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Estratégias das mulheres dos movimentos de moradia frente à Covid-19 no Brasil e na Argentina

Abstract

As estratégias das mulheres dos movimentos sociais que lutam por moradia na América Latina diante da pandemia da Covid-19 serão investigadas através de entrevistas semiestruturadas com participantes do Movimento Sem Terra Leste 1 (MST-Leste1), em São Paulo, Brasil, e do Movimiento de Ocupantes e Inquilinos (MOI), em Buenos Aires, Argentina. O trabalho reprodutivo e de cuidado, e seu viés de gênero, classe e raça, foram temas de debate durante a pandemia, e a incapacidade do Estado em resolver as demandas e a crescente situação de vulnerabilidade social levaram ao surgimento de numerosas formas de ajuda mútua em territórios populares. Nos conjuntos habitacionais produzidos pela população organizada com base na autogestão, as redes de solidariedade estruturadas por mulheres, que também foram protagonistas na concepção e produção destes espaços, funcionaram de forma sistemática. As entrevistas demonstram o protagonismo das mulheres diante das demandas reprodutivas, destacando que a dimensão política do cuidado coletivizado, a práxis organizativa com base na autogestão dos movimentos populares e a disponibilidade de espaços comuns foram essenciais para enfrentar a pandemia.

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Estratégias das mulheres dos movimentos de moradia frente à Covid-19 no Brasil e na Argentina

Author: Lazarini, Kaya
Publisher: Editorial de la Universidad de Sevilla
Year: 2023
DOI: 10.12795/HabitatySociedad.2023.i16.06
Source: https://idus.us.es/bitstreams/3d770af6-483b-4579-976c-44da8ccd6dca/download
ISSN 2173-125X
Cómo ci a :
Laza ini, Kaya (2023). Es a egias de las muje es de los mo imien os de i iendas en e a la Co id-19 en B asil
y A gen ina. Hábi a y Sociedad, (16), 121-142. h ps://doi.o g/10.12795/Habi a ySociedad.2023.i16.06
Es a égias das mulhe es dos mo imen os
de mo adia en e à Co id-19 no B asil e na
A gen ina
WOMEN ‘STRATEGIES OF HOUSING MOVEMENTS IN FACE OF COVID-19 IN
BRAZIL AND ARGENTINA
ESTRATEGIAS DE LAS MUJERES DE LOS MOVIMIENTOS DE VIVIENDAS
FRENTE A LA COVID-19 EN BRASIL Y ARGENTINA
Kaya Laza ini
FAU USP
kay[email p o ec ed]
0000-0002-3145-9717
Resumo As es a égias das mulhe es dos mo imen os
sociais que lu am po mo adia na Amé ica La ina dian e da
pandemia da Co id-19 se ão in es igadas a a és de
en e is as semies u u adas com pa icipan es do
Mo imen o Sem Te a Les e 1 (MST-Les e1), em São Paulo,
B asil, e do Mo imien o de Ocupan es e Inquilinos (MOI), em
Buenos Ai es, A gen ina. O abalho ep odu i o e de cuidado,
e seu iés de gêne o, classe e aça, o am emas de deba e
du an e a pandemia, e a incapacidade do Es ado em esol e
as demandas e a c escen e si uação de ulne abilidade
social le a am ao su gimen o de nume osas o mas de ajuda
mú ua em e i ó ios popula es. Nos conjun os habi acionais
p oduzidos pela população o ganizada com base na
au oges ão, as edes de solida iedade es u u adas po
mulhe es, que ambém o am p o agonis as na concepção e
p odução des es espaços, unciona am de o ma sis emá ica.
As en e is as demons am o p o agonismo das mulhe es
dian e das demandas ep odu i as, des acando que a
dimensão polí ica do cuidado cole i izado, a p áxis
o ganiza i a com base na au oges ão dos mo imen os
popula es e a disponibilidade de espaços comuns o am
essenciais pa a en en a a pandemia.
Pala as cha e habi ação social, mo imen o popula ,
gêne o, au oges ão, p odução social do habi a , pandemia.
Abs ac The s a egies o women in social mo emen s
igh ing o housing in La in Ame ica in he ace o he
Co id-19 pandemic will be in es iga ed h ough semi-
s uc u ed in e iews wi h pa icipan s om he Mo imen o
Sem Te a Les e 1 (MST-Les e1) in São Paulo, B azil, and he
Mo imien o de Ocupan es e Inquilinos (MOI) in Buenos
Ai es, A gen ina. Rep oduc i e and ca e wo k, and i s
gende , class and ace biases we e a opic o deba e du ing
he pandemic, and he inabili y o he s a e o esol e
demands and he g owing si ua ion o social ulne abili y
led o he eme gence o nume ous o ms o mu ual aid in
popula e i o ies. In he housing es a es p oduced by he
popula ion o ganised on he basis o sel -managemen ,
solida i y ne wo ks s uc u ed by women, who we e also
p o agonis s in he design and p oduc ion o hese spaces,
unc ioned sys ema ically. The in e iews demons a e he
p o agonism o women in he ace o ep oduc i e
demands, highligh ing ha he poli ical dimension o
collec i ised ca e, he o ganisa ional p axis based on sel -
managemen o popula mo emen s, and he a ailabili y
o common spaces we e essen ial o ace he pandemic.
Keywo ds social housing, popula mo emen , gende ,
sel -managemen , housing social p oduc ion, pandemic.
Recibido: 30-09-2022
Acep ado: 12-06-2023
Kaya Laza ini
Hábi a y Sociedad (ISSN 2173-125X), n.º 16, no iemb e de 2023, Uni e sidad de Se illa,
pp.121-142. h ps://doi.o g/10.12795/Habi a ySociedad.2023.i16.06122
Resumen Las es a egias de las muje es de los mo imien os sociales que luchan po la i ienda en
Amé ica La ina en e a la pandemia del Co id-19 se án in es igadas a a és de en e is as semies uc u adas
con pa icipan es del Mo imen o Sem Te a Les e 1 (MST-Les e1) en São Paulo, B asil, y del Mo imien o de
Ocupan es e Inquilinos (MOI) en Buenos Ai es, A gen ina. El abajo ep oduc i o y de cuidados, y sus
sesgos de géne o, clase y aza, ue on emas de deba e du an e la pandemia y la incapacidad del Es ado
pa a esol e las demandas y la c ecien e si uación de ulne abilidad social lle a on al su gimien o de
nume osas o mas de ayuda mu ua en los e i o ios popula es. En las u banizaciones p oducidas po la
población o ganizada sob e la base de la au oges ión unciona on sis emá icamen e edes de solida idad
es uc u adas po muje es, que ambién ue on p o agonis as en el diseño y la p oducción de es os
espacios. Las en e is as demues an el p o agonismo de las muje es en e a las demandas ep oduc i as,
des acando que la dimensión polí ica de los cuidados colec i izados, la p axis o ganiza i a basada en la
au oges ión de los mo imien os popula es y la disponibilidad de espacios comunes ue on esenciales
pa a en en a la pandemia.
Palab as cla e i ienda social, mo imien o popula , géne o, au oges ión, p oducción social del hábi a ,
pandemia.
1. In odução
O obje i o des e a igo é, a pa i de en e is as com mulhe es de mo imen os de
mo adia, discu i suas es a égias de cole i ização do cuidado, au oges ão e uso dos
espaços en e à pandemia de Co id-19. O ex o se o ganiza em qua o pa es, sendo
elas: 1. In odução, 2. Ma e iais e mé odos, 3. Resul ados e 4. Discussões e conclusão.
Nes a In odução, desen ol emos a c í ica à p odução capi alis a do espaço, sua o ma
deso ganizada pa a a ep odução da ida e a ques ão es u u al de gêne o, aça e classe
que engend a es e p ocesso e, simul aneamen e, des acamos os impac os da pandemia
na ida das mulhe es. Em seguida, são ap esen ados os con ex os e os mo imen os de
mo adia que são pa e des e abalho. Nos Ma e iais e mé odos se ão ap esen adas as
di e izes pa a ealização das en e is as. Nos Resul ados as ansc ições das alas das
en e is adas são ag upadas ema icamen e e pe meadas po e lexões que dialogam
com a úl ima pa e, as Discussões e conclusão, onde o deba e en e os con eúdos
das en e is as e a bibliog a ia le a à conclusão de que as ações emp eendidas pelas
mulhe es nos espaços p oduzidos socialmen e, mu i ões e coope a i as o am essenciais
pa a ga an i segu ança e apoio du an e a pandemia.
1.1. O espaço deso ganizado pa a o abalho ep odu i o
A p odução, ci culação, dis ibuição e come cialização de me cado ias são o obje i o
p imei o do modo de p odução capi alis a do espaço, e a lógica ep odu i a da ida ica
necessa iamen e em segundo plano. No âmbi o de suas pesquisas sob e os indicado es
de qualidade dos espaços co idianos, a a qui e a a gen ina Ad iana Ciocole o (2014)
mobiliza as ca ego ias “es e a p odu i a” e “es e a ep odu i a”, sendo que es e a
p odu i a se ia compos a po “ac i idades elacionadas con la p oducción de bienes
y se icios, [...] no malmen e suponen una emune ación”, ou seja, aquela socialmen e
econhecida como “ abalho”, e a es e a ep odu i a como “ac i idades no emune adas
que ealizan las pe sonas de una unidad de con i encia pa a el cuidado de ellas mismas,
[...]. Llamadas ambién ac i idades domés icas, son las elacionadas con p opo ciona
i ienda, nu ición, es ido y cuidado” (Ciocole o, 2014, p.14). Seguindo seu aciocínio,
Es a égias das mulhe es dos mo imen os de mo adia en e à Co id-19 no B asil e na A gen ina
Hábi a y Sociedad (ISSN 2173-125X), n.º 16, no iemb e de 2023, Uni e sidad de Se illa,
pp.121-142. h ps://doi.o g/10.12795/Habi a ySociedad.2023.i16.06 123
é na es e a p odu i a que se encon a a cen alidade da p odução do espaço, cuja
o ganização es á ol ada a se supo e à acumulação de capi al. O espaço, como não é
concebido pa a a ende às demandas da ep odução, o na a ealização co idiana des as
di e sas a e as de cuidado, saúde, educação, e c., espacialmen e deso denada, ilógica,
i acional. Se a ina Amo oso (2020) expõe as dico omias en e as a i idades p odu i as
e ep odu i as no espaço:
P ác icas como las de la zoni icación, la gen i icación y la u is i icación de los cen os
his ó icos han a o ecido el desa ollo de cie as ac i idades (las p oduc i as) en
de imen o de o as (las ep oduc i as), p o ocando la des alo ación y la in isibilización
de és as úl imas y c eando modelos u banos basados en la sepa ación en e luga de
abajo y casa, en e ida pública y ida p i ada, en e quienes nos dedicamos a cuida
y quien cuida. (Amo oso, 2020, p.8).
Concomi an emen e, a an opóloga Alana Mo aes (2018) comp eende a classe
abalhado a como a “classe que cuida”, sendo as mulhe es neg as aquelas que
ocupam a maio pa e dos abalhos o mais e in o mais em a i idades de cuidado.
Nes e sen ido, as mulhe es, sob e udo as cuidado as e che es de amília, acabam
so endo mais pela ausência de in aes u u a u bana e de se iços, p incipalmen e as
mo ado as das pe i e ias. Como são elas as esponsá eis pela manu enção básica da
amília (alimen ação, saúde, educação, en e ou os) são ambém mais dependen es e
usuá ias de se iços públicos como c eches e pos os de saúde. Es es equipamen os as
libe am do cuidado em empo in eg al, possibili ando a ealização de ou as a i idades,
como o abalho emune ado e os es udos. Co obo ando com o a gumen o de que
as mulhe es ealizam mais a e as dia iamen e, Haydée S ab (2016) des aca que elas
pe co em maio es deslocamen os diá ios e, além de se em maio ia en e os usuá ios
de anspo e público, ambém ealizam mais deslocamen os a pé do que homens.
Assim, podemos a i ma que são as mulhe es pob es e mo ado as das pe i e ias as
mais p ejudicadas pela p odução capi alis a do espaço u bano.
Ao mesmo empo, as mulhe es são as mais a e adas pela ques ão habi acional e
pela despossessão. Segundo dados do Censo Ru al de 2000, 89% dos p op ie á ios de
e a são homens (Dee e e Léon, 2003, p.108). No caso das á eas u banas, a posse legal
da e a alcança somen e 30% das á eas habi adas nos países em desen ol imen o, e
apenas 3% pe encem às mulhe es (GLTN, 2010 in Za ias e al., 2012). Embo a enham
su gido, ecen emen e, polí icas públicas de i ulação da unidade habi acional em nome
da mulhe , en en a es a ealidade, que pe pe ua si uações de iolência, exigi ia uma
sé ie de medidas combinadas:
Pa a além das dimensões cul u ais, psíquicas e polí icas da ques ão, a “casa” não é
apenas o cená io, mas, mui as ezes, um p o agonis a essencial des e en edo ágico:
mui as mulhe es não conseguem pô um im na elação com o ag esso simplesmen e
po não e p a onde i com seus ilhos. (Rolnik, 2011, p.1).
Assim, despossessão e demanda habi acional es ão in insecamen e conec ados
com a iolência de gêne o. E es e aspec o oi ampli icado pela pandemia de Co id-19.
Kaya Laza ini
Hábi a y Sociedad (ISSN 2173-125X), n.º 16, no iemb e de 2023, Uni e sidad de Se illa,
pp.121-142. h ps://doi.o g/10.12795/Habi a ySociedad.2023.i16.06124
1.2. Alguns dos impac os da pandemia sob e as mulhe es
No B asil, desde o início da qua en ena, a Ou ido ia Nacional de Di ei os Humanos (ONDH),
do Minis é io da Mulhe , da Família e dos Di ei os Humanos (MMFDH, 2021), egis ou
mais de 105 mil denúncias de iolência con a mulhe . Fo am 13 mil denúncias a mais
que em 2019, um aumen o de ce ca de 15%. Na A gen ina, de aco do com o Minis é io da
Mulhe , Gêne o e Di e sidade (MMGD, 2021) o am egis adas mais de 108 mil denúncias
ealizadas pela linha 144, especí ica pa a iolência con a a mulhe , em 2020. O cole i o
eminis a Ni Una Menos, em aliança com o sindica o de Inquilinxs Ag upadxs, demons ou
a sob eposição da c ise habi acional com o aumen o da iolência de gêne o dian e do
slogan #Queda eEnCasa (#FiqueEmCasa), p oblema izando que “a casa não pode se um
luga de iolência machis a nem de especulação imobiliá ia” (Ca alle o e Gago, 2020).
Em pa alelo, di e sos es udos demons a am que as mulhe es o am mais a e adas
pela pandemia, sob e udo as acializadas e das classes sociais des a o ecidas, e os
mo i os são a iados. Viei a e al. (2022) des aca que “a linha de en e no comba e à
Co id-19 [é] majo i a iamen e emininae a á ea da saúde compos a, p edominan emen e,
po mulhe es, po an o a pandemia as a e a de manei a desigual”. No mesmo sen ido,
Reis e al. (2021) demons a am a pa i da e isão da li e a u a os po enciais impac os
da pandemia na a enção à saúde sexual e ep odu i a das mulhe es, bem como a
si uação de ‘eme gência den o da eme gência’ em elação à iolência domés ica e de
gêne o du an e a pandemia. O abalho apon ou que cuida em empos de Co id-19
a e ou a saúde das mulhe es, sob e udo acializadas e de baixa enda.
As mulhe es b asilei as, que já abalha am em a aze es domés icos em média 8
ho as/semana a mais que os homens, passa am com o isolamen o social a e es e
abalho duplicado (Ab eu e al., 2020). Já em elação ao abalho emune ado, Pinhei o
e Vasconcelos (2021) egis a am que du an e a pandemia a ulne abilidade das
abalhado as domés icas aumen ou. Tan o no que diz espei o à desp o eção social,
com o aumen o da in o malidade e a negação de di ei os abalhis as e p e idenciá ios,
quan o no que se e e e à iolação sis emá ica de di ei os undamen ais das abalhado as
domés icas. Nisida e Ca alcan e (2020) demons a am com dados sob e óbi os po
Co id-19 uma maio mo alidade de pessoas neg as, mos ando que a pandemia ope a
como um a o ag a an e na ep odução das desigualdades e das condições sociais
impos as à população neg a.
Re lexões sob e a in e seccionalidade en e gêne o, aça e classe podem auxilia na
comp eensão e sepa ação das di e sas camadas de op essão a que es ão subme idas
pa e da população. Es ela e al. (2020) analisa de que o ma as medidas sani á ias
p o e i as da pandemia impac a am as mulhe es, sob e udo acializadas e de baixa
enda, que êm menos acesso aos cuidados de saúde e acabam endo que escolhe
en e ica em casa e passa ome ou co e os iscos do descump imen o ao isolamen o
pa a o sus en o de si e da amília. Em abalho ecen e (Helene e al., 2021), abo dam a
in e secção en e gêne o, aça e classe no es abelecimen o de zonas de sac i ício da
Es a égias das mulhe es dos mo imen os de mo adia en e à Co id-19 no B asil e na A gen ina
Hábi a y Sociedad (ISSN 2173-125X), n.º 16, no iemb e de 2023, Uni e sidad de Se illa,
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Co id-191, e a c ise na ges ão dos cuidados e da ep odução da ida, oco ida du an e a
pandemia. Ao mesmo empo, des acamos a impo ância das p á icas dos mo imen os
de mo adia pa a epensa as cidades, na qual as mulhe es êm um papel cen al.
Nes a di eção, pesquisas apon a am como o ganizações sociais o am undamen ais
no comba e à desigualdade du an e a pandemia (Ca alho e al. 2022; San os e al. 2022;
Leal e F ança Filho, 2020; Mendonça e al. 2020), e elando que os mo imen os popula es
com sua p á ica o ganiza i a au oge i am inúme as inicia i as de cuidado e apoio, como a
con a ação de ambulâncias p óp ias, a cons ução de cozinhas cole i as ou a dis ibuição
de ces as básicas, alimen os pe ecí eis, p odu os de higiene e p o eção indi idual.
1.3. A p odução espacial po dois mo imen os sociais
A segui ap esen a emos b e emen e os dois mo imen os sociais de lu a po mo adia,
a sabe , o Mo imen o Sem Te a Les e 1, localizado na cidade de São Paulo2, B asil, e o
Mo imen o de Ocupan es e Inquilinos, com sede na cidade de Buenos Ai es3, A gen ina,
que são o ganizações sociais polí icas com a inalidade de ag upa pessoas que enham
a demanda habi acional e p oduzi o espaço sob a lógica do uso, e não da oca. Nes es
mo imen os, as mulhe es são maio ia en e lide anças e base e ela a am como
en en a am a pandemia cole i amen e.
1.3.1. O Mo imen o Sem Te a Les e 1, em São Paulo, B asil
A década de 1980 no B asil oi ma cada pelo p ocesso de edemoc a ização, con ex o no
qual obse am-se uma sé ie de oco ências, den e as quais a o mação do Pa ido dos
T abalhado es (PT), a pa icipação a i a das Comunidades Eclesiais de Base nas pe i e ias
das g andes cidades, o c escimen o de o ganizações sindicais, o su gimen os de mo imen os
popula es, como o Mo imen o dos T abalhado es Sem Te a (MST), além do o alecimen o
das ei indicações po di ei os sociais, pa icipação popula e eleições di e as.
Em 1989, na cidade de São Paulo, é elei a a P e ei a Luiza E undina, do ecém c iado
Pa ido dos T abalhado es (PT), que implemen a uma polí ica pública habi acional de
cons ução po mu i ão e au oges ão - o p og ama FUNAPS Comuni á io -, e es imula
o su gimen o e consolidação de mui os mo imen os de mo adia e assesso ias
écnicas. O esul ado des a polí ica oi a cons ução, en e 1989 e 1992, no ma co
des e p og ama, de mais de 10 mil unidades habi acionais (Rod igues, 2006, p.45). Os
mu i ões au oge idos são uma o ma especí ica de p odução do habi a que combina
1. Zona de sac i ício é um e mo c iado pelos mo imen os sociais ambien ais pa a designa e i ó ios
onde se sob epõe injus iças ambien ais e o mas di e sas de exp op iação, onde no malmen e habi am
populações de baixa enda e acializadas.
2. Segundo dados do IBGE (2021), o Município de São Paulo possui população es imada em 12,4 milhões
de habi an es, e o dé ici habi acional o a es imado em 1,4 milhões de mo adias.
3. Segundo dados do INDEC (2023) a Cidade Au ônoma de Buenos Ai es possui pouco mais de 3 milhões
de habi an es e um dé ici habi acional es imado em 500 mil mo adias.

Kaya Laza ini
Hábi a y Sociedad (ISSN 2173-125X), n.º 16, no iemb e de 2023, Uni e sidad de Se illa,
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a a uação di e a da sociedade ci il, a a és de um mo imen o social, com o acesso a
ecu sos, a a és de uma polí ica pública. Em pa ce ia com uma assesso ia écnica,
amílias em si uação de ulne abilidade habi acional elabo am e execu am seus
p óp ios p oje os, po meio de p incípios como a au oges ão e a ajuda mú ua, em
expe iências o emen e in luenciadas pela Fede ación U uguaya de Coope a i as de
Vi ienda po Ajuda Mu ua (Fuc am).
O Mo imen o dos T abalhado es Sem Te a Les e 1 oi c iado em 1987 com o obje i o
de ga an i o di ei o a e a e mo adia às amílias de baixa enda de pa e da Zona Les e
de São Paulo. A ualmen e é o mado po 32 g upos de o igem, ce ca de 3 mil amílias,
e pelos mu i ões cons uídos nos quase 30 anos de exis ência, ab igando quase 4500
amílias. En e os p oje os habi acionais ealizados em pa ce ia com a assesso ia
écnica Usina4, des acam-se os mu i ões na Fazenda da Ju a: 26 de Julho ( ig.1), União
da Ju a ( ig.2) e Ju a No a Espe ança ( ig.3); o Mu i ão Paulo F ei e ( ig.4), ealizado
in ei amen e em es u u a me álica e, mais ecen emen e, inculados ao P og ama
Minha Casa, Minha Vida, os mu i ões do Pa que São Ra ael ( ig.5) (Do o hy S ang, Ma in
Lu he King e Je ônimo Al es), e ao p og ama habi acional municipal “Pode En a ”, o
Mu i ão Ca olina Ma ia de Jesus ( ig.6), localizado na egião cen al de São Paulo.
1.3.2. O Mo imen o de Ocupan es e Inquilinos, em Buenos Ai es,
A gen ina
Desde a década de 1970, e mais in ensamen e en e 1980 e 1990, di e sos países la ino-
ame icanos ade i am às e o mas es u u ais p opos as pelo Consenso de Washing on5 e
4. A Usina – Cen o de T abalhos pa a o Ambien e Habi ado, assesso ia écnica de São Paulo, B asil, a ua
jun o aos mo imen os sociais na p odução do habi a po au oges ão, o ganização da qual sou associada
desde 2010, a uando como a qui e a e u banis a.
5. O Consenso de Washing on oi um conjun o de medidas econômicas implemen adas nos países da
Figu as 1 a 6
Da esque da pa a di ei a
de cima pa a baixo,
o og a ias dos Mu i ões:
26 de Julho, União da Ju a,
Ju a No a Espe ança,
Paulo F ei e, Je ônimo
Al es e Ca olina Ma ia de
Jesus, pe encen es ao
MST Les e 1, São Paulo,
B asil. Fo os: Usina CTAH.
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implan a am medidas que muda am suas polí icas econômicas locais. A A gen ina oi um
caso pa adigmá ico, pois no deco e da década de 90 a sociedade passou po mudanças
p o undas de ido à c ise econômica ge ada pelas e o mas neolibe ais implemen adas
pelo p esiden e Ca los Menem. Po um lado, con igu ou-se uma sociedade empob ecida,
impossibili ada de acessa se iços básicos, que ha iam sido p i a izados. Po ou o, a
c ise, que alcançou seu ápice em 2001, p oduzia no os a o es sociais: os mo imen os sociais
u banos que lu a am con a as medidas de aus e idade que espolia am a população.
Em dezemb o de 2001, en e as e ol as e os pique es que ocupa am as uas, um
a o ma cou as o ganizações sociais de lu a po mo adia: naquele mês se deu a p imei a
comp a de um imó el na cidade de Buenos Ai es pelos se o es popula es o ganizados,
no ma co no ma i o municipal da Lei 341. O Mo imen o de Ocupan es e Inquilinos (MOI),
que su ge em 1991 como Associação Ci il, oi um dos sujei os decisi os na o mulação e
p odução da Lei 341 e do P og ama de Au oges ión pa a la Vi ienda (PAV) (Laza ini, 2014,
p.23), além de ambém e sido o emen e in luenciado pela Fuc am.
O MOI inicia sua a uação em ocupações já es abelecidas na á ea cen al da cidade
de Buenos Ai es. As p imei as são em San Telmo e Pue o Made o, que de am o igem
( espec i amen e) às coope a i as Pe u ( ig.8) e La Unión ( ig.10). Em San Telmo localiza-se
ambém o P og ama de Vi ienda T ansi ó ia (PVT) ( ig.7), onde amílias das coope a i as
mo am enquan o as ob as são concluídas. Também compõe o mo imen o as Coope a i as
Al a y Omega, Ya ay, La Fáb ica ( ig.9), El Molino ( ig.11), en e ou as, na cidade de Buenos
Ai es, ab igando mais de 250 amílias, além de coope a i as em o mação e p oje os em
cons ução em ou os locais da A gen ina, como San a Fé, Rosá io, Tie a del Fuego, com
o obje i o de nacionaliza o mo imen o. Es á p esen e ambém na Coope a i a El Molino
uma c eche ( ig.12), equipamen o social con eniado com o pode público.
Amé ica La ina, de cunho neolibe al, que de ende a p i a ização das indús ias nacionais e a abe u a da
economia ao me cado ex e no.
Figu as 7 a 12
Da esque da pa a di ei a
de cima pa a baixo,
o og a ias dos seguin es
p oje os: PVT, Coope a i as
Pe u, La Fab ica, La Unión,
El Molino, e achada da
c eche em El Molino, odos
pe encen es ao MOI,
Buenos Ai es, A gen ina.
Fo os p óp ias.
Kaya Laza ini
Hábi a y Sociedad (ISSN 2173-125X), n.º 16, no iemb e de 2023, Uni e sidad de Se illa,
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2. Ma e iais e mé odos
Me odologicamen e, desen ol eu-se uma abo dagem quali a i a, a pa i de en e is as
ealizadas pa a es e abalho, complemen adas po esul ados de pesquisas e
expe iências an e io es, sob e udo o abalho de campo oco ido na A gen ina na
ocasião da in es igação de mes ado (2013) e a expe iência como assesso a écnica
no B asil (2010-a ual). Pa a es e a igo, o am ealizadas en e is as semies u u adas
com mulhe es dos dois mo imen os sociais de lu a po mo adia ap esen ados. Os
c i é ios pa a a seleção das pa icipan es o am: (a) que se au o iden i icassem como
mulhe es abalhado as; (b) com esponsabilidades mili an es jun o ao mo imen o; (c)
com pa icipação a i a du an e a pandemia; (d) de a iadas coope a i as ou mu i ões;
e, po im, (e) com a iedade de empo no mo imen o. É impo an e salien a que em
ambos os g upos a p esença das mulhe es é de ampla maio ia em elação aos homens.
Na Les e1 o am en e is adas ep esen an es de 2 mu i ões, sendo que ambas azem
pa e da coo denação: Mu i ão José Ma ia Ama al (que ab iga 198 amílias) e Mu i ão
Ca olina Ma ia de Jesus (que ab iga á 227 amílias); além de uma coo denado a ge al do
Mo imen o Sem Te a-Les e 1, que não pe ence a um mu i ão especí ico, mas abalha
com as amílias dos g upos de o igem e mu i ões (ce ca de 3 mil).
No MOI o am en e is adas ep esen an es, que ambém são pa e das coo denações,
de 3 coope a i as: La Unión (que ab iga 34 amílias), La Fab ica (ab iga 50 amílias) e Al a
y Ômega (ainda não em p oje o), sendo que uma delas mo a no PVT (com ce ca de 40
amílias). Todas as en e is adas são mulhe es che es de amília, quase odas são mães
e/ou a ós e a me ade é neg a ou de ou as e nias.
En e os dias 10 e 16 de e e ei o de 2023 o am ealizadas as en e is as com 6
mulhe es. Fo am man idas as coope a i as ou mu i ões a que pe encem e o empo,
po ém o am esgua dadas as iden idades sup imindo nome e sob enome:
• P.G., Coope a i a Al a y Omega, PVT, MOI, no mo imen o há 12 anos.
• S.F., Coope a i a La Fáb ica, MOI, no mo imen o há 23 anos.
• K.R., Coope a i a La Unión, MOI, no mo imen o há 33 anos.
• S.K., Mu i ão Ca olina Ma ia de Jesus, Les e 1, no mo imen o há 7 anos.
• P.N., Mu i ão José Ma ia Ama al, Les e 1, no mo imen o há 12 anos.
• E.R., coo denado a da União dos Mo imen os de Mo adia (UMM/SP), apoio aos
mu i ões, Les e 1, no mo imen o há 35 anos.
As en e is as ealizadas com as mulhe es a gen inas oco e am emo amen e,
a a és de uma pla a o ma de euniões pela in e ne . Já as mulhe es b asilei as o am
en e is adas p esencialmen e, no espaço comuni á io do Mu i ão Ca olina Ma ia de
Jesus, em São Paulo, B asil. As pe gun as que guia am a con e sa o am di ididas em 4
eixos, sendo os 2 p imei os de ca á e diagnós ico, pa a comp eende , em linhas ge ais,
como a pandemia a e ou as suas idas e das comunidades/coope a i as/mu i ões que
Es a égias das mulhe es dos mo imen os de mo adia en e à Co id-19 no B asil e na A gen ina
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pe encem; e os 2 seguin es elacionados com as es a égias de cuidado o ganizadas e
pos as em ação ao longo da pandemia, sendo um desses eixos, exclusi o sob e o ema
do espaço.
3. Resul ados
Não en ende o que es á acon ecendo. Quan o empo demo a ia. Quais e am os eais
iscos. (S.K., Les e 1).
Com a inalidade de delinea um possí el diagnós ico de como a pandemia ha ia
a e ado a ida das mulhe es, o p imei o bloco de pe gun as da en e is a e sa a sob e
es e ema - os impac os da pandemia na ida das en e is adas. Elas o am consonan es
ao decla a em e em sido ex emamen e a e adas pela pandemia, p imei amen e pela
o ina de con inamen o e pelo medo, mas que apidamen e se o nou ação em inúme as
a i idades de cuidado que ealiza am pa a supe a a c ise. Como as en e is adas em
o pe il de se em a i as em suas a e as ‘ o a de casa’, inculadas ao mo imen o, o
con inamen o deu luga à ealização de a i idades de cuidado e o medo deu luga às
inicia i as de cole i ização do cuidado:
Em casa eu inha duas pessoas com como bidade, minha mãe idosa com 80 anos e o
companhei o com diabe es. En ão eu inha mais medo po eles do que po mim – e isso
acaba ajudando ocê a se desp eocupa , ou melho , não ica ão pa anoica po que em
de quem cuida . (E.R., Les e 1).
Ao mesmo empo que es a com pessoas ulne á eis e se suas cuidado as pode ia
aca e a um ní el maio de ansiedade em elação à pandemia, ambém as libe a am
de p eocupa -se an o consigo mesmas, ou ainda, ga an iam um ce o sen ido em meio
à an a ince eza, uma ez que de e iam segui cuidando, independen e do medo.
En e as en e is adas, odas decla a am e ido Co id-19 e nenhuma delas necessi ou
in e nação hospi ala .
3.1 A dimensão polí ica do cuidado
Em elação à ques ão de gêne o e o cuidado, o papel das mulhe es oi des acado e
p oblema izado ou jus i icado pelas en e is adas em di e sos momen os de seus
ela os, demons ando aspec os a e i os e de solida iedade en e o g upo:
Se inha homens? Olha, na ho a de desca ega as ces as do caminhão e am poucos,
iu? E am as mulhe es que desca ega am. É o e úgio das mulhe es, é o olha p aquela
que não se coloca a. Foi bem aquilo: ninguém sol a a mão de ninguém. (P.N., Les e 1).
His o icamen e a mulhe cuida, en ão p a nós oi au omá ico se p eocupa com o
isolamen o, com quem es a a com ome. Na Les e 1 a maio ia de nós somos mulhe es.
A g ande maio ia das nossas lide anças, que i e am que oma a en e, deixa am seus
p oblemas no can o – como a gen e semp e az - e se dedica am a um p oblema bem
maio . É o bem comum nosso, cuida de uma cole i idade. Eu i mui o, como semp e,
Kaya Laza ini
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sé, en gen e que i ía en su depa amen o. Tu imos un mes, un p ime o momen o que
ue bas an e más denso. Pe o después lo que sucedía e a que los niños salían, andaban
po el luga , y más, mi nie a que no i e conmigo, mi nie a enia pa a acá, po que e a un
luga donde podía mínimamen e es a . El espacio p opo cionó es o. (S.F., MOI).
Ainda sob e os espaços comuns, K.R. ela a que na Coope a i a La Union, em unção
da exis ência de um pá io cen al abe o ( ig.10), passa am a ealiza as euniões nes e
espaço, com másca as. Dessa manei a, segundo sua obse ação, as euniões que an es
oco iam em espaços echados, ao passa pa a o espaço abe o, acaba am a aindo a
a enção de no os pa icipan es.
Sob e os espaços do in e io da unidade habi acional, as en e is adas demons a am
que não o am ealizadas mudanças nas casas ou apa amen os em mu i ões e
coope a i as. Elas a i ma am que, de ido à casa possui dimensões adequadas, não
oi necessá io ealiza adap ações, isola ambien es ou ou as medidas de segu ança
du an e a pandemia.
Em elação à izinhança, S.F. ela a que além do desenho do edi ício, ambém a
posição das janelas, ol adas pa a o pá io, colabo a am pa a que ela se sen isse segu a:
Yo engo la en ana, que da el pa io, no engo co ina, en ninguna en ana engo
co ina, es una decisión. Y me enían, me golpeaban ‘necesi as algo, ¿se sen ís bien?’.
Hubo gen e acá que no plan eaba así. (S.F., MOI).
Figu as 13 a 18:
Acima, Coope a i a La
Fab ica, em Buenos Ai es,
e seus espaços comuns;
abaixo, dis ibuição de
alimen os no Mu i ão
Je onimo Al es, no Pq. São
Ra ael, em São Paulo. Ao
cen o pode-se obse a
as abóbodas ci adas pela
en e is ada. Fon e: MOI/
CTAA; MST Les e 1.

Es a égias das mulhe es dos mo imen os de mo adia en e à Co id-19 no B asil e na A gen ina
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Po im, uma obse ação sob e o papel das a andas ou quin ais (pá io), des acando
a impo ância de que cada unidade habi acional enha seu espaço pa icula abe o,
com sol, ‘den o de casa’, que pode se pequeno, mas que não é subs i uído pelo
espaço comum:
C eo que una de las cosas a qui ec ónicas que son piolas ienen que e con que
cada uno enga pa io. Es e ai e pa icula es bien impo an e. El espacio común es
bá ba o, aho a es e espacio pequeño, y que es é conec ado con a ue a ambién, es
muy impo an e. (S.F., MOI).
4. Discussão dos esul ados à luz da bibliog a ia
Do mesmo modo que a pandemia de Co id-19 ecolocou a impo ância dos abalhos
de cuidado e limpeza ao uncionamen o da sociedade, expôs de manei a pe e sa a
sua in isibilidade colonialis a, ma cada es u u almen e po ques ões de gêne o, aça
e classe social, o nando isí el a di isão p o unda exis en e na sociedade en e idas
p o egidas e idas ulne á eis, já que mui as pessoas não pude am ica em casa pois
seus abalhos não o am in e ompidos, como lixei os, en egado es, p o issionais da
saúde, en e ou os (Ve gès, 2020, pp 17-21). As en e is as ealizadas com as mulhe es
pe encen es aos mo imen os sociais de lu a po mo adia demons a am que a lógica
da o ganização social colabo ou sob emanei a pa a isibiliza o cuidado, an o sua
necessidade quan o o abalho de cuida , bem como apoia as pessoas que não pude am
in e ompe seus abalhos.
Os mo imen os sociais cujo obje i o é a p odução po au oges ão dos conjun os
habi acionais com ecu sos públicos, êm como p essupos o a au o-o ganização popula .
Rei indicam a escolha da e a, a elabo ação do p oje o jun o a uma assesso ia écnica
p óp ia e p og amas públicos onde possam au oge i os ecu sos es a ais. O p ocesso
de p odução da mo adia cump e papel cen al na o mação da iden idade cole i a
e o can ei o de ob as é uma espécie de labo a ó io (polí ico e social, com limi es e
con adições) onde á ias o mas de elações sociais são expe ienciadas. Tan o no B asil
quan o na A gen ina, as ocupações de e as e edi ícios p omo idas po mo imen os
popula es são p edominan emen e ealizadas po mulhe es. É signi ica i o que sejam
elas a maio ia da base do mo imen o, bem como sua linha de en e, de modo que
o ganizam e coo denam os g upos, cons i uindo-se como lide anças e e e ências6.
As en e is as demons a am que o mo imen o em a uação pe manen e na dimensão do
cuidado, já que du an e a pandemia inúme as edes de a enção e a e o o am ecidas, an o
i ualmen e - p incipalmen e po meio do celula e do compu ado -, quan o p esencialmen e
- nos momen os de en ega das ces as básicas e comidas pe ecí eis. A dimensão da p áxis
6. Com base em nossa expe iência como assesso a écnica aos mo imen os de lu a po mo adia no
B asil, bem como a ealização de in es igação de mes ado jun o ao Mo imen o de Ocupan es e Inquilinos,
es imamos que ce ca de 80% dos pa icipan es dos mo imen os sociais de lu a po mo adia ci ados – MST
Les e 1 e MOI - sejam mulhe es.
Kaya Laza ini
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da o ganização au oges ioná ia, de solida iedade, ajuda mú ua e diálogo pe manen e, ez
com que o mo imen o popula cump isse um papel de acompanhamen o social du an e a
pandemia e o am as mulhe es as esponsá eis po essa p á ica.
A dimensão polí ica da cole i ização do cuidado es á p esen e na sua comp eensão
como p incípio da ep odução da ida, que em como qualidade p incipal o uso (mesmo
que as ezes possua alo de oca). Foi des acado o aspec o de gêne o elacionado ao
cuidado e a impo ância do cuidado pa a e- ece as elações, o alecendo o g upo.
A pe spec i a eco eminis a7 ap esen a a necessidade de uma no a cosmologia, que
econhece que a ida na na u eza (incluindo os se es humanos) man ém-se po meio
da coope ação, cuidado e amo mú uos. Somen e des e modo es a emos habili ados a
espei a e a p ese a a di e sidade de odas as o mas de ida, bem como das suas
exp essões cul u ais, como on es e dadei as do nosso bem es a e elicidade. Pa a
alcança es e im, as eco eminis as u ilizam me á o as como “ e- ece o mundo”, “cu a
as e idas”, eliga e in e liga a “ eia” (Mies e Shi a, 1993, p.15).
Do pon o de is a da dimensão da p áxis au oges ioná ia, e na con amão do que
apon a Pinhei o e Vasconcelos do aumen o da ulne abilidade, pode íamos a i ma que,
de aco do com as en e is adas, o mo imen o popula se iu jus amen e pa a eduzi
esse isco. A dis ibuição de alimen os, po exemplo, oi de e minan e pa a ga an i a
segu ança alimen a das amílias pe encen es aos g upos.
Ainda con o me os ela os, as edes se expandi am pa a inicia i as de pa ce ia com
ou os mo imen os sociais, com ins i uições inculadas ao pode público como P e ei u as,
e as en e is adas des aca am a impo ância da o ganização e das ações dos mo imen os
sociais ambém na ges ão da cidade. Nes e sen ido, a pandemia ao mesmo empo expôs os
limi es e desa ios das ges ões públicas e a o ça, ab angência e po ência dos mo imen os
sociais u banos e u ais na au oges ão do espaço. Sil ia Fede ici (2020) colabo a com a
comp eensão da necessidade de assumi cole i amen e o con ole das idas.
Hoje não é Es ado sim ou não. É cla o que emos a necessidade de usa es u u as que
p o êm das ins i uições, po que não emos al e na i a. Uma al e na i a é começa a
e le i cole i amen e sob e o que p ecisamos, sob e nossa saúde, sob e alimen os, sob e
o e i ó io, sob e odas as si uações que a e am nossas idas. Enquan o isso, amos
ans o ma a ag icul u a e a saúde, c ia o mas de con ole cole i o. (Fede ici, 2020, p.3)
Em elação aos espaços p oduzidos socialmen e e seu papel du an e a pandemia,
icou e iden e a impo ância de p e e nos p oje os a qui e ônicos e u banís icos
e assegu a a cons ução de á eas li es, pá ios in e nos, á eas comuns e cole i as,
a ejadas e amplas, compa ilhadas po odos e/ou de acesso amilia . A a iedade
desses espaços é a solução mais indicada, ao in és da escolha de uma o ma.
7. O Eco eminismo é uma eo ia c í ica e ilosó ica pa a in e p e a o mundo e ans o ma-lo. Alia a
p á ica polí ica do eminismo com a ecologia, denunciando an o o pa ia cado quan o a explo ação do
homem em elação à na u eza. Au o as como Vandana Shi a, Ma ia Mies, Yayo He e o e Ma a Pascuale
em desen ol ido o deba e em o no des e po en e concei o.
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Nos p oje os desen ol idos an o pela Les e 1 em pa ce ia com a Usina – CTAH, quan o
pela equipe écnica do MOI, a concepção a qui e ônica dos conjun os, bai os, edi icações
e casas/apa amen os, con a com a pa icipação de e minan e das mulhe es, sendo elas
que le an am as ques ões inculadas ao abalho ep odu i o que o ien am as soluções
de desenho u bano e a qui e ônico ado adas. Nos deba es sob e os espaços cole i os
e de uso comum, as pa icipan es p opõem múl iplas escalas, po ezes semipúblicas,
onde elas possam obse a , ainda que de den o de suas casas, um g upo de c ianças
b incando, po ezes espaços semip i ados, onde um conjun o de casas apenas enha
acesso. Algumas soluções de p oje o, como a a iedade de espaços de laze espalhados
pelos conjun os, em escalas ambém a iadas, mas semp e ao alcance do olha cole i o,
assim como a andas e espaços de ansição en e o público e o p i ado, como os halls
das escadas, ambém são ampliados, ala gados, de manei a a c ia luga es semip i ados,
compa ilhados en e as amílias de cada anda . Desse modo, o desenho busca ab iga
de manei a adequada o espaço co idiano, do cuidado diá io e do con o o com a
p oximidade da izinhança, espaço es e que se con apõe com o ex ao diná io da isi a
ao pa que público do laze espo ádico (Gue ei o e Laza ini, 2015).
Vale des aca que du an e as en e is as su gi am comen á ios sob e o espaço
p oduzido socialmen e es a mais adequado às demandas da pandemia do que um
p édio ou conjun o habi acional p oduzido como me cado ia. Os espaços comuns na
Coope a i a La Fab ica, po exemplo, o am undamen ais pa a que a izinhança pudesse
man e uma o ina saudá el de con í io, assegu ado pela ampli ude dos pá ios que
ci culam a edi icação.
Ao pe gun a sob e possí eis mudanças den o das unidades habi acionais, as
en e is adas a i ma am que os espaços p i ados es a am adequados, pelo amanho
e disposição dos ambien es, à pandemia. Nes e sen ido, ale des aca que nos p oje os
pa icipa i os os espaços domés icos são u o de incansá eis ensaios sob e a disposição
dos ambien es, sendo a cozinha o espaço da mo adia mais deba ido. Algumas ezes
in eg ada à sala pa a socialização das a e as ligadas à alimen ação da amília, ou as ezes
ese ada po pa ede e po a pa a ga an i a p i acidade, mas in a ia elmen e alçada a
p incipal espaço da casa. Ou as ques ões podem se des acadas das discussões do p oje o
da casa que es ão elacionadas à p eocupação com a ep odução e com a qualidade de
uso, como a la ande ia que de e se ampla, iluminada e a ejada, ou a possibilidade de que
um dos do mi ó ios seja maio que o ou o, de manei a que o maio ique com os ilhos.
Nes e sen ido, uma das en e is adas des acou a impo ância dos ‘pa ios’ indi iduais,
ga an indo que cada unidade habi acional enha seu espaço de sol e espi o.
Em elação à u ilização dos espaços comuns nas coope a i as e mu i ão pa a ealiza
as a i idades de cuidado, a socióloga a gen ina Ma ia Ca la Rod iguez, p o esso a,
pesquisado a e mili an e do MOI, u iliza o e mo “p odução au oges ioná ia de
comuns u banos” pa a comp eende as ações emp eendidas pelos mo imen os. Os
“comuns u banos”, de aco do com Amanda Hu on (2018), se cons i uem a pa i de ês
ca ac e ís icas: a exis ência de um ecu so, de uma comunidade que se sus en e com es e
ecu so e de um conjun o de ins i uições c iadas po essa comunidade pa a sua ges ão.
Kaya Laza ini
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Assim, os comuns u banos uncionam pa a ga an i o sus en o de uma comunidade.
Se iam a dis ibuição de alimen os ealizada no salão do PVT ou a dis ibuição de ces as
básicas nas abóbodas do São Ra ael a p odução au oges ioná ia de comuns u banos?
Pode íamos imagina ou a o ma de ges ão e i o ial u bana, na qual as o ganizações
sociais i essem o p o agonismo sob e o espaço que ocupam e legi imidade pa a p opo
polí icas, além de ga an ia de ecu sos pa a as ações e polí icas sociais. A pandemia
e elou a po ência que os mo imen os sociais e i o iais ca egam enquan o sujei os
que, na p á ica, es ão ealizando expe iências conc e as de au oges ão da cidade.
Concluímos que as es a égias espaciais das mulhe es dos mo imen os popula es de
lu a po mo adia an o no B asil quan o na A gen ina obedece am a lógicas cole i is as,
solidá ias, comuni á ias e, mui as ezes, desme can ilizadas. Também pe cebemos,
de o ma co ela a, que an o o se o o ganiza i o dos mo imen os sociais popula es,
quan o as mulhe es pa icipan es des es mo imen os, o am sujei os undamen ais e
i e am papeis de e minan es no con ex o da pandemia.
Po im, se du an e a pandemia, p ema u amen e, espe ançamos mudanças
p o undas no con ex o do capi alismo global, que acaba am po não oco e , ao olha
essas expe iências ensaiamos a u opia de e i ó ios in ei amen e au oge idos po
seus mo ado es, obedecendo à lógica da ges ão em di e sas escalas, ga an ido a da
pa icipação e e i a de ep esen an es de quad a, de bai o, egiões adminis a i as e
cidades, e omando o po encial emancipa ó io das p á icas au oges ioná ias e i o iais.
Ag adeço à Fapesp pela bolsa de mes ado (P ocesso Nº 2012/04083-5) e à CAPES pela
bolsa de dou o ado (P ocesso Nº 88887.663634/2022-00), bem como aos pa ece is as do
pe iódico Hábi a y Sociedad pelas suges ões.
Re e ências
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