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Temporalidade e atemporalidade na experiência musical. A música como metáfora da existência humana

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Temporalidade e atemporalidade na experiência musical. A música como metáfora da existência humana

Author: mara, José
Year: 2011
Source: https://idus.us.es/bitstreams/27e0cde4-ad83-42cd-81f6-12a0190510ef/download
Théma a. Re is a de Filoso ía. Núme o 44. 2011
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TEMPORALIDADE E ATEMPORALIDADE NA EXPERIÊNCIA
MUSICAL. A música como me á o a da exis ência humana
José Be encou da Câma a. Uni e sidade de É o a
Lessing não pode ia imagina o sucesso que e ia a sua p opos a de
o ganização das a es segundo essas duas g andes coo denadas que es u u am a
nossa pe cepção do mundo, a nossa p óp ia exis ência nele: o empo e o espaço.
Quase popula , banalizada al ez, a dis inção en e a es do empo e a es do
espaço con igu a um elemen a “sis ema das a es” a que, mais do que qualque
ou o dos que a his ó ia do pensamen o es é ico nos o e ece, equen emen e
eco emos, sem ge almen e e mos p esen e o nome daquele a quem o de emos.
No conjun o das á ias modalidades de exp essão a ís ica, é a a e dos sons
uma das que ce amen e logo eme e emos pa a o g upo das a es do empo: ela
su ge-nos mesmo, po en u a, como a mais empo al de odas as a es, se assim
nos pude mos exp imi — com a poesia, pe manecendo es a ma cada pela unção
ep esen a i a, e e encial, da pala a. Ou as a es que ambém se desen olam
no empo dependem, com mais e idência do que a música, do espaço: é o caso do
ea o, como o da dança, em que pa icula men e se a iculam empo e espaço,
pelo mo imen o exp essi o do co po humano. Quan o às p óp ias a es di as do
espaço, a pin u a e a escul u a po exemplo, essas apenas nos suge em o empo
po ia da e en ual co espondência en e espaço e empo, is o é, de algum modo
po analogia, is o de e mos con inua a in e oga -nos sob e o que pode á
signi ica , na ealidade, a hipó ese duma empo alização do espaço, ou duma
espacialização do empo.
Abe os a p opos as ecen es de cien is as mais ou menos sensí eis à
ampli ude da in e ogação ilosó ica, p opos as que pa ecem i abala o que
nes a ma é ia du an e milénios oi ido po e iden e, man e emos dece o que a
expe iência nos dá o espaço como e e sí el (g eg essa a luga es ap azí eis
onde já es i emos), mas o mesmo não se e i ica com o empo (não podemos
eg essa aos momen os elizes do nosso passado). Mo emo-nos no espaço, que
su ge pelo menos com a es abilidade necessá ia a que esse mo imen o seja
possí el, mas o empo, em que o nosso mo imen o se insc e e igualmen e, esse
não pe manece, não pe manece o que nele amos i endo, que pe demos à
medida que i emos. Assim, quando nos e e imos à dico omia que se a icula em
a es do empo e a es do espaço, p essupomos que es as úl imas são es á icas e
as p imei as, dinâmicas, pe encendo as do espaço à o dem da simul aneidade, as
do empo, à da sucessão.
Dize , pois, que a música é a e do empo equi ale a a i ma que ela ele a da
sucessão, é dinâmica — po conseguin e, mesmo que a é ce o pon o epe í el, ela
é i e e sí el ( e emos como se e es a ca ac e ís ica à ap eensão da sua
essência). Ela exis e pa a nós, pe cepcionamogla, como ealidade que se p ocessa
no empo: em início num de e minado momen o, desen ol e-se a segui du an e
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algum empo e, po im, acaba. Não p ecisamos de se músicos pa a sabe mos que
a ob a exp essa na pa i u a, pe an e o maes o, se inicia quando es e, e guidos
os b aços, o e ece à o ques a um p imei o ges o, que susci a um p imei o som. E
a a en u a p ossegue: imó eis, somos le ados, ambém nós, num g a i ican e
pe cu so, somos implicados numa his ó ia em que mui as ezes nenhumas
pala as in e êm, em que sonhamos, exul amos, epousamos — his ó ia que se
ence a, como odas as his ó ias, numa úl ima página.
Sem p escindi do espaço, na u almen e, a música conce ne an es de mais ao
empo, ou al ez de amos a i ma que, sendo som, ela é empo, o que
p ocu a emos en ende em que medida de e oma -se ao pé da le a. Cons i ui a
ob a musical algo p e iamen e con igu ado pelo composi o pa a oco e du an e
um lapso de empo; ela não pe manece, imó el, pe an e nós, como a ob a
pic ó ica, ou uma escul u a, eme idas po isso pa a o âmbi o das a es do espaço.
No caso da a e musical, a ob a su ge-nos apa en emen e ão libe a do espaço
que não a emos, não conseguimos ocá-la: a sua ex e io idade eduz-se ao som
que algu es se desdob a, e se nos o e ece, in isí el, ao longo de uma acção maio
ou meno de empo.
O ópico da “ima e ialidade”, do ca ác e e é eo da música, oi glosado po
alguns, como ga an ia da sua capacidade de exp imi o in e io do homem: a
iqueza e a ambiguidade do sen i , o ecôndi o pulsa da ida subjec i a. Hegel,
nas Lições sob e a es é ica (que ele não esc e eu, mas p onunciou, e discípulos
mais a de publica am), insis iu nes a qualidade da música, possibili ada,
segundo ele, pela p óp ia na u eza do som: “De ido ao ac o de a exp essão
musical e po con eúdo a p óp ia in e io idade, o undo e o sen ido mais ín imos
da coisa e do sen imen o, e ambém ao ac o de, em ez de p ocede à o mação de
igu as no espaço, e po elemen o o som pe ecí el e e anescen e, ela comunica
os seus mo imen os à sede mais p o unda da ida da alma.” (Hegel, La pein u e
— La musique, Aubie , Pa is, 1965, p. 182.)
Po que não admi i , assim, que pode a música cons i ui uma me á o a
adequada da exis ência humana, do se igualmen e empo al do homem — que,
enquan o indi íduo, em início na concepção, i e ambém po algum empo e se
es uma na mo e, po en u a a ba a inal da sua exis ência? Como não admi i
essa semelhança en e o modo como se nos dá o se da ob a musical e como, se es
me gulhados no empo, expe imen amos o nosso p óp io se ? Po que não admi i
ainda que g ande pa e do mis é io da música anco e no p óp io mis é io do
empo, que uma abo dagem enomenológica da música possa con ibui , al ez
pa icula men e, pa a a comp eensão da na u eza do empo?
Po ou o lado, nessa homologia com o p óp io se do homem encon a emos
e en ualmen e a cha e pa a o des endamen o do seg edo úl imo da música:
po que, em ple o a, ela b o a necessa iamen e do homem, po que, coex ensi a ao
seu des ino, exp essão eloquen e da mul iplicidade de cul u as e ci ilizações, com
ela depa amos em qualque luga e em qualque momen o do de i his ó ico.
Assim, ambém, ap eende emos melho as azões do seu peculia ascínio
enquan o o ma de a e, a sedução que sob e (quase) odos em exe cendo — em
especial sob e an os in elec uais, ilóso os e esc i o es sob e udo, que, sem a
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ha e em p a icado, sob e ela disco e am, en ando desco ina as undas aízes
desse ascínio.
* * *
Quando nos p opomos e lec i sob e o empo, o que desde logo cons a amos é,
segu amen e, a di iculdade de de ini-lo, embo a saibamos odos, is o que odos o
expe imen amos, de que dimensão do eal se a a. Mui os dos g andes nomes da
his ó ia do pensamen o ilosó ico esba a am ace a es e desa io, acabando po
decla a a sua impo ência pa a dize o que é o empo. Reconhecemo-nos odos,
po isso, no que disse Agos inho de Hipona na seguin e passagem das suas
Con issões (Li o XI), depois an as ezes e ocada: “Que assun o mais amilia e
mais equen e nas nossas con e sas do que o empo? Quando dele alamos,
comp eendemos o que dizemos. Comp eendemos ambém o que dizem quando
dele nos alam. O que é po an o o empo? Se alguém mo pe gun a , eu sei, se o
quise explica a quem me ize a pe gun a, já não sei.”
Tal ez pouco mais consigamos dize sob e o empo além de que o
expe imen amos como um luxo: de ac o, como algo que pa ece lui , em cujo seio
depa amos já com a nossa p óp ia exis ência luindo. Donde a analogia, de que
habi ualmen e nos soco emos, com udo aquilo que emos pe an e nós co e : a
água do io que desce, o ba co descendo nela. Po ém dize , e explica , em que
consis e esse mo imen o não pa ece es a ao nosso alcance, di iculdade que
adica á na p óp ia expe iência do empo, que não ap eendemos di ec amen e
mas po ia do que emos po e ei os do seu pe passa : as olhas das á o es que
ama elecem e caiem, após ha e mos usu uido do seu esco , ce os sulcos que se
ão ca ando na ace dos que nos são p óximos, na nossa p óp ia ace. O empo
escoa-se, a nossa ida escoa-se com ele!
Es a emos i emedia elmen e condenados à me á o a, quando ousamos
p o e i seja o que o sob e o se do empo? De qualque manei a, e e imo-nos
odos a um empo que passou, po oposição àquele que nes e momen o i emos e
àquele que mais a de i emos i e , o que designamos como os ês modos do
empo: passado, p esen e e u u o. Exp imimo-nos ainda como se no seu
mo imen o o empo, indo do passado, a ançasse no sen ido do u u o, passando
pelo p esen e. Conside amos que o passado já não exis e, o u u o, que ainda não
exis e. E do p esen e que dize ? Que a inal só ele em ealidade, uma ez que
passado e u u o se de ini iam pelo ac o de não exis i em? Também aqui nos
pode íamos inclina pa a a espos a nega i a, is o que o p esen e, se exis e,
deixa logo de exis i — ão elozmen e que não se á es anho du ida de que
enha chegado a exis i , is o é, que alguma du ação seja possí el consigna lhe.
Ou de e íamos an es p opo , ul apassando já, esolu amen e, os limi es da
expe iência, que o p esen e é e e no, po que é nele que amos exis indo, po que
nele ou os exis i ão depois de nós? Mas como ga an i-lo, se mo emos odos...?!
Tempo e espaço, ealidade única que a inal só as pala as (enquan o ou as
não o em in en adas?) nos le am a dis ingui ? A p óp ia ideia do luxo do empo,
de que pa imos, não pa ece isen a de con aminações espaciais: concebemo-lo
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como alguma coisa que algu es se mo esse, comp eendendo-se que a linha enha
sido omada como igu a isual do empo ( imeline). E ec i amen e, à ideia da
linea idade do empo não se á alheia a pe cepção do mo imen o dos co pos que,
pe co endo a dis ância en e dois pon os mais ou menos a as ados, se deslocam
no espaço. T a a-se, aliás, de ances ais con aminações na his ó ia da e lexão
ilosó ica: na G écia an iga, de ende am os Epicu is as que, al como o espaço,
se ia o empo cons i uido po acções indi isí eis dele mesmo (a omismo do
empo), e os amige ados pa adoxos de Zenão, que ainda hoje u ilmen e
e ocamos, ao susci a em a ques ão do espaço, susci am conjun amen e esse
enigma que pa a o in elec o cons i ui o empo.
É ambém di ícil dissocia a ideia comum de empo da de acon ecimen o.
Vemo-lo como algo em que algo acon ece, des acando os ac os que nele oco em e
conec ando-os uns a ou os segundo as noções de causa e de e ei o. Sob e udo o
conhecimen o do passado humano, do empo his ó ico, pa ece depende des e
p essupos o: embo a ou os modos de abo dagem da his ó ia enham sido
p opos os ecen emen e (uma his ó ia de es u u as, não a adicional his ó ia de
acon ecimen os), não pa ece iá el p escindi comple amen e da noção de
acon ecimen o na in es igação do nosso passado, do empo i ido pela espécie
humana.
Signi ica i amen e, é de inindo-o como acon ecimen o que melho exp imimos
o que é o enómeno musical. Cons i ui-o um p ocesso que implica a ma é ia,
segmen os de espaço, mas que espei a an es de mais ao empo, um p ocesso de
o dem eminen emen e empo al. Podemos, de emos a i ma , sem isco de
pa ece mos e ó icos, que a música não exis e, mas acon ece, ou melho , apenas
exis e acon ecendo. Também a música se escoa, pe an e, den o de nós, como o
empo, ou di emos ainda que ela se escoa com o empo, pelo empo. É o que
p e endemos signi ica quando a i mamos que a na u eza da música epousa
pa icula men e na sua empo alidade, que depende o seu se an es de mais do
empo.
Di e so dos acon ecimen os que ape cebemos no espaço, em especial daqueles
a que acedemos pela isão, o acon ecimen o musical, que não emos, não deixa de
se ape cebido como al, como algo que acon ece o a de nós, mas
simul aneamen e nos acon ece: algo que nos en ol e, nos anspo a e ainda, o
que não deixa emos de acen ua , nos ans o ma. P o a elmen e não lhe
consegui emos designa o sen ido, pelo menos com a ni idez com que di isamos
as o mas do mundo ex e io , ou com a p ecisão com que as pala as nos
designam as coisas (é ce amen e o que p e endeu dize Mau ice Me leau-Pon y
quando nas páginas iniciais de L’oeil e l’esp i a i mou que a música ica
“demasiado aquém do mundo e do designá el”), mas nem po isso é a música
menos e icaz no que az acon ece em nós. O que na ob a musical acon ece
quando nos é o e ecida numa execução, as ans o mações de que ela é ei a,
oco em ambém no nosso ín imo ecesso — e ão pode osa é a música nesse
in luxo que po ezes nos chega a co-mo e a é às lág imas!
Pa a ap eende mos a é que pon o depende a música do empo, podemos
a en a nos e ei os que em sob e nós, como nos elemen os que nela p óp ia
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conseguimos disce ni . Dos chamados pa âme os da música, é o i mo que
melho exp ime a sua empo alidade. O que designamos melodia esul a do ac o
de pode mos eco e , o denando-os consecu i amen e, a sons de di e en es
al u as, ou equências; a ha monia, po seu u no, é possí el g aças à nossa
capacidade de escu a mos simul aneamen e á ios sons, de di e sos imb es e
equências. Mas an o a não simul aneidade, a sucessão de sons, na melodia,
como a simul aneidade dos mesmos, na ha monia, não deixam de implica o
empo, is o o global se empo al da música. Também a ha monia, a
simul aneidade de di e en es sons, se e i ica, p og ide no empo, não menos do
que o conjun o de sons consecu i os que azem uma única linha melódica. Do
mesmo modo o imb e, que depende de ac o es que exis em na na u eza, em
oços de ma é ia (o objec o que é o ins umen o, ou o ins umen o que é a oz
humana), exis e no empo, como qualidade de sons que se desdob am no empo.
É da na u eza empo al da música que o i mo e i a o seu es a u o de
p imei o pa âme o musical, explicando-se assim po que pode ha e música sem
melodia, pode ha ê-la sem ha monia, po en u a mesmo sem imb e, mas não
sem i mo. Reduzida ao seu elemen o nuclea , se ia a música exclusi amen e
í mica ainda música, não sendo possí el, pelo con á io, concebe mos melodia ou
ha monia sem qualque in e e ência do i mo.
A o dem do i mo é, ela mesma, empo al, no sen ido que em o empo como
sua ma é ia-p ima: ao o ganiza o som, o c iado musical assume
simul aneamen e o empo, es u u ando-o de aco do com o que p e ende
comunica , ou an es segundo pulsões, p essupõem alguns, que o impelem e o
de e minam no ac o de c ia . Os c i é ios dessa o ganização, os da egula idade
ou da i egula idade, da homogeneidade ou da di e ença, da p ecisão ou da
luidez, se em esses objec i os mais ou menos conscien es que o no eiam no
p ocesso de p odução da ob a.
Anco ado no empo objec i o, é do empo i ido que o i mo na ealidade se
alimen a: p imei o (em sen ido c onológico), o do composi o , depois o do
in é p e e e do ou in e, que na i ência da ob a assim se jun am ao au o . Na
expe iência musical, o empo é semp e o empo i ido de alguém, o que que dize
que ela não se e ec i a ia sem in e e ência da emoção. Con igu ando a nossa
his ó ia de se es que, en ol os do mundo, a ele eagem, a emoção é po isso, com o
empo, um dos elemen os cons i u i os da expe iência musical. A ob a, que acolhe
em pa e a ida emo i a do seu c iado , acolhe-a ainda de in é p e es e de
ou in es que ao longo do empo a o em e i endo. Donde a jus iça das ecen es
abo dagens he menêu icas da a e, que p essupõem como seu sen ido a soma das
suas in e p e ações, passadas, p esen es e u u as. A na u eza pe o ma i a da
a e musical, a sua dependência de um ac o de ec iação que a ac ualiza, o na
bem e iden es as azões dessa o ien ação es é ica, que di e samen e se aplica a
odas as o mas de a e.
É ainda pelo ac o de se alimen a do empo i ido que o i mo en a em
con li o com a p á ica do compasso, pa a que se o ien ou a e olução da música no
âmbi o da ci ilização ociden al. A ba a de compasso é, como jus amen e se diz,
da o dem do in elec o, alheia à ín ima na u eza da expe iência musical. O seu

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ca ác e mensu ado con ina-a à música esc i a — que não é música, como
acen ua emos. Aquilo em que a medida do compasso possa pa ece na u al
pe ence já ao i mo, às suas qualidades, a aspec os da p óp ia expe iência do
empo, de que ele exau e.
A ob a musical só pode se is a como uma acção de empo que de ce o
modo se soco e do som pa a ma e ializa -se. É es a imb icação da na u eza da
música no que nos su ge como o se do empo que de e mina o abismo exis en e
en e a música esc i a, música de algum modo espacializada, e a música i a, que
assim pode íamos, com edundância, dize “ empo alizada”. Temos, sob e udo
aqueles que p o issionalmen e se dedicam à música, de a as a a ideia de que
es a seja, ou es eja na pa i u a. A compa ação da pa i u a com a o og a ia é-
nos aqui ú il: se algum di ei o assis ia a Roland Ba hes pa a conside a que a
o og a ia mu ila o eal po que o imobiliza, po que ma a aquilo que na ida é
ida, com azão maio pode íamos escusa a pa i u a, a música esc i a, que
ealmen e não chega a da -nos a e idência da na u eza da música. Redundan e, a
exp essão “música i a” diz con udo, adequadamen e, aquilo de que aqui se a a:
a pa i u a es á pa a a música como a múmia es á pa a o se i o que já oi. O
ac o de nos espec áculos musicais a sen i mos como obs áculo p ende-se com es e
a as amen o, senão incompa ibilidade, en e música esc i a e música i a, com o
ac o de, po o ça do seu p óp io modo de se , apenas pode mos comp eende a
música enquan o acon ecimen o.
Na expe iência do empo como luxo em o igem o que pode íamos chama ,
com alguma dose de analogia, a linea idade, que dize , a sucessibilidade da
expe iência musical — dimensão que a pa i u a, cuja a i icialidade imos de
denuncia , po ou o lado e idencia, ans e indo-a do empo pa a o espaço,
encon ando pa a ela alguma co espondência isual. A noção de an es e depois
segundo a qual se o ganiza a nossa i ência do empo aduz-se no domínio da
música nessa linea idade, que na melodia, sequência es u u ada de sons,
elemen a men e se exp ime. Te á sido em pa e es e ac o que, no decu so da
his ó ia das ideias sob e a música, le ou alguns a de ende am que na melodia
encon amos o elemen o p imei o, p incipal des a a e?
Dize linea idade ou caducidade signi ica aqui o mesmo, e e indo-se ambos os
e mos à e eme idade essencial da música, que se az des azendo-se, po assim
dize . E eme idade que implica ou a ca ac e ís ica de e minan e do enómeno
musical: a sua i epe ibilidade, ou i e e sibilidade. Cada in e p e ação duma
mesma ob a, como empi icamen e sabemos, é única, que dize , é semp e,
necessa iamen e di e sa — di e sa de odas as ou as in e p e ações,
e en ualmen e pelo mesmo in é p e e, adicando na i e e sibilidade do empo
essa unicidade, que não pode íamos e nega i amen e, mas como ou o dos
aços essenciais da música e um dos sinais imp essi os da sua g andeza.
A écnica da g a ação de som que eio possibili a a ep odução ilimi ada
duma de e minada in e p e ação pode, en e ou os aspec os nega i os, induzi a
ideia de que se ia con o ná el a e eme idade da música. Que aze ? Não admi i
essa c is alização da ob a na que é apenas uma ci cuns ancial concepção da
mesma, como o di ec o de o ques a que ecusasse g a a qualque das suas
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geniais in e p e ações, ou pelo con á io e ugia -se no es údio de g a ação,
ecusando ap esen a -se em eci ais e conce os, como ez um pianis a que não
inha mo i o pa a queixa -se de insucesso na sua ca ei a a ís ica? Não impo a,
ago a, discu i e en uais dimensões p á icas da ques ão: a en e-se no ce ne da
p oblemá ica que po de ás das duas a i udes se pe ila, na necessidade de não
esquece mos que só na con ingência do seu acon ece nos comunica a ob a
musical os alo es que consubs ancia.
Me ece cuidado a ideia, que po ezes se insinua, da ob a como en idade que
esis isse à e eme idade da música: como se po ela, po ia da sua indes u í el
indi idualidade de algum modo se encesse a ansi o iedade do empo. O que
não dizemos no sen ido omân ico da e e nidade que, po suas ob as, e iam
conquis ado os g andes c iado es, mas no de que ao compo mos a ob a, ao dá-la
po acabada, a libe a íamos da ugaz, mo al condição de odas as coisas que,
oco endo no empo, acabam num de e minado momen o. Como se a caducidade
do empo pudesse se encida, ou compensada, pela du abilidade da ma é ia, do
espaço, a cuja o dem pe ence a pa i u a!
É e dade que a ob a musical se de ine po uma iden idade que podemos
exp imi nos e mos da análise musical, ou ambiguamen e pela qualidade das
emoções que ela despe a em nós: uma “Quin a sin onia” e um “Segundo conce o”
podem e sido compos os em dó meno , ou uma “Missa” em si meno ; um can o
da mon anha pode se aleg e, ou is e, e ou o, da planície, al ez plangen e, ou
en ão i o; ambém uma ob a ins umen al pode á, po escolha do au o , apela a
de e minadas a i udes a ec i as, e oca imp essões ex e io es à música, ou a é
imagens, e ou a, ambém po opção do composi o , man e -se longe do con ágio
daquilo que não é exclusi amen e música, ou seja, o pu o som. Pa a além disso,
odas dispõem e ec i amen e de indi idualidade, o que implica que as
econhecemos, após conhecê-las, ainda que sejam em dó ou em si meno como
an as ou as, ainda que sejam aleg es ou dolen es, se o são, como an as ou as.
Não obs a essa indi idualidade, oda ia, ao ac o de que qualque ob a
musical nos a inge po ia duma in e p e ação, no duplo sen ido (que não é duplo
a inal) que em a pala a em domínio musical e em odos os ou os domínios: sem
p ejuízo dessa iden idade que nos pe mi e econhecê-la pa a além das di e enças
de in e p e ação, ela muda, e é bom, é imp escindí el que mude de execução pa a
execução. Só po ingenuidade, ou es ei eza de isão, pode íamos espe a
p ese a , ou mesmo a o ece , a iden idade da ob a omi indo a in e p e ação.
Pelo con á io, é no ac o de p escindi dessa ex ao diná ia ca ac e ís ica da a e
musical que eside um dos limi es maio es das ob as que eco em apenas a
meios não humanos, a máquinas, pa a se e ec i a em: con inuando a consis i
numa acção de empo, a ob a musical elec oacús ica man ém a sua iden idade
enquan o ob a, mas p i a-se do que é um dos ac o es mais in e essan es da
expe iência musical: a p esença i a (ou o seu egis o, no caso da g a ação) de
alguém, is o é, de um co po exp essi o que se enca ega da sua e i i icação,
in e p e ando-a.
Tal é o assumi pela música da empo alidade a que es á subme ido o se do
homem que podemos in e oga -nos sob e o que e á ob ido alguma da música
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di a de angua da no que, segundo o en endimen o de alguns, se ia a sua
ambição de ul apassa a linea idade do empo. Po hipó ese, ence ia essa
linea idade a ob a musical que, acon ecendo oda ao mesmo empo, num único
momen o, es a icamen e se p olongasse numa espécie de a a axia, que
signi icasse como que a negação possí el do mo imen o? Que acção de empo
du a ia? Se ia cons i uida po um único som, po um único aco de? Ao im de
pouco empo, mais não a ia essa ob a que se nos desse oda no seu início do que o
en ado que algumas ozes i ónicas já desmon a am li e a iamen e na ideia
comum de e e nidade (Eça de Quei ós, A pe eição). E que mais pode ia o au o
de um belíssimo Qua uo pou la in du emps do que simplesmen e apela à
pessoal con icção, ine en e à sua p óp ia c ença eligiosa, duma e e nidade que
se sucede á ao im do empo, con icção que pa adoxalmen e exp ime pelos
empo ais meios que lhe o e ece a sua a e? Tal ez não de êssemos con undi o
que, po o ça da busca de caminhos no os pa a a exp essão musical, signi icou o
abandono de cânones secula es de discu si idade musical com p ome eicas
en a i as de ul apassagem de condições que, implicando já o p óp io se ,
inexo a elmen e impendem sob e as o mas de exp essão humana.
A de inição da música como acon ecimen o não nos pe mi e admi i como ob a
musical uma po ção de empo em que nada acon eça, sob pena de e mos de
econhece que alhámos a nossa en a i a de de inição. O es abelecimen o de
qua o minu os e in a e ês segundos (4’, 33’’) de silêncio ale á como ob a
musical an o quan o uma supe ície azia delimi ada po uma moldu a
cons i ui á uma ob a pic ó ica. Ao édio de ali, assumidamen e, nada acon ece
(pode, é e dade, dize -se que alguma coisa semp e acon ece num de e minado
lapso de empo, nem que seja a exp essão incon ida do nosso édio) poupa-nos
uma “segunda e são” (?) da ob a p opos a pelo au o com í ulo mui o mais
“ eduzido” (0’, 00’’)... Como se e i icou no con ex o de di e sos “ismos” que na
his ó ia das a es isuais no século XX se sucede am, de emos conclui que es es
ensaios se salda am an es de mais po susci a em a adical ques ão da essência
da ob a de a e, que dize , daquilo que a a e em de se semp e, sob isco de, ao
ul apassa os seus limi es, deixa e ec i amen e de se ?
* * *
Como nenhuma ou a o ma de a e po en u a, a música az-se, pois, do
empo. Po ém, se nos con en ássemos com uma desc ição da expe iência musical
nos exclusi os e mos que acima u ilizámos, alha íamos em pa e a nossa
en a i a de en endimen o do enómeno que nos p opusemos abo da . Não po que
osse also o que sob e a música oi e e ido, mas po dela da -nos apenas uma
dimensão que, sendo de e minan e, é, de qualque modo, pa cial.
Lemb emos, p imei o, que já a expe iência sono a não é, po na u eza,
a omís ica: ambém na co en e pe cepção audi i a não são elemen os espa sos,
absolu amen e indi idualizados, que consecu i amen e ape cebemos. Escu amos
o mundo, uma pa e dele, em sons simul âneos ou sucessi os a que a pe cepção
em odo o caso dá o ma. Do mesmo modo, é a ob a musical na o alidade que,
Théma a. Re is a de Filoso ía. Núme o 44. 2011
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independen emen e das suas dimensões e ca ac e ís icas, expe ienciamos, e é
essa o alidade que em nós pe manece pa a além da audição. Pa a se mos ieis ao
enómeno nas di e sas dimensões com que ele se nos ap esen a, emos mesmo de
econhece que a expe iência musical não se eduz ao exclusi o momen o da
escu a da ob a, ou ainda menos à ap eensão pa cela dos sons que a azem, à
sequência de sensações que ela de e mina em nós. Se assim osse, pouco dela
chega ia a in e essa -nos, di icilmen e se jus i ica ia o es o ço de a aze .
E éme a, não pode a música sê-lo a esse pon o: p ecisando o que an es oi esc i o,
de e emos al ez p opo que ela não se á, em igo , e éme a, não se pe de
o almen e à medida que, momen o a momen o, se ai azendo. Fazemo-la,
p ocu amo-la, po que ela pe manece em nós, po algo de impo an e que nos
cede.
Exage amos se disse mos que, ao sai mos de um conce o ou eci al, azemos
connosco as ob as escu adas? Di ão alguns que isso só é possí el a i ma
me a o icamen e, p essupondo que não é a me á o a a p óp ia coisa, a ealidade
pa a que eme e, di e ença que não de emos escamo ea . E lemb a ão al ez que
se quise mos usu ui no amen e da ob a musical só nos es a eg essa , num
ou o dia, à sala de conce os. É, e iden emen e, di e sa a nosa elação à ob a
musical enquan o es a é execu ada e, em oda a sua pujança, se nos o e ece
du an e algum empo, de quando apenas a ememo amos, ainda sob o seu
pe inaz ei iço. Mas é isso p ecisamen e que nos ob iga, po mais sensí eis que
ôssemos aos a gumen os a que acabamos de a ende , a admi i que algo subsis e
da expe iência musical a é depois do seu e mo.
En e um ex emo da p opos a da comple a caducidade do momen o e o ou o
da negação do empo como pu a apa ência, de emos al ez, dialec icamen e,
ensaia uma e cei a ia que nos pa ece induzida pela na u eza da expe iência
musical. Aco da emos odos, ob iamen e, em que a ob a acaba quando e mina a
sua execução — quando o can o se cala, quando o che e de o ques a deixa cai
os b aços; mas expe imen amos igualmen e que não se ex ingue en ão o sen ido
da música, que não se es inge o seu alcance ao es i o empo da du ação da
ob a. O que começa com a p óp ia expe iência da música, com a emoção que ela
despe a em nós, não mo e po o ça da ba a inal que na pa i u a a ence a.
Se é e dade que a música não exis e sem o que não é música, ou seja, que não
se en ende o empo o nado música sem a sepa ação do empo que pe manece não
musical (o do quo idiano, o do som não assumido, ou ecusado pelo composi o ),
ambém o é que ela se p ojec a de algum modo no p óp io silêncio em que pa ece
dissol e -se: na ida, que não é música, mas inclui a música. Fei a de empo,
di e sa embo a do empo de que se ez, a ob a musical inunda esse ou o empo
com uma dimensão que ele não em, capacidade que não eclama emos dece o
como apanágio da música, mas ca ac e iza pelo menos as a es di as do empo.
Ou mesmo, nalguns aspec os, oda a o ma de exp essão a ís ica, is o que
a inal, como em ou os ex os emos acen uado, a a e não ale po aquilo que
mime icamen e osse busca à ealidade, mas pelo que gene osamen e lhe
ac escen a, no mínimo pelo que dela ans igu a.