scieee Science in your language
[pt] (orig)

Performance musical no cinema mudo

Author: Magalhães, Sara Capelo; Ferra, José António; Fráguas, Ricardo; Pacheco, António
Year: 2025
DOI: 10.55905/revconv.18n.1-356
Source: https://repositorium.uminho.pt/bitstreams/f1c979db-1d4a-4ee7-8080-998ba7a83f29/download
1
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
Pe o mance musical no cinema mudo
Musical pe o mance in silen cinema
La in e p e ación musical en el cine mudo
DOI: 10.55905/ e con .18n.1-356
O iginals ecei ed: 12/20/2024
Accep ance o publica ion: 01/15/2025
Sa a Capelo Magalhães
G aduanda em Música - Gui a a
Ins i uição: Uni e sidade de A ei o
Ende eço: A ei o - Po ugal
E-mail: sa acapelogui a @gmail.com
José An ónio Fe a
Mes e em Ensino de Música - Gui a a
Ins i uição: Ins i u o Piage
Ende eço: Viseu - Po ugal
E-mail: jose e [email protected]
Rica do F águas
G aduado em Música – Piano de Acompanhamen o
Ins i uição: Escola Supe io de Música e A es do Espe áculo
Ende eço: Po o – Po ugal
E-mail: ica do. [email protected]
An ónio José Pacheco Ribei o
Dou o - Especialidade de Educação Musical
Ins i uição: Ins i u o de Educação da Uni e sidade do Minho, Cen o de In es igação em
Es udos da C iança (CIEC)
Ende eço: B aga - Po ugal
E-mail: an [email protected]
O cid: h ps://o cid.o g/0000-0003-3413-8473
RESUMO
Nos p imó dios do cinema mudo não ha ia bandas sono as g a adas, como al, a pe o mance
musical ao i o desempenha a um papel undamen al nas p imei as exibições cinema og á ica.
Pianis as, o ganis as, e a é mesmo o ques as, acompanha am as imagens em mo imen o, sendo
es es os p imei os músicos e conjun os ins umen ais a molda em a elação in ínseca en e o som
e a imagem no cinema. Es e a igo, de e lexão, abo da a o ma como a e olução indus ial
ans o mou a sociedade e as a es, e como as in enções que su gi am após es e ad en o
ma ca am o início de uma no a e a na na a i a isual, es abelecendo as bases pa a o que i ia a
se o cinema; oca-se, ambém, na música no cinema mudo e ap esen a as azões pa a a adoção
do acompanhamen o musical ao i o, as unções ge ais da música, os ecu sos musicais e
2
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
ins umen ais, os géne os musicais u ilizados e os p imei os ilmes em que os ealizado es
i e am a in enção de desen ol e um acompanhamen o musical ixo, o a a a és de ob as
o iginais, o a a a és de ob as adap adas. O essu gimen o do cinema e a ein e p e ação do
cinema mudo nas úl imas décadas le ou à mode nização des a o ma de a e, dando palco à
pe o mance musical ao i o de músicos que ocam os mais a iados ins umen os. Es es
músicos, an o e i em e ec iam a p á ica adicional de acompanhamen o musical ao i o,
comum na e a do cinema mudo, como a mode nizam, explo ando a pe o mance musical de
o ma ino ado a.
Pala as-cha e: cinema mudo, música, pe o mance musical, bandas sono as.
ABSTRACT
In he ea ly days o silen cinema, he e we e no eco ded sound acks, so li e musical
pe o mance played a undamen al ole in he i s ilm sc eenings. Pianis s, o ganis s and e en
o ches as accompanied he mo ing images, and hese we e he i s musicians and ins umen al
ensembles o shape he in insic ela ionship be ween sound and image in cinema. This e lec i e
a icle looks a how he indus ial e olu ion ans o med socie y and he a s, and how he
in en ions ha eme ged a e his ad en ma ked he beginning o a new e a in isual s o y elling,
laying he ounda ions o wha would become cinema; I also ocuses on music in silen cinema
and p esen s he easons o he adop ion o li e musical accompanimen , he gene al unc ions
o music, musical and ins umen al esou ces, he musical gen es used and he i s ilms in which
di ec o s in ended o de elop a ixed musical accompanimen , ei he h ough o iginal wo ks o
h ough adap ed wo ks. The esu gence o cinema and he ein e p e a ion o silen ilm in ecen
decades has led o he mode nisa ion o his a o m, gi ing ise o li e musical pe o mances by
musicians playing a wide a ie y o ins umen s. These musicians bo h e i e and ec ea e he
adi ional p ac ice o li e musical accompanimen , common in he silen ilm e a, and mode nise
i , explo ing musical pe o mance in an inno a i e way.
Keywo ds: mu e cinema, music, musical pe o mance, sound acks.
RESUMEN
En los p ime os iempos del cine mudo no exis ían bandas sono as g abadas, po lo que la
in e p e ación musical en di ec o desempeñó un papel undamen al en las p ime as p oyecciones
cinema og á icas. Pianis as, o ganis as e incluso o ques as acompañaban las imágenes en
mo imien o, y és os ue on los p ime os músicos y conjun os ins umen ales que die on o ma a
la elación in ínseca en e sonido e imagen en el cine. Es e a ículo de e lexión analiza cómo la
e olución indus ial ans o mó la sociedad y las a es, y cómo los in en os que su gie on as
es e ad enimien o ma ca on el inicio de una nue a e a en la na ación isual, sen ando las bases
de lo que se con e i ía en el cine; También se cen a en la música en el cine mudo y p esen a las
azones de la adopción del acompañamien o musical en di ec o, las unciones gene ales de la
música, los ecu sos musicales e ins umen ales, los géne os musicales u ilizados y las p ime as
películas en las que los di ec o es p e endie on desa olla un acompañamien o musical ijo, ya
ue a a a és de ob as o iginales o de ob as adap adas. El esu gimien o del cine y la
ein e p e ación del cine mudo en las úl imas décadas ha lle ado a la mode nización de es a o ma
de a e, dando luga a ac uaciones musicales en di ec o a ca go de músicos que ocan una g an
a iedad de ins umen os. Es os músicos e i en y ec ean la p ác ica adicional del
acompañamien o musical en di ec o, habi ual en la época del cine mudo, y la mode nizan,
3
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
explo ando la in e p e ación musical de o ma inno ado a.
Palab as cla e: cine mudo, música, in e p e ación musical, bandas sono as.
1 INTRODUÇÃO
O Cu so Secundá io de Música, em Po ugal, desen ol e-se no âmbi o do ensino a ís ico
especializado, ensino ocacional, minis ado nos conse a ó ios e academias de música. Es e
cu so, de ní el secundá io, con empla uma P o a de Ap idão A ís ica (PAA) (Ribei o, 2022)
que se ealiza no úl imo ano do cu so, 12.º ano de escola idade, e cen a-se em o no de uma
de e minada emá ica p e iamen e de inida, sob a o ien ação de um ou dois p o esso es a e os à
escola a ís ica especializada. Compo a em si dois momen os que se complemen am e a iculam,
um de ca ác e esc i o e ou o pe o ma i o, ap esen ados publicamen e. Es a PAA,
conc e amen e, subo dinada ao ema: Pe o mance musical no cinema mudo, desen olou-se no
Conse a ó io do Vale do Sousa, no ano le i o 2023/2024, e o ex o esc i o esul ou no p esen e
a igo que ap esen a o seguin e obje i o: e le i sob e a impo ância do papel da música na
imagem em mo imen o e o seu con ibu o na assunção de ap op iação de sen ido e signi icado
es é ico. Es u u a-se nos seguin es ópicos: (i) enquad amen o his ó ico; (ii) a música no cinema
mudo; (iii) o essu gimen o do cinema mudo; e (i ) conside ações inais.
2 ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2.1 INDUSTRIALIZAÇÃO
A maio ia dos his o iado es si ua a o igem da Re olução Indus ial, na G ã-B e anha, na
segunda me ade do século XVIII. O su gimen o de no as ino ações, o ápido desen ol imen o
ecnológico, as no as descobe as cien í icas, a adesão à p odução em massa e a indus ialização
ca ac e izam a Segunda Re olução Indus ial, ge almen e da ada en e 1870 e 1914 (início da
P imei a Gue a Mundial).
O desen ol imen o da maquina ia, da química indus ial, das comunicações e dos
anspo es, ala ancados na u ilização da ele icidade e do pe óleo, le a am a g andes mudanças
4
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
na sociedade, pe mi indo um mo imen o sem p eceden es de pessoas e pa ilha de no as ideias,
que culminou numa no a onda de globalização. Nes e pe íodo, as ino ações ecnológicas
ambém se mani es a am no amo do en e enimen o.
2.2 O SURGIMENTO DA CAPTURA DE IMAGENS EM MOVIMENTO
Os Es ados Unidos da Amé ica e a Eu opa Ociden al o am os g andes p o agonis as no
a anque das in enções cinema og á icas, bem como na a i mação da música no cinema. Um dos
g andes pionei os que ma cou o início de uma no a e a na na a i a isual oi Thomas Al a
Edison (1847-1931). Thomas Al a Edison, nasceu a 11 de e e ei o de 1847, em Milan, Ohio,
nos Es ados Unidos da Amé ica. Foi in en o e emp esá io ame icano que, isoladamen e ou em
conjun o, egis ou 1093 pa en es nos Es ados Unidos da Amé ica, numa ampla a iedade
ecnológica, e 2332 pa en es ao inclui odas aquelas que o am egis adas nou os países.
Do abalho desen ol ido nos seus labo a ó ios o iciais em Menlo Pa k, No a Je sey, em
1876, e pos e io men e em Wes O ange, No a Je sey, su gi am algumas das suas mais
conhecidas in enções, p incipalmen e ino ações ecnológicas que o am undamen ais na
ans o mação da sociedade. Ao mesmo empo, Thomas Edison ambém se in e essou po um
campo ela i amen e ecen e, o cinema.
O concei o de imagens em mo imen o como en e enimen o não e a no o na úl ima pa e
do século XIX. Nes a al u a, á ios disposi i os o am u ilizados pa a en e enimen o isual. Em
1879, o o óg a o Eadwea d Muyb idge (1830-1904), desen ol eu o zoop axiscópio, que
p oje a a uma sé ie de imagens em sucessi as ases de mo imen o. Essas imagens o am ob idas
a a és do uso de múl iplas ecnologias isuais como a o og a ia, o zoo ópio e a lan e na mágica
(Solni , 2003, p. 200).
Embo a enha ha ido especulação de que o in e esse de Edison pelo cinema começou
an es de 1888, a isi a do o óg a o Eadwea d Muyb idge ao labo a ó io do in en o , em Wes
O ange, em e e ei o daquele ano, ce amen e es imulou a decisão de Edison de in en a uma
câma a cinema og á ica. Numa en a i a de p o ege as suas u u as in enções, Edison
comunicou com a U.S. Pa en O ice, a 17 de ou ub o de 1888, após decidi não pa icipa numa
pa ce ia com Muyb idge, cuja p opos a e a combina o zoop axiscópio com o onóg a o Edison,
desc e endo a sua aspi ação da seguin e o ma: «Oco eu-me a ideia de que e a possí el concebe
5
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
um ins umen o que izesse pa a o olho o que o onóg a o az pa a o ou ido» (Edison apud
Al man, 2004, p. 78)
1
. Edison inha como oco c ia um no o meio audio isual, que combinasse
música e imagens em mo imen o, como o ma de en e enimen o. Numa en e is a dada a um
jo nalis a canadiano em 1895, Thomas Edison e e iu o seguin e:
Assim, se alguém quise ou i e e um conce o ou uma ópe a, bas a sen a -se em casa,
olha pa a um ec ã e e a ep esen ação, ep oduzida exa amen e em odos os
mo imen os e, ao mesmo empo, as ozes dos a o es e can o es, a música da o ques a,
os á ios sons que acompanham uma ep esen ação des e ipo, se ão ep oduzidos
exa amen e. O esul ado inal é uma ilusão pe ei a (Edison apud Koszanski, 2008, p.
141)
2
.
Edison nunca conseguiu, na e dade, ealiza esse seu concei o isioná io de
en e enimen o audio isual domés ico, no en an o a música oi cen al na his ó ia do cinema.
Des e modo, hou e um es o ço inicial de sinc onização de som com imagens nos labo a ó ios de
Thomas Edison, como se pode e i ica no ilme expe imen al, ealizado po William Kennedy
Dickson (1860-1935), seu assis en e e che e da di isão cinema og á ica de imagens em
mo imen o. Nes a expe iência, dois uncioná ios dançam ao som da música da ópe a cómica The
Chimes o No mandy, de 1877, de Robe Planque e (1848-1903), in e p e ada pelo p óp io
Dickson no iolino. Es e é o único exemplo conhecido de sinc onização audio isual dos
labo a ó ios de Edison e apesa de se equen emen e ci ado como um exemplo pionei o de
acompanhamen o musical, es e a anço suge e mais a cen alidade da música popula no
acompanhamen o inicial dos p imei os ilmes (Kalinak, 2010, p.45).
2.2.1 Cine oscópio
A p imei a cap ação de imagens em mo imen o oco eu nos labo a ó ios Edison. Es es
unciona am como uma o ganização colabo a i a, com a coo denação de Thomas Edison, onde
1
T adução li e de: «The idea occu ed o me ha i was possible o de ise an ins umen which should do o he
eye wha he phonog aph does o he ea » (Edison apud Al man, 2004, p.78).
2
T adução li e de: «Thus, i one wished o hea and see he conce o he ope a, i would only be necessa y o si
down a home, look upon a sc een and see he pe o mance, ep oduced exac ly in e e y mo emen and a he same
ime he oices o he playe s and singe s, he music o he o ches a, he a ious sounds ha accompany a
pe o mance o his so , will be ep oduced exac ly. The end a ained is a pe ec illusion» (Edison apud Koszanski,
2008, p. 141).

6
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
assis en es de labo a ó io e am designados pa a abalha em di e sos p oje os. Edison
denominou a sua in enção de cine oscópio (Kine oscope em inglês), usando as pala as g egas
kine o que signi ica mo imen o e scopos que se aduz po pa a e , sendo Dickson esponsá el
pela c iação do disposi i o, em junho de 1889.
Em 1891, a Edison Company demons ou com sucesso um p o ó ipo do cine oscópio, que
pe mi ia a isualização indi idual de imagens em mo imen o a a és de um o i ício do apa elho.
A p imei a demons ação pública do cine oscópio oco eu em 1893. Em 1894, o cine oscópio e a
já um sucesso come cial em mui os países.
2.2.2 Cinema óg a o
Léon Bouly (1872-1932) oi um in en o ancês esponsá el pela in enção do
cinema óg a o, pa en eado a 12 de e e ei o de 1892. Es e modelo pe mi ia cap a e p oje a as
imagens em mo imen o numa ela. Po ém, Bouly não inha capacidade mone á ia pa a paga as
anuidades da sua pa en e e des a o ma o e mo cinema óg a o acabou po se pa en eado pelos
i mãos Lumiè e, apesa de se em in enções di e en es.
A p imei a exibição cinema og á ica pública oco eu a 28 de dezemb o de 1895, no salão
G and Ca é, em Pa is, F ança, onde os i mãos Lumiè e, Augus e Lumiè e (1862-1954) e Louis
Lumiè e (1864-1948), ap esen a am o seu cinema óg a o. Nes a sala o am ap esen ados 10
ilmes de cu a du ação como La So ie de l'usine Lumiè e à Lyon (Thompson; Bo dwell, 2008,
p. 442). Es e e en o ma cou o início da e a do cinema mudo, um ma co c ucial na his ó ia
cinema og á ica.
Po ol a de 1896, nas salas de Lond es, di e sas exibições cinema og á icas já con a am
com o acompanhamen o musical de o ques as (P ende gas , 1977, p. 5). Nes e mesmo pe íodo,
ambém hou e uma c escen e u ilização de g a ações onog á icas pa a acompanha ilmes,
especialmen e em locais onde e a di ícil con a a músicos que se ap esen assem ao i o
(Kalinak, 2010, p.47).
7
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
2.3 UTILIZAÇÃO DOS FONÓGRAFOS PARA ACOMPANHAMENTO MUSICAL
O onóg a o é um apa elho u ilizado pa a cap a e ep oduzi o som. Foi in en ado po
Thomas Al a Edison, em 1878. Nos locais onde al ecnologia es a a disponí el, e a equen e o
seu uso pa a a a ação da a enção do público. Os cine oscópios de Edison apa ece am em Lond es
em 1894 e, pouco empo depois, indi íduos emp eendedo es conec a am os onóg a os aos
cine oscópios pa a, des e modo, o nece acompanhamen o musical.
Em poucos anos, g a ações onog á icas o am u ilizadas em mui os luga es pela Eu opa.
Em 1903, um ea o em B uxelas e a dedicado, exclusi amen e, à ap esen ação onog á ica
du an e a exibição de cu as-me agens de pe o mances ope ís icas. Em 1929, já no inal da e a
do cinema mudo, o ilme su ealis a de Luis Buñuel (1900-1983) e Sal ado Dalí (1904-1989),
Un Chien Andalou, oi acompanhado em Pa is po discos onog á icos de angos a gen inos e
exce os de ópe a wagne iana, como T is ão e Isolda de Richa d Wagne (1813-1883) (Kalinak,
2010, p.47).
Nos Es ados Unidos da Amé ica, as g a ações onog á icas o na am-se g adualmen e
uma pa e essencial da exibição de ilmes com o desen ol imen o dos Nickelodeons. Os
Nickelodeons e am an igos ea os cinema og á icos, onde ha ia exibições con ínuas de ilmes
com a du ação de 15 minu os a uma ho a, acompanhados com música. O nome az e e ência à
moeda u ilizada no p eço do bilhe e (chamada em inglês de níquel) e à pala a g ega odéon que
signi ica ea o cobe o. Es e concei o de ea o oi c iado em 1905, em Pi sbu gh, po Ha y
Da is, e o nou-se o modelo pa a a sua ápida p oli e ação nos Es ados Unidos da Amé ica.
Os Nickelodeons ap esen a am uma p og amação a iada de ilmes, núme os de
aude ille, músicas ilus adas e ap esen ações musicais com di e sas o mas de
acompanhamen o musical, incluindo g a ações onog á icas. F equen emen e, o onóg a o e a
colocado no ex e io do Nickelodeon, cump indo a unção de p opaganda pa a a a ação do
público e como acompanhamen o musical do ilme (Kalinak, 2010, p. 47). Embo a o uso de
g a ações onog á icas osse uma ca ac e ís ica impo an e da exibição de cinema mudo, o
acompanhamen o musical ao i o e a a o ma mais comum.
8
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
3 MÚSICA NO CINEMA MUDO
Inicialmen e, a ausência de som le ou os ealizado es e p odu o es a desen ol e em uma
sé ie de p ocedimen os écnicos e es é icos de ca ác e não e bal, de modo a iabiliza o cinema
enquan o a e na a i a. O uso de legendas, a explici ação do ges o a a és da pan omima dos
a o es, bem como as écnicas de enquad amen o, os mo imen os da câma a e a mon agem, o am
alguns dos ecu sos u ilizados na ealização e p odução cinema og á ica.
A o igem da música cinema og á ica não é o almen e cla a, assim como o
desen ol imen o da banda sono a mode na. Apesa do som sinc onizado apenas e sido
in oduzido em 1927, com o ilme The Jazz Singe de Alan C osland (1894-1936), já na e a do
cinema mudo os ilmes e am acompanhados po o ques as, pianis as ou de o ma g a ada
a a és dos onóg a os (Aumon ; Ma ie 2001, p. 102).
3.1 RAZÕES PARA A ADOÇÃO DO ACOMPANHAMENTO MUSICAL NO CINEMA
Claudia Go bman, no seu li o Unhea d Melodies: Na a i e Film Music (1987), a i ma
que as azões que explicam a adoção do acompanhamen o musical no cinema mudo, pode iam
se classi icados em qua o ní eis dis in os: a gumen os his ó icos; a gumen os p agmá icos;
a gumen os es é icos e a gumen os psicológicos e an opológicos (Go bman, 1987, p.33).
3.1.1 A gumen os his ó icos
A ní el his ó ico, a música e a ep esen ação d amá ica, como é equen emen e
assinalado, coexis i am du an e mui os séculos em conjun o. Segundo Go bman (1987, p. 34), o
uso da música pa a acompanha ilmes segue a adição do melod ama, bas an e comum no inal
do século XIX e na qual a música e a usada em g ande quan idade. A p esença do pianis a ou da
o ques a e a indispensá el nos ea os, en ão, a exibição de cinema seguiu a endência dominan e
das casas de espe áculo da época, inco po ando o pianis a, ou o mações musicais mais ex ensas,
às ap esen ações das p imei as sessões come ciais de cinema.
9
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
3.1.2 A gumen os p agmá icos
Os a gumen os baseados na especi icidade ecnológica do cinema, são designados de
a gumen os p agmá icos, ou seja, aqueles deco en es da hipó ese de que a música inha a a e a,
decididamen e p á ica, de aba a ou encob i o ba ulho mecânico do p oje o do cinema. Ku
London (1900-1985), au o do li o Film Music de 1936, a i ma que o uso da música não
de i a a de qualque e en e a ís ica ou psicológica, mas da necessidade de a enua os uídos
es anhos e incomoda i os p o ocados pelos p imei os p oje o es c iados (London, 1936, p.33).
Es e a gumen o com base ecnológica susci a, po ém, ainda mais ques ões, como po
exemplo: po que azão a música e a mais e icaz pa a dis a ça o uído dos p oje o es? (a inal
ambos os sons não são diegé icos); se esse uído e a um a o de dispe são pa a o público, po que
mo i o a música não p o oca ia a mesma dispe são em elação ao ilme que es a a a se exibido?
E po que é que a música pe maneceu, mesmo depois dos p oje o es se e em o nado menos
ba ulhen os e e em sido isolados do público, em cabines de p ojeção? (Go bman, 1987, p.37).
Es as ques ões le am-nos aos a gumen os es é icos.
3.1.3 A gumen os es é icos
Alguns c í icos desc e e am a imp essão inicial do cinema mudo como de ca ác e
sob ena u al, uma ez que não es amos a assis i à ep esen ação de uma ação eal, como acon ece
no ea o, mas sim a uma p ojeção numa supe ície bidimensional, apenas com ilusão de
p o undidade. Des a o ma, a música em a unção de esol e dois p oblemas: em p imei o luga ,
conseguia sup i acus icamen e o sen ido de p o undidade que isualmen e o ilme não possuía
e, em segundo luga , a música es abelece uma a mos e a pa a a ação ep esen ada, na linha do
melod ama ou da mímica, o mas de exp essão às quais o público es a a habi uado. Segundo
Claudia Go bman, um dos a o es que e ia le ado à inco po ação da música nas exibições de
ilmes, se ia, en ão, o ac o do acompanhamen o musical in ensi ica a imp essão de ealidade do
ilme (Go bman, 1987, p.37).
Um ou o a o es é ico impo an e é aquele que diz espei o ao i mo, e que já ha ia sido
abo dado po Ku London:
16
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
3.5 INSTRUMENTOS E FORMAÇÕES INSTRUMENTAIS NO ACOMPANHAMENTO
MUSICAL
Ha ia uma di e ença en e as p á icas musicais e o acompanhamen o musical de um ilme,
en e a Eu opa e os Es ados Unidos da Amé ica. Enquan o nos Es ados Unidos da Amé ica se
eco ia, equen emen e, às cue shee s, na Eu opa o p incipal ecu so basea a- se na adição
ea al do século XVIII, com um di e o de o ques a que, o a usa a uma pa i u a o iginal, o a
uma compilação (Chion, 1997, p. 39).
Na década de 1920, o público passou a espe a um acompanhamen o musical con ínuo
p é planeado, que seguisse de alguma o ma a na a i a, e osse execu ado com um ce o ní el
de compe ência (Kalinak, 2010, p.56). O acompanhamen o musical execu ado pelos músicos
a ia a amplamen e, desde o pianis a local, equen emen e a mesma pessoa que oca a o ó gão
na missa dominical, a pequenos conjun os de câma a, a é o ques as nos locais mais p es igiados.
Além dos ins umen os adicionais, ambém e a habi ual o ó gão Wu li ze . Es e ins umen o,
comum nas salas de cinema ame icanas, oi idealizado po Robe Hope-Jones (1859-1914),
conside ado o in en o do ó gão de ea o no início do século XX. Foi a emp esa Wu li ze , no
en an o, que começou a come cializá-lo, ins alando milha es de ins umen os nos ea os dos
Es ados Unidos da Amé ica. Es e ó gão es a a eple o de egis os ea ais pa a c ia e ei os
sono os. Nos anos 70, a sala do Gaumon Palace, em Pa is, inha ainda um des es ó gãos, apesa
de quase não se u ilizado (Chion, 1997, p. 43).
William G. Blancha d (1905-1978), o ganis a de cinema da Região Cen o-Oes e dos
Es ados Unidos da Amé ica, eco da o ó gão Wu li ze como uma en a i a de coloca sob o
con ole de um indi íduo odas as co es de uma o ques a, jun o com pe cussões de odos os
ipos, xilo ones, p a os, egis os do can a dos pássa os, si enes de incêndio, dispa os e um piano.
O conjun o podia se acionado a pa i de dois, ês, qua o, e a é cinco eclados no mais (Chion,
1997, p. 45).
O Mo on Pipe O gan da emp esa ame icana de p odução de ó gãos de ubo pa a ea os,
The Robe Mo on O gan Company, oi ou o ó gão mui o u ilizado. Es e, conseguia ep oduzi
oques de ele one, ba idas nas po as, sinos de ig eja, buzinas de ba cos a apo , comboios e
ca os, ondas, en o, o ão, cascos de ca alos no solo, bem como uma sé ie de ou os egis os
(Kalinak, 2010, p.56).

17
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
O Fo oplaye oi ou a in enção cons uída com o p opósi o de o nece música e e ei os
sono os pa a ilmes mudos. Es a in enção su giu em 1912 e e a u ilizada nos ea os de po e
in e médio. Combina o piano, com ubos de ó gão, ba e ia e á ios e ei os sono os concebidos
pa a na a a ação de qualque ilme mudo. Os Fo oplaye s podiam não necessi a de um músico
pa a ocá-los, pois ambém oca am po meio de olos de piano. Con inham, en ão, pedais,
ala ancas, in e up o es, bo ões e co das, acessó ios usados pa a aciona o xilo one, pa a oca
um ambo , pa a oca uma campainha ou simula o som de um o ão.
4 O RESSURGIMENTO DO CINEMA MUDO
O cinema mudo em essu gido nas úl imas décadas. A ansmissão em canais ele isi os
de ilmes mudos na década de 1970, pela PBS (Public B oadcas ing Se ice, ede de ele isão
ame icana), com ob as de William Pe y (1930), composi o e p odu o ame icano de ele isão e
cinema; a exibição de ilmes mudos com acompanhamen o ao i o pela maes ina Gillian
Ande son, nos Es ados Unidos da Amé ica, e Ca l Da is (1936-2023), maes o e composi o
b i ânico, na G ã-B e anha, bem como a g ande popula idade na década de 1980 da ob a de
Ca mine Coppola (1910-1991) pa a Napoleão (1929), con ibuí am pa a o essu gimen o do
cinema mudo (Kalinak, 2010, p.58).
Mui as ob as o am pe didas, como é o caso da pa i u a de Da ius Milhaud (1892-1974)
pa a o ilme mudo L’Inhumaine (1924), mas algumas o am encon adas. Em 1975, oi
encon ada a ob a de Dmi i Shos ako ich (1906-1975), pa a The New Babylon (1929). Cada ez
mais ilmes mudos são ecupe ados e a música é uma componen e-cha e no seu es au o
(Kalinak, 2010, p.58).
Algumas ob as o iginais o am es au adas, como é o caso de B oken Blossoms (1919) de
D. W. G i i h; Nos e a u (1922) de F. W. Mu nau (1888-1931); Me opolis (1927) de F i z Lang
(1890-1976); e The Man Wi h a Mo ie Came a (1929) de Dziga Ve o (1896-1954), pa a o qual
a Alloy O ches a, g upo musical dos Es ados Unidos da Amé ica, c iou uma peça a pa i das
ins uções musicais o iginais de Dziga Ve o (Kalinak, 2010, p.58).
Ou os es au os de ilmes mudos ap esen am no as bandas sono as compos as
especi icamen e pa a cada ilme, como é o caso de: Ca l Da is pa a The Wind (1928); a Alloy
O ches a pa a S ike (1925); a Club oo O ches a, g upo musical conhecido pelas suas ob as
18
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
pa a ilmes mudos, pa a She lock J . (1924); o ombonis a de jazz Wycli e Go don (1967) pa a
Body and Soul (1925); Michael Nyman (1944), composi o minimalis a, pianis a e musicologis a
b i ânico, pa a The Man Wi h a Mo ie Came a (1929); Joseph Tu in (1947), composi o dos
Es ados Unidos da Amé ica, pa a B oken Blossoms (1919); Robe Is ael (1963), composi o de
bandas sono as que abalha p incipalmen e com ilmes mudos, pa a La Roue (1923) (Kalinak,
2010, p.58).
Recen emen e, o sucesso con ínuo dos ilmes mudos exibidos com acompanhamen o
musical ao i o em es i ais de cinema, salas de conce o e a é nos p óp ios ea os onde o am
exibidos o iginalmen e, p ese a a he ança cinema og á ica e expande-a, con idando no as
ge ações a en ol e em-se com o cinema mudo. Es e enascimen o, não só celeb a o apogeu do
cinema mudo, como ambém ein en a a expe iência cinema og á ica, p incipalmen e a a és da
ino ação signi ica i a do acompanhamen o musical.
A escolha dos músicos solis as no uso de ins umen os a amen e associados ao
acompanhamen o musical na e a do cinema mudo, como po exemplo a ha pa, ba e ia ou gui a a
clássica, az-lhe uma no a pale a sono a. A ein e p e ação des a o ma de a e, dá palco à
pe o mance musical ao i o de músicos, que in e p e am os mais a iados ins umen os,
ec iando a p á ica comum do acompanhamen o musical ao i o nas p imei as décadas do século
XX e mode nizando-a, dando espaço à c iação e explo ação da pe o mance musical.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pe o mance musical ao i o no cinema mudo e, consequen emen e, a música de uma
o ma ge al ado ada pa a acompanha as imagens em mo imen o e as di e en es na a i as,
desempenha am, e con inuam a desempenha , um papel absolu amen e undamen al pa a e a a ,
in ensi ica , iden i ica e p omo e ambiências à his ó ia em mo imen o. A unção da música de
c ia signi icados emocionais, ou de es abelece con inuidade, ou ainda de ealiza ma cações
na a i as e es u u ais, é, de ac o, imp escindí el pa a a ap op iação de sen ido na a i o. A
música mais ep esen a i a, pa a o e ei o, denomina-se música desc i i a e diz espei o a uma
es é ica e e encialis a, em que a música é subjugada pelo que não é musical, ou seja, a
impo ância si ua-se não na música, mas nos elemen os ex amusicais.
19
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
Na abo dagem e e encialis a a ob a de a e in e age semp e com e e ências,
signi icados e alo es ex amusicais. A música comunica signi icados que se e e em
ao mundo ex amusical dos concei os, ideias, emoções, e en os, ou seja, signi icados
que são encon ados o a da composição, o a das qualidades pu amen e a ís icas da
ob a (Reime , 1970, apud Ribei o, 2022, p. 5).
Ao longo da his ó ia do cinema e da música, a combinação des as duas o mas de a e oi
de e as uma c escen e ealidade, en ol endo di e en es in e enien es: a o es, p odu o es,
ealizado es, músicos, composi o es, o ques ado es, écnicos, epe ó ios, conjun os
ins umen ais e o ques as, ampliando, assim, a comp eensão das elações en e a música e ou as
o ças na a i as p esen es no con ex o audio isual. O e i alismo pe o ma i o do
acompanhamen o musical ao i o, hoje, indica-nos o luga na his ó ia da música pa a cinema,
sua e olução, p ese ação e ein enção da expe iência cinema og á ica de o ma ino ado a e
c ia i a.
AGRADECIMENTOS
Es e abalho oi inanciado po Fundos Nacionais a a és da FCT – Fundação pa a a Ciência e
a Tecnologia no âmbi o dos p oje os do CIEC (Cen o de In es igação em Es udos da C iança da
Uni e sidade do Minho) com as e e ências UIDB/00317/2020 e UIDP/00317/2020.
20
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
REFERÊNCIAS
ALTMAN, Rick. Silen Film Sound. New Yo k: Columbia Uni e si y P ess, 2004.
AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Dicioná io eó ico e c í ico de cinema. 2ª ed. Papi us
Edi o a, 2001
BAPTISTA, And é. Funções da música no cinema - Con ibuições pa a a elabo ação de
es a égias composicionais. 2007. Disse ação (Mes ado Música e Tecnologia). Uni e sidade
Fede al de Minas Ge ais/ Escola de Música, Belo Ho izon e. Reposi ó io Ins i ucional da
UFMG, 2007. Disponí el em: h p://hdl.handle.ne /1843/GMMA-7Z6NVU. Acesso em: 3 ma .
2024.
BORDWELL, Da id; THOMPSON, K is in. Film A : An In oduc ion. 8.ª ed. Lincoln:
McG aw Hill, 2008.
CARROLL, Noël. Theo izing he Mo ing Image. New Yo k: Camb idge Uni e si y P ess,
1996.
CHION, Michel. La música en el cine. Ba celona: Paidós, 1997.
GORBMAN, Claudia. Unhea d Melodies: Na a i e Film Music. Blooming on: Indiana
Uni e si y P ess, 1987.
LONDON, Ku . Film Music: A Summa y o he Cha ac e is ic Fea u es o I s His o y,
Aes he ics, Techniques, and Possible De elopmen s. Lond es: Fabe & Fabe Limi ed, 1936.
KALINAK, Ka h yn. Film Music: A Ve y Sho In oduc ion. Ox o d: Ox o d Uni e si y
P ess, 2010.
KOSZARSKI, Richa d. Hollywood on he Hudson Film and Tele ision in New Yo k om
G i i h o Sa no . New B unswick: Ru ge s Uni e si y P ess, 2008.
PRENDERGAST, Roy. A C i ical S udy o Music in Films. 2ª ed. New Yo k: W. W. No on
& Company, 1997.
RIBEIRO, An ónio José Pacheco. O ensino da música em Po ugal e a p o a de ap idão
a ís ica. Deba es em Educação, [S. l.], . 14, n. 34, p. 377–389, 2022. DOI: 10.28998/2175-
6600. Disponí el em: h ps://www.see .u al.b /index.php/deba eseducacao/a icle/ iew/12028.
Acesso em: 15 jul. 2024.
RIBEIRO, An ónio José Pacheco. A música que ou imos: es udo explo a ó io com alunos do
Cu so Básico de Música do Conse a ó io do Vale do Sousa. OPUS, [S.l.], . 28, p. 1-15, dez.
2022. Disponí el em:
h ps://www.anppom.com.b / e is a/index.php/opus/a icle/ iew/opus2022.28.29. Acesso em:
15 ab . 2024. doi:h p://dx.doi.o g/10.20504/opus2022.28.29.
21
Con ibuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, .18, n.1, p. 01-21, 2025
SOLNIT, Rebecca. Mo ion S udies. Lond es: Bloomsbu y, 2003.