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Suspendendo a (Des)Crença? Diversidade cultural e religião na Europa contemporânea

Moniz, Jorge Botelho

Abstract

Este trabalho analisa as condições de (des)crença numa Europa contemporânea marcada por uma forte e crescente diversidade cultural. Observamos o estado da arte (teórico e empírico) relativamente aos resultados de estudos anteriores sobre o binómio religião-diversidade. Verificamos que, tendencialmente, a diversidade se encontra negativamente associada à coesão e vitalidade religiosas. Os efeitos fragmentadores e relativizadores da diversidade e o crescimento de uma cultura, implícita ou explicitamente, secular são habitualmente apontados como os motivos fundamentais para a fragilização dos laços religiosos, sobretudo dos tradicionais/institucionais. No entanto, a maioria dos investigadores vem resistindo à afirmação dessa correlação negativa, assumindo apenas a deslocação e recomposição da religião em condições de diversidade. Concluímos que se pode concordar com essa asserção; porém, torna-se difícil negar que a diversidade tem efeitos secularizantes, ainda que limitados, na religião, particularmente por conta da emergência e hegemonia dum paradigma imanente de interpretar o mundo.

Full text

A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião na Eu opa con empo ânea Suspending (Dis)Belie ? Cul u al Di e si y and Religion in Con empo a y Eu ope Jo ge Bo elho Moniz1 Uni e sidade No a de Lisboa (Po ugal) Recibido: 07-12-18 Ap obado: 11-03-19 Resumo Es e abalho analisa as condições de (des)c ença numa Eu opa con empo ânea ma cada po uma o e e c escen e di e sidade cul u al. Obse amos o es ado da a e ( eó ico e empí ico) ela i amen e aos esul ados de es udos an e io es sob e o binómio eligião-di e sidade. Ve i icamos que, endencialmen e, a di e sidade se encon a nega i amen e associada à coesão e i alidade eligiosas. Os e ei os agmen ado es e ela i izado es da di e sidade e o c escimen o de uma cul u a, implíci a ou explici amen e, secula são habi ualmen e apon ados como os mo i os undamen ais pa a a agilização dos laços eligiosos, sob e udo dos adicionais/ins i ucionais. No en an o, a maio ia dos in es igado es em esis indo à a i mação dessa co elação nega i a, assumindo apenas a deslocação e ecomposição da eligião em condições de di e sidade. Concluímos que se pode conco da com essa asse ção; po ém, o na-se di ícil nega que a di e sidade em e ei os secula izan es, ainda que limi ados, na eligião, pa icula men e po con a da eme gência e hegemonia dum pa adigma imanen e de in e p e a o mundo. Pala as-cha e: di e sidade, eligião, secula ização, secula idade, Eu opa. 1 ([email p o ec ed]) Dou o em Ciência Polí ica pela Uni e sidade No a de Lisboa. Bolsei o da FCT – Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia. Em 2014 oi isi ing lec u e em Sciences Po Pa is – Uni e sidade de Poi ie s. É co esponden e nacional da ede cien í ica EUREL da Uni e sidade de Es asbu go e in es igado do CITER – Cen o de In es igação em Teologia e Es udos de Religião da Uni e sidade Ca ólica Po uguesa. Tem dedicado o seu abalho aos emas da eligião, secula ização, secula ismo, mode nidade, di e sidade cul u al, en e ou os. En e as suas p incipais publicações, des acam-se os li os: Iden idades eligiosas e dinâmica social na Á ea Me opoli ana de Lisboa (Fundação F ancisco Manuel dos San os, 2019) e A Caminho da República: Imagens que muda am a ace da opinião pública po uguesa (Tenaci as, 2014); o capí ulo: “Facing he c isis h ough cha i y: A p oposal o new humanis ic syn hesis” (Camb idge Schola s Publishing, 2018); e os a igos “The public unding o eligion in pos -c isis Ca holic Eu ope” (Ius Ecclesiae, Ri is a in e nazionale di Di i o Canonico, 2016), “A sociologia da eligião hoje: secula ização(ões), secula ismo(s) ou laicidade?” (Polí ica & Sociedade, 2017), “A egulação da di e sidade eligiosa pelos es ados eu opeus” (Pe spec i as: Jou nal o Poli ical Science, 2018) e “A cul u e o secula i y? The phenomenon o non- eligion in 21s -cen u y Po uguese socie y and poli ics” (Jou nal o he S udy o Religions and Ideologies, 2019). 110 Jo ge Bo elho Moniz A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 Abs ac This pape analyzes he condi ions o (dis)belie in con empo a y Eu ope wi hin a con ex o s ong and g owing cul u al di e si y. We examine he ( heo e ical and empi ical) s a e o he a ega ding he esul s o p e ious s udies on he binomial eligion-di e si y. We obse e ha di e si y is usually nega i ely associa ed wi h eligious cohesion and i ali y. The agmen ing and ela i izing e ec s o di e si y and he g ow h o an implici o explici secula cul u e a e usually e e ed o as he p ima y sou ces o he weakening o eligious ies, especially adi ional/ins i u ional ones. Howe e , mos esea che s ha e esis ed a i ming his nega i e co ela ion, speaking only o displacemen and ecomposi ion o eligion in di e si y condi ions. We conclude ha his asse ion has alidi y; ne e heless, i becomes ha d o deny ha di e si y has secula izing, al hough limi ed, e ec s on eligion, chie ly because o he eme gence and hegemony o an immanen pa adigm o in e p e ing he wo ld. Key-wo ds: di e si y, eligion, secula iza ion, secula i y, Eu ope. 1. In odução Nos úl imos decénios, as discussões académicas sob e eligião êm sido ca ac e izadas po um con on o eó ico en e duas na a i as sob epos as, embo a apa en emen e opos as. Po um lado, a conceção de uma pe da de ele ância social da eligião, p econizada pelos de enso es das eo ias da secula ização, na maio ia cien is as sociais eu opeus. Po ou o lado, a ideia do eg esso (do signi icado social) das eligiões, maio i a iamen e de endido po eó icos es adunidenses. No en an o, segundo Casano a (2007: 3), chegou-se a um “pon o mo o nes e deba e”, pois a eo ia adicional da secula ização adequa-se, ela i amen e bem, à ealidade eu opeia, mas não à no e-ame icana, enquan o a na a i a da i alidade dos me cados eligiosos (des egulados) é ela i amen e e icaz pa a explica a ealidade dos Es ados Unidos da Amé ica, mas não a da Eu opa. Os eó icos a i mam se necessá ia uma mudança de umo das pesquisas sob e esse enómeno, pois, chegados a es e “beco sem saída pa a o es udo sociocien í ico da eligião” (Wohl ab-Sah e Bu cha d 2017: 144), o deba e sob e a secula ização em-se o nado “in u uoso” (Casano a 2007: 1, 3). Na análise dos enómenos eligiosos con empo âneos, são cada ez mais necessá ias no as g ades analí icas: economia global, mass media digi ais ou mig ações es ão en e as o ças nuclea es. Pe e Be ge (2014), que desde a década de 1990 em e endo o seu ópico o iginal, en ende o plu alismo e 111 Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião na Eu opa con empo ânea A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 a di e sidade2, e não a secula ização, como o ema cen al na sociologia da eligião. Também Vilaça e al. (2014) ac edi am que, na en a i a de comp eende a eligião nas sociedades hodie nas, o oco dos in es igado es de e es a nos enómenos mig a ó ios e nas mudanças que, di e en es adições eligiosas e di e en es a anjos Es ado- eligiões, p o ocam na alma das dis in as sociedades. A mobilidade geog á ica e o consequen e ansnacionalismo cul u al (é nico, linguís ico ou eligioso) desenham um cená io social p og essi amen e mais di e so e que em impac os em mui os aspec os da ida cul u al e social. Isso é pa icula men e e iden e no mundo A lân ico No e onde o pa adigma de mig ação mudou ab up amen e: sociedades ipicamen e de emig ação o na am-se, sob e udo nas úl imas décadas, sociedades de imig ação ou de mig ação global (Eco 2002). Se há algo apa en emen e ans e sal nos di e en es a gumen os dos au o es ci ados é a ideia de que a di e sidade, além de se um enómeno incon o ná el das sociedades mode nas, em alguma in luência sob e a eligiosidade. O que é ques ioná el é o ipo de consequências: declínio, i alidade, nenhum dos dois ou adap ação e ecomposição? Pa a esponde mos a es a pe gun a, conside ando que não exis e uma boa eo ia social a ual sob e o binómio eligião-di e sidade, a igu a-se-nos mais pe inen e e desa ian e cons ui a base duma eo ia que, inspi ada nas e lexões dispe sas do es ado da a e, nos pe mi a comp eendê-lo mais ampla e p o undamen e. Pa a cump i es e deside a o, que em an o de ambicioso (pela dimensão que p e ende cob i ) como de a iscado (pela pa ca eo ização a ualmen e desen ol ida), analisa emos, sob e udo à luz da ealidade eu opeia, os a gumen os que conside amos mais sus en ados eo icamen e e mais coe en es empi icamen e. 2. Da di e sidade e da en a i a de comp eendê-la em elação com o eligioso O e mo di e sidade em a sua e imologia no la im di e si as, p ocu ando dize a iedade ou di e ença. É a ep esen ação, num de e minado sis ema 2 No ge al, os au o es êm ei indicando uma sepa ação en e os concei os de plu alismo e di e sidade (Vilaça 2006; Be ge 2014). O âmago do seu a gumen o é que o plu alismo é um concei o no ma i o, enquan o a di e sidade é uma noção desc i i a. O p imei o, como denuncia o su ixo ismo, é um sis ema de alo es, ins i uições ou p ocessos que acei a a di e sidade como um alo posi i o; o segundo diz espei o, desc i i a, empí ica e ac ualmen e, ao g au de he e ogeneidade cul u al duma de e minada sociedade ou num mesmo con ex o social. Nes e con ex o, op ámos pelo concei o de di e sidade. Po um lado, is o de e-se ao ac o de conside a mos mais p uden e e i a ques ões no ma i as, p ocessualis as e ilosó icas associadas ao plu alismo ou à plu alização. Po ou o lado, isso ambém se p ende com o ac o de a di e sidade es a , no malmen e, associada a pe spec i as cien í icas mais neu ais e, po consequência, me odologicamen e mais pací icas, ope ando apenas ao ní el analí ico-desc i i o. 112 Jo ge Bo elho Moniz A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 social, da mul iplicidade de di e enças e simila idades que exis em en e os indi íduos ou os g upos que os ep esen am. É a qualidade do di e so (dimensão posi i a), po oposição à cul u a de g upo, à homogeneização de cul u as ou à monocul u a (dimensão nega i a). A noção de di e sidade es á, po an o, associada aos concei os de plu alidade, mul iplicidade ou he e ogeneidade, dizendo espei o à mi íade de ideias, ca ac e ís icas ou elemen os dis in os que dis inguem os indi íduos sob e um de e minado assun o, con ex o ou ambien e. É uma exp essão inco igi elmen e plu al e incon o na elmen e associada à mul iplicidade de iden i icações cul u ais de cada g upo social. Com e ei o, a di e sidade que que emos analisa é a cul u al3, pois é a cul u a – a a és da sua capacidade de inse ção e adequação do se ao meio – que explica, dá sen ido e ag ega as di e en es cosmologias sociais, como as é nicas, eligiosas ou linguís icas. Não su p eende que, ao a a em do ópico da di e sidade, os cien is as sociais no malmen e o associem à cul u a. Embo a a di e sidade não seja um enómeno p op iamen e ecen e (Taylo 2007; Be ge 2014), com a acele ada globalização da segunda me ade do século XX o nou-se, segundo Taylo (2007: 437), i econhecí el pa a e incompa á el com qualque época his ó ica an e io . O mundo con empo âneo em-se o nado g adualmen e mais he e ogéneo cul u al, eligiosa e e nicamen e, sendo ma cado po uma di e sidade inédi a de cosmo isões que se mul iplicam i e ea elmen e (Taylo 2007). Es a é, de aco do com o es ado da a e, uma ma ca indelé el da mode nização. Pa a Be ge (2014: 53), a mode nidade e a di e sidade es ão inelu a elmen e c uzadas, pois a p imei a le a “necessa iamen e” à segunda, libe ando odos os p ocessos que a es imulam, nomeadamen e a u banização, as mig ações em massa, a al abe ização e o desen ol imen o das ecnologias de comunicação. Também pa a Vilaça (2006: 22) a di e sidade o nou-se num dos “ aços da mode nidade”. Po causa do aumen o dos luxos mig a ó ios e da mobilidade geog á ica e do p og esso dos mass media, as sociedades di e si icam-se é nica, eligiosa e linguis icamen e. Toda ia, es a c escen e he e ogeneidade não é passagei a. De aco do com a au o a, ela é a no a “no ma e não uma me a si uação ansi ó ia” (Vilaça 2006: 22). Es as pe spe i as são co obo adas po ou os au o es. Ma in (2005: 157) diz que a di e sidade é uma ca ac e ís ica “p esen e de o ma massi a no mundo con empo âneo”, Taylo (2007: 300) chama-lhe “supe no a” “galopan e” da e a mode na, Pickel (2017: 290) diz que é um dos “p ognós icos segu os pa a a Eu opa” e Vilaça e al. (2014: 2) p e eem que o seu c escimen o se man e á como esul ado dos e ei os da globalização. 3 Do a an e, semp e que nos e e i mos ao e mo di e sidade, es a emos a azê-lo à luz da ideia de di e sidade cul u al. Sal o quando indica mos o con á io. 113 Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião na Eu opa con empo ânea A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 Com e ei o, os es udos empí icos, es a ís icos, sob e endências demog á icas, p ojeções do c escimen o populacional ou dinâmicas mig a ó ias mundiais apon am pa a p o undas mudanças e, consequen emen e, pa a uma c escen e complexi icação das dinâmicas cul u ais, eligiosas ou é nicas egionais. Po exemplo, o Pew Resea ch Cen e (2015, 2017), nas suas p e isões sob e o c escimen o populacional e sob e o u u o das eligiões mundiais a é 2050, mos a o modo como o pe il eligioso do mundo es á a “muda apidamen e” (Pew 2015: 5). Is o de e-se, sob e udo, à di e ença en e as axas de e ilidade, ao amanho das populações ju enis e às con e sões eligiosas ípicas duma e a global e plu al. Mas ambém se de e ao núme o de mig ações in e nacionais. De aco do com o ela ó io das Nações Unidas sob e a mig ação in e nacional de 20174, en e 1990 e 2017 a pe cen agem de mig an es in e nacionais aumen ou, ao ní el global, 69%. Es a é uma endência c escen e, dado que o olume de mig ações in e nacionais c esceu a uma axa média anual de 1,2% en e 1990 e 2000 e a uma axa de 2,4% en e 2000 e 2017. As egiões conside adas desen ol idas ecebe am 60% do o al dessa mig ação du an e a o alidade do pe íodo. Ou a ques ão ele an e aqui é o núme o de pedidos de asilo que, em 2015, ba eu, ao ní el eu opeu, o núme o eco de de 1,3 milhões de candida u as (Pew 2017). A i econhecibilidade des es enómenos ou a sua incompa abilidade com ou os pe íodos his ó icos, como Taylo sublinha e como já ci ámos, de e-se ao ac o de não es a mos a passa po simples p ocessos de emig ação, mas de mig ação global, e essa di e ença, como eloquen emen e coloca Eco (2002), é undamen al pa a comp eende o nosso mundo globalizado. “Ainda é possí el dis ingui emig ação de mig ação quando o plane a in ei o es á a o na -se o e i ó io de deslocações c uzadas? C eio que é possí el: como disse, as imig ações são con olá eis poli icamen e, e as mig ações não; são como os enómenos na u ais. Enquan o há imig ação, os po os podem e a espe ança de man e os imig ados num gue o, pa a que não se mis u em com os na i os. Quando há mig ação já não há gue os, e a mes içagem [nes e con ex o, ac escen a íamos a di e sidade e/ou plu alismo] é incon olá el. Os enómenos que a Eu opa en a ainda en en a como casos de emig ação são, pelo con á io, casos de mig ação” (Eco 2002: 109-110). Po con a des es e en os globais, o ema da di e sidade o nou-se numa das mais “p omisso as agendas de pesquisa” (Pollack 2014: 115), sendo um dos “ ópicos mais impo an es” nas ciências sociais con empo âneas (Dok ó 2009: 26). Pa a is o mui o ajudou o ac o de os eó icos da secula ização e em começado a associá-la aos e ei os da mode nidade. O seu a gumen o básico é o seguin e: a mode nidade não le a necessa iamen e à secula ização; po ém, conduz ine i a elmen e à di e sidade (Be ge 2014; Vilaça e al. 2014). 4 C . “In e na ional Mig a ion Repo 2017 – Highligh s”. 114 Jo ge Bo elho Moniz A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 Toda ia, sal o o caso de Vilaça e al. (2014), cujo in e esse de in es igação pa ece cen a -se mais na mu ação do eligioso em condições mode nas e não no seu declínio, os ou os eó icos da di e sidade pa ecem ma cados pelo es igma da secula ização. Pa a eles, a di e sidade le a à “con aminação cogni i a” (Be ge 2014: 2) que, po con a dos c escen es con ac os in e pessoais globais, ela i iza e en aquece os consensos mo ais; à “di e enciação in e na” (Pace 2016: 9) que, quando o con ex o se al e a, le a as sociedades a ans e i a sua complexidade ex e na pa a a es e a p i ada; e à “ agilização mú ua” (Taylo 2007: 303-304) das cosmo isões ( eligiosas ou não eligiosas). Não obs an e a omissão dum a gumen o que a i me, explici amen e, a ligação (nega i a) do eixo mode nidade-di e sidade-secula ização, es a elação pa ece p esen e de o ma implíci a. Com e ei o, se a mode nização le a a almen e à di e sidade e se es a, pela conco ência de di e en es cosmo isões, p o oca uma con aminação, di e enciação ou agilização dos alo es sociais, en ão, a di e sidade ende á a en aquece , en e ou as, as ce ezas eligiosas. Ou seja, a mode nização p o oca uma di e si icação das isões do mundo que, po seu u no, é acompanhada de um en aquecimen o das con icções eligiosas. Es a conclusão pode, po ém, pa ece simplis a se en endida à luz dos e ei os complexos e, po ezes, e e sí eis da di e sidade na eligião. De aco do com Be ge (2014: 15), as eligiões não es ão de o ma alguma imunes às consequências da di e sidade; pelo con á io, es e é “o g ande desa io de odas as adições e comunidades eligiosas na e a mode na” (Be ge 2014: 15). No en an o, como o p óp io au o adi a, à medida que a di e sidade ai ex enuando as con icções eligiosas ai su gindo uma mi íade de opções cogni i as e no ma i as que, em g ande pa e, podem se eligiosas. Es a ideia, apa en emen e, dico ómica ica bem exp essa a a és da e lexão de Pickel (2017) sob e os p ocessos de secula ização e di e sidade que ma cam as sociedades eu opeias con empo âneas. Pa a ele, a di e sidade: “[É] o segundo p ognós ico segu o pa a a Eu opa (…). [Po con a dele], [a] lém dum c escimen o da discussão pública e polí ica em o no da eligião, ambém exis e (pelo menos na Eu opa) uma «pe da a asado a da ele ância da eligião». Não podemos, po conseguin e, exclui p elimina men e uma ea i ação da iden idade ( eligiosa) no u u o. No en an o, em ace do en aquecimen o dos laços, do conhecimen o ou da in eg abilidade eligiosos, isso pa ece imp o á el” (Pickel 2017: 290). Ou seja, a di e sidade pa ece en aquece endencialmen e a eligião; po ém, ambém pode e e ei os posi i os sob e ela. Toda ia, pa ece-nos que os au o es, pela o ma como cons oem os seus a gumen os – en endem semp e o c escimen o da eligiosidade, em condições de di e sidade, como uma e en ualidade –, se ap oximam mais da p imei a p oposição. 115 Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião na Eu opa con empo ânea A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 En ende os e ei os a uais da di e sidade na eligião a igu a-se, po an o, como um deside a o di ícil. Os au o es não ad ogam mais uma endência ge al, uní oca e de e minis a. Apesa de mos a em que a di e sidade pode e consequências pe niciosas pa a a eligião, a ualmen e, endo em con a a expe iência com as á ias alácias da secula ização (Moniz 2017), eles sal agua dam as suas eses, o e ecendo-lhes uma hipó ese de elação saudá el en e ambos. A a ual pos u a (p uden e e diplomá ica ou dico ómica e e e sí el) dos eó icos da secula ização, quan o aos e ei os da di e sidade na eligiosidade, con as a com as posições mais asse i as assumidas no deco e da segunda me ade do século XX. Nessa época, de um lado, encon amos os eó icos que a i mam que, com a di e si icação, as isões do mundo, eligiosas ou não, endem a se ela i izadas e a so e uma c ise de plausibilidade. Embo a po azões di e en es, es es eó icos a gumen am, no ge al, que os p ocessos de acionalização (Be ge 1990 [1967]), socie alização (Wilson 1969 [1966]) ou di e enciação (Luckmann 1967) le am a uma au onomização que engloba a di e sidade e que é a causa do en aquecimen o das cosmo isões eligiosas. Assim sendo, as p á icas e c enças eligiosas, bem como as ins i uições que as enquad am, bene iciam dum ní el mais ele ado de i meza quando enquad adas, usando o e mo be ge iano, numa es u u a de plausibilidade homogénea e pa ilhada pela maio ia das pessoas. Po con as e, sob condições de di e sidade e com a consequen e desmonopolização das pe spec i as eligiosas do mundo, a p e ensão de legi imidade inques ioná el e au o-e iden e das comunidades ou ins i uições eligiosas ende a se desa iada. As o ganizações eligiosas passam a a ua den o duma lógica de me cado onde ambém compe em com uma plu alidade de cosmo isões secula es (S olz 2010). Es a compe ição in a e ex a eligiosa a e a a c edibilidade das pe spec i as eligiosas do mundo e, po conseguin e, a inge nega i amen e os ní eis de c ença ou p á ica eligiosa. De ou o lado, os eó icos da economia eligiosa5 espe am que a pa icipação e o comp omisso eligiosos sejam in luenciados pela o e a de eligião. O seu a gumen o diz-nos que mais di e sidade eligiosa (mas ambém, maio libe dade eligiosa) aumen a a pa icipação e empenhamen o eligioso. Is o sucede, po que a di e sidade omen a a compe ição. As ins i uições e comunidades eligiosas abalham mais a incadamen e pa a sa is aze a p ocu a eligiosa e, po consequência, as pessoas endem a ica mais sa is ei as com o se iço o e ecido e a en ol e -se mais com o eligioso. Ou seja, con a iamen e aos p imei os eó icos, a di e sidade e ia um e ei o posi i o na eligião. 5 A eo ia da economia eligiosa, de endida po au o es como Lau ence Iannaccone, Rodney S a k, Roge Finke, S ephen Wa ne ou William Bainb idge, diz essencialmen e que nas sociedades mode nas exis e uma p ocu a social pe manen e po eligião, mas que a i alidade eligiosa depende da di e sidade de e compe ição en e i mas eligiosas (ig ejas ou sei as) em a i idade no me cado. 116 Jo ge Bo elho Moniz A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 Não obs an e a cen alidade des es es udos e au o es pa a o deba e dos e ei os da di e sidade na eligião, es e ópico (amiúde sob o ocábulo plu alismo) es e e, a é à a ualidade, semp e p esen e implíci a ou explici amen e nos abalhos sob e a secula ização. B uce (2002) ou Taylo (2007) associam, um mais do que ou o, o declínio ou a ma ginalização da au o idade das c enças eligiosas, a agmen ação das isões do mundo e a u u a da homogeneidade cul u al e eligiosa à di e sidade social e à plu alização das cosmo isões indi iduais. Ou os au o es azem exe cícios semelhan es. Po exemplo, Casano a (1994) analisa a posição das eligiões no mundo mode no à luz da di e sidade – a condição es u u al da mode nidade –; Ma in (2005) obse a o con ex o global de secula ização a a és dum plu alismo compe i i o e expansi o; Vilaça e al. (2014) elacionam a mode nização e os seus enómenos de mig ação in e nacional, luidez demog á ica e no a economia global com o plu alismo e com as suas múl iplas possibilidades de iden i icação e pe ença; en im, No is e Ingleha (2004) co elacionam os ní eis de eligiosidade dos indi íduos com um índice de plu alismo eligioso. Po causa des a p esença, mais ou menos assídua e mais ou menos explíci a, da di e sidade nos abalhos dos eó icos da secula ização, su gi am á ios es udos empí icos que quise am comp eende a co elação di e sidade- eligiosidade. A exis ência duma co elação nega i a oi omada como co obo ado a das eo ias da secula ização, enquan o uma co elação posi i a sus en a ia os p essupos os do modelo da economia eligiosa. A li e a u a sob e o ema c esceu an o que, nos inícios do século XXI, Cha es e Go ski (2001) ize am uma g ande e isão do ópico a a és do exame de 193 es es em 26 a igos cien í icos. Nesse es udo, epo am, sob e udo, a elação endencialmen e nega i a ou nula (quase 70% dos casos) en e a di e sidade e a pa icipação eligiosa (em qualque sen ido ge al). A co elação posi i a en e as a iá eis não é po an o comp o ada pelos seus esul ados, sal o quando aplicada a um núme o limi ado de casos. Ou o es udo, o “mais c í ico” na opinião de No is e Ingleha (2004: 97), a i ma que odos os esul ados de odas as co elações (posi i as ou nega i as) de em se abandonados (Voas, Olson & C ocke 2002). De aco do com Voas, Olson & C ocke , no início da cen ú ia, não ha ia p o as con incen es de que a di e sidade inha qualque e ei o na pa icipação eligiosa. Qualque a iação alea ó ia no núme o de casos selecionados de e mina, segundo eles, g aus de co elação di e en es. Ou seja, a elação en e di e sidade e en ol imen o e le i ia apenas a elação ma emá ica en e as medidas de pa icipação e um índice de di e sidade, não endo como base qualque a o subs an i o. Po con a disso, é-nos di o que “ odas as p o as o e ecidas po ambas as pa es do deba e são ago a suspei as” e que a di e sidade “pode não e qualque e ei o na pa icipação eligiosa” (Voas, Olson & C ocke 2002: 218). Embo a 117 Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião na Eu opa con empo ânea A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 pa ilhemos algumas das suas p eocupações, julgamo-las excessi as e, como os p óp ios au o es admi em, as p o as que eúnem são “al amen e ci cuns anciais” (Voas, Olson & C ocke 2002: 230). Po conseguin e, os es udos empí icos sob e o impac o da di e sidade na eligião con inua am. No is e Ingleha (2004), de ce o modo, em linha com Voas, Olson & C ocke , mos am que os esul ados do seu es udo não apon am pa a uma g ande in luência da di e sidade na eligião. Toda ia, admi em que algumas co elações apon am pa a uma elação o e e signi ica i a en e o p imei o e o g au de pa icipação eligiosa dos indi íduos. Es a co elação é p a icamen e semp e nega i a. Con a iamen e aos p essupos os da eo ia da economia eligiosa a “análise mul i a iada dos dados dum as o g upo de sociedades não apoia a hipó ese de que o plu alismo eligioso p oduz ní eis ele ados de eligiosidade” (No is & Ingleha 2004: 230); pelo con á io, as sociedades menos he e ogéneas ap esen am maio es índices de pa icipação eligiosa. Os abalhos de Dok ó (2009) e Pollack & Pickel (2009) ambém apon am nes a di eção. O p imei o, ao es uda a elação en e a di e sidade eligiosa e as elações de izinhança e/ou amizade, conclui que, no ge al, a in luência da di e sidade eligiosa é nega i a. Os segundos, ao examina em a co elação en e as elações Es ado- eligiões e a i alidade eligiosa, concluem, no amen e, que os dados empí icos não só não con i mam os p essupos os da economia eligiosa, como ainda os con adizem. Com e ei o, no seu es udo, as co elações, quando signi ica i as, apon am no sen ido con á io da economia eligiosa – quan o maio a di e sidade, meno a pa icipação eligiosa. Em suma, o deba e dos eó icos da secula ização sob e o plu alismo e os seus e ei os na eligião, al como odo o deba e da secula ização, em sido p olí e o, con adi ó io e inconclusi o. No en an o, conseguimos de e a qua o e apas essenciais. A p imei a, desen ol ida mais ene ge icamen e a é à década de 1970 e p econizada pelos eó icos da secula ização, asse e a que mais di e sidade signi ica menos eligião. A segunda, nascida em meados da década de 1980 e acompanhada pelos p imei os es udos empí icos mais sis emá icos dos eó icos da economia eligiosa, a i ma, in e samen e, que mais di e sidade signi ica mais eligião. A e cei a, su gida na p imei a década do século XXI, po con a des e deba e, é ma cada, como acabámos de e , po uma en a i a de acla ação das duas e apas dico ómicas o iginais. Os seus esul ados não o am conclusi os, apon ando em á ias di eções. Toda ia, ouxe am à luz, ainda que agilmen e, a co elação endencialmen e nega i a ou nula en e di e sidade e eligião. A úl ima, que se i e a ualmen e e cuja e lexão se oi adensando desde a p imei a me ade da década inicial do século XXI, p ocu a lida , ainda na au o a da sua adolescência, com a coexis ência da di e sidade (cul u al, é nica ou eligiosa) nas sociedades e com os seus p esumí eis e ei os na eligião. Es e ópico su ge ago a de o ma mais p emen e, po causa das mudanças ápidas 124 Jo ge Bo elho Moniz A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 dos p ocessos da mode nização a odas as sociedades do mundo e, segundo, po que coloca a possibilidade de ha e o ças compensa ó ias no pa adigma da secula ização – a de esa ou ansição cul u al. Con udo, elas de em se apenas en endidas como exceções empo á ias e não como uma e e são no p ocesso de secula ização. Pa a B uce (2002, 2011, 2014, 2017), em sociedades mode nas onde haja uma ce a paz cul u al, ainda que a ma ginalização da eligião possa se uma consequência in olun á ia de Es ados mode nos que se ajus am à di e sidade, não há mo i os pa a espe a que a secula ização não seja i e e sí el. Além disso, segundo o a gumen o, es as consequências se ão p imei a e mais o emen e sen idas nas sociedades ociden ais democ á icas com maio es índices de di e sidade (B uce 2017, 2018). Como imos, es a é ambém a opinião de Pickel (2017), quando nos diz, ainda que com algumas ese as, se imp o á el que o eligioso saia o alecido de sociedades o emen e di e sas ao ní el cul u al. Toda ia, es a pa ece se uma posição ela i amen e disseminada no deba e a ual sob e a secula ização, is o que á ios au o es ci am di e en es e ei os nega i os da di e sidade na eligião: desde a indi e ença (Quack & Schuh, 2017), à suspeição (G aham, 2017), ao silenciamen o (Woodhead, 2012), à ince eza (Pollack & Ros a, 2017) a é ao seu pe ecimen o (McCa ee, 2017). Tal ez po isso B uce (2018) enha ecen emen e c i icado a e a ação de Be ge , conside ando-a desnecessá ia. Com e ei o, desde os meados da década de 2000 que Be ge em, explici amen e, e endo a sua posição ela i amen e aos e ei os dos p ocessos da mode nidade, nomeadamen e da di e sidade, no eligioso: “O que não en endi quando comecei (…) oi que o que mudou não oi necessa iamen e o quê da c ença, mas o como da c ença. O que o plu alismo e as suas dinâmicas psicológicas e sociais ouxe am oi que a ce eza se o nou mais di ícil de alcança . É a isso que chamo o como da c ença. É mais ulne á el. (…) Não es ou a dize que o plu alismo é exclusi amen e hodie no, mas acho que a mode nização in ensi icou es e p ocesso, an o em p o undidade como em alcance (…). A gumen a ei que a mode nidade, mui o p o a elmen e, mas não ine i a elmen e, le a ao plu alismo, uma plu alização de cosmo isões, alo es, e c., incluindo a eligião (…)”. (Be ge 2006: 153-154) (des aque nosso). “Es a a bas an e co e o ao a i ma que a mode nidade p oduz plu alismo, mas o plu alismo não p oduz necessa iamen e secula idade. O que ele p oduz, quase ine i a elmen e, é uma si uação em que nenhuma cosmo isão é inques ioná el, de modo que os indi íduos êm de escolhe en e as di e en es cosmo isões o e ecidas. Con udo, mui as dessas escolhas podem se eligiosas – e, de ac o, são-no na maio ia do mundo con empo âneo.” (Be ge 2011: 99, apud B uce 2018: 105-106). O g ande pon o de discó dia en e B uce e Be ge é que, enquan o o p imei o conside a que a di e sidade conduz ine i a elmen e a um mundo de 125 Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião na Eu opa con empo ânea A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 maio indi e ença eligiosa, o segundo ê a di e sidade como uma mul iplicação de escolhas sociais não necessa iamen e secula es. Pa a Be ge (2014), po um lado, os eó icos da secula ização es a am ce os ao analisa que a mode nização desen ol e um discu so secula in luen e que, como ma ca da e a secula , assume uma posição dominan e na sociedade e na men e das pessoas. Po ou o lado, es a am e ados ao p essupo que es e discu so secula expulsa ia as cosmo isões eligiosas, assumindo um p edomínio o al sob e as de inições da ealidade e sob e as o ien ações alo a i as. Hou e, segundo o au o , uma subes imação do eligioso po pa e dos eó icos da secula ização ou da secula idade, mui os deles já ci ados na secção an e io , ela i amen e à exclusi idade, sup emacia ou hegemonia do secula . Além disso, e á ha ido uma subes imação no conce nen e à capacidade dos indi íduos pa a i e em dis in as es e as da ealidade, eligiosa e secula , al e nando en e ambas (Be ge 2014: 112). Apesa de a mode nidade e e ei os secula izan es – consubs anciados essencialmen e na eme gência dum pad ão imanen e de in e p e a o mundo, ipicamen e aylo iano –, essas consequências são limi adas. Ou seja, os p incípios eligiosos, as p o íncias de signi icado ini o, desc i as po Be ge e Luckmann (1966), e os i uais eligiosos conse am o seu undamen o. A eligião e a secula ização não são, po an o, o mas mu uamen e excluden es de enca a a ealidade, mas abo dagens complemen a es. Há uma di e sidade da men e, espelhada nos compo amen os das in e ações quo idianas, que se e le e numa ação ecíp oca en e o eligioso e o secula – um ipo de linguagem híb ida que pode ag ega os dois. Pa a Be ge (2014), es e é o p óp io signi icado da di e sidade das cosmo isões – a subsis ência duma plu alidade de discu sos eligiosos e secula es não es anques e igualmen e legí imos na psique e nas p á icas dos indi íduos. A í ulo exempli ica i o, podemos ci a o núme o signi ica i o de pessoas que, em média, nos países selecionados, conside a Deus (50%) e a eligião (63%) ele an es pa a a condução das suas idas, eco e a se iços eligiosos (66%), e i a con o o ou o ça da eligião (67%) ou se conside a eligiosa (77%)19. A manu enção da ele ância dos une ais eligiosos em odos os países selecionados ou da ins ução eligiosa (nas escolas públicas e na ca equese) em Po ugal, mesmo en e não c en es (33,5%) e c en es sem eligião (56,4%) (Dix 2013: 69), e a endência ge al de c escimen o dos casamen os eligiosos não- ca ólicos em Po ugal20, dos ba izados na Eslo áquia21 e de ambos (incluindo o casamen o ca ólico) na Polónia22, mos am ambém como a opção eligiosa é plausí el e legí ima na e a secula . 19 Dados do EVS pa a 2008. 20 C . Po da a, “Fo ma de celeb ação do casamen o”. 21 C . Š a is ický ú ad SR, KBS, ECAV. 22 C . Ins y u S a ys yki Kościoła Ka olickiego za 2016 ok. 126 Jo ge Bo elho Moniz A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 Ou os exemplos da manu enção do discu so ou habi us eligioso (Bou dieu, 1998), ci ando nes e con ex o apenas o caso po uguês, são, po exemplo: a) Fá ima e o aumen o do u ismo eligioso, nomeadamen e o c escimen o do núme o de pe eg inos (nacionais e es angei os) em celeb ações o iciais do san uá io e de missas o iciais e pa icula es, en e os pe íodos 2005, 2008 e 201723. b) A p esença e des aque dado aos digni á ios eligiosos em ce imónias o iciais públicas, como a abe u a do ano judicial, a bênção das i as dos inalis as uni e si á ios ou o início do mais ecen e manda o p esidencial solenizado, em 2016, com uma o ação ecuménica na Mesqui a Cen al de Lisboa. c) A enomeação das eguesias de Lisboa (2011) e a manu enção das designações eligiosas, como San a Ma ia Maio , Mise icó dia ou San o An ónio ou a nomeação da no a pon e sob e o io Dou o (2018) - Pon e D. An ónio F ancisco dos San os (an igo bispo do Po o). d) O caso dos e iados ci is e eligiosos (2012) em que, no con ex o da c ise inancei a, económica e social o Es ado po uguês, que endo diminui o núme o de e iados no país, dec e ou o im dos e iados dos dias do Co po de Deus e de Todos os San os. No en an o, po p essão social e da San a Sé, eles o am apenas suspensos empo a iamen e, endo sido epos os em 2016. e) A pa ce ia social es a égica na á ea da solida iedade social en e o Es ado e as ig ejas e comunidades eligiosas (a a és do inanciamen o público da úl imas). Lemb emos, po exemplo, o plano de eme gência social es abelecido en e a Câma a Municipal e o Pa ia cado do Po o (2013) ou o p émio dos di ei os humanos, o e ecido pela Assembleia da República, e que en e 2010 e 2012 (um dos pe íodos mais agudos da c ise) apenas dis inguiu o ganizações de ma iz eligiosa (ca ólica) ou lide adas po um dos seus memb os. O e o de Be ge oi, como o p óp io admi e (Be ge 2014: ix-x), e comp eendido a di e sidade apenas como um a o que sus en a a a secula ização, não en endendo que, mesmo em ci cuns âncias de mul iplicidade de escolhas cogni i as e no ma i as, mui as dessas opções con inuam a se eligiosas, como imos nos á ios exemplos ci ados. Be ge p ocu a esol e o elho p oblema das eo ias da secula ização, não assumindo uma co elação ine i á el en e as condições cons i uido as da mode nidade e os p ocessos da secula ização. Des e modo, a mode nização deixa, ine i a elmen e, de p oduzi a secula ização e o pe ecimen o de ini i o 23 C . San uá io de Fá ima, “Dados es a ís icos”. 127 Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião na Eu opa con empo ânea A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 da eligião. En e o eixo adicional mode nização- eligião, o au o coloca um no o elemen o mode nização-di e sidade- eligião. Como imos, na no a concepção be ge iana a mode nidade le a inelu a elmen e à di e sidade. Toda ia, es a úl ima p o oca a al con aminação cogni i a a a és da qual as pessoas, com di e en es cosmo isões, se alam e in luenciam de o ma pe manen e. De aco do com Be ge (2014: 15), isso em duas consequências essenciais: undamen alismo ou ela i ização. O p imei o balcaniza a sociedade, conduzindo a si uações de coe ção ou con li o pe manen e; o segundo, mui o de edo da linha adicional be ge iana, en aquece o consenso mo al sob e o qual as sociedades não sob e i em. Embo a seja da opinião de que o p oblema da di e sidade e á de se encon ado com um meio- e mo en e as duas p oposições, Be ge pa ece en ende que, em condições de maio di e sidade, a segunda p oposição ende a se dominan e. De aco do com o a gumen o, a di e sidade “p o oca uma si uação em que a ela i ização se o na numa expe iência pe ene” e, com isso, as ce ezas inques ioná eis passam a se uma “me cado ia escassa” (Be ge 2014: 9). Assim sendo, se a mode nização p o oca a di e sidade e se a di e sidade ela i iza e en aquece as ce ezas adqui idas, p i ando a eligião da sua condição inques ioná el, a di e sidade omen a á, i emedia elmen e, a secula idade. Como o p óp io Be ge con inua a admi i , os p ocessos da mode nidade (sob e udo as mig ações, a u banização, educação e os média digi ais) en aquecem o eligioso, pelo ac o de o expulsa em de g ande pa e da o dem ins i ucional. O a, se a mode nidade conduz à di e sidade e se a di e sidade ela i iza as ce ezas eligiosas, a consequência de adei a é que a mode nidade, po in e médio da di e sidade, é acompanhada dum en aquecimen o do eligioso. Es a p opos a é, mesmo com as e isões de Be ge e com o seu pedido de subs i uição do pa adigma da secula ização pelo da di e sidade, o ce ne de qualque eo ia da secula ização. Tal ez po isso, ainda hoje, B uce (2017) e ou os au o es esis en es às c í icas à eo ia da secula ização (Pickel 2017) consigam conco da com Be ge , po que em ambos a di e sidade diminui a plausibilidade dos comp omissos eligiosos, a a és da edução ou ela i ização da ce eza sob e c enças e a gumen os eligiosos. Is o signi ica que a mode nidade p oduziu uma es u u a secula , imanen e na concepção aylo iana, que pe mi e aos indi íduos lida com mui as á eas da ida sem qualque e e ência ao eligioso. Como nos diz Amme man (2014), na sua espos a a Be ge , quando es e quad o secula / imanen e se o na dominan e, como suge e a no a concepção be ge iana, e os indi íduos deixam de e locais de in e ação eligiosa egula – onde o discu so eligioso pudesse se p eponde an e – é no mal que isso molde a sua manei a de es a no mundo. Ou seja, as pessoas deixam de consegui “ ala sob e uma – ou al ez mesmo e uma – camada de ealidade espi i ual” quando in e agem no seu quo idiano (Amme man 2014: 196). 128 Jo ge Bo elho Moniz A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 Como pudemos analisa , especialmen e com a análise do abalho mais ecen e de Be ge , as di e en es eses que en am en ende os impac os da di e sidade na eligião êm an o de complexo como de apa en emen e con adi ó io. Em suma, embo a pa eça con ap oducen e apoia as eo ias da secula ização, nomeadamen e em ace da di e sidade das sociedades mode nas e da o ça da eligiosidade den o delas, ambém pa ece implausí el con inua a nega a e olução dum quad o imanen e que, no es o ço de ges ão dessa plu alidade e i alidade, é ela i amen e neu o ou hos il pa a com a eligião. 4. Conside ações inais Num comen á io inal, pesando o que aqui oi analisado, podemos dize que, conside ando o conjun o de países e o pe íodo empo al selecionados, a eo ia que asse e a que a di e sidade apenas p o oca a deslocação e ecomposição do eligioso e não o seu declínio pa ece e uma sus en ação eó ica bas an e ágil. Ve i icámos que a eligião, al como Be ge (2014) admi iu, não es á imune às consequências da di e sidade, sendo, aliás, um dos seus maio es desa ios con empo âneos. Não é po an o de exclui a hipó ese de que is o suceda po con a do sex e o de azões p é ia e implici amen e examinadas e que ago a explici amos: a) O g adual p edomínio dum iés iluminis a – assume um a as amen o da eligião do espaço público. b) O es abelecimen o de sis emas de secula ismo (mode ado) – implemen a p ocessos de egulação/con olo do eligioso, baseados em p incípios de neu alidade secula . c) O desen ol imen o e hegemonia de cul u as de secula idade – eclamam a p imazia da au o idade polí ica, acional e secula . d) A diminuição dos ní eis de li e acia eligiosa e do papel do eligioso nas p á icas quo idianas dos indi íduos – um espaço público que passa a i e maio i a iamen e de e e ências imanen es. e) A mais di ícil acessibilidade às p o íncias de signi icado ini o e a diminuição das con i mações anscenden es ace-a- ace – o que o na a ida quo idiana menos susce í el à in luência da eligião. ) A con aminação cogni i a e o e ei o agilizado e ela i izado da p óp ia di e sidade – há uma ela i ização das ce ezas incon es á eis que conduz ao en aquecimen o do consenso eligioso. 129 Suspendendo a (Des)C ença? Di e sidade cul u al e eligião na Eu opa con empo ânea A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 No en an o, es e sex e o de asse ções e as cons uções eó icas que as acompanham, não são sinónimos dum pe ecimen o da eligião, sendo ainda menos ibu á ios da ideia de que isso sucede á duma o ma uni e sal, unilinea ou de e minis a. Conco dados com a asse ção de Be ge que diz que, não obs an e a exis ência dalguns e ei os secula izan es (nomeadamen e da eme gência e p edomínio dum pa adigma imanen e de in e p e ação do mundo), a mode nidade/di e sidade em consequências limi adas no eligioso. Além disso, a p óp ia eligião man ém a sua in luência, sendo po ezes capaz de a e o ça . Como sublinhámos, nos casos e e en es à manu enção e adap ação do discu so eligioso ou a é no caso dos ba izados ou dos ma imónios eligiosos, a p óp ia cul u a de secula idade é igualmen e o çada a adap a -se ao eligioso. Há, em ce o sen ido, uma complemen a idade indelé el en e ambas, usando uma exp essão be ge iana; uma con aminação ecíp oca, pe manen e, ei a de a anços e ecuos, en adas e saídas, ma cada po um hib idismo que mis u a o sag ado e o secula , como nos disse Amme man. Assim sendo, que conco demos mais ou menos com os a gumen os clássicos de Be ge , Luckmann ou Luhmann, com os con empo âneos de B uce ou Pickel, com os e a ados de Be ge ou com os do quase unânime Taylo ela i amen e à agilização da eligião pela di e sidade, a e dade é que, a ualmen e, es es são alguns dos es o ços cien í icos mais comple os pa a se comp eende o binómio eligião-di e sidade. Com e ei o, nes e a igo a nossa in enção não oi p op iamen e conco da ou disco da com os seus a gumen os. Quisemos sob e udo encon a uma o ma de enquad a eó ica e geog a icamen e es a no a dinâmica das sociedades mode nas ociden ais. Não que emos diminui a ele ância do abalho po nós desen ol ido, a é po que, modés ia à pa e, conside amo-lo p o ícuo pa a enquad a e desa ia as eo ias clássicas e mode nas da secula ização e pa a lança no as pis as de in es igação na á ea. Toda ia, sabemos que se ão necessá ios mais es udos, nomeadamen e empí icos, pa a se sus en a e obus ece es a no a na a i a ela i a ao luga do eligioso em condições de di e sidade hodie na ou, e en ualmen e, pa a alsi icá-la. Sabemos que se ão imp escindí eis mais in es igações, p o a elmen e com maio ampli ude e ab angência, en ol endo na u almen e mais ecu sos (humanos, empo ais e inancei os), que conside em no as á eas geog á icas e pe íodos de análise mais amplos. Con udo, nes e momen o, apenas podemos espe a que es e a igo seja um con ibu o nesse sen ido. 130 Jo ge Bo elho Moniz A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 21, nº 42. Segundo semes e de 2019. Pp. 109-132. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2019.i42.06 Bibliog a ia: Amme man, Nancy T., “Response by Nancy Amme man: Mode n al a s in e e yday li e” pp. 94-110, em Be ge , Pe e L. (au .), The Many Al a s o Mode ni y: Towa d a Pa adigm o Religion in a Plu alis Age, Bos on/ Be lim: De G uy e , 2014. 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