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Política, poder e género nas séries televisivas europeias Borgen (Dinamarca) e Le Baron Noir (França)

Abstract

Nesta exposição, analisa-se como a Política, o Poder e o Género são representados nas séries televisivas europeias Borgen (Dianamarca) e Le Baron Noir (França). Borgen foi exibida entre 2010 e 2013 e tem como protagonista principal, Birgitte Nyborg, uma candidata de um pequeno partido político que se torna, mais tarde, primeira-ministra dinamarquesa. Le Baron Noir é uma série francesa (2016- 2020) que tem como protagonistas principais Philipe Rickwaert e Amélie Dorendeu, militantes destacados do partido socialista francês e candaditos à presidência. As duas obras de fição focam a mediatização e a profissionalização da política; a complexidade da tomada de decisões; as contradições entre a realpolitik e a moral, bem como os desafios pessoais que se colocam aos atores políticos, nomeadamente às mulheres. O objetivo do artigo é identificar semelhanças e diferenças entre as duas séries nos aspetos ficcional, polítíco e na abordagem do exercício do poder em função do género. Com vista a contextualizar a análise, o estudo traça um breve histórico das obras de ficção televisiva exibidas em Portugal, com ênfase na política e nas questões de género. A metodologia utilizada é ensaística e fundamenta-se na análise das personagens e trajetórias das protagonistas femininas, a partir de categorias pré-definidas, com base em princípios da teoria da narratologia.

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Política, poder e género nas séries televisivas europeias Borgen (Dinamarca) e Le Baron Noir (França)

Author: Cunha, Isabel Ferin
Publisher: Universidad de Sevilla
Year: 2021
DOI: 10.12795/RiCH.2021.i16.12
Source: https://idus.us.es/bitstreams/8e0c18a8-8d04-40af-af8b-e2f1cc123d6f/download
Como ci a es e a ículo: FERIN-CUNHA, Isabel (2021: “Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as
eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança)”, en Re is a In e nacional de His o ia de la
Comunicación, (16), pp. 254-280.
© Uni e sidad de Se illa 1
POLÍTICA, PODER E GÉNERO
NAS SÉRIES TELEVISIVAS
EUROPEIAS BORGEN
(DINAMARCA) E LE BARON
NOIR (FRANÇA)
Poli ics, Powe and Gende in he Eu opean ele ision
se ies Bo gen (Denma k) and Le Ba on Noi (F ance)
DOI: h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12
Recibido: 22-4-2021
Acep ado: 10-6-2021
Publicado: 30-5-2021
Isabel Fe in-Cunha
Uni e sidade de Coimb a, Po ugal
ba one. e i[email p o ec ed]
ORCID h ps://o cid.o g/0000-0001-8701-527X
250
Como ci a es e a ículo:
FERIN-CUNHA, Isabel (2021: “Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi
(F ança)”, en Re is a In e nacional de His o ia de la Comunicación, nº 16, 2021, pp. 250-275.
h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12
Isabel Fe in-Cunha
Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 2
Resumo: Nes a exposição, analisa-se como a Polí ica, o Pode e o Géne o são
ep esen ados nas sé ies ele isi as eu opeias Bo gen (Dianama ca) e Le Ba on Noi
(F ança). Bo gen oi exibida en e 2010 e 2013 e em como p o agonis a p incipal,
Bi gi e Nybo g, uma candida a de um pequeno pa ido polí ico que se o na, mais a de,
p imei a-minis a dinama quesa. Le Ba on Noi é uma sé ie ancesa (2016- 2020) que
em como p o agonis as p incipais Philipe Rickwae e Amélie Do endeu, mili an es
des acados do pa ido socialis a ancês e candadi os à p esidência. As duas ob as de
ição ocam a media ização e a p o issionalização da polí ica; a complexidade da omada
de decisões; as con adições en e a ealpoli ik e a mo al, bem como os desa ios pessoais
que se colocam aos a o es polí icos, nomeadamen e às mulhe es. O obje i o do a igo é
iden i ica semelhanças e di e enças en e as duas sé ies nos aspe os iccional, polí íco e
na abo dagem do exe cício do pode em unção do géne o. Com is a a con ex ualiza a
análise, o es udo aça um b e e his ó ico das ob as de icção ele isi a exibidas em
Po ugal, com ên ase na polí ica e nas ques ões de géne o. A me odologia u ilizada é
ensaís ica e undamen a-se na análise das pe sonagens e aje ó ias das p o agonis as
emininas, a pa i de ca ego ias p é-de inidas, com base em p incípios da eo ia da
na a ologia.
Pala as-Cha e: Sé ies; Ficção Polí ica; Polí ica e Géne o; Bo gen; Le Ba on Noi .
Resumen: En es a exposición analizamos cómo la Polí ica, el Pode y el Géne o es án
ep esen ados en las se ies de ele isión eu opeas Bo gen (Dinama ca) y Le Ba on Noi
(F ancia). Bo gen se mos ó en e 2010 y 2013 y es á p o agonizada po Bi gi e Nybo g,
candida a de un pequeño pa ido polí ico que luego se con ie e en p ime a minis a
danesa. Le Ba on Noi es una se ie ancesa (2016-2020) cuyos p incipales p o agonis as
son Philipe Rickwae y Amélie Do endi, des acados miemb os del pa ido socialis a
ancés y candida os a la p esidencia. Las dos ob as de icción se cen an en la cobe u a
mediá ica y la p o esionalización de la polí ica; la complejidad de la oma de decisiones;
las con adicciones en e la ealpoli ik y la mo al, así como los desa íos pe sonales que
en en an los ac o es polí icos, a sabe , las muje es. El obje i o del a ículo es iden i ica
simili udes y di e encias en e las dos se ies en é minos de icción, polí ica y el en oque
del eje cicio del pode basado en el géne o. Pa a con ex ualiza el análisis, el es udio
aza una b e e his o ia de las ob as de icción ele isi a mos adas en Po ugal, con
én asis en la polí ica y las cues iones de géne o. La me odología u ilizada es ensayís ica
y se basa en el análisis de los pe sonajes y ayec o ias de las p o agonis as emeninas,
a pa i de ca ego ías p ede inidas, a pa i de p incipios de la eo ía de la na a ología.
Palab as cla e: Se ie; Ficción polí ica; Polí ica y géne o; Bo gen; Le Ba on Noi .
Abs ac : In his pape , we analyse how Poli ics, Powe and Gende a e ep esen ed in
he Eu opean ele ision se ies Bo gen (Denma k) and Le Ba on Noi (F ance). Bo gen
was shown be ween 2020 and 2013 and i s main p o agonis , Bi gi e Nybo g, is a
candida e o a small poli ical pa y ha la e becomes Danish P ime Minis e . Le Ba on
Noi is a F ench se ies (2016-2020) whose main p o agonis s a e Philipe Rickwae and
Amélie Do endeu, p ominen mili an s o he F ench socialis pa y and candida es o
he p esidency. The wo ic ions ocus on media co e age and he p o essionaliza ion o
poli ics; he complexi y o decision-making; he con adic ions be ween ealpoli ik and
mo als, as well as he pe sonal challenges acing poli ical ac o s, namely women. The
aim o he a icle is o iden i y simila i ies and di e ences be ween he wo se ies in he
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Isabel Fe in-Cunha
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ic ional and poli ical aspec s conside ed gende -based aspec s o he exe cise o powe .
To con ex ualize he analysis, he s udy aces a b ie his o y o ele ision ic ion shown
in Po ugal, wi h an emphasis on poli ics and gende issues. The me hodology used is
essayis ic and is based on he ajec o ies o he emale p o agonis s, om p e-de ined
ca ego ies, based on p incipals o he na a ology heo y.
Keywo ds: Se ies; Poli ical Fic ion; Poli ics and Gende ; Bo gen; Le Ba on Noi .
In odução
Os emas da polí ica e do pode na icção me ecem, há décadas, g ande a enção na
li e a u a e, pos e io men e, na ilmog a ia e na ele isão, onde su gem nas suas
a ian es e o mas de a i idade humana, exp imindo uma elação dialé ica en e
indi íduos, sexos, g upos, cole i idades, ins i uições, nações, países e egiões. A
emá ica e le e a ensão pe manen e que a icula o espaço público e o p i ado,
en ol endo ins i uições e sis emas de go e nação; opções polí icas e económicas e, em
simul âneo, condicionando as i ências e expe iências quo idianas da ida humana. A
associação en e polí ica e pode con e e à icção uma a iedade de sc ip s que o a
p i ilegia a capacidade de negociação dos indi íduos ou g upos, o a ap esen a
ins umen os de coação de di e sa na u eza— ísica, psicológica, sexual, mo al, é ica,
económica, polí ica e ou os—, o a ob iga os “mais acos” a subme e em-se aos “mais
o es”. Es es p ocedimen os inspi am-se não só na adição, no cos ume e na lei, como
na capacidade de pe suasão, legi imando-se pelo ca isma ou po expedien es de coação
ísica e psicológica (Bobbio, 2004).
O en endimen o que se em da na u eza da icção polí ica conside a que es as ob as —
na li e a u a, no ea o, no cinema, na ele isão ou em s eaming — endem a discu i
ideias, o mas de go e no, ou decisões legisla i as, embo a não se eximam a con on a
ca ác e es, aje ó ias de ida e emoções de pe sonagens (Ho mann, 2010). Com es es
elemen os, os au o es, o ei is as e c iado es de icção p ocu am coloca em cena os
bas ido es da ida polí ica —os d amas e con li os mo ais, é icos e emocionais dos
deciso es— expondo as an ecâma as do pode e da polí ica. Alguns ipos de icção são,
pa icula men e, desen ol idos, ais como os que p ocu am aze uma econs ução
his ó ica; os que êm como obje i o a in e enção social; os que almejam u iliza a
es ó ia como ins umen o de al abe ização ou de denúncia; ou ainda os que isam a
ein e p e ação de enómenos, acon ecimen os ou p ocessos polí icos (Ho mann,
2010). Em simul âneo, os au o es e c iado es p ocu am di eciona o seu olha pa a um
país, nação, g upo ou indi íduo, independen emen e do géne o, c iando con ex os e
si uações especí icas no desen ola de uma ob a de icção polí ica (Bondebje g, 2015).
A in odução de ques ões de géne o, nas sé ies ele isi as e em s eaming, eio
di e si ica as amas, adensando e complexi icando os o ei os, ao acen ua os con li os
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Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança)
Isabel Fe in-Cunha
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i idos pelas mulhe es na polí ica (Pax on, Hughes e Kuno ich, 2007; Cab e a e Ma ins,
2019). O oco nas ques ões de géne o in oduziu no os deba es sob e as ensões en e
a ida pública e os espaços p i ados; en e as decisões acionais e o di ei o à emoção,
undadas em es e eó ipos cul u ais e sociais associados às ca ac e izações de géne o
(Sil ei inha, Peixinho e San os, 2010). O acesso, ia s eaming, a es es p odu os
aumen ou exponencialmen e o seu consumo e consolidou uma e en e de p odução
que p opo ciona, aos espec ado es, exposição, e lexão e pa icipação na polí ica em
sen ido la o.
O olha sob e a icção polí ica é, na u almen e, condicionado pelas aje ó ias e pelos
con ex os da exibição. Em Po ugal, mesmo no pe íodo da di adu a, e minada a 25 de
ab il de 1974, e essal adas as condicionan es sociais do país, ha ia acesso a ob as, de
di e en es nacionalidades, que e am exibidas na ele isão pública, Rádio Tele isão
Po uguesa (RTP). Na ida polí ica po uguesa, no pós-Re olução democ á ica de 1974,
obse a-se uma sub- ep esen ação e in isibilidade das mulhe es (Cab e a e Ma ins,
2019). A ques ão do géne o na polí ica, su gia sub ilmen e e a pa i de es e eó ipos
consolidados sob e as mulhe es e o seu “luga / unção” na sociedade, em ob as de
ea o, sé ies e ilmes de o igem no e-ame icana. A en ada de ope ado es p i ados no
me cado ele isi o, nos anos 90 em Po ugal, eio aze no as dinâmicas à comp a de
p odu os e à p odução. A impo ação de eleno elas b asilei as onou-se dominan e e
alimen ou, po uma década, os canais públicos e p i ados (Cunha, 2003). Es a ealidade
não oi, no en an o, excluden e, na medida em que p odu os de o igem b i ânica e
ame icana con inua am a ci cula , enquan o su gia uma indús ia nacional de icção que
se a i mou com o início do milénio, po meio de ele ilmes, eleno elas e sé ies. A
chegada de no as ecnologias, como o cabo e a ib a, e dos canais pagos, on demand e
em s eaming, c iou uma dinâmica cosmopoli a de pa ilha e isionamen o onde se
inse e a análise das ob as Bo gen e Le Ba on Noi .
O obje i o des e a igo é e le i , a pa i das sé ies Bo gen (Dianama ca, 2010-2013) e
Le Ba on Noi (F ança, 2016-2020), sob e como as mulhe es são ep esen adas no
exe cício de al os ca gos de pode nas democ acias eu opeias. T abalhos como os de
Popo ié (2019), Sil ei inha, Peixinho e San os (2012), bem como de Pax on, Kuno ich,
Hughes (2007) inspi a am es a análise. Sendo Po ugal um pequeno país eu opeu, como
a Dinama ca, mas sem a adição de pa icipação polí ica eminina, es e exe cício de
análise p e ende escla ece os cons angimen os e dilemas que, ainda no século XXI, as
mulhe es en en am na polí ica. O oco da análise incide nos pe cu sos e na
ep esen ação das mulhe es, em al os ca gos de go e nação, embo a se e i a ou as
pe sonagens e con ex os de pode .
A sé ie dinama quesa Bo gen é da au o ia de Adam P ice, Tobias Lindholm e Jeppe
G am, endo sido ansmi ida na Danma ks Radio, em ês empo adas de 10 episódios
cada, en e 2010 e 2013. A p o agonis a p incipal, Bi gi e Nybo g, é uma candida a,
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casada e com ilhos adolescen es, pe encen e a um pequeno pa ido polí ico, que se
o na, mais a de, p imei a-minis a dinama quesa. Le Ba on Noi , sé ie ancesa exibida
em ês empo adas, en e 2016 e 2020, no Canal +, é de au o ia de E ic Benzek i e Jean-
Bap is e Dela onm. A sé ie em como p o agonis a p incipal Philipe Rickwae , um ex-
ope á io, ex-p esiden e da câma a de Dunke que, conselhei o do Pa ido Socialis a
F ancês e spin doc o dos candida os a p esiden es da República e po im, ele mesmo,
candida o a p esiden e de F ança. Nes a exposição, o oco de in e esse si ua-se na
pe sonagem de Amélie Do endeu, memb o des acado e assesso a de um P esiden e da
República, ao qual sucede á, g aças aos conselhos do spin doc o Philipe Rickwae .
A pa i de uma lei u a ex e io ao luga de p odução, is o é, ealizada em con ex o
sócio-polí ico po uguês, p e ende-se iden i ica semelhanças e di e enças en e as duas
sé ies, an o no aspe o iccional, como polí íco, assim como na abo dagem das ques ões
de géne o. Salien a-se que a sé ie Bo gen an ecipou, a eleição na Dinama ca de uma
mulhe pa a p imei a-minis a, e Le Ba on Noi acompanhou a eme gência de no as
o ças polí icas, nomeadamen e o despon a de Emmanuel Mac on, pos e io men e
elei o p esiden e de F ança (2018).
U iliza-se uma pe spe i a me odológica ensaís ica, com base em p incípios da eo ia da
na a ologia e media, explici ada em Reis (2018), Hühn, Pie , Schmid e Schöne (2009),
Flude nick (2006), Ful on, Huisman, Mu phe e Dunn (2005). Po se a a de sé ies
exibidas em Po ugal, com um co pus cons i uído po duas sé ies em línguas
es angei as, dinama quesa (Bo gen) e ancesa (Le Ba on Noi ), a análise não incidi á
no discu so, mas p i ilegia á a iden i icação de luga es, cená ios e si uações; a
cons ução de pe sonagens e os seus aços cogni i os. Em simul âneo, obje i a-se
comp eende como as duas sé ies desc e em e de alham os e i ó ios da polí ica, bem
como pe cebe se as sé ies dis inguem o exe cício do Pode em unção do géne o
(S egge Gemzøe, 2020). Nes a úl ima pe spe i a, p e ende-se in es iga : 1) os aços
que ca ac e izam a pe sonagem p incipal de Bo gen, endo como hipó ese a ideia de
“u opia da polí ica”, encenada no eminino pela p imei a-minis a; 2) os elemen os
cons i u i os da pe sonagem de Amélie Do endeu em Le Ba on Noi , como a
consubs anciação da ealpoli ik, assumida pelas mulhe es, na lu a pelo pode .
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1 A cons ução do olha ex e io : ma cos
do eminino na icção polí ica se iada
em Po ugal
O me cado ele isi o em Po ugal nasce no início dos anos no en a, com a c iação de
duas ele isões p i adas: a Sociedade Independen e de Comunicação (SIC, 1992) e a
Tele isão Independen e (TVI, 1993). Es as es ações ie am jun a -se aos dois canais
públicos da Rádio Tele isão Po uguesa, undados ainda sob a di adu a: a RTP1, em 1957
e a RTP2, em 1968. Desde o início das emissões egula es das es ações públicas, a icção
assumiu um papel es u u an e nas g elhas de p og amação, com ên ase em o ma os
como o ele ea o, o ilme e o olhe im. En e p oduções domés icas e impo adas o
leque de opções en ol ia a p odução nacional, no e-ame icana, b i ânica e, mais
espo adicamen e, a ancesa. A p odução em língua cas elhana ganhou, nes e cená io,
alguma ep esen a i idade com base em ilmes di ecionados pa a c ianças e jo ens,
in e p e ados po Ma isol e Joseli o, que alimen a am, não só os es e ó ipos de sel
made women/sel made man no mundo la ino, como uma indús ia discog á ica, em
c escimen o, nos inais da década de 50 e inícios de 60 (Cunha, 2003).
A p imei a g ande up u a, na o e a da ele isão pública acon ece em 1977, no pe íodo
pós e olução do 25 de Ab il de 1974, quando é impo ada do B asil a eleno ela
Gab iela, p oduzida pela TV Globo, baseada no omance do esc i o b asilei o Jo ge
Amado. Es a eleno ela abo da a as desigualdades sociais, o pode ins alado dos
senho es da e a, bem como a submissão das mulhe es na ida pública e p i ada. A sua
exibição, num clima pós e olução, ouxe, pa a Po ugal, emas, dilemas, con li os e
aspi ações com que os po ugueses, e as po uguesas, se iden i ica am
maio i a iamen e, con ibuindo pa a a emancipação e a mudança do papel da mulhe
na sociedade (Cunha, 2003). Dos anos se en a aos no en a, do século XX, a ele isão
pública man ém uma p og amação mui o cen ada, no p ime- ime, nas eleno elas
b asilei as, embo a exiba ou as ob as, ais como ea o, cinema e soap ope as, como a
ame icana Dallas, es eada em 1981, com g ande sucesso. A li e a u a académica sob e
as soop ope a ende a c i ica o o ma o, embo a haja au o es que o de endam (Ang,
1985), po e o ça o pode pa ia cal e elega as mulhe es pa a um quo idiano de
papéis adicionais (Ge ag hy, 1991; Blumen hal, 1997). De salien a , em 1993, a
adap ação humo ís ica que oi ealizada da sé ie b i ânica, Yes, Minis e (1980), com o
í ulo A Mulhe do Senho Minis o, cen ada nos bas ido es da go e nação po uguesa.
Na adap ação, p e alece o cená io domés ico e pon i ica a mulhe do minis o que
exe ce, a pa i das o inas do casamen o, pode e in luência nas decisões
go e namen ais.
O apa ecimen o dos canais p i ados, no início da década de 90, do século passado,
inaugu ou um me cado conco encial en e ope ado es de ele isão. As eleno elas
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b asilei as passa am a se exibidas, no p ime- ime, an o na RTP1, canal público, como
na SIC, canal p i ado. A ambien ação e a denúncia polí ica pe passam mui as des as
ob as, pa icula men e nas que oca am os anos de di adu a no B asil, con e indo às
mulhe es g ande isibilidade e p o agonismo, como nas mini-sé ies Anos Dou ados
(1986) e Anos Rebeldes (1992), p oduzidas pela Rede Globo. Mas, em simul âneo, e em
g ande pa e des as p oduções, há uma endência à sexualização, e o ização e
sensualização da mulhe . Es a ealidade, que le a à c iação de imagens cono adas com
a “mulhe obje o”, p omo e um conjun o de lei u as c í icas p esen es em mui os ex os
académicos, e eminis as, sob e es es p odu os no B asil (Mo a, 2015; Baccega e Rocha,
2016).
A p odução po uguesa da década de 90, e início do milénio eco e, que ao
desen ol imen o de eleno elas e às sé ies nacionais, que à p odução de ele ilmes. As
emá icas his ó ico-polí icas es ão p esen es, com a e ocação do im da mona quia (O
Dia do Regicídio, 2007), a P imei a República (Noi e Sang en a, 2010), a di adu a (A é
Amanhã Cama adas, 2005, e a A Vida P i ada de Salaza , 2008), a gue a colonial (A
Noi a, 2001), a e olução de 25 de Ab il de 1974 (Capi ães de Ab il, 1999) ou o eg esso
dos po ugueses das ex-colónias (Depois do Adeus, 2012-13) (Bu nay, 2014). Nes as
p oduções, apesa das mulhe es apa ece em como p o agonis as, em alguns casos
des acadas, há uma subal e nização cons an e do seu papel social e a assunção dos
es e eó ipos con encionais, ais como “mulhe mãe”, “mulhe companhei a”, “mulhe
sal ado a”, “mulhe a al” ou “mulhe sedu o a”. En ende-se es e eó ipo como um
p ocesso de ca ego ização social, emp eendido po indi íduos ou g upos que
compa ilham imagens men ais hipe simpli icadas de de e minada ca ego ia de
indi íduo, ins i uição ou acon ecimen o (Lippman, 1922). Nas eleno elas b asilei as, os
es e eó ipos endem a e le i que as imagens que os g upos êm de si mesmos (au o-
es e eó ipo), que as imagens que os g upos êm de ou os g upos (hé e o-
es e eó ipos), assumindo, po ezes, a o ma de p econcei os. Em Po ugal, a
isualização diá ia, e con ínua, des es p odu os es á associada ao c escimen o do
es igma ace às muhe es b asilei as mig an es no inal da década de no en a e início do
milénio (Cunha, 2011; Padilla e F ança, 2015).
Nes e pe íodo, é ambém ele an e a p odução de sé ies ou ele ilmes, mui as eses em
egime de co-p odução com o B asil, que u ilizou a li e a u a clássica po uguesa, de
esc i o es como Eça de Quei ós (Sob al, 2016), pa a da co po às ques ões polí icas e de
géne o. Ou as ob as, como a Jóia de Á ica (2002) e Equado (2008), p oduzidas pela
TVI, sob essaem, na p imei a década do milénio, po se em odados em Moçambique,
São Tomé e P íncipe e B asil, e abo da em, não só o pode colonial como a esc a a u a
e a condição eminina nesses pe íodos. Es ão p esen es, em ambas as eleno elas, os
es e eó ipos associados à mulhe e à sexualidade em ambien es opicais, e omando a
ideia colonial da “mulhe sensual e disponí el” e que “ udo ale abaixo do equado ”
(T exle , 1995). Es as ob as, as suas emá icas, bem como os pad ões es é icos e
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Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança)
Isabel Fe in-Cunha
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audio isuais con ibui am pa a despe a o in e esse académico po es es p odu os
(Cunha, Cas ilho, Guedes, 2017). A pa i da segunda ´década do milénio, aumen a o
núme o de ob as de icção se iada po uguesa e a qualidade écnica das mesmas, mas
a mig ação de g ande núme o de espec ado es pa a a p og amação on demand e a cabo,
az com que os canais abe os de ele isão, abandonem emá icas complexas, dado o
público-al o es a ci cunsc i o a mulhe es mais elhas e subu banas conside adas,
“menos exigen es” (Bu nay, 2014). A apos a passa a cen a -se na ilmog a ia, onde
su ge um núme o conside á el de mulhe es, que ein idicando o seu luga e a emá ica
do eminino, deba em emas uni e sais, com p ojeção in e nacional, como Te esa
Villa e de (ex. Colo, 2017), Ma ia de Medei os (ex. Aos Nossos Filhos, 2019) ou Leono
Telles (ex. Balada de um Ba áquio, 2016).
Des e modo, a pa i da segunda década do milénio, a p oli e ação dos canais a cabo, e
a massi icação do s eaming, con e i am uma ou a dinâmica ao consumo de icção
polí ica se iada e à cen alidade das ques ões de géne o. A en ada de ecnologias como
a ADSL e a In e ne , sob e udo a pa i de 2006, pe mi i am se iços po cabo, on
demand e em s eaming que alinhou os consumos po ugueses aos in e nacionais.
Salien a-se, na pe spe i a da polí ica e do p o agonismo da mulhe , ês sé ies
ame icanas com impac o em Po ugal: The Good Wi e, emi ida en e 2009-2016, em
no e empo adas, p oduzida nos Es ados Unidos pela CBS e, em Po ugal, exibida no
canal pago FOX Li e; Scandal, emi ida en e 2012-2018, em se e empo adas, p oduzida
nos Es ados Unidos pela ABC e di undida em Po ugal pela FOX Li e e House o Ca ds,
com di usão en e 2013- 2019, em seis empo adas, p oduzida pela Ne lix. As ês
sé ies, ambien adas nos Es ados Unidos, duas em Whashing on (Scandal e House o
Ca ds) e uma em Chicago (The Good Wi e), põem em cena o acesso, o exe cício e os
con li os polí icos que en ol em o Pode . No cen o de cada es ó ia, há uma
pe sonagem eminina, pe encen e a uma eli e p o issional e polí ica — Alicia F olick
(The Good Wi e), Oli ia Pope (Scandal) e Clai e Unde wood (House o Ca ds) — que
en en a desa ios pessoais, amilia es e p o issionais. As pe sonagens, densas e
complexas, mo imen am-se no espaço polí ico, seguindo aje ó ias independen es às
dos seus companhei os ou pa ões (Bisca a , 2017). Os cená ios u banos, a so is icação
dos ambien es, os simbolos de pode , o i mo das na a i as e os discu sos, c iam
pe sonagens emininas asse i as, ce eb ais e capazes de e ea emoções pe an e os
jogos de pode , onde pa icipam com ins umen os ju ídicos, polí icos e
comunicacionais especializados, ein en ando o mas de sedução e a ação sexual. De
salien a o conhecimen o que as ês pe sonagens demons am ace ca do papel dos
media, da media ização da polí ica, bem como da ges ão da imagem no espaço público.
Em The Good Wi e a p o agonis a, mulhe de um p omo o ame icano acusado de
co upção, e en ol ido em escândalos sexuais, deba e-se com a imp ensa, sequiosa de
po meno es só didos. Em Scandal a p o agonis a é ex-assesso a de Comunicação, da
Casa B anca, e ge e uma agência de c ises que lida, dia iamen e, com escândalos
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Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança)
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mediá icos a im de con ola danos na imagem de igu as públicas. Em House o Ca ds,
Clai e Unde wood, mulhe do p esiden e, u iliza em mui as si uações os media, e os seus
p o issionais, pa a os seus obje i os especi icos, ge indo in e esses p i ados e públicos,
po meio de ugas de in o mação (Popo ié, 2017; Cole i, 2017; Maeseele, 2019).
Es as sé ies polí icas ame icanas consolida am, em Po ugal, um nicho de me cado de
audiências, em que se inse em as sé ies Bo gen e Le Ba on Noi . Ao mesmo empo, as
ês pe sonagens emininas de eli e impulsiona am a o mação de um no o público
compos o po mulhe es, p o issionais quali icadas e u banas, que se e êem nas
es a égias de a i mação, pau adas po cons an es obs áculos e p o ocações,
ap esen adas nessas ob as.
2 A na u eza da icção polí ica se iada
O impulso à media ização da sociedade, a pa i do desen ol imen o das ecnologias de
in o mação e comunicação, nos anos no en a do século passado, ais como a in e ne e
as edes sociais, incen i ou a media ização da polí ica. Es e enómeno em expansão,
sob e udo nos Es ados Unidos, desde os anos sessen a, al e ou a elação dos cidadãos
com a democ acia em ge al, p incipalmen e p omo endo a desc ença na polí ica, nos
polí icos e nos a os elei o ais (No is, 2000). Num me cado conco encial, onde os
disposi i os digi ais e as edes sociais impuse am a in o mação imedia a e ins an ânea,
a imp ensa e o jo nalismo endem a ado a pa âme os de e i icação da ida polí ica
que p i ilegiem a in o mação/en e enimen o (B an s, 1998). Ao mesmo empo, a
c escen e cen alidade dos media e das ecnologias de in o mação e comunicação azem
com que es as ins i uições assumam um p o agonismo social de di ei o p óp io
(Hja a d, 2013). Desde os anos sessen a, do século passado, que o declínio da es e a
pública é a ibuído à ele isão e ao audio isual (Habe mas, 1962; Thompson, 2000),
si uação que se econ igu ou com a expansão da in e ne e do digi al (High ield, 2016).
Es e no o con ex o mediá ico eio al e a , p o undamen e, a elação en e a polí ica e
os media, po um lado, a o ma de aze polí ica e os polí icos, inco po a am es a égias
de comunicação, po ou o lado, os media ans o ma am-se em a o es polí icos. Nes e
p ocesso, ins alou-se uma lu a con an e, en e os dois campos, pela de inição de
“agendas públicas”, acompanhada de um pe manen e esc u ínio dos media e dos
cidadãos, sob e essas mesmas igu as (Bondebje g, 2014).
A c escen e p essão sob e a democ acia, e sob e os seus pa idos adicionais, cons i ui
o pano de undo pa a a dinâmica das a uais sé ies de icção polí ica. Os o ei os e as
amas iccionais endem a su gi , cada ez mais, como uma o ma de os cidadãos
oma em conhecimen o, ou mesmo se al abe iza em, ace ca dos p ocessos de
go e nação e dos p ocedimen os polí ico-pa idá ios em democ acia (Le eb e e Taïeb,
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quo idiano que se a icula en e o espaço p i ado de um apa amen o de amília e o
espaço público das ins alações go e namen ais e polí icas.
Es a análise e o ça a de inição ge al de es e a pública mode na, en endida como o
conjun o de locais ísicos ou i uais onde ideias e sen imen os, ele an es pa a a
polí ica, são ansmi idos ou ocados. Ao mesmo empo, acen ua a ideia de es e a
pública di usa, ca ac e izada po uma p o usão de canais de comunicação que
p opo cionam a pe meabilidade en e a es e a polí ica e a es e a p i ada (Benne e
En man, 2001). Des e modo é possí el iden i ica , em ambos os en edos, as
componen es e as si uações dos espaços polí icos, dos espaços mediá icos, dos espaços
amilia es e dos espaços sociais, e as suas in e elações, bem como as elações en e
es as ca ac e ís icas em ambos os en edos (Bondebje g,2014).
No en an o há di e enças obse á eis nas duas sé ies, pois enquan o a sé ie
dinama quesa ap esen a uma dimensão da his ó ia mais ci cunsc i a, e i o ialmen e
espelhada na simplicidade e aus e idade das ins alações e nas p opo ções dos espaços
ísicos, a sé ie ancesa ap op ia-se dos símbolos imponen es de go e nação da
República, dos palácios majes osos, das salas de espelhos o namen adas, dos imensos
co edo es que le am a gabine es sump uosos e de es ilo econhecido. Bo gen que em
po uguês se ia “O Cas elo”, é a designação popula que eme e pa a o Palácio de
Ch is iansbo g, onde es ão ins alados os ês amos do go e no dinama quês: o
pa lamen o, o gabine e do p imei o-minis o e a sup ema co e. Bi gi e Nybo g ansi a
en e es es locais públicos e os espaços p i ados, do seu apa amen o à escola dos
ilhos, e anda pelas uas a pé ou de bicicle a.
A pe sonagem p incipal masculina da sé ie ancesa Le Ba on Noi , decalcada na igu a
polí ica do depu ado ancês da esque da socialis a Julien D ay, ci cula en e a egião
indús ial e po uá ia de Dunke que, onde em uma casa modes a, e Pa is, local onde
ica num ho el pouco so is icado. A pe sonagem eminina Amélie Du andeau, de o igem
bu guesa, mo e-se en e euniões na sede do PS, os co edo es do palácio p esidencial,
o Palácio do Eliseu, e o seu qua o ambien ado num apa amen o de luxo. A u ilização
de ca os o iciais e a passagem pelas uas da capi al ancesa é cons an e e o cidadão
es á ausen e nessas deslocações. O en edo p i ilegia pano amos e is as do Ho el
Ma ignon, sede do P imei o-Minis o ancês, o Palácio do Luxembu go, onde se eúne
o Senado, e o Palácio de Bou bon, sede da Assembléia Nacional.
Na sé ie dinama quesa os espaços dos media, da imp ensa, da ele isão, das edações
e dos es údios, são cená ios com alguma equência, ao con á io do que acon ece na
sé ie ancesa, onde os media su gem na o ma de no ícias ele isi as ou in e enção
de jo nalis as. Bo gen mos a, de uma o ma mui o cla a, os bas ido es dos media, as
euniões de edação, a p essão pela “cacha” in o ma i a, os ele onemas en e spin
doc o s, di e o es de imp ensa e jo nalis as, mos ando como o mundo poli ico,
jo nalís ico e de comunicação es ão imb icados. Es a elação consubs ancia-se em ês
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pe sonagens p incipais: um che e de um pa ido abalhis a que se o na edi o che e
de um jo nal abloide; um an igo jo nalis a que se con e e em spin doc o e,
pos e io men e, e o na a jo nalis a, e po im, uma jo nalis a que op a pela unção de
spin doc o da candida a a p imei a-minis a.
3.1.3 Pe sonagens emininas
Foi na Dinama ca que as mulhe es p imei o conquis a am o di ei o de o o na Eu opa
em 1915. Desde 1924, as mulhe es dinama quesas êm p esença nos go e nos, si uação
que os pa idos polí icos a o ece am ado ando, li emen e, legislação em p ol da
pa idade. Es a si uação econhecida, nacional e in e nacionalmen e, não e i a
d ama icidade e he oicidade ao pe cu so da pe sonagem Bi gi e Nybo g que é
con on ada, ao longo da sé ie, com odos os obs áculos que as mulhe es que en am
na polí ica êm de supe a pa a p ossegui es a ca ei a. Em F ança, apesa do papel
de e minan e das mulhe es nos di e sos pe íodos his ó icos, o di ei o de o o su ge
apenas em ab il de 1944, assis indo-se a pa i de en ão à pa icipação de mulhe es em
ca gos minis e iais. Em 2000, após a undação, em 1995, do Obse a ó io pa a a
Pa idade, se á ado ado es e p incípio nas lis as elei o ais e nos ca gos polí icos.
A cons ução das pe sonagens en ol e um conjun o de pesquisas de campo e
en e is as com mulhe es, bem como a iden i icação de ac os e episódios eais que
possam da e somilhança e solidez à icção. Es e p ocesso mobiliza, ainda, um conjun o
de elemen os iden i icá eis como es e eó ipos, masculinos e emininos, que podem se
acilmen e econhecidos pelos espec ado es e u ilizados como ca ac e izado es, ísicos
e men ais, das pe sonagens (Delapo e, 2020).
As pe sonagens da icção polí ica são, maio i a iamen e, homens en e os 40 e os 50
anos, com o igem em o mações pa idá ias, em si uações de conluio, chan agem ou
u u a, ameaçados po o ças ex e nas ou in e nas ad e sas e conco enciais. Os
homens endem a se as pe sonagens cen ais da icção polí ica e as mulhe es a se em
u ilizadas como coadju an es da sua pe o mance, o que le a algumas analis as a
obse a que as sé ies, nes e caso as ancesas, epo am, p e e encialmen e, uma
“República de machos” (Bisca a , 2017). Os en edos ela am c ises polí icas e máquinas
pa idá ias a assalado as, que co ompem as decisões indi iduais, p e e indo o
bene ício público em a o de um g upo, g upos ou in e esses exógenos. As mulhe es
su gem, maio i a iamen e, em papéis secundá ios, dependen es, polí ica e
a e i amen e, dos homens, alo izadas pela sua apa ência, colabo ação ou mesmo
submissão (Bisca a , 2017). O econhecimen o polí ico des as mulhe es az-se, como
acon ece inicialmen e em Bo gen e em Le Ba on Noi , a pa i de um acaso
ci cuns ancial, o a as amen o do candida o p incipal e a pe cepção de que são
acilmen e manipulá eis.
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3.1.2.1 Amélie Do endeu
Amélie Do endeu, ex-comissá ia eu opeia, eg essa de uma amília bu guesa e das
melho es uni e sidades ancesas, à medida que ai assumindo maio p o agonismo
polí ico, ai inco po ando os cânones da acionalidade nos compo amen os em
público. Ao longo da sua ca ei a, a a ação po polí icos, homens o es, az com que se
subal e nize nas suas con icções e abandone a sua ida pessoal. Dispu ada po dois
líde es socialis as, no plano polí ico e sexual, acaba po se en ol e com o p o agonis a
Philipe Rickwae , depu ado caído em desg aça e spin doc o , homem di o ciado e
machis a. Con udo, Amélie Do endeu não é o o eu de beleza e elegância desp o egido
que apa en a. Sem nunca e passado pelo su ágio uni e sal, ela u iliza a sedução como
uma a ma de manipulação pe igosa, capaz de se i as suas ambições pessoais de pode ,
p imei o pa a se o na o b aço di ei o de um p esiden e (1ª empo ada) e,
pos e io men e, pa a ela p óp ia o na -se p esiden e de F ança (2ª empo ada).Na 3ª
empo ada, acossada po mo imen os sociais hos is e o ças polí ico-pa idá ias de
ex ema-di ei a, põe o ca go à disposição e suicida-se, num a o designado pelos seus
pa es de “nob eza epublicana”.
A p esiden e de F ança Amélie Do endeu (Anna Mouglalis) Fon e: Canal +
Pa a mui os anceses, es a pe sonagem (Le eb e e Taïbe, 2020) enca na uma e são
a ualizada de Ségolène Royal, mili an e e depu ada solicialis a, ex-mulhe do p esiden e
F ançois Holande, que ap esen ou a sua candida u a a p esiden e em 2007. A desc ição,
a elegância e a solidão es u u am a sua manei a de es a , embo a seja uma polí ica ia
e exímia em manob as de bas ido es. Ra amen e demons a empa ia ou solida iedade.
O dis anciamen o e a azão polí ica es a égica o ien am as suas decisões pessoais e
p o issionais. Ce cada de luxo e c iados de lib é, passa o empo li e ecolhida e em
silêncio, e i ando con a os com os cidadãos, exce o pela ele isão. A sua elação com o
p o agonis a p incipal, Philipe Rickwae , Le Ba on Noi , ainda na qualidade de spin
doc o , le a-a a abdica da sua ida p i ada, mesmo quando o desca a e se liga a uma
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coligação de di ei a. O ascínio pelo pode de um homem mais elho e lu ado , com um
g ande conhecimen o da his ó ia polí ica da F ança, e do pa ido socialis a ancês, é
e iden e. Philipe Rickwae de o mação ope á ia, de enso da esque da socialis a,
obcecado pela polí ica, e com ideias consolidadas sob e como se de e a ua e manipula
o espaço público, pouco ansi a em ou os espaços (Laugie , 2018). A sua es a égia de
ida de hipe p o issional da polí ica é assumida pela candida a e, em seguida, p esiden e
Amélie Do endeu, mesmo após as aições polí icas e pessoais, que a azem p ocu a
alianças à di ei a, p essionada pelo jihadismo e pelo a anço da ex ema-di ei a. Símbolo
de uma classe polí ica aga ada ao seu pode e p on a a cede pe an e os in e esses
o ganizados, ela eco e a discu sos conciliado es, com is a a apazigua os mo imen os
sociais em c escimen o. Na somb a do men o , a p o agonis a ec ia um
compo amen o indi idual p óp io, e i ando elações pessoais, manipulando as que
consegue p ese a , e ugiando-se nos cená ios o iciais quando expos a aos media e às
ugas de in o mação. O p agma ismo e a ambição, as ensões en e as exigências de uma
economia ul alibe al e a p essão popula c escen e, cons oem uma pe sonagem
ambígua, mui o p óxima de um ilão, onde impe a a ealpoli ick, mui o associada, nos
en edos de icção polí ica, aos p o agonis as masculinos. No inal, en e p essões e
chan agens polí icas, cada ez mais du as, Amélie Do endeu ecupe a a sua dignidade,
ao demi i -se e a ca com esponsabilidades, pela má ges ão da epública.
3.1.2.2 Bi gi e Nybo g
Bi gi e Nybo g é uma mulhe casada, e com dois ilhos, que em uma ascensão polí ica
num pequeno pa ido do cen o. Mo imen a-se num es ado nó dico de bem es a social
onde o p o agonismo eminino de mulhe es o es, mui as ezes mães sozinhas, é
conside ado uma das ca ac e ís icas das sé ies de ele isão (Jensen e Jacobson, 2017;
Waade, Red all e Jensen, 2020). Ao longo das ês empo adas, uma qua a es á p e is a
pa a 2022, assi e-se à sua ascensão como líde de um pequeno pa ido cen is a, após a
e elação de um escândalo en ol endo o an e io di igen e, e a sua chegada a um
go e no de coligação onde ocupa a pas a de de p imei a-minis a e de minis a dos
negócios es angei os. O en edo a icula dilemas p i ados e públicos e a en a i a de
conciliação de uma ida amilia e amo osa com a ida polí ica a i a. Os cus os pessoais
des a conciliação exigen e su gem com o di ó cio, a debili ação da saúde pelo canc o e
os p oblemas que a ligem a ilha.
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A p imei a-minis a dinama quesa, Bi gi e Nybo g, e sua amília. Fon e:
h ps://magg.sapo.p / ele isao/a igos/bo gen-a-se ie-de-cul o-dinama quesa- ai- eg essa -com-uma-
no a- empo ada-na-ne lix
A sé ie e a pe sonagem celeb am a democ acia pa lamen a , ocando as negociações,
a madilhas e bas ido es da polí ica, sem deixa de ap esen a o lado mais somb io e
hipóc i a da conquis a e do exe cício do pode . Mas o en edo e a pe sonagem são uma
mensagem de espe ança pa a um mundo mais equi a i o, ao aze uma mulhe , pa a o
p imei o plano da cena polí ica, que en a, cons an emen e, al e a as eg as do
exe cício do pode na sociedade, como na o ma de oma decisões polí icas e abo da
g andes emas, como o es ado social, as e o mas, o abalho, ou p opondo um p oje o-
lei que ob iga as emp esas a e em 45% de mulhe es no conselho. Nes e sen ido, a
p imei a-minis a pode se compa ada a mulhe es o es, na polí ica mundial, como
Hilla y Clin on ou Nicola S u geon (S egge Gemzøe, 2020).
Nybo g é uma pe sonagem posi i a, idealis a, que demons a o domínio dos códigos
polí icos, ao cul i a a au en icidade na comunicação com o público. Ela não acila
quando op a pela amília, e expõe as suas emoções, anunciando na ele isão em di e o,
que i á abdica da sua ida polí ica, pa a se dedica à ilha. Mas, ambém, não esconde
os seus sen imen os em si uações de in e esse polí ico, como quando se solida iza com
os soldados dinama queses des acados no A eganis ão e suas amílias (Le Ba , 2020). A
assunção da emoção não apa en a, ao longo do en edo, e consequências na sua
desc edibilização polí ica, pelo con á io, os elei o es são ca i ados pelo discu so
since o que in e cala o sen ido p o issional da polí ica e as condicionan es pessoais de
a uação, mesmo quando segue indicações con á ias aos seus spin doc o s. A u ilização
da emoção em con aposição ao cinismo e à hipoc isia polí ica c ia uma an agem ace
aos ad e sá ios, maio i a iamen e homens. Ao longo da sua aje ó ia polí ica há uma
endência, c escen e, da pe sonagem em esconde , sublima ou p o issionaliza a
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Isabel Fe in-Cunha
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exp essão das emoções, p incipalmen e nos con on os polí icos públicos. No en an o,
num con ex o de a i mação do pode , e numa democ acia esc u inada ao po meno , a
pe sonagem lu a pa a man e a au en icidade, a é ica e a idelidade aos seus ideais.
O papel dos spin doc o s na o ma ação da imagem polí ica, na alo ização de
qualidades ou na con enção de es agos, cons i ui um dos enquad amen os cons an es
da pe sonagem. Que seja homem (pe sonagem de Kaspe Juul) ou mulhe (pe sonagem
de Ka ine Fønsma k), a unção do spin doc o é abalha e en abiliza poli icamen e a
ida emocional de Bi gi e Nybo g pe an e os cidadãos elei o es. Com es e obje i o, e
na busca de minimiza possí eis danos, p ocu am se eles a “con a a es ó ia” aos
g andes media, p incipalmen e quando a ida amilia i ompe no espaço público, como
no di ó cio, na elação com um aman e, no a amen o do cance ou na dep essão da
ilha.
O en edo demons a uma g ande p omiscuidade en e os media e a polí ica, com dois
jo nalis as a al e na em es as unções com as de spin doc o s e um ex-polí ico a p esidi
um g ande meio de comunicação. Es e cí culo polí ico-mediá ico ende a e o ça a
media ização da polí ica a pa i da no malização de es a égias de en e enimen o e
comunicação na polí ica e, po sua ez, a in e enção dos media como a o es polí icos
de pleno di ei o. O abalho de con ôle, e en abilização das emoções, em uma elação
di e a com a in o ainmen , e os di e os de ele isão, com que a p imei a-minis a é
con on ada pe iodicamen e e einada cons an emen e pelos seus spin doc o s.
4 Discussão e conclusão: as escolhas das
mulhe es na polí ica
Nas sé ies que analisámos as p o agonis as emininas ap esen am es a égias
con adi ó ias, embo a a cen alidade dos seus papéis não se al e e subs ancialmen e.
Os emas con inuam a abo da as campanhas elei o ais; o uncionamen o das máquinas
polí icas; os c imes polí icos e econónomicos ou pe sonalidades de go e nan es o es
(Van Zoonen e W ing, 2012), emá icas que semp e cons i uem o co e business dessas
p oduções. A di e ença es á no e o ço de algumas compe ências a ibuídas às
mulhe es, ais como a capacidade eminina de ges ão, a iculando o espaço público e
p i ado, como acon ece na pe sonagem de Bi gi e Nybo g em Bo gen. Nes a igu a de
p imei a-minis a, mais que na da p esiden e Amélie Do endeu, de Le Ba on Noi ,
obse a-se a acilidade de comunicação com o público e com os media, bem como a
habilidade em negocia e es abelece pon es en e ad e sá ios. Ambas as ob as
e o çam a de esa da imagem p i ada — em Le Ba on Noi a p esiden e e ugia-se na
solidão e, em Bo gen, es e equisi o es ende-se aos memb os da amilia — pe an e a
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igilância mediá ica e social, que é endencialmen e supe io ao exe cido ace aos seus
colegas homens.
Ins igan e é a análise esmiuçada das omadas de decisão e a explo ação da componen e
emocional, p o agonizada pela p imei a-minis a Bi gi e Nybo g. Es as ques ões, que
nunca cons i ui am um oco de in e esse na in es igação em Ciência Polí ica, põem em
causa as no mas de compo amen o polí ico, no espaço público, iden i icadas com a
ideia de sangue- io e acionalidade, ad indas dos ensinamen os de Maquia el (2012) e
Webe (1998). As emoções exp essas pela p imei a-minis a dinama quesa são, des e
modo, uma mensagem de espe ança e au en icidade à polí ica, em con as e com o
quad o de c ise da democ acia, p o agonizado pela p esiden e ancesa.
As duas pe sonagens emininas, jo ens e sensuais, dis inguem-se pelos con ex os
cul u ais e polí icos em que se inse em, espe i amen e em F ança e na Dinama ca.
Amélie Do endeu ci cula num uni e so masculino e pa idá io, onde impe a o machismo
e a condescendência pe an e as mulhe es. A sua nomeação como p esiden e é a ibuída
às a imanhas do seu spin doc o e à ideia de que se á acilmen e manipulá el. Só no
inal da 3ª empo ada o seu ca ác e , e aços psicológicos, adqui em maio au onomia
ace ao seu c iado , Philipe Rickwae . Bi gi e Nybo g, apesa de e chegado ao cen o
do palco, po um acon ecimen o que lhe é ex e io , assume o seu luga de pleno di ei o
mas, pa a ela, o desa io maio é concilia a polí ica com a ida p i ada (Roussele , 2018;
Lé êque e Ma on i, 2020).
Ambas as na a i as são uni e sais e cosmopoli as, quan o às es ó ias que con am, e os
con li os que enunciam, a iculando os di e en es espaços da ida de uma mulhe na
polí ica. Elas ob igam, ambém, e p incipalmen e em Po ugal, a desen ol e um
pensamen o c í ico sob e a pa idade e as opo unidades da mulhe , quando ela
p e ende concilia as idas p o issional e amilia , num mundo em que as a e as da ida
p i ada ainda lhe são, maio i a ia e na u almen e, a ibuídas.
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