ex os, an o geog á icos (local, egional, nacional, e c.) quan o ideológicos, his ó icos, e c.
Po ém, a nossa posição pe an e a ep esen ação que a ibuímos ao a e ac o pode al e a -
se. Podemos muda de opinião sob e a al música que ou imos no ele ado , e que ago a é uma
dedica ó ia. No espaço social, o signi icado que a ibuímos às coisas es á semp e sujei o à
in e e ência de e cei os. No en an o, a nossa posição ambém em po encial de se con adi ó ia
ou múl ipla. Hall menciona o quad o
Las meninas
de Velásquez, acompanhando comen á ios de
Michel Foucaul , onde somos con idados a en ende o quão a iada pode se a posição do sujei o
na ep esen ação. Olhando pa a o quad o su ge a pe gun a, a inal, quem é o sujei o na pin u a
Las meninas
? Dependendo do “mapa concei ual” de cada um, podemos dize a in an a ou nós
mesmos, que somos colocados no luga do ei e ainha como se de um e lexo se a asse.
Pode íamos nos alonga sob e es as ques ões, mas pensamos que o impo an e é e e
cul u a como um meio em que os humanos ope am no espaço social, p oduzindo, compa indo e
discu indo signi icados dos a e ac os po eles p oduzidos (ma e iais ou ima e iais). Signi icado
esse alocado men almen e em mapas concei uais pa ilhados, os quais de êm ep esen ações que
43
u ilizamos pa a nos o ganiza , nos comunica a pa i da linguagem e pau a nossas ações e
compo amen os.
Cul u a enquan o p odução de signi icado, seguindo o pensamen o de S ua Hall, não
en a em a i o com o concei o de anscul u alidade que an e io men e p opusemos. Pelo
con á io, pois podemos a gumen a que é na pa ilha de signi icados que elos cul u ais são
o jados, c iando uma malha de elações in e dependen es. Ve emos, no capí ulo sob e o Hip-Hop,
que o b asilei o Gab iel o Pensado é um dos esponsá eis pelo mo imen o Rap po uguês e
ocado o inglês pelo seu p imei o idioma. Igno ando a i onia, podemos conside a es a
ans o mação como uma essigni icação de uma p á ica cul u al, onde aze Rap em po uguês
passou a equaciona no mapa concei ual dos seus p a ican es em Po ugal. Es a no a p odução
de signi icado oi compa ilhada, mas ambém anscul u al, que em nenhum momen o suge e
singula idade:
Es e oco em “signi icados compa ilhados” pode, algumas ezes, aze a cul u a soa
demasiado uni á ia e cogni i a. Po em, em oda cul u a há semp e uma g ande
di e sidade de signi icados a espei o de qualque ema e mais de uma manei a de
ep esen á-lo ou in e p e á-lo. (Hall, 2016, p. 20)
1.4.2. Cul u a como iden idade e di e ença
Da signi icado a uma p á ica, e en o, obje o, …, pode le a à cons ução de uma iden idade
cul u al. A ideia de iden idade cul u al es á no malmen e ligada a um conjun o de a ibu os,
alo es, simbologias, adições ou modos de ida de um g upo social especí ico, dis inguindo-se
de ou os. Ela se ia o mada po á ios elemen os que se podem con igu a como um idioma, uma
eligião, gas onomia, na a i as, p oduções a ís icas, en e mui os ou os aspe os, que
egula men e são ansmi idos en e ge ações e in luenciam a manei a como o g upo se enxe ga,
mas ambém como ele se elaciona com o mundo.
No en an o, S ua Hall dá en âse a uma iden idade cul u al semp e em mo imen o,
cons an emen e conec ada e e o mada a a és das di e enças que a in luenciam. O au o suge e
assim que o concei o seja semp e inculado a enómenos que pe u bam “o ca ác e ela i amen e
es abelecido”, comum a mui as cul u as, como é o caso da globalização, mode nidade e
mig ações pós-coloniais (Sil a e al., 2014). Tal p opõe iden idade como algo que eme ge da
di e sidade, do “jogo de modalidades especí icas de pode e são, assim, mais o p odu o da
44
ma cação da
di e ença
e da
exclusão
do que o signo de uma unidade idên ica, na u almen e
cons i uída, de uma “iden idade” em seu signi icado adicional (Sil a e al., 2014, pp. 109-110;
des aque nosso). Se, pa a a sua cons ução, as iden idades dialogam com a di e ença, en ão exis e
um a o de dis ingui o “Ou o”, a “ elação com aquilo que não é” (p. 110). No e-se que es es a os
não são necessa iamen e conscien es, nem necessa iamen e p o idos de uma ca ga nega i a.
São, no en an o, o mados cul u almen e a a és da in e ação e discu sos in e nos ou ex e nos ao
g upo social de que azemos pa e. Um desses g upos pode se uma nação, e uma cul u a nacional
é ambém um discu so, o qual “o ganiza an o nossas ações quan o a concepção que emos de
nós mesmos” (Hall, 2006, p. 50).
Deno a a di e ença en e dois ou mais g upos, assimila ou abandona no as
ca a e ís icas a eles, são enómenos possí eis apenas po exis i uma elação en e cul u a e
iden idade. Se a elação en e o “nós” e “eles” é baseada na di e ença, es á abe a a po a pa a
a c iação e pe pe uação de es e eó ipos e p econcei os (posi i os ou nega i os). Edwa d Said oi
no á el a mos a es a dinâmica quando cunhou o e mo “o ien alismo”.
O “o ien alismo” aduz-se no modo como o ociden e cons ói o o ien e enquan o “o
ou o”. T a a-se de um a o gene alizado de inclui cul u as e iden idades di e en es do modo
ociden al. Said (2003, p. 13) con ex ualiza ainda o o ien alismo como “ e í eis con li os
educionis as que ag upam as pessoas sob ub icas alsamen e uni icado as como ‘Amé ica’,
‘Ociden e’ ou ‘Islã’, in en ando iden idades cole i as pa a mul idões de indi íduos que na ealidade
são mui o di e en es uns dos ou os”. Po an o, o “o ien alismo” pode se conside ado um sis ema
de ep esen ação assen e na di e ença e iden idade. Ou seja, o “ou o” que é aquilo que “nós”
não somos. Nes e caso, Said apela pa a a descons ução des a e ique a, no malmen e
acompanhada de adje i ação he dada desde a Renascença (2003, p. 94), alinhada a um desp ezo
po ou as cul u as não-ociden ais.
Um dos a gumen os pa a al descons ução coincide com a p opos a da anscul u alidade
já po nós mencionada. Mesmo que a di e ença en e cul u as seja inegá el, Said p e ende com o
seu li o subs i ui as discussões an agónicas po uma c í ica humanís ica que mos e que “cada
campo indi idual es á ligado a odos os ou os, e que nada do que acon ece em nosso mundo se
dá isoladamen e e isen o de in luências ex e nas.” (2003, p. 11). Como já imos, é na
anscul u alidade que a di e ença é ealmen e con emplada e, jun amen e com a possibilidade de
múl iplas iden idades cul u ais, não se mos a impedi i a pa a um sis ema social que p omo a
51
quo idianas possuam di e en es g aus de p oximidade empo al e espacial, elas acon ecem no
“aqui” e “ago a” (Be ge & Luckmann, 1991, p.36). T a a-se de uma expe iência pa ilhada com
ou os, a qual oco e numa si uação “ ace a ace”, is o é, p o o ípico de in e ação social com
esquemas ipi icado es pelos quais os ou os são pe cebidos e " a ados”. À semelhança de
au o es como S ua Hall, Be ge e Luckmann ambém des acam a linguagem como sis ema que
ege as in e ações sociais (pp. 51-52).
Es a “ ealidade” social pe cebida é assim discu ida em duas pa es pelos au o es: obje i a
e subje i a. Temos di iculdade em acei a a sociedade como ealidade obje i a, onde o mundo
ins i ucional é pe cebido enquan o “ ac os his ó icos e obje i os, con on am-se com o indi íduo
como ac os inegá eis.” (Be ge & Luckmann, 1991, p. 78), mas en endemos que exis am
na a i as aliadas a mac oes u u as que “exis em como ealidade ex e na” onde “o indi íduo não
pode comp eendê-las po in ospeção” (p. 78), e que al possa se is o como ealidade obje i a.
Po ou as pala as, a ealidade obje i a é aquela que inclui, além do mundo na u al, o que oi
c iado pelo humano pa a e al signi icado. No en an o, a sua obje i idade pode pa adoxalmen e
se essigni icada ou con es ada. O conhecimen o, socialmen e obje i ado, “’p og ama’ os canais
a a és dos quais a ex e io ização p oduz um mundo obje i o. Obje i a es e mundo a a és da
linguagem e do apa elho cogni i o baseado na linguagem” (p. 84). É al obje i idade que sepa a
a nossa ealidade de uma mi ologia, sendo a ciência um passo pa a a emoção de ques ões como
“o sag ado” no nosso dia a dia. Seja es a cons ução social e icaz, ou seque eal, não es á aqui
em ques ão. Impo a-nos é econhece que a humanidade en a, seja a a és das leis da na u eza
ou de conceções assen es na ciência ou ins i uições, o na ce as “ ealidades” obje i as.
Mas a sociedade exis e an o enquan o uma ealidade obje i a quan o subje i a. Indi íduos
inse em-se no meio social a pa i de uma “ap eensão ou in e p e ação imedia a de um
acon ecimen o obje i o como exp imindo um signi icado” (Be ge & Luckmann, 1991, p. 149),
iniciando-se assim a subje i ação de e en os ou de ações de e cei os, ambém subje i as, que os
o ganiza in e namen e. Assim são c iadas opiniões, gos os e p edisposições pessoais pa a
a iados assun os e acon ecimen os. Todos nós possuímos p e e ências. Ab indo aqui um
pa ên esis, a í ulo de exemplo pessoal, não gos o de chá de camomila pois o seu chei o me
lemb a a p imei a ez que o chá me oi ap esen ado. Nesse dia inha no e anos e es a a enjoado.
A ação, supos amen e, obje i a da pessoa que me o e eceu o chá oi in e p e ada subje i amen e
po mim, ao pon o de ocupa ago a uma posição que de ine a minha opinião quan o ao obje o.
Cu iosa e pa adoxalmen e, não enho p oblema com nenhum ou o ipo de chá, o que apenas

52
suge e que a minha in e io ização subje i a da camomila es á, ainda, in lexi elmen e aliada a um
pon ual acon ecimen o com mais de duas décadas (uma ealidade). Fim do pa ên esis. Simples
p e e ências pessoais não se ão ão complexas ou ele an es quan o as conceções sociocul u ais
es abelecidas nas sociedades, mui as ezes palco de discussões, ensões, e c. É assim necessá ia
a exis ência de uma egulação da ealidade pa a assegu a “uma sociedade iá el” e o
desen ol imen o de “p ocedimen os de manu enção da ealidade pa a sal agua da uma ce a
sime ia en e a ealidade obje i a e subje i a” (pp. 166-167).
Achamos ainda ele an e assinala a exis ência de conceções subje i as da ealidade que
são, em alguns con ex os, p oje adas socialmen e enquan o cons uções obje i as. Po exemplo,
sendo Po ugal maio i a iamen e ca ólico, se um po uguês inclui a pala a “deus” numa ase, a
chance de se in e p e ado como se e e indo a Olo um é diminu a. A gumen a al coisa su ge de
uma cons ução subje i a da ealidade social po uguesa, mas al só p o a que in e p e ações não
só são subje i as como elacionadas a ci cuns âncias e con ex os. Além disso, pa a o emisso , a
exis ência de “deus” pode ou não se con es á el. Caso não o seja, ele es á a p oje a uma
ealidade subje i a como obje i a, uma ez que o p essupos o da exis ência de um “deus” não se
mos a abe o à discussão. Po ou o lado, e semp e dependen e da inicia i a dos en ol idos, al
in e ação social em po encial pa a ge a discussão sob e a ealidade subje i a comunicada como
obje i a.
O opos o des a dinâmica ambém acon ece. Is o é, uma cons ução obje i a da ealidade
se subje i amen e ques ionada. O que é o e aplanismo se não uma ealidade subje i amen e
cons uída que nega séculos de descobe as cien í icas na ísica, química, his ó ia, e c.?
As sociedades p ecisam assegu a a “manu enção da ealidade” não apenas
in e namen e. A ualmen e i emos num mundo cada ez mais in e conec ado e sujei o a
enómenos mig a ó ios e da globalização em ge al. Pe cebe as cul u as como sis emas de
comunicação nos ajuda á a en ende como as ealidades são discu idas.
1.4.6. Cul u a como sis ema de comunicação
Pa i do p incípio de cul u a enquan o sis ema de comunicação não se esume simplesmen e em
econhece que a “linguagem” e a “comunicação” se quali iquem como sis emas ou a e ac os
cul u ais. Po isso, a nossa in enção em usa es a concei ualização sus en a-se em que cada meio
de comunicação in luencia como o con eúdo po ele emi ido é in e p e ado. Além disso, a
53
ansmissão de con eúdo em sido expandida nas úl imas décadas, sendo que cul u a pode se
en endida po um as o sis ema de comunicação, e não apenas po aquilo que é disseminado.
Desdob emos o ema em suas pa es cons i uin es.
P imei amen e o na-se ele an e olha pa a os meios de comunicação como ex ensão dos
sen idos humanos, logo, deles mesmos. Ma shall McLuhan a gumen a que
pode-se dize que o su o de uma no a ecnologia, que es ende ou p olonga um ou mais
de nossos sen idos em sua ação ex e io no mundo social, p o oca, pelo seu p óp io
e ei o, um no o elacionamen o en e odos os nossos sen idos na cul u a pa icula assim
a e ada. (McLuhan, 1972, p. 60)
Po ou as pala as, os meios de comunicação são uma o ma de amplia nossos sen idos,
pe mi indo-nos expe imen a o mundo de no as manei as. Po exemplo, a imp ensa esc i a é uma
ex ensão do sen ido da isão, o que nos pe mi e pa ilha in o mações com pessoas que es ão
dis an es. Ou, nou o exemplo, a ele isão se equaciona como uma ex ensão ambém do sen ido
da audição, pe mi indo-nos e e ou i o mundo ao nosso edo de o ma simul ânea. Es es
sis emas de comunicação, como no caso da cul u a, nunca são neu os.
O meio de comunicação possui a capacidade de molda o pensamen o humano pois
in luencia a o ma como pe cebemos a mensagem. Daí a amosa ase de McLuhan, “o meio é a
mensagem” (2013, p. 10). Cada meio em as suas p óp ias consequências sociais e pessoais que
são independen es do con eúdo que ansmi em. Po exemplo, com a ele isão oi possí el inse i
publicidade audio isual, c iando a é um sis ema de alo ização económico median e núme o de
espec ado es (ho á io nob e), o nando-a um meio que habi ualmen e apela ao consumismo de
p odu os e se iços de uma o ma mais incisi a que, po exemplo, um jo nal ou e is a. Nou o
domínio, a ualmen e, conco damos que e cei os cole em os nossos dados e compo amen os na
in e ne , sendo que é comum se mos con on ados com uma publicidade de algo que
ecen emen e pesquisamos num mo o de busca. As consequências e oluem com os meios. Os
meios ambém “lu am” po espaço no quo idiano dos indi íduos. O impac o da ascensão de
de e minados meios pode explica a edução de popula idade de ou os, ou a o es como a
nos algia podem jus i ica o eg esso de meios como os discos de inis (Ribei o, 2016).
En ende cul u a como um as o sis ema de comunicação é, en ão, econhece a
exis ência de p á icas humanas nes es meios, mas ambém como eles a e am as elações sociais
e a o ganização da sociedade. Cada meio possui dinâmicas cul u ais p óp ias, e pe mi em
54
di e en es o mas de in e ação en e indi íduos. Daí os e mos coloquiais, mas ambém
académicos, de “cul u a ele isi a”, “cul u a da in e ne ”, po aí adian e. Es e en osamen o não
se mos a local.
McLuhan (1972) a gumen a como os meios de comunicação êm encolhido o mundo ao
pon o em que odas as pessoas se o nam pa e de uma única comunidade in e conec ada
imaginada ou, po suas pala as, uma "aldeia global". Is o signi ica que e en os, in o mações e
cul u as se êm espalhado e são pa ilhados apidamen e po odo o mundo, eliminando assim
dis âncias e c iando uma consciência global compa ilhada. A comp essão do espaço- empo
(Ha ey, 1989), em suma, a edução dos limi es espaciais e empo ais pelos meios de
comunicação e anspo e, se mos a como um a gumen o conciliado de cul u a enquan o
sis ema de comunicação com a ideia de anscul u alidade. Se es amos numa “aldeia global”, a
ele isão, a in e ne e ou os meios de comunicação se mos am como e amen as que pe mi em
essa oca cul u al con ínua e a o mação de iden idades cul u ais que são mais luidas e menos
a adas a localizações geog á icas especí icas. Assim, as cul u as ambém “ iajam” e se ans e em
en e e i ó ios num con ex o anscul u al. A hipe mobilidade ambém amplia es as al e ações à
p óp ia memó ia cul u al (Ma os, 2012), sendo que os es udos dos p ocessos cul u ais a uais
podem se analisados à luz da necessidade de u iliza no os enquad amen os eó icos e
me odológicos, assen es nos eixos da memó ia e mobilidade, que acompanhem essas mesmas
al e ações:
Ao concen a mo-nos na dimensão anscul u al da mobilidade den o dos es udos de
memó ia, econhecemos que o mo imen o no empo e no espaço bem como a
mul iplicidade de mundi idências e sua ep esen ação em di e sas a es e media moldam
a memó ia cul u al, ao mesmo empo que são moldados pela mesma. (Ma os & Paisana,
2023, pp. 8-9)
Cul u a se ap esen a como um concei o plu al, no en an o, pensamos que as dimensões
que ap esen amos nes e capí ulo são su icien es pa a inicia mos uma discussão que le e em con a
a sua complexidade, mas ambém pa a que se adeque às emá icas que abo da emos daqui em
dian e. Abaixo ilus amos o alinhamen o de concei os con emplados.
55
Em suma, a sequência dos concei os de cul u a acima p opos a e le e uma p og essão (não
exclusi a) de concei os que nos le a, do âmago da p odução de signi icado e pode cul u al a é a
es e a mais ampla da comunicação anscul u al, p opo cionando uma comp eensão ab angen e
da anscul u alidade em suas á ias dimensões in e conec adas. A escolha do losango na
ep esen ação não é alea ó ia, is o que qualque concei o pode se cen alizado e ainda con inua
em con a o com os es an es.
1.5. Glossá io de concei os
In e disciplina idade - p ocesso colabo a i o que p ima pela in e ação disciplina e que en ol e
a explicação conjun a de enómenos ou obje os complexos.
Figu a 1: Concei os de cul u a na anscul u alidade
56
T ansdisciplina idade – p ocesso colabo a i o que além de anscende pa adigmas
disciplina es, possui abo dagens de inclusão de uma pe spe i a o gânica e ex e na ao mé odo
cien í ico.
T anscul u alidade – in e seção e supe ação da oposição en e cul u as, des acando o elo en e
elas como pa es de si mesmas. Al e na i a pa a o concei o de cul u a enquan o co po imu á el e
isolado.
Cul u a – p á icas, p oduções e mundi idências humanas que p oduzem signi icado, iden idade
e di e ença em dinâmicas polí icas, económicas e sociais de pode e dominação en e g upos de
indi íduos, con ibuindo pa a a sua cons ução subje i a e obje i a da ealidade, as quais são
di undidas a a és de sis emas de comunicação.

57
2. Ne noRe a o: Redes e mónadas em pe spe i a
“Ve so mínimo, lí ico de um uni e so oní ico
Cada maloquei o em um sabe empí ico
Rap é o e, pode c ê , oui, monsieu
Pe enoud, Piage , Sabo á, enchan é!”
C iolo – Esqui a da esg ima, 2014
Es e capí ulo possui dois p opósi os. P imei o, con inua o enquad amen o iniciado no capí ulo
an e io , adicionando no os con ex os, a ian es disciplina es e concei uais da pesquisa. Em
segundo, inicia uma p opos a de uma e amen a me odológica pa a análise de obje os cul u ais
complexos na in e ne , assen e nos enquad amen os ealizados.
O capí ulo an e io localizou es a pesquisa no pano de undo dos Es udos Cul u ais. Lá
ambém discu imos os concei os de cul u a e anscul u alidade. Es es passos o am impo an es
po se i em de base na análise de ce as dinâmicas ligadas ao Hip-Hop, sob e as quais ala emos
mais a de. No en an o, i emos u iliza dados de in e ne no nosso es udo, e al nos le a a
enquad a ou as ecnologias, eo ias e mé odos. Assim, a emos uma b e e in odução sob e os
desen ol imen os da in e ne , seguido da nossa p opos a de e amen a me odológica.
2.1. A sociedade na in e ne e a in e ne social
Mui os de nós ainda nos e e imos a pla a o mas digi ais e à in e ne coloquialmen e como “no as
ecnologias”, mas al ca a e ização é algo obsole a. A in luência da in e ne na ida social é inegá el
há décadas pa a ainda se conside ada “no a”. O e mo pa ece pe ence a uma e a en e a
popula ização da in e ne e meios de comunicação in e a i os como o CD-ROM e o início dos si es
de edes sociais. A ualmen e não nos encon amos no mesmo es ágio. Is o le a-nos a aze um
pequeno pa ên esis sob e ecnologia e uma b e e con ex ualização das di e en es ases da
in e ne .
2.1.1. Tecnologia como cul u a
Não es amos aqui a in oduzi mais uma ace a concei ual de cul u a, mas apenas a si ua a
ecnologia como um sis ema cul u al. Em 2017 de inimos ecnologia como “ odo e qualque
obje o/ins umen o concebido pa a algum im, a a és de p ocedimen os e ecu sos écnicos”,
58
independen emen e de onde se si ua no espec o empo al, e “não exclusi a da espécie humana”
(G a a o, 2017, p. 13). Mesmo se a ando de uma b e e passagem em uma disse ação de
mes ado em comunicação, es a de inição mos a-se incomple a.
A ques ão empo al e a não-exclusi idade humana ainda nos pa ecem pon os ace ados.
Tecnologias podem se da adas ou a empo ais, mesmo que passem po ino ações ou
econ ex ualizações, mas não deixam de se ecnologia. Po ou as pala as, “ ecnologia” não
sinonimiza “ ecen e” ou “no o”. Já sob e o segundo pon o, uma ecnologia pode se desen ol ida
po ou os se es i os além dos humanos. Po exemplo, uma pesquisa iniciada em 2004 em
e elando que macacos-p ego não só eco iam a ochas pa a “ab i semen es e nozes, ca a o
solo, p ocessa u as”, mas ambém ajus a am es as e amen as de aco do com as suas
necessidades, onde “só eco iam a pequenas ped as como e amen as auxilia es na ho a de se
alimen a ” mas “passa am a p e e i ochas maio es — ideais, po exemplo, pa a ab i cas anhas
de casca du a” (Vilicic & B i o, 2019).
Fal ou, à de inição an e io , adiciona uma componen e cul u al à ecnologia. Hoje ela é
indissociá el de ques ões é icas, socioeconómicas e polí icas (Wa son, 2016, p. 29). Do escândalo
que en ol eu a Camb idge Analy ica e Facebook, ao sinal de GPS, aos sis emas es a ais de saúde
pública, ou a uma “simples” u ilização da oda nos au omó eis, ecnologias es ão p esen es em
inúme as p á icas cul u ais e sociais humanas. Mesmo quando alamos sob e de e minados
assun os nas nossas p o issões, escolas ou quo idiano, e ocamos elemen os da ecnologia
ine en es a essas ações ou compo amen os. Esse conjun o de elemen os são p essupos os e
associados aos nossos modos de ida, azendo assim pa e da nossa cul u a. Is o é, humanos
assumem que a é as p á icas mais i iais do quo idiano são ealizadas a a és de a e ac os ou
p ocessos insepa á eis de ecnologia. P ecisamos assim olha “pa a além das e amen as e dos
a e ac os em si” e assumi que “a ecnologia engloba ambém os sis emas socio écnicos que
desen ol em e c iam essas ecnologias, bem como aqueles que as u ilizam.” (p. 17).
Po isso, e o mulando a an e io de inição, emos ecnologia como o conjun o de
sis emas, a e ac os e con igu ações c iado po se es humanos, e ou as espécies, pa a a ingi
obje i os especí icos em qualque sec o de suas idas, inco po ando-se assim no ecido das
in e ações sociocul u ais e podendo e le i alo es é icos e mo ais. No caso da in e ne , as
ecnologias associadas o am ans o mando as suas lógicas de desen ol imen o, mas ambém a
expandindo pa a além de uma e amen a.
59
2.1.2. Os p incipais es ágios da in e ne
A in e ne , an o enquan o ecnologia quan o um palco digi al de sociabilidade humana, es á em
cons an e ans o mação. A seguin e e b e e desc ição dos p incipais es ágios da in e ne não
p ocu a explica uma c onologia his ó ica, mas sim iden i ica as p incipais mudanças de
pa adigmas a ela associadas. Na e dade, a di isão das di e en es i e ações da in e ne é uma
con enção algo in o mal en e p o issionais e académicos, p incipalmen e as mais ecen es.
A Web
3
1.0, ambém conhecida como web es á ica, é ca a e izada po con eúdo disponí el
apenas pa a lei u a. Nes a p imei a ge ação, ap oximadamen e en e o inal dos anos 1980 e
2004, o con eúdo e a c iado po um núme o limi ado de p odu o es e consumido po mui os
u ilizado es, em websi es com páginas HTML es á icas, com pouca in e a i idade e na egação
linea . Sal o pequenas exceções, a comunicação e a unidi ecional.
A Web 2.0, além de o e ece a possibilidade de lei u a, cen ou os seus u ilizado es ao
lhes p opo ciona o mas de c iação de con eúdo. Es a segunda ge ação es abelece-se
sensi elmen e en e 2004 e 2010, sendo o seu e mo popula izado po Dale Doughe y e Tim
O'Reilly. Exis em mui os nomes pa a cada i e ação da web. A 2.0 oi, en e ou as nomencla u as,
apelidada de “Web do conhecimen o, Web cen ada nas pessoas, Web pa icipa i a e Web de
lei u a e esc i a” (Aghaei e al., 2012, p. 3). P e e imos chamá-la de Web social dada a cen alidade
das elações en e indi íduos e os seus con eúdos. Lemb e-se que a comunicação unidi ecional
da Web 1.0 não desapa ece, aliás, ainda nos dias de hoje a podemos iden i ica po meio de
websi es ins i ucionais, en e ou os. No en an o, é nes a al u a que su gem pla a o mas como
blogues, wikis e si es de edes sociais. Es es não só pe mi em que o con eúdo ge ado pelo
u ilizado seja cen al, como pe mi e que eles se elacionem à dis ância e em empo eal. A
mudança de pa adigma ambém habili a a o mação de comunidades online. A in e ação en e
pe is ica semp e dependen e dos p óp ios u ilizado es, po ém, exis em o mas de publicamen e
ilus a essas comunidades. A í ulo de exemplo, na “época de ou o” do Myspace, um si e que
une a ideia de ede social a uma pla a o ma de música, u ilizado es podiam exibi os seus con a os
a o i os numa g elha em seus pe is. No You ube, u ilizado es podem c ia con eúdo audio isual
3
Ab e iação pa a Wo ld Wide Web, um sis ema de in o mação onde documen os e ou os ecu sos da web são
iden i icados po URLs (Uni o m Resou ce Loca o s). Se a in e ne é a es u u a, a web é um se iço sob e essa
es u u a.
60
e ecebe subsc i os, o que le a à o mação de uma comunidade in e essada naquele canal. No
Facebook exis em páginas e g upos emá icos. A lis a é ex ensa.
A Web 3.0 é conside ada a Web semân ica. Se na an e io o u ilizado es a a cen alizado,
a lógica des a i e ação passa po o na o sis ema Web mais in eligen e, dando ainda p imazia à
in e ligação de dados em al e na i a a simples documen os. O e mo oi suge ido em 2006 po
um jo nalis a do New Yo k Times, John Ma ko (Aghaei e al., 2012), mas podemos conside a o
seu início ap oximadamen e em 2010. Embo a não seja unânime, julga-se que ainda nos
encon amos na Web 3.0, a qual ainda se ans o ma, mas já com elemen os da 4.0 e em
ansição. De g osso modo, en endemos a sua p esença quando nos depa amos com anúncios
pe sonalizados, in eg ação de in eligência a i icial (IA) e ap endizado de máquina, ecnologias
como blockchain
4
, in e ne das coisas (IoT), e c.
O p incipal obje i o da Web semân ica é impulsiona a e olução da Web a ual pe mi indo
aos u ilizado es encon a , pa ilha e combina in o mação mais acilmen e. A Web semân ica, al
como oi o iginalmen e concebida, é um sis ema que pe mi e às máquinas comp eende e
esponde a pedidos humanos complexos com base no seu signi icado. Essa comp eensão exige
que as on es de in o mação ele an es sejam es u u adas seman icamen e (Khanzode & Sa ode,
2016, p. 5).
A p óxima Web, a 4.0, já se az no a , mas ainda é um concei o em desen ol imen o e
não é amplamen e econhecida ou de inida. Po ezes discu ida como a "web simbió ica",
suge indo uma in eg ação mais p o unda en e a IA e os se es humanos, onde a in e ne se á
onip esen e e capaz de conec a -se com os disposi i os IoT em uma escala mui o mais ampla,
possi elmen e en ol endo e execu ando em maio escala concei os como o de ealidade
aumen ada e ealidade i ual. Espe a-se que a Web 4.0 se o ne mais um “sis ema ope a i o”
(Khanzode & Sa ode, 2016) do que uma e amen a ou ambien e digi ais. Ocasionalmen e su gem
ainda discussões concei uais das Web 5.0 e 6.0, mas ais não nos pa ecem ele an es abo da .
2.1.3. A Comunicação Agenciada po Compu ação na sociedade em ede, da
igilância e algo í mica
Um impo an e passo pa a en ende a elação en e as ecnologias associadas ao mundo online e
4
Uma ecnologia de egis o dis ibuído que ga an e segu ança, anspa ência e imu abilidade ao a mazena dados em
blocos in e ligados e c ip og a icamen e segu os.
67
Embo a na sociedade dos algo i mos, es es úl imos, p ecisem de manu enção humana,
nem que al se esuma em man e a disponibilidade da ele icidade, i emos numa e a de ele ada
es u u ação de dados onde eno mes quan idades de inpu s podem se p ocessadas e
o ganizadas. A In eligência A i icial (IA) é um campo da ciência da compu ação dedicado a c ia
sis emas capazes de ealiza a e as que, a é en ão, eque iam in eligência humana. Es as a e as
incluem aciocínio, ap endizagem, pe ceção isual, comp eensão e ge ação de linguagem na u al
ou omada de decisões. A implemen ação de algo i mos com aculdades IA pode se mui o alioso,
mas a sua aje ó ia na his ó ia ecen e ambém le an a a ques ão de “quem i á se bene icia ”
deles? (Bu ell & Fou cade, 2021, p. 230) Bu ell e Fou cade alam de “sociedade algo í mica”
ope ando na “sociedade dos algo i mos”, is o é, os in e esses e es u u as de uma eli e no con olo
da ecnologia explo ando o espaço online, ago a
algo i mi icado
.
Pa a além do u u ismo e do hype, a IA a ual é, na e dade, bas an e mundana. É
concebida pela eli e da codi icação, sus en ada pelo cybe a ia o, alimen ada po dados
pessoais ex aídos po (p incipalmen e) g andes emp esas digi ais, equen emen e
o imizada pa a maximiza o luc o, e apoiada po um conjun o con ingen e de ins i uições
legais que au o izam (no momen o em que esc e o) luxos con ínuos de dados pa a
se ido es emp esa iais e es a ais. Tal como as ino ações de con olo an e io es, a IA
igia, classi ica, analisa, eúne e au oma iza. Bu ell & Fou cade, 2021, p. 231
Pode pa ece que es amos a es igma iza as ecnologias en ol idas, quando na e dade
apenas es amos a des aca a exis ência de o ças de pode no “consumismo da igilância” de
Zubo na a ualidade. Is o pa a pode mos a i ma no amen e – não exis e neu alidade na ede. A
ideia é salien a , como em
Lógica da In o mação
de Luciano Flo idi (2019), que os algo i mos
es ão a molda a o ma como nos comunicamos, a o ma como omamos decisões e a o ma
como nos elacionamos com o mundo. Desde a p i acidade, passando pela jus iça e
anspa ência, a humanidade es á pe an e uma sé ie de desa ios é icos que eme gi am com o
ad en o dos algo i mos nes a sociedade em ede, p incipalmen e aqueles aliados à
come cialização de dados.
Depois des a con ex ualização de sociedade em ede, igiada e algo í mica, pa imos pa a
a in odução da nossa e amen a me odológica pa a analisa obje os cul u ais complexos na
in e ne .

68
2.2. Ne noRe a os
De inição
1. Pon o de si uação sob e um con ex o ( ans)cul u al digi al. 2. Elabo ado a pa i de uma lógica
de análise pe spe i is a que une a ne nog a ia à a aliação de dados es u u ados de in e ne . 3.
Le ando em con a uma au oc í ica pe an e os enómenos da pla a o mização, da pa cialidade do
código e da p odução de conhecimen o si uado.
A de inição compos a acima esume o esul ado de u iliza a e amen a me odológica que
p opomos, is o é, a p odução de um Ne noRe a o. Espe amos, ao longo des e e do p óximo
capí ulo, elucida sob e o enquad amen o eó ico e me odológico de uma e amen a que pe mi e,
a a és da ansdisciplina idade, analisa qualque obje o ( ans)cul u al complexo na in e ne . Po
obje o complexo que emos aludi a um conglome ado mul i ace ado de componen es ou
en idades, que se en elaçam de manei a in incada, o mando uma es u u a ou sis ema cuja
comp eensão in eg al demanda uma in es igação me iculosa e um en endimen o p o undo dos
inúme os subsis emas e a iá eis in e dependen es que o cons i uem. Assim, um Ne noRe a o
semp e e ela á mais de uma dimensão do obje o analisado. A ideia de anscul u alidade já oi
mencionada an e io men e, sendo que quando mencionamos “obje o cul u al” es amos ambém
a aze e e ência à con luência e ul apassagem das di e gências in e cul u ais. Assim, um
Ne noRe a o semp e assumi á a exis ência de uma p odução humana anscul u al na in e ne .
I emos ago a abo da odo o con ex o e enquad amen o do Ne noRe a o pela o dem de sua
de inição acima.
2.2.1. Ne noRe a o – Pon o de si uação con ex ual na in e ne
Fala de um Ne noRe a o enquan o um pon o de si uação sob e um con ex o na in e ne , mos a-
se a o ma mais simples e ápida de ansmi i o ce ne do que ele ep esen a. Embo a possamos
simpli icá-lo ao sinonimiza com o e mo “diagnós ico”, a nossa decisão em o conside a um
pon o
de si uação
é dual. O p imei o mo i o ap oxima-se da epis emologia, o segundo da lógica
comunicacional na in e ne . Is o, po que pa i mos do p incípio de que um Ne noRe a o é da ado
enquan o p odução cien í ica e enquan o con ex o digi al que en a cap u a .
Cien i icamen e, um Ne noRe a o não escapa à empo alidade do que p oduziu. Ele é um
pon o de si uação cien í ico pois aglome a um leque de concei os, eo ias e mé odos que pode se
69
iden i icado empo almen e. As ciências são con ex uais, e não acumula i as, sendo que a sua
maio pa e se desen ol e “pela con ínua compe ição en e di e sas concepções de na u eza
dis in as”, onde conclusões e esul ados ão depondo an e io es (Kuhn, 1998, p. 23). Além disso,
o a o de desconside a eo ias obsole as não as o na acien í icas, caso con á io se ia possí el
p oduzi mi os a a és dos mesmos “mé odos e man idos pelas mesmas azões que hoje
conduzem ao conhecimen o cien í ico” (p. 21). Po an o, ciências se o nam um e lexo do con ex o
social e his ó ico em quem são p oduzidas, es abelecendo um ma co empo al do conhecimen o,
ou, um pon o de si uação. Mesmo que a p odução de conhecimen o le e a uma p edição, al e á
de se semp e açada no passado ace ao que p e ê, e nunca pode á se sepa ada do seu
con ex o.
Já no que diz espei o à lógica comunicacional da in e ne , um Ne noRe a o se mos a
uma ep esen ação – aqui no sen ido de e a o – con ex ual da in e ação humana digi al e a sua
p odução de con eúdo. Au o es como Raquel Recue o êm adap ado as ideias de E ing Go man
sob e a in e ação humana pa a aça pa alelos com as lógicas da con e sação online. Go man
(1967) explica como as pessoas man êm a " ace" - um concei o que ele usa pa a desc e e a
imagem que um indi íduo ap esen a de si mesmo em in e ações sociais. O au o analisa como as
pessoas u ilizam di e sas es a égias pa a e i a cons angimen os, sal a a p óp ia ace ou a dos
ou os, e man e a o dem social du an e in e ações quo idianas. O au o a gumen a que esses
i uais de in e ação são undamen ais pa a a o dem social, se indo pa a es abelece e man e as
no mas sociais. Na sua es u u a, a in e ação social se ia assim egida po uma sé ie de a os
pe o ma i os, onde as pessoas es ão cons an emen e a negocia as suas iden idades e elações
com os ou os. Nes a linha de aciocínio, Recue o (2014) essal a que os u ilizado es se depa am
com uma
si uação de in e ação
quando p e endem in e i no espaço online. Is o é, o u ilizado
p ecisa le o con ex o da in e ação social pa a en ende o que es á em causa na con e sação:
Um dos elemen os undamen ais pa a comp eende aquilo que é di o nas con e sações
no cibe espaço é o con ex o. Todo a o en ol ido em uma con e sação p ecisa se capaz
de negocia , cons ui e ecupe a o con ex o, que ai o ma o pano de undo sob e o
qual as con e sações acon ecem. Sem esse con ex o, é impossí el comp eende oda a
dimensão da con e sação no cibe espaço. (Recue o, 2014, p. 95)
Os con ex os a iam en e mic o e mac o. Mic ocon ex o acon ece quando a in e ação social online
segue uma lógica e assun os p opos os po um ou mais u ilizado es inicialmen e. O mac ocon ex o
az e e ência a ópicos e con e sas mais amplas e eque uma “sensibilidade que necessi a se
70
desen ol ida pelos in e agen es, seja a a és da expe iência, seja a a és da cons ução de
backg ounds cole i os e cul u almen e compa ilhados pelos a o es” (Recue o, 2014, p. 101).
Como di e en es con e sações são possí eis em simul âneo numa só pla a o ma online, os
mic ocon ex os e mac ocon ex os podem exis i sinc onicamen e. Imagine-se um cha du an e um
e en o ao i o, onde u ilizado es podem in e agi en e si sem que seja necessá ia a inclusão de
odos os p esen es, ou a é mesmo a conside ação do ópico cen al do e en o:
Nes a pequena simulação emos o u ilizado a la anja a es abelece um con ex o de in e ação.
Quando depa ado com a si uação de in e ação, o u ilizado a p e o esponde di e amen e e
man em-se no con ex o es abelecido (mic ocon ex o). O u ilizado a azul sai do ópico da
ansmissão ao i o e do con ex o es abelecido e inicia um no o mic ocon ex o. Mesmo após a
in e ação do u ilizado a e de, o u ilizado a e melho decide esga a o con ex o an e io , ol ando
a menciona o conce o e o mac ocon ex o da ansmissão ao i o.
O Ne noRe a o é a en a i a de eco a um de e minado con ex o sob e um assun o,
c iando um pon o de si uação das in e ações e con ibuições dos u ilizado es. Com o in ui o de
simpli ica a exempli icação, se o cha acima ep esen asse a o alidade da con e sação sob e o
e en o, o Ne noRe a o pode ia inclui apenas o (mac o)con ex o emá ico da ansmissão ao i o,
os (mic o)con ex os pa alelos, ou a junção de odos os con ex os na sala de con e sação. O pon o
Figu a 2: Simulação de um cha du an e um e en o musical ansmi ido ao i o.
71
de si uação que o Ne noRe a o i á es abelece depende das in enções do in es igado , do que ele
p e ende diagnos ica , ou do obje i o da análise.
Po im, p ecisamos de de ini a es u u a básica de qualque “con ex o digi al”. Po ou as
pala as, o que pode se cap ado po um Ne noRe a o. P imei amen e, cla o, o obje o p ecisa
exis i no espaço online. Em segundo, o con eúdo desse obje o pode se compos o po
con ibuições an o de humanos quan o de máquinas. E is o le a-nos a ala de pe is e me adados.
Pe is são impo an es pa a a locomoção dos indi íduos no espaço digi al. O senso comum
nos diz que eles são a “ ace” e o mecanismo que lhes pe mi e a pa icipação na ede. Ou que
eles podem se aglome a e o ma comunidades. No en an o, eles podem ambém ep esen a
comunidades, um casal, um animal, um obje o, obôs, e c. Po an o, não necessa iamen e
um
indi íduo
. A lis a é longa o nando a o ma e unção de um pe il algo múl iplo. Con udo, pe is são
esul ado de ecnologias associadas à Web 2.0, especialmen e do su gimen o de si es de edes
sociais, os quais possibili am a c iação de con as i uais em suas pla a o mas. E po que es es
es abelecem elações en e si, pelas quais se locomo em e exis em, “quan o mais se quise
iden i ica um a o , mais se em de aciona a sua ede de a o es.” (La ou e al., 2012, p. 592). O
a gumen o aqui pa e da eo ia a o - ede de B uno La ou po concei ualmen e ni ela os
in eg an es de uma ede desde uma eo ia social que segue uma lógica de associações. Is o é,
assumindo um pe il como algo mais amplo que a ep esen ação de um indi íduo, mas sim algo
indissociá el da sua ede, onde ansi ando "do a o pa a a ede e ice- e sa, não es amos a muda
de ní el, mas simplesmen e a pa a momen aneamen e num pon o, o a o , an es de passa mos
aos a ibu os que os de inem” (2012, p. 593). O pe il (a o - ede) mos a-se, en ão, ambém
compos o pela es u u a que o sus en a. Is o acon ece po que os obje os ambém pa icipam do
cu so da ação (La ou , 2012). Assim, podemos conside a os as os digi ais de um pe il, os quais
podem se isolados a a és da lei u a de me adados, como pa e in eg an e de sua ede, e de si
mesmo. Me adados são, em suma, dados sob e dados. T a a-se de um e mo usado pa a
desc e e dados que o necem in o mações sob e ou os, como uma "e ique a" ou "desc ição"
que explica as ca a e ís icas, o con eúdo, a qualidade, a condição ou ou os a ibu os de um
conjun o de dados. Po exemplo, em uma o og a ia, os me adados podem inclui in o mações
sob e a câma a u ilizada, a da a e ho a, a localização, en e ou os de alhes écnicos. Um pe il
não pode exis i ou a ua sem eles. Consequen emen e, qualque pon o de si uação de um
con ex o digi al (Ne noRe a o) es a á eple o de me adados.
72
Independen emen e das en idades que ep esen em, assumimos que odos os pe is es ão
conec ados a humanos, mesmo aqueles que au oma icamen e ope am a a és de algo i mos
( obôs). No en an o, es es úl imos possuem pa icula idades que os dis inguem en e si. Como os
humanos, eles podem agi nos si es de edes sociais, enquan o espaço de ganho e pe da de
capi al social. O capi al social a ia segundo a ap op iação de ce os alo es a iá eis como
isibilidade, epu ação, popula idade e au o idade (Recue o, 2009). Es es elacionam-se em
alguma medida e cons i uem, como epa a Recue o, pa e in eg an e das dinâmicas de cons ução
de comunidades online. Ap o ei amos es e pa ên ese pa a di e encia os ipos de pe is não
o gânicos, is o é, qualque que enha “sido c iado pa a ep esen a uma (ou a) pessoa, g upo de
pessoas, o ganização, ma ca, ins i uição, e c.” (G a a o & Denicoli, 2021, pp. 58-59), usando aqui
o gânico no sen ido “pa a uso p óp io” e “pa a ep esen a o indi íduo que o c iou”:
• Pe is obôs – Comummen e apelidados de “bo s”, a am-se de pe is ope ados po
máquinas, pa icipando na in e ne de o ma au oma izada.
• Pe is alsos – Também conhecidos po “pe is akes”, se locomo em no espaço
online omi indo pa cial ou o almen e a sua iden idade, ou assumindo ou a.
• Pe is adep os (p. 59) – Não necessa iamen e obôs ou alsos, podem assumi uma
iden idade eal no mundo o line, po ém, u ilizam os seus pe is pa a ins especí icos.
Es es pe is ocam suas ações da di usão de de e minadas agendas ou ópicos. Po
exemplo, um cabo elei o al, um g upo de ãs de um a is a, e c.
• Pe is de in e e ência (p. 59) – Como os adep os, podem assumi iden idades do
“mundo eal”, no en an o, es ão “aliados exclusi amen e à a e a de in e e i na
opinião pública”.
Enquan o o que denuncia os pe is obôs e alsos não o gânicos é a o ma como se
ap esen am, nos pe is adep os e de in e e ência são as agendas e o modo de uso dos mesmos
pa a cap ação de capi al social. O uso não o gânico de um pe il não pa en eia se a in enção é
au oma icamen e nega i a ou posi i a po pa e do indi íduo que o c iou. Pe is não o gânicos
ambém podem se compos os po mais do que uma das ca ego ias acima ci adas, na e dade,
podem con e odas elas. Imagine-se um pe il ope ado po um algo i mo ( obô) com uma imagem
de pe il de Jai Bolsona o ( also), con igu ado pa a pa ilha no ícias a o á eis ao Pa ido Libe al
no B asil (adep o), mas ambém dissemina qualque con eúdo des an ajoso pa a a imagem do
Pa ido dos T abalhado es (in e e ência).

73
Uma ez que um Ne noRe a o assume qualque pe il a pa i da eo ia a o - ede, os pe is
não o gânicos não são desca ados da análise. Pe is obôs, po exemplo, podem se ele an es
pa a mos a es a égias de disseminação de in o mação. Bo s são pa icula men e a i os no início
da p opagação de um con eúdo, an es que ele se o ne i al, po ezes mi ando em u ilizado es
in luen es (Shao e al., 2018). Os bo s ampli icam o alcance do con eúdo de baixa c edibilidade a
um pon o que se o na es a is icamen e indis inguí el do de a igos de e i icação de a os,
demons ando sua e icácia na manipulação das edes sociais (2018, p. 5). Ago a num lado mais
posi i o da ecnologia, bo s podem a ua de o ma bené ica pa a os humanos. Po exemplo, o
p oje o Code o Hope é um “sis ema espanhol de p e enção de suicídios” que iden i ica “pad ões
de sen imen os dep essi os em wee s” pa a pos e io men e “aciona se o es esponsá eis da
saúde pública” (Capoano & Essen elde , 2023). Assim, os bo s, enquan o a o es não-humanos,
êm um impac o signi ica i o na ampliação das mensagens e na apidez com que elas alcançam
as pessoas, o nando-se a o es cen ais nessas edes.
2.2.2. Ne noRe a o - Análise pe spe i is a de edes sociais
No que diz espei o ao enquad amen o e abo dagem eó ica e me odológica, o pe spe i ismo se
des aca como um dos dois aspe os mais signi ica i os do Ne noRe a o. A escolha do e mo
“ e a o” não só de i a de ele c ia o pon o de si uação, um eco e, um diagnós ico, mas ambém
po ep esen a um pon o de is a, uma ez que odo o e a o de algo possui um. Nes e pon o
i emos si ua o pe spe i ismo de Edua do Vi ei os de Cas o e in eg a a sua p emissa com
algumas das ideias já mencionadas, como a eo ia a o - ede de La ou , en e ou as que
bene iciam da simbiose.
2.2.2.1. Pe spe i ismo Abiayalense
O pe spe i ismo ame índio de Edua do Vi ei os de Cas o su giu como espos a a um complexo
conjun o de ques ões académicas, cul u ais e polí icas, buscando desa ia as noções ociden ais
p edominan es e p opo ciona uma comp eensão mais p o unda e espei osa das cosmo isões
indígenas. Apesa de Vi ei os de Cas o u iliza o e mo compos o “pe spe i ismo ame índio”,
i emos u iliza “pe spe i ismo Abiayalense” po melho ep esen a essas mesmas cosmo isões
indígenas. Abiayala
7
e e e-se à o alidade do con inen e ame icano, sendo o nome dado pelos
7
Abya Yala ou Abyayala.
74
Guna, nação indígena da egião Guna Yala, o malmen e conhecida po San Blas, no Panamá
(Keme, 2018). Segundo os Guna, Abiayala signi ica “ e a sal a” e é nome dado à qua a ase da
“ e a-mãe”, sendo que cada e apa ambém possui um nome especí ico (Gwalagunyala,
Daga gunyala, Yaladinguayala) (Wagua, 2011). Es á aqui em causa não e o ça a a ibuição de
um nome dado po eu opeus (Amé ica), e simplesmen e u iliza aquele dado pelos na i os do
con inen e em ques ão. É no amen e assumi que as pala as possuem peso e supo am a
de e minação de iden idades, e que u iliza Abiayala suge e descoloniza ambém o pensamen o,
além da ejeição da “c is alização de um p oje o exógeno, dos de o a”, de como uma “Amé ica
La ina” coloca os que habi am na egião de “subal e nos do No e, como um subg upo
subo dinado aos e dadei os ame icanos, os que dispensam adje i ações” (Lisboa, 2014). O
e mo “pe spe i ismo ame índio” se á mencionado, po azões ób ias, ao ap esen a mos ci ações
di e as de Edua do Vi ei os de Cas o, no en an o, e mesmo que Abiayala ou ou os e mos ainda
não sejam conhecidos ou u ilizados po mui os de nós no ociden e,
é uma ques ão de abalha pa a que as asas desses p oje os alcancem g adualmen e
uma mul iplicidade de espaços, a im de a i a e digni ica a nossa memó ia ances al.
Que es e seja o p imei o passo pa a a c iação de um mo imen o global indígena e não-
indígena en e ao neolibe alismo p eda ó io. Que es es, en e ou os, sejam os p incípios
plu ais que guiem os nossos caminhos pa a o nosso o alecimen o cole i o. (Keme,
2018)
Re omando a Vi ei os de Cas o, o au o epa ou como dico omias adicionais, como
na u eza/cul u a e sujei o/obje o, não são adequadas pa a explica as cosmologias amazónicas e
que al aplicação as i ia dis o ce (2004; 2013). Assim, ao con á io do chamado mul icul u alismo
ociden al, que p esume uma na u eza uni e sal compa ilhada po cul u as di e sas, Vi ei os de
Cas o i á se apoia no pe spe i ismo abiayalense pa a p opo o concei o de "mul ina u alismo".
Is o signi ica a pa ilha da mesma cul u a ou "espí i o", sendo a na u eza di e sa e a iá el. A
sepa ação en e humanos e animais, segundo o pe spe i ismo abiayalense, não ecai na dis inção
en e na u eza/cul u a, po que pa a si “a condição o iginal comum aos se es humanos e aos
animais não é a animalidade, mas sim a humanidade” (2004, p. 465). Is o acon ece, pois,
segundo Vi ei os de Cas o (2004; 2013) os abiayalenses não olham pa a os humanos como
endo pe dido a sua animalidade, um p ocesso cul u al, eles in e p e am que o am os animais
que pe de am as qualidades humanas, se o nando
ex-humanos
, em oposição aos humanos
se em
ex-animais
. Des a o ma, os amazónicos ac edi am que á ias espécies animais e ou os
75
ipos de se es e êm componen es espi i uais de “gen e”, as quais são isí eis pa a xamãs que
enxe gam além da apa ência des es se es:
Se concebe mos os se es humanos como, de alguma o ma, cons i uídos po uma
oupagem cul u al que esconde e con ola uma na u eza essencialmen e animal, os
amazónicos azem o in e so: os animais êm um aspe o in e io humano, sociocul u al,
que é "dis a çado" po uma o ma co po al os ensi amen e bes ial. (Vi ei os de Cas o,
2004, p. 465)
Ao con e i es as qualidades humanas a se es não-humanos, ou
ex-humanos
segundo as
isões abiayalenses, são es abelecidas no as o mas de elações sociais, uma ez que as plan as
cul i adas “podem se concebidas como pa en es de sangue das mulhe es que as a am”, os
animais de caça “podem se abo dados pelos caçado es como a ins”, ou os espí i os des es
podem se elaciona com xamãs enquan o “associados ou inimigos” (2004, p. 466).
Es as lógicas não se assemelham à o ma ociden al como pe cebemos o mundo, pois a
ansmissão de sujei o dada aos agen es não-humanos pelos abaiyalenses o na-os de en o es de
uma mundi idência equipa á el à humana. Nes a lógica, um animal pode se coloca ao cen o,
assumindo o seu habi a como a sua cul u a, ou endo
a sua comida como comida humana (as onças eem o sangue como ce eja de
mandioca, os abu es eem as la as da ca ne pod e como peixe g elhado); eem os seus
a ibu os co po ais (pelo, penas, ga as, bicos) como deco ações co po ais ou
ins umen os cul u ais; eem o seu sis ema social como o ganizado da mesma o ma que
as ins i uições humanas (com che es, xamãs, ce imónias, me ades exogâmicas, e c.).
(Vi ei os de Cas o, 2004, p. 466)
Vi ei os de Cas o apon a que es a dinâmica de cen aliza um animal ambém o coloca
na posição de sujei o. Es a su ge como uma das bases on ológicas do mul ina u alismo, is o é, a
exis ência de um pon o de is a é o que de ine a posição de um sujei o. Ou, po ou as pala as,
é a capacidade de e uma pe spe i a única que cons i ui um se como um sujei o. O au o e oca
Sausu e e Kan (2004) com a ase “é o pon o de is a que c ia o obje o” pa a da a en ende
que como pe cebemos e in e p e amos o mundo ao nosso edo de ine o que conside amos se a
ealidade. Lemb e-se como simila men e, no capí ulo an e io , a amos o concei o de cul u a
enquan o ealidade subje i a. Po ém, segundo o pe spe i ismo abiayalense, o sujei o não é a
76
posição ixa de onde a pe spe i a é c iada, o pon o de is a é que c ia o sujei o. O que o “a i ado
ou ‘agenciado’ pelo pon o de is a se á um sujei o” (Vi ei os de Cas o, 2004, p. 467).
O au o (2004; 2013) chama a a enção pa a não se con undi pe spe i ismo com
ela i ismo. Enquan o o ela i ismo ope a como se não exis isse uma ep esen ação “co e a” ou
“ e dadei a” do mundo, den o da lógica pe spe i is a, enquan o di e en es espécies podem e
pe spe i as dis in as, a pe spe i a de cada espécie é consis en e e coesa in e namen e. Em ez
de uma mul iplicidade de ep esen ações do mesmo mundo, odos os se es pe cebem o mundo
da mesma manei a, mas o mundo que cada um ê é di e en e. Respe i amen e, as pe spe i as
não são me as ep esen ações men ais, mas es ão en aizadas nas di e enças co po ais e
capacidades de cada espécie. Isso signi ica que a pe ceção de cada espécie é in luenciada po
suas ca a e ís icas ísicas e disposições, o que le a a di e en es " ealidades" expe imen adas. O
pe spe i ismo abiayalense p opõe uma unidade ep esen acional ou enomenológica aplicada de
o ma indi e en e a uma di e sidade obje i a adical. Isso implica um "mul ina u alismo", onde
uma pe spe i a não é uma ep esen ação, mas uma manei a de es a no mundo, ligada ao co po.
Po an o, a di e ença c ucial en e o pe spe i ismo abiayalense e o “ ela i ismo ociden al” es á na
manei a como a elação en e sujei o e mundo é concebida. No pe spe i ismo, as di e en es
pe spe i as são en aizadas nas ca a e ís icas ísicas e expe iências de di e en es espécies,
enquan o no ela i ismo cul u al, as pe spe i as são is as como cons uções men ais subje i as.
2.2.2.2. Ap oximando o pe spe i ismo da Teo ia a o - ede
Conec a ideias do pe spe i ismo abiayalense a um mé odo de análise de edes sociais pode
pa ece a i icial, mas espe amos que al ligação não pa eça o çada depois des e pon o.
Re omemos à Teo ia A o -Rede de B uno La ou
8
. Ela oi desen ol ida sob a dialé ica da
an opologia simé ica. Nes a abo dagem, humanos, obje os não-humanos (como ecnologias e
a e ac os), e a é concei os e ideias são conside ados como a o es (ou agen es) em edes de
elações sociais. A ideia é que odas essas en idades êm capacidade de in luencia e se em
in luenciadas den o dessas edes. Exis em, pelo menos, ês pon os impo an es pa a ca a e iza
es as dinâmicas, sendo a) os não-humanos enquan o a o es, b) a sime ia, c) elações enquan o
edes complexas.
8
Também comummen e a ibuída a Michel Callon e John Law.
83
Qua a ince eza – ques ão de ac o VS. ques ão de in e esse
Ou a ince eza que La ou isi a ecai na es e a da epis emologia, sem deixa de se
conec a com as an e io es. Aqui que emos apenas elaciona a “ince eza” com a ANT, e não
necessa iamen e ap o unda oda a discussão que p opõe. Em suma, o au o (2012) ques iona a
sepa ação do que ele chama de “ques ões de ac o” das “ques ões de in e esse”. As p imei as
e e em-se a a i mações sob e o mundo que são conside adas obje i as, e i icá eis e
independen es das opiniões ou in e esses humanos. São os domínios clássicos da ciência, onde
se busca es abelece e dades uni e sais e incon es á eis sob e a ealidade na u al. Já as
segundas, po ou o lado, en ol em alo es, signi icados, e p eocupações humanas. Es as são
equen emen e is as como subje i as, elacionadas às ciências sociais, a e, polí ica, e c. Elas
a am de como os humanos in e p e am, alo izam e se elacionam com o mundo.
La ou (2012, pp. 129-177) a gumen a que essa dis inção ígida en e ques ões de ac o
e ques ões de in e esse é p oblemá ica e a i icial. O au o suge e que os ac os cien í icos não são
comple amen e sepa ados dos in e esses humanos, alo es e p eocupações. Po exemplo, a o ma
como a sociedade abo da as ques ões de mudança climá ica não é apenas uma ques ão de dados
cien í icos (" ac os"), mas ambém es á p o undamen e in e ligada com in e esses polí icos,
económicos e cul u ais ("in e esses"). Po consequência, ques ões climá icas enquan o
“cons ução social” es ão ligadas a “uma a iedade de a o es sociais, como polí icos, cien is as,
co po ações e o ganizações ambien ais” (Ca alho & Pe ei a, 2008, p. 127). Pense-se nas
agendas polí icas de um pa ido e ique ado de “ e de”, po exemplo, ou como “che es de es ado
êm de oma decisões sob e enómenos na u ais” ou ainda “quando os cien is as c i icam os
seus pa es na imp ensa po não e em seguido p o ocolos adequados” (La ou , 2012, p. 175).
Em ez de e esses dois ipos de ques ões como sepa ados e opos os, de e íamos econhece
que eles es ão equen emen e en elaçados. As ques ões de ac o es ão semp e imbuídas de
in e esses humanos, e as ques ões de in e esse mui as ezes con êm elemen os ac uais que
p ecisam se conside ados.
Quin a ince eza – esc e e ela os de isco
Nes a quin a ince eza é-nos azido um pon o impo an e, não só pela sua elação com
es a pesquisa, mas com a pon e que que emos aça pa a a ap oximação de La ou a Gab iel
Ta de e a conexão com o pe spe i ismo. Vejamos o que La ou que dize com a necessidade de
“esc e e ela os de isco” numa análise ANT:

84
Em pala as mais simples: um bom ela o ANT é uma na a i a, uma desc ição ou uma
p oposição na qual odos os a o es azem alguma coisa e não icam apenas obse ando.
Em ez de simplesmen e anspo a e ei os sem ans o má-los, cada um dos pon os no
ex o pode se o na uma enc uzilhada, um e en o ou a o igem de uma no a anslação.
Tão logo sejam a ados, não como in e mediá ios, mas como mediado es, os a o es
o nam isí el ao lei o o mo imen o do social. Assim, g aças a inúme as in enções
ex uais, o social pode se o na de no o uma en idade ci culan e não mais compos a dos
elhos elemen os que an es e am is os como pa e da sociedade. O ex o, em nossa
de inição de ciência social, e sa po an o sob e quan os a o es o esc i o consegue
enca a como mediado es e sob e a é que pon o log a ealiza o social. (La ou , 2012, p.
189)
De ce a o ma, um ela o de isco é uma sequência da equação das ince ezas an e io es
ou, se quise mos, o seu esul ado. Ao ca a e iza uma análise ANT de “na a i a”, o au o já
começa a aludi à junção das ques ões de ac o e de in e esse, onde os e en os que acon ecem
em ede não se desassociam da in e p e ação dos a o es e de quem p oduz a análise. O ex o
o na-se assim uma “enc uzilhada” pois cada in e cessão e in e conexão do “social” nos dados
analisados se mos am um pon o de pa ida pa a en ende o a o - ede. Como analisa um a o -
ede se aduz em analisa não apenas um sujei o, mas ambém a sua ede, o social pode se
o na “uma en idade” e ala po si, onde o analis a “simplesmen e epe e a desc ição do mundo
social al qual é” (p. 90). Es a é a azão pela qual um Ne noRe a o apenas é e icaz quando
diagnos ica o con ex o e a es u u a que en ol e os indi íduos, sendo que uma exposição da ede
ine en emen e p o idencia á uma na a i a. De g osso modo, o pesquisado que implemen e uma
análise ANT é ambém uma o miga pois segue as os, no nosso caso, digi ais. A o ma como
es e p oduz ciência passa po , ao desc e e os a o es, deixa o “social” se explica .
Consequen emen e, es as discussões e en endimen o do “social” (das associações) es ão ligadas
ao deba e sob e “sociologia”, do século XIX, en e Gab iel Ta de e Émile Du kheim.
2.2.2.3. Um esga e a diano e as mónadas digi ais
La ou , na e dade, nunca escondeu que a isão da eo ia social al e na i a de Gab iel Ta de baseia
a sua, a inal, ele mesmo diz que Ta de “pode se conside ado um p ecu so da ANT” (2012, p.35).
Du kheim e Ta de emba e am in elec ualmen e ao longo de á ias publicações sob e o que se
o na iam co en es opos as no desen ol imen o da sociologia. Nes as ocas, Ta de ai opo -se à
85
ideia du khaniana de que a di isão do abalho é o o ganizado social, pa a o a ibui ao p ocesso
“imi a i o” da sociabilidade. Ta de olha pa a a sociedade como um “g upo de se es ap os a se
imi a am uns aos ou os” (Ta de, 1903, p. 68), e que a “semelhança social” é esul ado desse
p ocesso imi a i o (p. 37), aspe os que le am au o es a assumi que,
Segundo Ta de, a mo alização dos indi íduos em sua on e na sociabilidade, p ocesso
psicológico que se dá po meio do con ágio imi a i o – mas ambém pela simpa ia ina a
dos indi íduos – e em como co olá io o o alecimen o de c enças e cos umes
semelhan es nos g upos sociais adicionais e nas nações mode nas. (Consolim, 2010,
p. 46)
Ou o pon o de discó dia en e os dois elaciona-se com o que pode ou não se explicado
sociologicamen e. De um lado, Ta de assume que a ciência, que pa a si consis e em conside a
as “ epe ições”, “oposições” e “adap ações” (Ta de, 2004, p. 416), não ai consegui explica
udo (Consolim, 2012, p. 48), no ou o, Du kheim ac edi a que, se o indi íduo é esul ado di e o
da sociedade, en ão ele pode se explicado. Exis e aqui oda uma discussão pa alela sob e o quão
é necessá io, enquan o in es igado es, se mos obje i os e nos dis ancia mos do obje o. Assim
como já demos a en ende an e io men e, e como a a emos mui o em b e e nes a exposição
dos Ne noRe a os, não ac edi amos na ideia de neu alidade. A inal, quando o que es á em causa
é a análise do se humano, nós mesmos, como se ia possí el ece complexas e lexões li es da
pa cialidade? Como pensa com o al dis anciamen o sob e algo que es á em nós? No caso de
La ou , o simples ac o de es e p e e i oca na ede de associações e não no sujei o
indi idualizado, já demons a um alinhamen o dis an e à lógica do “social” de Du kheim. Pa a o
úl imo, os “ enómenos sociológicos êm po subs a o a sociedade” (Consolim, 2012, p. 52), logo,
são ex e nas ao indi íduo. Pa a Ta de, o ac o social não é ex ínseco à consciência dos indi íduos,
se ep oduz pela “imi ação” e exis e na oca en e eles. É en e si que se de e “con oca o a o
social elemen a , incluindo as associações ou as combinações múl iplas que cons i uem os
enômenos supos amen e simples”, ques ão que, em elação aos indi íduos, se sus en a a pa i
da in e ação e não den o deles (Ta de, 2004, p. 424). Assim,
uma “coisa social” qualque se ansmi e não do g upo ao indi íduo, mas de um indi íduo
ao ou o, ou seja, os a os sociais são in e io es e não ex e io es e se di undem a a és
das consciências indi iduais; (…) não exis e uma sociedade sui gene is acima dos
indi íduos; essa é uma exp essão abs a a da ealidade e uma e dadei a “on ologia
86
escolás ica”; (…) a imi ação se dá po meio de um p ocesso “simpá ico” en e os
indi íduos e não po imposição. (Consolim, 2010, pp. 55-56)
A sín ese do
social
acima esumida pa ece, de ce a o ma, o que La ou en a des aca
na sociologia das associações, sendo que, embo a não conco de com “ odas as idiossinc asias”,
o au o de ende que se a sociologia se i esse ap oximado mais do que Ta de de endia, hoje
pode íamos explica como a sociedade se man ém (La ou , 2012, p. 34).
Ganhamos uma elucidação adicional sob e es as ques ões de Gab iel Ta de ao
pe cebe mos que, pa a ele, os enómenos sociais podem se en endidos a a és da análise de
pad ões. Segundo o au o , “as leis que go e nam a epe ição imi a i a e que são pa a a Sociologia
as leis do hábi o” podem se a is adas nou as ciências como nas leis da he edi a iedade na
biologia, “ an o quan o as leis da g a i ação es ão pa a a as onomia, e as leis da ondulação pa a
a ísica” (Ta de, 2004, p. 434). Com o in ui o de de ini a sociologia como uma ciência dis in a,
cons uída sob e a obse ação e análise de pad ões e compo amen os humanos, Ta de (2004)
compa a o desen ol imen o da Sociologia com o de ou as ciências, como a As onomia e a
Biologia, en a izando a impo ância de econhece semelhanças e di e enças elemen a es na
sociedade. Ele a gumen a que a Sociologia de e se baseada em ac os sociais elemen a es,
des acando a imi ação como um componen e undamen al das elações sociais. Po ou as
pala as, é na imi ação e oca social elemen a en e dois indi íduos que a análise sociológica de e
inicia , pois é a pa i dela que odos os ou os ac os sociais se desdob am. Is o po que
Não se diz uma pala a que não seja uma ep odução inconscien e, po ém, usada a a és
de uma abo dagem conscien e e que ida, de a iculações e bais que emon am ao mais
dis an e passado, com um acen o p óp io ao ambien e a ual em que se i e. Não se
ealiza um i o eligioso qualque , um sinal de c uz, uma ação de beija um ícone, uma
o ação, que não ep oduza ges os e ó mulas adicionais, como di ei, o madas pela
imi ação dos ances ais. Não se execu a um comando mili a ou ci il qualque , não se az
nenhuma ação de qualque o ício que não os oi ensinado e que não se enha cópia sob e
um modelo i o. Não dá uma pincelada, se si o pin o , não se esc e e um e so, se si
o poe a, que não seja con o me aos hábi os ou a p osódia de uma escola, e a
o iginalidade mesma de um sujei o é ei a de banalidades acumuladas, e que aspi a
o na -se banal po sua ez. (Ta de, 2004, p. 428)
Coloca a “imi ação” nes es e mos nos le a a pensa na o ma como Ta de (2004) des aca a
exis ência de um pad ão onde as di e enças se epe em, inclusi e na na u eza. Imagine-se a olha
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pa a um bosque. À dis ância i á epa a que exis em dezenas ou cen enas de á o es, ou seja, a
epe ição
de á o es. Ao se ap oxima pode á obse a que nem odas as á o es pe encem à
mesma espécie, ou seja, exis e uma
di e ença
en e elas. Se con inua mos a examina o que
a is amos i emos pe cebe que o p ocesso de epe ição da di e ença nos acompanha. Quando
epa amos que no bosque encon amos mais do que uma espécie de á o e, es ados a iden i ica
ag upamen os ( epe ição), po exemplo, de pinhei os, mas ambém a
di e enciá-los
das ou as
espécies. Es e exe cício pode se ap o undado a é ao de alhe de as espécies de á o es se em
cons i uídas po á omos, uma ez que “assim como as semelhanças de massa se soluciona am
em semelhanças de de alhe, as di e enças de massa, g ossei as e bem isí eis, se ans o ma am
em di e enças de de alhes in ini amen e su is” (2004, p. 420). Cons an es ap oximações e elam
no os de alhes que subs i uem os an e io es, ago a idos como mais agos caso en emos se
p ecisos. Melho dizendo, no exemplo acima, a composição do bosque pode á se explicada
a a és da análise p o unda de um conjun o de a o es, ais como ipo de solo, in e ação com
ou as plan as e o ganismos, e c., e não po deduções i iais iniciais, as quais não
necessa iamen e pe dem sen ido ou e acidade. Ta de (2004) que assim dize que, na Biologia,
a epe ição é is a como um elemen o undamen al da he ança gené ica, onde ca a e ís icas são
passadas de ge ação em ge ação. O au o es abelece conexões en e ais pon os e a epe ição na
Sociologia, desc e endo a imi ação como a o ma social da epe ição. A elação dessa ideia com
a sua eo ia da imi ação é que, na ida social, as pessoas se imi am cons an emen e, exce o em
casos a os de ino ação. Po ém, mesmo as ino ações são equen emen e combinações de
exemplos an e io es e só se o nam pa e da ida social quando são imi adas (e assimiladas?) po
ou os. Como imos na úl ima ci ação, o au o explica que a é mesmo a linguagem que usamos é
uma ep odução inconscien e de a iculações e bais do passado, adap adas ao con ex o a ual.
Es a abo dagem essal a a imi ação como um p ocesso undamen al na o mação e e olução dos
enómenos sociais, conec ando a Sociologia com concei os de epe ição encon ados em ou as
ciências. De ce o modo, es e é, ambém, um pon o de conco dância en e Gab iel Ta de e B uno
La ou . Po que onde o p imei o ia a sociedade como uma eia de imi ações e in enções, o
segundo ê uma ede de a o es. De uma o ma ge al, eles compa ilham a isão de que as
conexões são undamen ais pa a a es u u a social.
Se po um lado Du kheim ocou em enómenos sociais mac o, assumindo a sociedade
como algo além do que a soma dos seus indi íduos, Ta de mos ou, pelo que acabamos de
desc e e , ac edi a que o p ocesso de imi ação e in luência de um indi íduo sob e o ou o o
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inclina a pa a oca em aspe os mic o sociais. Onde Du kheim si ua a a sociedade enquan o um
conjun o de ins i uições e no mas ex e nas aos indi íduos, Ta de (2007) coloca a a ideia de
mónada como o ça mo iz das mudanças sociais.
Esc i o em 1714, a "Monadologia" de Leibniz é uma ob a que busca es abelece um
sis ema ilosó ico plu alis a, onde não exis e um começo absolu o ou um undamen o único de
odo o conhecimen o. Nes e abalho, Leibniz (2016) a icula suas eses an e io es em um quad o
uni icado, onde me a ísica, ciência e mo al es ão in e ligadas. As mónadas, segundo es e sis ema,
são desc i as como o al abe o do uni e so, onde a máxima a iedade é equilib ada pelo exe cício
de uni icação, essencial pa a a ação das e dadei as mónadas ou unidades eais. As mónadas,
segundo Leibniz, são subs âncias simples que uncionam como au óma os inco pó eos. Elas agem
de o ma au ónoma e são on es de suas ações in e nas. As mónadas são en idades echadas,
nas quais nem a subs ância nem o aciden e podem en a ex e namen e. Toda a i idade de uma
mónada oco e no plano da imanência, incluindo seu dinamismo de au ocons i uição, pelo qual
cada mónada se indi idualiza e se dis ingue de odas as ou as, pois “ al como o co po o gânico,
a mónada ou subs ância simples é um au óma o, mas um 'au óma o inco pó eo', is o é, um se
que age au onomamen e e é ' on e das suas ações in e nas' (Monadologia, § 18, in a, p. 44)”
(Leibniz, 2016, p. 16). Es e p ocesso é con ínuo e na u al, de i ando de um p incípio in e no
ep esen a i o. Apesa de cada mónada se única, suas qualidades es ão sujei as a mudanças
con ínuas, e “na u ais”, que e le em as ans o mações do mundo ao seu edo :
Com e ei o, “cada mónada é di e en e de cada ou a” (§ 9), em i ude de qualidades
in ínsecas que lhe são p óp ias. (§ 18, in a, p. 44). As qualidades de uma mónada es ão
sujei as a “mudança con ínua”, acompanhando as ans o mações que a cada momen o
se ope am no mundo en ol en e. (Leibniz, 2016, p. 16)
Ta de i á e oma e a ualiza es e concei o pa a undamen a “as o ças cons i u i as das
coisas”, descen ando os humanos, e pa a si ua as mónadas como po ado as de “ o ças
‘psíquicas’ (desejo, c ença, pe ceção, memó ia)” (Lazza a o, 2006, p. 29). Enquan o Leibniz ia
as mónadas como echadas e unidades básicas da ealidade, cada uma e le indo o uni e so
in ei o sem in e ação di e a com ou as mónadas, Ta de as ia como unidades sociais
undamen ais, abe as, capazes de imi ação, ino ação e in e ação. Es a neomonadologia, como
e e e Lazza a o (2006), nos conduz a isualiza um uni e so ex ao diná io, eple o de en idades
dis in as e uma ampla gama de ealidades al e na i as (mundos possí eis). Es a abe u a, e

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adap ação, do concei o de mónada le a ao exemplo que habi ualmen e cos umo na a pa a
aqueles não amilia izados com ele. Imagine-se que se encon a numa p aia de en e pa a o
oceano. Nes a si uação, e pa indo do p incípio que possui audição, consegui á su icien e
in o mação senso ial pa a p oduzi uma desc ição do que escu a. Se ia ainda álido a i ma que,
de ac o, ou iu o oceano. No en an o, se pe co e a a eia a é um ou o pon o da p aia pode á,
sob o mesmo p ocedimen o, epe i o exe cício, mas p oduzi uma desc ição dis in a da an e io .
Tal ez ou os sons a e a am a sua pe ceção ou, de ido à geologia do local, o no o pon o onde se
encon a possui uma maio incidência de ondas, al e ando assim o conjun o de sons. As
possibilidades são incon á eis, po ém, pe sis e a alidez de assumi que, de ac o, ou iu o oceano.
Po ou as pala as, duas ealidades (mundos possí eis) e pe spe i as o am expe ienciadas sob e
o mesmo obje o. Ou seja, duas mónadas di e en es, eais, au ónomas, mas em elação com o
odo, ainda que sujei as à ans o mação “na u al”.
Es e pon o não só con inua a supo a a inclinação de Ta de se oca no mic o social,
como se con apõe à ideia de analisa o odo. B uno La ou ai assim de ini mónada não enquan o
“uma pa e de um odo, mas um pon o de is a sob e odas as ou as en idades omadas
sepa adamen e e não como uma o alidade” (La ou e al., 2012, p. 598). Além da pa cialidade
dos pon os de is a dos in es igado es, mos a-se ele an e es a mos a en os à mul iplicidade de
a o es que podem in luencia os enómenos sociais, o nando p á ico e necessá io pa a os
pesquisado es seleciona ce as “ci cuns âncias” que pa ecem se as mais signi ica i as ou
ele an es pa a o caso especí ico em es udo, em ez de en a analisa odas as causas possí eis.
Cada uma dessas ci cuns âncias, cada pon o de is a, cada mónada. Po an o, e como pa a Ta de,
assumimos que o “ odo social” se p oduz pela conexão en e a singula idade das mónadas,
independen emen e do indi íduo ou obje o (Lazza a o, 2006). En ão, em sequência, quando
aplicado ao ambien e digi al das edes, essa o alidade do social pode se aduzida pela elação
en e as mónadas digi ais, is o é,
A expe iência de na egação a a és de pe is disponí eis em pla a o mas digi ais é al
que, quando se passa de uma en idade - a subs ância - pa a a sua ede - os a ibu os -
não se ai do pa icula pa a o ge al, mas do pa icula pa a mais pa icula es. (…)
Aumen e a lis a de i ens, sua ize a na egação, isualize co e amen e o "in e io " de cada
mónada, e pode á não p ecisa da es u u a á omo-in e ação ou da epa ição a o -
sis ema. Passa á de mónada em mónada sem nunca deixa o e eno sólido dos
pa icula es e, no en an o, nunca encon a á indi íduos a omís icos, exce o no p imei o
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clique, quando começa a pe gun a po um i em e ob ém apenas um pon o azio. (La ou
e al., 2012, p. 599)
A ci ação em des aque mos a como a na egação em pla a o mas digi ais e le e a eo ia de
mónadas de Ta de. Em ez de passa do especí ico pa a o ge al (do indi íduo pa a a sociedade),
a na egação digi al le a de uma en idade especí ica pa a mais en idades especí icas. Cada pe il
ou pon o de dados é conec ado a ou os, o mando uma ede complexa de in o mações
pa icula es. Isso desa ia a isão adicional de análise social baseada em á omos ou a o es
indi iduais e sis emas ag egados. O p óp io í ulo do a igo de La ou e associados, "The whole is
always smalle han i s pa s", suge e que, nes e con ex o, o conjun o (a sociedade como um odo)
é pe cebido a a és de suas pa es meno es e mais nume osas (as mónadas), cada uma complexa
e in e conec ada, e le indo a isão de Ta de de que a sociedade é compos a po uma ede de
elações, e não po en idades isoladas.
Nós ala gamos ainda a elei u a de mónadas no ambien e digi al à p óp ia locomoção
digi al, signi icando aqui qualque ação na in e ne . Seja pela busca de in o mação ou
en e enimen o, pela comunicação com ou os indi íduos ou uma simples consul a de e-mail, o
humano semp e se mo e em di eção ao especí ico sem abandona os sis emas que supo am
essa locomoção digi al. Enquan o damos um passo pa a o pa icula , nos si uamos num ou o
pon o da(s) ede(s) en ol en e(s). P ocu a uma in o mação especí ica no Google (di eção ao
pa icula ) nos de ol e á esul ados pe encen es a uma gigan e ede compos a po meios de
comunicação, si es independen es, meios al e na i os, e c. Apesa de pode mos “escolhe ” que
hipe ligação consul a , o con eúdo exibido es a á inse ido em de e minadas lógicas e associações
ideológicas, inancei as, comunicacionais, o ma os, en e ou os (si uando-nos num pon o dessas
edes). Pesquisa po en e enimen o se mos a simila . Assis i a uma sé ie, ou na ega num
blogue ou ede social em busca de algo de nosso in e esse (di eção ao pa icula ) nos coloca á
em de e minados cí culos e con ex os cul u ais, edes de p oduções e monopólios do
en e enimen o (um pon o dessas edes). Consumi e p oduzi con eúdo online, seja in o mação
ou en e enimen o, possuem dinâmicas dis in as de locomoção digi al, po ém, não nos ex e io iza
da ede de associações, das mónadas digi ais, nem dos sis emas implemen ados. Con e sação
online ou ações como acede a um e-mail podem apa en a es a mais isoladas. No en an o, es as
ações ambém são mediadas e agenciadas po p ocessos de compu ação (CAC), ge ando as os
e me adados, logo são impossí eis de isola dos sis emas que os sus en am – pla a o mas que
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o necem o se iço; se ido es; emp esa con a ada pa a o acesso à in e ne ; ede de ele icidade;
e c.
Além de La ou , e as colabo ações de seus colegas, a ideia de aplica es e
neomonadologismo às edes digi ais em sido explo ada po á ios au o es. O mé odo pe spe i is a
de análise de edes de Fabio Malini (2016), e e ência pa a a nossa p opos a de e amen a
me odológica, emp es a a in e p e ação La ou iana mas adiciona o pe spe i ismo de Vi ei os de
Cas o. Leona do Pas o ad oga a adequação das pe spe i as de Ta de pa a o desen ol imen o
de uma sociologia digi al, in ocando ainda a an opologia simé ica ao conside a que o “social
es á pa a além das elações humanas; es á ambém nas máquinas, no abalho das abelhas, nas
o migas” (Pas o , 2019). Podemos encon a a ap op iação de mónadas digi ais na análise de
abo dagens me odológicas em si es especí icos de edes sociais (Olesen, 2017); Ca los Pe nisa
Júnio explo ou a e olução do concei o de mónadas abe as, elacionando-o com o jo nalismo web,
comunicação e a es sob a in luência da ecnologia (Júnio , 2013); Ou podemos a é encon a
discussões sob e a na u eza epis emológica dos dados digi ais, p opondo en ende os dados como
mónadas, a a és do a gumen o que os dados não são me amen e ac os b u os a se em
cole ados, mas sim cons elações ins á eis de componen es no p ocesso de localização de dados
(Madsen, 2017).
Pa alelamen e, assumimos que mónadas digi ais se es abelecem quando se iden i ica a
p odução das seguin es si uações: uma pe spe i a que possa se desc i a; um egis o in o má ico
si uá el numa ede ou sis ema en ol en e. Examinemos cada aspe o.
Uma pe spe i a que possa se desc i a
. Iden i ica uma “pe spe i a” e e e-se aqui a
econhece um pon o de is a segundo as p opos as de La ou e Vi ei os de Cas o. Is o signi ica
que o pon o de is a assume o p o agonismo simé ico dos não-humanos sob as lógicas do
mul ina u alismo. Po ou as pala as, uma in e ação social online ou simples p odução de
con eúdo na in e ne que ge em na a i as es a ão associadas a uma pe spe i a, logo, pode ão
se conside adas mónadas digi ais. Com “que possa se desc i a” que emos dize que a
“pe spe i a”, o “social” e o “obje o cul u al” sejam aduzí eis pela linguagem humana. Se uma
mónada es á em elação com “o odo”, en ão é necessá io o mínimo de obje i idade em si pa a
desc e ê-la, ou seja, a locomoção digi al p ecisa se as eá el. Po “obje i idade” aqui não
es amos a ca a e iza uma mónada po uma cons i uição in e na es i amen e obje i a, a inal ela
es á expos a à imi ação e ino ação (Ta de, 1895), po ém p ecisamos se capazes de iden i ica
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as suas qualidades p óp ias, mesmo que essas qualidades sejam moldadas e in luenciadas
con inuamen e pelas elações e in e ações com ou as mónadas. Di o de ou a manei a,
p ecisamos consegui encon a o as o ou a elação com o “ odo”. Eis uma lis a, não ex ensi a,
de exemplos comuns de mónadas digi ais a pa i da iden i icação de pe spe i as:
• Pe is de edes sociais: Cada pe il é uma mónada, com sua p óp ia pe spe i a e ede
de conexões.
• Comen á ios em con eúdos online: Cada comen á io e le e uma pe spe i a e es á
conec ado a ou os comen á ios e ópicos.
• Con as de u ilizado em pla a o mas de s eaming: São mónadas com p e e ências e
his ó icos de isualização únicos.
• A aliações de p odu os em lojas online: Cada a aliação é uma pe spe i a e pa e de
uma ede de a aliações.
• A igos em enciclopédias colabo a i as: Cada a igo é uma mónada compos a de
con ibuições múl iplas e in e ligadas.
• Sis emas de ecomendação au oma izados: A sua pe spe i a é de inida pelo algo i mo
que de e mina o que ecomenda com base em pad ões de dados.
• Bo s de edes sociais: A pe spe i a aqui é o conjun o de eg as ou algo i mos que
guiam suas ações e in e ações.
• Senso es IoT: Eles possuem uma pe spe i a ocada na ecolha e in e p e ação
especí icas de dados, como ambien ais ou de compo amen o.
• So wa es de análise de dados: A pe spe i a é moldada pelo obje i o da análise de
dados, como iden i ica endências ou anomalias.
Um egis o in o má ico si uá el numa ede ou sis ema en ol en e
. Semp e que
execu amos ações num disposi i o es amos a c ia um egis o de a i idade (um log). Esse egis o
in o má ico de a i idade e ela a o ma como escolhemos nos locomo e digi almen e, p oduzindo
dados que con êm pe spe i as do u ilizado e compo amen os dos algo i mos e sis emas
en ol en es. Tendo em con a que a agência (CAC) e p odução de uma pe spe i a ambém são
c iadas po essas edes de algo i mos, sis emas e se iços associados ao meio online, um log da
a i idade, seja qual o o seu o ma o, se á o su icien e pa a que possamos ans o ma a
locomoção digi al em mónadas digi ais ap esen á eis. Eis uma lis a, não ex ensi a, de egis os
(logs) de a i idade comuns que nos pe mi i iam analisa mónadas digi ais:
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Ní el 2 (N2) – Dados In eg ados
• Re e en e a odo e qualque dado comp ado ou adqui ido, independen emen e de se
cole ado de o ma pública ou p i ada. Pode-se a a de bancos de dados come cialmen e
adqui idos, concedidos po e cei os/pa ce ias ou licenciados. Seja qual a o ma de
ansação, dados in eg ados nunca são ecolhidos ou p ocessados pelos in es igado es
ou p o issionais que os u ilizam.
• A p o eniência o iginal dos dados in eg ados (N2) ambém pode co esponde a qualque
ipo de dados ne nog á icos desc i os po Kozine s (de in es igação; in e a i os; ime si os),
no en an o, os in es igado es e p o issionais apenas possuem o al con olo de ecolha e
p odução sob e os “ime si os”. Po exemplo, se um in es igado ou p o issional i e
acesso a um conjun o de dados municipais, p o enien es de um ó gão público, é ainda
possí el ealiza a e as como c uzamen o de dados desse banco, ge ando no os “dados”
que não inham sido p e iamen e cole ados.
• Dados in eg ados são, po ezes, a única on e de in o mação dos in es igado es ou
p o issionais. Seja po es es não possuí em empo ou conhecimen o pa a os cole a , ou
po não ha e egis o de ou os dados sob e de e minado ópico, dados in eg ados podem
se adqui idos e u ilizados em á ios con ex os. Dependendo da qualidade dos dados, uma
análise e icaz pode ou não se exequí el. O pon o o e des es
da ase s
encon a-se na
complemen a idade de ou as a e as ne nog á icas ou análises de dados. Ou o pon o
o e des es
da ase s
, quando adqui idos a emp esas especializadas, é que são mui as
ezes mais de alhados e p ecisos, ú eis pa a análises especí icas e omadas de decisão
di ecionadas.
• Dados in eg ados nunca i ão ep esen a o odo, mas pode ão ep esen a o “ odo”
exis en e sob e de e minado obje o. Em odo o caso, equen emen e simbolizam
mónadas digi ais sob e as quais pode se ecomendada a consul ada em pa cialidade e
complemen a idade po não e em sido ecolhidas po meios p óp ios. Na e en ualidade
de exis i em in o mações pessoais, ou as os que cla amen e le a iam e cei os aos
au o es do con eúdo exis en e no
da ase
, cabe aos in es igado es e p o issionais que os
adqui i am anonimiza os dados.

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Ní el 3 (N3) – Dados P i ados
• Re e en e a oda e a qualque in o mação cole ada ou expos a em espaços p i ados.
Espaço p i ado na in e ne é es abelecido pelos p óp ios con ex os legais, in o macionais
e ecnológicos, is o é, con eúdo p esen e em acesso ese ado a um ou mais u ilizado es,
emp esas, o ganizações, e c. Con eúdo cono ado po “p i ado” não es á necessa iamen e
inacessí el. Pe is, páginas, g upos, canais ou se ido es p i ados em pla a o mas, si es
ou edes sociais de em se con emplados em análises ne nog á icas, desde que os
de en o es desses espaços p i ados o consin am. Nes e caso, en ol a ou não es e
p ocesso ecu sos inancei os, os in es igado es e p o issionais de em segui o passo-a-
passo desc i o po Kozine s (2020) an e io men e mencionado.
• Dados p i ados (N3) ambém podem co esponde a qualque ipo de dados ne nog á icos
desc i os po Kozine s (de in es igação; in e a i os; ime si os). Po exemplo, os
in es igado es e p o issionais podem pedi acesso a um se ido de Disco d p i ado pa a
es uda a i idade do mesmo, in e agindo e en ualmen e com os memb os da
comunidade.
• Pa a os in es igado es e p o issionais, não exis e um alo in ínseco ag egado em um
dado se ca a e izado po “p i ado” além de, cla o, a sua exclusi idade. No e-se que, po
p i ado que emos apenas dize não-público, e não necessa iamen e come cialmen e
adqui ido. Apesa de, ul imamen e, se i em p opósi os mui o semelhan es aos dados
públicos (N1), dados p i ados podem e ela o ní el de acei ação de na a i as
iden i icadas em espaços públicos ou se em necessá ios no caso de o obje o em causa
só pode se analisado a pa i des es. Na ocasião de se a a em de dados p i ados
come cialmen e adqui idos, é possí el p ocede a análises ainda mais e icazes em ce os
con ex os po mui as ezes, de o ma não é ica, incluí em in o mações sensí eis e
con idenciais, es a em especialmen e es u u ados ou já con empla em pós-
p ocessamen os aliosos dos mesmos.
• Dados p i ados nunca i ão ep esen a o odo, mas pode ão ep esen a o “ odo” exis en e
sob e de e minado obje o. Como os dados in eg ados, es es ipos de
da ase s
exigem uma
a enção ala gada dos in es igado es e p o issionais quan o às ques ões é icas.
101
Ní el 4 (N4) – Me adados
• Re e en e a oda e qualque in o mação in ínseca aos dados cole ados (N1; N2; N3),
incluindo aqueles ge ados a pa i e a a és dos p óp ios
da ase s
(o que Kozine s chama
de dados ime si os). Podem con empla in o mações écnicas ( o ma os, amanho do
ichei o, GPS, e c.), se con igu a po ca ego izações e obse ações dos p óp ios
in es igado es e p o issionais (e ique as, desc ições, en e ou os), possui u ilidades
adminis a i as (p o eniência, p ese ação, di ei os au o ais, his ó icos de acesso, …)
en e mui os ou os.
• As p incipais u ilidades dos me adados pa a a ne nog a ia são:
o Facili ação da descobe a e acesso: Me adados desc i i os, como í ulo, au o ,
pala as-cha e ou esumo, pe mi em que pesquisado es e p o issionais
encon em apidamen e ecu sos ele an es em g andes bases de dados. Sem
essas in o mações, a localização de dados pe inen es se ia ex emamen e
demo ada e ine icien e.
o Con ex ualização e in e p e ação: Me adados o necem o con ex o necessá io
pa a en ende os dados. Po exemplo, me adados de p o eniência e
me odológicos explicam como os dados o am cole ados, p ocessados e
in e p e ados, o que é c ucial pa a a alia a alidade e a sua ele ância pa a uma
pesquisa especí ica.
o In eg ação de dados: Na e en ual necessidade, me adados es u u ais acili am a
in eg ação de dados de di e en es on es. Em pesquisas que eque em a
combinação de
da ase s
a iados, os me adados ajudam a mapea e ha moniza
esses dados, ga an indo assim uma “comunicação” pa a que eles sejam
compa í eis e compa á eis.
o Pad ões de uso, ge enciamen o e p ese ação de longo p azo: Me adados
adminis a i os, como os de p ese ação, são i ais pa a ga an i que es es
pe maneçam acessí eis e u ilizá eis ao longo do empo. Tendo em con a a
con ínua a ualização de sis emas, me adados são essenciais pa a o ien a
es a égias de p ese ação digi al e ajuda que os dados não se o nem obsole os.
Es es ambém pe mi em analisa como ecu sos são acedidos ou u ilizados,
102
o necendo
insigh s
aliosos pa a ajus a es a égias de coleção de dados e
alocação de ecu sos.
o Cump imen o de no mas e leis: Também já b e emen e mencionado, me adados
de di ei os au o ais e de con o midade pe mi em que o uso de dados es eja em
aco do com as leis e egulamen os aplicá eis.
o Me adados ep esen am dados sob e dados, logo, pa es do “ odo” exis en e
sob e de e minado obje o.
Independen emen e da na u eza dos dados, a p i acidade dos u ilizado es de e se semp e
ga an ida pelo ne nog a o. Acima coloquei o con ex o público e p i ado po e mos simples, sendo
que ce os casos p ecisem de se a aliados pelos in es igado es e p o issionais, uma ez que a
sua sepa ação nem semp e é cla a, e endo em con a que ce as comunidades ou u ilizado es
podem possui di e en es pe ceções do que é público ou p i ado (He u h & Bo , 2024). Mais
adian e i emos p oduzi , à semelhança de Kozine s (2010; 2020), um passo-a-passo pa a a
p odução de um Ne noRe a o, ao in eg a as suas con ibuições com dinâmicas p o enien es da
minha expe iência p o issional no nosso enquad amen o eó ico e me odológico.
3.2. Big Da a: um e e encial aumen ado
Big Da a e e e-se a conjun os de dados ex emamen e g andes e complexos que são di íceis de
p ocessa pelo uso de mé odos adicionais de p ocessamen o de dados. Cap a e es u u a
g andes quan idades de dados na in e ne não se con igu a como uma a e a azoá el pa a um
humano, ou mesmo pa a um g upo. Assim, são u ilizadas aplicações e sis emas algo í micos pa a
desempenha a cole a, o ganização e a qui o de dados. No e-se que Big Da a não p ecisa se
es i amen e e e en e a dados da in e ne . Embo a seja comum ci a exemplos de on es online,
como edes sociais, ansações de comé cio ele ónico ou in e ações digi ais, a de inição de Big
Da a é mui o mais ampla e ab ange qualque
g ande
conjun o de dados, independen emen e de
sua o igem. Pode íamos encon a exemplos des e ipo de Big Da a a pa i da lei u a de senso es,
egis os de ansações come ciais de uma ede de hipe me cados, bancos de dados
go e namen ais, em pesquisas e es udos cien í icos, en e mui os ou os. Além da capacidade de
p ocessamen o das máquinas, ou a an agem de o ganiza o Big Da a eside na possibilidade de
es abelece pad ões e elacionamen os en e pa es do con eúdo, a inal, “Big Da a es á
undamen almen e in e conec ada” (Boyd & C aw o d, 2011, p. 2). Assim, e não esquecendo da
lógica La ou iana da ANT, in o mações aliosas sob e “um indi íduo, sob e indi íduos em elação
103
a ou os, sob e g upos de pessoas, ou simplesmen e sob e a es u u a da p óp ia in o mação”
(2011, p. 2) podem se encon adas nessas conexões de dados. Os es udos sociais endem a
aze uso dos chamados "dados sociais", os quais cos umam p o i de edes sociais online. A
análise de Big Da a é habi ualmen e ca a e izada pelos seus “Vs”. Ao longo do empo o núme o
de Vs escolhidos ende a a ia (en e ês e dez). Eis o que conside amos mais ele an e essal a
sob e cada um:
1. Volume: Re e e-se à já mencionada g ande quan idade de dados ge ados, incluindo dados
de edes sociais, ansações online, senso es, egis os de ansações, e c.
2. Velocidade: Re e e-se à apidez com que os dados são ge ados, p ocessados e analisados.
Pode a a -se de um pon o c ucial em casos que equei am análise de dados em empo
eal ou em con ex os em que se p ecise de um
ou pu
num cu o espaço de empo.
3. Va iedade: Re e e-se à di e sidade dos ipos de dados, que podem se es u u ados, não
es u u ados ou semi-es u u ados. Tipos de dados comuns es ão em o ma o de ex o,
imagens, ídeos, egis os de banco de dados, e c.
4. Ve acidade: Re e e-se à qualidade e à p ecisão do que é ge ado. No en an o, dados não
con iá eis, ou e os no seu p ocessamen o, podem le a a análises imp ecisas.
5. Valo : Re e e-se à u ilidade do que é ge ado e à capacidade de se em aduzidos ou
ans o mados em aliosas descobe as. O e mo “ alo ” cos uma e uma cono ação algo
come cial, sendo que no con ex o académico se ia, al ez, mais ap op iado nos e e i mos
à “u ilidade” ou “aplicabilidade” dos dados.
6. Va iabilidade: Re e e-se à consis ência e o o ma o dos dados podem a ia mui o, o que
a e a como eles são analisados e ge enciados. Enquan o a "Va iedade" se concen a na
di e sidade de ipos de dados, a "Va iabilidade" lida com a na u eza dinâmica e a
inconsis ência dos dados ao longo do empo. Se um si e de ede social al e a o seu
código, po exemplo, isso pode in luencia os p ocessos esponsá eis pela cole a e
o ganização dos dados.
7. Visibilidade: Re e e-se à capacidade de se e uma isão cla a e comp eensí el dos dados
den o de um p oje o. Es a isão pe mi e que p oje os, emp esa iais ou académicos,
en endam melho os dados que possuem, como es es são in e conec ados e como eles
podem se e e i amen e u ilizados pa a oma decisões in o madas. A ideia de isibilidade
não ecai apenas sob e e acesso aos dados, mas ambém sob e comp eende o
con ex o, as elações e o impac o dos mesmos.
104
8. Validade: Re e e-se à ele ância e exa idão, is o é, o quan o os dados são ap op iados pa a
o con ex o em que são usados.
9. Vola ilidade: Re e e-se ao empo ú il de u ilizado dos dados, ou seja, a pe ceção de quando
eles se o nam obsole os. Isso é especialmen e impo an e em se o es que mudam
apidamen e, um cená io habi ualmen e mais come cial. Do pon o de is a académico, e
endo em con a que os as os digi ais p oduzem uma espécie de memó ia i ual, es a
ca a e ís ica não se az no a an o quan o no uso emp esa ial.
10. Vulne abilidade: Re e e-se à segu ança e p i acidade dos dados. Com a c escen e
p eocupação sob e as ques ões é icas e a quan idade de dados sensí eis que podem se
cole ados, assim como os meios u ilizados, es e V cen a-se na ideia de p o eção con a
iolações e uso inde ido dos dados.
Abaixo exempli icamos um p ocesso básico de e inamen o de in o mação (Gogołek, 2017) a pa i
dos dados cole a os, os quais podem inclui on es o line:
Uma das o mas mais comuns de cole a de dados de Big Da a é aquela ealizada a a és
da comunicação de um algo i mo com as APIs. Mui o esumidamen e, uma API é uma aplicação
que possibili a a in e ação en e ou as aplicações, jun amen e com os seus algo i mos, e os
bancos de dados de si es e pla a o mas. No caso de si es de edes sociais, po exemplo, o que
comen amos ou “gos amos”, quan o empo le amos pa a le um ex o ou assis i um ídeo, podem
e ela in o mações essenciais pa a a comp eensão de de e minados enómenos online. Embo a
di e en es obje i os ou dados de pesquisa exijam abo dagens me odológicas dis in as, as APIs das
edes sociais são aliosas po sua “socioma e ialidade”, is o é, “as APIs são en endidas como
Figu a 4: P ocesso básico de RI.
Fon e: (Gogołek, 2019)

105
a anjos his ó icos con ingen es de componen es sociais e ma e iais que se undem pa a p oduzi
no as ealidades" (Buche , 2013, p. 4). Não exclusi amen e, as APIs ab angem
uma isicalidade em e mos da paisagem co pó ea da in aes u u a e da ecnologia,
passando pelas lógicas económicas em ação (ou seja, modelos emp esa iais,
p op iedade, licenciamen o das API), unções e se iços (ou seja, acesso aos dados),
p á icas dos u ilizado es (ou seja, o mas de abalho, jogo e colabo ação), o mações
discu si as (ou seja, decla ações, conhecimen os, ideias), eg as e no mas (ou seja,
p incípios de conceção, condições de se iço, no mas écnicas), bem como imaginá ios
e desejos sociais. (Buche , 2013, p. 5)
Ao que Buche desc e e podemos adiciona as ep esen ações cul u ais e polí icas que ci cundam
e in luenciam o seu uso e desen ol imen o. Assim, as APIs não são apenas e amen as écnicas;
elas são ambém a e ac os cul u ais que e le em e moldam as no mas sociais, polí icas e
económicas da sociedade. Po exemplo, a manei a como uma API de ede social é p oje ada pode
in luencia os pad ões de in e ação en e os u ilizado es e como as in o mações são pa ilhadas e
consumidas. Além disso, APIs desempenham um papel c ucial na go e nança dos dados, pois
são elas que(m) de inem os limi es do que pode se acedido, e de que manei as. Tal pon o le an a
ques ões impo an es sob e p i acidade, segu ança e p op iedade dos dados. Quem em o di ei o
de acede a ce os ipos de dados? De e ia ha e exceções legalmen e de e minadas pa a
pesquisado es? Quais são as implicações é icas da cole a e uso desses dados? Es as con inuam
a se ques ões undamen ais na e a do Big Da a. Em conclusão, as APIs ep esen am uma pon e
essencial en e di e en es sis emas e a o es, desempenhando um papel i al na o ma como a
in o mação é ge ada, compa ilhada e u ilizada na nossa sociedade digi al. Elas são an o agen es
não-humanos quan o uma mani es ação da ecnologia, ou quan o um e lexo dos alo es, polí icas
e es u u as sociais que as ce cam, o que pode o nece
insigh s
não apenas sob e a ecnologia
em si, mas ambém sob e a sociedade em que es amos inse idos.
Em um de seus abalhos, Boyd e C aw o d (2011) discu i am c i icamen e o impac o do
Big Da a na pesquisa e na sociedade, ao subme e o mé odo a um conjun o de e lexões ligadas
à o mação de conhecimen o e elações de pode na e a digi al. As au o as azem “seis
p o ocações” sob e Big Da a. Colocamos as nossas p ecauções e p ocedimen os em sequência:
P o ocação 1 - Au oma ização da pesquisa al e a a de inição de conhecimen o: Boyd e C aw o d
(2011) suge em que a au oma ização das pesquisas com Big Da a en a iza pad ões e co elações
106
em la ga escala, mui as ezes à cus a da comp eensão con ex ual e p o unda. Tal al e a ia a
na u eza da pesquisa cien í ica, des iando o oco da busca po causas e comp eensão p o unda
pa a a iden i icação de pad ões em g andes conjun os de dados. Esse mo imen o pode le a a
uma no a de inição de conhecimen o, onde a quan idade e a elocidade da in o mação são mais
alo izadas do que a p o undidade e a qualidade da análise.
P ocedimen o - Nunca p ocu a o “ odo”; nunca exclui o humano do p ocesso: Como já imos,
c ia um Ne noRe a o eque iden i ica os a o es- ede e iden i ica mónadas digi ais, e nunca o
“ odo”. Assim, o uso de Big Da a assume uma pa icipação colabo a i a, ao usa mos a capacidade
de analisa g andes conjun os de dados, e não uma pa icipação p o agonis a, onde se conside a
o pon o de pa ida da pesquisa. Ao conjuga a análise com mé odos ne nog á icos, o a o humano
es á inse ido em oda a equação. En ol e , de ce o modo, o pon o de is a dos pesquisado es e
p o issionais nos algo i mos ambém al e a o oco da g ande quan idade de dados pa a o con ex o
do p oje o. Is o é conseguido a a és de e apas en e o compu ado e o humano, onde, po
exemplo, o segundo pode p og ama o p ocesso de cole a de dados de o ma complexa ao le a
em con a á ias exceções de e mos e os seus con ex os, aze e isões pe iódicas de amos as
de dados pa a “ensina ” a máquina, en e ou os p ocedimen os possí eis. Cada p oje o e
ecnologia possibili a á um de e minado núme o de p ocedimen os.
P o ocação 2 - Rei indicações de obje i idade e p ecisão são enganosas: Es e pon o (2011, pp.
4–6) c i ica a noção de que o Big Da a é ine en emen e obje i o e p eciso. As au o as a gumen am
que os dados são semp e cole ados, in e p e ados e u ilizados po indi íduos ou ins i uições com
seus p óp ios ieses e agendas. Isso signi ica que, apesa do olume massi o de dados, ainda
exis e uma necessidade c í ica de in e p e ação cuidadosa e conside ação dos ieses ine en es.
Po an o, a obje i idade pu a é mais uma aspi ação do que uma ealidade no con ex o do Big Da a.
P ocedimen o – Nunca decla a obje i idade pu a; semp e p io iza pe spe i as; semp e p io iza
anspa ência: É impo an e elemb a que, no caso dos Ne no Re a os, e como ad ogamos no
uso de análise de Big Da a e em ou as e apas da p odução cien í ica, não exis e neu alidade ou
obje i idade pu a. Quando pa imos da p emissa de que odo o conhecimen o é si uado, de emos
se hones os quan o à nossa posição enquan o pesquisado es ou p o issionais. Delinea os nossos
panos de undo, inclinações eó icas e me odológicas, expe iência p é ia são alguns dos cuidados
a implemen a . Po ou o lado, p io iza a iden i icação e análise de pe spe i as nas dinâmicas das
mónadas digi ais/ANT/Pe spe i ismo assume que o in es igado ou p o issional nunca ansiou
107
e idencia a “obje i idade” de que as au o as alam. Es as p o ocações azem especial sen ido no
con ex o emp esa ial, onde p odu os p ecisam de se endidos como “in alí eis”, mas ambém
são pe inen es nos campos cien í icos, onde pesquisado es p ecisam con ence seus pa es de
que seu mé odo é alimen ado po dados “ ac ualmen e incon es á eis”. Pesquisado es e
p o issionais de em es a abe os à con es ação, a cons ui conhecimen o em conjun o e pa ce ia,
e a conside a elemen os como o Big Da a enquan o e amen as pa a análise e não esul ados
po si só.
P o ocação 3 - Dados maio es nem semp e são melho es dados: Boyd e C aw o d (2011, pp. 6-
8) ale am con a a suposição de que maio es quan idades de dados au oma icamen e esul am
em melho es
insigh s
ou conclusões mais p ecisas. Elas a gumen am que conjun os de dados
g andes podem esconde nuances impo an es e alha em cap u a a complexidade dos
enómenos sociais. Além disso, a ên ase em dados quan i a i os pode le a à des alo ização de
dados quali a i os, que são c uciais pa a a comp eensão comple a de mui os p oblemas.
P ocedimen o – Semp e a alia a “Validade” dos dados; u iliza ou os mé odos de análise
complemen a es semp e que possí el: A alia o con ex o em que os dados podem se aplicados
é uma p eocupação con emplada em um dos Vs ca a e izado es do Big Da a – Validade.
Pesquisado es e p o issionais não de em, assim, igno a e apas de a aliação a adequação dos
dados aos p oje os a que se p opõe. Exis e ainda uma e en e conhecida como Small Da a, eco e
de dados que pode p o i do p óp io Big Da a, que su ge como con apon o ao excesso de ex ação
de dados e ad oga o uso de
da ase s
meno es de qualidade (Fa away & Augus in, 2018).
De endemos ainda a u ilização de mé odos al e na i os ou complemen a es de análise de dados,
sendo que um Ne noRe a o semp e p ocu a essa simbiose.
P o ocação 4 - Nem odos os dados são equi alen es: Es e pon o (2011, pp. 8-10) des aca que
di e en es ipos de dados êm di e en es ní eis de ele ância e u ilidade. As au o as en a izam a
impo ância de en ende as ca a e ís icas especí icas de cada conjun o de dados, incluindo seu
con ex o, o ma de cole a e limi ações po enciais. Isso signi ica que os pesquisado es e analis as
de em se cau elosos ao compa a ou combina di e en es ipos de dados, pois isso pode le a a
in e p e ações enganosas ou incomple as.
P ocedimen o – Semp e a alia a “Validade” dos dados: Assim como no pon o an e io , se os
pesquisado es e p o issionais a alia em os dados que possuem, sabe ão de suas limi ações e
aplicabilidades con ex uais. Não se de em equipa a qualque ipo de dados, po ezes, a é pelos
108
con ex os das p óp ias on es. Is o é, como se equi alem compo amen os dos u ilizado es no
Twi e (X) e no Facebook se, no p imei o, os u ilizado es endem a publica con eúdo mais
equen e e b e e, mui as ezes ocado em ópicos a uais e discussões públicas? E, no segundo,
o con eúdo pode se mais pessoal e menos equen e, com oco em a ualizações de ida e
in e ações com um cí culo mais p óximo de amigos e amilia es? Uma obus a ase de
ca ego ização de dados, po exemplo, ajuda ia a desambigua ipos de publicações pa a que,
du an e a análise, ossem equi alen es, ou pelo menos, complemen a es, e não le assem a
in e p e ações e óneas sob e o compo amen o online dos u ilizado es.
P o ocação 5 - Só po que é acessí el não o na é ico: Boyd e C aw o d (2011, pp. 10-12) discu em
as complexidades é icas do uso de Big Da a, pa icula men e em elação à p i acidade e ao
consen imen o. Elas a gumen am que, só po que os dados es ão disponí eis publicamen e ou
podem se acilmen e acedidos, isso não os o na e icamen e neu os pa a uso em pesquisas.
Ques ões de p i acidade, consen imen o e po encial dano aos indi íduos ep esen ados nos dados
de em se conside adas cuidadosamen e.
P ocedimen o – Semp e que azoá el e possí el ob e consen imen o sob e os dados; semp e
conside a o mas de despis e de as os digi ais; nunca cole a o desnecessá io: Ob e
consen imen o pa a u ilização dos dados, além de al es a em con o midade legal, é uma das
o mas mais é icas de ob enção dos mesmos. Cole a de on es públicas pode con igu a -se numa
o ma mais conse ado a e jus a de ob enção de dados, po ém, os in es igado es e p o issionais
de em conside a os eixos sob e os quais o con eúdo assen a, que endo is o dize que ce os
dados podem con e in o mações sensí eis ou não de am se explo ados mesmo sendo públicos.
Embo a anonimiza os a o es seja um passo impo an e, é ambém ele an e lemb a que, em
de e minados casos, seja p e e í el pa a asea con eúdo. Especialmen e se em causa es i e a
análise de emas delicados ou a exposição de posicionamen os pessoais comp ome edo es.
Pa a asea con eúdo, des a ou qualque na u eza, é uma das o mas de despis a a possí el
iden i icação e localização dos a o es en ol idos. Além disso, é impo an e cole a apenas o
necessá io pa a a análise e implemen a medidas de segu ança sob e os dados.
P o ocação 6 - Acesso limi ado ao Big Da a c ia no os hia os digi ais: Es e pon o (2011, pp. 12-
13) abo da como o acesso es i o ao Big Da a pode pe pe ua desigualdades exis en es. As
au o as obse am que, equen emen e, somen e ins i uições pode osas ou indi íduos com
ecu sos signi ica i os êm acesso a g andes conjun os de dados e às e amen as necessá ias
115
3.4. Ne noRe a o – In aobje i o da cole a ao esul ado
Sim, in aobje i o a a-se de um e mo con ain ui i o. Como pode pa i a obje i idade do
subje i o? Um Ne noRe a o não é apenas um neologismo pa a uma pe sonalização de um paco e
eó ico e me odológico pa a analisa con eúdo online, mas sim uma a aliação ampla do pa icula
e da pe spe i a. Desde a na u eza do con eúdo online que analisamos à p odução de um
Ne noRe a o, caminhamos po á ias e apas onde a pa cialidade e condicionamen o, seja dos
dados ou da p odução de conhecimen o, nunca nos abandonam. Dize que p ocu amos
obje i idade no subje i o se ia pa adoxal, o que ambém se aplica se a i ma mos que analisamos
o pa cial ou as pe spe i as de o ma holís ica. Assim, pa a ealiza uma a aliação que le e em
con a os enómenos que condicionam a p odução e análise do con eúdo online, é necessá io
dialoga en e o obje i o e subje i o ao longo do p ocesso, diálogo esse que pa e semp e da
pe spe i a do in es igado ou p o issional. Po an o, dize que um Ne noRe a o é in aobje i o
signi ica que o in es igado ou p o issional olha c i icamen e pa a o mé odo u ilizado enquan o não
esquece dos con ex os condicionados e pa ciais da p odução e análise dos dados online nos
di e en es es ágios do p ocesso (lei u a, cole a e análise). Des a o ma, não nos colocamos em
busca de uma supos a obje i idade pu a, nem ab açamos a subje i idade.
A segui mos amos como um Ne noRe a o pode se in aobje i o ao le a em con a ês
pila es cen ais, ao que chamamos de “condições”, e e en es aos condicionamen os e
pa cialidades adjacen es à sua elabo ação. O p imei o cen a-se na ideia de que o con eúdo
p oduzido online es á sujei o à pla a o mização, enómeno que p ecisa se conside ado an o na
ase de lei u a ne nog á ica quan o na cole a au oma izada de dados. O segundo pila e e e-se à
pa cialidade dos códigos algo í micos, an o nos ambien es online em que os u ilizado es
ansi am, quan o nas e amen as digi ais u ilizadas pa a cap u a e analisa os dados. Po im, o
e cei o pila dedica-se à busca pela hones idade da p odução cien í ica ao assumi que odo o
conhecimen o é si uado. Es es pila es se ão explicados a segui , po ém, eis alguns exemplos de
ensões obje i as e subje i as que a análise in aobje i a em um Ne noRe a o le a ia em con a:
• In luência na c iação de con eúdo pelo u ilizado : Um in luenciado de iagens
equen emen e publica o os e his ó ias no Ins ag am. Ele pe cebe que as suas
publicações ecebem mais engajamen o quando inclui ce os ipos de hash ags ou
pos a du an e ho á ios especí icos do dia. Is o le a-o a ajus a o seu con eúdo e o

116
ho á io dos seus pos s pa a se alinha com esses pad ões, in luenciando a manei a
como ele exp essa as suas expe iências de iagem.
• Viés na cole a de dados: Uma pesquisado a usa um so wa e de análise de médias
sociais pa a es uda opiniões sob e mudanças climá icas. Ela seleciona pala as-
cha e especí icas pa a cole a dados, mas não pe cebe que a e amen a p io iza
au oma icamen e publicações com mais in e ações. Isso esul a em um conjun o de
dados que se inclina mais pa a pos s popula es e possi elmen e pola izados, ao in és
de um espec o mais amplo de opiniões.
• Subje i idade na análise de dados: Um analis a de dados abalha em um p oje o pa a
en ende pad ões de comp as online. Ao analisa os dados, ele se concen a em ce as
ca ego ias de p odu os que ac edi a se em mais ele an es pa a o compo amen o do
consumido , com base em suas expe iências e conhecimen o p é io. Es a escolha
in luencia a in e p e ação dos esul ados, po encialmen e negligenciando pad ões
signi ica i os em ou as ca ego ias de p odu os.
P ocu a a in aobje i idade num Ne noRe a o é, en ão, uma an í ese do que con e imos
an e io men e (Boyd & C aw o d, 2011), ou seja, pe segui a habi ual ei indicação da obje i idade
das análises de dados digi ais. A p io idade o na-se o e em a enção a complexidade das nuances
en ol idas nes as a e as. Realiza uma análise in aobje i a é aspi a à obje i idade na medida
em que en a izamos e econhecemos a sua ina ingibilidade undamen al de ido às in luências
subjacen es. A c iação do e mo pa e da inexis ência de um que desc e a es a in e seção, mas
ambém enquan o incen i o pa a abo da a análise de dados digi ais mais c i icamen e. Além
disso, ele alinha com o quad o eó ico ge al do Ne noRe a o, is o é, an o com o nosso
enquad amen o eó ico an e io (pe spe i ismo, a o - ede e mónadas), po oca no pa icula ,
quan o com as nossas p eocupações dos pon os que aqui se seguem (pla a o mização,
pa cialidade do código e conhecimen o si uado). Ainda sob e a necessidade do e mo su gem dois
pon os a cla i ica .
P imei o, “in aobje i o” pode se c i icado po possui ambiguidade em mis u a
concei os de obje i o e subje i o de o ma p oblemá ica, po ém, al é in encional po e le i a
ealidade mul i o me da análise de dados online, onde a obje i idade pu a é inalcançá el e a
simples subje i idade não p oduzi ia ciência. Adicionalmen e, da mesma o ma que de endemos
que o e mo CMC já não ep esen a a complexidade da comunicação e in e ação pela in e ne ,
117
es a e minologia he da uma complexidade ine en e à análise que emp egamos. O que nos le a
ao segundo pon o.
Po que não enquad a as ca a e ís icas des a análise no espec o de ou os concei os?
In e subje i idade, enomenologia ou cons u i ismo, po exemplo? Es as são algumas das
abo dagens com as quais ejo simila idades supe iciais com a in aobje i idade u ilizada no
Ne noRe a o, po ém, nenhuma é sinónima de ido ao que é a aplicação de uma análise
in aobje i a. Enquan o a in e subje i idade lida com a sob eposição de expe iências subje i as
en e múl iplos indi íduos pa a o ma um en endimen o comum, in aobje i idade oca na ensão
en e a aspi ação à obje i idade e as in luências subje i as ine en es den o de um único p ocesso
de análise de dados. Enquan o a enomenologia se concen a na expe iência subje i a do indi íduo
como pon o de pa ida pa a en ende a ealidade, a in aobje i idade abo da a análise de dados
digi ais onde a subje i idade e a obje i idade são en elaçadas de uma o ma que ai além da
expe iência indi idual pu a, o que en a iza a na u eza complexa e condicionada da in o mação e
conhecimen o de i ados desses dados. Já quan o ao cons u i ismo, es e oca-se mais em como
o conhecimen o é cons uído social e cul u almen e, enquan o a in aobje i idade é especí ico pa a
a análise de dados digi ais, incluindo o design de pla a o mas, algo i mos, e a p óp ia na u eza da
in e ação digi al, o que cap u a a singula idade do ambien e digi al e a elação complexa en e
dados, in e p e ação e ealidade. De um modo ge al, in aobje i idade não é seque uma
abo dagem al e na i a às ci adas, mas sim uma solução consciencializado a pa a os
pesquisado es e p o issionais que p ocu em ealiza uma análise de dados que compo a as
p esen es ensões en e obje i idade e subje i idade. Eis como si ua íamos, hipo e icamen e, es e
ipo de análise em elação a ou as abo dagens, quan o ao seu posicionamen o no espec o
obje i idade/subje i idade e maio ou meno e lexão c í ica pe an e si p óp ia:
118
3.4.1. Condição 1: pla a o mização
As pla a o mas digi ais possuem á ias p emissas, o que acaba po in luencia o ipo de u ilizado
que nelas na egam. Se udo o que o u ilizado p e ende é publica ídeos sob e a indús ia musical,
po exemplo, po que op a pelo YouTube e não po um simples si e ou blogue dedicado ao ema?
As azões podem se múl iplas e os lei o es já de em e pensado em algumas no deco e des a
ase. Ao mesmo empo que os lei o es ou o u ilizado azem uma e isão sob e as an agens e
des an agens de suas escolhas, as pla a o mas digi ais c iam cul u as em o no de si mesmas, as
quais es ipulam público-al o da pla a o ma, mone ização en ol ida, ipo de con eúdo com mais
p obabilidade de se impulsionado, en e mui os ou os a o es que impac am a expe iência dos
u ilizado es e a pe ceção da p óp ia pla a o ma na in e ne . Pla a o mas nunca são “cons uções
neu ais nem sem alo ” (Van Dijck e al., 2018, p. 3).
Van Dijck e al. (2018) de endem o uso do e mo “sociedade de pla a o ma” pa a deno a
a elação en e pla a o mas e es u u as sociais, is o que as p imei as po si só não “causam
uma e olução” (p. 2). Is o suge e que ce as mundi idências e p á icas implemen adas pelas
pla a o mas apenas emulam o que já acon ece no mundo o line. Segundos os au o es, se iços
e a i idades o necidas pela sociedade de pla a o ma escondem mecanismos em si p esen es que
Figu a 7: In aobje i idade si uada no espec o.
119
ão além da a e a de acili a ou p o idencia algo pa a os seus u ilizado es. Supos amen e
acei amos os e mos e condições aliados a um de e minado ecossis ema na sociedade da
pla a o ma, mas a al a de anspa ência e con olo sob e os nossos dados, assim como ques ões
é icas e mo ais ine en es, p ecisam de se melho discu idas.
A o ma como as pla a o mas mone izam e en abilizam inancei amen e os seus se iços
e p odu os es á, em g ande pa e, a ás de uma co ina algo í mica. Mesmo quando pla a o mas
digi ais são esc u inadas publicamen e, como acon eceu no escândalo en ol endo o Facebook e
a Camb idge Analy ica em 2010, a p imei a conseguiu esguei a -se de á ias si uações em que
nos elucida ia quan o ao uncionamen o dos seus algo i mos. Os seg edos ecnológicos bem
gua dados pe mi em, à pa ida, a i ep odu ibilidade de de e minados se iços, mecanismos ou
unções den o das pla a o mas digi ais, mas ambém o acúmulo de capi al e a c iação de
monopólios digi ais. Se, po exemplo, o Google Schola
13
e o mo o de busca da Google es ão
conec ados (Van Dijck e al., 2018, p. 17), in es igado es que abdica em de publica os seus
abalhos no p imei o eduzi am as suas chances de se em encon ados no maio mo o de busca
na in e ne . Seja po desdob amen os den o dos ambien es já es abelecidos pelas pla a o mas
(e.g. Google c ia o Google Schola ), pela colabo ação com ou as (e.g. Easyje com o Booking.com
ou Eu opca ), ou a é pela aquisição (e.g. Amazon comp a Twi ch), co po ações de signi ica i o
po e endem a con ola as á ias es e as da sociedade da pla a o ma, do en e enimen o à
in o mação, do comé cio à educação, e c.
13
O Google Schola é um mecanismo de busca g a ui o que indexa li e a u a acadêmica e cien í ica de di e sas
disciplinas e on es online.
120
A imagem acima mos a um cená io onde, em 2018, di e en es se o es e am dominados po cinco
g andes emp esas: Alphabe Inc (Google), Facebook (hoje conhecida ambém po Me a), Apple,
Mic oso e Amazon. As chamadas Big Fi e possuem ainda agência em ou os se o es, como na
comunicação, en e enimen o e laze , o que inclui si es de edes sociais. Es es ecossis emas
digi ais dos Big Fi e, os quais ambém possuem componen es ísicos (ou so wa es aliados a
ha dwa e), o na am-se em p odu os e se iços base nas suas espe i as indús ias. Es a ese oi
edigida num compu ado com o sis ema ope a i o Windows (Mic oso ), onde u ilizei o Gmail
(Google) e o Wha sapp (Me a) pa a comunica ele onicamen e com os meus o ien ado es, embo a
enha u ilizado um Kindle (Amazon) pa a le o e-book sob e a sociedade de pla a o ma.
Independen emen e da i ula idade de posse de cada pla a o ma, a maio ia de nós
pa icipa, em algum g au, dos ecossis emas digi ais des as e dou as emp esas, os quais se
al e am cons an emen e. Van Dijck e al. (2018) denomina am es as dinâmicas de
pla a o mização. Po exemplo, o TikTok da chinesa By eDance ans o mou-se num enómeno
global e, em janei o de 2023, possuía mais de 1 bilhão de u ilizado es mensais a i os (Figliola,
Figu a 8: Pla a o mas se o iais pe encen es ao Big Fi e.
Fon e: an de Vlis (2018).

121
2023), o nando-se um espaço de p odução e consumo de in o mação e en e enimen o com um
o ma o de ídeo ipicamen e mais cu o e assen e na pa icipação de endências.
Ao analisa uma mudança pa adigmá ica impo an e como a pla a o mização da
sociedade, é ine i á el econhece a plu alidade de alo es, as suas lógicas de
jus i icação, bem como as di e sas conceções de bem comum associadas a essas
lógicas. Pa a al análise, é necessá io comp eende as in aes u u as de pla a o ma, os
modelos económicos e os discu sos como pe o ma i os. (Van Dijck e al., 2018, p. 24)
Além disso, a da i icação, is o é, a ans o mação de nossas ações e hábi os em dados,
p o idenciam às pla a o mas o “po encial pa a desen ol e écnicas de p edição e análise em
empo eal” (p. 33). As implicações da pla a o mização a é aqui mencionadas deno am um
p ocesso em que as pla a o mas online se o nam in aes u u as dominan es na sociedade e
economia, in luenciando como as pessoas in e agem, azem negócios e se en ol em socialmen e.
Es as dinâmicas elacionam-se com a análise in aobje i a do Ne noRe a o po ela
econhece que as pla a o mas não são apenas e amen as neu as, mas sim es u u as
pode osas que moldam in e ações sociais e económicas. Se ia impossí el delinea um de alhado
passo-a-passo me odológico nes es quesi os que elacionam a in aobje i idade do Ne noRe a o e
a pla a o mização, pois cada espaço digi al o e ece os seus desa ios especí icos, os quais se
al e am cons an emen e como pa e in ínseca da p óp ia pla a o mização. Conside amos, no
en an o, necessá io aze uma e lexão em seis se o es esul an es da pla a o mização, ópicos
es es in e conec ados, os quais de em es a p esen es na análise in aobje i a do Ne noRe a o.
Nes e p imei o caso sob e o domínio das in aes u u as sociais e económicas, p opomos dois
simples exe cícios. P imei amen e, é p eciso
mapea a in aes u u a
a a és de uma iden i icação
de quais pla a o mas são dominan es no con ex o do es udo p e endido, e como sua in aes u u a
a e a os dados disponí eis. Em sequência, de e-se
analisa o acesso ao con eúdo
, pois assim é
possí el en ende como o domínio das pla a o mas sob e a dis ibuição de con eúdo pode
in luencia quais dados são acessí eis pa a análise. Es es dois passos pe mi em que os
in es igado es ou p o issionais a aliem c i icamen e como as in aes u u as das pla a o mas
in luenciam os dados cole ados, conside ando aspe os como acesso, isibilidade e dis ibuição de
con eúdo.
A segunda consequência da pla a o mização a le a em con a cen a-se na sua
in e mediação da comunicação do con eúdo. A di e si icação do con eúdo ambém se o na uma
122
ques ão nes e pon o. Chen e al. (2023) ale am pa a o papel das edes sociais, especi icamen e
o YouTube, na di e si icação da comunicação cien í ica e em que medida elas p omo em uma
a iedade de pe spe i as e ozes. Apesa da espe ança de que as edes sociais democ a izassem
a p odução de conhecimen o, o seu es udo e ela um pad ão de "inclusão seg egada". Es e e mo
desc e e um cená io onde, apesa da p esença de di e sos p odu o es de con eúdo em e mos
de idade, géne o, idioma, e c., ou ipo de con eúdo (di e sidade de pe il), um pequeno g upo de
"supe conec o es" p edominan emen e ligados a canais dos média adicionais domina a
con e sa (di e sidade de ede). Es e pad ão, aplicado aqui ao You ube, espelha as desigualdades
sociais e desa ia a noção de que as pla a o mas digi ais democ a izam ine en emen e a p odução
de conhecimen o. Já Ta le on Gillespie (2010), no seu a igo “As polí icas das pla a o mas”
ap o unda-se na complexidade das pla a o mas digi ais ao des aca como es as negociam o seu
papel como acili ado as de con eúdo, enquan o simul aneamen e ge enciam ques ões de
go e nança, mode ação de con eúdo e elações come ciais. O au o examina as ensões en e a
ap esen ação das pla a o mas enquan o espaços abe os e democ á icos pa a a exp essão e a
ealidade de suas p á icas ope acionais, que incluem escolhas edi o iais e polí icas de mode ação
que moldam o discu so público. Gillespie acaba po c i ica a pos u a des as pla a o mas quan o
à ei indicação de neu alidade, enquan o exe cem um con ole signi ica i o sob e o que é is o e
pa ilhado, le an ando ques ões impo an es sob e anspa ência, esponsabilidade e o papel
dessas emp esas no ecossis ema da in o mação digi al. De ce a o ma, se os in es igado es ou
p o issionais econhece em a nossa suges ão de emp ego do e mo CAC, em ez de CMC, es es
já es a ão le ando em con a a in luência da pla a o mização na in e mediação da comunicação de
con eúdo. Adicionalmen e, de em-se segui dois aciocínios na análise in aobje i a do
Ne noRe a o. Em p imei o es á a a e a de
iden i ica as polí icas e algo i mos
, is o é, pesquisa e
documen a as polí icas especí icas das pla a o mas e os algo i mos que podem in luencia a
comunicação e o con eúdo. Desde a análise dos dados cole ados po quem es á a ealiza a
pesquisa, ao ecu so de consul a bibliog á ica, se á possí el isualiza , pelo menos, alguns pad ões
de como as pla a o mas em causa endem a in e media a comunicação de seu con eúdo. O
segundo passo ecai em
a alia o impac o nos dados
, ou seja, conside a como essas polí icas e
algo i mos p e iamen e iden i icadas podem dis o ce ou il a os dados cole ados.
Conside amos que a e cei a es e a de discussão sob e as consequências da
pla a o mização se es endem sob e a pe sonalização dos algo i mos. Buche (2012) des aca a
impo ância dos algo i mos na pe sonalização do con eúdo que os u ilizado es ecebem pelas
123
pla a o mas como o Facebook, a e ando a isibilidade e a na u eza da in e ação social. A au o a
suge e que “exis e uma disc epância en e o que os u ilizado es pensam que de em e e o que
o Facebook pensa que os u ilizado es de em e ” (2012, p. 1169), ao se e e i ao con eúdo
exibido no News Feed
14
. A pe sonalização des e con eúdo, que pode se pa ocinado, pode ambém
a e a os compo amen os dos u ilizado es online pela “ameaça” des es se o na em in isí eis:
No Facebook não há an o uma "ameaça de isibilidade" como uma "ameaça de
in isibilidade" que pa ece ege as ações dos seus sujei os. O p oblema, ao que pa ece,
não é a possibilidade de se cons an emen e obse ado, mas a possibilidade de
desapa ece cons an emen e, de não se conside ado su icien emen e impo an e. Pa a
apa ece , pa a se o na isí el, é p eciso segui uma ce a lógica de pla a o ma
inco po ada na a qui e u a do Facebook. (Buche , 2012, p. 1171)
Se po um lado os algo i mos pe sonalizam o que emos, e po ou o in luenciam o que
publicamos, é c iado aqui um ciclo es u u al e oalimen ado. Realiza uma análise in aobje i a
a pa i de Ne noRe a os colabo a assim pa a uma in es igação que além de e “em con a as
mudanças nas p á icas edi o iais dos media, cada ez mais delegadas aos algo i mos”, ambém
se p eocupa com as “mudanças nos p essupos os cul u ais sob e a na u eza das edes sociais
que es ão a se inco po adas nas a qui e u as algo í micas” (p. 1178). A nossa ecomendação
incide em a)
descons ui algo i mos
ao en a en ende a lógica po ás dos algo i mos de
pe sonalização e como eles moldam a expe iência do u ilizado , seja a a és da ne nog a ia,
análise de dados ou a é pesquisas já ealizadas, e b)
es a di e en es pe spe i as
ao usa múl iplas
con as ou pe is pa a explo a como a pe sonalização pode a ia e a e a a cole a de dados.
A ualmen e já é inclusi e possí el simula que nos encon amos nou as localizações geog á icas
com o uso de VPNs
15
. Des a o ma podemos in es iga as implicações dos algo i mos na cole a e
análise de dados, especialmen e em como eles podem c ia bolhas de in o mação ou dis o ce a
ep esen a i idade dos dados.
14
Mu al onde u ilizado es ecebem as a ualizações e con eúdo, an o po pa e da sua ede de amigos quan o ou os
con eúdos p omo idos e suge idos pelo algo i mo. O nome des e mu al de a ualizações oi al e ado pa a apenas
“Feed” em 2022 (Cla k, 2022).
15
Uma VPN (Vi ual P i a e Ne wo k) é uma ecnologia que c ia uma conexão, à pa ida segu a e c ip og a ada, sob e
uma ede menos segu a, como a in e ne , pe mi indo p i acidade e acesso segu o a ecu sos de ede emo os. A
ecnologia pe mi e masca a a localização eal do u ilizado , sendo comum o seu uso pa a con o na es ições
geog á icas em con eúdos online, acede a se iços bloqueados em ce os países ou simplesmen e pa a aumen a a
p i acidade ao ocul a o ende eço IP.
124
A nossa qua a p eocupação sob e os e ei os da pla a o mização e le e-se na economia
de dados e mone ização. S nicek (2017) discu iu, em
Pla o m Capi alism
, como as pla a o mas
digi ais se baseiam em uma economia de dados, ao cole a e mone iza in o mações de
u ilizado es. Mais do que ala mos das es u u as económicas de uma o ma mac o, como
mencionado na p imei a consequência da pla a o mização que lis amos, S nicek (2017) de ine o
capi alismo de pla a o ma como um modelo económico que depende da c iação de pla a o mas
digi ais, as quais acili am as in e ações e ansações en e u ilizado es, emp esas e ecu sos. Is o
implica que, além das ques ões en ol idas com a p i acidade dos u ilizado es, exis em dinâmicas
p óp ias de me cado que ambém a e am ou as á eas como, po exemplo, a pesquisa académica.
O Twi e (ago a X) oi, em empos, uma das pla a o mas u ilizadas pa a es uda as eações dos
u ilizado es sob e á ios assun os e e en os, dada a sua na u eza e cul u a de publicações cu as.
Elon Musk ence ou no p imei o imes e de 2023 o acesso g a ui o à API, impac ando inúme as
pesquisas, como a nossa, e colocou o seu acesso pago di ecionado pa a emp esas, igno ando a
academia, a ás de alo es imp a icá eis pa a a maio ia dos pesquisado es (Calma, 2023).
O ence amen o iminen e é um golpe pessoal pa a o coc iado do Bo ome e , Kai-Cheng
Yang, um in es igado que es uda a desin o mação e os bo s nas edes sociais e que
ob e e ecen emen e o seu dou o amen o em in o má ica na Uni e sidade de Indiana,
em Blooming on. "Todo o meu dou o amen o, oda a minha ca ei a, baseia-se
p a icamen e em dados do Twi e nes e momen o. É p o á el que não es eja mais
disponí el no u u o", diz Yang ao The Ve ge. (Calma, 2023)
A análise in aobje i a elaciona-se com es as consequências da pla a o mização ao
econhece ques ões é icas em causa e o impac o económico das pla a o mas na disponibilidade
e ipo de dados. P ecisamos assim de
analisa as on es de dados
no que diz espei o à
examinação das mo i ações económicas po ás dos dados disponibilizados pelas pla a o mas.
Es a análise pode le a os pesquisado es ou p o issionais a conside a ou os meios de ex ação
de dados e, cla o, se i de lemb e e de que não de emos assumi que o acesso aos dados não
aca e a á cus os ou se á semp e possí el. Qualque dado ob ido a pa i de uma pla a o ma
de e á ainda passa po uma
conside ação sob e o iés de mone ização
. Po ou as pala as,
p ecisamos e le i sob e como a necessidade de mone ização pode in luencia quais dados são
cole ados e disponibilizados.
A quin a implicação de i a i a da pla a o mização que des acamos conce ne o impac o na
o mação de opinião pública. Van Dijck e Poell (2013) abo dam como as pla a o mas in luenciam
131
o con ex o em ques ão. Po exemplo, o uso de um modelo que não conside a a não linea idade
en e a iá eis pode le a a in e p e ações e óneas de suas elações. De ac o, o modelo de
análise escolhido pelos pesquisado es e p o issionais já é, po si só, uma possí el on e de
pa cialidade. Além disso, decisões omadas du an e a limpeza e o p é-p ocessamen o de dados
ambém podem a e a os esul ados da análise. Po exemplo, a emoção de "ou lie s" sem uma
jus i ica i a plausí el pode exclui in o mações impo an es, especialmen e se esses dados a ípicos
ep esen a em mino ias ou exceções c í icas. No caso de algo i mos de ap endizagem de máquina
einados com dados en iesados, pode-se pe pe ua ou a é ampli ica os en iesamen os já
con idos no banco de dados o iginal. Um caso no ó io oi o do sis ema de econhecimen o acial
da IBM, que oi c i icado po sua p ecisão desigual en e di e en es géne os e e nias, e le indo os
ieses p esen es nos dados de einamen o. Po im, e como pode acon ece nos algo i mos, a
o ma como os dados são in e p e ados pode e le i as expec a i as ou p econcei os dos analis as,
o que é pa icula men e p oblemá ico em análises subje i as. Uma das hipó eses pa a ajuda a
ul apassa es a si uação é eco e aos dados sin é icos jus os
22
( an B eugel e al., 2021), ou
seja, dados ge ados a i icialmen e que são p oje ados pa a se em li es de ieses injus os ou
disc imina ó ios p esen es nos dados o iginais. Eles são c iados ao usa algo i mos e écnicas
especí icas que isam eplica as ca a e ís icas es a ís icas dos dados iniciais, ao mesmo empo
em que ajus am ou emo em dispa idades que pode iam le a a conclusões endenciosas ou a
a amen os desiguais de di e en es g upos. A ideia é que, ao usá-los em einamen o de modelos
de ap endizagem de máquina, pode-se p omo e a equidade e a inclusão, ga an indo que os
sis emas au oma izados uncionem de manei a jus a pa a odos, independen emen e da e nia,
géne o, idade ou qualque ou a ca a e ís ica po encialmen e disc imina ó ia.
De um modo ge al, a pa cialidade do código algo í mico é possí el de ido à pa cialidade
humana. Realiza uma análise in aobje i a e e e-se assim ambém à en a i a de minimiza a
in odução de pa cialidade nas e apas que acima desc e emos, como uma p á ica complemen a
à conside ação dos impac os dos e ei os da pla a o mização sob e os dados ob idos. Dizemos
“ en a i a” de ido à di iculdade aliada a a e as mais desa ian es como audi a um código
algo í mico e a impossibilidade de se mos cem po cen o isen os. Como imos, embo a exis am
p ocessos que podem se ú eis pa a a “despa cialização”, é impo an e conside a se esse a o
não é, po si só, uma o ma de se pa cial. Po ezes, conjun os de dados de em se abandonados
22
Fai syn he ic da a

132
ou analisados com a expec a i a de que i ão p oduzi esul ados mui o limi ados ou quase-inú eis.
A ideia de “despa cialização” ambém se ia mais e e i a se, além de uma au oc í ica po pa e
dos analis as, se o nasse uma p eocupação dos p óp ios p og amado es:
Ou a o ma de mi iga os p econcei os ecai nos o mado es e c iado es da IA. Ao o ná-
los conscien es dos seus p óp ios p econcei os, emos mais hipó eses de os man e o a
dos algo i mos. É impo an e no a que o p econcei o humano exis e e é di ícil de mi iga
de ido ao ac o de se uma ca a e ís ica e olu i a, mas es amos cada ez mais
conscien es dos p econcei os a que o nosso p óp io cé eb o é susce í el. Pa a conclui ,
os algo i mos podem aze pa e da a enuação dos p econcei os ins i ucionais - se nos
man i e mos educados, conscien es, in eligen es e sele i os. (Kwan, 2018)
Po ou o lado, um Ne noRe a o p ima po abalha mónadas digi ais ao iden i ica
pe spe i as, o que po si só se con igu a na análise do pa cial. Essencialmen e, o Ne noRe a o já
assume a p esença da subje i idade nas na a i as que i á iden i ica , a ideia de que o banco de
dados ecolhido é si uacional e ma cado pelo empo e espaço, e que as pe spe i as ão mos a
as mo i ações dos agen es, e não uma e dade absolu a. A sua in aobje i idade a ua enquan o
uma p eocupação e au oc í ica cons an e sob e o mé odo p opos o, na busca de soluções caso-a-
caso pa a as pa cialidades do código exis en es em cada diagnós ico, e apas e p ocessos. Embo a
posi i os sob e implemen a p á icas numa conjugação da análise de Big Da a à análise
ne nog á ica, es amos longe de deposi a uma con iança cega nos dados ao abdica de um modelo
cien í ico (Ande son, 2008), assumindo uma posição “ ecno-op imis a a pa i de uma pe spe i a
mais polí ica-pessimis a, ilus ando assim o seu alo pa a in e oga a u ilização de g andes
olumes de dados” (Vyd a & Klie ink, 2019, p. 2) A análise in aobje i a comple a-se quando os
pesquisado es e p o issionais es ão cien es da sua posição pe an e o obje o e o que p oduzem, o
que nos le a a ala na sua úl ima condição – o conhecimen o si uado.
3.4.3. Condição 3: conhecimen o é si uado
Em suma, o conhecimen o si uado, desen ol ido po Donna Ha away (1988), pa e da ideia de
que odo conhecimen o é especí ico ao seu con ex o, moldado assim po pa icula idades cul u ais,
polí icas, sociais e geog á icas. O a gumen o se opõe à noção de uma isão uni e sal ou neu a,
p opõe em ez disso que odas as pe spe i as são pa ciais e si uadas. Is o signi ica que a o ma
como conhecemos o mundo depende de nossa posição den o dele, o que inclui aspe os como a
iden idades de géne o, classe social, e nia, ou ou os a o es. O conhecimen o si uado em a sua
133
base nos es udos eminis as ao discu i a elação de p odução de conhecimen o e a his ó ica
ma ginalização de pe spe i as não dominan es, discu so que a a és de um a gumen o de
“obje i idade” se e oalimen a a de au o idade. Nis o, a au o a não se posiciona acima
mo almen e, o nando cla o ambém que “a obje i idade eminis a signi ica mui o simplesmen e
conhecimen os si uados” (Ha away, 1988, p. 581).
A c i ica aplica-se à isão obje i is a da ciência, que p essupõe a possibilidade em ob e
um conhecimen o desin e essado e uni e sal. Es e úl imo igno a como as posições sociais e
polí icas dos cien is as in luenciam a p odução do conhecimen o, o que le ou a au o a a de ende
uma abo dagem que econheça e inco po e essas in luências, acei ando a pa cialidade e a
especi icidade do conhecimen o:
Não p ocu amos os sabe es egidos pelo alogocen ismo (nos algia da p esença da única
Pala a e dadei a) e pela isão desenca nada. P ocu amos os que são egidos pela isão
pa cial e pela oz limi ada - não a pa cialidade po si só, mas an es po causa das
conexões e abe u as inespe adas que os sabe es si uados o nam possí eis. Os sabe es
si uados são sob e comunidades, não sob e indi íduos isolados. A única o ma de
encon a uma isão mais ala gada é es a algu es no pa icula . (Ha away, 1988, p. 590)
Conside amos es a ação ex emamen e azoá el po e ela hones idade cien í ica. A
in aobje i idade que p opomos se ca a e iza ambém po es e modo de es a /se cien í ico, is o
é, além de p ecisa mos de e em a enção as ensões e pa cialidades do código exis en es no meio
sociodigi al, os pesquisado es e p o issionais de em se hones os quan o à sua posição e pon os
de pa ida. A p emissa que pe mi e um conhecimen o si uado se um conhecimen o álido, apesa
das dinâmicas subje i idades/obje i idades, é a mesma que legi ima a in aobje i idade, po
equaciona um eal no mundo ex e io (obje i idade) desde uma isão e posição que pa em do
in e io (in a-). Po isso, o p imei o passo na elabo ação de um Ne noRe a o se á en ão
econhece “quem” o execu a. Pois, al como o conhecimen o si uado, um Ne noRe a o não ope a
nas lógicas mais adicionais de como a ciência é ge almen e p a icada, como pensamos sob e
au o idade, conhecimen o e pode . Ele ques iona a neu alidade da ciência e suge e que a
obje i idade “ e dadei a” só pode se alcançada ao econhece e in eg a múl iplas pe spe i as
si uadas, não po uma “ques ão de desin e esse, mas de es u u ação mú ua e ge almen e
desigual, de assumi iscos” (1988, p. 595).
134
Adicionalmen e, no con ex o do Ne noRe a o, exis em aqui algumas pon es en e eo ias.
De um lado, e como imos na úl ima ci ação em des aque, há uma elação en e es a no
“pa icula ” e consegui uma “ isão ala gada” na p odução de conhecimen o si uado. Do ou o,
lemb ando Ta de e La ou , “es uda o social é descob i o pa icula ” (La ou , 2012, p. 200). Ao
mesmo empo que o emisso é ele an e e undamen al, essa isão p ecisa ainda de se
descen alizada do humano pois “acei a a agência dos obje os es udados é a única manei a de
e i a e os g ossei os e alsos conhecimen os” (Ha away, 1988, pp. 592-593) nas ciências
sociais, mo i o pelo qual um pesquisado ou p o issional não pode se isen o mas sim ime so no
con ex o a se es udado num Ne noRe a o, ao pon o de a ua como um “xama” no sociodigi al,
só assim “capaz de e os não-humanos como eles se eem a si p óp ios” (Vi ei os de Cas o,
2004, p. 468). Uma posição con á ia a ideia do "olha de Deus", uma me á o a pa a o
conhecimen o cien í ico que p e ende se comple amen e obje i o e des inculado de qualque
pe spe i a pa icula . Assim, um a gumen o que coloca es e ipo de olha como uma
impossibilidade e assume que odo conhecimen o é, de ac o, uma isão a pa i de algum luga
especí ico e in e io , e não uma isão “que insc e e mi icamen e odos os co pos ma cados, que
az com que a ca ego ia dos não ma cados ei indique o pode de e e não se is o, de
ep esen a enquan o escapa à ep esen ação” (Ha away, 1988, p. 581). Po im, é impo an e
e em con a que a p odução de conhecimen o de e se is a como uma cons ução colabo a i a,
en ol e a in e ação en e di e en es pe spe i as si uadas e não apenas daquele que subme ge.
Ha away suge e (p. 592) uma espécie de isão poli ônica, is o é, a alo ização da mul iplicidade
de ozes e pe spe i as ao econhece que a comp eensão mais comple a e ica do mundo em
da soma dessas isões pa ciais, em ez de a a o obje o de es udo “como esc a o do mes e
que echa a dialé ica na sua agência única e na sua au o ia do conhecimen o ‘obje i o’”.
3.5. Pe il do Ne noRe a o – conside ações e implemen ação
Es e pon o, que ado a um o ma o simila a um pe il, ence a a nossa inicial p eposição do
Ne noRe a o e o nosso p incipal enquad amen o eó ico-p á ico. Ao elaciona os ês p imei os
capí ulos, i emos começa po algumas conside ações sob e a e amen a me odológica,
lemb ando que não olhamos pa a es a como algo echado ou comple o. Segui emos com o ópico
das implemen ações possí eis de um Ne noRe a o e os seus luxos p á icos, delineando uma
es u u a básica.
135
Conside ações
A impo ância dos “con ex os”
Como já pode e sido epa ado pelos lei o es, o Ne noRe a o e a in aobje i idade possuem uma
ixação po conside a semp e os con ex os en ol idos em suas e apas. Es a é uma p eocupação
com a ab angência, equidade e plu alidade. Eis os p incipais con ex os que le amos em con a:
• Con ex o disciplina – As ideias de um Ne noRe a o ou análise in aobje i a o am
concebidos com a in e e ansdisciplina idade em men e. Embo a a sua c iação es eja
di ecionada pa a a análise de obje os cul u ais complexos na in e ne , ac edi amos que
pesquisado es e p o issionais consegui ão aplica os seus p incípios às disciplinas e á eas
dis in as do nosso enquad amen o disciplina . No nosso caso, in e essa-nos analisa
obje os a a és de uma len e eó ico-p á ica que mescle di e en es escolas dos Es udos
Cul u ais e o ou as disciplinas, pa a ga an i obus ez à análise, mas ambém equilíb io
de in luências.
• Con ex o cul u al – Um Ne noRe a o p ocu a in e cala di e en es concei os de cul u a
( e o pon o dois) pa a cap a á ias ace as da sua ep esen ação. Além disso, en ende
os con ex os cul u ais dos obje os a se em es udados é le a em con a como a cul u a
mode a os alo es e compo amen os dos indi íduos (Roccas & Sagi , 2010), aspe o
impo an e a se iden i icado no início de um Ne noRe a o po in o ma os pesquisado es
e p o issionais das lógicas de codi icação e descodi icação comunicacionais e
sociocul u ais p esen es.
• Con ex o da in e ação – O Ne noRe a o busca en ende em que con ex o as na a i as
online são c iadas e man idas. Seja pela iden i icação dos a o es- ede (La ou , 2012) ou
pela análise da ap op iação das limi ações e possibilidades o e ecidas pelas e amen as
u ilizadas (Recue o, 2014), ou ainda pelo econhecimen o das consequências da
pla a o mização (Van Dijck e al., 2018), c ia um Ne noRe a o é mapea as pe spe i as,
dinâmicas e ensões dos con ex os de in e ação en ol idos no obje o a analisa .
• Con ex o da p odução de conhecimen o – Elabo a um Ne noRe a o eque não igno a
quem o elabo a, as suas in luências e os sis emas que a uam enquan o base pa a a
p odução de conhecimen o.
136
P á ico, eó ico e i o
Um Ne noRe a o se alimen a do ínculo en e p á ica e eo ia. Enquan o esul ado mos a uma
pe spe i a si uada no espaço- empo, po ém, enquan o e amen a mos a-se um me a-mé odo i o
e adap á el. Ele não es á ci cunsc i o ao mundo académico ou p o issional, sendo que se o alece
a pa i de ambos. T a a-se de um posicionamen o de p a ican es e lexi os, is o é, “agen es da
con e sa e lexi a da sociedade com a sua si uação, agen es que se en ol em em in es igação
coope a i a num quad o de con enção ins i ucionalizada.” (Schön, 1991, p. 353). Se os con ex os
das di e en es aces do obje o es ão econhecidos, assim como Hall e colegas iam p og edindo
nos Es udos Cul u ais con o me iam ensinando, não emos po que não p og edi con o me amos
azendo. O e ei o au oc í ico da in aobje i idade e abo dagem in e disciplina man ém o
Ne noRe a o em con olo, sem limi á-lo, e enco ajando que os in es igado es e p o issionais
possuam a “capacidade de pa icipa num diálogo signi ica i o que suspenda o seu pon o de is a”
(Guima ães e al., 2019, p. 4).
Pe sonalização de análise em eixo concei ual
Pa a uma análise pode se chamada de Ne noRe a o é necessá io segui o enquad amen o
concei ual nes e capí ulo desc i o. Em esumo, is o inclui
• Assumi que i emos numa sociedade em ede (Cas ells, 2002), onde a comunicação é
agenciada po compu ação (CAC) de ido à nunca-neu a p oa i idade dos algo i mos em
suas elações e mediações com os indi íduos, e que nós nos o namos pa e das
dinâmicas come ciais enquan o “ ecu sos na u ais humanos” no capi alismo da igilância
(Zubo , 2019).
• Assumi um Ne noRe a o enquan o diagnós ico ou um pon o de si uação con ex ual
ace ca de um obje o digi al complexo. Apesa do obje o “p ecisa es a na in e ne ”, um
Ne noRe a o ambém a alia a epe cussão dos média adicionais na ede, assim como
p omo e a complemen a idade de análise de dados o line po econhece as in e ceções
des es com o mundo online, e po só assim se possí el analisa os con ex os e icazmen e.
O que um Ne noRe a o p oduz pode se exibido em o ma os di e sos, como uma ese,
disse ação, a igo, ela ó io, en e ou os, assim como ele pode colabo a com es es
o ma os de o ma complemen a .

137
• P io iza a iden i icação de na a i as a a és de pe spe i as e não de sujei os, pois “se é
e dade que ‘o pon o de is a c ia o obje o’, não é menos e dade que o pon o de is a
c ia o sujei o, pois a unção de sujei o de ine-se p ecisamen e pela aculdade de ocupa
um pon o de is a.” (Vi ei os de Cas o, 2013, p. 291). É p eciso en ende que
pe spe i ismo “não é um ela i ismo, mas um elacionismo” (p. 382) que conjuga
di e en es isões em um mundo, inclusi e de elemen os não-humanos, e não á ias isões
de um mundo. O sujei o pe ence ao pon o de is a, não o con á io.
O mundo eal das di e en es espécies depende de seus pon os de is a, po que o
“mundo” é compos o das di e en es espécies, é o espaço abs a o de di e gência en e
elas enquan o pon os de is a: não há pon os de is a sob e as coisas – as coisas e os
se es é que são os pon os de is a (Deleuze, 1969, p. 203). A ques ão aqui, po an o,
não é sabe “como os macacos eem o mundo” (Cheney & Sey a h, 1990), mas que o
mundo se exp ime a a és dos macacos, de que mundo eles são o pon o de is a.
(Vi ei os de Cas o, 2013, pp. 384-385)
Assim, analisa os obje os digi ais complexos passa po en ende e le a em con a as pe spe i as
dos agen es en ol idos, humanos ou não, deslocando o oco dos sujei os pa a as signi icações
que de si pa em.
• Assumi que pa a analisa como um “social” se man ém, e as co elações de pe spe i as
do sujei o, é necessá io olha pa a a sua ede. Se i -se da eo ia a o - ede de La ou
(1994, 2012) é undamen al pa a sime icamen e le a em con a as associações e
pa icipações dos obje os, sis emas e sujei os en ol idos numa ede.
• Pe cebe que é na iden i icação de mónadas digi ais, a pa i da ó ica da sociologia de
Ta de (2004), que se mos a possí el obse a sime icamen e as pe spe i as dos
humanos, não-humanos e as suas edes, especialmen e quando po encializadas po uma
ap esen ação que inclua écnicas aliadas à eo ia dos g a os. São es es g a os de nós que
mos am dinâmicas di íceis de isualiza men almen e, como disposição de pe spe i as
a a és da iden i icação de comunidades, a exis ência de laços acos e o es
(G ano e e , 1973), en e ou os.
• En ende as an agens en e combina as abo dagens da ne nog a ia e análise de Big Da a
em complemen a idade. Enquan o o p imei o e ela con ex os do que é “es a no digi al”
e ap oxima os in es igado es e p o issionais do seu obje o, o segundo expande o
e e encial e a quan idade de c uzamen os de dados possí eis.
138
• Pe cebe que aze um Ne noRe a o eque uma análise in aobje i a, a qual le a em
con a a CAC, as ensões p o ocadas pela pla a o mização (Van Dijck e al., 2018), a
exis ência de momen os de inse ção de pa cialidade nos seus p ocessos de ealização
(pa cialidade do código) e a p odução de um conhecimen o si uado (Ha away, 1988).
Embo a nes e cená io seja possí el adiciona enquad amen os eó icos e p á icos compa í eis, um
Ne noRe a o em seu po encial a ingido possui uma análise mul imodal. A análise mul imodal
conside a á ios modos de comunicação além do ex o esc i o, o que pode inclui elemen os como
imagens, ges os, linguagem co po al, som, e c., o que expande o con ex o em como a in o mação
oi ansmi ida ou ecebida. Resumidamen e, a p opos a cen al assume que a signi icação não é
c iada apenas pelas pala as, mas ambém po ou os ecu sos semió icos disponí eis em
di e en es moldes, e que, po sua ez, esses moldes in e agem en e si de manei as complexas
pa a c ia signi icados. Es e ipo de análise pa ece-nos ainda ele an e po o nece um mé odo
que se adap e ao con eúdo analisado num Ne noRe a o. P opomos que seja examinada a
possibilidade de implemen ação de uma análise mul imodal pois pode-se le a em con a pon os
como a classi icação das ma e ialidades semió icas baseada na noção de ec ãs, que pe mi e uma
análise mais o ganizada da he e ogeneidade de ex os mul imodais (Fa ha & Gonçal es-Segundo,
2022).
Implemen ações
Em seguida mos amos uma es u u a básica do luxo de a e as e conside ações na elabo ação
de um Ne noRe a o. Es a não se á, ce amen e, a única o ma de implemen a a nossa
e amen a, po ém, ep esen a o po encial que um Ne noRe a o pode a ingi em si uações pe o
do ideal. Po ideal que emos dize “elabo ado po uma equipa ansdisciplina ”, sem se e as
limi ações de empo, e com acesso abe o ou con olo sob e os algo i mos u ilizados na cap ação
de dados. Pesquisas ou p oje os c iados nou os moldes ambém podem se conside ados
Ne noRe a os desde que se enham es abelecido o mas sa is a ó ias de con o na os desa ios
encon ados e se enha aplicado o plano de análise concei ual que a é aqui oi p opos o.
139
A elabo ação de um Ne noRe a o possui 3 ases: Escolha dos con ex os; Análise de dados; Análise
pe spe i is a dos esul ados. No luxog ama acima podemos ainda pe cebe quando, ao longo da
sua elabo ação, p ecisamos e em con a os p incípios da análise in aobje i a, is o é, as ques ões
aliadas à pla a o mização (la anja), CAC, pa cialidade do código ( osa) e conhecimen o si uado
Figu a 9: Es u u a básica do luxo de a e as de um Ne noRe a o
140
( e de), como is o nes e capí ulo. Colocamos ainda ma cado es pa a as ins âncias onde uma
análise mul imodal pode po encializa um Ne noRe a o ( oxo).
Fase 1 – Escolha (d)os con ex os
A p imei a ase na elabo ação de um Ne noRe a o ecai na escolha do obje o e os seus con ex os.
1. Escolhe obje o digi al.
2. Iden i ica os con ex os his ó icos, polí icos, cul u ais e socioeconómicos ace ca do obje o.
3. Reco a o con ex o disciplina e abo dagens a u iliza no es udo. An ecipa hipó eses, não
como condicionan es, mas como auxilia es de p edição de desa ios. Nes e passo é
impo an e econhece os posicionamen os e as capacidades dos pesquisado es e
p o issionais en ol idos, empo e ecu sos pa a cada a e a, en e ou as dimensões
aliadas à p odução de conhecimen o.
Fase 2 – Análise de dados
A segunda ase con igu a-se pela colabo ação de mé odos de análise de dados ne nog á icos,
análise de Big Da a (online e o line) e a complemen a idade de algo i mos de ap endizagem de
máquina (IA).
4. A análise de ne nog a ia inicia com um as o mapeamen o de on es de dados. Os
pesquisado es e p o issionais podem já e delineado, na escolha do obje o digi al, os
espaços de onde se ão cole adas as in o mações (e.g. Reddi , YouTube, um si e
especí ico, e c.). Essa escolha pode se , em al e na i a, ealizada nes e passo a a és do
mapeamen o do obje o na in e ne ge al. Di e en es pe gun as aos dados i ão ele a
di e en es pon os de ecolha. Alguns dos mapeamen os de on es ele an es podem-se
aduzi em encon a núcleos de discussão; núcleos de ãs, ha e s ou compe ido es;
discu sos ins i ucionais; discu sos mediá icos; discu sos especí icos ou al e na i os sob e
o ópico; discu sos de ópicos associados ou pa alelos. Es es mapeamen os e ão
dinâmicas p óp ias segundo cada pla a o ma. Es a ase e ela á a possibilidade da análise
mul imodal, es abelece á um pon o de pa ida de “onde p ocu a ” os dados e de e mina á
o início de um pad ão de dados.
5. Nes e passo os in es igado es ou p o issionais iniciam a sua ime são nos espaços e
pla a o mas mapeados. O eco e de abo dagens e a disponibilidade dos dados di a ão “o
que cole a ”.
243
Rockpedia, não hesi a a em “ e ela os seus posicionamen os polí icos”, o mais ace ado e ia
sido apenas desc i o a sua posição con á ia ao Pa ido Social Libe am seguido de uma ci ação ou
um exemplo:
É ainda impo an e deixa espaço pa a ince ezas ou con adições. Não encon amos uma
ins ância especí ica nos nossos dados, mas imagine-se, num exemplo hipo é ico, que um MC
al e na en e c í icas sociais e le as hedonis as. Ap esen a essa ambiguidade pode não só se
ele an e como ambém pode á di e si ica o conjun o de pe spe i as encon adas. Se á ainda
impo an e es a a en os a possí eis an i-g upos (La ou , 2012), pois es es, mesmo que pouco
signi ican es no conjun o ge al dos dados, no malmen e e elam na a i as con á ias ao g upo ou
na a i a dominan es. Es as con ana a i as não p ecisam pa i de “ha e s”. Veja-se, po
exemplo, as eações en e uma ba alha de P ado e Sal ado no e en o da FMS
93
:
93
Vídeo na in eg a em h ps://www.you ube.com/wa ch? =3KL__7SZg_E úl ima ez isi ado em 22/10/2024.
Figu a 51: Exemplo sob e inclinação polí ica e social de um a o na ede.
Figu a 20: Exemplo sob e inclinação polí ica e social de um a o na ede.
Figu a 52: Reações à ba alha en e P ado e Sal ado
Fon e: U ban Roos e s B asil.

244
A maio ia dos comen á ios essal a a g ande qualidade dos dois MCs en ol idos, po ém, no e-se
como uma das espos as a um desses comen á ios não pa ece alo iza a mesma pos u a dos
MCs de ba alhas.
No en an o, a análise pe spe i is a não impede os pesquisado es e p o issionais de a alia
con eúdo. Enquan o os u ilizado es es abelecem na a i as, eles azem-no a a és de pad ões de
in e ações (iden i icados nas mónadas), dados esses que podem se ans o mados em
cons a ações e análises. Vol emos à p imei a lis a des e subpon o. Logo no p imei o e e imos
que, em g upos de discussão, os MCs p e e em u iliza o espaço digi al enquan o i ine acima de
qualque ou o ipo de in e ação. Se a a és do pe spe i ismo i iamos des aca o con eúdo em si,
no con ex o da análise pe spe i is a como um odo podemos analisa o con ex o e o pad ão da
ação. Ao analisa mos as mónadas, analisamos compo amen os po que iden i icamos
associações e elações. A con e gência das ações dos u ilizado es em publica as suas músicas
e não in e agi com ou as, o que acon ece independen emen e do con ex o se po uguês ou
b asilei o, pode e ela an o ou mais do que o seu discu so numa música. Mas os discu sos e
músicas ambém podem se ans o mados em mapas de nós pa a demons a a co elação ex ual
e discu si a e, des a o ma, as di e en es pe spe i as.
Os dados le an ados nes e es udo dos con ex os dos mo imen os Rap em Po ugal e no
B asil o am su icien es pa a encon a á ios pad ões de elações e associações. Especialmen e
pela al a de dados de discussão no espaço público digi al desses mo imen os cul u ais.
Lo enz-Sp een e al. (2023) o ganiza am á ias eo ias que a aliam os di e sos aspe os
da pola ização e agmen ação em médias digi ais, além de e em p opos o o mas pa a mi iga
esses enómenos. Nes e abalho são mencionadas dinâmicas como homo ilia, modula idade e
bolhas de il o nas edes sociais. Os au o es pa em do p incípio que, como as edes sociais e
algo i mos pe sonalizam con eúdos, es as ambém e o çam isões semelhan es e isolam os
g upos de isões con á ias. O opos o da o ça dos laços acos de G ano e e (1973), os quais
pe mi em a in odução de no as in o mações a pa i da in luência de a o es ex e nos a um clus e ,
mas p óximos de um ou mais in eg an es do mesmo. Po sua ez, es es enómenos são associados
ao " e o ço de pola ização", onde as pessoas se ag upam em espaços ideológicos ou
sociocul u ais homogéneos, di icul ando a exposição a ideias opos as. A homo ilia e ela
exa amen e isso, ou seja, “a endência de indi íduos se associa em com ou os que sejam
semelhan es a eles” (Lo enz-Sp een e al., 2023, p. 3131). A modula idade, po exemplo, é uma
245
o imização que “a alia o núme o de in acomunidades em elação às conexões in e comuni á ias
pa a um de e minado conjun o de g upos de nós em uma ede” (2023, p. 3134). A iden i icação
de comunidades que izemos no g a o de nós, nes e subpon o, é possí el de ido a um algo i mo
no Gephi que, com base na modula idade, ag upa nós con o me as associações en e eles.
Exis em ou as abo dagens pa a analisa aspe os elacionados com agmen ação, pola ização ou
ag upamen o de edes. Seguindo es es aciocínios e os pad ões de elações dos nossos dados,
o na-se cla o que os mo imen os Rap po uguês e b asilei o se ap esen am numa espécie de
“câma as de eco”, ou seja, “g upos o mados em o no de uma na a i a pa ilhada” (p. 3124).
A ausência de deba es nos espaços online públicos nos con ida a oca nas na a i as das
publicações, o que inclui ia o con eúdo de cen enas de músicas, ba alhas de imas e his ó ias de
bas ido es sob e os MCs, a e a i eal pa a es e capí ulo e ecu sos disponí eis. Essa al a de
deba e ambém se mos a enquan o p incipal indica i o de um mo imen o cul u al alice çado em
in e ações que acon ecem nas páginas pessoais ou p o issionais dos a is as. Au o es como Cass
Suns ein já há mui o des aca am (2009) que a pe da da di e si icação de ó uns públicos ag a a
a pola ização, pois pe mi e que os indi íduos escolham apenas con eúdos que e o çam as suas
c enças p eexis en es. Mesmo quando os u ilizado es se encon am em páginas, pe is ou g upos
gene alis as, como acon ece sob e a p á ica de ba alhas de ima, são comuns as simples menções
de e sos especí icos, enal ecimen o de ce as imas ou pe o mance dos MCs, onde cada um
escolhe um “ encedo ”. Is o é um a ibu o especí ico dos públicos de ba alhas de ima, não
que endo aqui de o ma alguma eduzi as ba alhas em si. O que nós que emos salien a é apenas
o pad ão de in e ação dos u ilizado es.
Quando jun amos a ausência de deba e com a agmen ação de público em canais de
comunicação dos a is as, es amos a con ida os algo i mos das pla a o mas pa a nos man e em
“bolhas de il o”, ou, epis émicas:
uma bolha epis émica é uma ede epis émica que possui cobe u a inadequada a a és
de um p ocesso de exclusão po omissão. Es a omissão não p ecisa de se maliciosa ou
mesmo in encional, mas os memb os dessa comunidade não i ão ecebe odas as
p o as ele an es, nem se ão expos os a um conjun o equilib ado de a gumen os.
(Nguyen, 2020, p. 146)
Adicionalmen e, a discussão pública pa ece exis i num dis anciamen o de alo es base
da cul u a Hip-Hop. Is o pode se no ado em á ias ins âncias. P imei o, iden i icamos esse
246
discu so em comen á ios. Em segundo, cons a amos que exis em o ças sepa a is as en e T ap
e Rap, não apenas enquan o sono idades dis in as, mas como géne os que não es a iam
elacionados. Em e cei o, á ios ópicos de con e sa de publicações popula es ecaem em
ques ões adjacen es a his ó ias de bas ido es, pe o mance em ba alhas de ima, sucesso
inancei o ou da ca ei a dos MCs. O oco es á nos a is as e não nos mo imen os. A diminuição
da p esença e in luência de MCs que p io izam géne os como Rap conscien e, ou a é o p á ico
desapa ecimen o de en idades como Uni e sal Zulu Na ion, ambém demons am esse
a as amen o. Po im, os dados e elam que as lógicas da in e ne e me cado pa ecem con ibui
pa a a pad onização dos p oje os musicais.
Como imos quan o às ideias cen ais das leis da imi ação de Ta de (1903), podemos
conside a que a maio pa e dos compo amen os humanos não é o iginal, mas imi ada de ou os
indi íduos, sejam eles pa es p óximos ou igu as dis an es de p es ígio. Essa imi ação é o que
p opaga p á icas, modas e ideias. Is o não que dize que não há espaço pa a o iginalidade,
apenas que es a es á dependen e da elação com o que oi p e iamen e ei o. Ta de dá a en ende
que nem oda imi ação é pe ei a, e que ao longo do empo su gem pequenas ino ações que são
imi adas no amen e, c iando um ciclo cons an e de mudança social. Des a o ma, a imi ação
oco e, seja po “p oximidade” (as ideias espalham-se mais ápido en e pessoas p óximas) ou
a a és de uma hie a quia social ( endemos a imi a igu as com maio p es ígio ou in luência). No
im, quando duas ideias ou p á icas di e en es compe em, apenas uma se es abelece como
dominan e. Isso e le e o papel do con li o e da seleção cul u al.
Es as lógicas podem se anspo as pa a a expe iência online e pa a os mo imen os
cul u ais. Publica uma imagem com uma ase inspi ado a de uma música no Ins ag am, mais
uma lis a de imas a o i as no YouTube, e c., são in e ações sociais que podem se is as como
um exemplo mode no de como a imi ação con inua a molda compo amen os e discu sos
públicos. No Twi e (X), po exemplo, a c iação de ópicos e éme os e isolados pode se explicada
pela dinâmica descen alizada da imi ação: ideias são lançadas apidamen e e ep oduzidas
apenas enquan o man êm ele ância imedia a, sem o ma necessa iamen e uma con inuidade
de discu so p o undo. Vá ios a is as e in luenciado es ambém en am eplica es ilos musicais,
emá icas e es a égias de p omoção que ob i e am sucesso an e io men e, impulsionando a
pad onização do géne o. Isso é isí el na epe ição de ce os pad ões í micos, u ilização de
au o une, es é icas isuais e na a i as (como os emas de supe ação ou os en ação). Pla a o mas
como Ins ag am e TikTok uncionam como i ines onde essas p á icas se consolidam e moldam
247
as expec a i as do me cado e dos consumido es, o que e o ça modelos p edominan es e eduz a
di e sidade c ia i a.
Os mo imen os Rap na es e a pública da in e ne encon a-se semp e em negociação.
Mesmo com a popula idade des as emá icas e p á icas, não é incomum encon a aspe os
emá icos de alo ização do espaço de pe ença, a lu a eminis a, a amília, a consciencialização
social, o an i- acismo, en e mui os ou os ópicos cen ais da cul u a Hip-Hop, mesmo que eles
es ejam mais embebidos no con eúdo das músicas do que no discu so público. Is o pode
acon ece mesmo em con ex o de ba alhas de ima. Po ou as pala as, não que emos a i ma
que não exis em in e enções e agen es de um mo imen o Rap po uguês ou b asilei o sus en ado
nas bases da cul u a, ou que as no as ge ações não es ão a en as a es as emá icas, apenas que
essa discussão pública no espaço online é eduzida.
248
Discussão e conside ações inais
O p esen e abalho buscou desen ol e e jus i ica uma es u u a me odológica que in i ulamos
de Ne noRe a o, uma abo dagem holís ica pa a acili a a análise de obje os cul u ais complexos
em espaços digi ais.
Resumidamen e, a unção p incipal des e abalho oi de ini uma me odologia de análise
con ex ualizada e si uada de obje os cul u ais digi ais, explo ando as in e ações e associações
sociais, assim como in aes u u as in isí eis, como algo i mos e pla a o mas. Es a me odologia
baseia-se em abo dagens e eo ias cen ais que incluem a obse ação empí ica e lexi a e
au oc í ica (in aobje i idade), a con ex ualização ala gada do obje o, a combinação en e
ne nog a ia e análise de dados es u u ados, além de uma análise pe spe i is a que en ol e a
iden i icação de mónadas digi ais, análise baseada na Teo ia A o -Rede (ANT) e iden i icação de
pe spe i as. A análise pe spe i is a de um Ne noRe a o, po sua ez, alo iza a combinação en e
a iden i icação de mónadas digi ais e uma abo dagem que a icula a Teo ia A o -Rede com o
pe spe i ismo abyayalense. Nesse con ex o, o obje i o é comp eende , em cada mónada de um
obje o, enómeno ou nó social, os p ocessos de ( ans) o mação de signi icados, na a i as e
associações, com base nas pe spe i as e edes dos a o es en ol idos, sejam eles humanos ou
não humanos. O concei o de in aobje i idade a ua como um módulo au oc í ico e p opõe subs i ui
a ideia de "comunicação mediada po compu ado " pela noção de "comunicação agenciada po
compu ação". Es e concei o econhece o papel a i o desempenhado po algo i mos e pla a o mas,
undamen ando-se na comp eensão das consequências da pla a o mização, da pa cialidade do
código e da p odução de conhecimen o si uado. As aplicações p á icas dessa me odologia
ab angem á eas como os mo imen os sociocul u ais, es udos de comunidades digi ais, ma ke ing
e publicidade, comunicação es a égica e análise de epu ação, análise de discu so e na a i as,
bem como es udos compa a i os em ambien es online.
A in odução dos Es udos Cul u ais nes e con ex o não se limi ou a es abelece um campo
eó ico de apoio, mas a ua como uma es a égia me odológica que sus en a a necessidade de
uma abo dagem ansdisciplina . Os Es udos Cul u ais ope am num e eno que não apenas
econhece a hib idização en e di e en es sabe es, mas ambém desa ia a agmen ação
disciplina , pe mi indo uma cons ução me odológica mais po osa e esponsi a – uma
necessidade pa a que a nossa p opos a pudesse se le ada a cabo. Assim, a me odologia que
p opomos nes a ese não p ocu a es ingi -se a um modelo ixo de análise, mas con igu a-se

249
enquan o um espaço de ânsi o en e pe spe i as académicas e p á icas mais comuns ao
me cado, ampliando a possibilidade de p odução e aplicação de conhecimen o (um me a-mé odo).
A igu a do “p a ican e e lexi o”, al como ap esen ada po Schön (1991), des aca-se como um
p incípio undamen al pa a a pos u a do pesquisado ou p o issional du an e a implemen ação
des a me odologia. Mais do que um exe cício écnico, es a p á ica implica um ciclo con ínuo de
p oblema ização e adap ação. Nesse sen ido, o aze não é me amen e ins umen al, mas o na-
se ambém um momen o de c í ica e eelabo ação concei ual. A a és des a lógica ap oximamo-
nos da p óp ia na u eza ansdisciplina des a ese - é na in e ace en e e lexão e p á ica que se
consolidam no os modos de conhecimen o, alinhando-se à necessidade de modelos
me odológicos abe os e in e a i os. Além disso, a inco po ação do concei o de anscul u alidade
(Welsch, 1999) não su ge apenas como uma de esa de uma a ualização concei ual, mas como
um impe a i o epis emológico. As cul u as, cada ez mais in e ligadas e híb idas, não podem se
comp eendidas po meio de ca ego ias e mundi idências es á icas ou on ei as ixas. A
anscul u alidade eme ge, po an o, como uma len e necessá ia pa a ap eende os p ocessos
cul u ais na sua luidez, econhecendo que p á icas e signi icados são cons an emen e negociados
e essigni icados. Es a abo dagem não se limi a a alinha -se à p opos a de associações
me odológicas nes e abalho p esen es, mas exige uma pos u a de abe u a e lexibilidade
analí ica. É com base nes a pos u a que é possí el encon a elos en e os mo imen os Rap, seja
de Po ugal com o B asil, ou de qualque um dos dois com o que sucedeu nos Es ados Unidos da
Amé ica. Po im, a nossa segmen ação do concei o de cul u a baseada em cinco ace as –
p odução de signi icado (Hall, 2016), iden idade e di e ença (Said, 2003), pode e dominação
(Foucaul , 1999), cons ução social da ealidade (Be ge e Luckmann, 1991) e sis ema de
comunicação (McLuhan, 1972) – é aqui mais do que uma o ganização analí ica. Es as pe spe i as,
que e elam di e en es dimensões de um enómeno, pe mi em aze pa a o cen o da discussão
aspe os especí icos de algo que é in insecamen e plu al, numa lógica de apoio à isão da
anscul u alidade. Es a plu alidade concei ual e o ça a necessidade de uma abo dagem
me odológica capaz de a a essa e a icula múl iplas dimensões da ealidade cul u al,
e idenciando que a análise p opos a nes a ese de e se ão dinâmica e complexa quan o os
p óp ios p ocessos cul u ais que busca in es iga .
Es a me odologia pa e p incipalmen e de uma simbiose en e a Teo ia A o -Rede (La ou ,
2012), as mónadas digi ais inspi adas nas ideias de Gab iel Ta de (2007), o pe spe i ismo
250
“ame índio” de Edua do Vi ei os de Cas o (2004) e a in aobje i idade numa combinação
me odológica en e a análise de ne nog a ia e de Big Da a.
A Teo ia A o -Rede (ANT) p opõe que a ealidade é cons i uída po uma ede de
associações en e a o es humanos e não-humanos, ompendo com a sepa ação adicional en e
sujei o e obje o. Na ANT, esses a o es só ganham consis ência e iden idade na medida em que se
inculam a ou os elemen os da ede. Es e modelo é essencial pa a o Ne noRe a o po que pe mi e
in e p e a o ambien e digi al, não como um espaço de in e ações p ede e minadas e es i as aos
limi es do obje o analisado, mas como uma expansão do campo de elações eme gen es, onde
algo i mos, pla a o mas e dados se con igu am como agen es a i os. A adap ação da ANT pa a o
digi al, pela ia das mónadas digi ais, inspi adas nas ideias de Gab iel Ta de (2007), desloca o
oco da o alidade da ede pa a as unidades dinâmicas que a cons i uem. As mónadas (abe as),
ao con á io de pon os ixos de análise, são en idades compos as po elações que se a ualizam
con inuamen e. No con ex o digi al, isso implica que cada dado, u ilizado ou algo i mo é en endido
como uma pa e cujas in e ações são semp e si uadas e empo á ias. A análise baseada em
mónadas digi ais en a iza a mul iplicidade e a agmen ação: não há uma o alidade a se
cap u ada, mas sim um campo izomá ico de elações e éme as e ans o mações. Assim, o
Ne noRe a o não p ocu a uma " o og a ia" es á ica, mas uma imagem si uada e em mo imen o,
cons uída a pa i de camadas in e conec adas. A in odução do pe spe i ismo “ame índio”
(Vi ei os de Cas o, 2004) e o ça essa lógica ao p opo que cada se pe cebe e in e p e a o mundo
de aco do com sua posição e suas elações especí icas. No Ne noRe a o, essa noção aduz-se
na ideia de que cada a o , humano ou não, ca ega uma pe spe i a p óp ia (não ela i is a),
o nando a análise de enómenos digi ais necessa iamen e mul ipe spe i ada. Assim como na
cosmologia abiayalense, em que se es di e en es podem habi a mundos sob epos os mas a ibui
signi icados dis in os aos mesmos elemen os, no Ne noRe a o, o desa io é econhece que
di e en es agen es – u ilizado es, pla a o mas, algo i mos e in aes u u as – in e p e am e
cons oem a ealidade digi al a pa i das suas p óp ias pe spe i as. A a iculação en e ANT,
mónadas digi ais e pe spe i ismo pe mi e supe a uma isão obje i is a cen ada dos dados e das
in e ações online cen adas no sujei o. Em ez de iden i ica pad ões uni e sais ou essências ixas,
a me odologia concen a-se em cap u a a mul iplicidade de pon os de is a que eme gem da
in e ação en e os agen es.
Em ez de oca exclusi amen e em nós e ínculos, o Ne noRe a o po encia a iden i icação
das unidades mínimas de subje i idade e agência p esen es nos luxos digi ais — desde uma
251
publicação indi idual a é mic o-in e ações que e e be am em con ex os mais amplos. Cada
mónada digi al é uma en idade que ca ega uma sé ie de in enções, emoções, decisões e
pe o mances si uadas. Pa es de um odo. A análise dessas mónadas é essencial pa a
comp eende como os obje os cul u ais eme gem e ganham isibilidade na es e a digi al, pois a
subje i idade de cada pa icipan e es á in e ligada a p ocessos maio es, como a i alização, a
o mação de comunidades e a ampli icação algo í mica. Des a o ma podemos mos a como
na a i as e o “social” se man êm no ambien e digi al e como di e en es o ças negoceiam os
con ex os (Recue o, 2014), uma ez que passamos a oca em associações e elações, e não na
obse ação dos dados enquan o “ ac os” obje i os.
Alia a ne nog a ia e a análise de Big Da a num desenho con e gen e (Mo gan, 2017)
pe mi e que g andes olumes de dados sejam in e p e ados a pa i de con ex os especí icos e
pon os de si uação, p ese ando a p o undidade quali a i a e con ex ual. Essa con e gência não
implica simplesmen e combina mé odos dis in os, mas p opõe uma me odologia capaz de lida
com a complexidade dos enómenos digi ais sem dilui o alo da pa icula idade e da expe iência
si uada. No Ne noRe a o, cada dado ou conjun o de dados não se esumem a agmen os a se em
analisados es a is icamen e, pois es e pa e de um campo elacional que p ecisa se
comp eendido em seus múl iplos ní eis. A ne nog a ia o e ece a possibilidade de cap a as
dinâmicas sociais e cul u ais no in e io de comunidades digi ais, alo izando as p á icas,
na a i as e in e ações que eme gem nesses espaços. No en an o, essa abo dagem
adicionalmen e quali a i a pode esba a nas limi ações impos as pela escala dos dados
disponí eis em pla a o mas digi ais. É aí que a inco po ação de Big Da a pe mi e expandi a
análise, ao in eg a pad ões e endências quan i a i as. En e an o, o Ne noRe a o esis e à lógica
educionis a que a a dados massi os como ep esen ações obje i as da ealidade, en a izando a
necessidade de con ex ualiza e in e p e a esses pad ões à luz das in e ações humanas e não-
humanas especí icas.
O concei o de in aobje i idade desempenha um papel c ucial ao p epa a pesquisado es
e p o issionais pa a en en a os desa ios das pesquisas online, pela o ma como combina
di e en es pon os eó icos e p á icos pa a lida com o que p o em da in e ne , mas ambém po
es abelece um modo de pensa enquan o se empenham pa a p oduzi conhecimen o é ico. Em
ez de en ende a ecnologia apenas como uma mediação en e sujei os humanos, a
in aobje i idade e ela como a on ei a en e humanos e não-humanos se dissol e na cop odução
de in e ações e signi icados, uma pos u a que man em em ale a aqueles que segui em a
252
me odologia. Isso implica que algo i mos, pla a o mas e in aes u u as digi ais não a uam
me amen e como canais neu os, mas como pon os com agência p óp ia, o que molda os
esul ados e di eciona os sen idos p oduzidos nessas in e ações. No con ex o dos es udos digi ais,
a adicional noção de Comunicação Mediada po Compu ado (CMC) coloca a ecnologia como
um meio pelo qual as comunicações humanas são il adas e eiculadas. No en an o, a eme gência
dos enómenos de pla a o mização (Van Dijck e al., 2018) mos a que essa pe spe i a é
insu icien e. Algo i mos e in aes u u as digi ais desempenham papeis mui o mais a i os,
de e minando, po exemplo, quais in o mações ci culam e quais pe manecem ocul as, quais
in e ações são incen i adas e quais são limi adas. Assim, o Ne noRe a o p opõe a noção de
Comunicação Agenciada po Compu ação (CAC). A ideia passa po econhece esse ca á e a i o
das in aes u u as na di usão de in o mação e p odução de signi icados. Ao in oduzi o CAC, a
me odologia não apenas e o mula a comp eensão da comunicação digi al, mas ambém des aca
as implicações epis emológicas e é icas dessas in aes u u as.
Adicionalmen e, a gumen amos que a in aobje i idade se p eocupa com o “código” se
pa cial, e pode se o na um e o de iés es u u al que a e a oda a pesquisa ou a e as.
Reconhecemos assim de que, an o as in aes u u as digi ais quan o os mé odos de cole a usados
pelos p óp ios pesquisado es e p o issionais, nunca são neu os. Ambos são condicionados po
con ex os e in e esses especí icos, o que exige uma pos u a au o e lexi a con ínua no p ocesso
in es iga i o. Essa pos u a alinha-se ainda à ideia de conhecimen o si uado (Ha away, 1988), que
econhece que oda p odução de conhecimen o é condicionada pela posição de quem o p oduz.
No Ne noRe a o, o conhecimen o não é ap esen ado como uma e dade obje i a e uni e sal, mas
como uma cons ução con ingen e e si uada, moldada pelas condições ma e iais e sociais do
ambien e digi al. A busca de uma obje i idade sem esquece o que es á já adqui ido (in a). Es a
abo dagem c í ica não só amplia a comp eensão da complexidade dos dados, mas ambém chama
a a enção pa a as ques ões é icas que pe meiam a pesquisa em pla a o mas digi ais, como a
p i acidade, a anspa ência algo í mica e a explo ação de dados. A adoção dos pila es da
in aobje i idade de e se aplicada ao máximo possí el de passos no plano me odológico das
a e as p e endidas. Ado a essa pe spe i a c í ica em implicações impo an es pa a a p á ica
in es iga i a: ao econhece que os pesquisado es são pa icipan es a i os na p odução de
conhecimen o, es es de em se coloca em uma pos u a au oc í ica, capaz de in e oga suas
p óp ias suposições, mé odos e escolhas in e p e a i as. Isso se aduz na necessidade de oma
decisões me odológicas in o madas, conside ando o impac o é ico de cada e apa do p ocesso –
259
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