N.º 35 | JUNHO 2025
GÉNERO E GÉNERO E
DESIGUALDADES:DESIGUALDADES:
DESAFIOS DESAFIOS
CONTEMPORÂNEOSCONTEMPORÂNEOS
REVISTA DE CIÊNCIAS SOCIAIS
ISSN 1646-5075 | E-ISSN 2182-7419
Tí ulo: CONFIGURAÇÕES N.º 35 | Junho de 2025
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No a de Lisboa
Edição:
Con igu ações: Re is a de Ciências Sociais
é edi ada semes almen e (2 núme os/ano) pelo Cen o
In e disciplina de Ciências Sociais – Polo da Uni e sidade do Minho (CICS.NOVA.UMinho)
Capa: Fu aco es design | Fo og a ia da capa: Abigail Ascenso
ISSN: 1646-5075 | e-ISSN: 2182-7419
Depósi o legal N.º: 246289/06
Índice
No a Edi o ial: “Géne o e Desigualdades: Desa ios Con empo âneos”
Dalila Ce ejo | Ana Paula Gil | Nuno Fe ei a Dias
#EuVi o – (des)O dem em o no do concei o de iolência obs é ica e da
sua c iminalização em Po ugal
Lau a B i o
Silêncios des elados: expe iências de e elação de i imização sexual
de homens du an e a in ância e/ou adolescência
Joana T. F. da Sil a | Ana Ma ia B andão | Jean Von Hohendo
Laying ou a sc ip o s uden s’ emo ions h ough gende and emo ion
socialisa ion
Rebecca Judeh | Dalila Ce ejo
The pe sis ence o gende inequali ies in he dis ibu ion o unpaid
wo k: an explana o y con ibu ion
Miguel Cha es | Ana L. Teixei a | Ma ía D. Ma ín-Lagos | Ma a Dona
Vá ia | Junho 2025
A in enção do lu o saudá el: epe cussões pa a a expe iência de pais e
mães enlu ados
Luís Hen ique Fuck Michel
Ecologiza o u banismo: um diálogo opo uno en e B uno La ou e Jean
Rémy
Domingos Vaz
Pachukanis e a c í ica ma xis a ao Di ei o: Teo ia ge al do Di ei o e
ma xismo cem anos depois
Vi o Ba ole i Sa o i
7
13
33
61
83
107
129
151
7
No a Edi o ial: “Géne o e Desigualdades: Desa ios Con empo âneos”
CEREJO, Dalila; GIL, Ana Paula; DIAS, Nuno Fe ei a – No a Edi o ial: “Géne o e Desigualdades: Desa ios
Con empo âneos”. Con igu ações: Re is a de Ciências Sociais [Em linha]. 35 (2025) 07-12. ISSN 2182-7419.
* E-mail: dalilace ejo@ csh.unl.p | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0002-0118-1558
** E-mail: anapgil@ csh.unl.p | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0002-6728-7689
*** E-mail: dnm @ csh.unl.p | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0003-2520-8994
No a Edi o ial: “Géne o e Desigualdades:
Desa ios Con empo âneos”
Dalila Ce ejo*
Cen o In e disciplina de Ciências Sociais (CICS.NOVA)
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH)
Ana Paula Gil**
Cen o In e disciplina de Ciências Sociais (CICS.NOVA)
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH)
Nuno Fe ei a Dias***
Cen o In e disciplina de Ciências Sociais (CICS.NOVA)
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH)
Du an e as úl imas ês décadas os es udos de géne o a i ma am-se como
á ea p emen e e incon o ná el da p odução cien í ica e académica. Nesse
ilho, emos analisado a ubiquidade e ans e salidade do géne o como
cons ução sociocul u al em odas as o mas de o ganização humanas,
passadas e p esen es. Os p ocessos sociais, in e - elacionais e in e acionais,
cole i os são gende izados, assim como as es u u as e ins i uições sociais.
O géne o molda, e é moldado, em odos os espaços da ida social. Numa
con empo aneidade ma cada po sucessi as c ises sociais, ince eza, con li os
e c escen es pola izações, o géne o não é uma a iá el meno no espaço
conjun o impac ado pelas dinâmicas de ensão social que i emos. Há mui o
que o géne o é concep ualizado como uma es u u a mul idimensional de
8
Dalila Ce ejo | Ana Paula Gil | Nuno Fe ei a Dias
desigualdade (Connell, 1987; Lo be , 1994; Rubin, 1975). Hoje assis imos
à ( e)c iação de no as (des)o dens de classi icação do géne o (Connel,
2009): no deba e polí ico; nas mig ações labo ais, nacionais e globais; nas
c ises de populações e ugiadas; nos e ei os das al e ações climá icas; nos
di ei os humanos; na desigualdade económica; nas elações en e ge ações;
no espaço da amília; na in imidade; no bem-es a ; no en elhecimen o; na
iolência, e c.
O desen ol imen o de consensos académicos e polí icos sob e a
pe sis ência das desigualdades de géne o e o cus o social de uma desigualdade
es u u almen e sus en ada ao longo das di e en es e apas do ciclo de ida
– e.g., amília, escola, abalho, saúde, elações in e pessoais, in imidade,
e c. –, bem como a mobilização cole i a o ganizada em o no do comba e
a essas desigualdades es ão na base de um conjun o de ans o mações
no en endimen o ge al sob e os papéis de géne o e a sua passagem pa a
o co po ju ídico. Essa mobilização e essa ans e ência êm empo alidades
di e enciadas de aco do com os e i ó ios que obse amos. Não obs an e, as
dinâmicas de mudança pe mi i am uma al e ação na es u u a de cos umes e
e iden es econ igu ações dos signi icados a ibuídos aos papéis de géne o e
à he e ono ma i idade. Essas econ igu ações es ão na base da o ganização
de múl iplas sociedades e da in e enção de en idades sup anacionais
na de esa dos di ei os humanos, con ibuindo pa a a p omoção do
econhecimen o da plu alidade das iden idades e o desen ol imen o de
polí icas a i as de comba e às desigualdades de géne o.
Nas úl imas décadas, a emá ica ampla das ques ões elacionadas com o
desce amen o dos papéis de géne o em es ado no cen o an o dos deba es
académicos como de uma pola ização sob e a qual se discu em modelos de
sociedade e os ideais dominan es de eminilidade e masculinidade biná ios
he e ono ma i os. A e alo ização de papéis adicionais de géne o em
ocupado o espaço cen al da agenda polí ica de uma ex ema-di ei a que se
em no malizado globalmen e e que se ma e ializou num ag a amen o das
ci cuns âncias de iolência misógina e pa ia cal, an o ísica como online.
Recen emen e, as Nações Unidas des aca am o aumen o de episódios de
iolência con a as mulhe es e uma maio p esença de es e eó ipos nega i os
como consequência da mul iplicação de discu sos de ódio e au o i á ios
acili ados na sua disseminação pelas no as ecnologias1. O desen ol imen o
e a adoção de e o mas legais comp eensi as são nomeados como
impe a i os pa a a mi igação da endência dos úl imos anos, que o inqué i o
1 h ps://p ess.un.o g/en/2025/wom2246.doc.h m
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No a Edi o ial: “Géne o e Desigualdades: Desa ios Con empo âneos”
da Agência dos Di ei os Fundamen ais da União Eu opeia iden i ica como
sendo a p e alência da iolência pe pe ada com base no géne o na Eu opa
a 27 (FRA, 2025).
É p ecisamen e na a iculação en e as múl iplas o mas de desigualdade
e a plu alidade de c ises sociais que os papéis de géne o êm sido sujei os a
desa ios pe manen emen e eque en es de análise e, em pa icula , ca en es
de dados mais amplos e exaus i os.
O núme o que ap esen amos abo da um conjun o de emá icas que se
in e sec am na ques ão do géne o e apon am pa a a necessidade de múl iplas
abo dagens concep uais e me odológicas: po um lado o exe cício da
iolência c uzada com modelos elacionais assen es em conceções o odoxas
dos papéis de géne o que eme em pa a os e ei os de p á icas cul u ais
dominan es; po ou o lado, a ep odução de es e eó ipos elacionados com
modelos de socialização em di e en es con ex os e ins i uições. A iolência
obs é ica e a i imização sexual masculina a dia aduzem duas ques ões
em que a no ma i idade dos papéis de géne o ainda impe a e az silencia
í imas, que no espaço p i ado, que no espaço público, nomeadamen e
nos se iços de saúde. A ep odução dos es e eó ipos de géne o eiculados
no espaço escola condiciona a ap eensão, a ges ão e a exp essão das
emoções, com impac os no desen ol imen o emocional das c ianças;
es es es e eó ipos pe pe uam-se ainda no espaço domés ico, e elando a
pe sis ência de desigualdades de géne o, associadas ao abalho domés ico,
ainda dominan e em Po ugal e na Eu opa.
O a igo #EuVi o – a eme gência de um mo imen o con a a Violência
Obs é ica em Po ugal, de Lau a B i o, p oblema iza o p ocesso de
o ganização de um mo imen o de denúncia e comba e à iolência obs é ica. A
au o a az pa a discussão a ques ão da c iminalização da iolência obs é ica
como uma das ei indicações dos mo imen os sociais pela humanização do
pa o. O a igo em como obje i o analisa , que a inicia i a legisla i a, que
o p ocesso de con es ação ei a pela O dem dos Médicos ace à p imei a
en a i a de c iminalização do p oblema em Po ugal, dos quais deco eu a
c iação do mo imen o #EuVi o, como o ma de alo ização dos mo imen os
sociais con a a iolência obs é ica. O a igo baseia-se numa ex ensa e isão
da li e a u a sob e iolência obs é ica, nas á eas da sociologia da saúde e
dos eminismos, e no abalho de campo ealizado no âmbi o de uma ese de
dou o amen o, acompanhando os deba es que acon ece am em no emb o
de 2021, an o sob e o P oje o de Lei, como sob e o pa ece e a c iação do
mo imen o #EuVi o. A e isão da li e a u a sob e a iolência obs é ica, com
16 Lau a B i o
XX, com base nas ei indicações ei as pelos mo imen os sociais eminis as
la ino-ame icanos (Sadle e al., 2016; Sena e Tesse , 2017). A de inição
mais co en e pa a iolência obs é ica p ocede do enquad amen o legal da
Venezuela, um dos p imei os países a a ança em com a c iminalização da
iolência obs é ica, enquan o iolência con a a mulhe :
[…] a ap op iação do co po e p ocessos ep odu i os das mulhe es po
p o issionais de saúde, que se exp essa num cuidado desumanizado , num
abuso da medicalização e pa ologização dos p ocessos na u ais e que le a a uma
pe da da au onomia e capacidade de decidi li emen e sob e os seus co pos
e sexualidade, impac ando nega i amen e na qualidade de ida das mulhe es.
(Asamblea Nacional de la República Boli a iana de Venezuela, 2007)
A O ganização Mundial da Saúde (OMS) não u iliza o concei o de
iolência obs é ica nos seus documen os o iciais, embo a econheça a
exis ência do enómeno e ci e, nos seus ma e iais, a legislação exis en e
in e nacionalmen e sob e o e mo. Sob e as iolências no pa o, a OMS
a i ma que, “[n]o mundo in ei o, mui as mulhe es expe imen am abusos,
des espei os, maus- a os e negligência du an e a assis ência ao pa o
nas ins i uições de saúde” (WHO, 2014), conside ando que se a a de um
p oblema de saúde pública que impo a esol e , com base em e idência
cien í ica e no espei o pela dignidade humana. Desde o início dos anos
2000, êm-se mul iplicado os es udos sob e maus- a os e negligências no
pa o, com á ias abo dagens e pe spe i as. Desses es udos, conclui-se que
a iolência obs é ica acon ece em qualque geog a ia, independen emen e
do con ex o sociopolí ico ou da qualidade dos cuidados de saúde (Boh en
e al., 2015), sendo ans e sal aos ela os as elações desiguais de pode
en e mulhe es e p o issionais de saúde, desigualdades que se acen uam
quando acompanham as desigualdades de aça, géne o e classe (Assis, 2018;
Cu i, Ribei o e Ma a, 2020; Da is, 1983; Ge onimus, 1996). Em 2018, a
OMS publicou um documen o com ecomendações de cuidados pa a uma
expe iência posi i a, com guidelines ocadas na mulhe e na o imização da
expe iência de pa o e nascimen o, com base numa abo dagem holís ica a
pa i do espei o pelos di ei os humanos (WHO, 2018).
A iolência obs é ica é uma o ma de iolência ins i ucional de géne o
e sexual que pode acon ece a qualque pessoa com ú e o, em con ex o de
cuidados de saúde sexual e ep odu i a (Shabo , 2016). As in e ações nos
cuidados de saúde são mui as ezes ma cadas po dinâmicas desiguais de
pode , deco en es do conhecimen o e au o idade a ibuídos aos p o issionais
de saúde, em de imen o do conhecimen o e on ade da pacien e, a qual
17
#EuVi o – (des)O dem em o no do concei o de
iolência obs é ica e da sua c iminalização em Po ugal
se encon a numa posição de ulne abilidade (Goodyea -Smi h e Bue ow,
2001). O econhecimen o e a de inição da iolência obs é ica pe mi em
es abelece c i é ios ope acionais que capaci am os in e enien es pa a
iden i ica , quan i ica e quali ica o que é en endido como iolen o, o que
p omo e a al e ação de pad ões o ganizacionais nos sis emas de saúde,
endo em conside ação a sua complexidade (Lé esque e Fe on-Pa ay e,
2021). Dos es udos ealizados a ní el mundial, en ende-se que a iolência
obs é ica pode se di idida em di e sas ca ego ias, mas, pa a e ei os des e
a igo, oca -nos-emos nos seguin es ipos: ísica (ba e , esbo e ea , ag edi ,
es ingi os mo imen os da mulhe ) e psicológica (acusações, ameaças,
negação de a amen os; injú ias; comen á ios inap op iados; coação;
iolação do consen imen o ou da con idencialidade) (Boh en e al., 2015).
De momen o, a iolência obs é ica encon a-se ipi icada como uma o ma
de iolência con a a mulhe na Venezuela, na A gen ina e no México (Souza
e Souza, 2021; Ab eu e al., 2021), onde é punida com penas pecuniá ias
(Venezuela), adminis a i as (A gen ina) ou p i a i as de libe dade (México)
(Souza e Souza, 2021; Ab eu e al., 2021). Nos es an es países do mundo,
a iadas associações eminis as êm ei o p essão sob e o pode polí ico
e legislado pa a a c iminalização des a p á ica, mui o embo a ainda se
deba a se es e é ealmen e o caminho co e o3. A c iminalização da iolência
obs é ica em en ado e saído do deba e sob e a humanização do pa o que
chegou ao e i ó io po uguês nos úl imos dois anos.
2. C iminalização da iolência obs é ica em Po ugal – p opos as e
espos as
O P oje o de Lei n.º 912/XIV/2ª assume que, apesa dos g andes e
econhecí eis a anços na p es ação de cuidados de saúde de ginecologia
e obs e ícia consag ados pela Lei n.º15/2014, de 21 de ma ço, êm sido
“ o nadas públicas si uações que e elam a sua iolação em ins i uições de
saúde” (Rod igues, 2021, p. 2) e egis adas denúncias po pa e de mulhe es
em elação a expe iências nega i as e/ou aumá icas i idas du an e a
g a idez, abalho de pa o, pa o ou pue pé io. A p opos a undamen a-se
em in o mação publicada pela OMS e nos dados p oduzidos pela Associação
3 Em ez da c iminalização, os mo imen os p opõem a o mação e capaci ação dos p o issionais de saúde
no sen ido de es es comp eende em o enómeno e a ua em no espei o pelo consen imen o in o mado e
au onomia da mulhe . Re e e-se ambém a p omoção de p og amas que in o mem as mulhe es sob e os seus
di ei os e as múl iplas opções de pa o. Ou a p opos a passa pela c iação de polí icas públicas que melho em as
condições dos se iços de saúde e eduzam a ca ga labo al dos p o issionais, o que e á um impac o signi ica i o
na p e enção de p á icas iolen as.
18 Lau a B i o
Po uguesa pelos Di ei os da Mulhe na G a idez e Pa o (APDGMP), que
e am, à da a, os únicos esul ados quan i a i os4 que demons a am, numa
maio escala, as expe iências de g a idez e pa o das mulhe es em Po ugal
(APDMGP, 2020). O ex o do p oje o de lei de ine iolência obs é ica como:
Qualque condu a di ecionada à mulhe du an e o abalho de pa o, pa o ou
pue pé io, que lhe cause do , dano ou so imen o desnecessá io, p a icada sem
o seu consen imen o ou em des espei o pela sua au onomia ou p e e ências,
cons i uindo assim uma cla a limi ação do pode de escolha e de decisão da
mulhe . (Rod igues, 2021, p. 4)
Es a p opos a de de inição a as a-se em ês pon os da exis en e na
lei a gen ina e que em se ido de base pa a mui os mo imen os sociais: 1)
não e e e a ideia da ap op iação do co po; 2) não em em con a o excesso
de medicalização como pa e dessa iolência; 3) oca-se essencialmen e em
consen imen o e p á icas. Com base nos es udos ealizados em Po ugal,
mas ambém nou os con ex os, oca apenas o consen imen o pode
o na o p ocesso de denúncia mais complexo (Sadle e al., 2016). Não só
o consen imen o pode se ob ido sob coação ou sem in o mação, como
os p o issionais de saúde endem a p o ege -se das denúncias a i mando
que agi am em con o midade com as melho es p á icas e pa a ob e os
melho es esul ados possí eis (B iceño Mo ales e al., 2018; Lappeman e
Swa z, 2021; Sadle e al., 2016; Sesia, 2020), e i ando assim a acusação de
excesso de in e enções. A medicalização da saúde sexual ep odu i a, com
in e enções excessi as, mas ambém o seu con á io, com a negligência
das queixas – como é comum acon ece com mulhe es acializadas (Ba a a,
2022; Leal e al., 2017; Sco e Da is, 2021) –, azem do que se conside a se
a iolência obs é ica. A di iculdade da c iminalização des e ipo de iolência
passa p ecisamen e po es a cons i ui um enómeno mui o complexo e
di uso que não e mina com o consen imen o exp esso po pa e da mulhe .
Face ao expos o, du an e o mês de julho de 2021, a Assembleia
da República solici ou pa ece es às en idades compe en es, que o am
publicados du an e o mês de ou ub o. Des es pa ece es, oca -me-ei em
pa icula no da OM, po e sido aquele que espole ou a maio indignação
4 A pa i de 2022, o am publicados a igos esul an es do Inqué i o ImaGine Eu o, com dados quan i a i os
que podem se consul ados em: Cos a, Raquel e al. 2022. Regional di e ences in he quali y o ma e nal and
neona al ca e du ing he COVID-19 pandemic in Po ugal: Resul s om he IMAgiNE EURO s udy. Disponí el
em: h ps://obgyn.onlinelib a y.wiley.com/doi/10.1002/ijgo.14507; e em Lazze ini, Ma zia e al. 2022. Quali y
o acili y-based ma e nal and newbo n ca e a ound he ime o childbi h du ing he COVID-19 pandemic:
Online su ey in es iga ing ma e nal pe spec i es in 12 coun ies o he WHO Eu opean Region. Disponí el
em: h ps://doi.o g/10.1016/j.lanepe.2021.100268.
19
#EuVi o – (des)O dem em o no do concei o de
iolência obs é ica e da sua c iminalização em Po ugal
po pa e da sociedade ci il5. A OM ap esen ou uma pos u a bas an e
de ensi a ace à inicia i a legisla i a logo no início do ex o:
O e mo iolência obs é ica é inap op iado em países onde se p es am cuidados
de saúde ma e no-in an il de excelência, como é o caso de Po ugal […] lança
ala me, medo e descon iança sob e as g á idas e as suas amílias e põe em
causa os p o issionais de saúde que se es o çam po lhes p es a os melho es
cuidados possí eis, segundo a melho e mais a ual e idência cien í ica. (O dem
dos Médicos, 2022, p. 1)
É ce o que os cuidados de saúde ma e na em Po ugal melho a am
conside a elmen e desde 1974, an o nos se iços p es ados como
nos di ei os ga an idos à mulhe g á ida e à amília. Em 1970, a axa de
mo alidade ma e na e a de 73,4‰ e em 2019, de 10,4‰6 (PORDATA,
2023). Já a axa de mo alidade pe ina al e a de 38,9‰, em 1970, e de
3,3‰ em 2019, enquan o a axa de mo alidade neona al e a de 25,4‰,
em 1970, e de 1,7‰ em 2019 (PORDATA, 2023). Ao mesmo empo, com a
c iação do Se iço Nacional de Saúde (SNS) e a descen alização dos se iços,
o nando-os mais acessí eis, aumen ou ambém o núme o de pa os em
es abelecimen os de saúde. A Lei n.º 110/2019, de 9 de se emb o, eio
ga an i á ios di ei os à mulhe e à amília nos se iços de cuidados de saúde
po ugueses, nomeadamen e: di ei o a e um acompanhan e p esen e
du an e as á ias consul as e momen os da g a idez, pa o e pós-pa o; a
e acesso a in o mação e ao consen imen o; e a e acesso a cuidados de
saúde de qualidade e em con o midade com as condições socioeconómicas
da mulhe . Todos es es a anços são impo an es; po ém, com a e olução e
democ a ização gene alizada do acesso a cuidados de saúde de qualidade, o
oco da a aliação desses cuidados de e es a no p ocesso na sua globalidade
e não apenas na ausência de mo e (Pe o e, Chaudha y e Goodman, 2020),
pois essa a aliação depende de ou os a o es além da qualidade écnica dos
p o issionais de saúde. Como explicam Ra ael Molina Vílchez e José Ga cia
Ilde onso (2002), a mo alidade ma e na o nou-se um acon ecimen o,
elizmen e, a o, mas ela não diz nada sob e o que acon ece den o dos
se iços de saúde. Não mo e não bas a, e sob e i e ao pa o não de e
se um a o quali-quan i a i o de a aliação isolado. É impo an e que
a a aliação dos cuidados de saúde se deb ucem sob e ou os a o es de
mo bilidade ma e na: a pos u a li o ómica, a es ição de mo imen os, os
5 Os es an es pa ece es do CSM, OA, OE e CSMP podem se lidos no espe i o websi e da Assembleia da
República: h ps://www.pa lamen o.p /Ac i idadePa lamen a /Paginas/De alheInicia i a.aspx?BID=45204.
6 Em maio de 2022, a Di eção-Ge al da Saúde (DGS) começou a in es iga o aumen o da axa de mo alidade
ma e na, uma ez que es a passou de 2,5‰ em 2000 pa a 7,9‰ em 2020.
20 Lau a B i o
oques aginais sucessi os, o esgo amen o men al e a solidão no pós-pa o
(Cue as, 2009). Es es e ou os a o es, sob e udo quando acon ecem na
base da coação, cons i uem iolência obs é ica, mas azem pa e da o ina
de alguns se iços de saúde.
O pa ece da OM a i ma que “não se dá como p o ada nenhuma si uação
de iolência obs é ica em Po ugal” (O dem dos Médicos, 2022, p. 1). Tendo
em conside ação que, no enquad amen o legal po uguês, as denúncias de
iolência obs é ica ecaem nas negligências médicas, es as a amen e êm
consequências (Simões, 2016). À semelhança do que acon ece com ou as
o mas de iolência de géne o, na iolência obs é ica, pa a que exis a uma
esponsabilização, é necessá ia a c edi ação do ela o da í ima pe an e as
ins i uições e o apoio da sociedade (Imbusch, 2003; Zucal e Noel, 2010). Cabe
às í imas p o a as iolências que oco em em si uações de ulne abilidade,
de ensão; con udo, nem semp e as mulhe es es ão em posição de ecolhe
p o as ou êm alguém que possa es emunha a seu a o . A a i mação da
OM e o ça as es u u as desiguais de pode que sus en am o pa ia cado; as
mulhe es êm menos possibilidade de agi con a a os de iolência obs é ica
po que es es não são pe cebidos como eais e deco en es da iolência
es u u al que exis e ambém den o dos sis emas de saúde.
Em elação aos dados ap esen ados pela APDMGP, a OM conside a
que não demons am si uações de iolência obs é ica, mas que se ocam
em “opiniões sob e a sa is ação de expec a i as de pa icipação pessoal,
con o o, elações com os p o issionais e pa ilha social, udo causas
ele an es […], mas de pa ama di e en e do da iolência obs é ica” (O dem
dos Médicos, 2022, p. 1). A pa icipação pessoal, o con o o, o acolhimen o
dos p o issionais de saúde e a pa ilha social são elemen os que não só são
causas ele an es, como con ibuem pa a uma expe iência posi i a de pa o,
que, quando a acados, cons i uem iolência obs é ica. Como de e minado
pelas pesquisas quan i a i as e quali a i as sob e o ema, os maus- a os no
pa o não es ão elacionados exclusi amen e com a negligência, com maus-
a os ísicos ou, seque , com as axas de mo alidade ma e na e neona al. A
negação e a di iculdade em p es a cuidados empá icos, humanos, sensí eis,
o nam as expe iências de pa o aumá icas, pelo que podemos conclui
que a insa is ação ela ada pelas mulhe es que esponde am ao es udo da
APDMGP es á no mesmo pa ama que a iolência obs é ica, uma ez que
es e é um enómeno que é mul i a o ial e se exp essa de a iadas o mas.
Sob e as p á icas e e idas no P oje o de Lei, a OM a i ma:
[…] é mui o pe igosa a ideia […] de que é má p á ica a indução do abalho de
21
#EuVi o – (des)O dem em o no do concei o de
iolência obs é ica e da sua c iminalização em Po ugal
pa o, a episio omia, o pa o ins umen ado com en osa ou ó ceps, a analgesia
epidu al, a cesa iana, en e ou as in e enções, ais como a ealização de
manob as de manipulação abdominal […], ainda que ealizadas com a de ida
indicação e compe ência. Os p ocedimen os e e idos cons i uem boas p á icas,
que pe mi em eduzi mo bilidade e mo alidade ma e na e e al, e só não o são
quando ealizados sem jus i icação ou consen imen o. Impo a sublinha que
an o é má p á ica ealiza um a o médico desnecessá io como não o ealiza
quando é necessá io. (O dem dos Médicos, 2022, p. 2)
Con udo, a OMS, que analisa, a a e emi e ecomendações com base
nas mais ecen es e idências cien í icas, não conside a es as p á icas –
indução, episio omia, uso de ó ceps ou en osa, manipulação abdominal
(mais conhecida como Manob a de K is elle ) – como boas p á icas e de ende
que es as de em se e i adas an o quan o possí el (WHO, 2018, 2019).
Em elação à epidu al, a OMS de ende a sua u ilização median e o pedido
da pa u ien e, mas ambém incen i a a u ilização de ou os mé odos de
analgesia: banhos, massagens, en e ou os (WHO, 2018). Sob e a cesa iana,
a OMS não é con a, uma ez que é uma ci u gia que pe mi e sal a idas,
mas essal a que, mesmo após a cesa iana, a pa u ien e em di ei o a aze
pele a pele com o bebé, a amamen a e a não se sepa ada do bebé, a menos
que haja condições de saúde ad e sas que não o pe mi am (ibid.).
A OM de ende ainda que o P oje o de Lei ansmi e uma ideia
pe igosa, ao a i ma que “o pa o e o pue pé io são p ocessos isiológicos
em que a amen e se jus i icam in e enções médicas, quando na e dade
ep esen am um pe íodo mui o pe igoso pa a a mulhe e o seu ilho” (O dem
dos Médicos, 2022, p. 2). À semelhança de ou os con ex os, a OM ap esen a
uma das p incipais c í icas ei as ao pa o biomedicalizado: a sua excessi a
pa ologização. A g ande maio ia das si uações que êm a se iden i icadas
como iolência obs é ica oco e pelo excesso de in e enção biomédica ou
pela p ema u idade dessas in e enções, que le am ao desen ol imen o de
uma casca a de in e enções que pode iam e sido e i adas, caso se i esse
acompanhado o i mo isiológico do pa o (Shabo , 2021). Os p o issionais
de saúde, enquan o in e enien es capaci ados pa a esol e si uações
p oblemá icas, são einados pa a encon a as pa ologias e não pa a lida
com o pa o como um p ocesso no mal e isiológico. Inclusi e, os mo imen os
22 Lau a B i o
pela humanização do pa o ambém de endem que os p o issionais de saúde
êm o di ei o a ob e uma o mação que lhes pe mi a espei a a isiologia
do pa o e a adqui i as capacidades necessá ias pa a acompanha em
es e p ocesso ão complexo e ico, sem e em de in e i a cada segundo
(Qua occhi, 2021).
O pa ece da OM ai ao encon o do que em sido exp esso po
p o issionais de saúde em á ias pa es do mundo, em elação ao concei o
e denúncias de iolência obs é ica. Ma is ela Mulle Sens (2017) ela a
que, du an e a sua in es igação, os p o issionais de mos a am desag ado
ela i amen e ao concei o de iolência obs é ica, uma ez que o e mo
se ia uma o ma de sob e esponsabiliza os obs e as, com a con ibuição
da comunicação social pa a a pola ização do ema. Toda ia, a iolência
obs é ica não diz apenas espei o aos obs e as, e is o demons a a
di iculdade em en ende o enómeno como algo que é da o dem do es u u al
e não necessa iamen e do indi idual ou con a uma ca ego ia p o issional
especí ica. No mesmo es udo, os p o issionais de saúde indica am como
a o mais ele an e pa a a oco ência de iolência obs é ica: a dimensão
indi idual, a p á ica desa ualizada e não baseada em e idência, a negligência
e as condu as in luenciadas pela c escen e judicialização da medicina (Sens,
2017). Re e i am ambém as condições es u u ais das ins i uições, a al a
de agas, de analgesias, de p i acidade, o ambien e e as p óp ias o inas das
ins i uições. No seu discu so, a au onomia eminina su gia como um di ei o
é ico inques ioná el, mas que inha um limi e es abelecido pelo p o issional,
o nando a elação assimé ica no caso de di e gências de opinião (Sens,
2017). Ou seja, consegui o consen imen o da mulhe se ia apenas uma o ma
de os p o issionais de saúde agi em como melho en endessem sob e ações
decididas em conjun o, não sendo po an o um consen imen o in o mado
(Boh en e al., 2015). A p óp ia o ma como as ins i uições são ge idas
e o ça a desigualdade na elação de pode , uma ez que as exigências ei as
aos p o issionais de saúde – sem condições es u u ais pa a as cump i – os
pode o ça a desconside a alguns aspe os é icos do cuidado.
A OM posiciona-se como “ í ima das í imas”, pelas ameaças e
des espei o po pa e da/o pacien e, di e gências em elação à condu a
23
#EuVi o – (des)O dem em o no do concei o de
iolência obs é ica e da sua c iminalização em Po ugal
e possibilidade de judicialização (Sens, 2017). Es e posicionamen o de
de esa em o nado di ícil o diálogo en e quem lu a pelo im da iolência
obs é ica e os agen es dos sis emas de saúde. O deba e passa a se uma lu a
de uns con a os ou os e não uma colabo ação, como se osse impossí el
a conjunção das duas e en es. Uma conclusão ans e sal a odos os
es udos ealizados com p o issionais de saúde é a necessidade de aumen a
a in es igação sob e iolência obs é ica pa a de ini o concei o de o ma
mais conc e a, de modo a pode guia a o mação dos p o issionais de saúde
(Boh en e al., 2015; Sens, 2017).
O e mo iolência obs é ica é conside ado o e e em causado
indignação na classe p o issional de obs e as, po conside a em que a
exp essão c ia hos ilidade con a a classe médica. Con udo, pa ece ha e uma
con usão en e o exe cício de au o idade e um con ex o di ícil de abalho –
a di iculdade em e um anes esis a disponí el pode le a o médico ou o
en e mei o a desconside a a do da mulhe e a não p opo ou as o mas
de alí io da do que não dependam de anes esis a po conside a em que,
de qualque o ma, a do é ine i á el (Sens, 2017). A con o midade ace
à negligência e o silenciamen o de si uações de des espei o podem se
en endidos como uma iolência simbólica, um abuso de pode baseado
num consen imen o que mui as ezes se es abelece e impõe a a és do uso
da au o idade e bal, disc iminação e p á icas coe ci as que são u ilizadas
pelas ins i uições e p o issionais de saúde como es a égias de pode (Sens,
2017). Dize e cala andam jun os, sendo o silêncio ão signi ica i o como a
exp essi idade das pala as. Quem se cala dian e da iolência de um pa o
somen e sus en a um discu so que ge a mais iolência (Sens, 2017).
3. #EuVi o – mo imen o de espos a
Depois de conhecido o pa ece da O dem dos Médicos, apidamen e
ci cula am pelas edes sociais digi ais publicações de e ol a con a o
documen o. Não só a O dem nega a a exis ência de p á icas iolen as, como
in isibiliza a a expe iência aumá ica de cen enas de mulhe es pelo país. O
mo imen o “#EuVi o” ez a sua p imei a apa ição online no dia 22 de ou ub o,
pedindo às suas seguido as que publicassem ou en iassem uma o o com o
hash ag #EuVi o; pedia ambém es emunhos po pa e de p o issionais de
24 Lau a B i o
saúde e apela a ao apoio de olun á ios num mo imen o que designa am
como espon âneo. Es e oi o pon apé de saída pa a duas semanas in ensas
de apelos nas edes sociais digi ais.
No seu websi e7, o mo imen o a i ma que, a a alia pelo expos o pela
OM, “apa en emen e, es amos num país do 3º mundo ela i amen e a es a
emá ica [ iolência obs é ica] e não nos calamos mais”. E ac escen a:
É u gen e educa e sensibiliza , mas a eimosia em igno a o p oblema, o na-o
in isí el. Pela inação e a é no malização da iolência obs é ica (na g a idez,
pa o e pós-pa o) a c iminalização é de ini i amen e um caminho a segui , pa a
que nem mais uma mulhe / amília passe po is o.
No seu apelo, o mo imen o consegue cap a a a enção da sociedade
ci il, dando exemplos de iolência obs é ica. É uma o ma de consegui
chega a mais mulhe es, uma ez que inco po a á ias expe iências.
O obje i o da mani es ação, segundo o p óp io mo imen o, e a o na
isí eis as si uações de iolência i idas. Assim, o mo imen o ins ou odas as
pessoas que i essem sido í imas de iolência obs é ica a es emunha em,
ia co eio ele ónico ou a a és das edes sociais, con ando a sua expe iência.
Em ce ca de duas semanas, pe íodo de empo en e a publicação do pa ece
da OM e o dia da mani es ação, o am ecolhidos ce ca de 200 es emunhos,
além dos que chega am pelas edes sociais e que não oi possí el con abiliza
e os que chega am depois disso. No dia 6 de no emb o, o ganiza am-se
mani es ações em qua o locais, Lisboa, Po o, Coimb a e Funchal, jun ando,
ao odo, ce ca de 300 pessoas. Fo am p oduzidos á ios ca azes pelas
mulhe es e as suas amílias, com ela os e demons ações a ís icas mui o
c uas sob e a sua expe iência, com o obje i o de denuncia , expo as suas
do es e ei indica jus iça, es emunhando assim a iolência a que o am
expos as (Figu a 1).
7 h ps:// opo ugal.wo dp ess.com/
25
#EuVi o – (des)O dem em o no do concei o de
iolência obs é ica e da sua c iminalização em Po ugal
Figu a 1 – “Não à iolência obs é ica”
Ca az ealizado po uma das mães pa icipan es na mani es ação. No emb o de 2022.
Fon e: o og a ia p óp ia.
No im da mani es ação em Lisboa, duas das mulhe es en ega am
uma pas a com os es emunhos imp essos ao segu ança da sede da O dem
dos Médicos, já que nenhum ep esen an e da O dem acedeu a ecebê-las.
A é junho de 2022, não exis iam p onúncias o iciais sob e os es emunhos
en egues. Com a dissolução do Pa lamen o, em dezemb o de 2021, e a
o mação de um no o go e no, o P oje o de Lei não chegou a se deba ido,
ha endo p opos as po pa e do Bloco de Esque da (BE) pa a einicia o
deba e. En e an o, o mo imen o ganhou amanha dimensão, que se o nou
uma associação: Obse a ó io da Violência Obs é ica (OVO). Rep esen an es
da associação êm pa icipado em á ios e en os, pales as e discussões
sob e o ema, endo como obje i o p incipal abalha pa a a e adicação da
iolência obs é ica em Po ugal, em pa ce ia com ou os obse a ó ios de
iolência obs é ica e associações pela humanização do pa o.
33
Silêncios des elados: expe iências de e elação de
i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou adolescência
SILVA, Joana Teixei a Fe az da; BRANDÃO, Ana Ma ia; HOHENDORFF, Jean Von – Silêncios
des elados: expe iências de e elação de i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou
adolescência. Con igu ações: Re is a de Ciências Sociais [Em linha]. 35 (2025) 33-60. ISSN 2182-7419.
Silêncios des elados: expe iências de e elação de
i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou
adolescência1
Joana Teixei a Fe az da Sil a*
Bolsa FCT - Re .ª 2021.05582.BD
Ins i u o de Ciências Sociais da Uni e sidade do Minho (ICS-UMinho)
Cen o In e disciplina de Ciências Sociais – Polo da Uni e sidade do Minho (CICS.NOVA.UMinho)
Ana Ma ia B andão**
Ins i u o de Ciências Sociais da Uni e sidade do Minho (ICS-UMinho)
Cen o In e disciplina de Ciências Sociais – Polo da Uni e sidade do Minho (CICS.NOVA.UMinho)
Jean Von Hohendo ***
A i us Educação (Passo Fundo/RS – B asil)
Resumo
Es e a igo analisa o p ocesso de e elação da i imização sexual po homens du an e a
in ância e/ou adolescência. Fo am en e is ados eze homens, esiden es em Po ugal,
com idades en e 25 e 63 anos, e os dados o am analisados po meio de uma análise de
con eúdo emá ica. Os esul ados mos am que o compa ilhamen o dessa expe iência
é equen emen e adiado po anos de ido a a o es como au oculpabilização e medo de
e i imização e desc edibilização. Em con apa ida, a ma u idade, o apoio emocional e
a in imidade nas elações in e pessoais acili am a e elação. O desalinhamen o com a
masculinidade no ma i a eme ge como um a o cen al nesse p ocesso, e o çando as
ba ei as sociocul u ais à comunicação da i imização.
Pala as-cha e: i imização sexual, in ância e adolescência, e elação, homens
* E-mail: jo eixei [email protected] | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0002-3629-3293
** E-mail: anab [email protected] | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0001-6594-1563
*** E-mail: jhohendo @gmail.com | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0002-7414-5312
1 Es e a igo mobiliza dados da Tese de Dou o amen o em Sociologia da p imei a au o a, in i ulada Homens na
penumb a: iolência sexual, masculinidades e aje ó ias iden i á ias, inanciada pela Fundação pa a a Ciência e
a Tecnologia ( e .ª 2021.05582.BD), o ien ados pela segunda e pelo e cei o au o /a.
34 Joana T. F. da Sil a | Ana Ma ia B andão | Jean Von Hohendo
Abs ac
Silences un eiled: men disclosing sexual
ic imisa ion du ing childhood and/o adolescence
This a icle examines he p ocess o disclosu e o sexual ic imisa ion expe ienced by men
du ing childhood and/o adolescence. Thi een men li ing in Po ugal, aged be ween 25 and
63, we e in e iewed, and he da a was analysed using hema ic con en analysis. Findings
indica e ha sha ing hese expe iences is o en delayed o yea s due o ac o s such as
sel -blame, ea o e- ic imisa ion, and ea o being disc edi ed. Con e sely, ma u i y,
emo ional suppo , and in imacy in in e pe sonal ela ionships can acili a e he disclosu e.
Misalignmen wi h no ma i e masculini y eme ges as a key ac o , ein o cing sociocul u al
ba ie s o epo ing ic imisa ion.
Keywo ds: sexual ic imisa ion, childhood and adolescence, disclosu e, men
Résumé
Silences dé oilés: éci s de ic imisa ion sexuelle
d’hommes pendan l’en ance e /ou l’adolescence
Ce a icle examine le p ocessus de é éla ion de la ic imisa ion sexuelle écue pa les hommes
pendan l’en ance e /ou l’adolescence. T eize hommes i an au Po ugal e âgés de 25 à 63
ans on é é in e ogés e les données on é é analysées à l’aide d’une analyse héma ique
de con enu. Les ésul a s mon en que le pa age de ce e expé ience es sou en e a dé
pendan des années en aison de ac eu s els que l’au o-culpabilisa ion e la peu d’une
e- ic imisa ion e de la déc édibilisa ion. En e anche, la ma u i é, le sou ien émo ionnel
e l’in imi é des ela ions in e pe sonnelles acili en la é éla ion. L’éca pa appo à la
masculini é no ma i e appa aî comme un ac eu clé dans ce p ocessus, en o çan les
obs acles sociocul u els à la dénoncia ion de la ic imisa ion.
Mo s-clés: ic imisa ion sexuelle, en ance e adolescence, é éla ion, hommes
In odução
As í imas de iolência sexual comumen e ap esen am di iculdade em
e ela o oco ido. No caso de c ianças e adolescen es do sexo masculino, há
uma elação en e gêne o e silenciamen o (Alaggia, Collin-Vézina e La ee ,
2019). Es e deco e, mui as ezes, não só do eceio de no a i imização, mas
ambém da up u a com a masculinidade no ma i a, nomeadamen e pela
associação a ca ac e ís icas como a aqueza e a ulne abilidade (Pe e sson
e Plan in, 2019; Hla ka, 2017; Mulde , Pembe on e Vinge hoe s, 2020).
Em conc e o, pode e i ica -se o eceio de se em obje o de es igma ização
(Go man, 1988) e/ou homo obia (Rosa e Souza, 2020). Não a amen e,
meninos e homens con essam p eocupação com a possibilidade de se em
is os como homossexuais ou a é como mulhe es po que passí eis de
pene ação (Hla ka, 2017; Mulde , Pembe on e Vinge hoe s, 2020;
35
Silêncios des elados: expe iências de e elação de
i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou adolescência
Pe e sson e Plan in, 2019).
O p ocesso de e elação é, pois, a a essado po a o es emocionais,
pessoais e sociocul u ais (Alaggia, Collin-Vézina e La ee , 2019), e ala sob e
a i imização é di ícil e dolo oso pa a os/as sob e i en es. A exposição
que aca e a pa ece se mais complexa pa a os homens, que, social e
his o icamen e, ap esen am maio di iculdade em exp essa sen imen os,
especialmen e os elacionados com a ulne abilidade, a do e o desampa o
(Alaggia, Collin-Vézina e La ee , 2019; Connel, 2003). Ademais, a an ecipação
das eações e da c edibilidade dada àquilo que é e elado pode e impac o
signi ica i o no p ocesso (Alaggia, Collin-Vézina e La ee , 2019). Os a o es
que acili am a e elação incluem a ausência de p oximidade com o/a
ag esso /a, a p esença de es emunhas, um ambien e amilia acolhedo e
um con ex o sociocul u al que p omo a o deba e da sexualidade (Alaggia,
Collin-Vézina e La ee , 2019).
Comp eende os a o es acili ado es e inibido es da e elação é de
ex ema impo ância pa a a p omoção da e elação p ecoce, com o in ui o
de p es a o acompanhamen o necessá io, a é mesmo pa a a p e enção de
no as i imizações (Alaggia, Collin-Vézina e La ee , 2019).
Nes e a igo, são ap esen ados esul ados da in es igação de
dou o amen o da p imei a au o a, que con ou com eze en e is ados,
en e os 25 e os 63 anos de idade, esiden es em Po ugal, i imizados
sexualmen e du an e a in ância e/ou adolescência. Me ade dos en e is ados
oi i imizada du an e a in ância (a é os 11 anos). Quase odos conheciam
o/a ag esso /a, incluindo es e mulhe es e adolescen es. Apenas dois
en e is ados e ela am a iolência no momen o em que es a oco eu. Nos
es an es casos, ela oi silenciada ou e elada a diamen e.
Os es udos que in es igam o p ocesso de e elação da i imização
sexual masculina oco ida du an e a in ância e adolescência equen emen e
se concen am em amos as especí icas, p edominan emen e de populações
no e-ame icanas e eu opeias. Es e es udo ab ange homens de nacionalidades
b asilei a e po uguesa, pa a os quais, a é o momen o, não o am iden i icadas
in es igações semelhan es. Os esul ados ob idos, de o ma ge al, es ão
alinhados com achados an e io es, em pa icula , e idenciando que ce as
dinâmicas de gêne o anscendem on ei as nacionais. Dis inguem-se,
po ém, pelo a o de alguns en e is ados des aca em o uso de álcool e/ou
subs âncias psicoa i as enquan o acili ado as do p ocesso de e elação da
i imização sexual, o que e o ça a cons a ação da di iculdade de os homens
abo da em esse assun o.
36 Joana T. F. da Sil a | Ana Ma ia B andão | Jean Von Hohendo
1. Enquad amen o e me odologia
His o icamen e, a i imização sexual de homens oi negligenciada no escopo
cien í ico, o que pode se explicado pelas ep esen ações dominan es de
gêne o. Em pa e, o meno in es imen o na in es igação dos p ocessos
de i imização masculina deco e da p imazia a ibuída pelo mo imen o
eminis a à análise do enômeno como esul ado de elações pa ia cais
(Dua e, 2013; Machado e Ma os, 2012). Conside ando a associação
pe sis en e en e masculinidade, dominação e iolência (Connell, 2003), os
homens são endencialmen e is os como pe pe ado es – não como í imas
– de iolência, o que pode e le ado os/as in es igado es/as a negligencia
o enômeno.
Mais ecen emen e, obse a-se um aumen o signi ica i o dos es udos
dedicados à i imização masculina e à sua e elação (Alaggia, Collin-Vézina
e La ee , 2019; Alaggia, 2005; Gagnie e Collin-Vézina, 2016; Hla ka, 2017;
G uen eld, Willis e Eas on, 2017; Rosa e Souza, 2020; Hohendo , San os
e Dell’Aglio, 2015; Machado e Ma os, 2012). Esse inc emen o pode se
a ibuído à c escen e pe cepção de que os homens ambém podem se
i imizados, e le indo um econhecimen o mais amplo da equidade de
gêne o e acompanhando a expansão das discussões sob e masculinidades e
sob e a in luência das no mas e expec a i as sociais no enômeno.
No que diz espei o ao caso po uguês, a p odução é já assinalá el, com
des aque pa a os es udos sob e iolência con a mulhe es, no namo o, nas
elações de in imidade ou domés ica2, endo os homens sido incluídos, pela
p imei a ez, no inqué i o nacional sob e iolência de gêne o em 2006-2008
(Lisboa e al., 2009). De modo ge al, as mulhe es es ão sob e ep esen adas
nas in es igações, sendo escassas as pesquisas dedicadas especi icamen e à
iolência sexual con a meninos, apazes e homens. São de des aca , a esse
espei o, os abalhos de Casimi o (2008) e Machado (2016), que abo dam a
iolência con a homens adul os nas elações de in imidade. Também me ece
des aque o Rela ó io da Comissão Independen e pa a o Es udo dos Abusos
Sexuais de C ianças na Ig eja Ca ólica Po uguesa (S ech e al., 2023), que,
apesa de in es iga um con ex o especí ico, e le e a ealidade da iolência
sexual com uma p edominância de í imas do sexo masculino na amos a.
Além disso, o Inqué i o sob e Segu ança no Espaço Público e P i ado (INE,
2023) ambém abo da a i imização sexual masculina.
Apesa de ha e mais í imas do sexo eminino e mais ag esso es do
2 Uma lis a exaus i a dos es udos ealizados em Po ugal sob e ques ões de iolência pode se consul ada no
sí io do Obse a ó io Nacional de Violência e Géne o (ONVG) (h ps://on g. csh.unl.p /).
37
Silêncios des elados: expe iências de e elação de
i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou adolescência
sexo masculino, meninos, apazes e homens ambém podem se al o de
iolência sexual. Segundo dados ecen es, em Po ugal, 18% das no i icações
de iolência sexual se e e iam a c ianças e adolescen es do sexo masculino
(SSI, 2022), mas sabe-se que há uma subno i icação – e consequen e
subes imação – do enômeno. O gêne o pa ece con ibui pa a isso, já que a
i imização sexual é, mui as ezes, is a como demons ação de aqueza ou
agilidade, con a iando expec a i as associadas à masculinidade no ma i a
e ameaçando a iden idade e o es a u o dos homens enquan o ais (Hla ka,
2017; Machado e Ma os, 2012; Machado, 2016).
Assim, isões no ma i as do gêne o podem complexi ica a iden i icação
e a comp eensão da i imização sexual masculina po pa e an o de
p o issionais e écnicos de apoio à í ima, de au o idades policiais e judiciais
(c . Ven u a, 2018), como de in es igado es (c . Rosa e Souza, 2020).
Abo da a e elação da i imização sexual exige, po an o, comp eende
as suas pa icula idades quando as í imas são homens, já que eles endem a
a asa esse p ocesso (Alaggia, Collin-Vézina e La ee , 2019). As di iculdades
de e elação da i imização sexual na in ância po pa e dos homens são,
p incipalmen e, de ês ipos: 1) sen imen os de medo, e gonha, culpa e
di iculdade de exp essa e a icula a iolência e os p óp ios sen imen os;
2) eceio do es igma, es e eó ipos, al a de in o mação, eações nega i as
a e elações an e io es, medo de se julgado e con li os com a iden idade
masculina; 3) e ques ões elacionadas aos se iços de saúde, como
ba ei as es u u ais que di icul am a e apia e icaz, desa ios na elação
com os/as e apeu as e abo dagens e apêu icas não e icazes (G uen eld,
Willis e Eas on, 2017). Adicionalmen e, há o eceio de se em conside ados
ag esso es u u os (Alaggia, 2005). Quando as ag esso as são mulhe es,
des acam-se ainda ep esen ações que desa iam noções de o ça (masculina)
e ulne abilidade ( eminina) (Gagnie e Collin-Vézina, 2016).
Quan o aos a o es acili ado es da e elação, Alaggia, Collin-Vézina
e La ee (2019) des acam a idade (associada ao g au de ma u idade e à
capacidade de comp eensão e e balização da si uação), o gêne o (com
mulhe es e elando mais), a elação com o/a ag esso /a (maio p obabilidade
de e elação quando não há con i ência) e o en ol imen o de e cei os
( es emunhas). O con ex o social, que inclui dinâmicas amilia es, no mas
cul u ais e o igem social, impac a an o a i imização quan o a e elação.
Famílias que p omo em um ambien e de abe u a e apoio endem a acili a a
e elação, enquan o con ex os amilia es ma cados po iolência, silêncio ou
es igma ização podem inibi essa comunicação. Além disso, a masculinidade
38 Joana T. F. da Sil a | Ana Ma ia B andão | Jean Von Hohendo
no ma i a equen emen e desenco aja os homens a compa ilha
expe iências de iolência, associando-as à ulne abilidade e à aqueza. A
o igem social ambém desempenha um papel impo an e, pois indi íduos
de classes mais baixas equen emen e êm menos acesso a ecu sos, como
apoio psicológico e edes de ajuda, limi ando sua possibilidade de p ocessa
e e ela suas expe iências de i imização. Po im, um con ex o ambien al
e cul u al a o á el à discussão abe a sob e sexualidade e ao engajamen o
da comunidade é essencial pa a a e elação, enco ajando a comunicação e o
apoio (Alaggia, Collin-Vézina e La ee , 2019; Connel, 2003).
Es e es udo ado ou uma me odologia quali a i a, isando ap o unda
o conhecimen o dos a o es que in luenciam a e elação, po homens, da
i imização sexual oco ida du an e a in ância e adolescência po meio
de uma conexão p óxima com os pa icipan es, pe mi indo a análise
das expe iências indi iduais, sociais e cole i as (Minayo, 2009), que
se in e conec am. Reconhece-se que as pessoas são agen es a i os e
independen es, anspassados pela sua p óp ia his ó ia e con ex o, e não
me os obje os de es udo (La ille e Dionne, 1999).
Op ou-se pelo es udo de casos (Yin, 2018) e pela en e is a de his ó ia
de ida (Asplund e P ie o, 2019) como écnica p incipal, assen e no guião de
en e is a p opos o po Cha maz (2002), adap ado ao ema e aos obje i os
da in es igação.
No que se e e e ao ec u amen o de en e is ados, con ou-se com a
colabo ação de p o issionais especializados/as em iolência e masculinidades,
associações não go e namen ais, além da ede de con ac os pessoais da
p imei a au o a. A pesquisa oi di ulgada em cha s online, edes sociais e
aplica i os de elacionamen o, com o obje i o de alcança o maio núme o
de po enciais en e is ados.
T a ando-se de um ema sensí el, an o in es igados/as quan o
in es igado es/as podem se emocionalmen e impac ados du an e o
p ocesso (Teixei a e Ribei o, 2020). A p óp ia en e is a pode se a e ada pelas
ca ac e ís icas pessoais dos/as in e enien es. Especi icamen e, é impo an e
conside a como o gêne o, a nacionalidade e a idade da in es igado a podem
in luencia essa dinâmica, uma ez que oi u ilizada sua ede pessoal no
p ocesso de iden i icação e ec u amen o de po enciais en e is ados. Assim,
e i ica-se que mui os en e is ados possuem ca ac e ís icas semelhan es às
da in es igado a em e mos de idade, nacionalidade e local de esidência.
Adicionalmen e, o a o de e sido uma mulhe a ealiza as en e is as pode
e con ibuído pa a alguma inibição dos en e is ados em compa ilha
39
Silêncios des elados: expe iências de e elação de
i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou adolescência
expe iências que con a iam a masculinidade no ma i a.
Apesa de e em sido iden i icados 76 homens sob e i en es de iolência
sexual, apenas uma pequena pa cela acei ou se en e is ada, o que sublinha
uma pe sis en e di iculdade em e baliza a expe iência. No o al, o am
ealizadas eze (13) en e is as com homens esiden es em Po ugal, odos
i imizados sexualmen e du an e a in ância e/ou adolescência. O pe il dos
en e is ados ab ange di e en es nacionalidades, escola idades e p o issões,
o que e ela a ans e salidade da iolência sexual. Os en e is ados inham
en e 25 e 63 anos de idade no momen o das en e is as, com ní eis de
escola idade a iando en e o ensino básico e o dou o ado. A a iedade
de p o issões, desde polido manual a é in es igado e a macêu ico,
e idencia que a iolência sexual a e a homens com di e en es si uações
socioeconômicas. Seis (6) se iden i ica am como homossexuais, cinco (5)
como he e ossexuais e dois (2) como bissexuais. A plu alidade de o ien ações
sexuais dos en e is ados pode e in luenciado signi ica i amen e a manei a
como a e elação da iolência oi i enciada, em especial de ido aos es igmas
sociais associados a o ien ações não no ma i as.
As expe iências de iolência ambém o am a iadas em e mos de
equência e con ex o, com qua o (4) en e is ados ela ando episódios
isolados e seis (6) desc e endo episódios múl iplos, indicando pad ões
de iolência epe ida e p olongada. Seis (6) en e is ados i encia am a
iolência na in ância (a é 11 anos), sendo que, em qua o (4) casos, isso
oco eu an es dos se e (7) anos. Em ês (3) casos, a i imização acon eceu
na adolescência e em qua o (4) se es endeu da in ância a é a adolescência.
Quase odos/as os/as ag esso es/as e am conhecidos/as das í imas, o que
e o ça a p e alência da iolência come ida em ambien es de con iança.
A Tabela 1 esume as ca ac e ís icas sociodemog á icas dos
en e is ados, bem como os p incipais de alhes das si uações de iolência
que expe iencia am. Esses dados são undamen ais pa a comp eende os
con ex os e desa ios que in luenciam o p ocesso de e elação da iolência,
incluindo dinâmicas de pode , a o es sociais e emocionais e as ba ei as
en en adas po esses homens ao en a em ala sob e suas expe iências.
Tabela 1. Ca ac e ização dos en e is ados
En e is ados Idade na al u a
da en e is a
O ien ação
sexual Nacionalidade Concelho de
esidência Escola idade P o issão
Idade em que
oco eu o a o
de iolência
Ag esso /a Tipo de iolência Habili ações
li e á ias da mãe
Habili ações
li e á ias do pai
Lucas 34 He e ossexual B asilei o B aga Ensino secundá io Polido manual 6 ou 7 anos Duas izinhas Sem de alhes Ensino básico Sem de alhes
Guilhe me 37 He e ossexual B asilei o Coimb a Especialização3 Psicólogo
4 ou 5 anos
(p imei o episódio)
8 ou 9 anos
(segundo episódio)
Cuidado a
(p imei o episódio)
Amigo da amília
(segundo episódio)
Manipulação dos geni ais
(p imei o episódio)
Mas u bação
(segundo episódio)
Ensino básico Licencia u a
Edua do 63 He e ossexual Po uguês Famalicão/
B aga Ensino básico Mecânico 10 ou 12 anos Cuidado a Manipulação dos geni ais Não al abe izada Não al abe izado
Gab iel 34 Bissexual Po uguês Guima ães/
B aga Ensino secundá io P o issional
de dis ibuição 7 anos Vizinho Manipulação dos geni ais
Mas u bação Ensino básico Ensino básico
Daniel 30 He e ossexual B asilei o B aga Licencia u a In o má ico 12 anos Desconhecido Assédio (sexo o al en ado) Ensino básico Ensino básico
Rod igo 34 Homossexual B asilei o B aga Especialização Fa macêu ico 7 ou 8 anos Amigo da amília Pene ação Ensino secundá io Licencia u a
Miguel 37 Homossexual Po uguês B aga Dou o ado In es igado 14 anos Sem de alhes Pene ação Ensino básico Ensino básico
Ra ael 38 He e ossexual Po uguês Cascais Especialização Videog a o
de casamen o 5 anos Amigo da amília Sem de alhes Especialização Dou o ado
Felipe 30 Bissexual B asilei o B aga Licencia u a Es udan e
7 ou 8 anos
(p imei o episódio)
11 ou 12 anos
(segundo episódio)
Cuidado a
(p imei o episódio)
P imo
(segundo episódio)
Manipulação dos geni ais
(p imei o episódio)
Mas u bação
(segundo episódio)
Ensino secundá io Ensino secundá io
Gus a o 35 Homossexual B asilei o B aga Licencia u a Ope ado
de áb ica 9 a 14 anos Sem de alhes Sem de alhes Licencia u a Licencia u a
B uno 25 Homossexual B asilei o Po o Ensino Técnico4 Ope ado
de cozinha 5 ou 6 anos Vizinho Sem de alhes Especialização Ensino básico
Fe nando 31 Homossexual Po uguês Pó oa de
Va zim Mes ado Fa macêu ico 13 anos Sem de alhes Pene ação
Violência psicológica Ensino secundá io Ensino secundá io
Diogo 42 Homossexual B asilei o B aga Mes ado P o esso 8 a 15 anos Segu ança; Pad e;
Vizinho; P imo Pene ação Especialização Ensino secundá io
3 A especialização é ei a após o ensino supe io .
4 O ensino écnico é um g au de habili ação in e médio, en e o ensino secundá io e o ensino supe io .
41
Silêncios des elados: expe iências de e elação de
i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou adolescência
Como se e i ica na Tabela 1, embo a a escola idade dos/as cuidado es/
as a ie de não al abe ização a ensino supe io , não se obse a um pad ão
e iden e no p ocesso de e elação da i imização sexual, já que ela os
de silenciamen o e al a de acolhimen o oco em an o em amílias com
cuidado es/as mais al abe izados/as, quan o menos escola izados/as.
No en an o, os en e is ados com mais escola idade consegui am se
exp essa melho du an e as en e is as. Essa abela o e ece uma isão
ge al das ca ac e ís icas sociodemog á icas dos pa icipan es e apon a pa a
a complexidade do p ocesso de e elação, que se á explo ada na seção
seguin e.
As en e is as o am ealizadas en e ab il e ou ub o de 2022, qua o
(4) de o ma emo a e no e (9) p esencialmen e. Em média, a sua du ação
oi de 59 minu os. Os dados o am anonimizados e a ibuídos nomes ic ícios
aos en e is ados.
As en e is as o am in eg almen e ansc i as e subme idas a
uma análise de con eúdo emá ica (Ba din, 2016). Nes a análise, o am
iden i icados ês emas p incipais. O p imei o in es iga as dimensões
da i imização masculina, conside ando ulne abilidades con ex uais
e dinâmicas amilia es. O segundo abo da o p ocesso de e elação da
iolência sexual, discu indo o papel das pessoas in e locu o as e as ba ei as
en en adas pelos homens de ido a es igmas elacionados aos papéis de
gêne o. O e cei o ema explo a as implicações da iolência sexual nas
iden idades de gêne o e sexualidade dos sob e i en es, abo dando a
econ igu ação das masculinidades e as es a égias de essigni icação que
pe mi em aos indi íduos eesc e e suas his ó ias de ida.
No que espei a, em pa icula , ao con ex o de e elação da iolência
sexual so ida, dos eze (13) en e is ados, seis (6) op a am po compa ilha
sua expe iência com amilia es e/ou cuidado es/as – dois (2) imedia amen e
após o oco ido, ou os dois (2) após alguns meses e os es an es dois (2)
só após á ios anos. Se e (7) en e is ados nunca e ela am a i imização
pa a amilia es e/ou cuidado es/as. Todos os en e is ados compa ilha am
a iolência sexual i enciada com alguém de sua ede pessoal, mas,
ge almen e, apenas deco ido um longo pe íodo desde o e en o. A Figu a 1
sin e iza esse p ocesso.
48 Joana T. F. da Sil a | Ana Ma ia B andão | Jean Von Hohendo
3. Ba ei as e a o es acili ado es da e elação
A iolência sexual con a c ianças do sexo masculino pode se enca ada
po dois p ismas an agônicos: (i) alguns podem enca á-la como ino ensi a,
um equí oco que pe pe ua a ideia de que “expe iências sexuais” p ecoces
são desejá eis pa a a o mação da masculinidade no ma i a – um homem
sexualmen e a i o, pujan e e i il; (ii) ou os econhecem-na como uma
abe ação, algo socialmen e ep o á el, que expõe o sob e i en e a
p econcei os deco en es da posição de ulne abilidade a que oi sujei ado e
aos abus que a pe meiam – um homem pene á el. É impo an e essal a
que a isão de que a iolência sexual “não é p ejudicial” à c iança e ao/à
adolescen e é uma in e p e ação dis o cida, equen emen e inculada
à lógica do/a ag esso /a, e não co esponde ao en endimen o cien í ico
ou legal da ques ão, que conside a a iolência sexual um c ime g a e com
consequências de as ado as pa a o desen ol imen o psicossocial da c iança
e do/a adolescen e (Deno , 2003). Esse con ex o é c ucial pa a desmis i ica
as noções e ôneas e des aca a u gência de uma abo dagem c í ica e
in o mada sob e o ema.
Nesse cená io, os homens i imizados são expos os a um conjun o
de emoções elacionadas com a culpa, a e gonha e a é um sen imen o
de meno ização ace aos ou os homens. Po isso, mui os sujei am-se ao
silêncio, o que, como no a Bou dieu (2012), con ibui pa a a manu enção do
pode e da explo ação, obli e ando as o mas de dominação e jus i icando a
o dem es abelecida.
En e as ba ei as à e elação da i imização sexual, des acam-se: o
medo da eação dos ou os, que pode se nega i a, conduzindo a ou as
o mas de i imização (Alaggia, Collin-Vézina e La ee , 2017); o eceio de se
is o como po encial u u o ag esso (Alaggia, 2005); e o eceio das ameaças
do/a ag esso /a (Alaggia, Collin-Vézina e La ee , 2017).
En e os aspe os que podem in luencia a e elação/ocul ação do
sucedido, des aca-se ambém a elação da pessoa sob e i en e com o/a
ag esso /a; is o é, a p obabilidade de e elação depende do ipo de elação
que man êm en e si ou da elação en e o/a ag esso /a e a amília da í ima,
ligada ao eceio de deses u u ação amilia e podendo le a à in imidação
e à chan agem sob e o/a sob e i en e (APAV, 2019). Con o me e idenciado
na Tabela 1, quase odos os en e is ados o am i imizados po pessoas
p óximas, o que e o ça o impac o das dinâmicas de con iança e dependência
no p ocesso de silenciamen o. Isso é e idenciado po Lucas, que eco da
que as suas ag esso as “e am izinhas da minha ia desde [há] mui os anos
49
Silêncios des elados: expe iências de e elação de
i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou adolescência
(…)! São amicíssimas, en ão, como eu ala ia: ‘En ão, sua ilha, suas duas
ilhas, nos con ida am pa a…’?”. O en e is ado eceou deses abiliza uma
elação de amizade e au oajuda en e sua ia e as izinhas que pode ia aze
danos à con i ência co idiana, especialmen e conside ando a sua si uação
de ulne abilidade social e econômica du an e a in ância e adolescência.
A e elação da iolência sexual pode ia deixa a sua amília ainda mais
ulne á el, pois não pode ia mais con a com a ajuda das izinhas.
Schonbuche e al. (2012) apon am ainda a p eocupação com os/as
cuidado es/as como azão impo an e pa a o a aso na e elação. Assim,
Diogo se iu impossibili ado de e ela a iolência sexual a que o a expos o
na escola, pois isso pode ia coloca em isco a subsis ência amilia :
Eu não podia con a que essa ins i uição, que é amosa no mundo in ei o,
ca ólica, que e a onde a minha mãe e a p o esso a, coo denado a, e a minha
cunhada e a di e o a… En ão, como [é que] que eu ia con a ?!… Como [é que] eu
ia dize pa a elas que o dono da ins i uição e o segu ança da ins i uição, ou seja,
um es udan e ca ólico, semina is a, que az pa e da cong egação, e o segu ança
do p édio onde elas abalha am aziam isso? Eu inha medo que elas pe dessem
o emp ego.
Já Rod igo na ou a di iculdade de e elação pa a a amília po que, a é
hoje, culpabiliza a geni o a pelo oco ido, a gumen ando que a negligência
dela, em e mos de cuidado, con ibuiu pa a sua ulne abilidade à i imização
sexual. Em suas pala as, “eu nunca ou consegui ala sob e isso com ela
[mãe], nunca! Po quê? Po que, como eu a culpo [d]isso, se eu alo e ela se
sen e culpada, eu ou me sen i culpado de culpá-la”. Já Fe nando expôs o
medo de causa do e so imen o aos seus pais, que “nunca soube am… É
algo que eu não sei se alguma ez ou e on ade de con a (…) po que eu
acho que i ia causa um so imen o mui o g ande sabe que eu passei po
udo aquilo sozinho”. Como já e idenciado, não oi encon ado um pad ão
e iden e no p ocesso de e elação, pois an o em amílias com cuidado es/
as mais al abe izados/as, quan o em amílias com cuidado es/as menos
escola izados/as, hou e casos de silenciamen o e al a de acolhimen o. Além
disso, em algumas amílias com meno escola idade, a e elação acon eceu
logo após a iolência, mos ando que ou os a o es, como a dinâmica
amilia e as condições emocionais, podem se mais de e minan es na o ma
como a e elação é ecebida e a ada.
Reco dando ou os casos que conhecia, Diogo des acou ainda o papel
manipulado e chan agis a do/a ag esso /a no sen ido de con ence a pessoa
iolen ada a man e o silêncio: “Se o nou um g upo onde e a no malizado,
50 Joana T. F. da Sil a | Ana Ma ia B andão | Jean Von Hohendo
a é po que isso ge a a p esen es, dinhei o, oupa, po que esses bandidos
ão e dando coisas pa a e cala .” Também B uno a i mou: “Eu sabia que eu
não podia ala nada po que a pessoa pediu pa a não ala nada.”
Já Daniel e idenciou o medo de se desac edi ado: “Acon ece isso
comigo e eu caio com a boca no mundo, alo com meu pai, com a minha
amília, ou no ádio, ou na polícia, con o udo que acon eceu. As pessoas
podem, simplesmen e, não ac edi a ou podem [dize ]: ‘Você ‘ á alando de
algo que acon eceu, en ão, p o a! Você em es emunha? Alguém iu?’.”
Também Lucas ac edi a que, mesmo que se expusesse, “naquela época, (…),
ealmen e, se alasse, não da ia em nada”, posição idên ica à de Daniel que
decla ou que “o es o ço de se expo em busca de jus iça pode se mui o
g ande pa a nada ou pa a só i a al o de chaco a, i a mo i o de o oquinha,
ou pa a oma se mão, ou pa a causa uma do ainda maio . Você ai escala
a si uação pa a não, necessa iamen e, ob e jus iça. (...) Não ha ia epa ação
ou uma condenação ou acolhimen o, nada”. Além da sensação da al a de
jus iça, Daniel con essou ou o eceio: o de uma eação desmedida po pa e
do seu pai. De a o, sabe-se que o sen imen o de ingança pode su gi an o
po pa e da í ima, como das pessoas que a ci cundam, que pelo medo de
o/a ag esso /a come e o c ime no amen e e/ou com ou as pessoas, que
pela al a de con iança no sis ema de jus iça (APAV, 2019).
Assim, as c enças e pe cepções do/a sob e i en e ela i amen e à
expe iência da iolência sexual, sen imen os como a culpa, a e gonha, o
medo da ep o ação social, da ejeição, da desc edibilização, as ameaças
do/a ag esso /a (Baía e al., 2013; Hohendo , San os e Dell’Aglio, 2015), a
(au o-) esponsabilização e a c ença na ine iciência dos o ganismos o mais e
ins i ucionais de espos a podem ambém in e e i na decisão de e elação
ou ocul ação (APAV, 2019).
Fa o es como a idade e o ipo da iolência pe pe ada – mais ou menos
explíci a e in asi a – são ambém ele an es (APAV, 2019). A idade da pessoa
sob e i en e in luencia a ma u idade necessá ia pa a comp eensão do
episódio e exp essão das p óp ias emoções (Alaggiaa e Wangb, 2020). No
en an o, ao con á io do que é equen emen e encon ado na li e a u a,
nes a pesquisa não se iden i icou um pad ão e iden e e e en e à idade das
í imas. Os únicos en e is ados que e ela am a i imização no momen o
da iolência inham menos de doze (12) anos, enquan o odas as ou as
e elações oco e am pos e io men e. Isso suge e que, além da idade e
da na u eza da iolência, a o es como a dinâmica amilia e o con ex o
emocional desempenham papéis signi ica i os. Essa complexidade é
51
Silêncios des elados: expe iências de e elação de
i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou adolescência
ilus ada pelo ela o de Diogo, que exp essa sua di iculdade em e baliza a
expe iência: “A iolência sexual me ez cala . En ão, e a mui o mais o e o
espa ad apo que oi colocado na minha boca do que a condição de eu olha
o que e a iolência sexual.”
Ou o aspe o de ele o e me ecedo de des aque é o sexo do/a p óp io/a
pe pe ado /a. Quando o sob e i en e e ela e sido iolen ado po uma
mulhe , pode se expos o a p econcei os e es e eo ipização especí ica
elacionada com a sua supos a al a de i ilidade (Gagnie e Collin-Vézina,
2016). Quando o sob e i en e e ela e sido iolen ado po ou o homem,
é equen emen e associado à agilidade e à incapacidade de se de ende e/
ou à homossexualidade, em ambos os casos ge ando eceio de humilhação
e subes ima da sua masculinidade (Pe e sson e Plan in, 2019; Hla ka, 2017;
Mulde , Pembe on e Vinge hoe s, 2020; Pe e sson e Plan in, 2019; Rosa e
Souza, 2020).
Os en e is ados demons a am maio di iculdade em ala sob e a
i imização sexual pe pe ada po homens. Assim, endo sido i imizado
pelo p imo, Felipe a i ma que: “Eu não sei po quê, mas nunca con ei pa a
os meus pais o que acon eceu com o meu p imo”, o que pode indica uma
maio di iculdade em compa ilha a iolência exe cida po um homem,
e o çada po um ambien e de julgamen o que aumen a o sen imen o
de e gonha (Gagnie e Collin-Vézina, 2016). Essa di iculdade pode se
especialmen e acen uada en e sob e i en es não he e ossexuais de ido
ao es igma social elacionado à i imização po pessoas do mesmo sexo.
Con o me a Tabela 1, seis (6) dos eze (13) en e is ados se iden i ica am
como homossexuais e dois (2) como bissexuais, o que pode e aumen ado
o eceio de que a e elação con i masse es e eó ipos sob e sua o ien ação
sexual, in ensi icando a p essão pa a ocul a a expe iência, especialmen e
em sociedades que es igma izam a homossexualidade e a bissexualidade.
Assim, Felipe, bissexual, mencionou que nunca con ou pa a os pais o
que acon eceu com seu p imo. Na época, ele e a mais elho e já inha maio
consciência dos impac os sociais e emocionais de e baliza a iolência, o que
pode e con ibuído pa a seu silêncio. Po ou o lado, quando oi i imizado
po sua ama/cuidado a, ainda e a mais no o e não ap esen ou as mesmas
e icências, con o me apon a o ela o: “Quando meus pais chega am, eu saí
con ando o que eu inha ei o no dia e eu alei o que ela inha ei o, e meus
pais pe gun a am: ‘O pin inho6 icou du o? O que ela es a a azendo?’ E eu
6 Exp essão coloquial u ilizada pa a ala do ó gão geni al masculino.
52 Joana T. F. da Sil a | Ana Ma ia B andão | Jean Von Hohendo
espondi: ‘Ela es ega a a pepeca7 dela em mim’.” Segundo o en e is ado,
o assun o não ol ou a se alado. As in e ogações pa en ais suge em,
en e an o, que a i imização não oi obje o de especial p eocupação po e
sido come ida po uma mulhe , conside ando que há uma maio acei ação
social de elações sexuais en e mulhe es mais elhas e homens mais no os.
Po im, o meio sociocul u al da pessoa pode á ou não lhe pe mi i
ala sob e sexo e sexualidade abe amen e, o que ambém pesa na decisão
de e elação/ocul ação da i imização (APAV, 2019). Exemplo disso é a
di iculdade em econhece a iolência e o abu em discu i a sexualidade
den o de comunidades eligiosas, o que complica o p ocesso de e elação
(Lusky-Weis ose e al., 2022). Gus a o exp essa jus amen e p eocupação
com o a o de seus pais pode em não comp eende c i icamen e a
i imização, sob e udo po causa das c enças eligiosas: “A é hoje, eu ainda
enho medo que algumas pessoas descub am, p incipalmen e meus pais,
que são pessoas mui o echadas pa a esse lado. En ão, eu não gos a ia que
eles descob issem.”
Conside ações inais
Es e a igo des aca a signi ica i a e ac escida di iculdade que os homens
en en am ao e ela episódios de i imização sexual oco idos du an e a
in ância e/ou adolescência. Os ela os alinham-se com as conclusões de
ou os es udos, e idenciando pad ões eco en es no que conce ne às azões
subjacen es à ocul ação/ e elação da i imização, não obs an e o a o de o
p ocesso e os mo i os po ás de uma ou ou a a ia em.
En e os a o es que con ibuem pa a o silenciamen o encon am-se:
a au oculpabilização; o medo de e i imização e desc edibilização; o eceio
de expo as amílias a ulne abilidades á ias; a chan agem; a desc ença
no sis ema judicial e nas espos as ins i ucionais ao p oblema. O p ocesso
é ambém pe meado po a o es emocionais e sociocul u ais que o nam
essa expe iência ainda mais desa iado a pa a os homens, que lu am pa a
suplan a sen imen os de ulne abilidade, humilhação, do e desampa o.
In e samen e, en e os a o es acili ado es, os en e is ados
des aca am: o consumo de álcool e/ou subs âncias psicoa i as de ido à
sua capacidade de diminui inibições, que ilus a a maio di iculdade de
exp essão emocional dos homens; o sen imen o de acolhimen o po pa e
da pessoa que escu a; a qualidade das elações amilia es; o sen imen o de
7 Exp essão coloquial u ilizada pa a ala do ó gão geni al eminino.
53
Silêncios des elados: expe iências de e elação de
i imização sexual de homens du an e a in ância e/ou adolescência
apoio que ab ange a segu ança ísica, emocional; e a c edibilidade a ibuída
ao que é compa ilhado. Além disso, um ambien e p opício à discussão de
ques ões elacionadas com a sexualidade é ambém conside ado c ucial. Em
conjun o, es es a o es desempenham um papel impo an e de alidação,
queb a do ciclo de silenciamen o, essigni icação e ecupe ação do p ocesso
de i imização.
O pano de undo da expe iência de e elação/silenciamen o da
i imização é o desalinhamen o ace à masculinidade no ma i a. To na-se,
pois, necessá io e le i sob e o papel do gêne o enquan o ba ei a c í ica à
e elação de expe iências de i imização sexual, isando c ia um ambien e
em que os sob e i en es se sin am habili ados e apoiados e con ibuindo
pa a a p e enção da e i imização. Também o abalho de conscien ização e
es au ação da con iança nos ins umen os legais e o iciais u ge, no sen ido
de con ibui pa a a cons ução de uma cul u a que ejei e a iolência e
p omo a a igualdade de gêne o.
T a ando-se de um es udo de casos, es e es udo ap esen a algumas
limi ações, deco en es, desde logo, do núme o ela i amen e eduzido
de en e is as e de uma ce a homogeneidade sociodemog á ica dos
en e is ados. Toda ia, con ibui pa a ap o unda o conhecimen o das
p óp ias isões de homens i imizados e pa a expandi um domínio de
in es igação ainda pouco explo ado, especialmen e em Po ugal. Do pon o
de is a da in e enção, uma maio di ulgação de in es igações sob e o
ema pode amplia a conscien ização sob e iolência sexual con a meninos
e adolescen es, con ibuindo pa a eduzi pe cepções sociais e cul u ais
no ma i as que a pe pe uam (Hohendo , San os e Dell’Aglio, 2015),
acili ando a sua no i icação e a implemen ação de medidas p e en i as e de
acompanhamen o dos sob e i en es.
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and/o lea ning ma e ial a schools. Each s udy in es iga ed a di e en age
g oup while conduc ing a gende pe o ma i e analysis, ci ing Judi h Bu le ’s
(2006) heo y o gende pe o ma i i y. Pe ei a (2012) in es iga ed gende
being pe o med on he playg ound wi h young adolescen s and B i o e al.
(2021) s udied how gende iden i y was e/cons uc ed in a p eschool-aged
class oom h ough social in e ac ions o ein o cemen o gende ed ma e ial.
Bo h s udies p esen he socialisa ion aspec g an ed o schools and highligh
he necessi y o con inue s udying gende in he class oom.
U ilising Judi h Bu le ’s heo y o gende pe o ma i i y (2006), his
esea ch akes he posi ion ha gende is a social cons uc ion, h ough
he ep oduc ion and con inua ion o pe o ma i e gende ed exp essions.
Gende oles, beha iou , and s e eo ypes all lead o wha Bu le e e s o as
pe o ma i e ac s in which gende is being c ea ed o done (Mo gen o h and
Ryan, 2018). Bu le desc ibes gende as a pe o ma i e ac ha indi iduals
[socie y] a e doing as an ex e nal exp ession. As young boys play oo ball
du ing ecess and young gi ls b ing pink bookbags o school, gende is being
done and ein o ced. Bu le asse s ha when indi iduals a e doing gende ,
hey a e pe o ming wha has been obse ed and cul u ally acqui ed h ough
social in e ac ions ha ha e been in oduced and ein o ced by socie y
(Mo gen o h and Ryan, 2018). By pe o ming a se o gende ac s, s uden s
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Risman (2018, p. 23) a gues ha adhe ing o gende s e eo ypes is an
ac o socialisa ion, and he collec i e gende ed iews and belie s exp essed
h ough socie al p essu es a e social inequali ies in he making. I socie y,
o young s uden s speci ically, a e o adhe e o p eassigned gende oles,
hen boys would be socially guided by a beha iou al compass ha should
di ec hem owa d agg ession o oughness, while gi ls should adhe e o he
submissi e and de e en ial na a i es ha socie y has ske ched ou o hem.
The social beha iou al ideals assigned o gende s cons uc an unequal and
imbalanced le el o powe , as well as a sense o gende accoun abili y which
esul s in social consequences should one beha e ou side o hese gende ed
social no ms (Wes and Zimme man, 1987; Bu le , 2006; Mo gen o h and
Ryan, 2018; Pe ei a, 2012).
2. Emo ion Socialisa ion a School
As s uden s acqui e and adop gende ed no ms, hey also lea n o exp ess,
manage, and iden i y emo ions based on hei “emo ion cul u e” h ough
65
Laying ou a sc ip o s uden s’ emo ions h ough
gende and emo ion socialisa ion.
emo ion socialisa ion (Pe e son e al., 2006, p.122). Th ough expe ienced
social con ex s, s uden s ein o ce, lea n, and acqui e in o ma ion o exp ess,
manage, and unde s and hei emo ions. Class oom ins uc o s a e also
in ol ed in simila in e ac ions o emo ion socialisa ion as pa en s (Mo is
e al., 2013), wi h class oom ins uc o s being c i ical ins umen s in he
acili a ion o emo ion socialisa ion in he class oom (Valien e e al., 2020;
Bøls ad e al., 2023). Teache s a e, a e all, ole models, and hei emo ional
managemen and comp ehension compe encies, backg ounds, including
mo als and alues, and eaching s yles will ha e an in luence on emo ions
exp essed in he class oom (Ha g ea es, 1998; Valien e e al., 2020).
S uden s and ins uc o s exchange nume ous social in e ac ions
h oughou he school day, wi h he inclusion o a my iad o emo ions and
eeling exp essions. In e nalising he emo ions o o he s occu s wi hin ou
s uden s’ social in e ac ions as Ce ejo and Lisboa (2018, p. 159) w i e “...
ecogni ion o he emo ional s a es o o he s is one o he ounda ions o social
in e ac ion p ocesses…”. While engaging in social in e ac ions, indi iduals
mus ha e he capabili y o unde s and and iden i y he emo ions o o he s.
S uden s a e asked wi h unde s anding and p ocessing hei emo ions and
hose o o he s, as well as e ec i ely and emo ionally in e ac ing in di e se
en i onmen s, such as schools, h ough he p ocess o emo ion socialisa ion.
3. Social P ocess o Managing, Unde s anding, and Iden i ying Emo ions
A lie Hochschild’s wo k in Managed Hea (2012) in oduces eeling ules,
social no ms and expec a ions ha guide emo ional beha iou ; and emo ion
wo k, he e o s made o shi one’s emo ions ex e nally. Hochschild w i es
ha indi iduals manage and exp ess hei emo ions based on socie al
expec a ions ha ha e been p esc ibed o ce ain social g oups and oles, i.e.
gende ed g oups and oles (Hochschild, 2012). The social oles ha could be
adop ed in a school se ing (i.e., in elligen s uden (ne d), class clown, and
a hle e) a e a ached o a se o eeling ules ha s uden s p esume mus
be exp essed o ha a e expec ed om socie y (o he s uden s, pa en s, o
ins uc o s). Feeling ules may ein o ce gende expec a ions o oles ha
child en ha e al eady expe ienced h ough social in e ac ions, such as “boys
shouldn’ c y”, o may also unc ion as a model o guide on how ce ain
gende s should manage and exp ess hei emo ions based on gende oles,
o how o unde s and and expec he emo ions o o he s.
When gende ed oles and g oups a e assigned pa icula eeling
ules, such as gi ls should be imid o young boys should be ough, gende
66 Rebecca Judeh | Dalila Ce ejo
s e eo ypes a e con eyed h ough gende s e eo yping o emo ions (Plan
e al., 2000). Feeling ules p oduce expec a ions and guidelines based
on he belie s o how a gende should beha e emo ionally, pe pe ua ing
gende s e eo ypes while causing ac ions o e ec s: emo ionally esponding
wi hin he gende ed social no ms. Explici ly adop ing a ole was obse ed
as boys we e spoken o a e ough play du ing a oo ball game. One boy in
pa icula was qui e agg essi e and physical wi h ano he s uden , in which
he s uden esponded o he eache ha was how he oo ball playe s on
he Manches e Uni ed eam played; hey hi each o he . The s uden had
assigned an emo ional and physical beha iou o he ole o “ oo ball playe ”
ha he hen adop ed and used o jus i y his ac ions du ing ecess.
By applying A lie Hochschild’s (1979, 2012) concep s o eeling ules and
emo ion wo k and Judi h Bu le ’s (2006) heo y o gende pe o ma i i y,
a deepe analysis in o he social in e ac ions in he class oom can be
decons uc ed, using gende s e eo yping o emo ions as he medium.
Obse ing gende exp essions h ough eeling ules o emo ion wo k ou lines
a social p ocess in how s uden s acqui e o de elop he unde s anding o how
o exp ess, manage, o unde s and emo ions. Bu le ’s gende pe o ma i i y
heo y, which cen es on how indi iduals do gende h ough pe o ma i e
ac s, shows how eeling ules o emo ion wo k a e examples o gende ed
pe o ma i e ac s ha a e hen ep oduced h oughou he school day,
e en ually becoming an exp ession ha plays a ole in how s uden s manage,
exp ess, and unde s and emo ions based on hei gende iden i ica ion.
Feeling ules and ac s o emo ion wo k ha a e exp essed and ep oduced,
a e pe o ma i ely ac ed, and can ein o ce gende s e eo ypes and gende
oles, in luencing he emo ional de elopmen o child en.
4. Me hods
As pa o a p elimina y s udy o a esea ch in es iga ion con inued h ough
he academic school yea o 2023/2024, an e hnog aphic s udy was
conduc ed a a public p ima y school in Lisbon wi h a second-g ade class
made up o 22 s uden s: 14 boys and 8 gi ls, be ween he ages o se en
and nine. Fi een s uden s we e om Po ugal, h ee s uden s om B azil,
one s uden om Cabo Ve de, one s uden om Angola, one s uden om
Nepal, and one s uden om Uk aine. Fo ming he nucleus o his esea ch
is a symbolic in e ac ionis pe spec i e, a posi ion suppo ing he no ion
ha social in e ac ions and he a ious meanings associa ed o hem a e
he building blocks used o shape and c ea e iden i ies. Imme sing onesel
67
Laying ou a sc ip o s uden s’ emo ions h ough
gende and emo ion socialisa ion.
in o he esea ch en i onmen equi ed a esea ch me hod, such as an
e hnog aphy, ha p o ided a wide lens and he lexibili y o obse e social
in e ac ions e ol ing and changing, e lec ing he e olu ion o beha iou .
The s uc u e o he e hnog aphic imeline was adop ed om Ma lies
Kus a sche ’s wo k (2015) and began wi h one day pe week in la e Janua y
and ended wi h one day pe week a he end o June: o alling 29 days
and jus o e 100 hou s. Di e en momen s du ing he school yea we e
obse ed: Ca na al, Sp ing Holiday/Eas e B eak, Mo he ’s Day, Fa he ’s
Day, and he End-o - he-Yea School Pe o mances. Science, Po uguese,
and Ma hema ics lessons, as well as Physical Educa ion and ecess we e
obse ed. Classes we e conduc ed in Po uguese wi h all s uden s and
ins uc o s being na i e Po uguese speake s, wi h he excep ion o he
s uden s om Uk aine, Nepal, and Cabo Ve de and mysel . These speci ic
classes we e obse ed as hey we e ins uc ed by he home oom eache ,
who had olun ee ed o allow class obse a ions o occu . Physical Educa ion
was augh by a di e en eache , who also ag eed o be obse ed a e a
eques had been made. Recess was mo e o an open obse a ion space ha
was g an ed by he headmas e . All no es and obse a ions we e eco ded in
no ebooks, disca ding he idea o using echnology, i.e. lap op o iPad/ able ,
as his could lead o a dis ac ion o he s uden s.
Ini ial in e es in he esea che ’s place o o igin a ose, as well as
con usion ega ding he idea ha e e yone was a s uden , which was he
“iden i y” assumed by he esea che . Th oughou he semes e , he ole
o he esea che de eloped and shi ed om “ ly on he wall” o a mo e
in ol ed pa icipan obse e , some imes being in i ed o pa icipa e in class
ac i i ies o games a ecess. Usually, he esea che limi ed pa icipa ion
and main ained an obse e ole o gain an o e all pe spec i e o he class.
The wo s uden s who we e no na i e Po uguese speake s some imes
equi ed an English ansla ion o unde s and he ask and assis ance would
be eques ed o gi en, changing he esea che ’s ole in o educa o ( he
esea che ’s p o essional backg ound).
Obse a ions we e mos ly eco ded om s uden s’ g oup ables o
benches a ound he school’s playg ound. Si ing a a g oup able allowed
o close insigh s in o con e sa ions and in e ac ions, as well as a spa ial
pe spec i e o wha s uden s expe ienced, as he e was an oppo uni y o si
a all g oup ables. The e was a speci ic able, loca ed owa ds he back o he
class oom, whe e he majo i y o ime was spen as he posi ion p o ided
an o e all iew o he class. O he sea s in he class oom did no o e
68 Rebecca Judeh | Dalila Ce ejo
unobs uc ed iews o he on boa d o he home oom eache ’s desk, o
all o he s uden s we e no in sigh .
O e ime, s uden s, especially a he able whe e he esea che was
usually sea ed, became mo e amilia and com o able. While his was
no di ec ly e balised, he numbe o cu ious s a es o ex ensi e pe iods
dec eased, and o e all body language was mo e elaxed, wi h mo e dialogues
and ques ions a ising. Inc eased cu iosi y in o wha was being w i en also
occu ed, usually ollowed by ques ions. Seeing as he no es we e w i en
90% in English and 10% in Po uguese (in momen s whe e w i ing as was
equi ed, i was easie o main ain Po uguese), i was di icul o s uden s
o unde s and he w i en no es, some imes esul ing in s uden s seeking
guidance om English speake s (s uden wi h a pa en om he Uni ed
Kingdom and s uden om Nepal) in he class oom. When ques ions did
peak, hese dialogues usually ook place du ing ecess. Dialogues wi h
he home oom eache also occu ed du ing Physical Educa ion o du ing
b ie mon hly lunch mee ings, o e iew he p og ess o he p ojec . Mos
dialogues be ween he home oom eache and he esea che in ol ed
backg ound in o ma ion in o he s uden s’ academic and home li es, which
p o ided g ea e unde s anding in o obse a ions made.
P io o beginning he s udy, consen o ms we e gi en o all legal
gua dians in bo h English and Po uguese explaining he pu pose o he s udy.
The da a and obse a ions collec ed, names o s uden s and educa ional s a ,
and he iden i y o he school ha e been ea ed comple ely con iden ially.
This s udy has adop ed a childhood s udies amewo k in ha s uden s a e
pa icipan s and no subjec s; ha is, i is a s udy wi h s uden s and no on
s uden s.
Examples o eeling ules and gende s e eo ypes we e quickly eco ded
when obse ed h oughou he school day. Mic oso Excel se ed as he ini ial
so wa e o eco d he handw i en no es, and hese iles we e e en ually
ans e ed and coded on MAXQDA so wa e. A e e iewing he eco ded
no es, h ee ca ego ies we e c ea ed o p esen how gende and emo ion
socialisa ion (in he o m o gende s e eo ypes and eeling ules) mani es ed
in he class oom. The ca ego ies o analysis we e: 1) Discou se; 2) Lea ning
Ma e ial; and 3) S uden Ac ions. Ca ego y 1 includes social in e ac ions
ha we e di ec ly and e bally communica ed and elayed gende ed ideas
o gende ed emo ion- ela ed messages/ac s. Ca ego y 2 e e s o gende
s e eo ypes and eeling ules p esen in lea ning ma e ial. The las ca ego y,
Ca ego y 3, was challenging o classi y as i in ol ed ac ions om di e en
69
Laying ou a sc ip o s uden s’ emo ions h ough
gende and emo ion socialisa ion.
school se ings, such as class pe o mance and playg ound ac i i ies. These
obse a ions e lec ac ions embedded wi h gende s e eo ypes o eeling
ules, and/o when emo ion wo k was being pe o med. Each ca ego y
se ed as a speci ic lens o unde s and how gende and emo ion socialisa ion
mani es ed.
5. Resul s
Nea ly 1,000 social in e ac ions con aining gende s e eo ypes and eeling
ules we e eco ded h oughou he sp ing semes e and o e 800 o hose
we e o ganised in o each o he ca ego ies. Roughly 80% o he obse a ions
we e S uden Ac ions, Discou se abou 10% o he ime, and Lea ning
Ma e ial less han 10% o he obse a ions. S uden Ac ions was eco ded
e e y obse a ion day and Discou se was he nex mos common ca ego y,
being eco ded 20 ou o he 29 days. The ca ego y appea ing he leas was
Lea ning Ma e ial wi h a p esence o 18 days. Some examples om each
ca ego y can be obse ed in Table 1.
Table 1. Obse a ions om Discou se, Lea ning Ma e ial,
and S uden Ac ions Ca ego ies
Ca ego y Examples
Discou se
● Using Te ms o Endea men : p incesa s. senho
● Challenging Feeling Rules: Class discussion on how
people can be sad wi hou c ying
● Doing Feeling Rules: S uden s being asked wi h e bally
exp essing and e lec ing on ac ions (usually du ing pee -
pee a gumen s)
● Gi ing hugs du ing Conselho de Tu ma (could also be in
“S uden Ac ions”)
70 Rebecca Judeh | Dalila Ce ejo
Lea ning Ma e ial
● Gende ing Emo ion in Li e a u e: Boys/Men (agg esso )
and Gi ls/Women ( ic im)
● P esen ing Feeling Rules: Video P esen a ion explaining
how so y, o desculpa, does no always sol e con lic s.
Repea ed gende ed emo ion s e eo ypes wi h agg essi e
boy cha ac e and imid, ic im gi l wi h woman ins uc o
enci cled by hea s.
● Gende ed Colou Coo dina ion: Colou Sexism – Using
pink o boys and g een o gi ls gi es a eason o be
upse ( wo sepa a e s o ies); and using pink class oom
ins umen s o discipline a boy.
S uden Ac ions
● Boy s uden s being mo e in e ac i e ( olun ee ing
answe s, shou ing answe s, o co ec ing s uden s)
du ing academic classes, such as ma hs o science, and
gi ls being mo e imid and shye /quie e .
● Chee ing and h owing is s in he ai o cong a ula e
s uden s who comple ed a science ac i i y. When
s uden s we e unable o achie e he se goal, he e was
mos ly silence.
● G oup o boy s uden s being physically agg essi e
owa ds ano he s uden (boy) du ing ecess. The s uden
did no espond and con inued o play un il e u ning o
he class oom (emo ion wo k).
6. Discussion
Quan i ying he ca ego ies p oduced unexpec ed esul s, sligh ly
o e shadowing a comple e look in o he epe i ion and ep oduc ion o
gende s e eo ypes/gende ed emo ions p esen in he class oom. S uden
Ac ions we e eco ded e e y obse a ion day, and he da a shows ha
Discou se and Lea ning Ma e ial we e bo h p esen abou wo- hi ds o he
obse a ion days. Conside lea ning ma e ial: gende s e eo yped-pos e s on
71
Laying ou a sc ip o s uden s’ emo ions h ough
gende and emo ion socialisa ion.
he walls, o gende s e eo yped-s o ies discussed o one- wo weeks; i is
known ha hese we e epea ed (obse ed) on mo e han one day, e en
hough no con eyed in he da a. Reco ding gende s e eo yped-ma e ial
each day i was p esen , such as a s o y discussed o e many classes o a
gende s e eo yped-pos e on he wall o weeks, could ha e p o ided a
g ea e iew in o he epe i ion and ep oduc ion o gende ed ma e ial.
Recognising his is impo an o cla i y, as he epe i ion o class discussions
abou s o ies o gende -s e eo yped ma e ial we e also obse ed despi e
no being quan i ied. The ollowing sec ions desc ibe each ca ego y and/o
examples in g ea e de ail.
6.1. Ca ego y 1: Discou se
O igina ing om Aus in’s speech ac heo y (1955), speech such as wo ds,
u e ances, and ph ases a e unde s ood o ha e pe o ma i e esponses.
When an indi idual a icula es a s a emen , his also c ea es e ec s, such
as pe o ma i e ac ions. These e bal ac s a e also examples o exp essions,
and in he con ex o his esea ch, hey a e gende ed exp essions. Bu le
w i es how speech is a bodily ges u e wi h a linguis ic consequence (p.26,
2006); speaking is some hing we do.
Ca ego y 1. Discou se: Using Te ms o Endea men
When a s uden is called p incesa, expec a ions and ideas o wha i means
o be a gi l could be a ached o assumed. A mul iple-choice ques ion om
he s uden s’ ex book asked s uden s wi h ma ching he ph ase “p e y
gi l” (menina boni a) wi h a wo d: A) wi ch (b uxa); B) p incess (p incesa)
– co ec answe ; and C) g een goblin (duende e de), suppo ing he idea
ha a p incess is someone who is p e y. The common usage o his e m
a guably e lec s he s e eo ypical gende ole socie y expec s om young
gi ls: submissi e, ca ing, obedien , aes he ically pleasing, and imid, o
name a ew cha ac e is ics (Bai, 2022). Emo ionally and adi ionally, Disney
p incesses a e no usually po ayed as s ong and con iden cha ac e s
compa ed o hei “p ince cha ming”, whom hey seek o ma y. This idea
mi o s Wes and Zimme man’s (1987) analysis o how men a e socially
connec ed o dominan beha iou while women a e mo e submissi e. The
social ep esen a ions and s e eo ypes displayed by ai y ale cha ac e s
ein o ce hegemonic masculini y models and also symbolise a s age o
de elopmen and p epa a ion o women o hei social oles as wi es and
la e on, mo he s (Mi a, 2017), ein o cing hei p esence wi hin he p i a e
72 Rebecca Judeh | Dalila Ce ejo
sphe e and consequen ly emo ing he heme om he public domain.
Add essing boys as senho associa es a highe s a us o boys, as socie y
commonly uses “M .”/ “M s.”/ “Ms.” o show ank and espec wi hin social
classes, as well as powe . S a us can be obse ed as a e y powe ul ool
in he dynamics be ween indi idual and socialisa ion as i may se e as an
incen i e o assimila e cul u al no ms and p ac ices. (Bigle e al., 2013).
Ca ego y 1. Discou se: Challenging and Doing Feeling Rules
No only does eaching equi e a ce ain deg ee o empa hy, bu ins uc o s
also ha e he esponsibili y o eaching emo ions, which has been e idenced
by he numbe o Social and Emo ional Lea ning p og ammes inco po a ed
in o school cu icula in he las decade (De aga se ai ao longe – social and
emo ional compe ency p og amme in Po ugal). The home oom eache ’s
e lec ion on exp essing sadness wo ked o build s uden s’ emo ional
unde s anding as hey unde s ood c ying and being sad o be a mu ually
exclusi e ela ionship; his no only posi i ely a ec s s uden s’ social skills
bu also posi i ely impac s hei academic pe o mance (Bahman and Ma ini,
2008).
Each week s uden s me o discuss class issues and conce ns du ing class
mee ings, o Conselho de Tu ma (class council), whe e con lic s would o en
be esol ed, in ol ing bo h s uden and eache inpu . Obse ing he eache
ou inely equi e s uden s o e lec on hei ac ions, augh s uden s o
unde s and and manage hei emo ions, displaying once mo e how emo ion
socialisa ion occu s a school and can be acili a ed o “socialised” h ough
ca egi e -child in e ac ions, such as eache -s uden ela ionships (Cekai e
and Eks öm, 2019). Following esol ed con lic s o misunde s andings was
usually an apology: saying “so y” o “desculpa”, accompanied by a hug
be ween he in ol ed s uden s. When one esponded o asked o o gi eness,
a hug would ollow. E en hough conside ed a posi i e ac o a ec ion, how
o why had gi ing a hug become an accesso y a ached o he wo d “so y”?
Does an apology wi hou a hug imply a less since e apology, and is i socially
accep able o hug anyone e e y ime apologies a e exchanged – ega dless
o gende o age? Communica ing an apology is a guably one o socie y’s
mos common eeling ules associa ed wi h epen ance, while gi ing a hug
was obse ed as a physical esponse o an apology despi e any e bal cues
gi en.
73
Laying ou a sc ip o s uden s’ emo ions h ough
gende and emo ion socialisa ion.
6.2. Ca ego y 2: Lea ning Ma e ial
Lea ning ma e ial e e s o pos e s, ex books and lib a y books, wo kshee s,
and/o p esen a ions p esen ed o s uden s. Obse ing and analysing lea ning
ma e ial allows o he unde s anding o he o ms o gende s e eo ypes/
eeling ules augh , ein o ced, and po en ially acqui ed by s uden s.
Ca ego y 2. Lea ning Ma e ial: Gende ing Emo ion in Li e a u e
Occu ence o gende -s e eo yped li e a u e ma e ial has been documen ed
in a numbe o s udies (Pe e son and Lach, 1990; Hamil on e . al, 2006;
Damigellaa and Liccia dello, 2014; Samagaio, 2018), whe e common
depic ions o gende s e eo yping o emo ions we e obse ed wi h sensi i e
gi l cha ac e s and ough boy cha ac e s, o an imbalanced numbe o men and
women we e used o ep esen speci ic p o essionals. F equen po ayals
o simila gende -s e eo yped and gende ed emo ions we e p esen in class
ma e ial. While inunda ed wi h inaccu a e gende ep esen a ions, gende
s e eo yped po ayals in child en’s li e a u e can lead s uden s o accep
gende oles which guide owa ds a speci ic gende ed beha iou (Taylo ,
2003). Se ing as one o he mos impo an lea ning ools o s uden s, he
con en ound in ex books o on lib a y shel es unc ion as e y powe ul
socialisa ion ools (Zipes, 1981; Teppe e al., 1999), and can u he de elop
gende ed ideas (Samagaio, 2018).
Ca ego y 2. Lea ning Ma e ial: P esen ing Feeling Rules
By means o ideo p esen a ion, eeling ules we e augh as he p esen e s
discussed he e ec i eness o saying desculpa (so y) and how apologising
does no always alle ia e emo ional wounds. Simila ly o pas li e a u e,
he ideo in oduced s e eo ypical gende ed emo ions: agg essi e (boy)
and ulne able (gi l), and he gi l acciden ally bumped in o he boy who
esponded ang ily and agg essi ely. P esen ing boys as agg essi e and gi ls
as less agg essi e, e lec s socially emo ional and cul u al s e eo ypes and
expec a ions.
Fu he mo e, he ins uc o , whose ole i was o add ess wha had
occu ed, was displayed wi h hea s enci cling he . This also se ed o c ea e
an image o he nu u ing gi l/woman s e eo ype. Wikle (1976) conduc ed
a esea ch s udy ha e lec s his p ecise idea, in which s uden s expec ed
ins uc o s who we e women o be nice and mo e app oachable han
ins uc o s who we e men (Hochschild, 2012). This is a social no m and
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- Receção: 30.04.2024
- Ap o ação: 03.12.2024
83
The pe sis ence o gende inequali ies in he
dis ibu ion o unpaid wo k: an explana o y con ibu ion
CHAVES, Miguel; TEIXEIRA, Ana Lúcia; MARTÍN-LAGOS, Ma ia Dolo es; DONAT, Ma a – The
pe sis ence o gende inequali ies in he dis ibu ion o unpaid wo k: an explana o y con ibu ion.
Con igu ações: Re is a de Ciências Sociais [Em linha]. 35 (2025) 83-106. ISSN 2182-7419.
The pe sis ence o gende inequali ies in he dis ibu ion
o unpaid wo k: an explana o y con ibu ion
Miguel Cha es*
In e disciplina y Cen e o Social Sciences (CICS.NOVA)
NOVA Uni e si y o Lisbon – School o Social Sciences and Humani ies (NOVA FCSH)
Ana Lúcia Teixei a**
In e disciplina y Cen e o Social Sciences (CICS.NOVA)
NOVA Uni e si y o Lisbon – School o Social Sciences and Humani ies (NOVA FCSH)
Ma ía Dolo es Ma ín-Lagos***
Depa men o Sociology - Facul y o Poli ical Science and Sociology o Uni e si y o G anada (UGR)
Ma a Dona ****
Escuela Nacional de Sanidad - Ins i u o de Salud Ca los III (ENS-ISCIII)
Abs ac
This a icle analyses whe he and o wha ex en gende inequali ies pe sis in he dis ibu ion
o unpaid domes ic wo k among younge Eu opeans wi h highe educa ion, segmen s o
socie y whe e he ideals o gende equali y a e pa icula ly p esen . Using da a om he
In e na ional Social Su ey P og amme, we show ha his inequali y pe sis s o a signi ican
deg ee, which leads us o d aw up a se o hypo heses aimed a con ibu ing o he e o o
analyse his phenomenon. This amewo k o hypo heses d aws a en ion o he impo ance
o analy ically conside ing he cul u al su i al, albei in a mi iga ed, modi ied and di use
o m, o ele an aspec s o he male b eadwinne model.
Keywo ds: unpaid wo k, gende inequali ies, ISSP, male b eadwinne model
* E-mail: miguel.cha es@ csh.unl.p | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0001-8402-0727
** E-mail: analucia eixei a@ csh.unl.p | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0002-8086-2254
*** E-mail: lmlagos@ug .es | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0003-3540-9079
**** E-mail: ma.dona @isciii.es | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0002-6323-2779
84 Miguel Cha es | Ana L. Teixei a | Ma ía D. Ma ín-Lagos | Ma a Dona
Resumo
A pe sis ência de desigualdades na dis ibuição do
abalho não pago: uma con ibuição explo a ó ia
Es e a igo analisa se, e em que medida, pe sis em desigualdades de géne o na dis ibuição
do abalho domés ico não pago en e os eu opeus mais jo ens e com educação supe io ,
segmen os da sociedade onde os ideais de igualdade de géne o es ão pa icula men e
p esen es. Explo ando dados do In e na ional Social Su ey P og am, mos amos que es a
desigualdade pe sis e de o ma signi ica i a, o que nos conduz ao desenho de um conjun o
de hipó eses que isam con ibui pa a o es o ço da análise des e enómeno. Es e quad o de
hipó eses chama a a enção pa a a impo ância de se conside a anali icamen e a sob e i ência
cul u al, ainda que de o ma mi igada, modi icada e di usa, de aspec os ele an es do modelo
do male b eadwinne .
Pala as-cha e: abalho não pago, desigualdades de géne o, ISSP, modelo do male
b eadwinne
Résumé
Pe sis ance des inégali és dans la épa i ion du
a ail non émuné é: une con ibu ion explo a oi e
Ce a icle analyse si, e dans quelle mesu e, les inégali és de gen e pe sis en dans la
épa i ion du a ail domes ique non émuné é pa mi les jeunes Eu opéens ayan un
ni eau d’éduca ion supé ieu , segmen s de la socié é où les idéaux d’égali é de gen e
son pa iculiè emen p ésen s. En exploi an les données de l’In e na ional Social Su ey
P og amme, nous mon ons que ce e inégali é pe sis e signi ica i emen , ce qui nous
amène à o mule un ensemble d’hypo hèses isan à con ibue à l’e o d’analyse de
ce phénomène. Ce cad e d’hypo hèses a i e l’a en ion su l’impo ance de considé e
analy iquemen la su ie cul u elle, bien que sous une o me a énuée, modi iée e di use,
des aspec s pe inen s du modèle du male b eadwinne .
Mo s-clés: a ail non émuné é, inégali é de gen e, ISSP, modèle du male b eadwinne
In oduc ion
S udies on unpaid domes ic wo k (household and ca e wo k) (He og e
al., 2021) ha e shown, since he 1960s (Román, 2021), ha mos o his
wo k is done by women, especially he ou ine and ime-consuming asks.
Despi e he inc easing pa icipa ion o women in paid wo k and he g owing
in ol emen o men’s pa icipa ion in domes ic ac i i ies (Bianchi e al.,
2012; Guppy, Sakumo o and Wilkes, 2019) and changes in he alue sys ems
o Eu opeans ha indica e a s ong in ensi ica ion o he p inciples o pa i y
(Dush e al., 2018), his gende inequali y pe sis s a he in e na ional le el
(OECD, 2020; ISSP, 2012), e en in coun ies wi h mo e egali a ian “gende
egimes” and mo e conside able s a e ins i u ional suppo , such as in
Scandina ian coun ies (Adda, Dus mann and S e ens, 2017; Kle en, Landais
85
The pe sis ence o gende inequali ies in he
dis ibu ion o unpaid wo k: an explana o y con ibu ion
and Søgaa d, 2019).
Toge he wi h he phenomena o “gende seg ega ion” in he labou
ma ke and in o ganisa ions, as poin ed ou by se e al s udies (e.g., Pan,
2015; Cha, 2013), he assignmen o domes ic wo k con ibu es owa ds
he wage gap and owa ds he pe sis ence o he glass ceiling and glass
wall phenomena, since he associa ion o women wi h housewo k leads o
educed oppo uni ies o in es ime o ocus on paid wo k ac i i ies and
hie a chical mobili y (To es, 2004; Kelle hals e al., 1982; De Singly, 1987),
especially in ac i i ies pe o med unde he aegis o “ o al commi men ”.
Al hough i is a easonable p edic ion ha he shi s owa d pa i y could
lead o a disappea ance o he inequali ies o e ime, i is impo an o no e
ha he g ow h o he equali y end appea s o ha e slowed o e en s alled
since he end o he 20 h cen u y (England, Le ine and Mishel, 2020; Milkie,
W ay and Boeckmann, 2021) and se e al au ho s (A ulampalam, Boo h and
B yan, 2007; Hook, 2006; Gup a, Smi h and Ve ne , 2006; B yson, 2007;
Zambe lan, Gioachin and G i i, 2021) ha e emphasised ha i s educ ion
has been much slowe han expec ed. Fu he mo e, he e is no gua an ee
ha a gi en de elopmen end canno be e e sed, a leas in di e en
sociopoli ical con ex s. Fo example, “ adical populis igh ” mo emen s and
poli ical pa ies ha e signi ican ly inc eased in numbe and elec o al success
in Eu ope (Mudde, 2018), and in mos cases hese en i ies p omo e a e u n
o a adi ional concep o amily wi h dis inc oles. I should also be added
ha he gende gap in unpaid wo k is usually measu ed by compa ing he
numbe o hou s men and women spend on housewo k o he ype o asks
pe o med. Howe e , he li e a u e highligh s ha he ene gy and cogni i e
engagemen pu in o asks, pa icula ly in e ms o assessmen , planning,
and moni o ing (Daminge , 2019; Robinson and Milkie, 1998), is gende ised
– he ypical hou o housewo k is gene ally “dense ” o women (Milkie,
W ay and Boeckmann, 2021).
In sho , we belie e ha he idea ha inequali ies in he dis ibu ion o
housewo k will disappea o e ime should be aken wi h cau ion. Al hough i
is likely, i is no inexo able and can be hwa ed by si ua ions o s abilisa ion
o e en e e sal.
1. Theo ies abou inequali ies in he alloca ion o domes ic wo k
Social sciences ha e de eloped se e al heo ies ha ha e an undeniable
po en ial o answe his ques ion, h ee o which s and ou . Fi s he
“ ime a ailabili y pe spec i e” (S a o d, Backman and Dibona, 1977). This
86 Miguel Cha es | Ana L. Teixei a | Ma ía D. Ma ín-Lagos | Ma a Dona
hypo hesis assumes ha he unequal dis ibu ion o housewo k is he esul
o a ional e alua ions made by couples acco ding o he di e en deg ees
o ime a ailable o each pa ne , conside ing he ime in es ed in paid
wo k (Bianchi e al., 2000; Gough and Killewald, 2011; Voßeme and Heyne,
2019). In a a ional logic o ade-o be ween he wo sphe es (Co e man,
1985), he consequence is ha , on a e age, women de o e mo e ime o
housewo k because hey dedica e less ime o paid wo k. The second heo y
is commonly e e ed o as he “ ela i e esou ce pe spec i e” (Becke , 1991;
B ines, 1994; Ross, 1987). This pe spec i e iews he di ision o unpaid wo k
as a unc ion o he di e en esou ces o each pa ne , which, in u n, a e
e lec ed in dis inc le els o powe wi hin he amily ela ionship. The ac
ha men, on a e age, ha e g ea e economic esou ces, i.e., highe sala ies,
allows hem o educe he amoun o ime hey de o e o domes ic wo k,
which is seen as a less desi able ac i i y (Geis and Ruppanne , 2018). Bo h
heo ies ha e aised se e al c i icisms, which a e colla ed and de ailed by
Geis and Ruppanne (2018) o Ca lson, Pe s and Pepin (2021).
The hi d ype o explana ion, hea ily in luenced by eminis
pe spec i es, places he issue o “gende ideologies” a he cen e o he
analysis. O e all, heo ies o “gende ideologies” ha e p oduced an ex ensi e
and di e se legacy wi h he common h ead o a ibu ing i al impo ance
o he ideological ac o in explaining inequali ies in he gende di ision o
labou (e.g., Fe ee, 1990; G eens ein, 1996). Gende is iewed as a s uc u al
condi ion ha shapes policy, labou ma ke s, indi idual beha iou , and
pe spec i es on beha iou . Such a s uc u e “pushes women in o domes ic
oles and men in o he public sphe e”. One o he mos in luen ial app oaches
o his hi d ype emphasises he issue o social oles, assuming ha he e is a
se o belie s and s e eo ypes associa ed wi h social ole di e ences passed
on h ough socialisa ion. This socialisa ion is based on he e ono ma i e
cisgende oles ha associa e women wi h domes ic wo k and men wi h paid
wo k ou side he home.
Al hough we de end ha he scien i ic app oach, whene e possible, is
o uni y he h ee heo ies, o o he s ha ha e demons a ed explana o y
po en ial o explain he phenomenon, in o a single analy ic model, ou goal
he e is simply o explain and highligh , a e analysing he esul s ob ained,
a hypo hesis ha alls wi hin he pe spec i e o “gende ideology”, whose
impo ance in explaining inequali ies in he dis ibu ion o domes ic wo k
is conside able bu has no been su icien ly highligh ed o empi ically
e alua ed.
87
The pe sis ence o gende inequali ies in he
dis ibu ion o unpaid wo k: an explana o y con ibu ion
2. Objec i es
We belie e ha one possible way o obse ing o wha ex en inequali ies in
he alloca ion o domes ic wo k will endu e o whe he hey will inexo ably
anish is o analyse whe he hey pe sis among wo popula ions in which
he ideals o pa i y a e no ably p esen and whose demog aphic weigh
in ela i e e ms has been inc easing. We e e in he i s place o he
pa o he popula ion wi h e ia y educa ion, mos ly o ming pa o he
“new middle classes”. In addi ion o he ac ha his is he po ion o he
popula ion in which women ha e mo e domes ic ba gaining powe due o
hei highe le els o economic capi al, i is also he ca ego y wi h g ea e
exposu e o ideas o pa i y associa ed wi h cul u al capi al. Da a om he
In e na ional Social Su ey P og amme (ISSP) ega ding “A i udes owa ds
Family and Gende Roles” con i m his assump ion.
The second popula ion wi h a mo e egali a ian cul u al o ien a ion is he
younge popula ion. Indeed, i we assume he idea ha , wi h in lec ions, a
ci ilisa ional d i om adi ionalism o libe al egali a ianism is aking place,
i would be in he younge popula ions ha a mo e signi ican shi om
si ua ions o gende ole asymme y o he “suppo o absolu e symme y
ha unde pins he dual-ea ne /dual-ca e model” (Cunha and A alaia, 2019)
would occu . The younge popula ion will play an inc easingly key ole as he
gene a ional change akes place and because o i s ole in he socialisa ion o
he ollowing gene a ions.
As o he younge popula ion, we ha e chosen o es ic he sample
o he popula ion unde 35 yea s o age wi h ISCED 5-6, since his is a g oup
pa icula ly exposed o he pa i y model, as i combines he cul u al e ec s
gene a ed by le el o educa ion and age. Once again, his idea was con i med
in all he ISSP i ems men ioned abo e.
This a icle has a wo old objec i e. Fi s , i aims o explo e he da a
om he In e na ional Social Su ey P og amme (ISSP) o assess, in a clea -
cu way, o wha ex en gende inequali y in he alloca ion o household and
ca e wo k emains, o no , in he wo popula ions e e ed o abo e. We
pos ula e ha he elimina ion o loss o signi icance o inequali ies in hese
segmen s indica es ha hese inequali ies may disappea in he sho e m
in he Eu opean con ex . On he con a y, i hey pe sis , especially in he
younge popula ion wi h e ia y educa ion, his calls a en ion o he ac
ha i is unlikely ha hese inequali ies will be o e come in he nea u u e
and o he need o deepen he analysis o hei pe sis ence. We can o esee
ha inequali y pe sis s signi ican ly e en in hese mo e ahead o he cu e
88 Miguel Cha es | Ana L. Teixei a | Ma ía D. Ma ín-Lagos | Ma a Dona
segmen s, as we will demons a e below.
This leads us o he second and mos impo an objec i e o he pape :
o ou line a se o hypo heses which aim o con ibu e owa ds he e o
o explaining he appa en pe sis ence o inequali ies in he alloca ion o
domes ic wo k, especially among he segmen s ha cul u ally a e in he bes
posi ion o o e come hem.
3. Resul s
The analyses a e based on he ISSP, a “c oss-na ional collabo a ion p og amme
conduc ing annual su eys on di e se opics ele an o social sciences”. Fo
his pape , he 2012 Family and Changing Gende Roles IV da abase was
used (ISSP Resea ch G oup, 2016b), since i is he la es su ey ocusing on
ou opic o in e es . A 2022 su ey on he same opic is unde way, bu he
esul s a e no ye a ailable. Gi en he s uc u al na u e o he dynamics
unde analysis, he da a om 2012 can be a use ul labo a o y o he cu en
explo a o y analysis, e en i i is based on he cu en sociopoli ical con ex
and s a e o he a .
O he pa icipa ing coun ies in ISSP 2012, only 24 Eu opean coun ies
a e included (n =32405)1. To co ec he coun y subsample imbalance, a
pos -s a i ica ion weigh ing was applied (ISSP Resea ch G oup, 2016b). The
ques ionnai e comp ised di e en se s o ques ions, bu we we e pa icula ly
in e es ed in he “Ac ual Di ision o Unpaid Wo k”, “Gende ed Di ision o
Household Wo k” and “Powe and Decision-making wi hin Pa ne ship”. Only
people cu en ly li ing wi h a spouse o pa ne esponded o he ques ions.
Di e en s a is ics a e p esen ed acco ding o he measu emen le el
o he a iable and he aim o he analysis: desc ip i e s a is ics, Chi-squa e
es s, and adjus ed s anda dised esiduals. Mann-Whi ney es s we e also
pe o med due o he iola ion o he no mali y dis ibu ion assump ion o
he quan i a i e a iables.
Fi s , le us obse e he a iables ela ed o he a e age ime men and
women wi h e ia y educa ion who li e wi h a pa ne spend on household
wo k and amily membe s. We compa e his segmen wi h he gene al
popula ion so ha i is possible o de e mine whe he , al hough hey a e no
disappea ing, he p ac ical inequali ies in he alloca ion o unpaid wo k ime
a e dec easing among he popula ion wi h ISCED 5-6, and coincide wi h an
1 Aus ia, Belgium, Bulga ia, C oa ia, he Czech Republic, Denma k, Finland, F ance, Ge many, Uni ed Kingdom,
Hunga y, Iceland, I eland, La ia, Li huania, Ne he lands, No way, Poland, Po ugal, Slo akia, Slo enia, Spain,
Sweden, and Swi ze land. Russia and Tu key we e no in eg a ed due o hei in e con inen al na u e.
89
The pe sis ence o gende inequali ies in he
dis ibu ion o unpaid wo k: an explana o y con ibu ion
inc ease in he ad ocacy o he idea o equali y ound he e.
The well-known inequali y be ween women and men in he gene al
popula ion in e ms o unpaid wo k is clea (da a no shown due o leng h
cons ain s). Women spend signi ican ly mo e ime han men bo h on
housewo k (U = 73647034.5, p < 0.001) and on ca ing o amily membe s (U
= 97479221.5, p < 0.001). Men spend only 56.7% o he ime women spend
on housewo k and 56.2% on ca ing o amily membe s. Inequali ies exis in
all he coun ies conside ed and a e signi ican in bo h aspec s, excep in he
case o Sweden wi h espec o he hou s spen on amily membe s, whe e
hey emain insigni ican .
I we now conside only he segmen wi h e ia y educa ion, we can
see ha inequali ies pe sis , al hough hey a e dec easing, in ela ion o
housewo k. In ac , he ime ha men spend on hese asks co esponds o
63.3% o he ime women spend. This educ ion is due o he ein o cemen
o he idea o pa i y, bu also he mo e signi ican p esence o women in
he labou ma ke among indi iduals wi h e ia y educa ion, as well as he
g ea e ecou se o ex e nal domes ic wo k, due o hei g ea e inancial
capaci y. Thus, he olume o housewo k pe o med by he household has
dec eased. Cu iously, he educ ion in inequali y is p ac ically non-exis en
when conside ing he ime spen on amily membe s.
The ISSP da a on amily membe s do no allow us o dis inguish
child en om dependen adul s, who a e he subjec o ca e. Howe e , ou
hypo hesis is ha he almos inexis en educ ion o inequali y ound in his
domain among indi iduals wi h ISCED 5-6 is due o he s yle o pa en ing
cha ac e is ic o he new middle classes (classes whe e mos o he indi iduals
wi h e ia y educa ion a e ound), a s yle o pa en ing codi ied by Anne e
La eau (2003) h ough he concep o “conce ed cul i a ion”. In ac , one
o he undamen al aspec s ha ma ks his pa en ing pa e n, ha La eau
ound in he US bu which we conside o be applicable o Eu ope as well, is
ha i in ol es in ense in e en ion in p omo ing and o ganising child en’s
ex acu icula ac i i ies. This in ol es bo h pa en s, wi h consequences
in he amoun o ime ha each o hem ese es o accompanying hei
child en.
In sho , he da a allow us o conclude ha he e is signi ican inequali y
be ween men and women in e ms o ime spen on unpaid wo k, e en in
he mo e highly educa ed popula ion; ha inequali y in housewo k is lowe
among he mo e highly educa ed han in he popula ion as a whole, bu ha
inequali y in ela ion o ime spen on amily membe s is p ac ically iden ical.
96 Miguel Cha es | Ana L. Teixei a | Ma ía D. Ma ín-Lagos | Ma a Dona
These indings a e also p esen in Rao’s (2020) s udy o Ame ican
amilies. The condi ion o unemploymen akes on mo e mo al con ou s o
men han o women. The demands o seeking and secu ing a new job a e el
by unemployed men in he con ex o he ma i al ela ionship, some imes in
a su oca ing manne , les hey be conside ed lazy o unmo i a ed. As Rao
no es, an “obsession wi h inding a job is no educible o inancial necessi y;
i is d i en by a sense ha endu ing unemploymen ma ks a depa u e om
he expec a ions o Whi e masculini y” (2020, p. 212).
In many cases, hese he e o and sel -expec a ions p oduce men o ien ed
owa ds o al commi men o wo k (willingness o ex end he wo king day, o
accommoda e schedule changes, e c.) o he de imen o he amily sphe e.
Cogni i e and emo ional a ailabili y o engage in he cos ly economy o
a ec ions, which is unp edic able, demanding and, when i in ol es child en,
omnip esen , end o be educed.
I is well known ha men’s unwillingness o do domes ic wo k is
ein o ced in he con ex o o ganisa ions. Thei willingness o accep , o
example, absen eeism o lack o in es men in wo k o ensu e childca e is
conside ed “abno mal” and is o en no ole a ed.
3). In con as o he p e ious poin , expec a ions ega ding women’s
in es men in paid wo k a e his o ically weake and, in many cases, na ional
and class-based, discou aged and censo ed (e.g. Beau oi , 1949; Ghodsee,
2018). Consequen ly, i is easonable o hink ha , in many cases, hei
symbolic dependence on paid wo k ends o be lowe inso a as ailu es in
his sphe e a e no e lec ed so pe manen ly and o ce ully in si ua ions and
eelings o dishonou and shame (Rao, 2020). The p obabili y o mode a ing
in es men in wo k, channelling ime and a en ion o he “domes ic wo ld”,
especially when he issue o mo he hood is a s ake, ends o be mo e
signi ican and may ma e ialise in a educ ion in paid wo king ime. This ac
does no p e en women om aking on mos o he domes ic wo k wi hou
sepa a ing hemsel es, a leas in e ms o hou s, om paid wo k – see he
well-documen ed “double shi ”, a si ua ion o accumula ion ha has been
inc easing. No does i p e en women who de elop demanding p o essional
ca ee s om being con on ed wi h he e o- and sel -expec a ions o de elop
excep ional pe o mances in many domes ic and non-domes ic a eas. The
scale and social segmen s in which hese addi ional demands occu should
be s udied.
4) The e con inues o be mo e signi ican social p essu e on women
o do domes ic wo k, inso a as he symbolic weigh o a diso ganised
97
The pe sis ence o gende inequali ies in he
dis ibu ion o unpaid wo k: an explana o y con ibu ion
domes ic space alls mos hea ily on hem, especially no p ope ly looking
a e child en o ascendan s. Being a “good woman” implies ha ing, is-à- is
domes ic wo k, a much mo e commi ed and less op ional a i ude (Da is and
G eens ein, 2020; Doan and Quadlin, 2019), in pa because he s anda ds o
ca e and cleanliness placed upon hem a e highe han hose o men and
a e seen by o he s and hemsel es as insu icien (Thébaud, Ko n ich and
Ruppanne , 2019). Ne e heless, i is, abo e all, du ing mo he hood ha he
p essu e is el . Thus, we ully subsc ibe o E e son and Boye’s (2015, p. 5)
s a emen : “Mo he hood is accompanied by an expec a ion o sel -sac i ice
ha ends o be associa ed wi h eelings o guil . To be a ‘good’ mo he ,
and ul ima ely a ‘ eal’ woman, a mo he is expec ed o s uc u e he li e
a ound he child en and o o go any ac i i ies ha migh bene i he , such
as paid wo k and leisu e, i hese a e no bene icial o he child en” (see also
El in-Nowak and Thomsson, 2001; Mille , 2007). The bes demons a ion o
he na u alisa ion o he mo he ’s ole is pe haps o be ound in he well-
documen ed endency in all Eu opean coun ies o women o ake pa en al
lea e o all o mos o he ime i is g an ed, e en hough he law does no
make any gende disc imina ion in his espec .
Also, in o ganisa ions, we o en ind he pe sis ence o na u alis ic
concep ions abou he unequal di ision o labou be ween men and women.
The la e a e associa ed wi h he p i a e sphe e (Benschop, 2006; Fe ee,
1990), o which hey a e conside ed o be linked by oca ion o na u al
cons ain s, especially a e ha ing child en.
We would like o conclude he explana ion o hese hypo heses wi h
a b ie me hodological no e, since hei explo a ion and empi ical es ing
equi e he use o app op ia e esea ch p o ocols. Indeed, i is impo an
o ein o ce ha he emaining aspec s o he male-b eadwinne - emale-
homemake model ope a e h ough in a-discu si e and in a-conscious
cogni i e p ocesses (Pe e son, 2008; Reskin, 2000; Valian, 1999), and i is
no easy o ind s a emen s ha oppose he ca ego ically exp essed pa i y
model (Pe e son, 2008). In his sense, we do no belie e exhaus i e su eys
o in e iews conduc ed in a o mal con ex a e he mos app op ia e
me hods o b inging hem o ligh . Ins ead, we sugges , on he one hand,
he e hnog aphic me hod, wi h pa icipan obse a ion p o ocols aimed a
he con inuous obse a ion o p ac ices and ela ionships in a amily con ex
(La eau, 2003, o , speci ically on hese issues, Rao, 2020); on he o he hand,
he “Implici Associa ion Tes s” (G eenwald, McGhee and Schwa z, 1998)
used by cogni i e psychology, as p oposed by Pe e son (2008), which may o
may no be combined wi h in-dep h in e iews.
98 Miguel Cha es | Ana L. Teixei a | Ma ía D. Ma ín-Lagos | Ma a Dona
Conclusion
The explo a o y p oposal we ha e p esen ed in his pape s ems om
he obse a ion ha gende inequali ies pe sis in he dis ibu ion o
unpaid wo k, no only among he gene al popula ion bu also in wo la ge
sociodemog aphic segmen s o his popula ion ha a e pa icula ly ahead o
he cu e in ela ion o he pa i y model. This obse a ion d aws a en ion o
he absolu e ele ance o con inuing in-dep h esea ch in o he pe sis ence
o inequali ies, especially i we conside he con empo a y misma ch
be ween he ad ocacy o egali a ian p inciples and hei comple e p ac ical
applica ion.
In o de o con ibu e owa ds his objec i e, his a icle d aws a en ion
o he impo ance o aking due accoun o he cul u al su i al, e en in a
mi iga ed, modi ied, and di use o m, o some aspec s ha cha ac e ise he
male-b eadwinne - emale-homemake model by es ing hem empi ically
h ough he selec ion o app op ia e me hodologies.
Some aspec s o he su i al o his model ha e been poin ed ou mo e
equen ly in he li e a u e, such as he pe sis ence o in e nalised socialising
p essu es and manda es ha con inue o endow boys and gi ls wi h skills
and knowledge unequally, bu abo e all wi h disposi ional cha ac e is ics
a ou able o he domes ic space and domes ic wo k, especially clea in
he domain o ca e and he supe ision o child en and ascendan s. O he s
need o be unde lined because we conside hem o ha e g ea e analy ical
ele ance han is usually g an ed. These aspec s can be summa ised in he
idea ha , due o he p e alence o an “and ocen ic ca ee model” (Lewis,
2010), ex e nal expec a ions and expec a ions ha ocus on men, end o
make hei digni y and social ecogni ion mo e hea ily dependen on paid
wo k han is he case o women. This ac leads hem o de elop disposi ions
ha make i mo e likely ha hey will p olong he wo king day and ese e
maximum a ailabili y and a en ion o hei p o essional li es (Cunha and
A alaia, 2019), disin es ing, bo h in e ms o ime and a en ion and cogni i e
engagemen , om he domes ic and ca egi ing sphe e. Essen ially, we
belie e ha his p oposal ein o ces he idea ad oca ed by Rosabe h Moss
Kan e (1977), in he wo k om mo e han ou decades ago, ha he sphe es
o paid wo k and domes ic wo k in luence each o he mu ually and canno
be s udied sepa a ely2.
2 The au ho s in end o e isi his a icle in he ligh o he 2022 ISSP da a when i is published, analysing o wha
ex en he e may ha e been changes in he pa e ns eco ded, and o wha ex en hey may ha e been a ec ed
by he lockdowns esul ing om he COVID-19 pandemic.
99
The pe sis ence o gende inequali ies in he
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Funding
This wo k is inanced by na ional unds h ough FCT - Founda ion o Science and
Technology, I.P., wi hin he scope o he «UIDB/04647/2020» p ojec o CICS.NOVA
– In e disciplina y Cen e o Social Sciences o Uni e sidade No a de Lisboa.
- Receção: 30.04.2024
- Ap o ação: 06.01.2025
112 Luís Hen ique Fuck Michel
en e ab il e ou ub o de 2022. As en e is as o am g a adas em áudio com
o consen imen o p é io dos pa icipan es, que assina am o Consen imen o
In o mado Li e e Escla ecido an es do início das g a ações. O guião das
en e is as incluiu pe gun as que explo a am as concepções dos enlu ados
sob e o concei o de lu o saudá el, a a aliação do p óp io es ado de saúde
du an e o lu o, a p ocu a po lei u as e ajuda especializada, o encaminhamen o
pa a se iços de saúde, a u ilização de medicamen os e a pa icipação em
g upos de en eajuda. Cada pa icipan e oi en e is ado uma única ez. As
en e is as du a am en e 1h17 e 3h09, com uma du ação média de 1h50.
A análise dos dados oco eu po écnicas de análise de con eúdo,
baseadas nos pa adigmas da análise comp eensi a e indu i a (Gue a, 2006).
O p ocesso analí ico seguiu cinco e apas p incipais: p imei o, a ansc ição
in eg al do ma e ial g a ado; em seguida, a lei u a cuidadosa das en e is as
e a codi icação das unidades de egis o a pa i das p oblemá icas e
emá icas abo dadas pelos pa icipan es; na e cei a ase, o am cons uídas
sinopses das en e is as, que con inham uma desc ição iel das emá icas e
p oblemá icas mencionadas; a qua a e apa en ol eu a análise desc i i a,
onde os dados o am ag upados com base em elemen os dominan es e
sociologicamen e ele an es; po im, a análise in e p e a i a consis iu
na a iculação en e eo ia e empi ia, p opo cionando uma in e p e ação
sociológica do ma e ial ecolhido (Gue a, 2006). Os dados o am ge idos
com o auxílio do so wa e MAXQDA, o que acili ou a o ganização e a análise
do con eúdo.
Impo a ainda e e i que a in es igação oi ap o ada pelos comi és de
é ica dos dois países onde oi conduzida. No B asil, a ap o ação oi concedida
pela Comissão Nacional de É ica em Pesquisa (CONEP), sob o pa ece nº
5.683.105, em con o midade com a esolução 466/12 do Conselho Nacional
de Saúde, que egulamen a as pesquisas en ol endo se es humanos. Em
Po ugal, a ap o ação oi ob ida pela Di isão de Apoio à In es igação da
Di isão de Apoio à In es igação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
da Uni e sidade No a de Lisboa (NOVA FCSH), con o me pa ece n.º 08/
CE_NOVAFCSH/2022, a endendo aos equisi os do Código de É ica da
Uni e sidade, em pa icula no que diz espei o à in es igação com se es
humanos, con o me es abelecido no Despacho n.º 15464/2014.
3. Resul ados e Discussão
O co pus da in es igação oi di idido em duas dimensões p incipais que
eme gi am da elação en e os dados empí icos e o concei o de medicalização
113
A in enção do lu o saudá el: epe cussões
pa a a expe iência de pais e mães enlu ados
elabo ado po Con ad (2007). De aco do com a de inição de Con ad, o
p ocesso de medicalização con empla o uso de linguagem e enquad amen o
médico pa a abo da um p oblema e de in e enções médicas pa a a á-lo.
Assim, os esul ados do es udo se ão ap esen ados e discu idos a pa i das
seguin es dimensões: (1) Linguagem e enquad amen o e (2) T a amen o.
Linguagem e enquad amen o
I) Concepção de lu o saudá el
Foi possí el iden i ica dois g upos de espos as en e os pa icipan es no que
se e e e à concepção que inham de lu o saudá el. Um casal (E1, E5), cada
qual em sua en e is a, pa ilhou a opinião de que não há manei a saudá el
de lida com o lu o: “P a mim, o lu o nunca é saudá el. (...) Não consigo
imagina nenhum lu o saudá el. É uma pe gun a que me anscende” (E1).
“Se alguém descob i , só se... só se alguém desse uma d oga, izesse esquece
udo e o seu i e no mundo... sem memó ia e sem… e en ão... po isso, não
e a i e , e a a pessoa es a ausen e, e c.” (E5).
Os ela os ap esen ados e elam a pe cepção dos en e is ados quan o
à impossibilidade de cu a da condição de enlu ados. Esse en endimen o
pa e da noção de que o lu o, di e en e de ou os ans o nos, não pe mi e o
ees abelecimen o de uma condição de ida an e io em que se e a saudá el
– is o que essa só pode ia acon ece pelo e o no do en e que ido que
aleceu (Michel e F ei as, 2019).
Ou os pa icipan es, embo a enham econhecido p ejuízos que i e am
na saúde du an e o lu o, não classi ica am as suas expe iências como não
saudá eis ou pa ológicas. Os en e is ados a ibuí am sen idos ao concei o
de lu o saudá el que iam além do p opos o pelo pa adigma biomédico,
apon ando pa a aspec os cul u ais e sociais que azem pa e da expe iência
de enlu amen o. Den e as condições apon adas como impo an es pa a a
i ência do lu o, oi essal ada a possibilidade de exp essão das emoções e
ex e nalização da do dian e de pessoas comp eensi as: “Não em mágica,
não em emédio, não em médico... É ocê e essa opo unidade. Po que
uma coisa é ce a. Quem pe de uma pessoa que ida que con inua alando
dela a ida oda” (E27). Es a a i mação pa ece se con apo a uma endência
iden i icada pela li e a u a de pe cebe as emoções do lu o, em e mos de
pa ologia, como p oblemas que necessi am se esol idos (McC eigh , 2008),
es ando mais alinhada a uma concepção elabo ada po Wal e (1996), pa a
quem o p opósi o do lu o é a cons ução de uma biog a ia du adou a que
pe mi a aos i os in eg a a memó ia dos mo os em suas idas – o que se
114 Luís Hen ique Fuck Michel
alcança ia a pa i da possibilidade de se ala sob e eles.
Ou os aspec os, como a é e a p esença de uma ede de apoio, o am
apon ados como ecu sos que con ibuem pa a a expe iência de lu o,
mais uma ez anspondo a pe spec i a biomédica ace ca do enômeno,
ca ac e izada pelo pensamen o dual que opõe no malidade e pa ologia e po
sua acionalidade de ca á e gene alizan e, mecanicis a e analí ica (Cama go
J , 2005). Esses dados ão ao encon o dos esul ados encon ados em uma
pesquisa ealizada sob e o lu o de amílias no con ex o da co id-19 (A aújo e
Junio , 2023), na qual a eligião oi mencionada como uma impo an e on e
de apoio emocional, assim como a possibilidade de equen a espaços onde
se possa exp essa o lu o e ecebe supo e social.
Os ela os dos pa icipan es, po an o, e ela am di e en es modos
de elação com o concei o de lu o saudá el. Pa a alguns, essa manei a de
enquad a o lu o pela pe da de um/a ilho/a não azia qualque sen ido,
sendo eemen emen e ejei ada. Pa a ou os, po ém, econhecia-se a
possibilidade de in eg ação de di e en es modos de signi ica o so imen o
i ido, que pode iam coexis i ou não com os sen idos o iundos de uma
abo dagem biomédica.
II) P ejuízos pa a a saúde du an e o lu o
Os pa icipan es da pesquisa econhece am que o lu o pode impac a a saúde
indi idual, além de di icul a o desempenho de papéis sociais e a ges ão das
emoções. Eles ela a am que o lu o p o ocou uma deg adação da saúde em
e mos ísicos, psicológicos e men ais. Fo am mencionados compo amen os
de au onegligência em elação à alimen ação, higiene, sono e elações
sociais (isolamen o social). Um pai en e is ado ambém a i mou que se
sen iu auma izado, louco e dep essi o du an e o pe íodo inicial do lu o e
que chegou a aze uso abusi o de bebidas alcoólicas.
A di iculdade em e oma as a i idades quo idianas (acompanhada
pela sensação de ausência de p opósi o) ambém oi apon ada pelos
pa icipan es. Esse p ejuízo de uncionamen o, que impossibili a o e o no à
ida p odu i a, é conside ado um p oblema de saúde que os enlu ados de em
se es o ça po supe a de modo su icien emen e ápido, especialmen e nas
sociedades ociden ais (G anek, 2015). Den e as pessoas en e is adas, uma
mãe a i mou que a di iculdade em e oma a ida es a a associada à sua
idade a ançada e o seu con ex o a ual ( e o mada, sem ilhos pa a c ia ),
essal ando a in e e ência desses aspec os na sua expe iência de lu o. Po
ou o lado, en e os pa icipan es que consegui am ol a às suas a i idades
115
A in enção do lu o saudá el: epe cussões
pa a a expe iência de pais e mães enlu ados
p o issionais, ambém oi e elado o eceio de que o abalho emocional
ealizado nesse âmbi o (com a sup essão das emoções) pudesse se p ejudicial
à saúde. Ou seja, mesmo eagindo de aco do com o que se ia clinicamen e
is o como adequado, o eceio pelo es ado de saúde pe maneceu exis indo.
A não exp essão dos sen imen os oi um ema abo dado com equência
ao longo das en e is as como mo i o de p eocupação, sendo pe cebido po
alguns pa icipan es como algo danoso à saúde. Essa pe cepção se inse e
num con ex o mais amplo em que a subje i idade é egulada po discu sos
biomédicos e psicológicos que de inem es ados emocionais no ma i os e
pa ologizam o mas de so imen o que escapam a esses pa âme os. Como
a gumen a Rose (2001), o bem-es a emocional é cada ez mais medicalizado
e os indi íduos são enco ajados a moni o a suas emoções como pa e de um
p oje o de au oges ão da saúde. Os en e is ados menciona am di e en es
es a égias pa a lida com a ques ão, ap endendo a exp essa as emoções a
pa i da pa icipação em g upos de en eajuda, ou p ocu ando man e -se
ocupados, de modo a dis ancia em-se dos sen imen os ligados ao lu o.
As dú idas sob e o que se ia um compo amen o pouco saudá el
es i e am p esen es em alguns ela os, como o seguin e: “A minha manei a
de se , em... em es ado a pio a . Tem es ado a pio a . Ou, se calha , é
o es ado no mal! De uma mãe em lu o, não é? A manei a ano mal e a o
que eu es a a an es do que ‘ a nisso” (E2). Ques ionamen os sob e o que
pode se conside ado no mal ou não são eco en es em si uações de
mudança de con ex o. No caso do lu o, po exemplo, compo amen os que
são conside ados saudá eis du an e os p imei os meses de lu o passam
a se is os como pa ológicos de aco do com os pa âme os dos manuais
diagnós icos (Ame ican Psychia ic Associa ion, 2022; Thoi s, 1985; Wo ld
Heal h O ganiza ion, 2022).
Ainda que econhecessem compo amen os como pouco saudá eis,
oi in e essan e no a a in enção de alguns pa icipan es em não os al e a ,
acei ando-os como pa e da manei a que encon a am pa a lida com seus
espec i os lu os: “Con inuo a que e es a sozinha. Eu sei que não me az
bem” (E1). “Acho que, cada ez que eu deixo de cho a , eu endu eço mais.
(…) Fiquei assim e acho que é a minha o ma de lida com o so imen o, né?”
(E16). Um dos pa icipan es ac escen ou que o azio deco en e da pe da é
uma ca ac e ís ica in ínseca ao lu o e que, embo a p ejudicial à saúde, não
pode se supe ado: “O lu o é p ejudicial à saúde? É semp e. Que dize , é uma
cons an e. (...) Há um bu aco. E esse bu aco não é p eenchido. Nem ninguém
pode p eenche ” (E5).
116 Luís Hen ique Fuck Michel
Os ela os dos en e is ados demons am que o discu so público
ace ca do lu o, undamen ado pela pe spec i a biomédica e di undido pelo
p ocesso de psicologização (Machado e Menezes, 2018), se az p esen e
nos discu sos de pais e mães enlu ados (Wal e , 2000), que pela linguagem
médica u ilizada (Fa ia e Le ne , 2019), que pela esponsabilização mo al
pelo p óp io es ado de saúde (Cla ke e al., 2003; Rose, 2001). Ainda que
sem consegui ompe essa lógica, oi possí el iden i ica esis ências po
pa e dos pa icipan es que ei indica am pa a si o di ei o de i encia em o
lu o da manei a que mais lhes con inha – mesmo quando pe cebida como
pouco saudá el pelo sabe biomédico. Isso demons a, con o me apon a
Wal e (2006), que a acei ação da legi imidade do so imen o p o ocado
pelo lu o pode se um obje i o mais ú il aos enlu ados do que as p opos as
de es i uição de saúde p esc i as pelas eo ias psicológicas/psiquiá icas.
III) A busca po explicações cien í icas pa a o lu o
As eo ias psiquiá icas são p edominan es na li e a u a acadêmica
sob e o lu o e já se encon am disseminadas na li e a u a popula
(Wal e , 2000). Den e os pa icipan es da pesquisa, me ade ela ou e
p ocu ado explicações cien í icas ace ca do lu o ou e depa ado com elas
ocasionalmen e. A p ocu a po in o mação oi mo i ada pelo desejo dos
pais e mães enlu ados de encon a em en endimen o do que es a am
i enciando, além de alidação daquilo que es a am sen indo. Esse dado
co obo a a ese de Wal e (2000) de que ais eo ias ie am a p eenche
um espaço deixado pelos di ames do lu o social, num momen o em que
os i os do lu o se en aquece am, o necendo o ien ação aos enlu ados e
ga an ias sob e o seu p og esso: “E eu ica a, p a icamen e, o dia in ei o na
in e ne . Lu o, ases do lu o, po quê do lu o, o qu’é que ocê sen e... Que
dize , um mon e de in o mação, assim, alea ó ia” (E27). Além da in e ne ,
os en e is ados ela a am e encon ado in o mações cien í icas sob e o
lu o a a és de g upos de en eajuda: “Po que eu não sei se o (en e is ado )
sabe que o lu o em á ias ases. (...) a Associação (de en eajuda) em isso...
i amen e... no papel. Têm á ias ases. E nem odos os pais passam pelas
ases da mesma o ma” (E2).
As e e ências eó icas descobe as podem e o ça a pe pe uação
do discu so biomédico ao o e ece em um modo de legi imação pa a as
expe iências dos enlu ados (Fa ia e Le ne , 2019; Pa sons, 1951). Ao mesmo
empo, a expe iência pessoal e o acesso a ou as abo dagens do enômeno
possibili am o ques ionamen o desse discu so e um posicionamen o c í ico
117
A in enção do lu o saudá el: epe cussões
pa a a expe iência de pais e mães enlu ados
an e ele (Wal e , 2000):
A p óp ia cul u a da mo e passou po uma sé ie de e apas aonde… na
An iguidade, a cul u a da mo e e a uma, né? Você cul ua a a mo e, né? (...)
En ão e a no âmbi o amilia . Hoje, não. Hoje nós es amos numa ase em que se
cul ua a ida e não a mo e! Po que hoje ocê em hospi ais, ocê em ecnologia.
Você em milha es de médicos, de especialidades, e c. Se ocê icou doen e, ocê
ai p ocu a o médico al. (E27)
O lu o semp e exis iu, mas as no mas e egulamen os sociais
que o moldam es ão cons an emen e a muda (Lund, 2021). A busca po
in o mações cien í icas como on e de o ien ação é um e lexo do nosso
empo de lu o medicalizado e psicologizado, em que o sabe especializado
se coloca como guião pa a o go e no da p óp ia subje i idade (Machado
e Menezes, 2018), subs i uindo as no mas eligiosas e comuni á ias das
sociedades adicionais (Wal e , 2000). Ainda assim, esse discu so écnico
não é passi amen e inco po ado. Enquan o alguns enlu ados es u u am
suas expe iências a pa i de concei os de i ados das eo ias psi, ou os
ques ionam e c i icam ais en a i as de eo ização (Wal e , 2000).
T a amen o
I) Encaminhamen os e ecomendações
Os en e is ados ambém ela a am como chega am aos p o issionais que
consul a am. Alguns segui am ecomendações de amigos e colegas de
abalho. Ou os o am encaminhados po p o issionais da á ea da saúde.
Essas ecomendações e encaminhamen os acon ece am logo após a mo e
dos ilhos, du an e o pe íodo inicial do lu o, ou a pa i de momen os em
que o assun o da pe da e a abo dado e a emoção inha à ona (c iando
descon o o no in e locu o ): “Eu ui ala com ela (acupun u is a), chegamos
aonde chegou. (...) No ( ilho que aleceu). E aí comecei a cho a . (...) Ela alou
p a mim. P a mim aze o psicólogo, né?” (E14).
De manei a ge al, é possí el no a que os compo amen os dos pais
e mães enlu ados são iden i icados como inadequados p imei amen e po
pessoas de seu con í io – um enômeno que podemos de ini po con olo
elacional. Es e é um modo de con olo social in o mal que oco e nas
in e ações quo idianas, cump indo a unção de inibi compo amen os
des ian es e enco aja a con o midade (Con ad e Schneide , 1992). A
exp essão eco en e e p olongada de sen imen os nega i os – equen e nos
casos de lu o pa en al – é a aliada como desag adá el e inadequada pelos
118 Luís Hen ique Fuck Michel
demais, ompendo com eg as de con i ência cul u almen e acei as (Thoi s,
1989). A sensação de incapacidade pa a p es a o supo e necessá io nessas
si uações p ecede as ecomendações pa a que os enlu ados consul em um
especialis a da saúde. Assim, ab e-se caminho pa a um con olo o mal,
mediado pela ins i uição médica (Con ad e Schneide , 1992).
A manei a como os encaminhamen os e ecomendações são ei os
aos enlu ados indica que a medicalização do lu o con a com o apoio do
con olo elacional pa a exe ce o seu domínio. A exp essão do lu o,
con o me apon ado po Wal e (2000) e pelos pa icipan es da p esen e
pesquisa, é cul u almen e egulada po con enções e no mas amilia es, que
equen emen e a uam como “policiado es” das emoções dos enlu ados.
Ao in és de a p essão pa a con o ma -se a de e minadas o mas de lu o i
di e amen e de médicos ou psiquia as, é comum que essa coe ção pa a dos
ou os memb os da amília, que desempenham o papel de igia e ajus a as
mani es ações de is eza (Wal e , 2006). Embo a al coe ção possa pa i
do descump imen o de eg as de sen imen o2 no âmbi o social-si uacional
(Hochschild, 2003) – que con empo aneamen e em a disc ição como no ma
pa a exp essão do lu o (Kou y, 2014) –, é possí el que al compo amen o
ambém seja conside ado inadequado do pon o de is a clínico (sendo
in e p e ado como um sin oma de lu o p olongado, po exemplo).
II) P ocu a ou ecusa de ajuda
A pe da de um/a ilho/a ep esen a uma mudança no ma i a de iden idade
(Filho e Lima, 2017). Em pe íodos de g andes ans o mações como essa,
é espe ado que a pessoa se ques ione sob e quais se iam os sen imen os
ap op iados nesse con ex o. Soma-se a isso o a o de que compo amen os
conside ados adequados num pe íodo inicial do lu o são econhecidos como
inadequados com o passa do empo, de aco do com a lógica dos manuais
diagnós icos, o que pode ge a insegu ança. Isso le a mui os indi íduos a
p ocu a em ajuda e o ien ação de p o issionais da saúde, sob e udo dian e
do en aquecimen o das no mas que egiam o lu o social (Thoi s, 1985;
Wal e , 2000). Assim, é possí el e expec á el que os enlu ados deposi em
em especialis as as suas espe anças de alguma espos a écnica ou conselho
que os ajude a lida com o lu o: “Fomos ao psicólogo e... (longa pausa) Que
2 Reg as de sen imen o são no mas cul u ais que o ien am o modo como as emoções de em se expe ienciadas
e exp essas em di e en es con ex os sociais. A adequação emocional pode se a aliada a pa i de ês c i é ios:
(a) adequação clínica, que de ine se um sen imen o é espe ado den o dos pad ões de no malidade psicológica
e saúde emocional; (b) adequação mo al, que de e mina se a emoção é e icamen e legí ima; e (c) adequação
social-si uacional, que se e e e à con o midade do sen imen o com as no mas especí icas do con ex o em que
oco e (Hochschild, 2003).
119
A in enção do lu o saudá el: epe cussões
pa a a expe iência de pais e mães enlu ados
dize , ui lhe pe gun a o que é que... que ia sabe o que ha ia de aze , o que
é que... Po que, assim, a pessoa ica sem um ilho... e ago a?” (E2).
Den e os pa icipan es, e a equen e a p ocu a po ajuda especializada
du an e o lu o, sob e udo de psicólogos. Também o am consul ados
psiquia as e p o issionais ligados a e apias al e na i as – hipno e apia,
acupun u a e c omo e apia. Alguns pa icipan es jus i ica am sua esis ência
à p ocu a po especialis as, alegando que qualque a amen o se ia ine icaz,
is o que não pode ia aze de ol a à ida os ilhos que alece am: “’Ta a
lá uma psicóloga e eu disse: ‘Ob igada, eu não p eciso de ajuda. Só que o o
meu ilho i o. E isso a senho a não pode me da ’” (E1). Ou os e ela am
sua p e e ência em ecebe ajuda de na u eza espi i ual: “Fomos nos Cen os
Espí i as, oma passe, essas coisas. Mas a amen o psicológico, não” (E14).
Esse ela o sinaliza a exis ência da p ocu a po opções de cuidado al e na i as
ao modelo médico, que ese am espaço a ou os modos de signi icação
do lu o. Dados semelhan es o am encon ados na li e a u a, e o çando o
papel da eligião no cuidado ao lu o, como on e de apoio emocional e modo
de a ibuição de sen ido ao so imen o (A aújo e Junio , 2023).
O a o de a maio pa e dos en e is ados e eco ido a um especialis a
da saúde du an e o lu o apon a pa a a o e in luência da e apêu ica em seu
p oje o de no malização social (Be ge e Luckmann, 1985/2003). Con o me
essal ado po G anek (2015), não há um p oblema em si na p ocu a po
ajuda especializada num momen o de so imen o. No en an o, a au o a
de ende que a ên ase no a amen o do lu o pode le a a mensagem de que
ele é uma doença que eque cu a e que o local adequado pa a se lida com
a pe da é a e apia, num ambien e p i ado e com ajuda p o issional. Apesa
de os pa icipan es da pesquisa e em eco ido a essa o ma de ajuda, o
ques ionamen o da e icácia dos a amen os, bem como a opção po e apias
al e na i as e de cunho espi i ual, pa ecem apon a pa a ou os modos de
ge i o lu o que não passam necessa iamen e pelos mé odos e écnicas da
ciência médica.
III) A aliação da ajuda ecebida
Ao p ocu a em ajuda, os pa icipan es e ela am e se depa ado com
a sensação de que não e am comp eendidos pelos p o issionais que os
a ende am. De aco do com eles, p o issionais que não i essem passado
po uma pe da semelhan e, nem se i essem especializado na á ea do lu o,
não se iam capazes de acessa aquilo que es a am sen indo, impedindo o
desen ol imen o do p ocesso e apêu ico: “Se á que ele pe deu o ilho e
120 Luís Hen ique Fuck Michel
sabe en ende ou in e p e a exa amen e o que eu ô alando aqui? O que eu
ô sen indo?’” (E27). Esse ela o e a a um dilema e e en e à legi imação
do conhecimen o ace ca do lu o, que eco e o a à especialização (sabe
ins i ucionalizado), o a à expe iência. Po ezes, a linguagem médica é
u ilizada pelos p óp ios enlu ados pa a con e i legi imidade à expe iência
i ida. Em ou os casos, a ausência de uma expe iência pessoal de lu o é
su icien e pa a desc edibiliza as in e enções p opos as po um p o issional
(Fa ia e Le ne , 2019).
No que diz espei o especi icamen e à psico e apia, o am encon adas
a aliações opos as en e os ela os dos pais e mães enlu ados. Pa a alguns
(E1, E16, E27), a expe iência não ez sen ido, ge ando apenas descon o o:
“En ão aí, eu não me sen ia con o á el. Não gos a a de i lá e ica alando,
po que eu acha a que não inha sen ido, né? Daí deixei de i ambém”
(E16). Pa a ou os (E2, E5), po ém, a possibilidade de es a à on ade, num
espaço de sigilo, oi impo an e pa a que pudessem exp essa , comp eende
e alida os p óp ios sen imen os: “Ele não azia comen á ios. (…) ele a é
deixa a eu... a pouco e pouco ia con e sando, de manei a que... nós possamos
ab i , expandi , dize aquilo que es amos a dize , cho a aquilo que es amos a
cho a , es a à on ade...” (E5).
Os en e is ados demons a am que a psico e apia pode assumi
di e en es sen idos. Po um lado, pode se i aos obje i os da e apêu ica,
seguindo o e e encial dos manuais diagnós icos e p opondo um a amen o
que le e à eliminação de sin omas à no malização dos compo amen os.
Nesse caso, é comum que as pessoas enlu adas se sin am incomp eendidas
e que a expe iência não seja pe cebida como posi i a ou bené ica (Michel
e F ei as, 2021). Po ou o lado, quando a elação e apêu ica eúne as
condições necessá ias (segu ança, acolhimen o, comp eensão), p omo endo
um espaço onde se possa ala li emen e sob e o en e que ido que aleceu,
a psico e apia pode se um ins umen o de alidação dos compo amen os
ap esen ados (Wal e , 2000; Michel e F ei as, 2021). Ainda que al modelo
e apêu ico possa se an epo à pa ologização do lu o, ele pe manece inse ido
num con ex o de medicalização do enômeno (Sholl, 2017) e con ibui pa a
a sua no ma ização a a és de um p ocesso de psicologização, no qual o
indi íduo passa a egula suas emoções segundo os concei os da ciência
psicológica e a mediação de um especialis a (Machado e Menezes, 2018;
Rose, 2001). Do mesmo modo, ele encon a-se inculado aos p incípios
indi idualis as que undamen am a acionalidade biomédica, na qual a saúde
se ap esen a como um p oje o pessoal (Dua e, 2003), p i ado (G anek,
2015), sem p opicia a in eg ação social do so imen o.
121
A in enção do lu o saudá el: epe cussões
pa a a expe iência de pais e mães enlu ados
Po im, no que diz espei o às e apias al e na i as, os pa icipan es
a alia am que o a amen o oi posi i o ou indi e en e: “Sabe, since amen e,
iu? Não sei se ajudou ou se não ajudou” (E14). Em odo o caso, os ela os
demons a am que ha ia pouco en endimen o po pa e dos en e is ados
em elação ao p ocesso e apêu ico a que e am subme idos, com pouca ou
nenhuma pa icipação pessoal no a amen o: “O qu’é que ela es á a aze eu
não sei, não aço a mínima ideia, mas sei que... na p imei a sessão, sen i-me
melho ” (E2). Nesse aspec o, as e apias al e na i as pa ece am se equi ale
aos p ocedimen os he e onômicos ado ados po especialis as da saúde
(Illich, 1975; Michel e F ei as, 2019).
Os dados encon ados são e elado es da complexidade e i egula idade
do p ocesso de medicalização (Zo zanelli e al., 2014). Em alguns casos, os
sujei os enlu ados ei indicam o conhecimen o sob e o p óp io so imen o
e ejei am a legi imidade de sabe es especializados que não enham a
expe iência i ida como undamen o. Em ou os, assumem a posição
de consumido es da saúde, exe cendo sua libe dade pa a op a en e as
di e en es o e as e apêu icas disponí eis no me cado. Apesa de esses
a amen os ado a em di e en es abo dagens, eles possuem em comum a
p opos a de egulação do so imen o do lu o a pa i de in e enções que
êm a in imidade do indi íduo enquan o al o.
IV) Uso ou ecusa de medicamen os
A medicalização do lu o em como um de seus e ei os o uso de psico á macos
(po p esc ição médica ou au omedicação) en e às espos as emocionais
deco en es da pe da (Al es e al., 2021). Ros ila e al. (2018) iden i ica am
um aumen o acen uado da u ilização de psico ópicos en e mães e pais
após o alecimen o de um ilho, com a pe cen agem mais ele ada de uso de
medicamen os acon ecendo ce ca de um ano após o alecimen o. Den e os
en e is ados hou e aqueles que a i ma am e u ilizado calman es que lhes
o am dados po pessoas p óximas du an e o eló io (E8, E14). Um deles
ela ou e con inuado a u iliza essa medicação nos p imei os dias que se
segui am à pe da: “Ti e que oma calman es pa a do mi , calman es pa a
acalma , calman es pa a consegui descansa ... Ti e amigos médicos que
logo a a am de mim” (E8).
A esis ência ao uso de medicação du an e o lu o oi di e amen e
abo dada po alguns dos en e is ados (E1, E5, E26, E27). En e as jus i ica i as
pa a a elu ância em oma emédios, podemos ci a o eceio de desen ol e
dependência, o medo dos e ei os cola e ais e os ques ionamen os sob e
128 Luís Hen ique Fuck Michel
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h ps://doi.o g/10.1590/1413-81232014196.03612013
- Receção: 29.10.2024
- Ap o ação: 19.03.2025
129
Ecologiza o u banismo: um diálogo
opo uno en e B uno La ou e Jean Rémy
VAZ, Domingos – Ecologiza o u banismo: um diálogo opo uno en e B uno La ou e Jean
Rémy. Con igu ações: Re is a de Ciências Sociais [Em linha]. 35 (2025) 129-150. ISSN 2182-7419.
Ecologiza o u banismo: um diálogo
opo uno en e B uno La ou e Jean Rémy
Domingos Vaz*
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade da Bei a In e io (FCSH-UBI)
Cen o In e disciplina de Ciências Sociais (CICS.NOVA)
Resea ch Cen e o Business Sciences (NECE-UBI)
Resumo
O en oque no u banismo ecológico desa ia as conceções exis en es de planeamen o
u bano. Nes e a igo, de endemos que um quad o a iculado en e a ecologia polí ica de
B uno La ou e o concei o de ansação social de Jean Rémy pode ajuda a concebe um
planeamen o mais pa icipa i o. Suge e-se que as duas abo dagens eó ico-analí icas, quando
combinadas, pe mi em conside a que a sociedade é compos a po edes de associações que
são alimen adas e ans o madas po ansações sociais, o necendo um pon o de en ada
analí ico pa a a comp eensão do papel que as cidades ocupam na c ise ecológica e climá ica.
Pala as-cha e: B uno La ou , ecologia polí ica, Jean Rémy, ansação social, u banismo ecológico
Abs ac
Ecologising u banism: a imely dialogue be ween B uno La ou and Jean Rémy
The ocus on ecological u banism challenges exis ing concep ions o u ban planning. In his
a icle, we a gue how an a icula ed amewo k be ween B uno La ou ’s poli ical ecology
and Jean Rémy’s concep o social ansac ion can help o concei e a mo e pa icipa o y
planning. I is sugges ed ha he wo heo e ical-analy ical app oaches, when combined,
allow us o conside ha socie y is composed o ne wo ks o associa ions ha a e ed and
ans o med by social ansac ions, p o iding an analy ical en y poin o unde s anding he
ole ha ci ies play in he ecological and clima e c isis.
Keywo ds: B uno La ou , poli ical ecology, Jean Rémy, social ansac ion, ecological u banism
* E-mail: dm [email protected] | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0003-2153-9542
130 Domingos Vaz
Résumé
Écologise l’u banisme: un dialogue oppo un en e B uno La ou e Jean Rémy
L’accen mis su l’u banisme écologique eme en ques ion les concep ions exis an es de
l’u banisme. Dans ce a icle, nous expliquons commen un cad e a iculé en e l’écologie
poli ique de B uno La ou e le concep de ansac ion sociale de Jean Rémy peu aide
à conce oi une plani ica ion plus pa icipa i e. Il es suggé é que les deux app oches
héo iques e analy iques, lo squ’elles son combinées, nous pe me en de considé e que
la socié é es composée de éseaux d’associa ions qui son alimen ées e ans o mées pa
des ansac ions sociales, ou nissan ainsi un poin d’en ée analy ique pou comp end e le
ôle que jouen les illes dans la c ise écologique e clima ique.
Mo s-clés:
B uno La ou , écologie poli ique, Jean Rémy, ansac ion sociale, u banisme écologique
In odução
“As coisas con inua am a co e mal. Os homens inham-se
mul iplicado, inham omado con a do mundo, cimen ado
a Te a, ocupado os ales, po oado os planal os, ma ado
os deuses, aba ido as e as.” (Syl ain Tesson, 2016, Su les
chemins noi s, Pa is, Gallima d, p. 23)
É pa a nós desa ian e encon a aços comuns en e os au o es pa a pensa
as cidades em oda a sua complexidade, ace aos p oblemas con empo âneos.
De en e os á ios pon os de is a como, po exemplo, o ilosó ico e o
sociológico, p ocu amos comp eende o empo a ual a im de ge a uma
a iculação concep ual que pe mi a abo da os enómenos u banos nas suas
di e sas implicações socie ais.
O p esen e ex o em uma na u eza explo a ó ia e um obje i o eó ico-
me odológico, dando cen alidade à discussão da in e conexão en e os
p ocessos de u banização e a c ise ecológica e climá ica, inspi ado nas
con ibuições de dois au o es – B uno La ou e Jean Rémy – a pa i da seguin e
ques ão: Como a icula um planeamen o mais pa icipa i o, eque ido po
um u banismo de ipo “ecológico”, numa escala mac o ou meso, com o mas
de associação mic o dos a o es sociais na sua plu alidade, que endem a e
uma maio in eligência “ecossis émica” e pós-an opocên ica?
B uno La ou (1947-2022), um dos p oponen es da eo ia do a o -
ede, de ende que a sociologia de e se en endida como uma “ciência das
associações” (La ou , 2012, 2023) de ido à sua isão de como as elações e as
conexões o mam a sociedade. O au o en a iza a impo ância das edes de
a o es humanos e não humanos na cons ução social da ealidade. No campo
131
Ecologiza o u banismo: um diálogo
opo uno en e B uno La ou e Jean Rémy
da ecologia polí ica, a sua cosmologia econhece a agência e a in luência
dos não humanos na polí ica e na sociedade, desa iando as on ei as
adicionais en e na u eza e cul u a, e p omo e uma isão mais holís ica
e inclusi a do mundo. Jean Rémy (1928-2019), pa a o que nos in e essa,
abalha o concei o-cha e de “ ansação social” (Rémy, 2015), desen ol ido
no âmbi o da sociologia do espaço; es e concei o pe mi e comp eende as
in e ações e os elos sociais en e os di e sos a o es do e i ó io, que es es
cons oem/descons oem a a és de p á icas ecíp ocas que exp essam o
sen ido do jogo social. As ansações sociais são is as como um p ocesso
con ínuo de “negociações” e ajus es en e a o es sociais e en ol em oca
de in o mações, ecu sos, signi icados e econhecimen o, sendo ainda
essenciais pa a a manu enção e ans o mação das elações sociais (Rémy,
Se ais e Voyé, 1978, p. 89).
É in e essan e aze a deba e as pe spe i as eó ico-analí icas dos
dois au o es. Na análise sociológica das cidades, a pe spe i a da ecologia
polí ica de B uno La ou , em combinação com o concei o de ansação social
de Jean Rémy, le a-nos a conside a as duas abo dagens, dis in as mas
complemen a es, pa a en ende as in e ações humanas e não humanas nos
con ex os u banos. La ou p opõe uma abo dagem que des aca as edes de
elações en e humanos e não humanos, en a izando o modo como essas
in e ações moldam a polí ica e a ida u bana. O au o a gumen a que os
a o es sociais (humanos e não humanos) es ão en elaçados em edes
complexas de in e esses e pode , onde obje os e en idades não humanas
ambém êm agência e in luência. Po sua ez, Jean Rémy conside a as
ansações sociais como unidades undamen ais de análise sociológica
e a i ma que as ansações en e di e en es a o es (indi íduos, g upos,
ins i uições) moldam os p ocessos sociais, económicos e polí icos e ajudam a
en ende o uncionamen o das cidades.
Ado ando um mé odo de p ocedimen o baseado em pesquisa
bibliog á ica, p e ende-se con ibui pa a o deba e de um planeamen o
u bano mais “ecológico” e de o mas de “associação” mic o, no âmbi o
de si uações conc e as da ida quo idiana que Rémy concep ualiza como
“ ansações sociais”. Assim, na p imei a secção é sublinhado o papel que as
cidades ocupam na c ise ecológica e climá ica, ci cuns ância mui o ibu á ia
de modelos uncionalis as de con ole e explo ação e iginosa de ecu sos
que subes imam a biodi e sidade, aos quais se de em con apo p incípios de
ecologização. Na segunda secção, a pa i de La ou (1991), pa a quem “nunca
omos mode nos,” é supo ada a pe spe i a de mudança pa adigmá ica pa a
a ecologização, como condição pa a a supe ação da “ili e acia ecológica” e
132 Domingos Vaz
coe olução, em que humanos, na u eza e ecnologia são pa es insepa á eis
de um odo dinâmico e in e dependen e. Na e cei a secção, são abo dados
os desa ios pa a a pesquisa sociológica u bana azidos po uma lei u a que
combina o concei o emyniano de ansação social com a ideia la ou iana de
que a sociedade é compos a de associações. Na qua a secção, discu imos
a necessidade de ino ação concep ual eque ida po um u banismo de ipo
“ecológico”, em a iculação com o mas de associação mic o dos a o es
sociais.
Concluímos com algumas ideias de sín ese de ambos os au o es que,
quando combinadas, desa iam os sociólogos das cidades e a sua p axis
de pesquisa. De modo abe o, e ocamos alguns con ibu os da sociologia
pa a a abo dagem ecológica e, com o obje i o de p osseguimen o u u o
da discussão, apon amos como linha a explo a uma a enção eno ada à
elação cidade-na u eza que sus en e a a iculação en e a ecologia u bana
e o u banismo ecológico.
1. A cidade no cen o da c ise ecológica e climá ica
A cidade oi du an e mui o empo is a como “o meio a i icial, a an ina u eza,
o desna u ado” (A nould, 2006, p. 540), como de es o o en endeu Le
Co busie : “Uma cidade! É o domínio do homem sob e a na u eza. É uma
ação humana con a a na u eza, um o ganismo humano de p o eção e de
abalho. É uma c iação” (Le Co busie , 1925, p. 1). Nes a pe spe i a, a cidade
unciona ia em analogia com uma máquina, i ando pa ido da ecnologia
e p io izando a uncionalidade, a es é ica e a salub idade. De aco do com
es a conceção dominan e, a cidade é is a como um ambien e hos il pa a a
ida sel agem. A biodi e sidade u bana oi subes imada ou mesmo igno ada
pelos biólogos, cuja in es igação excluiu o meio u bano. Os modelos de
aze cidade em mui o segui am es e p imado uncionalis a egido po
uma lógica gene alizan e de acionalização, ge indo o espaço- empo social
em conco dância com necessidades que excluem p incípios an i-u ili á ios
e uncionalidades desligadas do ciclo p odução-consumo, en a izando, ao
in és, p oje os e unções u banas de g ande escala. Em con apon o com
es a co en e acionalis a e ecnoc á ica, um pon o de pa ida al e na i o
se ia a isão holís ica de Pa ick Geddes (2022 [1915]), que p opunha um
en endimen o da cidade essencialmen e ecológico – como um “o ganismo
i o” – e um u banismo que eque ia a “pesquisa an es do plano”.
Em e mos plane á ios, as cidades são hoje o palco p imei o do mundo
con empo âneo, que con inua a u baniza -se a um i mo acele ado. Disso
133
Ecologiza o u banismo: um diálogo
opo uno en e B uno La ou e Jean Rémy
nos dá con a o Banco Mundial (2023), quando nos diz que ce ca de 56%
da população mundial – 4,4 bilhões de pessoas – habi a em cidades – uma
endência que não a ouxa, espe ando-se que a população u bana duplique
a é 2050, quando quase 7 em cada 10 pessoas i e ão nas cidades.
As cidades es ão a expandi -se de o ma di usa e p eocupan e,
consumindo cada ez mais á eas ag ícolas, na u ais e lo es ais e
a i icializando i e e si elmen e o solo. Em 2010, o i mo de c escimen o
das supe ícies a i icializadas oi ês ezes supe io ao i mo de aumen o da
população, o que con ibui d as icamen e pa a abso e e e e calo , le ando
à p ocu a de ene gia pa a e ige ação e ag a ando o impac o das ondas de
calo . Ve i ica-se a é que algumas cidades con inuam a c esce em supe ície
e na a i icialização do solo, mesmo que es ejam a pe de habi an es e
emp egos, o que cons i ui um c escimen o cla amen e insus en á el (Rode,
2023; Bihouix e al., 2022). Como é e iden e, es e p ocesso de u banização
con ibui o emen e pa a a c ise climá ica, a exau ição de ecu sos e a
deg adação da biodi e sidade, ao pon o de ameaça as p óp ias “condições
de habi abilidade da Te a pelos humanos” (Mo izo , 2020, p. 31). Se as
cidades cob em menos de 2% do e i ó io mundial e emi em mais de 70%
de CO2, elas uncionam como os “mo o es” da al e ação climá ica, sendo
ambém os luga es mais expos os a esses e ei os. Pa a Me zge (2020), as
cidades são o meio emblemá ico do An opoceno, le ando ou os au o es,
como Lussaul (2021), a ala em U banoceno pa a signi ica que a “idade
do homem” co esponde á hoje, an es de udo, à “idade das cidades”.
E se a c ise ecológica que i emos em de uma pe u bação p o unda do
uncionamen o do meio ambien e, ela ambém é “uma c ise das nossas
elações com os se es i os”, no en endimen o do ilóso o Bap is e Mo izo
(2020, p. 16). Des e modo, ein en a as nossas elações com os se es i os e
com o meio ambien e e ela-se necessá io pa a pode mos ol a a abalha
em p ol da habi abilidade da Te a.
Insc e e as cidades e o seu uncionamen o de o ma mais simbió ica no
meio ambien e é mais do que nunca uma a e a p imo dial. Nes e sen ido,
acolhemos o p incípio de ecologização que isa in eg a as p eocupações
ambien ais nas polí icas públicas (Rode, 2023; Mo mon , 2009). Es e obje i o
de in eg ação con ida-nos a pensa conjun amen e as polí icas públicas de
u banismo e as de ambien e, sem igno a as elações sociais que a a essam
o espaço u bano, ou seja, o modo como a cidade unciona de ac o. A im
de “sai do impasse no qual es á engajada a cons ução da cidade”, G iso
(2021, p. 65) de ende que o planeamen o u bano de e epensa -se sob e
no as bases e e olui pa a um no o pa adigma de o denamen o e do “ i e
134 Domingos Vaz
com” o ambien e, nos seus componen es an o bió icos como abió icos. Es e
p opósi o con ém, a nosso e , duas dimensões: uma dimensão ideológica
in ínseca à o ma u bana, que se liga a um p ocesso de decisão e alo es
que es ão po ás da ealização ísica do ambien e cons uído; e uma ou a
dimensão, que é a da in e p e ação e do usu u o dos habi an es.
A in e enção sob e o espaço possibili a ou cons ange os p ocessos
sociais. De endemos que a en a i a de simbiose en e o espaço ísico e
a cidade humana não pode esul a unicamen e da on ade ou desejo
do planeado , po mui o bem-in encionado que seja, pois es á sujei a às
imposições do “Capi aloceno”. Is o po que os modos de cons ui e os modos
de habi a nem semp e caminham jun os, como nos ale a o sociólogo e
u banis a Richa d Senne (2018), ao a ança com pis as de in e p e ação
sob e a “expe iência u bana” nas suas a iculações en e o espaço cons uído
e o luga da cidadania, das sociabilidades e das i ências quo idianas. Senne
p opõe a dis inção en e ille e ci é, as quais en o mam a expe iência u bana.
Segundo o au o , a cidade a icula uma dimensão ísica conc e a, a ille, e
uma ou a dimensão sociocul u al, de cidadania e sociabilidade, a ci é. Es e
desdob amen o conduz à ques ão p oblemá ica de sabe se o u banismo
de e ep oduzi as endências dominan es na sociedade ou con ibui pa a
dinamiza mudanças ino ado as e sus en á eis.
2. Mode nidade e no a ecologia polí ica
B uno La ou in e oga-se sob e as azões po que nunca omos mode nos
e qual a al e na i a à mode nização. No seu li o Jamais omos mode nos
(1994), o au o a gumen a que a di isão en e na u eza e cul u a, bem
como en e sujei o e obje o, é a i icial e p oblemá ica. Os mode nos,
segundo ele, são aqueles que en am man e essa sepa ação e impo uma
o dem hie á quica que coloca os humanos no opo; que buscam con ola
e manipula a na u eza em nome do p og esso e do desen ol imen o.
Assim, es a isão dualis a do mundo le a a uma sé ie de p oblemas, como a
deg adação ambien al, a desigualdade social e a alienação humana. Ao en a
domina a na u eza, os mode nos acabam po des ui os ecossis emas que
ga an em a nossa sob e i ência. Além disso, ao sepa a mos os humanos dos
não humanos, c iamos uma di isão a i icial que nos impede de econhece
a nossa in e conexão e in e dependência (La ou , 1994, p. 19). Com a ideia
de supe ação do an opocen ismo, La ou a i ma: “A polí ica mode na, ao
aze da na u eza um domínio à pa e, nega as elações en e humanos e
não humanos, o que esul a numa exclusão é ica e polí ica dos se es não
135
Ecologiza o u banismo: um diálogo
opo uno en e B uno La ou e Jean Rémy
humanos. A no a cosmopolí ica de e inclui odos os a o es, humanos e não
humanos, pa a o ma um no o cole i o” (La ou , 1999, p. 144).
Em al e na i a à mode nização, B uno La ou p opõe uma eo ização
que en ol e uma mudança c ucial de pa adigma, passando da mode nização
pa a a ecologização. Pa a comp eende essa ansição, é undamen al
explo a o pensamen o de La ou sob e a “polí ica da na u eza” e a elação
en e sociedade e meio ambien e. Pa a ecologiza , não bas a p o ege o
meio ambien e; é necessá io ambém econhece a in e dependência en e
humanos e não humanos. Po an o, uma abo dagem polí ica e icaz de e
le a em conside ação as complexas edes de elações en e humanos e
não humanos. A polí ica da na u eza en a iza a necessidade de conside a
as p eocupações ambien ais como ques ões polí icas legí imas. Isso en ol e
não apenas a p o eção de ecu sos na u ais, mas ambém a ea aliação das
elações de pode que moldam a in e ação en e sociedade e meio ambien e.
Em ez de impo soluções op-down, a ecologização eque a pa icipação
a i a de odas as pa es en ol idas, incluindo comunidades locais, cien is as,
emp esas e go e nos (La ou , 1999, p. 135).
Além disso, La ou des aca a impo ância de uma abo dagem mais
humilde em elação à na u eza, econhecendo a nossa limi ada comp eensão
e con ole sob e os p ocessos na u ais e “assumindo uma pos u a de maio
espei o e cuidado com os p ocessos que não con olamos po comple o”
(La ou , 1999, p. 258). Es a p oblemá ica associa-se à ideia de ecoli e acia
cole i a, a qual en ol e a capacidade dos cidadãos de comp eende em
os sis emas na u ais e as in e ações en e esses sis emas e as a i idades
humanas, passando de uma isão an opocên ica do mundo pa a uma
pe spe i a mais holís ica e in e conec ada. A ecoli e acia de e se capaz de
ul apassa uma ili e acia ecológica ainda exis en e, que é de ca ác e cul u al
e o jada no an opocen ismo e na cul u a con empo ânea de consumo,
que incen i a o uso excessi o de ecu sos e a p odução de esíduos. Po
exemplo, a publicidade e o ma ke ing, mui as ezes, p omo em es ilos de
ida insus en á eis, alimen ando a desconexão das pessoas ela i amen e
aos impac os ecológicos das suas ações.
A supe ação dessa ili e acia ecológica eque uma ea aliação cul u al
p o unda, na qual os humanos econheçam e alo izem a sua in e conexão
com o mundo na u al. Isso implica epensa as na a i as cul u ais,
educacionais, económicas e polí icas, p omo endo uma no a sensibilidade,
uma no a o ma de en ende e in e agi com o ambien e. É assim decisi o
cons ui uma ecoli e acia que coloque a cidade como pla a o ma
136 Domingos Vaz
es u u al que combina humanos, na u eza e ecnologia. Ou seja, uma isão
ino ado a sob e o u u o das cidades signi ica p omo e um en endimen o
compa ilhado e uma consciência ambien al en e os cidadãos, u ilizando
a cidade como o cená io p incipal pa a essa educação e p á ica ecológica.
Pa a La ou , “as cidades são os melho es labo a ó ios pa a no as p á icas
ecológicas e disseminação de conhecimen o” (2018, p. 49). O au o ac edi a
que a cidade, como um espaço denso de in e ações sociais, cul u ais e
económicas, o e ece uma opo unidade única pa a a implemen ação de
p á icas sus en á eis e pa a a disseminação de conhecimen os ecológicos.
A cidade do u u o cons i ui-se, po an o, como p opos a de coe olução em
que humanos, na u eza e ecnologia são is os como pa es insepa á eis de
um odo dinâmico e in e dependen e.
3. As “associações” de La ou e a “ ansação social” de Rémy: que
con e gência?
3.1 A iculação eó ica
Como a icula e combina o concei o de ansação social de Jean Rémy
com a ideia de B uno La ou de que a sociedade é ei a de agmen os e
associações? Numa p imei a ap oximação, podemos encon a como
pon o de con e gência a ideia de que a sociedade é cons uída a a és de
in e ações dinâmicas. Pa a Rémy, es as são ansações sociais; pa a La ou ,
são associações. Ambos os au o es des acam a impo ância dos p ocessos e
das elações na cons i uição da ida social.
A ansação social, segundo Rémy, é um p ocesso con ínuo que en ol e
a oca de in o mações, ecu sos, signi icados e econhecimen o, en e os
indi íduos e os g upos de uma dada comunidade. A sua análise az pa e de
uma “sociologia da ação conc e a, ap eendida no deco e da sua ealização
empo al” (Rémy, 2022, p. 32). As ansações são undamen ais pa a a
cons ução e a manu enção das edes, da coesão comuni á ia e da iden idade
cole i a; não se a a de me os con ac os supe iciais, pois en ol em a oca
de in o mações, emoções e alo es. Incluem não apenas bens ma e iais, mas
ambém apoio social, a o es e conhecimen os. Os indi íduos negoceiam
cons an emen e os seus papéis, s a us e ecu sos den o da comunidade,
ajus ando-se às expec a i as e necessidades dos ou os (Rémy, 2016 [1998]).
Po sua ez, La ou , a a és da eo ia do a o - ede, suge e que a sociedade
é compos a po edes de associações que incluem an o a o es humanos
como não humanos, cons i uindo um conjun o de agmen os conec ados
po associações dinâmicas que cons oem e econs oem a ealidade social.
137
Ecologiza o u banismo: um diálogo
opo uno en e B uno La ou e Jean Rémy
T abalha pa a uma sociologia menos an opocên ica pode se is o como
uma g ande con ibuição de La ou pa a as ciências sociais. Segundo o au o :
como a sociologia do social é simplesmen e uma manei a de chega ao colec i o,
a sociologia de associações assume a missão de ecolhe o que a ideia do social
deixou em suspenso. (…) isso não signi ica nega o papel o ma ado das ciências
sociais. (…) Quando ac edi á amos se mode nos, podíamos nos con en a
com os conjun os da sociedade e da na u eza. Mas hoje emos de e e nossa
cons i uição e amplia o epo ó io de ínculos e associações pa a além do que as
explicações sociais o e ecem. (La ou , 2012, pp. 352-353)
Ambos os au o es, ao en a iza em os p ocessos sociais como con ínuos
e dinâmicos, o nam possí el concebe as ansações sociais de Rémy como
mic op ocessos den o das edes de associações de La ou . As ansações
sociais alimen a iam e se iam alimen adas pelas associações, c iando
uma in e dependência. Cada agmen o ou a o na ede es á en ol ido
em múl iplas ansações sociais que man êm a ede coesa e uncional.
E econhecemos que, no âmbi o da eo ia do a o - ede, as ansações
sociais en ol em não apenas humanos, mas ambém obje os, ecnologias
e ou os não humanos que desempenham papéis a i os nas edes sociais.
Isso en iquece a comp eensão de Rémy, amplia e complexi ica as ansações
sociais. Po an o, a con e gência en e os concei os de Jean Rémy e B uno
La ou o e ece uma abo dagem holís ica pa a en ende e en en a os
desa ios climá icos nas cidades. Ao alo iza an o as ansações sociais
quan o a composição de a o es di e sos, podemos desen ol e es a égias
u banas mais esilien es e adap a i as no no o egime climá ico (Rémy, 2016
[1994]).
3.2 P á ica analí ica
Em es udos de caso especí icos, pode íamos mapea as edes de associações
e iden i ica as ansações sociais que oco em den o dessas edes. Po
exemplo, numa análise de uma comunidade online, pode íamos mapea as
in e ações en e u ilizado es (humanos) e pla a o mas ecnológicas (não
humanos) e de alha as ansações sociais que sus en am essa ede. E na
o mulação de polí icas públicas, conside a ambas as pe spe i as ajuda
a en ende melho as dinâmicas sociais, podendo essas polí icas se mais
bem desenhadas pa a acili a ansações sociais especí icas, enquan o se
conside am as edes de associações mais amplas que incluem a o es não
humanos. Em elação ao espaço u bano, a concep ualização da “ ansação
social” o na-se in e essan e pa a desco ina os laços sociais cons uídos no
144 Domingos Vaz
conjun u a global pandémica, com a diminuição do olume de p odução e
de consumo in ínsecos às dinâmicas globais e consequen e possibilidade
de “ ea o em do p og esso” (p. 1). Os iscos socie ais, nos quais se
in eg am ambém os ela i os a doenças in eciosas, p oblemas ecnológicos,
geopolí icos, pa a além dos ambien ais, como concep ualizado po Mendes
(2015), êm g aus dis in os de plausibilidade de oco ência e de impac o, mas,
ao a ua em no espaço, ap esen am uma na u eza sis émica que acen ua a
sua in e conexão, o que amplia as suas consequências. Des e modo, ambém
po es a ia, os pa adigmas ado ados pa a a ges ão das cidades encon am-
se no cen o do deba e, endo em is a ecupe a e essigni ica a cidade
pa a odos os seus habi an es.
Sob inspi ação de B uno La ou , de endemos o papel do in es igado -
a i is a que em momen os de c ise pode se en endido como uma espos a
à u gência e magni ude dos p oblemas, uma esponsabilidade é ica e social,
e como pa e de uma es a égia pa a e e ua mudanças eais e signi ica i as
nas cidades. A c ise ecológica ep esen a uma ameaça exis encial pa a
a humanidade, e os cien is as sociais, ao en ende em as causas e as
consequências sociais dessas mudanças, podem sen i a esponsabilidade
de a ua pa a p omo e mudanças asse i as. Ao mesmo empo, a p óp ia
sociologia, especialmen e na sua e en e c í ica, a gumen a que o
conhecimen o sociológico de e se u ilizado pa a ans o ma a sociedade.
Em empos de c ise, há uma p ocu a po mudanças es u u ais que podem
se in o madas po pesquisas sociológicas. O a i ismo, nes e con ex o, é uma
ex ensão na u al do abalho de in es igação. Pensamos, po exemplo, no
abalho in luen e de Jane Jacobs Mo e e ida de g andes cidades (2009
[1961]), de inegá el in e esse pa a os es udos u banos a que se econhece
eno ada a ualidade. Es e li o em con inuado a inspi a polí icas e a i ismos,
sejam eles eó icos ou p á icos, que se desen ol em an o no plano do
deba e público, em pa icula quando es ão em exame ce as in e enções
u banís icas, como no da p omoção de sine gias nas cidades exis en es. Is o
le a-nos a um dos ocos da c í ica de Jacobs ao planeamen o u banís ico
mode no, que conside a que os u banis as cons oem modelos abs a os a
pa i dos quais p ocu am en ende a cidade, assim menosp ezando, senão
mesmo igno ando, as elações sociais que a a essam o espaço u bano, ou
seja, como a cidade unciona de ac o. O planeamen o u bano é ques ionado
nos seus p óp ios undamen os e não unicamen e nas ideias ou o mas de
in e enção de endidas pelos seus agen es. Exis e no pensamen o de Jacobs
a ideia de mani es ação genuína da expe iência u bana que se e i ica
quando es á li e de coe ção e cons angimen os. Há ali um p opósi o de
145
Ecologiza o u banismo: um diálogo
opo uno en e B uno La ou e Jean Rémy
de esa da au en icidade e c í ica à uni o mização, p o ocada pela “p aga
da mono onia”, que a au o a conside a se um dos e ei os pe e sos do
planeamen o u bano mode no (Jacobs, 2009, p. 43).
Conclusão
A necessidade de um u banismo “ecológico” ap esen a-se como uma
a e a impe iosa e signi ica epensa os laços en e a cidade e a na u eza e
a as a -se de uma ep esen ação da p imei a como an í ese da segunda. Ao
econhece mos a nossa in e conexão com a na u eza, podemos desen ol e
uma no a o ma de se no mundo, uma o ma que seja mais sus en á el,
jus a e equi a i a pa a odos os se es i os. Isso en ol e abandona a
ideia de con ole e dominação a a o de uma coexis ência elacional mais
ha moniosa com o mundo ao nosso edo , e a p omoção de uma ecoli e acia
cole i a que capaci e os cidadãos a melho comp eende em os sis emas
na u ais e as suas in e ações com as a i idades humanas, passando de uma
isão an opocên ica pa a uma pe spe i a mais holís ica e in e conec ada.
Sob o ângulo de análise aqui p i ilegiado, podemos a ança que B uno
La ou p econiza uma abo dagem mais ampla, ao a ibui agência an o aos
humanos quan o aos não humanos, a gumen ando que obje os e en idades
ambém moldam as in e ações sociais, enquan o Jean Rémy se concen a nas
in e ações e ansações en e a o es humanos. As duas abo dagens eó ico-
analí icas, quando combinadas, pe mi em conside a que a sociedade é
compos a po edes de associações que são cons an emen e alimen adas
e ans o madas po ansações sociais. Cada associação pode se is a
como um con ex o de múl iplas ansações, e cada ansação pode ede ini
as associações en ol idas. Es as combinações en iquecem a isão sob e a
dinâmica social e u bana, in eg ando p ocessos mic o e mac o, e ajudam a
pe cebe a con ibuição de a o es humanos e não humanos na cons ução
de um u banismo ecológico.
O espaço adqui iu na Sociologia a ca ego ia de análise em di e sos
au o es e adições, como oi o caso dos sociólogos da Escola de Chicago,
que analisa am como as comunidades de inidas pela p oximidade ísica se
o ganizam e se elacionam. Mas a alusão à abo dagem ecológica u bana
não con oca apenas os emas clássicos de Chicago. Pa a Rémy, o espaço é
an o a o de cons angimen os como de opo unidades, mas é, sob e udo,
causa de de e minação de dois modos: a um ní el es u u al (ajuda a
de ini as elações sociais, as edes de in e ação) e a um ní el simbólico
(con ibui pa a es u u a as ep esen ações de si e dos ou os) (Rémy
146 Domingos Vaz
e Voyé, 1976). A associação ecologia-cidade con ida à p oblema ização
do papel do u banismo na modi icação do equilíb io en e as sociedades
humanas e os ecossis emas de que azem pa e, de aco do com p incípios
pós-an opocên icos que en endam a cidade enquan o conjun o a iculado
de ansações en e sis emas de ida que in e a uam de o ma c í ica. Nes e
sen ido, uma linha a explo a no u u o pode á se a discussão da passagem
da ecologia u bana pa a o u banismo ecológico, a pa i de con ibu os de
au o es como Ma hew Gandy (2022) e E ik Swyngedouw (2018).
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Ecologiza o u banismo: um diálogo
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- Receção: 17.07.2024
- Ap o ação: 17.03.2025
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Pachukanis e a c í ica ma xis a ao Di ei o:
Teo ia ge al do Di ei o e ma xismo cem anos depois
SARTORI, Vi o Ba ole i – Pachukanis e a c í ica ma xis a ao Di ei o: Teo ia ge al do Di ei o e ma xismo
cem anos depois Con igu ações: Re is a de Ciências Sociais [Em linha]. 35 (2025) 151-178. ISSN 2182-7419.
Pachukanis e a c í ica ma xis a ao Di ei o:
Teo ia ge al do Di ei o e ma xismo cem anos depois
Vi o Ba ole i Sa o i*
Uni e sidade Fede al de Minas Ge ais (UFMG)
Resumo
O p oje o pachukaniano de uma c í ica ma xis a ao Di ei o dependeu da expec a i a de
sup essão das elações ju ídicas (e da oca me can il como al), sendo p eciso conside a os
posicionamen os do au o como pa e de um p oje o e olucioná io, que, em sua p incipal
ob a, en endeu que a sup essão do Di ei o e a necessá ia e p óxima. Teo ia ge al do Di ei o e
ma xismo p opõe a e as não cump idas comple amen e pela ob a cen ená ia do au o , que
são bas an e localizadas na his ó ia e olucioná ia do século XX e es ão ligadas à ese sob e o
ca á e p o ei oso de uma c í ica ma xis a à eo ia ge al do Di ei o. Assim, é p eciso enxe ga
os mé i os e as apo ias da c í ica ma xis a ao Di ei o inspi ada em Teo ia ge al do Di ei o e
ma xismo.
Pala as-cha e: Pachukanis, Ma x, c í ica ma xis a ao Di ei o, Teo ia do Di ei o, Teo ia ge al do
Di ei o e ma xismo
Abs ac
Pachukanis and he Ma xis c i ique o law:
The Gene al Theo y o Law and Ma xism a cen u y la e
The Pachukanian p ojec o a Ma xis c i ique o Law depended on he expec a ion o
supp ession o legal ela ions (and comme cial exchange as such), p ecisely conside ing
he au ho ’s posi ions as pa o an inno a i e p ojec , which, in 1924, unde s ood ha he
supp ession o he Law is close. As a esul , he mos impo an hing is ha The Gene al Theo y
o Law and Ma xism p oposes un ul illed asks, ela ed o he hesis abou he bene icial
cha ac e o a Ma xis c i ique o he gene al heo y o Law and based on he e olu iona y
* E-mail: i o bsa o [email protected] | ORCID ID: h ps://o cid.o g/0000-0001-9570-9968
152 Vi o Ba ole i Sa o i
his o y o he 20 h cen u y. So, i is impo an o see he me i s and apo ias o he Ma xis
c i ique o Law inspi ed in Pachukanis’s book.
Keywo ds: Pachukanis, Ma x, ma xis c i ique o law, Theo y o Law, The Gene al Theo y o
Law and Ma xism
Résumé
Pachukanis e la c i ique ma xis e du d oi :
La héo ie géné ale du d oi e le ma xisme un siècle ap ès
Nous sou enons que le p oje pachukanien de c i ique ma xis e du d oi epose su l’a en e
d’une supp ession des ela ions ju idiques (e des échanges comme ciaux en an que els), en
considé an p écisémen les posi ions de l’au eu comme aisan pa ie d’un p oje no a eu
inache é qui, en 1924, comp enai que la supp ession du D oi é ai nécessai e e p oche. La
héo ie géné ale du d oi e ma xisme p opose des âches que l’ou age cen enai e de l’au eu
n’a pas complè emen emplies, qui son assez localisées dans l’his oi e é olu ionnai e du
XXe siècle e son liées à la hèse su l’u ili é d’une c i ique ma xis e de la héo ie géné ale
du D oi . Il au donc econnaî e les mé i es e les apo ies de la c i ique ma xis e du d oi
inspi ée pa La héo ie géné ale du d oi e le ma xisme.
Mo s-clés: Pachukanis, Ma x, c i ique ma xis e du d oi , Théo ie du d oi , La héo ie géné ale
du d oi e le ma xisme
In odução
Ainda hoje, como bem des acou Má cio Bilha inho Na es (2000, 2017),
Pachukanis é a g ande e e ência pa a analisa a c í ica ma xis a ao Di ei o.
E se é ambém e dade, como indicou Ce oni, que “Pachukanis ma ca o
momen o da mais al a consciência eó ica alcançada pelo pensamen o
ju ídico so ié ico” (Ce oni, 2017, p. 191), há uma ques ão impo an e a
se analisada: ainda somos con empo âneos da Re olução Russa? Es a ia o
pensamen o ma xis a sob e o Di ei o p eso a pa adigmas de cem anos a ás?
No p esen e a igo, in en amos explici a an o a impo ância do pensamen o
pachukaniano em sua época quan o o modo pelo qual esse pensamen o
se incula à expe iência e olucioná ia de 1917, não p opiciando uma
ansposição sem mediações das p opos as e das ca ego ias de Teo ia ge al
do Di ei o e ma xismo pa a o p esen e.
Michael Miaille, impo an e expoen e da eo ia c í ica do Di ei o, e
in luenciado pelo ju is a so ié ico, diz em 1976: “o ex o mais cla o e mais
in e essan e con inua a se o de E. B. Pachukanis, Teo ia ge al do di ei o e
ma xismo e, é cla o, alguns ex os de Ma x, de Engels ou de Lenine” (Miaille,
2005, p. 14). Pe cebe-se, po an o, que an o ce ca de 50 anos depois da
publicação da ob a magna de Pachukanis quan o hoje o pensado so ié ico
153
Pachukanis e a c í ica ma xis a ao Di ei o:
Teo ia ge al do Di ei o e ma xismo cem anos depois
igu e como g ande e e ência. Isso al ez se de a ao que China Miél ille
es ipulou: “Pachukanis é um gigan e da eo ia do Di ei o [...] oi uma igu a
dominan e na ju isp udência so ié ica da década de 1920 e do início da
década de 1930” (Miél ille, 2017, p. 201). Como consequência, su ge uma
e lexão undamen al sob e a ob a mencionada, po que a conjugação de ais
posições edunda em uma p oblemá ica basila pa a a iabilidade do p oje o
pachukaniano: como oi possí el iabiliza a conjugação de eo ia do Di ei o,
cujos p imei os expoen es (Maine e Aus in) o am c i icados du amen e
po Ma x (1988) em seus assim chamados Manusc i os e nológicos, com a
de esa de uma elação mu uamen e en iquecedo a en e eo ia ge al do
Di ei o e ma xismo? No p esen e a igo ambém in en amos esponde a
esse ques ionamen o, elacionando-o com os acon ecimen os de 1917.
A p incipal ob a de Pachukanis, Teo ia ge al do Di ei o e ma xismo,
comple ou cem anos em 2024. Po essa azão, é legí imo in es iga quais são
as azões de o li o cen ená io ainda pode se impo an e obje o de es udo
na a ualidade. Também cabe indaga : qual a pe inência e a plausibilidade
de uma c í ica ma xis a à eo ia ge al do Di ei o? As a e as le an adas pelo
au o so ié ico em sua ob a magna o am e e uadas plenamen e? No a ã de
esponde a ais ques ões, ealiza emos a análise imanen e (Chasin, 2009) da
ob a pachukaniana, con ex ualizando-a e e e indo, simul aneamen e, a sua
es u u a ca ego ial e a sua unção conc e a. In en amos, assim, explici a
as p incipais eses do au o so ié ico, ligando-as aos con adi ó ios umos
da Re olução Russa. Median e esse p ocedimen o, esca a emos a eo ia de
Pachukanis ao incula sua posição conc e a na década de 1920 com sua
lei u a da ob a de Ma x – e, em especial, sua a enção peculia na eo ia
do alo desen ol ida em O capi al e nos apon amen os de Ma x (2012, p.
33) da C í ica ao p og ama de Go ha, em que o au o alemão elaciona a
exis ência do Di ei o, mesmo que em um pe íodo de ansição, com o que
chama “es ei o ho izon e ju ídico bu guês”. Também p ocu a emos a alia
a a ualidade de sua ob a pa a a comp eensão dos umos con adi ó ios da
Re olução Russa.
1. A a ualidade do es udo de Teo ia ge al do Di ei o e ma xismo em
um mundo pos e io à alência da Re olução Russa
Teo ia ge al do Di ei o e ma xismo, publicada pela p imei a ez em 1924, pode
se conside ado um u o au ên ico da Re olução Russa, não somen e po que
é esc i a du an e uma ase delicada dos acon ecimen os e olucioná ios (a
gue a ci il, o comunismo de gue a e a NEP [No a Polí ica Econômica]), mas