REVISTA ANDALUZA DE ANTROPOLOGÍA
NÚMERO 21: PERSPECTIVAS ANTROPOLÓGICAS SOBRE EL ESTUDIO DE LA CAZA RECREATIVA
ANTHROPOLOGICAL PERSPECTIVES ON RECREATIONAL HUNTING
DICIEMBRE DE 2021
ISSN 2174-6796
[pp. 62- 81]
h ps://dx.doi.o g/10.12795/RAA.2021.21.4
CAÇA DESPORTIVA E CONTROLE DE JAVALIS (SUS
SCROFA) EM DUAS REGIÕES DO RIO GRANDE DO SUL,
BRASIL: APONTAMENTOS ETNOGRÁFICOS
RECREATIONAL HUNTING AND WILD BOAR (SUS
SCROFA) CONTROL IN TWO REGIONS OF RIO GRANDE
DO SUL, BRAZIL: ETHNOGRAPHIC REMARKS
Cae ano So di
Uni e sidade Fede al do Rio G ande do Sul
Sa ah Fa ia Mo eno
Uni e sidade Fede al do Rio G ande do Sul
RESUMO
Lis ado como uma das cem pio es espécies exó icas in aso as do mundo, o ja ali
assel ajado (Sus sc o a) é o único g ande e eb ado cuja caça é au o izada no B asil.
Embo a mo i ada po azões ecológicas e sani á ias, es a au o ização, oco ida em
2013, em p omo ido o c escimen o do in e esse pela caça pa a ins ec ea i os no país,
após anos de ocaso sociocul u al. Dian e des e cená io, es e a igo discu e as elações
en e p á icas cinegé icas e manejo do ja ali em duas egiões u ais do Rio G ande do
Sul, es ado mais me idional do B asil. Baseado em pesquisa e nog á ica e en e is as, o
abalho discu e como agen es do Es ado e caçado es concebem e negociam p á icas que
ansi am en e os polos do “con ole” e da “caça”, e elando a lexibilidade e ela i idade
des as ca ego ias.
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Pala as-cha e: An opologia; Caça; Con ole populacional; Ja ali; B asil.
ABSTRACT
Lis ed as one o he 100 wo s in asi e alien species in he wo ld, he wild boa (Sus
sc o a) is he only la ge e eb a e whose hun ing is au ho ized in B azil. Al hough
mo i a ed by ecological and sani a y easons, his au ho isa ion, which occu ed in
2013, has p omo ed a g owing in e es in ec ea ional hun ing in he coun y, a e yea s
o sociocul u al decline. Gi en his scena io, his a icle discusses he ela ionships
be ween hun ing p ac ices and wild boa managemen in wo egions o Rio G ande
do Sul’s coun yside, B azil’s sou he nmos s a e. Based on e hnog aphic esea ch and
in e iews, he pape discusses how s a e agen s and hun e s concei e and nego ia e
p ac ices ha mo e be ween he poles o “con ol” and “hun ing”, e ealing he lexibili y
and ela i i y o hese ca ego ies.
Keywo ds: An h opology; Hun ing; Popula ional con ol; Wild Boa ; B azil.
INTRODUÇÃO
Es e a igo discu e as in e aces en e caça despo i a e con ole populacional de ja alis
(Sus sc o a) e suas c uzas com po cos domés icos em duas egiões do Rio G ande do Sul,
es ado mais me idional do B asil, desde uma pe spec i a an opológica e e nog á ica.
His o icamen e, a caça despo i a em sido uma a i idade pouco enco ajada pela lei
ambien al b asilei a, ainda que seja uma a i idade cul u almen e ele an e em algumas
zonas do país (B agagnolo e al., 2019; Fe nandes-Fe ei a, 2014). Na egião sul, em
pa icula , o desen ol imen o mais p onunciado de clubes e sociedades de i o e caça
es e e ligado, em g ande pa e, ao pe il associa i o de comunidades í alo e eu o-
b asilei as, descenden es de imig an es eu opeus que coloniza am pa celas da egião
em meados do século XIX. A pa i da p omulgação da chamada Lei de Fauna (Lei
5.197/67), en e an o, a caça despo i a no B asil assis iu a um pe íodo de declínio,
endo sido ea i ado, desde 2013, pela au o ização da cap u a e aba e do ja ali eu opeu
e suas c uzas ( e e idos em po uguês como “ja apo cos”) em odo e i ó io nacional,
po empo inde e minado (B asil, 2013).
Com e ei o, o ja ali é o único g ande e eb ado cuja caça es á au o izada no B asil,
essal ados os di ei os de aba e pa a subsis ência econhecidos pela lei ambien al aos
po os e comunidades adicionais. Pensado como uma polí ica de con ole de auna
exó ica in aso a, noci a às a i idades ag opecuá ias e po ado a de iscos sani á ios, o
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aba e do Sus sc o a es á condicionado a uma sé ie de es ições e ac edi ações bu oc á icas
jun o a ins i uições ambien ais, sani á ias e de segu ança pública. Não obs an e, é no á el
que sua au o ização enha p omo ido, nos úl imos anos, um ea i amen o da caça pa a
ins lúdicos e despo i os no B asil, especialmen e nas zonas de on ei a ag opecuá ia
das egiões Sul, Sudes e e Cen o-oes e do país (Ped osa e al., 2015).
Nes e a igo, nossa discussão deco e de pesquisas e nog á icas e en e is as que
ealizamos com caçado es/manejado es de ja alis em duas egiões dis in as do Rio
G ande do Sul, espec i amen e, en e 2014 e 2016, e 2020 a 2021. A p imei a egião,
insc i a no bioma Pampa, co esponde à zona u al dos municípios de Aleg e e, San ana
do Li amen o, Rosá io do Sul e Qua aí, si uada jun o à on ei a b asilei o-u uguaia.
Cul u almen e, es a egião ecebe o nome de Campanha Gaúcha, e es á p o undamen e
ligada ao desen ol imen o his ó ico do la i úndio e ao p edomínio da pecuá ia ex ensi a.
Nela, encon a-se a Á ea de P o eção Ambien al (APA) do Ibi apui ã, única unidade de
conse ação ede al do Pampa b asilei o, adminis ada pelo Ins i u o Chico Mendes de
Conse ação da Biodi e sidade (ICMBio).
A segunda egião, localizada em á eas de al i ude do bioma Ma a A lân ica, co esponde
ao município de São F ancisco de Paula e ao e i ó io cul u al conhecido como Campos
de Cima da Se a, onde se localizam di e sas unidades de conse ação ede ais e es aduais.
Es a egião ambém e e seu desen ol imen o his ó ico ligado à pecuá ia ex ensi a e
à g ande p op iedade pas o il, em associação com a explo ação de ecu sos lo es ais.
A ualmen e, no en an o, em passando po um acele ado p ocesso de ans o mação
ag á ia, ma cada pela expansão de g andes la ou as ce ealí e as. Ambas as egiões azem
pa e de um domínio paisagís ico mais amplo, a que ecólogos e geóg a os chamam de
Campos Sulinos b asilei os (Pilla e Lange, 2015). Suas paisagens são dominadas po
mosaicos de campo e lo es a sob clima empe ado e úmido, com chu as bem dis ibuídas
ao longo do ano.
Como discu imos em ou os abalhos (So di, 2017), di e en es con igu ações da paisagem
e do espaço ag á io êm impac ado nas escolhas écnicas (Lemonnie , 2006) e e uadas
pelos agen es en ol idos no con ole do ja ali. A oscilação en e modos posi i os e
nega i os de pe seguição e cap u a dos animais (Haud icou , 1967) – oscilação es a que
en ol e decisões sob e o uso de ecu sos ins umen ais como jaulas, espe as, ce as, mi as
elescópicas, a mas b ancas ou de ogo, cu as ou longas, e c. - em ope ado um papel
cen al na elação en e caçado es e ó gãos do Es ado pa a a con inuidade e legi imação
social da sua a i idade.
Nes e a igo, em pa icula , examina emos as p á icas e pe cepções de sujei os en ol idos
no manejo do ja ali sob e o que signi ica caça e suas p á icas pós-aba e, ou seja, que
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des inação dão às ca caças dos animais mo os e como lidam com as exigências o iundas
do Es ado e do Sis ema Ve e iná io O icial. Inicialmen e, con ex ualiza emos essas
pe cepções e p á icas discu indo como a au o ização da cap u a e aba e do ja ali no B asil,
embo a jus i icada em e mos ecológicos – is o é, de con ole de uma espécie noci a pa a
a auna e lo a na i as–, eme e a p eocupações econômicas do ag onegócio e ques ões
ligadas à inse ção do país no campo da biossegu ança global. Em seguida, mos a emos
como es as cons e nações do Es ado são pe cebidas, inco po adas e negociadas pelos
caçado es em seu co idiano.
1. “BOTAR A MÃO NESTE BICHO”: MANEJO E BIOSSEGURANÇA DO JAVALI
NO BRASIL
A au o ização da caça ao ja ali pa a ins de con ole populacional no B asil se enquad a
em um con ex o global no qual o Sus sc o a é conside ado uma das “cem pio es espécies
in aso as do mundo”, con o me o painel de especialis as em in asões biológicas da IUCN
(Lowe e al., 2004). Na Amé ica do Sul, a espécie é obje o de polí icas de con ole no Chile
(Skewes, 2012), A gen ina (Balla i e al., 2014) e U uguai (Lomba di e al., 2007), onde o
animal é conside ado p aga nacional e espécie de li e caça desde os anos 1980. No B asil,
en ende-se que a Campanha Gaúcha oi uma das p imei as egiões a e adas pelo animal,
de ido, jus amen e, à sua p oximidade com o U uguai. De a o, os ela os mais an igos
de p esença do Sus sc o a em e i ó io b asilei o emon am às imediações da cidade
on ei iça de Jagua ão, ainda nos anos 1980 (Debe e Sche e , 2007). Já nos Campos de
Cima da Se a, o p ocesso é um pouco mais a dio, ibu á io, mui o p o a elmen e, de
ugas e sol u as de c iações come ciais (Ped osa e . al., 2015).
Em odo caso, desde os anos 1990, o Rio G ande do Sul em se des acado como a o igem
e o epicen o do p ocesso da in asão de ja alis no B asil. As p imei as inicia i as de
con ole da espécie o am desen ol idas no es ado, an o do pon o de is a écnico, quan o
no ma i o (Debe e Sche e , 2007; B asil, 2019a). No en an o, uma es u u ação mais
consis en e do manejo po meios cinegé icos semp e esba a a no con uso o denamen o
nacional sob e espécies exó icas in aso as (Oli ei a e Machado, 2019) e nas es ições ao
exe cício da caça p esen es na legislação ambien al, de modo ge al. Em 2010, o Ins i u o
B asilei o do Meio Ambien e e Recu sos Na u ais Reno á eis (Ibama), en e esponsá el
pela polí ica ambien al a ní el ede al, chegou a suspende uma sé ie de au o izações
empo á ias à caça ao ja ali en ão igen es no país, a maio delas no Rio G ande do Sul.
Pa e des as idas e indas legais deco eu da p essão de mo imen os animalis as. No
en an o, desde meados da década de 2000, o lobby dos caçado es de ja ali em sido mui o
jun o ao pode legisla i o, assim como sua aliança com mo imen os p ó-a mamen is as
e se o es do ag onegócio. De modo ge al, es es g upos log a am con ence pa e
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ele an e do pode público e da sociedade ci il de que o ja ali é um p oblema g a e, a
se esol ido unicamen e po meios cinegé icos. Embo a os danos econômicos causados
pelos animais à p odução u al enham sido o oco do seu discu so nas p imei as
décadas des e século, a ca ac e ização do p oblema em e mos ecológicos oi impo an e
pa a que se ope assem as mudanças legais necessá ias. Da mesma manei a, ap esen a
o ja ali como uma ameaça ecológica oi impo an e pa a queb a a esis ência con a
a caça de con ole populacional nos ó gãos ambien ais b asilei os (Ibama e ICMBio),
cujos quad os p o ém majo i a iamen e da ecologia da conse ação.
A APA do Ibi apui ã, si uada na Campanha Gaúcha, oi uma das p imei as unidades de
conse ação ede ais a desen ol e a i idades de moni o amen o da expansão dos ja alis,
desde meados dos anos 2000. En e os danos ambien ais e econômicos egis ados pelos
ges o es da á ea e jun o a p odu o es u ais das imediações, des aca-se o asso eamen o
de co pos híd icos, a p edação de o os da auna na i a, além do equen e a aque a
co dei os e o elhas. Já na Flo es a Nacional (FLONA) de São F ancisco de Paula, nos
Campos de Cima da Se a, sua ges o a apon a que o p imei o egis o o og á ico de
um ja apo co se deu em 2005. Nes a unidade de conse ação, os danos ecológicos
mais p oeminen es são aqueles ligados ao consumo de u os da a aucá ia (A auca ia
angus i ólia) e ao e ol imen o do solo pelos ja alis, o que impac a na egene ação da
lo es a e no desen ol imen o das plan as na i as.
É ele an e no a , en e an o, que em ambas as unidades de conse ação, seus ges o es nos
ela a am que o aumen o dos casos de a is amen o de ja alis se deu a pa i da segunda
década des e século, e o a ibuem à expansão de monocul i os ag ícolas e lo es ais nas
imediações de suas á eas p o egidas. Na APA do Ibi apui ã, os ges o es essal a am o
c escimen o das á eas omadas po pínus e eucalip o no Pampa b asilei o e u uguaio,
que aumen am a possibilidade de e úgio dos suínos. Já na FLONA de São F ancisco de
Paula, a ges o a des acou o c escimen o das la ou as de g ãos, que aumen am a o e a
de alimen o disponí el aos ja alis. Em odo caso, as ozes p edominan es no deba e que
culminou na au o ização da caça ao ja ali não o am as dos ges o es de á eas p o egidas
e demais au o idades ambien ais. Ao con á io, possuímos uma sé ie de indícios pa a
a i ma que a p essão do ag onegócio e e um papel c ucial pa a a libe ação de ini i a da
caça ao ja ali no B asil, consolidada com a Ins ução No ma i a n. 03/2013. Essa p essão
se deu, em g ande pa e, po azões come ciais ligadas ao modo como as polí icas globais
de biossegu ança a e am a suinocul u a nacional.
No início da década de 2010, o Minis é io da Ag icul u a do B asil passou a oma
medidas pa a ob e o econhecimen o de algumas de suas egiões como zonas li es
pa a Pes e Suína Clássica (PSC) jun o à O ganização In e nacional de Saúde Animal
(OIE). Pa a isso, o Sis ema Ve e iná io O icial (SVO), o mado po ó gãos de igilância
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sani á ia e epidemiológica locais, es aduais e ede ais, e e de se enquad a às exigências
do Código de Animais Te es es daquela o ganização. Além das medidas usuais de
moni o amen o das populações domés icas, o Código Te es e da OIE exige dos países
memb os a implemen ação de um p og ama local de igilância das populações sel agens
e e ais (wild and e al pigs), capaz de iden i ica sua dis ibuição e i o ial, aspec os de
sua ecologia e condição sani á ia, além de da ga an ias de que es as populações es ão
isicamen e sepa adas dos suínos con inados, domés icos ou sel agens (OIE, 2021).
Con o me o depoimen o de uma e e iná ia inculada ao Minis é io da Ag icul u a,
que cole amos em 2016, no caso do B asil, o desen ol imen o de al p og ama de
moni o amen o só oi possí el com uma ap oximação, po pa e do Es ado, daqueles
agen es sociais já p óximos e conhecedo es da ecologia e dis ibuição e i o ial
dos ja alis. Ou seja, os p óp ios caçado es, a pa i de alguma o ma de legalização e
o malização das suas p á icas. Em suas p óp ias pala as, e ia sido p eciso es abelece
uma aliança com os caçado es pa a que o SVO pudesse “coloca a mão nes e bicho”. Com
e ei o, di e sos elemen os da a ual polí ica de manejo do Sus sc o a no B asil apon am
pa a uma en a i a do Es ado b asilei o em cons i ui os caçado es como “os olhos e
ou idos do Sis ema Ve e iná io O icial”, pa a emp ega ou a decla ação exp essi a da
mesma médica e e iná ia.
Há ce a simila idade en e o que em oco endo no B asil com os ja alis e o ela ado po
Keck (2020) a p opósi o da aliança en e epidemiologis as e obse ado es de pássa os no
Sudes e Asiá ico. Em ambos os casos, pe cebe-se uma ap oximação en e conhecimen os
cien í icos e e nacula es do compo amen o animal pa a a consecução de uma polí ica
pública de igilância sani á ia. Segundo Keck, isso ma ca ia a eme gência de um modo
de elação p op iamen e cinegé ico com os animais no campo da biossegu ança, pau ado
pelo pa adigma da p epa ação (p epa edness). A seu e , es e modelo e ia a inidades
com a sime ia en e animais e humanos obse ada en e po os caçado es-cole o es,
con o me Descola (2005), e ce o dis anciamen o com o modelo hie á quico e pas o al
da biopolí ica, al como p opos o po Michel Foucaul (2008).
Já discu imos, em ou a opo unidade, como es es elemen os da polí ica de manejo
podem se conside ados uma espécie de domes icação ou cap u a do p óp io caçado , de
modo a ap op ia -se da sua iolência cinegé ica em p ol de uma agenda undamen ada
em a gumen os cien í icos (So di, 2020). Aqui, o que cabe apon a , po o a, são os
p ocedimen os exigidos pelos ó gãos ambien ais e sani á ios no pós-aba e, de modo
a ob e algum ipo de con ole sob e os iscos biológicos o iundos da ci culação de
ca caças. P imei amen e, a cada ês meses, odo caçado c edenciado jun o aos ó gãos
o iciais p ecisa p eenche um o mulá io em que in o ma o Ibama quan os ja alis
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o am aba idos, pesos e idade médios, quem es e e en ol ido nos aba es, en e ou as
in o mações. Desde 2019, com a implemen ação do Sis ema In eg ado de Manejo de
Fauna (SIMAF) pelo Ibama, es e ela ó io é encaminhado online. Embo a a mig ação
pa a a in e ne enha acili ado a sis ema ização de dados, é bem possí el que os bole ins
p oduzidos a pa i dessas in o mações espelhem de o ma mui o pa cial a ealidade
da caça ao ja ali no país, haja is a a g ande quan idade de caçado es não c edenciados
como manejado es.
De aco do com a Ins ução No ma i a n. 03/2013, os p odu os e subp odu os ob idos
po meio do aba e de ja alis não podem se come cializados. Da mesma o ma, p oíbe-se
o anspo e de animais i os, sendo ob iga ó io o aba e do animal no local da cap u a.
Já o anspo e de animais aba idos “de e a ende à legislação igen e”, o que, na p á ica
in iabiliza a ci culação de ca caças. Em seu depoimen o, a médica e e iná ia que ci amos
an e io men e essal ou que uma das p incipais di iculdades na elação en e Es ado e
caçado es e a, jus amen e, a inexis ência de um ó gão que is o iasse os p odu os de
o igem animal ob idos po meios cinegé icos no B asil, impedindo sua ci culação e
come cialização, como oco e em ou os países. De ce o modo, es a di iculdade ambém
deco e da Lei de Fauna, que p oíbe, desde 1967, o exe cício da caça p o issional. Embo a
não se enha cla o o que exa amen e o e mo “caça p o issional” que dize , en ende-se,
ia de eg a, o exe cício da caça pa a come cialização de seus p odu os, a i idade que
di e sos p oje os de lei com ami ação no Cong esso Nacional isam au o iza .
Em 2017, conside ando as mudanças in oduzidas pela Ins ução No ma i a n. 03/2013
a ní el ede al, o go e no do Rio G ande do Sul iniciou a cons ução de um plano local
de manejo do ja ali, denominado “Plano Ja ali-RS”. Um dos pila es des a es a égia local
é, jus amen e, a ans o mação de caçado es em cole o esde amos as de sangue e ecido
de suínos aba idos, isando mobilizá-los como linha de en e da igilância so ológica de
Pes e Suína Clássica. Desde en ão, a Sec e a ia Es adual da Ag icul u a em p omo ido
cu sos e capaci ações aos “agen es de manejo populacional”, como são ca ac e izados
os caçado es pelos diplomas legais exis en es. Mais ecen emen e, o go e no es adual
ambém au o izou o anspo e de ja alis aba idos em seu e i ó io (Ins ução No ma i a
n. 31/2021), o nando-se o p imei o es ado do país a pe mi i a ci culação das ca caças
de um luga pa a o ou o. Con udo, o pode público condicionou a au o ização à
ap esen ação pe iódica de amos as de sangue à igilância sani á ia, como uma espécie
de con apa ida dos caçado es à pe missão de á ego.
Fica cla o, nesse sen ido, que o Es ado b asilei o, em suas di e sas ins âncias, em
p ocu ado ins umen aliza os caçado es como o ma de acessa os co pos dos ja alis
pa a conhece melho e exe ce algum con ole sob e seu s a us sani á io. Pa a an o,
desde o início do século, di e sas demandas dos caçado es êm sido acolhidas e
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legalizadas pelo Es ado, ainda que elas con li em, sob mui os aspec os, com o his ó ico
iés an i-cinegé ico da legislação ambien al b asilei a e as sensibilidades animalis as -
ou “animali á ias” (Diga d, 2009) – de ou os segmen os sociais. Po ou o lado, o que
buscam aqueles que es ão na pon a des a elação? Is o é, o que que em os caçado es ao
pe segui em e ma a em ja alis? Que ou os ins e obje i os, pa a além da polí ica o icial
de con ole populacional e sani á io, êm a aído sujei os a essa a i idade no sul do B asil?
2. PARA ALÉM DO CONTROLE POPULACIONAL E SANITÁRIO
Embo a ma ginais em compa ação com o es udo de ou as p á icas sociais, di e sos
abalhos sob e caça despo i a con empo ânea êm ganhado des aque na discussão
an opológica das úl imas décadas (Dahles, 1993; Hell, 2001; Gunn, 2001; Dalla
Be na dina, 2009; Ma in, 2006, 2010a, 2020b). De manei a ge al, esses es udos
apon am pa a uma mul iplicidade de alo es e en endimen os que pe meiam as
p á icas cinegé icas, o nando di ícil, inclusi e, a o mulação de uma de inição única
do que se ia a caça, seus elemen os cons i uin es e mo i ado es, em sociedades pós-
indus iais ou “pós-domés icas” (Bullie , 2005). Pa a Ma in (2006), a caça despo i a
de e se comp eendida em con as e com ou as o mas de p odução social da mo e dos
animais, ca ac e izando-a como uma o ma “apaixonada” (passiona e) de en en amen o
da al e idade sel agem.
Além disso, o au o des aca a p edominância do “p ocesso” sob e o “p oje o” nas
expe iências cinegé icas. Inspi ado pela iloso ia de O ega y Gasse (2007), Ma in e oca
essas ca ego ias pa a salien a o p imado da uição do a o de caça sob e a me a ob enção
de peças em um sen ido quan i a i o (Ma in, 2010a; 2010b). Já Hell (2001) assinala
que o consumo de ca ne de caça en ol e dimensões ligadas à cons ução simbólica
da masculinidade e do sel agem. No no e da Eu opa, essas dimensões se condensam
na igu a do “sangue neg o”. Ques ões es é icas, ligadas à p odução de o éus como
condensações da expe iência cinegé ica, ambém são e idenciadas po alguns au o es
(Gunn, 2001; Ma in, 2010b). Es as são balizas impo an es pa a comp eende o que
es á em jogo na pe seguição e cap u a de ja alis po nossos in e locu o es na Campanha
Gaúcha e nos Campos de Cima da Se a, pa a além dos obje i os do manejo ambien al e
do moni o amen o sani á io.
2.1. Quem caça?
Em ambas as egiões pesquisadas, nossos in e locu o es são em sua maio ia homens,
en e 30 e 60 anos, que possuem ou as a i idades p o issionais du an e a semana e se
dedicam à caça de ja alis em seu empo li e. Alguns deles possuem o igens, esidência e/
ou ínculos amilia es com a zona u al, po ém não necessa iamen e. Desde a legalização
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da cap u a e aba e de ja alis no B asil, mui os indi íduos sem ligação com o campo êm
p ocu ado a a i idade e se iliado a clubes de caça e i o, seja como a i idade lúdica, seja
pela opo unidade de acessa a mas de g osso calib e de o ma legal. No en an o, como
e emos mais adian e, mui os admi em ha e uma dis inção en e caçado es no os e
an igos, omando a ques ão do ja ali como uma espécie de ma co empo al pa a essa
di e enciação.
Com elação à libe ação das a mas, dois dec e os ecen es egulamen am a posse de a mas
pa a colecionado es, a i ado es e caçado es – que se euni am na ca ego ia conhecida
pelo ac ônimo CACs. O Dec e o 9.846/2019 libe a a aquisição de a é quinze a mas de
uso pe mi ido e a é mais quinze a mas de uso es i o pa a caçado es, o alizando, en ão,
a é in a a mas, que de em se egis adas jun o ao Exé ci o. O Ce i icado de Regis o
passa a e sua alidade ampliada de cinco pa a dez anos. Já o Dec e o 10.627/2021 inclui
disposições sob e a caça e sua elação com clubes de i o e simila es, ambém median e
egis os jun o ao Comando do Exé ci o. Nesse sen ido, a p oblemá ica em o no dos
ja alis conseguiu ag upa os in e esses de p odu o es u ais p ejudicados, caçado es
e a i ado es. É álido menciona que os clubes de i o são esponsá eis po acili a e
media a expedição dos egis os de no os caçado es.
A a ualidade desses dec e os chama a a enção pa a os eco en es deba es da emá ica
em pau a no legisla i o. Uma in es igação ealizada pela imp ensa b asilei a1 no ano de
2021 az dados su p eenden es sob e o aumen o de licenças emi idas pa a caçado es ao
longo dos úl imos anos. Segundo a in es igação, a caça acaba sendo um p e ex o pa a
o a mamen o. De 2019 a 2021 o am emi idas 193.539 licenças, o que co esponde a
um aumen o de 243% em elação ao pe íodo de 2016 a 2018. Ainda segundo a mesma
in es igação, o aumen o de caçado es c edenciados não e le e na edução da população
de ja alis. Pelo con á io, os animais êm se expandindo po odo o e i ó io nacional,
sendo encon ados em es ados b asilei os que, ou o a, não os habi a am. Essa expansão
oco e, po ezes, de o ma ilegal pelos p óp ios caçado es a im de sus en a a a i idade
da caça.
Na Campanha Gaúcha, di e sos in e locu o es a i mam que a caça semp e ez pa e do
co idiano da egião, ainda que como a i idade espo ádica ou secundá ia. Rela a am se
comum o consumo e en ual de a es e pequenos mamí e os da auna na i a, bem como
a p odução de u ensílios domés icos e ins umen os musicais a pa i do cou o, penas
e ossos de animais caçados. De modo ge al, as menções a o mas adicionais de caça
1. C . h ps://g1.globo.com/poli ica/no icia/2021/09/19/emissao-de-licencas-pa a-cacado es-
mais-que- iplica-no-go e no-bolsona o.gh ml. Acessado em 19/12/2021. Acessado em
19/12/2021.
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Ag icul u a em moni o amen o e igilância sani á ia de suídeos assel ajados, no qual
é o necido um ki cons i uído de ascos pa a a cole a de sangue do ja ali e anilhas –
ambém chamadas po ele de lac es. Essas de em se colocadas na pa a do ja ali pa a
ealiza o anspo e do local de aba e a é a p op iedade do caçado , onde se á ealizada
a ca neação. O anspo e do ja ali de e se ei o com a pe manência das pa as e anilha,
a im de se iden i icado em iscalizações como al. O animal ambém de e es a abe o
ao meio e e isce ado, acondicionado em gelo, e com uma amos a de sangue cole ada
pa a ealização de exames pos e io es. Todo esse p ocedimen o, nas pala as do caçado ,
se e pa a “o Es ado e dados”, os quais só podem se o necidos pelos caçado es.
Ainda de aco do com es e in e locu o , a cole a de sangue pa a o Se iço Ve e iná io
O icial em sido o p imei o p ocedimen o que os caçado es e e uam no pós-aba e, depois
de euni os ja alis e limpa suas ca caças. O consumo da ca ne dos ja alis é ei o pelos
p óp ios caçado es, podendo se como chu asco, logo após a caça, ou pos e io men e,
como “ca ne de po co de casa”. Um dos cuidados ecomendados a se oma com os ja alis
pa a o consumo é obse a a si uação dos pulmões e ígado. Se não es i e em pe ei os, a
ca ne não é consumida. Po ezes, ainda, a ca ne é des inada aos cães, que a consomem
cozida com polen a: “Eles ado am! Se u dá o pezinho [do ja ali] p a eles, eles ado am!”.
CONCLUSÕES
Nes e a igo, discu imos as di e enças de pe spec i a en e agen es do Es ado e caçado es
ec ea i os en ol idos no manejo populacional de ja alis assel ajados no Sul do B asil.
P ocu amos demons a que embo a a au o ização da cap u a e aba e des es animais seja
e es ida de conside ações u ili á ias – is o é, ecológicas, econômicas e sani á ias – nos
discu sos o iciais, pa e exp essi a dos agen es enca egados de implemen a a polí ica de
manejo “na pon a” se mo em po azões de ou a na u eza, que os insc e em, em pa e,
no uni e so sociocul u al da caça ec ea i a ou despo i a – como o ap eço pela ca ne,
a conquis a e exibição de o éus de caça, ou mesmo o con ole populacional de o ma
mais es i a, isando apenas a edução de danos em la ou as p óp ias ou locais. Es a,
no en an o, só em encon ado legi imidade e ampa o legal no B asil con empo âneo
de ido à au o ização da cap u a e aba e de ja alis pa a ins de con ole populacional.
Is o em colocado em pe manen e ensão as dimensões p oje uais e p ocessuais das
a i idades cinegé icas (Ma in, 2010a), bem como as p e e ências po o mas de caça
“po dis ú bio” e “po dis a ce” (Ma in, 2006).
Pa a além disso, há ainda as di e gências en e os p óp ios caçado es, que passam a
se o ien a po dico omias como “caçado aiz” e “con olado ”, cujo sen ido deco e
da egulamen ação do manejo de ja alis po pa e do Ibama, sendo os con olado es,
po ezes, e e idos como aqueles que se inicia am na caça após a egulamen ação.
Os obje i os e mo i ações que le am indi íduos a se engaja em no con ole de ja alis,
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as escolhas écnicas que e e uam em campo, assim como as p á icas de consumo e
des inação das ca caças pós-aba e, ambém o e ecem di e en es en endimen os sob e a
caça con empo ânea no B asil e o pe il de seus p a ican es, demandando maio a enção
po pa e das ciências sociais e dos o mulado es de polí icas públicas.
No ocan e a es e pon o, c emos que cabe um maio in es imen o analí ico na
comp eensão dos e ei os da libe ação da caça ao ja ali no B asil pa a além de suas
dimensões ecológicas, sani á ias e econômicas. Poli icamen e, não há como dissocia o
enascimen o da caça despo i a no país de um mo imen o de guinada conse ado a na
es e a pública b asilei a, an o na es e a ins i ucional, quan o na dimensão mic ossocial
da p odução de subje i idades (Alonso, 2019; Pinhei o-Machado e Scalco, 2020). Além
dos e iden es aspec os ligados à c ise e essu gimen o da masculinidade pa ia cal, a
necessidade de se comba e “a p aga do ja ali” em se ido de jus i ica i a pa a um sem-
núme o de plei os polí icos e p opos as de mudança legisla i a nos úl imos anos, que ão
do a ouxamen o das no mas ela i as à posse e uso de a mas de ogo à libe ação da caça
de espécies sil es es o a p o egidas.
O lobby a mamen is a, em pa icula , em p omo ido a ideia de que os in e esses do
se o u al con e gem plenamen e com os seus, disseminando a ese do aba e po a ma
de ogo como a única solução possí el pa a a ques ão do ja ali. Po ou o lado, como
imos no caso dos o inocul o es da Campanha Gaúcha, nem odos os p odu o es u ais
b asilei os a alizam a p esença de caçado es despo i os em suas p op iedades, o que
apon a pa a uma g ande di e sidade ( egional e se o ial) nas a i udes des es a o es com
espei o à caça, especialmen e em suas modalidades a i as e “po dis ú bio”. Po im,
ecen es ela os de in oduções de ja alis em egiões ainda não ocadas pela espécie,
conduzidas po caçado es despo i os3, expõe aquilo que emos como o pa adoxo
cen al da polí ica de manejo do Sus sc o a no B asil. Qual seja, a compa ibilidade a longo
p azo en e um ma co legal ol ado pa a o p oje o (caça pa a ma a , em um sen ido
quan i a i o) e a o es mo i ados pelo p ocesso (ma a po ha e caçado, em um sen ido
quali a i o).
Assim, se po um lado a bu oc acia do Es ado isa ins umen aliza os caçado es,
en edando-os em uma sé ie de comp omissos e alianças p agmá icas, o sen ido da ação
cinegé ica po pa e des es a o es ex a asa, em mui o, os obje i os da polí ica pública
al como idealizada. As ciências sociais, dedicadas desde ao menos os abalhos de Max
Webe (2009) a explo a os e ei os não in encionais da ação humana cole i a, podem
e algo ele an e a apo a pa a a comp eensão des es p ocessos, que anscendem os
obje i os úl imos de con ole e a adição da caça.
3. C . h ps://g1.globo.com/ an as ico/no icia/2021/09/19/caca-ao-ja ali- i a-p e ex o-pa-
a-g upos-se-a ma em-inclusi e-com- uzil.gh ml. Acessado em 19/12/2021.
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