A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42.
Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06
Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade
cul u al e eligião na Eu opa con empo ânea
Suspending (Dis)Belie ? Cul u al Di e si y
and Religion in Con empo a y Eu ope
Jo ge Bo elho Moniz1
Uni e sidade No a de Lisboa (Po ugal)
Recibido: 07-12-18
Ap obado: 11-03-19
Resumo
Es e abalho analisa as condições de (des)c ença numa Eu opa con empo ânea
ma cada po uma o e e c escen e di e sidade cul u al. Obse amos o es ado
da a e ( eó ico e empí ico) ela i amen e aos esul ados de es udos an e io es
sob e o binómio eligião-di e sidade. Ve i icamos que, endencialmen e, a
di e sidade se encon a nega i amen e associada à coesão e i alidade eligiosas.
Os e ei os agmen ado es e ela i izado es da di e sidade e o c escimen o de
uma cul u a, implíci a ou explici amen e, secula são habi ualmen e apon ados
como os mo i os undamen ais pa a a agilização dos laços eligiosos, sob e udo
dos adicionais/ins i ucionais. No en an o, a maio ia dos in es igado es em
esis indo à a i mação dessa co elação nega i a, assumindo apenas a deslocação
e ecomposição da eligião em condições de di e sidade. Concluímos que se pode
conco da com essa asse ção; po ém, o na-se di ícil nega que a di e sidade em
e ei os secula izan es, ainda que limi ados, na eligião, pa icula men e po con a
da eme gência e hegemonia dum pa adigma imanen e de in e p e a o mundo.
Pala as-cha e: di e sidade, eligião, secula ização, secula idade, Eu opa.
1 ([email p o ec ed]) Dou o em Ciência Polí ica pela Uni e sidade No a de Lisboa. Bolsei o da FCT
– Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia. Em 2014 oi isi ing lec u e em Sciences Po Pa is – Uni e sidade de
Poi ie s. É co esponden e nacional da ede cien í ica EUREL da Uni e sidade de Es asbu go e in es igado do
CITER – Cen o de In es igação em Teologia e Es udos de Religião da Uni e sidade Ca ólica Po uguesa. Tem
dedicado o seu abalho aos emas da eligião, secula ização, secula ismo, mode nidade, di e sidade cul u al,
en e ou os. En e as suas p incipais publicações, des acam-se os li os: Iden idades eligiosas e dinâmica social
na Á ea Me opoli ana de Lisboa (Fundação F ancisco Manuel dos San os, 2019) e A Caminho da República:
Imagens que muda am a ace da opinião pública po uguesa (Tenaci as, 2014); o capí ulo: “Facing he c isis
h ough cha i y: A p oposal o new humanis ic syn hesis” (Camb idge Schola s Publishing, 2018); e os a igos
“The public unding o eligion in pos -c isis Ca holic Eu ope” (Ius Ecclesiae, Ri is a in e nazionale di Di i o
Canonico, 2016), “A sociologia da eligião hoje: secula ização(ões), secula ismo(s) ou laicidade?” (Polí ica
& Sociedade, 2017), “A egulação da di e sidade eligiosa pelos es ados eu opeus” (Pe spec i as: Jou nal o
Poli ical Science, 2018) e “A cul u e o secula i y? The phenomenon o non- eligion in 21s -cen u y Po uguese
socie y and poli ics” (Jou nal o he S udy o Religions and Ideologies, 2019).
110 Jo ge Bo elho Moniz
A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42.
Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06
Abs ac
This pape analyzes he condi ions o (dis)belie in con empo a y Eu ope
wi hin a con ex o s ong and g owing cul u al di e si y. We examine he
( heo e ical and empi ical) s a e o he a ega ding he esul s o p e ious
s udies on he binomial eligion-di e si y. We obse e ha di e si y is usually
nega i ely associa ed wi h eligious cohesion and i ali y. The agmen ing
and ela i izing e ec s o di e si y and he g ow h o an implici o explici
secula cul u e a e usually e e ed o as he p ima y sou ces o he weakening
o eligious ies, especially adi ional/ins i u ional ones. Howe e , mos
esea che s ha e esis ed a i ming his nega i e co ela ion, speaking only
o displacemen and ecomposi ion o eligion in di e si y condi ions. We
conclude ha his asse ion has alidi y; ne e heless, i becomes ha d o
deny ha di e si y has secula izing, al hough limi ed, e ec s on eligion,
chie ly because o he eme gence and hegemony o an immanen pa adigm o
in e p e ing he wo ld.
Key-wo ds: di e si y, eligion, secula iza ion, secula i y, Eu ope.
1. In odução
Nos úl imos decénios, as discussões académicas sob e eligião êm sido
ca ac e izadas po um con on o eó ico en e duas na a i as sob epos as,
embo a apa en emen e opos as. Po um lado, a conceção de uma pe da de
ele ância social da eligião, p econizada pelos de enso es das eo ias da
secula ização, na maio ia cien is as sociais eu opeus. Po ou o lado, a ideia do
eg esso (do signi icado social) das eligiões, maio i a iamen e de endido po
eó icos es adunidenses.
No en an o, segundo Casano a (2007: 3), chegou-se a um “pon o mo o
nes e deba e”, pois a eo ia adicional da secula ização adequa-se, ela i amen e
bem, à ealidade eu opeia, mas não à no e-ame icana, enquan o a na a i a da
i alidade dos me cados eligiosos (des egulados) é ela i amen e e icaz pa a
explica a ealidade dos Es ados Unidos da Amé ica, mas não a da Eu opa. Os
eó icos a i mam se necessá ia uma mudança de umo das pesquisas sob e esse
enómeno, pois, chegados a es e “beco sem saída pa a o es udo sociocien í ico da
eligião” (Wohl ab-Sah e Bu cha d 2017: 144), o deba e sob e a secula ização
em-se o nado “in u uoso” (Casano a 2007: 1, 3).
Na análise dos enómenos eligiosos con empo âneos, são cada ez mais
necessá ias no as g ades analí icas: economia global, mass media digi ais ou
mig ações es ão en e as o ças nuclea es. Pe e Be ge (2014), que desde a
década de 1990 em e endo o seu ópico o iginal, en ende o plu alismo e
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a di e sidade2, e não a secula ização, como o ema cen al na sociologia
da eligião. Também Vilaça e al. (2014) ac edi am que, na en a i a de
comp eende a eligião nas sociedades hodie nas, o oco dos in es igado es
de e es a nos enómenos mig a ó ios e nas mudanças que, di e en es adições
eligiosas e di e en es a anjos Es ado- eligiões, p o ocam na alma das dis in as
sociedades. A mobilidade geog á ica e o consequen e ansnacionalismo cul u al
(é nico, linguís ico ou eligioso) desenham um cená io social p og essi amen e
mais di e so e que em impac os em mui os aspec os da ida cul u al e social.
Isso é pa icula men e e iden e no mundo A lân ico No e onde o pa adigma
de mig ação mudou ab up amen e: sociedades ipicamen e de emig ação
o na am-se, sob e udo nas úl imas décadas, sociedades de imig ação ou de
mig ação global (Eco 2002).
Se há algo apa en emen e ans e sal nos di e en es a gumen os dos au o es
ci ados é a ideia de que a di e sidade, além de se um enómeno incon o ná el
das sociedades mode nas, em alguma in luência sob e a eligiosidade. O que é
ques ioná el é o ipo de consequências: declínio, i alidade, nenhum dos dois
ou adap ação e ecomposição?
Pa a esponde mos a es a pe gun a, conside ando que não exis e uma
boa eo ia social a ual sob e o binómio eligião-di e sidade, a igu a-se-nos
mais pe inen e e desa ian e cons ui a base duma eo ia que, inspi ada nas
e lexões dispe sas do es ado da a e, nos pe mi a comp eendê-lo mais ampla
e p o undamen e. Pa a cump i es e deside a o, que em an o de ambicioso
(pela dimensão que p e ende cob i ) como de a iscado (pela pa ca eo ização
a ualmen e desen ol ida), analisa emos, sob e udo à luz da ealidade eu opeia,
os a gumen os que conside amos mais sus en ados eo icamen e e mais
coe en es empi icamen e.
2. Da di e sidade e da en a i a de comp eendê-la em elação com o
eligioso
O e mo di e sidade em a sua e imologia no la im di e si as, p ocu ando
dize a iedade ou di e ença. É a ep esen ação, num de e minado sis ema
2 No ge al, os au o es êm ei indicando uma sepa ação en e os concei os de plu alismo e
di e sidade (Vilaça 2006; Be ge 2014). O âmago do seu a gumen o é que o plu alismo é um concei o
no ma i o, enquan o a di e sidade é uma noção desc i i a. O p imei o, como denuncia o su ixo ismo,
é um sis ema de alo es, ins i uições ou p ocessos que acei a a di e sidade como um alo posi i o;
o segundo diz espei o, desc i i a, empí ica e ac ualmen e, ao g au de he e ogeneidade cul u al
duma de e minada sociedade ou num mesmo con ex o social. Nes e con ex o, op ámos pelo concei o
de di e sidade. Po um lado, is o de e-se ao ac o de conside a mos mais p uden e e i a ques ões
no ma i as, p ocessualis as e ilosó icas associadas ao plu alismo ou à plu alização. Po ou o lado,
isso ambém se p ende com o ac o de a di e sidade es a , no malmen e, associada a pe spec i as
cien í icas mais neu ais e, po consequência, me odologicamen e mais pací icas, ope ando apenas ao
ní el analí ico-desc i i o.
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social, da mul iplicidade de di e enças e simila idades que exis em en e os
indi íduos ou os g upos que os ep esen am. É a qualidade do di e so (dimensão
posi i a), po oposição à cul u a de g upo, à homogeneização de cul u as ou
à monocul u a (dimensão nega i a). A noção de di e sidade es á, po an o,
associada aos concei os de plu alidade, mul iplicidade ou he e ogeneidade,
dizendo espei o à mi íade de ideias, ca ac e ís icas ou elemen os dis in os que
dis inguem os indi íduos sob e um de e minado assun o, con ex o ou ambien e.
É uma exp essão inco igi elmen e plu al e incon o na elmen e associada à
mul iplicidade de iden i icações cul u ais de cada g upo social. Com e ei o,
a di e sidade que que emos analisa é a cul u al3, pois é a cul u a – a a és
da sua capacidade de inse ção e adequação do se ao meio – que explica, dá
sen ido e ag ega as di e en es cosmologias sociais, como as é nicas, eligiosas
ou linguís icas. Não su p eende que, ao a a em do ópico da di e sidade, os
cien is as sociais no malmen e o associem à cul u a.
Embo a a di e sidade não seja um enómeno p op iamen e ecen e (Taylo
2007; Be ge 2014), com a acele ada globalização da segunda me ade do século
XX o nou-se, segundo Taylo (2007: 437), i econhecí el pa a e incompa á el
com qualque época his ó ica an e io . O mundo con empo âneo em-se
o nado g adualmen e mais he e ogéneo cul u al, eligiosa e e nicamen e,
sendo ma cado po uma di e sidade inédi a de cosmo isões que se mul iplicam
i e ea elmen e (Taylo 2007).
Es a é, de aco do com o es ado da a e, uma ma ca indelé el da
mode nização. Pa a Be ge (2014: 53), a mode nidade e a di e sidade es ão
inelu a elmen e c uzadas, pois a p imei a le a “necessa iamen e” à segunda,
libe ando odos os p ocessos que a es imulam, nomeadamen e a u banização,
as mig ações em massa, a al abe ização e o desen ol imen o das ecnologias
de comunicação. Também pa a Vilaça (2006: 22) a di e sidade o nou-se num
dos “ aços da mode nidade”. Po causa do aumen o dos luxos mig a ó ios
e da mobilidade geog á ica e do p og esso dos mass media, as sociedades
di e si icam-se é nica, eligiosa e linguis icamen e. Toda ia, es a c escen e
he e ogeneidade não é passagei a. De aco do com a au o a, ela é a no a “no ma
e não uma me a si uação ansi ó ia” (Vilaça 2006: 22). Es as pe spe i as são
co obo adas po ou os au o es. Ma in (2005: 157) diz que a di e sidade é
uma ca ac e ís ica “p esen e de o ma massi a no mundo con empo âneo”,
Taylo (2007: 300) chama-lhe “supe no a” “galopan e” da e a mode na, Pickel
(2017: 290) diz que é um dos “p ognós icos segu os pa a a Eu opa” e Vilaça
e al. (2014: 2) p e eem que o seu c escimen o se man e á como esul ado dos
e ei os da globalização.
3 Do a an e, semp e que nos e e i mos ao e mo di e sidade, es a emos a azê-lo à luz da ideia de
di e sidade cul u al. Sal o quando indica mos o con á io.
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Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06
Com e ei o, os es udos empí icos, es a ís icos, sob e endências demog á icas,
p ojeções do c escimen o populacional ou dinâmicas mig a ó ias mundiais
apon am pa a p o undas mudanças e, consequen emen e, pa a uma c escen e
complexi icação das dinâmicas cul u ais, eligiosas ou é nicas egionais. Po
exemplo, o Pew Resea ch Cen e (2015, 2017), nas suas p e isões sob e o
c escimen o populacional e sob e o u u o das eligiões mundiais a é 2050, mos a
o modo como o pe il eligioso do mundo es á a “muda apidamen e” (Pew 2015:
5). Is o de e-se, sob e udo, à di e ença en e as axas de e ilidade, ao amanho das
populações ju enis e às con e sões eligiosas ípicas duma e a global e plu al. Mas
ambém se de e ao núme o de mig ações in e nacionais. De aco do com o ela ó io
das Nações Unidas sob e a mig ação in e nacional de 20174, en e 1990 e 2017 a
pe cen agem de mig an es in e nacionais aumen ou, ao ní el global, 69%. Es a é
uma endência c escen e, dado que o olume de mig ações in e nacionais c esceu
a uma axa média anual de 1,2% en e 1990 e 2000 e a uma axa de 2,4% en e
2000 e 2017. As egiões conside adas desen ol idas ecebe am 60% do o al dessa
mig ação du an e a o alidade do pe íodo. Ou a ques ão ele an e aqui é o núme o
de pedidos de asilo que, em 2015, ba eu, ao ní el eu opeu, o núme o eco de de 1,3
milhões de candida u as (Pew 2017).
A i econhecibilidade des es enómenos ou a sua incompa abilidade com
ou os pe íodos his ó icos, como Taylo sublinha e como já ci ámos, de e-se
ao ac o de não es a mos a passa po simples p ocessos de emig ação, mas de
mig ação global, e essa di e ença, como eloquen emen e coloca Eco (2002), é
undamen al pa a comp eende o nosso mundo globalizado.
“Ainda é possí el dis ingui emig ação de mig ação quando o plane a in ei o
es á a o na -se o e i ó io de deslocações c uzadas? C eio que é possí el:
como disse, as imig ações são con olá eis poli icamen e, e as mig ações não;
são como os enómenos na u ais. Enquan o há imig ação, os po os podem
e a espe ança de man e os imig ados num gue o, pa a que não se mis u em
com os na i os. Quando há mig ação já não há gue os, e a mes içagem [nes e
con ex o, ac escen a íamos a di e sidade e/ou plu alismo] é incon olá el. Os
enómenos que a Eu opa en a ainda en en a como casos de emig ação são,
pelo con á io, casos de mig ação” (Eco 2002: 109-110).
Po con a des es e en os globais, o ema da di e sidade o nou-se numa
das mais “p omisso as agendas de pesquisa” (Pollack 2014: 115), sendo um
dos “ ópicos mais impo an es” nas ciências sociais con empo âneas (Dok ó
2009: 26). Pa a is o mui o ajudou o ac o de os eó icos da secula ização e em
começado a associá-la aos e ei os da mode nidade. O seu a gumen o básico é
o seguin e: a mode nidade não le a necessa iamen e à secula ização; po ém,
conduz ine i a elmen e à di e sidade (Be ge 2014; Vilaça e al. 2014).
4 C . “In e na ional Mig a ion Repo 2017 – Highligh s”.
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Toda ia, sal o o caso de Vilaça e al. (2014), cujo in e esse de in es igação
pa ece cen a -se mais na mu ação do eligioso em condições mode nas e não no
seu declínio, os ou os eó icos da di e sidade pa ecem ma cados pelo es igma
da secula ização. Pa a eles, a di e sidade le a à “con aminação cogni i a”
(Be ge 2014: 2) que, po con a dos c escen es con ac os in e pessoais globais,
ela i iza e en aquece os consensos mo ais; à “di e enciação in e na” (Pace
2016: 9) que, quando o con ex o se al e a, le a as sociedades a ans e i a
sua complexidade ex e na pa a a es e a p i ada; e à “ agilização mú ua”
(Taylo 2007: 303-304) das cosmo isões ( eligiosas ou não eligiosas). Não
obs an e a omissão dum a gumen o que a i me, explici amen e, a ligação
(nega i a) do eixo mode nidade-di e sidade-secula ização, es a elação pa ece
p esen e de o ma implíci a. Com e ei o, se a mode nização le a a almen e à
di e sidade e se es a, pela conco ência de di e en es cosmo isões, p o oca
uma con aminação, di e enciação ou agilização dos alo es sociais, en ão, a
di e sidade ende á a en aquece , en e ou as, as ce ezas eligiosas. Ou seja,
a mode nização p o oca uma di e si icação das isões do mundo que, po seu
u no, é acompanhada de um en aquecimen o das con icções eligiosas.
Es a conclusão pode, po ém, pa ece simplis a se en endida à luz dos
e ei os complexos e, po ezes, e e sí eis da di e sidade na eligião. De
aco do com Be ge (2014: 15), as eligiões não es ão de o ma alguma imunes
às consequências da di e sidade; pelo con á io, es e é “o g ande desa io de
odas as adições e comunidades eligiosas na e a mode na” (Be ge 2014:
15). No en an o, como o p óp io au o adi a, à medida que a di e sidade ai
ex enuando as con icções eligiosas ai su gindo uma mi íade de opções
cogni i as e no ma i as que, em g ande pa e, podem se eligiosas. Es a ideia,
apa en emen e, dico ómica ica bem exp essa a a és da e lexão de Pickel
(2017) sob e os p ocessos de secula ização e di e sidade que ma cam as
sociedades eu opeias con empo âneas. Pa a ele, a di e sidade:
“[É] o segundo p ognós ico segu o pa a a Eu opa (…). [Po con a dele], [a]
lém dum c escimen o da discussão pública e polí ica em o no da eligião,
ambém exis e (pelo menos na Eu opa) uma «pe da a asado a da ele ância
da eligião». Não podemos, po conseguin e, exclui p elimina men e
uma ea i ação da iden idade ( eligiosa) no u u o. No en an o, em ace do
en aquecimen o dos laços, do conhecimen o ou da in eg abilidade eligiosos,
isso pa ece imp o á el” (Pickel 2017: 290).
Ou seja, a di e sidade pa ece en aquece endencialmen e a eligião;
po ém, ambém pode e e ei os posi i os sob e ela. Toda ia, pa ece-nos que os
au o es, pela o ma como cons oem os seus a gumen os – en endem semp e
o c escimen o da eligiosidade, em condições de di e sidade, como uma
e en ualidade –, se ap oximam mais da p imei a p oposição.
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En ende os e ei os a uais da di e sidade na eligião a igu a-se, po an o,
como um deside a o di ícil. Os au o es não ad ogam mais uma endência
ge al, uní oca e de e minis a. Apesa de mos a em que a di e sidade pode
e consequências pe niciosas pa a a eligião, a ualmen e, endo em con a a
expe iência com as á ias alácias da secula ização (Moniz 2017), eles
sal agua dam as suas eses, o e ecendo-lhes uma hipó ese de elação saudá el
en e ambos.
A a ual pos u a (p uden e e diplomá ica ou dico ómica e e e sí el) dos
eó icos da secula ização, quan o aos e ei os da di e sidade na eligiosidade,
con as a com as posições mais asse i as assumidas no deco e da segunda
me ade do século XX. Nessa época, de um lado, encon amos os eó icos que
a i mam que, com a di e si icação, as isões do mundo, eligiosas ou não,
endem a se ela i izadas e a so e uma c ise de plausibilidade. Embo a po
azões di e en es, es es eó icos a gumen am, no ge al, que os p ocessos de
acionalização (Be ge 1990 [1967]), socie alização (Wilson 1969 [1966]) ou
di e enciação (Luckmann 1967) le am a uma au onomização que engloba a
di e sidade e que é a causa do en aquecimen o das cosmo isões eligiosas.
Assim sendo, as p á icas e c enças eligiosas, bem como as ins i uições que as
enquad am, bene iciam dum ní el mais ele ado de i meza quando enquad adas,
usando o e mo be ge iano, numa es u u a de plausibilidade homogénea e
pa ilhada pela maio ia das pessoas. Po con as e, sob condições de di e sidade
e com a consequen e desmonopolização das pe spec i as eligiosas do mundo,
a p e ensão de legi imidade inques ioná el e au o-e iden e das comunidades
ou ins i uições eligiosas ende a se desa iada. As o ganizações eligiosas
passam a a ua den o duma lógica de me cado onde ambém compe em com
uma plu alidade de cosmo isões secula es (S olz 2010). Es a compe ição in a
e ex a eligiosa a e a a c edibilidade das pe spec i as eligiosas do mundo e,
po conseguin e, a inge nega i amen e os ní eis de c ença ou p á ica eligiosa.
De ou o lado, os eó icos da economia eligiosa5 espe am que a pa icipação
e o comp omisso eligiosos sejam in luenciados pela o e a de eligião. O
seu a gumen o diz-nos que mais di e sidade eligiosa (mas ambém, maio
libe dade eligiosa) aumen a a pa icipação e empenhamen o eligioso.
Is o sucede, po que a di e sidade omen a a compe ição. As ins i uições e
comunidades eligiosas abalham mais a incadamen e pa a sa is aze a p ocu a
eligiosa e, po consequência, as pessoas endem a ica mais sa is ei as com o
se iço o e ecido e a en ol e -se mais com o eligioso. Ou seja, con a iamen e
aos p imei os eó icos, a di e sidade e ia um e ei o posi i o na eligião.
5 A eo ia da economia eligiosa, de endida po au o es como Lau ence Iannaccone, Rodney
S a k, Roge Finke, S ephen Wa ne ou William Bainb idge, diz essencialmen e que nas sociedades
mode nas exis e uma p ocu a social pe manen e po eligião, mas que a i alidade eligiosa depende
da di e sidade de e compe ição en e i mas eligiosas (ig ejas ou sei as) em a i idade no me cado.
116 Jo ge Bo elho Moniz
A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42.
Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06
Não obs an e a cen alidade des es es udos e au o es pa a o deba e
dos e ei os da di e sidade na eligião, es e ópico (amiúde sob o ocábulo
plu alismo) es e e, a é à a ualidade, semp e p esen e implíci a ou explici amen e
nos abalhos sob e a secula ização. B uce (2002) ou Taylo (2007) associam,
um mais do que ou o, o declínio ou a ma ginalização da au o idade das c enças
eligiosas, a agmen ação das isões do mundo e a u u a da homogeneidade
cul u al e eligiosa à di e sidade social e à plu alização das cosmo isões
indi iduais. Ou os au o es azem exe cícios semelhan es. Po exemplo,
Casano a (1994) analisa a posição das eligiões no mundo mode no à luz da
di e sidade – a condição es u u al da mode nidade –; Ma in (2005) obse a
o con ex o global de secula ização a a és dum plu alismo compe i i o e
expansi o; Vilaça e al. (2014) elacionam a mode nização e os seus enómenos
de mig ação in e nacional, luidez demog á ica e no a economia global com o
plu alismo e com as suas múl iplas possibilidades de iden i icação e pe ença;
en im, No is e Ingleha (2004) co elacionam os ní eis de eligiosidade dos
indi íduos com um índice de plu alismo eligioso.
Po causa des a p esença, mais ou menos assídua e mais ou menos
explíci a, da di e sidade nos abalhos dos eó icos da secula ização,
su gi am á ios es udos empí icos que quise am comp eende a co elação
di e sidade- eligiosidade. A exis ência duma co elação nega i a oi omada
como co obo ado a das eo ias da secula ização, enquan o uma co elação
posi i a sus en a ia os p essupos os do modelo da economia eligiosa. A
li e a u a sob e o ema c esceu an o que, nos inícios do século XXI, Cha es e
Go ski (2001) ize am uma g ande e isão do ópico a a és do exame de 193
es es em 26 a igos cien í icos. Nesse es udo, epo am, sob e udo, a elação
endencialmen e nega i a ou nula (quase 70% dos casos) en e a di e sidade e
a pa icipação eligiosa (em qualque sen ido ge al). A co elação posi i a en e
as a iá eis não é po an o comp o ada pelos seus esul ados, sal o quando
aplicada a um núme o limi ado de casos.
Ou o es udo, o “mais c í ico” na opinião de No is e Ingleha (2004: 97),
a i ma que odos os esul ados de odas as co elações (posi i as ou nega i as)
de em se abandonados (Voas, Olson & C ocke 2002). De aco do com Voas,
Olson & C ocke , no início da cen ú ia, não ha ia p o as con incen es de que
a di e sidade inha qualque e ei o na pa icipação eligiosa. Qualque a iação
alea ó ia no núme o de casos selecionados de e mina, segundo eles, g aus de
co elação di e en es. Ou seja, a elação en e di e sidade e en ol imen o
e le i ia apenas a elação ma emá ica en e as medidas de pa icipação e um
índice de di e sidade, não endo como base qualque a o subs an i o. Po
con a disso, é-nos di o que “ odas as p o as o e ecidas po ambas as pa es
do deba e são ago a suspei as” e que a di e sidade “pode não e qualque
e ei o na pa icipação eligiosa” (Voas, Olson & C ocke 2002: 218). Embo a
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Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião
na Eu opa con empo ânea
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pa ilhemos algumas das suas p eocupações, julgamo-las excessi as e, como os
p óp ios au o es admi em, as p o as que eúnem são “al amen e ci cuns anciais”
(Voas, Olson & C ocke 2002: 230). Po conseguin e, os es udos empí icos
sob e o impac o da di e sidade na eligião con inua am.
No is e Ingleha (2004), de ce o modo, em linha com Voas, Olson
& C ocke , mos am que os esul ados do seu es udo não apon am pa a
uma g ande in luência da di e sidade na eligião. Toda ia, admi em que
algumas co elações apon am pa a uma elação o e e signi ica i a en e o
p imei o e o g au de pa icipação eligiosa dos indi íduos. Es a co elação é
p a icamen e semp e nega i a. Con a iamen e aos p essupos os da eo ia da
economia eligiosa a “análise mul i a iada dos dados dum as o g upo de
sociedades não apoia a hipó ese de que o plu alismo eligioso p oduz ní eis
ele ados de eligiosidade” (No is & Ingleha 2004: 230); pelo con á io, as
sociedades menos he e ogéneas ap esen am maio es índices de pa icipação
eligiosa. Os abalhos de Dok ó (2009) e Pollack & Pickel (2009) ambém
apon am nes a di eção. O p imei o, ao es uda a elação en e a di e sidade
eligiosa e as elações de izinhança e/ou amizade, conclui que, no ge al, a
in luência da di e sidade eligiosa é nega i a. Os segundos, ao examina em a
co elação en e as elações Es ado- eligiões e a i alidade eligiosa, concluem,
no amen e, que os dados empí icos não só não con i mam os p essupos os da
economia eligiosa, como ainda os con adizem. Com e ei o, no seu es udo, as
co elações, quando signi ica i as, apon am no sen ido con á io da economia
eligiosa – quan o maio a di e sidade, meno a pa icipação eligiosa.
Em suma, o deba e dos eó icos da secula ização sob e o plu alismo e
os seus e ei os na eligião, al como odo o deba e da secula ização, em sido
p olí e o, con adi ó io e inconclusi o. No en an o, conseguimos de e a qua o
e apas essenciais. A p imei a, desen ol ida mais ene ge icamen e a é à década
de 1970 e p econizada pelos eó icos da secula ização, asse e a que mais
di e sidade signi ica menos eligião. A segunda, nascida em meados da década
de 1980 e acompanhada pelos p imei os es udos empí icos mais sis emá icos
dos eó icos da economia eligiosa, a i ma, in e samen e, que mais di e sidade
signi ica mais eligião. A e cei a, su gida na p imei a década do século XXI,
po con a des e deba e, é ma cada, como acabámos de e , po uma en a i a de
acla ação das duas e apas dico ómicas o iginais. Os seus esul ados não o am
conclusi os, apon ando em á ias di eções. Toda ia, ouxe am à luz, ainda que
agilmen e, a co elação endencialmen e nega i a ou nula en e di e sidade e
eligião. A úl ima, que se i e a ualmen e e cuja e lexão se oi adensando desde
a p imei a me ade da década inicial do século XXI, p ocu a lida , ainda na
au o a da sua adolescência, com a coexis ência da di e sidade (cul u al, é nica
ou eligiosa) nas sociedades e com os seus p esumí eis e ei os na eligião. Es e
ópico su ge ago a de o ma mais p emen e, po causa das mudanças ápidas
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dos p ocessos da mode nização a odas as sociedades do mundo e, segundo,
po que coloca a possibilidade de ha e o ças compensa ó ias no pa adigma
da secula ização – a de esa ou ansição cul u al. Con udo, elas de em se
apenas en endidas como exceções empo á ias e não como uma e e são no
p ocesso de secula ização. Pa a B uce (2002, 2011, 2014, 2017), em sociedades
mode nas onde haja uma ce a paz cul u al, ainda que a ma ginalização da
eligião possa se uma consequência in olun á ia de Es ados mode nos que
se ajus am à di e sidade, não há mo i os pa a espe a que a secula ização não
seja i e e sí el. Além disso, segundo o a gumen o, es as consequências se ão
p imei a e mais o emen e sen idas nas sociedades ociden ais democ á icas
com maio es índices de di e sidade (B uce 2017, 2018).
Como imos, es a é ambém a opinião de Pickel (2017), quando nos diz,
ainda que com algumas ese as, se imp o á el que o eligioso saia o alecido
de sociedades o emen e di e sas ao ní el cul u al. Toda ia, es a pa ece se
uma posição ela i amen e disseminada no deba e a ual sob e a secula ização,
is o que á ios au o es ci am di e en es e ei os nega i os da di e sidade na
eligião: desde a indi e ença (Quack & Schuh, 2017), à suspeição (G aham,
2017), ao silenciamen o (Woodhead, 2012), à ince eza (Pollack & Ros a, 2017)
a é ao seu pe ecimen o (McCa ee, 2017). Tal ez po isso B uce (2018) enha
ecen emen e c i icado a e a ação de Be ge , conside ando-a desnecessá ia.
Com e ei o, desde os meados da década de 2000 que Be ge em,
explici amen e, e endo a sua posição ela i amen e aos e ei os dos p ocessos
da mode nidade, nomeadamen e da di e sidade, no eligioso:
“O que não en endi quando comecei (…) oi que o que mudou não oi
necessa iamen e o quê da c ença, mas o como da c ença. O que o plu alismo e
as suas dinâmicas psicológicas e sociais ouxe am oi que a ce eza se o nou
mais di ícil de alcança . É a isso que chamo o como da c ença. É mais ulne á el.
(…) Não es ou a dize que o plu alismo é exclusi amen e hodie no, mas acho
que a mode nização in ensi icou es e p ocesso, an o em p o undidade como em
alcance (…). A gumen a ei que a mode nidade, mui o p o a elmen e, mas não
ine i a elmen e, le a ao plu alismo, uma plu alização de cosmo isões, alo es,
e c., incluindo a eligião (…)”. (Be ge 2006: 153-154) (des aque nosso).
“Es a a bas an e co e o ao a i ma que a mode nidade p oduz plu alismo, mas
o plu alismo não p oduz necessa iamen e secula idade. O que ele p oduz, quase
ine i a elmen e, é uma si uação em que nenhuma cosmo isão é inques ioná el,
de modo que os indi íduos êm de escolhe en e as di e en es cosmo isões
o e ecidas. Con udo, mui as dessas escolhas podem se eligiosas – e, de ac o,
são-no na maio ia do mundo con empo âneo.” (Be ge 2011: 99, apud B uce
2018: 105-106).
O g ande pon o de discó dia en e B uce e Be ge é que, enquan o o
p imei o conside a que a di e sidade conduz ine i a elmen e a um mundo de
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maio indi e ença eligiosa, o segundo ê a di e sidade como uma mul iplicação
de escolhas sociais não necessa iamen e secula es.
Pa a Be ge (2014), po um lado, os eó icos da secula ização es a am
ce os ao analisa que a mode nização desen ol e um discu so secula in luen e
que, como ma ca da e a secula , assume uma posição dominan e na sociedade
e na men e das pessoas. Po ou o lado, es a am e ados ao p essupo que es e
discu so secula expulsa ia as cosmo isões eligiosas, assumindo um p edomínio
o al sob e as de inições da ealidade e sob e as o ien ações alo a i as. Hou e,
segundo o au o , uma subes imação do eligioso po pa e dos eó icos da
secula ização ou da secula idade, mui os deles já ci ados na secção an e io ,
ela i amen e à exclusi idade, sup emacia ou hegemonia do secula . Além disso,
e á ha ido uma subes imação no conce nen e à capacidade dos indi íduos
pa a i e em dis in as es e as da ealidade, eligiosa e secula , al e nando en e
ambas (Be ge 2014: 112). Apesa de a mode nidade e e ei os secula izan es
– consubs anciados essencialmen e na eme gência dum pad ão imanen e de
in e p e a o mundo, ipicamen e aylo iano –, essas consequências são limi adas.
Ou seja, os p incípios eligiosos, as p o íncias de signi icado ini o, desc i as po
Be ge e Luckmann (1966), e os i uais eligiosos conse am o seu undamen o.
A eligião e a secula ização não são, po an o, o mas mu uamen e excluden es
de enca a a ealidade, mas abo dagens complemen a es. Há uma di e sidade da
men e, espelhada nos compo amen os das in e ações quo idianas, que se e le e
numa ação ecíp oca en e o eligioso e o secula – um ipo de linguagem híb ida
que pode ag ega os dois. Pa a Be ge (2014), es e é o p óp io signi icado da
di e sidade das cosmo isões – a subsis ência duma plu alidade de discu sos
eligiosos e secula es não es anques e igualmen e legí imos na psique e nas
p á icas dos indi íduos.
A í ulo exempli ica i o, podemos ci a o núme o signi ica i o de pessoas
que, em média, nos países selecionados, conside a Deus (50%) e a eligião
(63%) ele an es pa a a condução das suas idas, eco e a se iços eligiosos
(66%), e i a con o o ou o ça da eligião (67%) ou se conside a eligiosa
(77%)19. A manu enção da ele ância dos une ais eligiosos em odos os países
selecionados ou da ins ução eligiosa (nas escolas públicas e na ca equese) em
Po ugal, mesmo en e não c en es (33,5%) e c en es sem eligião (56,4%) (Dix
2013: 69), e a endência ge al de c escimen o dos casamen os eligiosos não-
ca ólicos em Po ugal20, dos ba izados na Eslo áquia21 e de ambos (incluindo
o casamen o ca ólico) na Polónia22, mos am ambém como a opção eligiosa é
plausí el e legí ima na e a secula .
19 Dados do EVS pa a 2008.
20 C . Po da a, “Fo ma de celeb ação do casamen o”.
21 C . Š a is ický ú ad SR, KBS, ECAV.
22 C . Ins y u S a ys yki Kościoła Ka olickiego za 2016 ok.
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Ou os exemplos da manu enção do discu so ou habi us eligioso
(Bou dieu, 1998), ci ando nes e con ex o apenas o caso po uguês, são, po
exemplo:
a) Fá ima e o aumen o do u ismo eligioso, nomeadamen e o
c escimen o do núme o de pe eg inos (nacionais e es angei os) em
celeb ações o iciais do san uá io e de missas o iciais e pa icula es, en e
os pe íodos 2005, 2008 e 201723.
b) A p esença e des aque dado aos digni á ios eligiosos em ce imónias
o iciais públicas, como a abe u a do ano judicial, a bênção das i as dos
inalis as uni e si á ios ou o início do mais ecen e manda o p esidencial
solenizado, em 2016, com uma o ação ecuménica na Mesqui a Cen al de
Lisboa.
c) A enomeação das eguesias de Lisboa (2011) e a manu enção das
designações eligiosas, como San a Ma ia Maio , Mise icó dia ou San o
An ónio ou a nomeação da no a pon e sob e o io Dou o (2018) - Pon e D.
An ónio F ancisco dos San os (an igo bispo do Po o).
d) O caso dos e iados ci is e eligiosos (2012) em que, no con ex o
da c ise inancei a, económica e social o Es ado po uguês, que endo
diminui o núme o de e iados no país, dec e ou o im dos e iados dos
dias do Co po de Deus e de Todos os San os. No en an o, po p essão
social e da San a Sé, eles o am apenas suspensos empo a iamen e, endo
sido epos os em 2016.
e) A pa ce ia social es a égica na á ea da solida iedade social en e
o Es ado e as ig ejas e comunidades eligiosas (a a és do inanciamen o
público da úl imas). Lemb emos, po exemplo, o plano de eme gência
social es abelecido en e a Câma a Municipal e o Pa ia cado do Po o
(2013) ou o p émio dos di ei os humanos, o e ecido pela Assembleia da
República, e que en e 2010 e 2012 (um dos pe íodos mais agudos da
c ise) apenas dis inguiu o ganizações de ma iz eligiosa (ca ólica) ou
lide adas po um dos seus memb os.
O e o de Be ge oi, como o p óp io admi e (Be ge 2014: ix-x),
e comp eendido a di e sidade apenas como um a o que sus en a a a
secula ização, não en endendo que, mesmo em ci cuns âncias de mul iplicidade
de escolhas cogni i as e no ma i as, mui as dessas opções con inuam a se
eligiosas, como imos nos á ios exemplos ci ados.
Be ge p ocu a esol e o elho p oblema das eo ias da secula ização,
não assumindo uma co elação ine i á el en e as condições cons i uido as da
mode nidade e os p ocessos da secula ização. Des e modo, a mode nização
deixa, ine i a elmen e, de p oduzi a secula ização e o pe ecimen o de ini i o
23 C . San uá io de Fá ima, “Dados es a ís icos”.
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da eligião. En e o eixo adicional mode nização- eligião, o au o coloca
um no o elemen o mode nização-di e sidade- eligião. Como imos, na no a
concepção be ge iana a mode nidade le a inelu a elmen e à di e sidade.
Toda ia, es a úl ima p o oca a al con aminação cogni i a a a és da qual
as pessoas, com di e en es cosmo isões, se alam e in luenciam de o ma
pe manen e. De aco do com Be ge (2014: 15), isso em duas consequências
essenciais: undamen alismo ou ela i ização. O p imei o balcaniza a sociedade,
conduzindo a si uações de coe ção ou con li o pe manen e; o segundo, mui o
de edo da linha adicional be ge iana, en aquece o consenso mo al sob e o
qual as sociedades não sob e i em. Embo a seja da opinião de que o p oblema
da di e sidade e á de se encon ado com um meio- e mo en e as duas
p oposições, Be ge pa ece en ende que, em condições de maio di e sidade,
a segunda p oposição ende a se dominan e. De aco do com o a gumen o,
a di e sidade “p o oca uma si uação em que a ela i ização se o na numa
expe iência pe ene” e, com isso, as ce ezas inques ioná eis passam a se uma
“me cado ia escassa” (Be ge 2014: 9).
Assim sendo, se a mode nização p o oca a di e sidade e se a di e sidade
ela i iza e en aquece as ce ezas adqui idas, p i ando a eligião da sua condição
inques ioná el, a di e sidade omen a á, i emedia elmen e, a secula idade. Como
o p óp io Be ge con inua a admi i , os p ocessos da mode nidade (sob e udo
as mig ações, a u banização, educação e os média digi ais) en aquecem o
eligioso, pelo ac o de o expulsa em de g ande pa e da o dem ins i ucional. O a,
se a mode nidade conduz à di e sidade e se a di e sidade ela i iza as ce ezas
eligiosas, a consequência de adei a é que a mode nidade, po in e médio da
di e sidade, é acompanhada dum en aquecimen o do eligioso. Es a p opos a é,
mesmo com as e isões de Be ge e com o seu pedido de subs i uição do pa adigma
da secula ização pelo da di e sidade, o ce ne de qualque eo ia da secula ização.
Tal ez po isso, ainda hoje, B uce (2017) e ou os au o es esis en es às
c í icas à eo ia da secula ização (Pickel 2017) consigam conco da com Be ge ,
po que em ambos a di e sidade diminui a plausibilidade dos comp omissos
eligiosos, a a és da edução ou ela i ização da ce eza sob e c enças e
a gumen os eligiosos. Is o signi ica que a mode nidade p oduziu uma es u u a
secula , imanen e na concepção aylo iana, que pe mi e aos indi íduos lida
com mui as á eas da ida sem qualque e e ência ao eligioso. Como nos diz
Amme man (2014), na sua espos a a Be ge , quando es e quad o secula /
imanen e se o na dominan e, como suge e a no a concepção be ge iana, e os
indi íduos deixam de e locais de in e ação eligiosa egula – onde o discu so
eligioso pudesse se p eponde an e – é no mal que isso molde a sua manei a de
es a no mundo. Ou seja, as pessoas deixam de consegui “ ala sob e uma – ou
al ez mesmo e uma – camada de ealidade espi i ual” quando in e agem no
seu quo idiano (Amme man 2014: 196).
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Como pudemos analisa , especialmen e com a análise do abalho
mais ecen e de Be ge , as di e en es eses que en am en ende os impac os
da di e sidade na eligião êm an o de complexo como de apa en emen e
con adi ó io. Em suma, embo a pa eça con ap oducen e apoia as eo ias da
secula ização, nomeadamen e em ace da di e sidade das sociedades mode nas
e da o ça da eligiosidade den o delas, ambém pa ece implausí el con inua
a nega a e olução dum quad o imanen e que, no es o ço de ges ão dessa
plu alidade e i alidade, é ela i amen e neu o ou hos il pa a com a eligião.
4. Conside ações inais
Num comen á io inal, pesando o que aqui oi analisado, podemos dize que,
conside ando o conjun o de países e o pe íodo empo al selecionados, a eo ia
que asse e a que a di e sidade apenas p o oca a deslocação e ecomposição do
eligioso e não o seu declínio pa ece e uma sus en ação eó ica bas an e ágil.
Ve i icámos que a eligião, al como Be ge (2014) admi iu, não es á imune
às consequências da di e sidade, sendo, aliás, um dos seus maio es desa ios
con empo âneos. Não é po an o de exclui a hipó ese de que is o suceda po
con a do sex e o de azões p é ia e implici amen e examinadas e que ago a
explici amos:
a) O g adual p edomínio dum iés iluminis a – assume um a as amen o
da eligião do espaço público.
b) O es abelecimen o de sis emas de secula ismo (mode ado) –
implemen a p ocessos de egulação/con olo do eligioso, baseados em
p incípios de neu alidade secula .
c) O desen ol imen o e hegemonia de cul u as de secula idade –
eclamam a p imazia da au o idade polí ica, acional e secula .
d) A diminuição dos ní eis de li e acia eligiosa e do papel do
eligioso nas p á icas quo idianas dos indi íduos – um espaço público que
passa a i e maio i a iamen e de e e ências imanen es.
e) A mais di ícil acessibilidade às p o íncias de signi icado ini o e a
diminuição das con i mações anscenden es ace-a- ace – o que o na a
ida quo idiana menos susce í el à in luência da eligião.
) A con aminação cogni i a e o e ei o agilizado e ela i izado da
p óp ia di e sidade – há uma ela i ização das ce ezas incon es á eis que
conduz ao en aquecimen o do consenso eligioso.
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Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião
na Eu opa con empo ânea
A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42.
Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06
No en an o, es e sex e o de asse ções e as cons uções eó icas que as
acompanham, não são sinónimos dum pe ecimen o da eligião, sendo ainda
menos ibu á ios da ideia de que isso sucede á duma o ma uni e sal,
unilinea ou de e minis a. Conco dados com a asse ção de Be ge que diz que,
não obs an e a exis ência dalguns e ei os secula izan es (nomeadamen e da
eme gência e p edomínio dum pa adigma imanen e de in e p e ação do mundo),
a mode nidade/di e sidade em consequências limi adas no eligioso. Além
disso, a p óp ia eligião man ém a sua in luência, sendo po ezes capaz de a
e o ça . Como sublinhámos, nos casos e e en es à manu enção e adap ação do
discu so eligioso ou a é no caso dos ba izados ou dos ma imónios eligiosos, a
p óp ia cul u a de secula idade é igualmen e o çada a adap a -se ao eligioso.
Há, em ce o sen ido, uma complemen a idade indelé el en e ambas, usando
uma exp essão be ge iana; uma con aminação ecíp oca, pe manen e, ei a de
a anços e ecuos, en adas e saídas, ma cada po um hib idismo que mis u a o
sag ado e o secula , como nos disse Amme man.
Assim sendo, que conco demos mais ou menos com os a gumen os
clássicos de Be ge , Luckmann ou Luhmann, com os con empo âneos de
B uce ou Pickel, com os e a ados de Be ge ou com os do quase unânime
Taylo ela i amen e à agilização da eligião pela di e sidade, a e dade
é que, a ualmen e, es es são alguns dos es o ços cien í icos mais comple os
pa a se comp eende o binómio eligião-di e sidade. Com e ei o, nes e a igo
a nossa in enção não oi p op iamen e conco da ou disco da com os seus
a gumen os. Quisemos sob e udo encon a uma o ma de enquad a eó ica e
geog a icamen e es a no a dinâmica das sociedades mode nas ociden ais.
Não que emos diminui a ele ância do abalho po nós desen ol ido,
a é po que, modés ia à pa e, conside amo-lo p o ícuo pa a enquad a e
desa ia as eo ias clássicas e mode nas da secula ização e pa a lança no as
pis as de in es igação na á ea. Toda ia, sabemos que se ão necessá ios mais
es udos, nomeadamen e empí icos, pa a se sus en a e obus ece es a no a
na a i a ela i a ao luga do eligioso em condições de di e sidade hodie na
ou, e en ualmen e, pa a alsi icá-la. Sabemos que se ão imp escindí eis mais
in es igações, p o a elmen e com maio ampli ude e ab angência, en ol endo
na u almen e mais ecu sos (humanos, empo ais e inancei os), que conside em
no as á eas geog á icas e pe íodos de análise mais amplos. Con udo, nes e
momen o, apenas podemos espe a que es e a igo seja um con ibu o nesse
sen ido.
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A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42.
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