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Inteligência Artificial Generativa e (re)configuração do conhecimento científico: Entre o potencial tecnológico e a literacia crítica

Author: Monteiro, Sílvia
Publisher: Universidade do Minho. Centro de Investigação em Educação (CIEd)
Year: 2025
DOI: 10.21814/rpe.41982
Source: https://repositorium.uminho.pt/bitstreams/07b0e5be-06bb-484f-bab5-1a10882235c1/download
Re is a
Po uguesa
de Educação
38
1
Jan-Jun 2025
Di e o a
Í is Susana Pi es Pe ei a
Di e o es adjun os
Ma ia Helena Ma inho
Ma ia João Gomes
Comissão edi o ial
Ana F ancisca Mon ei o
Ana So ia A onso
Ca a ina Liane A aújo
Gina Lemos
Gló ia Solé
Guilhe me Rego Sil a
Joana Casano a
Joana Sousa
José An ónio Ma in Mo eno A onso
Le ícia Gab iela Ma ins
Luciana B i o
Luís Dou ado
Ma ia Conceição Pin o An unes
Ma ília Gago
Sand a San os
Síl ia Mon ei o
Susana Cai es
Design g a ico
Ca a ina Soa es Ba bosa
Re isao Linguis ica
Bea iz Passos
Paginacao
Júlia Rod igues
Apoio
Fundação pa a a Ciência e Tecnologia (FCT)
P op iedade
Cen o de In es igação em Educação (CIEd)
Ins i u o de Educação
Uni e sidade do Minho
Campus de Gual a
4710-057 B aga
Po ugal
Indexacao e a aliacao
SciELO
DOAJ
La index (Reposi ó io & Ca álogo 2.0)
REDIB
ERIH Plus
Publindex
RedALYC
MIAR
Dialne
Open Policy Finde
SCOPUS - Q4
Qualis CAPES - A1
h ps:// e is as. caap.p / pe
[email p o ec ed]
ISSN: 0871-9187 / E-ISSN: 2183-0452
Re is a Po uguesa de Educação, 38(1), e25020. h p://doi.o g/10.21814/ pe.41982
Nos úl imos dois anos, os a anços e a popula ização da In eligência
A i icial (IA), em pa icula da IA gene a i a, êm econ igu ado de o ma á-
pida e dis up i a o ecossis ema da p odução e ci culação do conhecimen o
cien í ico. Se nas úl imas décadas assis imos a uma p og essi a so is icação
das e amen as de apoio à in es igação, acili ando a e as como a pesquisa,
o ganização e di ulgação da in o mação, o que hoje es á em causa ai mui o
além de uma melho ia écnica inc emen al. Es amos pe an e uma mudança
es u u al na o ma como se concebe, se acede e se alida o conhecimen o.
Es a ans o mação é pa icula men e ele an e pa a o campo da Educação,
onde a e lexão sob e os p ocessos de cons ução do sabe , a mediação pe-
dagógica e a au o ia êm cen alidade epis emológica e é ica. A IA gene a i a
não pode, po conseguin e, se enca ada apenas como mais um ecu so ecno-
lógico a se ins umen alizado; ela impõe-se como um agen e ans o mado
que in e pela e, no limi e, deses abiliza, os modos adicionais de p odução
cien í ica.
Es a mudança mani es a-se já de o ma bas an e angí el nas dinâmi-
cas de in es igação. No con ex o nacional, des aca-se a ecen e ap esen ação,
po pa e da Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia, de um p oje o pilo o que
isa omen a a u ilização e icien e da IA, a a és da disponibilização de um
acesso cen alizado a modelos de linguagem de la ga escala (LLM), pe mi in-
do a sua in eg ação em aplicações o ien adas pa a ins cien í icos, pedagógi-
cos ou ins i ucionais (FCCN, 2025). No con ex o in e nacional, a Uni e sidade
de Ox o d di ulgou ambém ecen emen e um es udo baseado numa amos a
de mais de dois mil in es igado es de di e sas á eas disciplina es, ases da
ca ei a e egiões do mundo, que con i ma a disseminação c escen e da IA na
p á ica académica (Ox o d Uni e si y P ess, 2024). Ce ca de 76% dos espon-
den es indica am já u iliza algum ipo de e amen a de IA no seu abalho.
As aplicações mais equen es concen am-se na adução au omá ica (49%),
no uso de cha bo s, como o Cha GPT (43%), e em mo o es de busca po encia-
dos po IA (25%). Es as ecnologias são pa icula men e u ilizadas na ase de
e isão de li e a u a, na edição de ex os e na sín ese de in o mação, sendo
is as como ins umen os de aumen o da e iciência académica. Os bene ícios
pe cebidos pelos in es igado es são signi ica i os: melho ia da p odu i i-
dade, maio luidez na esc i a, apoio na o ganização de g andes olumes de
In eligência A i icial Gene a i a e
( e)con igu ação do conhecimen o
cien í ico: En e o po encial ecnológico
e a li e acia c í ica
Re is a
Po uguesa
de Educação
Síl ia Mon ei oi
Uni e sidade do Minho,
Po ugal.
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dados, e, pa a os in es igado es não na i os de inglês, um con ibu o ele an-
e na co eção linguís ica e adequação o mal dos ex os cien í icos. So wa es
baseados em IA já são inclusi amen e capazes de suge i hipó eses, compila
bibliog a ias e a é simula modelos es a ís icos (Khali a & Halbadawy, 2024).
De um modo ge al, e i ica-se uma pe ceção gene alizada de que es as e a-
men as con ibuem pa a poupa empo e, des e modo, supos amen e, libe a
espaço pa a o pensamen o c ia i o e c í ico. A IA gene a i a ap esen a-se as-
sim, na pe spe i a de mui os in es igado es, como uma solução pa a acele a
p ocessos, desde a ecolha e análise de dados, a é à esc i a de a igos cien í i-
cos (Ox o d Uni e si y P ess, 2024).
A c escen e au oma ização de e apas c uciais da in es igação le an-
a, con udo, algumas in e ogações sob e a qualidade, iabilidade e p o undi-
dade do conhecimen o p oduzido. Tendo po base dados an e io es, os mode-
los de IA eplicam pad ões linguís icos e p obabilís icos, e não êm e dadei a
comp eensão dos con eúdos que p ocessam, apenas eplicam pad ões com
base em dados his ó icos, mui as ezes en iesados (Sampaio e al., 2024),
aquilo que Bende (2021) designa de ‘papagaios es ocás icos’. A p óp ia al a
de anspa ência dos algo i mos u ilizados coloca desa ios à ep odu ibilida-
de cien í ica, um dos p incípios undamen ais da in es igação, assim como
a p i acidade dos dados le an a p eocupações, pa icula men e no caso de
in es igação com se es humanos (Sampaio e al., 2024). Po ou o lado, ao
ans e i mos unções cogni i as cen ais pa a algo i mos opacos, a isca-
mo-nos a eduzi a c ia i idade cien í ica a um conjun o de p e isibilidades
es a ís icas e a ep oduzi ieses, co endo o isco de in isibiliza ozes mi-
no i á ias e epis emologias pe i é icas, p ecisamen e po que es as es ão sub-
- ep esen adas nas bases de eino que alimen am es es modelos (UNESCO,
2024). Os iscos ine en es à u ilização da IA como me o subs i u o do pen-
samen o humano - aquilo que alguns au o es associam à ‘cognição delegada’
(Figuei edo, 2024; Risko & Gilbe , 2016) -, êm sido igualmen e assinalados
pela in es igação no campo das neu ociências, anco ada nas e idências de
neu oplas icidade ce eb al (Vance e al., 2012) e nos es udos ecen es ace -
ca dos e ei os que ad êm do desuso de ecu sos cogni i os em consequên-
cia da delegação de a e as na IA (Gue lich, 2025; Oakley e al., 2025). Es es
e ei os podem, na u almen e, se pa icula men e mais p ejudiciais no caso
de es udan es ou jo ens in es igado es que ainda se encon am numa ase
de consolidação da cons ução do sabe decla a i o e de desen ol imen o de
compe ências de análise c í ica, c ia i a e a gumen a i a.
Nes e con ex o complexo e ambíguo, que nos az de i a en e a pe -
plexidade e o deslumb amen o com os a anços já alcançados e as ese as so-
b e o que se pode pe de nes e p ocesso algo desconhecido pa a a maio pa e
dos u ilizado es, impo a pensa não apenas na melho o ma de inco po a
odos es es desen ol imen os ecnológicos, mas ambém (e sob e udo) na
( e)cons ução de uma é ica do conhecimen o que sal agua de a in eg idade
cien í ica, a au o ia e o alo o ma i o da in es igação. A li e acia c í ica pa a
a IA (Bali, 2024) deixa assim de se uma compe ência desejá el, pa a se o -
na uma condição essencial da cidadania con empo ânea. Não bas a conhece
e sabe usa as e amen as; é p eciso comp eende os seus uncionamen os,
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limi ações, p opósi os e impac os. Nes e cená io, a li e acia pa a a IA eme ge
como uma e amen a essencial que i á com alguma ce eza di e encia in-
es igado es que conseguem i a maio pa ido des a a pa i , po exemplo
do desen ol imen o de compe ências na c iação de p omp s, o que p essupõe
ambém uma compe ência dialógica, ou da capacidade de disce ni quando é
que a IA gene a i a pode se p ejudicial e ge a in o mações imp ecisas ou
en iesadas. Comp eende como unciona a IA gene a i a, que ende a alimen-
a -se de dados de uma cul u a dominan e, econhecendo que es a pode pe -
pe ua p econcei os e desigualdades a pa i do e o ço de pe spe i as hege-
mónicas – aquilo a que Gup a e colabo ado es (2024) me a o izam como o
‘al o- alan e colonizado ’, ep esen a ou o aspe o c ucial elacionado com a
li e acia c í ica pa a a IA. De igual modo, a al a de anspa ência po pa e das
en idades o necedo as de soluções baseadas em IA ela i amen e aos e mos
de uso das e amen as, assim como a u ilização de dados sem consen imen-
o, ep esen am ou as dimensões sensí eis a ualmen e, que eque em sen i-
do c í ico e é ico po pa e dos u ilizado es.
Como e e iu Flo idi, já em 2014, não es amos apenas a desen ol e
ecnologias in eligen es; es amos a ans o ma os modos como pe cebemos
e o ganizamos o mundo. Pe an e es a ealidade, a comunidade cien í ica é
assim con idada a cul i a uma elação emancipado a com es as ecnologias,
p omo endo o uso c í ico da IA, numa lógica colabo a i a, mas ambém de
sal agua da da au onomia dos u ilizado es, esis indo a uma colonização ac í-
ica. A li e acia c í ica pa a a IA, en endida como a capacidade de ques iona ,
a alia e con ex ualiza o uncionamen o e os impac os des as e amen as,
de e se posicionada no cen o des a elação. O u u o da in es igação não
de e depende apenas da po ência de algo i mos, mas da consciência c í ica
com que decidimos usá-los.
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Educação, Uni e sidade do Minho, Po ugal.
h ps://o cid.o g/0000-0002-5236-2711
[email p o ec ed]
Toda a co espondência ela i a a es e a igo de e se en iada
pa a:
Síl ia Mon ei o
[email p o ec ed]
Recebido em 12 de junho de 2025
Acei e pa a publicação em 14 de junho de 2025
Publicado em 30 de junho de 2025