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Crónicas jornalísticas no feminino: impressões de um quotidiano instável no final do Estado Novo

Abstract

Nos anos finais da ditadura do Estado Novo, mesmo com a actuação da censura prévia e de outras constrições, a imprensa periódica desempenhou um papel relevante de sensibilização crítica, nomeadamente ao nível da consciencialização do lugar e identidade do feminino. Através de um “corpus” de três livros de crónicas escritas nessa época por três escritoras (Maria Judite de Carvalho, Agustina Bessa-Luís e Maria Teresa Horta), procura-se desenvolver uma reflexão em torno da problematização da questão da Mulher, através da flexibilidade e abertura do género da crónica, simultaneamente jornalística e literária. Adoptando estilos diversos, as três escritoras apresentam um apreciável contributo para essa reflexão em torno da condição feminina, questão muito discutida na época.

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Crónicas jornalísticas no feminino: impressões de um quotidiano instável no final do Estado Novo

Author: Martins, José Cândido de Oliveira
Publisher: Universidad de Sevilla
Year: 2021
DOI: 10.12795/RiCH.2021.i16.05
Source: https://idus.us.es/bitstreams/42189d64-fa95-4c07-b332-47c3069a0272/download
Como ci a es e a ículo: DE OLIVEIRA MARTINS, José Cândido (2021): “C ónicas jo nalís icas no eminino:
imp essões de um quo idiano ins á el no inal do Es ado No o”, en Re is a In e nacional de His o ia de la
Comunicación, (16), pp. 90-108.
© Uni e sidad de Se illa 1
CRÓNICAS JORNALÍSTICAS NO
FEMININO: IMPRESSÕES DE
UM QUOTIDIANO INSTÁVEL
NO FINAL DO ESTADO NOVO
Jou nalis ic ch onicles in he eminine: imp essions o an
uns able daily li e a he end o he Es ado No o
DOI: h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.05
Recibido: 1-5-2021
Acep ado: 8-6-2021
Publicado:30-6-2021
José Cândido de Oli ei a Ma ins*
Uni e sidade Ca ólica Po uguesa (UCP – FFCS), Po ugal
cma [email protected]
ORCID h ps://o cid.o g/0000-0002-7970-8794
1 Es udo desen ol ido no âmbi o do P oje o Es a égico do Cen o de Es udos Filosó icos e Humanís icos
(CEFH) UIDB/00683/2020, inanciado pela Fundação pa a a Ciência e Tecnologia (FCT).
Como ci a es e a ículo:
DE OLIVEIRA MARTINS, José Cándido (2021): “C ónicas jo nalís icas no eminino: imp essões de um quo idiano ins á el no inal
do Es ado No o”, en Re is a In e nacional de His o ia de la Comunicación, nº 16, 2021, pp. 93-110.
h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.05
93
José Cândido de Oli ei a Ma ins
Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 90-108 2
Resumen: Nos anos inais da di adu a do Es ado No o, mesmo com a ac uação da
censu a p é ia e de ou as cons ições, a imp ensa pe iódica desempenhou um papel
ele an e de sensibilização c í ica, nomeadamen e ao ní el da consciencialização do
luga e iden idade do eminino. A a és de um “co pus” de ês li os de c ónicas esc i as
nessa época po ês esc i o as (Ma ia Judi e de Ca alho, Agus ina Bessa-Luís e Ma ia
Te esa Ho a), p ocu a-se desen ol e uma e lexão em o no da p oblema ização da
ques ão da Mulhe , a a és da lexibilidade e abe u a do géne o da c ónica,
simul aneamen e jo nalís ica e li e á ia. Adop ando es ilos di e sos, as ês esc i o as
ap esen am um ap eciá el con ibu o pa a essa e lexão em o no da condição eminina,
ques ão mui o discu ida na época.
Palab as cla e: c ónica, esc i o as po uguesas, eminino, jo nalismo, mulhe .
Abs ac : In he inal yea s o he Es ado No o dic a o ship, e en wi h he p io
censo ship and o he cons ain s, he pe iodical p ess played a ele an ole in aising
c i ical awa eness, pa icula ly in e ms o aising awa eness o he place and iden i y o
women. Th ough a "co pus" o h ee books o ch onicles w i en a ha ime by h ee
w i e s (Ma ia Judi e de Ca alho, Agus ina Bessa-Luís and Ma ia Te esa Ho a), we seek
o de elop a e lec ion a ound he p oblema iza ion o he issue o women, h ough he
lexibili y and openness o he gen e o he ch onicle, simul aneously jou nalis ic and
li e a y. Adop ing di e en s yles, he h ee w i e s make an app eciable con ibu ion o
his e lec ion on he eminine condi ion, a much-discussed issue a he ime.
Keywo ds: ch onicle, Po uguese w i e s, eminine, jou nalism, woman.
Re a o de um Po ugal cinzen o
A pa i do golpe mili a de Maio de 1926 e da pos e io Cons i uição de 1933, o egime
polí ico po uguês do Es ado No o (1933-1974), p o agonizado pelo D . An ónio Oli ei a
Salaza , moldou a polí ica, a sociedade e a cul u a po uguesas du an e quase meio
século, a a és de um p olongado egime di a o ial, cons i ucionalmen e co po a i o,
sem libe dades undamen ais e com um sis ema de ensino supe io men e con olado,
num caso singula de longa du ação de um egime (c . Rosas, 2015: 183 ss.).
En e ou as ma cas undamen ais des e go e no, com e apas sucessi as ao longo de
décadas, con ém salien a algumas, pelo seu eno me impac o social: i) a ins i uição de
um egime de pa ido único (União Nacional), com a sup essão de libe dades essenciais;
ii) a manu enção e icaz do sis ema de Censu a, que incluía o ac i o con olo da
publicação de li os e de pe iódicos, com apa en e libe alização a pa i de 1968, com o
“Exame p é io” de Ma celo Cae ano (c . F anco, 1993; Tenga inha, 2006); iii) a
manu enção do Impé io colonial, con a odas as c í icas in e nas e in e nacionais; i ) a
ac uação de uma pode osa máquina de p opaganda, na senda do Sec e a iado de
P opaganda Nacional (SPN), c iado em 1933, com An ónio Fe o, sucessi amen e
eba izado (c . Paulo & To gal, 2015: 181 e passim); ) e a exis ência algumas
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o ganizações de con olo ideológico, como a Mocidade Po uguesa, aliás à imagem do
que ambém acon ecia em ou as di adu as coe as, em Espanha ou em I ália.
Nes con ex o, não se de e esquece a secção da Mocidade Po uguesa Feminina (MPF),
sob o pa ocínio do Minis é io da Educação, e a Ob a das Mães pela Educação Nacional
(OMEN) – c iadas em 1936-37, sendo es as mocidades ees u u adas em 1966 –, com
o objec i o exp esso de es imula a acção educa i a da amília, em coope ação des a
com a escola, omen ando assim a um amplo p og ama de o mação nacionalis a da
ju en ude po uguesa. Nos mais di e sos aspec os da ida quo idiana e em á ios
es ac os sociais – do enquad amen o legal ao papel no sis ema educa i o ou às p á icas
de educação ísica –, o luga e a missão da Mulhe es a am de idamen e enquad ados
pela polí ica do Es ado No o, sendo mui o e elado a a his ó ia das o ganizações e
mo imen os emininos nes a época (c . Pimen el, 2000). A unção social das mulhe es e
das mães es a a o emen e condicionada po alo es ca os à o ganização e à ideologia
do egime: papel da mulhe mãe e dona de casa (“ ada do la ”), na sua unção ma e nal
e p oc iado a, educa i a e assis encial. Condicionada po p econcei os di e sos e pelas
eg as da conse ado a mo al ca ólica, p e ê-se a imagem da mulhe no espaço da
amília, dependen e do pai ou do ma ido, endencialmen e apa ada de mui as unções
p o issionais au ónomas, que no me cado de abalho, que sob e udo no espaço
público e na ida polí ica.
É es e Po ugal cinzen o e echado, com uma ele ada axa de anal abe ismo e uma
imp ensa con olada pelo ac i o sis ema da Censu a que amos encon a nos anos de
1960 e início de 1970, mau g ado a ímida abe u a de libe alização ensaiada po
Ma celo Cae ano (c . Ramos, 2015: 696 ss.). É ce o que exis iam algumas o mas de
oposição, mais ou menos clandes inas, sob e udo de na u eza polí ica. Es amos pe an e
um empo que se segue aos “anos de chumbo” da “len a agonia do salaza ismo” (c .
Rosas, 1994: 503), abalado sucessi amen e po ele an es ac os com eno me impac o
na sociedade po uguesa e mesmo no es angei o, com des aque pa a alguns: i) a
audulen a eleição pa a a p esidência da República, em 1958, com a eleição do
candida o do egime (gene al Amé ico Thomaz) e o pos e io assassina o do candida o
independen e e oposi o ao egime, Humbe o Delgado, em 1965; ii) a eclosão da
chamada Gue a Colonial nos e i ó ios das “colónias” do Impé io po uguês, a pa i
de 1961, que se p olonga á a é 1974 (c . Ramos, 2015: 679 ss.); iii) a subs i uição de
Oli ei a Salaza po Ma celo Cae ano em 1968, de ido a um g a e aciden e do elho
P esiden e do Conselho, que mo e á em 1970; i ) as g e es es udan is nas impo an es
uni e sidades de Coimb a e de Lisboa; ) as di íceis elações com o Va icano, incluindo
a ensa isi a de Paulo VI a Fá ima, de ido à ques ão colonial; i) e, apenas a í ulo de
exemplo da longa igência Censu a na e apa inal do egime, o caso do saque e ex inção
da Sociedade Po uguesa de Esc i o es, após a a ibuição de um impo an e p émio
li e á io ao esc i o Luandino Viei a, em 1965.
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Escusado se á ano a que es es e ou os ac os simila es não apa ecem e e idos nas
c ónicas des as au o as – Ma ia Judi e de Ca alho, Agus ina Bessa-Luís e Ma ia Te esa
Ho a –, u o da acção igilan e da Censu a. Aliás, em 1972, ambém na senda da
e olução ence ada pelo in e nacional Maio de 68, é publicada em Po ugal uma ob a
que pe u ba p o undamen e a apa en e paca ez do egime – e e imo-nos às No as
Ca as Po uguesas, da au o ia de ês esc i o as (Ba eno, Ho a e Cos a, 2010: x iii),
logo omada como publicação de “con eúdo insana elmen e po nog á ico e a en a ó io
da mo al pública”. Segue-se imedia amen e a ap eensão do li o e o p ocesso judicial
mo ido con a as “ ês Ma ias”, incluindo in e oga ó ios na polícia polí ica (PIDE/DGS),
num caso com no á el impac o jo nalís ico in e no, mas ambém a ní el in e nacional.
Em momen os di e en es da sua e olução, logo a pa i do golpe mili a de 1926, a
di adu a mili a e sob e udo o Es ado No o, em 1933, oi ap o ando di e sos diplomas
legisla i os de modo a legi ima os p ocedimen os de aplicação da Censu a p é ia, po
um longo pe íodo de ce ca de meio século, a é à Lei de Imp ensa de 1972, em pleno
go e no ma celis a (c . Rod igues, 1980: 69 ss.). Pe an e a omnip esen e acção da
Censu a, mesmo em empos da p oclamada abe u a ma celis a, a esc i o a Ma ia Velho
da Cos a (c . 1973: 55) – umas das au o as do li o ap eendido das No as Ca as
Po uguesas, além de le ada a julgamen o – sa i iza a acção ne as a do ac o censó io da
c iação in elec ual e da p óp ia imp ensa, p opondo uma O a O eg a ia nes es e mos:
“Ecidi esc e e o ado; poupi assim o abalho a que me o a.”
É opo uno ambém elemb a que nes e con ex o polí ico-social, a cul u a e a li e a u a
ambém so iam as consequências do echamen o, da al a de libe dade e da ac uação
da Censu a. O caso pa icula das mulhe es esc i o as, que semp e exis i am em mui o
meno núme o ace aos esc i o es homens no campo li e á io, que nas ci cuns âncias
ge ais da sociedade do inal do Es ado No o, que na exiguidade do sis ema li e á io
po uguês, mui o con inado à capi al, Lisboa, e pouco mais, e ela-se peculia . Uma
coisa pa ece indiscu í el nes e cená io: a a és da omnip esen e Censu a, a imp ensa é
a ma polí ica, mais ou menos con olada, ao se iço da ideologia dominan e: “A
imp ensa, isando a « eabili ação mo al» da Nação, de e, de igual o ma, deixa de lado
as no ícias que a en em con a a «dissolução de cos umes», como no ícias sob e
«suicídios», «in an icídios», ou ainda, anúncios de «as ólogos, b uxas, iden es» ou de
«emp egos de mo al suspei a»” (Paulo e To gal, 2015: 181). E a com es as cons ições
que ambém nos anos inais do Es ado No o se podia esc e e na imp ensa.
Nes e con ex o, e ela-se mui o desa iado a a lei u a da colabo ação de mulhe es
esc i o es na imp ensa des a época. Pa a isso, escolhemos um co pus ep esen a i o,
cons i uído po ês au o as econhecidas pela c í ica de en ão, mas ainda mais pela
ecepção ac ual: Ma ia Judi e de Ca alho (1921-1998), au o a de A Janela Fingida,
ecolhendo c ónicas jo nalís icas de 1968-1969; Agus ina Bessa-Luís (1922-2019),
esc i o a de Aleg ia do Mundo, ecolhendo c ónicas da imp ensa dos anos de 1965-69;
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e Ma ia Te esa Ho a (1937), a única ainda i a, publicando Quo idiano Ins á el,
enquan o ecolha de c ónicas da imp ensa dos anos de 1968-1972. Ou as c onis as
pode iam se con ocadas pa a um abalho des a na u eza – Fe nanda de Cas o, I ene
Lisboa, Isabel da Nób ega, Luísa Dacos a, Ma ia Ondina B aga, Na ália Co eia, Na é cia
F ei e, en e ou as (c . Ca mo, 2018) –, mas con ém cingi mo-nos a um co pus mais
selec o e adequado a um b e e es udo, sem deixa de se ep esen a i o.
Nos ês casos e e idos, es amos pe an e esc i o as que esc e em com egula idade
pa a a imp ensa da época, em colunas pe iódicas, man endo assim uma p esença
ele an e no espaço público. Simul aneamen e, es a esc i a c onís ica man ém uma
es ei a ligação com a ob a li e á ia de cada uma das au o as, o a explo ando emá icas
a ins, o a complemen ando aspec os e e lexões que não cabem o almen e em géne os
especí icos cul i ados (como o omance, o con o ou a poesia), mas sim na lexibilidade
do géne o c onís ico. Po ou as pala as, as c ónicas des as esc i o as são igualmen e
bem demons a i as de ce as dominan es da sua c iação li e á ia, po um lado; e, po
ou o, da alo ização das colunas jo nalís icas enquan o singula espaço de in e enção.
Ao mesmo empo, es amos dian e de um conjun o exp essi o de c ónicas emininas
(embo a es as au o as enham esc i o ou os li os de c ónicas), que coincidem
empo almen e com os e e idos úl imos anos do egime do Es ado No o, já na sua ase
inal. O nosso p opósi o, enquan o ques ões de in es igação, é íplice: i) analisa
emá ica e c i icamen e nes es ês li os de c ónicas o modo como as ês esc i o as
abo dam o ema da Mulhe e a de inição do eminino enquan o condição na sociedade
da época; ii) ao mesmo empo, mais indi ec amen e, e i ica como se posicionam ace
a esse con ex o, a pa i do seu luga de esc i o as-c onis as; iii) la e almen e, ambém
nos de e emos numa ca ac e ização do singula a amen o do géne o da c ónica,
consoan e o es ilo o iginal que cada esc i o a imp ime a es a o ma discu si a ão
lexí el e moldá el, aliás de aco do com a poé ica li e á ia de cada uma des as au o as.
Po conseguin e, na impossibilidade de nos de e mos em mui os dos emas abo dados
pelas ês au o as, o ópico cen al se á en ão o de indaga , em ês li os de c ónicas, a
a enção concedida à Mulhe e ao eminino, o mesmo é dize , ao di ei o de ala do
co po, do desejo e da sexualidade, num empo em que impe a a o eca o e o silêncio, a
di adu a da mo al e dos bons cos umes, pelo que qualque p onunciamen o adqui e um
mani es o signi icado polí ico. Nes e con ex o especial de uma sociedade
assumidamen e pa ia cal, com papéis sociais e sexuais p é-de inidos pa a a Mulhe ,
qualque a i mação no domínio emá ico enunciado não só implica a imensa co agem,
mas ambém signi ica a um desa io e uma conside á el up u a, como, aliás, enunciado
pelas au o as das No as Ca as Po uguesas: “Se a mulhe se e ol a con a o homem
nada ica in ac o” (Ba eno; Ho a; Cos a, 2010: 143).
En e ou os ac o es que de emos e em con a nes a lei u a assim ocada, me ecem
ealce ês: p imei o, na al u a em que esc e iam es as c ónicas, es as esc i o as já
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inham sido objec o de econhecimen o no campo li e á io; segundo, e am au o as que
cul i a am ou os géne os li e á ios mais consag ados, como o omance ou a poesia;
e cei o, como suge ido, no seu ac o de esc i a, en en a am as limi ações coe ci as de
um sis ema de Censu a que não pe mi ia uma e ec i a libe dade de exp essão,
condicionando o emen e o que podiam esc e e , seja sob e a o ma de li o, seja sob
o géne o de c ónicas jo nalís icas. Po exemplo, nas c ónicas de Ma ia Te esa Ho a
(2019: 79, 94) menciona-se, epe idamen e, um “ empo peganhen o” ou a “co de
chumbo” do céu desse Po ugal no len o inal do Es ado No o. Re e ências como es as
ganham uma exp essi idade simbólica bem p opo cional à con enção me a ó ica da
linguagem.
Além de uma o ma de au e i algum endimen o (es e ipo de colabo ação nos jo nais
e a habi ualmen e paga), as c ónicas nos jo nais e am sob e udo um púlpi o ou um
modo de p onunciamen o público, numa coluna jo nalís ica ixa e egula , espaço
mai o i a iamen e ocupado po homens. Po conseguin e, com as limi ações e e idas,
es a o ma de in e enção sócio-cul u al e es ia-se de uma ap eciá el ele ância
simbólica, que não de e se descu ada ou minimizada.
1 A cidade a a és da janela de Ma ia
Judi e de Ca alho
Quando publica o olume de c ónicas A Janela Fingida (1ª ed., 1975), logo a segui à
Re olução do 25 de Ab il de 1974, uma das suas á ias ob as de c ónicas, Ma ia Judi e
de Ca alho é en ão uma esc i o a com ob a publicada e dis inguida, cul i ando
sob e udo o con o e o omance. Depois de e sido ag aciada com o P émio Camilo
Cas elo B anco, a au o a de Tan a Gen e, Ma iana (de 1959) publica na Sea a No a es e
olume de c ónicas.
Nas b e es c ónicas esc i as sob e udo pa a o jo nal Diá io de Lisboa (1968-1969) –
conhecido jo nal de oposição ao egime do Es ado No o, endo como di ec o Joaquim
Manso –, a au o a op a esolu amen e po um ipo de ex o dominado po alguns aços
maio es – desde a aguda obse ação do quo idiano, sem a as a a memó ia das coisas
(sob e udo a a és de uma poé ica ib á il dos sen idos), a é à pulsão iccional e a uma
di usa melancolia. O cu ioso é analisa como a in en i idade des e ipo de c ónicas, da
coluna egula “Rec ângulos da Vida”, encaixa na dimensão in o ma i a do e hos
jo nalís ico con empo âneo (c . Mou a, 2018: 20 e passim). No mesmo jo nal, ambém
assinou ex os sob o pseudónimo de Emília B a o, no suplemen o “Mulhe ”, dando
depois o igem ao olume dos Diá ios de Emília B a o.
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A pa da sensí el obse ação pessoal, á ias dessas c ónicas êm uma génese anco ada
em no ícias do momen o, al como eiculadas pela imp ensa: “Vem is o a p opósi o da
«Es anha a en u a de um casal a gen ino», no iciada a 4 des e mês (...)” (Ca alho,
2019: 49); na abe u a de ou a c ónica: “Há dias, ao le o jo nal, lemb ei-me de (...)”
(Ca alho, 2019: 111); e ainda em ou o incip : “Leio no jo nal que os ame icanos ão
deixa na Lua (...)” (Ca alho, 2019: 131). A inal, ei e adamen e, a imp ensa diá ia
ambém se cons i ui como on e de inspi ação e de e lexão.
De ac o, a c ónica esc i a po uma sensibilidade li e á ia em a singula idade da
me amo ose ela ada no p imei o ex o, quando se e e e ao “médico [que] subs i uí a
os olhos do banquei o pelos olhos de um poe a lí ico que mo e a a opelado”
(Ca alho, 2019: 19). Também a c onis a ê o mundo a a és de um olha de e nu a
quase lí ica, embo a melancólica. Po mais que a c ónica me gulhe no quo idiano, não
esconde nunca a sua pe spec i a de undo, podendo a i ma -se a hib idez en e o
jo nalís ico e o li e á io: “Mas udo is o é li e a u a” (Ca alho, 2019: 20). E sob e udo,
sen e-se uma mundi idência quase animis a, que con e e ida e sensibilidade a udo,
mesmo aos mais inespe ados objec os: “De es o não ac edi o na ma é ia o almen e
b u a, acho que as coisas pensam, embo a pensem e ado, ou, pelo menos, de um modo
es anho” (Ca alho, 2019: 23). Daqui deco e um aço maio do géne o da c ónica,
enquan o o ma de esc i a de di ícil de inição, salien ando-se a sua congenial hib idez,
en e o eal e o iccional, en e a obse ação quo idiana e o oo da imaginação, al como
sublinhado po mui os es udiosos do géne o, em Po ugal e em ou os países, como
An onio Candido (1992).
Em alguns ex os, sob essai mesmo a hesi ação genológica en e a c ónica e o con o:
“Podia se um con o mas não é, acon eceu” (Ca alho, 2019: 20). E essa assunção da
hib idez da c ónica e ela-se um aço essencial des a esc i a de Ma ia Judi e de
Ca alho, al como de Ma ia Te esa Ho a – mui as dessas c ónicas assumem a na u eza
de con os, com his ó ias concen adas e suges i as, pe sonagens, opções de ocalização
na a i a, b e íssimo enquad amen o espácio- empo al, al é a mani es a pulsão
iccional des a esc i a, mesmo sob o dis a ce da na a i a ela ada: “Con a am-me es a
his ó ia mas não ponho as mãos no ogo pela sua e acidade” (Ca alho, 2019: 62).
A inal, o eal quo idiano es á eple o de si uações que despe am o oo imagina i o da
c ónica, udo dependendo da desen ol a capacidade de obse ação e da sensibilidade
ib á il. E udo com equen e ecu so a uma memó ia g á ida de e ocações, “po que
não se dei a o a o passado” (Ca alho, 2019: 27).
En e as igu as e ocadas nes a esc i a, en e o eal e o iccional, mal a lei u a se inicia,
des acam-se os pe is emininos, en ol os numa eno me sensibilidade po enciada pela
ocalização de p imei a pessoa: a pálida e senil idosa de um p édio lisboe a, com a
necessidade de eg essa ao passado da sua memó ia a ec i a; a o e a de um g a ado
a uma mulhe e o desejo de ou i “ ases anquilizado as” sob e a amizade ou sob e o
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amo ; a anónima emp egada domés ica e o eco e ápido de Flo bela Espanca; a
a ação das mulhe es pelas elegan es modas de Pa is; as senho as de ce a idade e as
suas iagens o ganizadas de u ismo; o os o memo á el de uma jo em da caixa de um
a mazém com “ca a ing a a”; as mulhe es e os anquilos passeios de domingo; a jo em
desin e essada do guiche ; a mulhe is e e cu ada que cose pa a o a; a jo em
luminosa que, descendo a a enida, enca na a a P ima e a de Bo icelli; a memo á el
mulhe de mão na cin a e pelo na en a...; en e an os ou os pe is de mulhe es mais
ou menos alienadas, mui as ezes empu adas pa a a ma gem social e do espaço não
polí ico, em que à Mulhe é mesmo di icul ada a consciência da sua p óp ia iden idade.
Nes e eno me co ejo de igu as emininas que des ilam pelos seus ex os, à c onis a
impo a sob e udo obse a o pe il de mulhe es anónimas da cidade – jo ens, adul as
ou idosas (de c iadas domés icas e emp egadas de comé cio a uncioná ias de de
epa ições públicas) –, esc a as da sua condição, p esas à esgo an e mono onia dos
seus abalhos, an as ezes “mulhe es á idas e exaus as, po an o ag essi as”. A
p óp ia oz au o al da c ónica em plena consciência des a ên ase no eminino ao ní el
do seu e a o da eia u bana: “Po que alo das mulhe es e não dos homens?” (Ca alho,
2019: 47). Há uma indis a çá el empa ia e um impe a i o é ico subjacen es.
No espaço con li ual da cidade, enquan o c onó opo de uma ce a época, depa amo-
nos com mulhe es que al ez não enham consciência da e osão da sua ju en ude,
echadas nas múl iplas “gaiolas” da ida, pob es e explo adas, ágeis ou esis en es, de
quem po ezes, espon aneamen e, b o am g i os de alma, em his ó ias sem his ó ia,
apa en emen e, no in e miná el palco da ida quo idiana (c . Ca alho, 2019: 63). Há
exis ências assim, sem nada de singula a dis ingui-las, como se ep esen assem o
p o ó ipo da mulhe , como, aliás, exp essamen e acen ua a c onis a: “E a um p o ó ipo,
o da mulhe em quem não se epa a e que di -se-ia aze udo pa a passa despe cebida”
(Ca alho, 2019: 81). Ha ia que da oz a esses se es apagados.
É nes e ho izon e que se ai cons uindo a essi u a da cidade e o seu sen ido, em Ma ia
Judi e de Ca alho, como espaço po excelência de in e subjec i idade, ei o de
inúme os elances, igu as e inciden es quo idianos (c . P a a, 2010: 98 ss.). Ma ia Judi e
de Ca alho em plena consciência que o e hos jo nalís ico, no seu a ã no icioso, não
aba ca oda a ealidade das coisas e das pessoas, ha endo assim espaço pa a a
singula idade da esc i a c onís ica: “Não, os jo nais elizmen e não con am as pequenas
coisas e í eis que acon ecem odos os dias, a odas as ho as, em odos os minu os e
segundos, pa a além das pa edes mes as des a cidade, des e País, des e mundo.”
(Ca alho, 1979: 80). Assumidamen e, a c ónica assume-se como o ou o olha .
“Da minha janela não ejo o en o”, mas al ez essas pequenas coisas de que a ida
u bana se ece (Ca alho, 2019: 134). Po ém, de ini i amen e, a a és des as c ónicas-
con os de A Janela Fingida, ê-se o mundo de Ma ia Judi e de Ca alho e a sociedade
con empo ânea, não a a és de janelas alsas ou ingidas (c . Ca alho, 2019: 37-38),
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mas an es de uma janela singula , subjec i a e emocionada, magoada e e nu en a.
A inal, con a iando essa ealidade e oicada, homens ou mulhe es, odos desejam sabe
se podem um dia se elizes (Ca alho, 2019: 40).
Sem g ande consciência da sua sensualidade, são es as mulhe es anónimas e comuns
que habi am os dias, “que nunca se epe em po que cada momen o é di e en e e em,
po assim dize , a sua imp essão digi al” (Ca alho, 2019: 85). Po udo is o, o esc i o e
jo nalis a A. Ba is a-Bas os (1975: 13) não hesi a em sus en a que A Janela Fingida pode
se lida como um “ omance agmen á io”, cons i uído de pequenos quad os, o
“ omance desses dias”. Es a é, com e ei o, uma o ma singula de cap a o a oma do
empo, í ulo de uma das suas c ónicas, a c ónica quo idiana ( iccionada ou não) des e
Po ugal do im do Es ado No o, a a és da a e de colecciona pequenos e e elado es
ins an es e episódios, num mosaico ão exp essi o e e elado (c . Mo ão e alii, 2015).
2 Agus ina Bessa-Luís e a ida do
pensamen o
Das ês au o as do nosso co pus, as c ónicas de Agus ina Bessa-Luís (1996), ecolhidas
em Aleg ia do Mundo, dis inguem-se po um ca ác e mais cul u al e ensaís ico, e menos
“li e á io” ou iccional, se compa adas com os ex os das ou as au o as. Nas c ónicas
de Ma ia Judi e de Ca alho e de Ma ia Te esa Ho a, o cunho li e á io e a diluição das
on ei as en e a c ónica e a icção são po demais e iden es, sendo mui as ezes di ícil
deslinda uma axionomia genológica que, supe ando a hib idez assumida, sepa e a
c ónica do con o ou da na a i a b e e. Di e en emen e, na esc i a da consag ada
au o a de A Sibila sob essai uma ma cada endência pa a a e lexão c í ico-ensaís ica,
num ho izon e cul u al ma cadamen e in e a ís ico e cosmopoli a, com des aque pa a
a paisagem e iden idade cul u al medi e ânica.
Com e ei o, nesses esc i os da colabo ação egula na imp ensa nos anos de 1965-1969,
depa amo-nos com ex os no malmen e b e es, esc i os com ce a pe iodicidade, numa
c ónica dominada po um discu so al i o, p o oca ó io e ex emamen e cul o, com uma
na u al endência pa a a ase lapida e a é a o ismá ica, quando não pa adoxal.
Es amos assim dian e de uma c ónica mais e udi a, com uma ocação ensaís ica e
dig essi a. Também po isso, pode dize -se que a a e da c ónica pa icipa do es a u o
da g ande li e a u a, desa iando e não deixando ninguém indi e en e: “Nes e mundo
eb il e desa en o do indi íduo, a ob a cul a em que e a iolência de uma ag essão”
(Bessa-Luís, 1996: 86); e em ou o passo, não hesi a em ea i ma a sua on alidade em
ma é ia de esc i a c onís ica: “Hou e quem me achasse ambígua e i i an e a p opósi o
de Nu eye . Mas sou assim a p opósi o de udo o que seja disponí el à opinião dos
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Enquan o ibuna de p onunciamen o, a c ónica jo nalís ica e a à sua manei a uma
o ma de in e enção a a és da pena, sob a ia in elec ual de ac uação sob e as ideias.
Ou a o ma bem dis in a e a a da ac uação das B igadas Re olucioná ias ( endo Isabel
do Ca mo como elemen o undado ), a a és da lu a a mada, de que nos ala Isabel
Lindim (2012), em Mulhe es de A mas, p ecisamen e desde 1970 a 1974. São duas
manei as bem dis in as de in e enção sob e a sociedade em ge al e, em pa icula ,
sob e o egime de an es do 25 de Ab il de 1974, ambas p o agonizadas po mulhe es;
o mas que demons a am eloquen emen e o descon en amen o pe an e um egime
polí ico que eima a em pe du a , condicionando o emen e a e olução da sociedade
po uguesa de en ão. E po que é p eciso e memó ia, é ambém des as lu as que nos
ala a ecen e exposição “Mulhe es e Resis ência — No as Ca as Po uguesas e ou as
lu as”, pa en e no Museu do Aljube — Resis ência e Libe dade, pa en e a é inal des e
ano de 2021.
Em suma, nesse e a o de um Po ugal cinzen o e echado, sob essai cla amen e, en e
ou os aspec os ele an es, o luga da mulhe e da sua condição, num empo em que
oco iam acele adas ans o mações de men alidades na Eu opa e no mundo ociden al.
Nes as memo á eis c ónicas, na di e sidade an es ilus ada, p ocede-se à in enção do
quo idiano, pa a aseando o es udo eó ico de Michel de Ce eau (c . 2004: 142), na
medida em que a espacialidade he e ogénea e an opológica da cidade, enquan o
espaço público p i ilegiado, é semp e o esul ado das ope ações, p á icas ou
pe o mances dos seus habi an es.
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