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Política, poder e género nas séries televisivas europeias Borgen (Dinamarca) e Le Baron Noir (França)

Cunha, Isabel Ferin

Abstract

Nesta exposição, analisa-se como a Política, o Poder e o Género são representados nas séries televisivas europeias Borgen (Dianamarca) e Le Baron Noir (França). Borgen foi exibida entre 2010 e 2013 e tem como protagonista principal, Birgitte Nyborg, uma candidata de um pequeno partido político que se torna, mais tarde, primeira-ministra dinamarquesa. Le Baron Noir é uma série francesa (2016- 2020) que tem como protagonistas principais Philipe Rickwaert e Amélie Dorendeu, militantes destacados do partido socialista francês e candaditos à presidência. As duas obras de fição focam a mediatização e a profissionalização da política; a complexidade da tomada de decisões; as contradições entre a realpolitik e a moral, bem como os desafios pessoais que se colocam aos atores políticos, nomeadamente às mulheres. O objetivo do artigo é identificar semelhanças e diferenças entre as duas séries nos aspetos ficcional, polítíco e na abordagem do exercício do poder em função do género. Com vista a contextualizar a análise, o estudo traça um breve histórico das obras de ficção televisiva exibidas em Portugal, com ênfase na política e nas questões de género. A metodologia utilizada é ensaística e fundamenta-se na análise das personagens e trajetórias das protagonistas femininas, a partir de categorias pré-definidas, com base em princípios da teoria da narratologia.

Full text

Como ci a es e a ículo: FERIN-CUNHA, Isabel (2021: “Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança)”, en Re is a In e nacional de His o ia de la Comunicación, (16), pp. 254-280. © Uni e sidad de Se illa 1 POLÍTICA, PODER E GÉNERO NAS SÉRIES TELEVISIVAS EUROPEIAS BORGEN (DINAMARCA) E LE BARON NOIR (FRANÇA) Poli ics, Powe and Gende in he Eu opean ele ision se ies Bo gen (Denma k) and Le Ba on Noi (F ance) DOI: h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 Recibido: 22-4-2021 Acep ado: 10-6-2021 Publicado: 30-5-2021 Isabel Fe in-Cunha Uni e sidade de Coimb a, Po ugal ba one. e i[email p o ec ed] ORCID h ps://o cid.o g/0000-0001-8701-527X 250 Como ci a es e a ículo: FERIN-CUNHA, Isabel (2021: “Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança)”, en Re is a In e nacional de His o ia de la Comunicación, nº 16, 2021, pp. 250-275. h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 Isabel Fe in-Cunha Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 2 Resumo: Nes a exposição, analisa-se como a Polí ica, o Pode e o Géne o são ep esen ados nas sé ies ele isi as eu opeias Bo gen (Dianama ca) e Le Ba on Noi (F ança). Bo gen oi exibida en e 2010 e 2013 e em como p o agonis a p incipal, Bi gi e Nybo g, uma candida a de um pequeno pa ido polí ico que se o na, mais a de, p imei a-minis a dinama quesa. Le Ba on Noi é uma sé ie ancesa (2016- 2020) que em como p o agonis as p incipais Philipe Rickwae e Amélie Do endeu, mili an es des acados do pa ido socialis a ancês e candadi os à p esidência. As duas ob as de ição ocam a media ização e a p o issionalização da polí ica; a complexidade da omada de decisões; as con adições en e a ealpoli ik e a mo al, bem como os desa ios pessoais que se colocam aos a o es polí icos, nomeadamen e às mulhe es. O obje i o do a igo é iden i ica semelhanças e di e enças en e as duas sé ies nos aspe os iccional, polí íco e na abo dagem do exe cício do pode em unção do géne o. Com is a a con ex ualiza a análise, o es udo aça um b e e his ó ico das ob as de icção ele isi a exibidas em Po ugal, com ên ase na polí ica e nas ques ões de géne o. A me odologia u ilizada é ensaís ica e undamen a-se na análise das pe sonagens e aje ó ias das p o agonis as emininas, a pa i de ca ego ias p é-de inidas, com base em p incípios da eo ia da na a ologia. Pala as-Cha e: Sé ies; Ficção Polí ica; Polí ica e Géne o; Bo gen; Le Ba on Noi . Resumen: En es a exposición analizamos cómo la Polí ica, el Pode y el Géne o es án ep esen ados en las se ies de ele isión eu opeas Bo gen (Dinama ca) y Le Ba on Noi (F ancia). Bo gen se mos ó en e 2010 y 2013 y es á p o agonizada po Bi gi e Nybo g, candida a de un pequeño pa ido polí ico que luego se con ie e en p ime a minis a danesa. Le Ba on Noi es una se ie ancesa (2016-2020) cuyos p incipales p o agonis as son Philipe Rickwae y Amélie Do endi, des acados miemb os del pa ido socialis a ancés y candida os a la p esidencia. Las dos ob as de icción se cen an en la cobe u a mediá ica y la p o esionalización de la polí ica; la complejidad de la oma de decisiones; las con adicciones en e la ealpoli ik y la mo al, así como los desa íos pe sonales que en en an los ac o es polí icos, a sabe , las muje es. El obje i o del a ículo es iden i ica simili udes y di e encias en e las dos se ies en é minos de icción, polí ica y el en oque del eje cicio del pode basado en el géne o. Pa a con ex ualiza el análisis, el es udio aza una b e e his o ia de las ob as de icción ele isi a mos adas en Po ugal, con én asis en la polí ica y las cues iones de géne o. La me odología u ilizada es ensayís ica y se basa en el análisis de los pe sonajes y ayec o ias de las p o agonis as emeninas, a pa i de ca ego ías p ede inidas, a pa i de p incipios de la eo ía de la na a ología. Palab as cla e: Se ie; Ficción polí ica; Polí ica y géne o; Bo gen; Le Ba on Noi . Abs ac : In his pape , we analyse how Poli ics, Powe and Gende a e ep esen ed in he Eu opean ele ision se ies Bo gen (Denma k) and Le Ba on Noi (F ance). Bo gen was shown be ween 2020 and 2013 and i s main p o agonis , Bi gi e Nybo g, is a candida e o a small poli ical pa y ha la e becomes Danish P ime Minis e . Le Ba on Noi is a F ench se ies (2016-2020) whose main p o agonis s a e Philipe Rickwae and Amélie Do endeu, p ominen mili an s o he F ench socialis pa y and candida es o he p esidency. The wo ic ions ocus on media co e age and he p o essionaliza ion o poli ics; he complexi y o decision-making; he con adic ions be ween ealpoli ik and mo als, as well as he pe sonal challenges acing poli ical ac o s, namely women. The aim o he a icle is o iden i y simila i ies and di e ences be ween he wo se ies in he Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 251 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 3 ic ional and poli ical aspec s conside ed gende -based aspec s o he exe cise o powe . To con ex ualize he analysis, he s udy aces a b ie his o y o ele ision ic ion shown in Po ugal, wi h an emphasis on poli ics and gende issues. The me hodology used is essayis ic and is based on he ajec o ies o he emale p o agonis s, om p e-de ined ca ego ies, based on p incipals o he na a ology heo y. Keywo ds: Se ies; Poli ical Fic ion; Poli ics and Gende ; Bo gen; Le Ba on Noi . In odução Os emas da polí ica e do pode na icção me ecem, há décadas, g ande a enção na li e a u a e, pos e io men e, na ilmog a ia e na ele isão, onde su gem nas suas a ian es e o mas de a i idade humana, exp imindo uma elação dialé ica en e indi íduos, sexos, g upos, cole i idades, ins i uições, nações, países e egiões. A emá ica e le e a ensão pe manen e que a icula o espaço público e o p i ado, en ol endo ins i uições e sis emas de go e nação; opções polí icas e económicas e, em simul âneo, condicionando as i ências e expe iências quo idianas da ida humana. A associação en e polí ica e pode con e e à icção uma a iedade de sc ip s que o a p i ilegia a capacidade de negociação dos indi íduos ou g upos, o a ap esen a ins umen os de coação de di e sa na u eza— ísica, psicológica, sexual, mo al, é ica, económica, polí ica e ou os—, o a ob iga os “mais acos” a subme e em-se aos “mais o es”. Es es p ocedimen os inspi am-se não só na adição, no cos ume e na lei, como na capacidade de pe suasão, legi imando-se pelo ca isma ou po expedien es de coação ísica e psicológica (Bobbio, 2004). O en endimen o que se em da na u eza da icção polí ica conside a que es as ob as — na li e a u a, no ea o, no cinema, na ele isão ou em s eaming — endem a discu i ideias, o mas de go e no, ou decisões legisla i as, embo a não se eximam a con on a ca ác e es, aje ó ias de ida e emoções de pe sonagens (Ho mann, 2010). Com es es elemen os, os au o es, o ei is as e c iado es de icção p ocu am coloca em cena os bas ido es da ida polí ica —os d amas e con li os mo ais, é icos e emocionais dos deciso es— expondo as an ecâma as do pode e da polí ica. Alguns ipos de icção são, pa icula men e, desen ol idos, ais como os que p ocu am aze uma econs ução his ó ica; os que êm como obje i o a in e enção social; os que almejam u iliza a es ó ia como ins umen o de al abe ização ou de denúncia; ou ainda os que isam a ein e p e ação de enómenos, acon ecimen os ou p ocessos polí icos (Ho mann, 2010). Em simul âneo, os au o es e c iado es p ocu am di eciona o seu olha pa a um país, nação, g upo ou indi íduo, independen emen e do géne o, c iando con ex os e si uações especí icas no desen ola de uma ob a de icção polí ica (Bondebje g, 2015). A in odução de ques ões de géne o, nas sé ies ele isi as e em s eaming, eio di e si ica as amas, adensando e complexi icando os o ei os, ao acen ua os con li os Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 252 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Isabel Fe in-Cunha Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 4 i idos pelas mulhe es na polí ica (Pax on, Hughes e Kuno ich, 2007; Cab e a e Ma ins, 2019). O oco nas ques ões de géne o in oduziu no os deba es sob e as ensões en e a ida pública e os espaços p i ados; en e as decisões acionais e o di ei o à emoção, undadas em es e eó ipos cul u ais e sociais associados às ca ac e izações de géne o (Sil ei inha, Peixinho e San os, 2010). O acesso, ia s eaming, a es es p odu os aumen ou exponencialmen e o seu consumo e consolidou uma e en e de p odução que p opo ciona, aos espec ado es, exposição, e lexão e pa icipação na polí ica em sen ido la o. O olha sob e a icção polí ica é, na u almen e, condicionado pelas aje ó ias e pelos con ex os da exibição. Em Po ugal, mesmo no pe íodo da di adu a, e minada a 25 de ab il de 1974, e essal adas as condicionan es sociais do país, ha ia acesso a ob as, de di e en es nacionalidades, que e am exibidas na ele isão pública, Rádio Tele isão Po uguesa (RTP). Na ida polí ica po uguesa, no pós-Re olução democ á ica de 1974, obse a-se uma sub- ep esen ação e in isibilidade das mulhe es (Cab e a e Ma ins, 2019). A ques ão do géne o na polí ica, su gia sub ilmen e e a pa i de es e eó ipos consolidados sob e as mulhe es e o seu “luga / unção” na sociedade, em ob as de ea o, sé ies e ilmes de o igem no e-ame icana. A en ada de ope ado es p i ados no me cado ele isi o, nos anos 90 em Po ugal, eio aze no as dinâmicas à comp a de p odu os e à p odução. A impo ação de eleno elas b asilei as onou-se dominan e e alimen ou, po uma década, os canais públicos e p i ados (Cunha, 2003). Es a ealidade não oi, no en an o, excluden e, na medida em que p odu os de o igem b i ânica e ame icana con inua am a ci cula , enquan o su gia uma indús ia nacional de icção que se a i mou com o início do milénio, po meio de ele ilmes, eleno elas e sé ies. A chegada de no as ecnologias, como o cabo e a ib a, e dos canais pagos, on demand e em s eaming, c iou uma dinâmica cosmopoli a de pa ilha e isionamen o onde se inse e a análise das ob as Bo gen e Le Ba on Noi . O obje i o des e a igo é e le i , a pa i das sé ies Bo gen (Dianama ca, 2010-2013) e Le Ba on Noi (F ança, 2016-2020), sob e como as mulhe es são ep esen adas no exe cício de al os ca gos de pode nas democ acias eu opeias. T abalhos como os de Popo ié (2019), Sil ei inha, Peixinho e San os (2012), bem como de Pax on, Kuno ich, Hughes (2007) inspi a am es a análise. Sendo Po ugal um pequeno país eu opeu, como a Dinama ca, mas sem a adição de pa icipação polí ica eminina, es e exe cício de análise p e ende escla ece os cons angimen os e dilemas que, ainda no século XXI, as mulhe es en en am na polí ica. O oco da análise incide nos pe cu sos e na ep esen ação das mulhe es, em al os ca gos de go e nação, embo a se e i a ou as pe sonagens e con ex os de pode . A sé ie dinama quesa Bo gen é da au o ia de Adam P ice, Tobias Lindholm e Jeppe G am, endo sido ansmi ida na Danma ks Radio, em ês empo adas de 10 episódios cada, en e 2010 e 2013. A p o agonis a p incipal, Bi gi e Nybo g, é uma candida a, Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 253 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 5 casada e com ilhos adolescen es, pe encen e a um pequeno pa ido polí ico, que se o na, mais a de, p imei a-minis a dinama quesa. Le Ba on Noi , sé ie ancesa exibida em ês empo adas, en e 2016 e 2020, no Canal +, é de au o ia de E ic Benzek i e Jean- Bap is e Dela onm. A sé ie em como p o agonis a p incipal Philipe Rickwae , um ex- ope á io, ex-p esiden e da câma a de Dunke que, conselhei o do Pa ido Socialis a F ancês e spin doc o dos candida os a p esiden es da República e po im, ele mesmo, candida o a p esiden e de F ança. Nes a exposição, o oco de in e esse si ua-se na pe sonagem de Amélie Do endeu, memb o des acado e assesso a de um P esiden e da República, ao qual sucede á, g aças aos conselhos do spin doc o Philipe Rickwae . A pa i de uma lei u a ex e io ao luga de p odução, is o é, ealizada em con ex o sócio-polí ico po uguês, p e ende-se iden i ica semelhanças e di e enças en e as duas sé ies, an o no aspe o iccional, como polí íco, assim como na abo dagem das ques ões de géne o. Salien a-se que a sé ie Bo gen an ecipou, a eleição na Dinama ca de uma mulhe pa a p imei a-minis a, e Le Ba on Noi acompanhou a eme gência de no as o ças polí icas, nomeadamen e o despon a de Emmanuel Mac on, pos e io men e elei o p esiden e de F ança (2018). U iliza-se uma pe spe i a me odológica ensaís ica, com base em p incípios da eo ia da na a ologia e media, explici ada em Reis (2018), Hühn, Pie , Schmid e Schöne (2009), Flude nick (2006), Ful on, Huisman, Mu phe e Dunn (2005). Po se a a de sé ies exibidas em Po ugal, com um co pus cons i uído po duas sé ies em línguas es angei as, dinama quesa (Bo gen) e ancesa (Le Ba on Noi ), a análise não incidi á no discu so, mas p i ilegia á a iden i icação de luga es, cená ios e si uações; a cons ução de pe sonagens e os seus aços cogni i os. Em simul âneo, obje i a-se comp eende como as duas sé ies desc e em e de alham os e i ó ios da polí ica, bem como pe cebe se as sé ies dis inguem o exe cício do Pode em unção do géne o (S egge Gemzøe, 2020). Nes a úl ima pe spe i a, p e ende-se in es iga : 1) os aços que ca ac e izam a pe sonagem p incipal de Bo gen, endo como hipó ese a ideia de “u opia da polí ica”, encenada no eminino pela p imei a-minis a; 2) os elemen os cons i u i os da pe sonagem de Amélie Do endeu em Le Ba on Noi , como a consubs anciação da ealpoli ik, assumida pelas mulhe es, na lu a pelo pode . Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 254 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Isabel Fe in-Cunha Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 6 1 A cons ução do olha ex e io : ma cos do eminino na icção polí ica se iada em Po ugal O me cado ele isi o em Po ugal nasce no início dos anos no en a, com a c iação de duas ele isões p i adas: a Sociedade Independen e de Comunicação (SIC, 1992) e a Tele isão Independen e (TVI, 1993). Es as es ações ie am jun a -se aos dois canais públicos da Rádio Tele isão Po uguesa, undados ainda sob a di adu a: a RTP1, em 1957 e a RTP2, em 1968. Desde o início das emissões egula es das es ações públicas, a icção assumiu um papel es u u an e nas g elhas de p og amação, com ên ase em o ma os como o ele ea o, o ilme e o olhe im. En e p oduções domés icas e impo adas o leque de opções en ol ia a p odução nacional, no e-ame icana, b i ânica e, mais espo adicamen e, a ancesa. A p odução em língua cas elhana ganhou, nes e cená io, alguma ep esen a i idade com base em ilmes di ecionados pa a c ianças e jo ens, in e p e ados po Ma isol e Joseli o, que alimen a am, não só os es e ó ipos de sel made women/sel made man no mundo la ino, como uma indús ia discog á ica, em c escimen o, nos inais da década de 50 e inícios de 60 (Cunha, 2003). A p imei a g ande up u a, na o e a da ele isão pública acon ece em 1977, no pe íodo pós e olução do 25 de Ab il de 1974, quando é impo ada do B asil a eleno ela Gab iela, p oduzida pela TV Globo, baseada no omance do esc i o b asilei o Jo ge Amado. Es a eleno ela abo da a as desigualdades sociais, o pode ins alado dos senho es da e a, bem como a submissão das mulhe es na ida pública e p i ada. A sua exibição, num clima pós e olução, ouxe, pa a Po ugal, emas, dilemas, con li os e aspi ações com que os po ugueses, e as po uguesas, se iden i ica am maio i a iamen e, con ibuindo pa a a emancipação e a mudança do papel da mulhe na sociedade (Cunha, 2003). Dos anos se en a aos no en a, do século XX, a ele isão pública man ém uma p og amação mui o cen ada, no p ime- ime, nas eleno elas b asilei as, embo a exiba ou as ob as, ais como ea o, cinema e soap ope as, como a ame icana Dallas, es eada em 1981, com g ande sucesso. A li e a u a académica sob e as soop ope a ende a c i ica o o ma o, embo a haja au o es que o de endam (Ang, 1985), po e o ça o pode pa ia cal e elega as mulhe es pa a um quo idiano de papéis adicionais (Ge ag hy, 1991; Blumen hal, 1997). De salien a , em 1993, a adap ação humo ís ica que oi ealizada da sé ie b i ânica, Yes, Minis e (1980), com o í ulo A Mulhe do Senho Minis o, cen ada nos bas ido es da go e nação po uguesa. Na adap ação, p e alece o cená io domés ico e pon i ica a mulhe do minis o que exe ce, a pa i das o inas do casamen o, pode e in luência nas decisões go e namen ais. O apa ecimen o dos canais p i ados, no início da década de 90, do século passado, inaugu ou um me cado conco encial en e ope ado es de ele isão. As eleno elas Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 255 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 7 b asilei as passa am a se exibidas, no p ime- ime, an o na RTP1, canal público, como na SIC, canal p i ado. A ambien ação e a denúncia polí ica pe passam mui as des as ob as, pa icula men e nas que oca am os anos de di adu a no B asil, con e indo às mulhe es g ande isibilidade e p o agonismo, como nas mini-sé ies Anos Dou ados (1986) e Anos Rebeldes (1992), p oduzidas pela Rede Globo. Mas, em simul âneo, e em g ande pa e des as p oduções, há uma endência à sexualização, e o ização e sensualização da mulhe . Es a ealidade, que le a à c iação de imagens cono adas com a “mulhe obje o”, p omo e um conjun o de lei u as c í icas p esen es em mui os ex os académicos, e eminis as, sob e es es p odu os no B asil (Mo a, 2015; Baccega e Rocha, 2016). A p odução po uguesa da década de 90, e início do milénio eco e, que ao desen ol imen o de eleno elas e às sé ies nacionais, que à p odução de ele ilmes. As emá icas his ó ico-polí icas es ão p esen es, com a e ocação do im da mona quia (O Dia do Regicídio, 2007), a P imei a República (Noi e Sang en a, 2010), a di adu a (A é Amanhã Cama adas, 2005, e a A Vida P i ada de Salaza , 2008), a gue a colonial (A Noi a, 2001), a e olução de 25 de Ab il de 1974 (Capi ães de Ab il, 1999) ou o eg esso dos po ugueses das ex-colónias (Depois do Adeus, 2012-13) (Bu nay, 2014). Nes as p oduções, apesa das mulhe es apa ece em como p o agonis as, em alguns casos des acadas, há uma subal e nização cons an e do seu papel social e a assunção dos es e eó ipos con encionais, ais como “mulhe mãe”, “mulhe companhei a”, “mulhe sal ado a”, “mulhe a al” ou “mulhe sedu o a”. En ende-se es e eó ipo como um p ocesso de ca ego ização social, emp eendido po indi íduos ou g upos que compa ilham imagens men ais hipe simpli icadas de de e minada ca ego ia de indi íduo, ins i uição ou acon ecimen o (Lippman, 1922). Nas eleno elas b asilei as, os es e eó ipos endem a e le i que as imagens que os g upos êm de si mesmos (au o- es e eó ipo), que as imagens que os g upos êm de ou os g upos (hé e o- es e eó ipos), assumindo, po ezes, a o ma de p econcei os. Em Po ugal, a isualização diá ia, e con ínua, des es p odu os es á associada ao c escimen o do es igma ace às muhe es b asilei as mig an es no inal da década de no en a e início do milénio (Cunha, 2011; Padilla e F ança, 2015). Nes e pe íodo, é ambém ele an e a p odução de sé ies ou ele ilmes, mui as eses em egime de co-p odução com o B asil, que u ilizou a li e a u a clássica po uguesa, de esc i o es como Eça de Quei ós (Sob al, 2016), pa a da co po às ques ões polí icas e de géne o. Ou as ob as, como a Jóia de Á ica (2002) e Equado (2008), p oduzidas pela TVI, sob essaem, na p imei a década do milénio, po se em odados em Moçambique, São Tomé e P íncipe e B asil, e abo da em, não só o pode colonial como a esc a a u a e a condição eminina nesses pe íodos. Es ão p esen es, em ambas as eleno elas, os es e eó ipos associados à mulhe e à sexualidade em ambien es opicais, e omando a ideia colonial da “mulhe sensual e disponí el” e que “ udo ale abaixo do equado ” (T exle , 1995). Es as ob as, as suas emá icas, bem como os pad ões es é icos e Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 256 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Isabel Fe in-Cunha Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 8 audio isuais con ibui am pa a despe a o in e esse académico po es es p odu os (Cunha, Cas ilho, Guedes, 2017). A pa i da segunda ´década do milénio, aumen a o núme o de ob as de icção se iada po uguesa e a qualidade écnica das mesmas, mas a mig ação de g ande núme o de espec ado es pa a a p og amação on demand e a cabo, az com que os canais abe os de ele isão, abandonem emá icas complexas, dado o público-al o es a ci cunsc i o a mulhe es mais elhas e subu banas conside adas, “menos exigen es” (Bu nay, 2014). A apos a passa a cen a -se na ilmog a ia, onde su ge um núme o conside á el de mulhe es, que ein idicando o seu luga e a emá ica do eminino, deba em emas uni e sais, com p ojeção in e nacional, como Te esa Villa e de (ex. Colo, 2017), Ma ia de Medei os (ex. Aos Nossos Filhos, 2019) ou Leono Telles (ex. Balada de um Ba áquio, 2016). Des e modo, a pa i da segunda década do milénio, a p oli e ação dos canais a cabo, e a massi icação do s eaming, con e i am uma ou a dinâmica ao consumo de icção polí ica se iada e à cen alidade das ques ões de géne o. A en ada de ecnologias como a ADSL e a In e ne , sob e udo a pa i de 2006, pe mi i am se iços po cabo, on demand e em s eaming que alinhou os consumos po ugueses aos in e nacionais. Salien a-se, na pe spe i a da polí ica e do p o agonismo da mulhe , ês sé ies ame icanas com impac o em Po ugal: The Good Wi e, emi ida en e 2009-2016, em no e empo adas, p oduzida nos Es ados Unidos pela CBS e, em Po ugal, exibida no canal pago FOX Li e; Scandal, emi ida en e 2012-2018, em se e empo adas, p oduzida nos Es ados Unidos pela ABC e di undida em Po ugal pela FOX Li e e House o Ca ds, com di usão en e 2013- 2019, em seis empo adas, p oduzida pela Ne lix. As ês sé ies, ambien adas nos Es ados Unidos, duas em Whashing on (Scandal e House o Ca ds) e uma em Chicago (The Good Wi e), põem em cena o acesso, o exe cício e os con li os polí icos que en ol em o Pode . No cen o de cada es ó ia, há uma pe sonagem eminina, pe encen e a uma eli e p o issional e polí ica — Alicia F olick (The Good Wi e), Oli ia Pope (Scandal) e Clai e Unde wood (House o Ca ds) — que en en a desa ios pessoais, amilia es e p o issionais. As pe sonagens, densas e complexas, mo imen am-se no espaço polí ico, seguindo aje ó ias independen es às dos seus companhei os ou pa ões (Bisca a , 2017). Os cená ios u banos, a so is icação dos ambien es, os simbolos de pode , o i mo das na a i as e os discu sos, c iam pe sonagens emininas asse i as, ce eb ais e capazes de e ea emoções pe an e os jogos de pode , onde pa icipam com ins umen os ju ídicos, polí icos e comunicacionais especializados, ein en ando o mas de sedução e a ação sexual. De salien a o conhecimen o que as ês pe sonagens demons am ace ca do papel dos media, da media ização da polí ica, bem como da ges ão da imagem no espaço público. Em The Good Wi e a p o agonis a, mulhe de um p omo o ame icano acusado de co upção, e en ol ido em escândalos sexuais, deba e-se com a imp ensa, sequiosa de po meno es só didos. Em Scandal a p o agonis a é ex-assesso a de Comunicação, da Casa B anca, e ge e uma agência de c ises que lida, dia iamen e, com escândalos Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 257 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 9 mediá icos a im de con ola danos na imagem de igu as públicas. Em House o Ca ds, Clai e Unde wood, mulhe do p esiden e, u iliza em mui as si uações os media, e os seus p o issionais, pa a os seus obje i os especi icos, ge indo in e esses p i ados e públicos, po meio de ugas de in o mação (Popo ié, 2017; Cole i, 2017; Maeseele, 2019). Es as sé ies polí icas ame icanas consolida am, em Po ugal, um nicho de me cado de audiências, em que se inse em as sé ies Bo gen e Le Ba on Noi . Ao mesmo empo, as ês pe sonagens emininas de eli e impulsiona am a o mação de um no o público compos o po mulhe es, p o issionais quali icadas e u banas, que se e êem nas es a égias de a i mação, pau adas po cons an es obs áculos e p o ocações, ap esen adas nessas ob as. 2 A na u eza da icção polí ica se iada O impulso à media ização da sociedade, a pa i do desen ol imen o das ecnologias de in o mação e comunicação, nos anos no en a do século passado, ais como a in e ne e as edes sociais, incen i ou a media ização da polí ica. Es e enómeno em expansão, sob e udo nos Es ados Unidos, desde os anos sessen a, al e ou a elação dos cidadãos com a democ acia em ge al, p incipalmen e p omo endo a desc ença na polí ica, nos polí icos e nos a os elei o ais (No is, 2000). Num me cado conco encial, onde os disposi i os digi ais e as edes sociais impuse am a in o mação imedia a e ins an ânea, a imp ensa e o jo nalismo endem a ado a pa âme os de e i icação da ida polí ica que p i ilegiem a in o mação/en e enimen o (B an s, 1998). Ao mesmo empo, a c escen e cen alidade dos media e das ecnologias de in o mação e comunicação azem com que es as ins i uições assumam um p o agonismo social de di ei o p óp io (Hja a d, 2013). Desde os anos sessen a, do século passado, que o declínio da es e a pública é a ibuído à ele isão e ao audio isual (Habe mas, 1962; Thompson, 2000), si uação que se econ igu ou com a expansão da in e ne e do digi al (High ield, 2016). Es e no o con ex o mediá ico eio al e a , p o undamen e, a elação en e a polí ica e os media, po um lado, a o ma de aze polí ica e os polí icos, inco po a am es a égias de comunicação, po ou o lado, os media ans o ma am-se em a o es polí icos. Nes e p ocesso, ins alou-se uma lu a con an e, en e os dois campos, pela de inição de “agendas públicas”, acompanhada de um pe manen e esc u ínio dos media e dos cidadãos, sob e essas mesmas igu as (Bondebje g, 2014). A c escen e p essão sob e a democ acia, e sob e os seus pa idos adicionais, cons i ui o pano de undo pa a a dinâmica das a uais sé ies de icção polí ica. Os o ei os e as amas iccionais endem a su gi , cada ez mais, como uma o ma de os cidadãos oma em conhecimen o, ou mesmo se al abe iza em, ace ca dos p ocessos de go e nação e dos p ocedimen os polí ico-pa idá ios em democ acia (Le eb e e Taïeb, Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 258 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Isabel Fe in-Cunha Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 16 quo idiano que se a icula en e o espaço p i ado de um apa amen o de amília e o espaço público das ins alações go e namen ais e polí icas. Es a análise e o ça a de inição ge al de es e a pública mode na, en endida como o conjun o de locais ísicos ou i uais onde ideias e sen imen os, ele an es pa a a polí ica, são ansmi idos ou ocados. Ao mesmo empo, acen ua a ideia de es e a pública di usa, ca ac e izada po uma p o usão de canais de comunicação que p opo cionam a pe meabilidade en e a es e a polí ica e a es e a p i ada (Benne e En man, 2001). Des e modo é possí el iden i ica , em ambos os en edos, as componen es e as si uações dos espaços polí icos, dos espaços mediá icos, dos espaços amilia es e dos espaços sociais, e as suas in e elações, bem como as elações en e es as ca ac e ís icas em ambos os en edos (Bondebje g,2014). No en an o há di e enças obse á eis nas duas sé ies, pois enquan o a sé ie dinama quesa ap esen a uma dimensão da his ó ia mais ci cunsc i a, e i o ialmen e espelhada na simplicidade e aus e idade das ins alações e nas p opo ções dos espaços ísicos, a sé ie ancesa ap op ia-se dos símbolos imponen es de go e nação da República, dos palácios majes osos, das salas de espelhos o namen adas, dos imensos co edo es que le am a gabine es sump uosos e de es ilo econhecido. Bo gen que em po uguês se ia “O Cas elo”, é a designação popula que eme e pa a o Palácio de Ch is iansbo g, onde es ão ins alados os ês amos do go e no dinama quês: o pa lamen o, o gabine e do p imei o-minis o e a sup ema co e. Bi gi e Nybo g ansi a en e es es locais públicos e os espaços p i ados, do seu apa amen o à escola dos ilhos, e anda pelas uas a pé ou de bicicle a. A pe sonagem p incipal masculina da sé ie ancesa Le Ba on Noi , decalcada na igu a polí ica do depu ado ancês da esque da socialis a Julien D ay, ci cula en e a egião indús ial e po uá ia de Dunke que, onde em uma casa modes a, e Pa is, local onde ica num ho el pouco so is icado. A pe sonagem eminina Amélie Du andeau, de o igem bu guesa, mo e-se en e euniões na sede do PS, os co edo es do palácio p esidencial, o Palácio do Eliseu, e o seu qua o ambien ado num apa amen o de luxo. A u ilização de ca os o iciais e a passagem pelas uas da capi al ancesa é cons an e e o cidadão es á ausen e nessas deslocações. O en edo p i ilegia pano amos e is as do Ho el Ma ignon, sede do P imei o-Minis o ancês, o Palácio do Luxembu go, onde se eúne o Senado, e o Palácio de Bou bon, sede da Assembléia Nacional. Na sé ie dinama quesa os espaços dos media, da imp ensa, da ele isão, das edações e dos es údios, são cená ios com alguma equência, ao con á io do que acon ece na sé ie ancesa, onde os media su gem na o ma de no ícias ele isi as ou in e enção de jo nalis as. Bo gen mos a, de uma o ma mui o cla a, os bas ido es dos media, as euniões de edação, a p essão pela “cacha” in o ma i a, os ele onemas en e spin doc o s, di e o es de imp ensa e jo nalis as, mos ando como o mundo poli ico, jo nalís ico e de comunicação es ão imb icados. Es a elação consubs ancia-se em ês Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 265 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 17 pe sonagens p incipais: um che e de um pa ido abalhis a que se o na edi o che e de um jo nal abloide; um an igo jo nalis a que se con e e em spin doc o e, pos e io men e, e o na a jo nalis a, e po im, uma jo nalis a que op a pela unção de spin doc o da candida a a p imei a-minis a. 3.1.3 Pe sonagens emininas Foi na Dinama ca que as mulhe es p imei o conquis a am o di ei o de o o na Eu opa em 1915. Desde 1924, as mulhe es dinama quesas êm p esença nos go e nos, si uação que os pa idos polí icos a o ece am ado ando, li emen e, legislação em p ol da pa idade. Es a si uação econhecida, nacional e in e nacionalmen e, não e i a d ama icidade e he oicidade ao pe cu so da pe sonagem Bi gi e Nybo g que é con on ada, ao longo da sé ie, com odos os obs áculos que as mulhe es que en am na polí ica êm de supe a pa a p ossegui es a ca ei a. Em F ança, apesa do papel de e minan e das mulhe es nos di e sos pe íodos his ó icos, o di ei o de o o su ge apenas em ab il de 1944, assis indo-se a pa i de en ão à pa icipação de mulhe es em ca gos minis e iais. Em 2000, após a undação, em 1995, do Obse a ó io pa a a Pa idade, se á ado ado es e p incípio nas lis as elei o ais e nos ca gos polí icos. A cons ução das pe sonagens en ol e um conjun o de pesquisas de campo e en e is as com mulhe es, bem como a iden i icação de ac os e episódios eais que possam da e somilhança e solidez à icção. Es e p ocesso mobiliza, ainda, um conjun o de elemen os iden i icá eis como es e eó ipos, masculinos e emininos, que podem se acilmen e econhecidos pelos espec ado es e u ilizados como ca ac e izado es, ísicos e men ais, das pe sonagens (Delapo e, 2020). As pe sonagens da icção polí ica são, maio i a iamen e, homens en e os 40 e os 50 anos, com o igem em o mações pa idá ias, em si uações de conluio, chan agem ou u u a, ameaçados po o ças ex e nas ou in e nas ad e sas e conco enciais. Os homens endem a se as pe sonagens cen ais da icção polí ica e as mulhe es a se em u ilizadas como coadju an es da sua pe o mance, o que le a algumas analis as a obse a que as sé ies, nes e caso as ancesas, epo am, p e e encialmen e, uma “República de machos” (Bisca a , 2017). Os en edos ela am c ises polí icas e máquinas pa idá ias a assalado as, que co ompem as decisões indi iduais, p e e indo o bene ício público em a o de um g upo, g upos ou in e esses exógenos. As mulhe es su gem, maio i a iamen e, em papéis secundá ios, dependen es, polí ica e a e i amen e, dos homens, alo izadas pela sua apa ência, colabo ação ou mesmo submissão (Bisca a , 2017). O econhecimen o polí ico des as mulhe es az-se, como acon ece inicialmen e em Bo gen e em Le Ba on Noi , a pa i de um acaso ci cuns ancial, o a as amen o do candida o p incipal e a pe cepção de que são acilmen e manipulá eis. Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 266 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Isabel Fe in-Cunha Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 18 3.1.2.1 Amélie Do endeu Amélie Do endeu, ex-comissá ia eu opeia, eg essa de uma amília bu guesa e das melho es uni e sidades ancesas, à medida que ai assumindo maio p o agonismo polí ico, ai inco po ando os cânones da acionalidade nos compo amen os em público. Ao longo da sua ca ei a, a a ação po polí icos, homens o es, az com que se subal e nize nas suas con icções e abandone a sua ida pessoal. Dispu ada po dois líde es socialis as, no plano polí ico e sexual, acaba po se en ol e com o p o agonis a Philipe Rickwae , depu ado caído em desg aça e spin doc o , homem di o ciado e machis a. Con udo, Amélie Do endeu não é o o eu de beleza e elegância desp o egido que apa en a. Sem nunca e passado pelo su ágio uni e sal, ela u iliza a sedução como uma a ma de manipulação pe igosa, capaz de se i as suas ambições pessoais de pode , p imei o pa a se o na o b aço di ei o de um p esiden e (1ª empo ada) e, pos e io men e, pa a ela p óp ia o na -se p esiden e de F ança (2ª empo ada).Na 3ª empo ada, acossada po mo imen os sociais hos is e o ças polí ico-pa idá ias de ex ema-di ei a, põe o ca go à disposição e suicida-se, num a o designado pelos seus pa es de “nob eza epublicana”. A p esiden e de F ança Amélie Do endeu (Anna Mouglalis) Fon e: Canal + Pa a mui os anceses, es a pe sonagem (Le eb e e Taïbe, 2020) enca na uma e são a ualizada de Ségolène Royal, mili an e e depu ada solicialis a, ex-mulhe do p esiden e F ançois Holande, que ap esen ou a sua candida u a a p esiden e em 2007. A desc ição, a elegância e a solidão es u u am a sua manei a de es a , embo a seja uma polí ica ia e exímia em manob as de bas ido es. Ra amen e demons a empa ia ou solida iedade. O dis anciamen o e a azão polí ica es a égica o ien am as suas decisões pessoais e p o issionais. Ce cada de luxo e c iados de lib é, passa o empo li e ecolhida e em silêncio, e i ando con a os com os cidadãos, exce o pela ele isão. A sua elação com o p o agonis a p incipal, Philipe Rickwae , Le Ba on Noi , ainda na qualidade de spin doc o , le a-a a abdica da sua ida p i ada, mesmo quando o desca a e se liga a uma Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 267 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 19 coligação de di ei a. O ascínio pelo pode de um homem mais elho e lu ado , com um g ande conhecimen o da his ó ia polí ica da F ança, e do pa ido socialis a ancês, é e iden e. Philipe Rickwae de o mação ope á ia, de enso da esque da socialis a, obcecado pela polí ica, e com ideias consolidadas sob e como se de e a ua e manipula o espaço público, pouco ansi a em ou os espaços (Laugie , 2018). A sua es a égia de ida de hipe p o issional da polí ica é assumida pela candida a e, em seguida, p esiden e Amélie Do endeu, mesmo após as aições polí icas e pessoais, que a azem p ocu a alianças à di ei a, p essionada pelo jihadismo e pelo a anço da ex ema-di ei a. Símbolo de uma classe polí ica aga ada ao seu pode e p on a a cede pe an e os in e esses o ganizados, ela eco e a discu sos conciliado es, com is a a apazigua os mo imen os sociais em c escimen o. Na somb a do men o , a p o agonis a ec ia um compo amen o indi idual p óp io, e i ando elações pessoais, manipulando as que consegue p ese a , e ugiando-se nos cená ios o iciais quando expos a aos media e às ugas de in o mação. O p agma ismo e a ambição, as ensões en e as exigências de uma economia ul alibe al e a p essão popula c escen e, cons oem uma pe sonagem ambígua, mui o p óxima de um ilão, onde impe a a ealpoli ick, mui o associada, nos en edos de icção polí ica, aos p o agonis as masculinos. No inal, en e p essões e chan agens polí icas, cada ez mais du as, Amélie Do endeu ecupe a a sua dignidade, ao demi i -se e a ca com esponsabilidades, pela má ges ão da epública. 3.1.2.2 Bi gi e Nybo g Bi gi e Nybo g é uma mulhe casada, e com dois ilhos, que em uma ascensão polí ica num pequeno pa ido do cen o. Mo imen a-se num es ado nó dico de bem es a social onde o p o agonismo eminino de mulhe es o es, mui as ezes mães sozinhas, é conside ado uma das ca ac e ís icas das sé ies de ele isão (Jensen e Jacobson, 2017; Waade, Red all e Jensen, 2020). Ao longo das ês empo adas, uma qua a es á p e is a pa a 2022, assi e-se à sua ascensão como líde de um pequeno pa ido cen is a, após a e elação de um escândalo en ol endo o an e io di igen e, e a sua chegada a um go e no de coligação onde ocupa a pas a de de p imei a-minis a e de minis a dos negócios es angei os. O en edo a icula dilemas p i ados e públicos e a en a i a de conciliação de uma ida amilia e amo osa com a ida polí ica a i a. Os cus os pessoais des a conciliação exigen e su gem com o di ó cio, a debili ação da saúde pelo canc o e os p oblemas que a ligem a ilha. Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 268 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Isabel Fe in-Cunha Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 20 A p imei a-minis a dinama quesa, Bi gi e Nybo g, e sua amília. Fon e: h ps://magg.sapo.p / ele isao/a igos/bo gen-a-se ie-de-cul o-dinama quesa- ai- eg essa -com-uma- no a- empo ada-na-ne lix A sé ie e a pe sonagem celeb am a democ acia pa lamen a , ocando as negociações, a madilhas e bas ido es da polí ica, sem deixa de ap esen a o lado mais somb io e hipóc i a da conquis a e do exe cício do pode . Mas o en edo e a pe sonagem são uma mensagem de espe ança pa a um mundo mais equi a i o, ao aze uma mulhe , pa a o p imei o plano da cena polí ica, que en a, cons an emen e, al e a as eg as do exe cício do pode na sociedade, como na o ma de oma decisões polí icas e abo da g andes emas, como o es ado social, as e o mas, o abalho, ou p opondo um p oje o- lei que ob iga as emp esas a e em 45% de mulhe es no conselho. Nes e sen ido, a p imei a-minis a pode se compa ada a mulhe es o es, na polí ica mundial, como Hilla y Clin on ou Nicola S u geon (S egge Gemzøe, 2020). Nybo g é uma pe sonagem posi i a, idealis a, que demons a o domínio dos códigos polí icos, ao cul i a a au en icidade na comunicação com o público. Ela não acila quando op a pela amília, e expõe as suas emoções, anunciando na ele isão em di e o, que i á abdica da sua ida polí ica, pa a se dedica à ilha. Mas, ambém, não esconde os seus sen imen os em si uações de in e esse polí ico, como quando se solida iza com os soldados dinama queses des acados no A eganis ão e suas amílias (Le Ba , 2020). A assunção da emoção não apa en a, ao longo do en edo, e consequências na sua desc edibilização polí ica, pelo con á io, os elei o es são ca i ados pelo discu so since o que in e cala o sen ido p o issional da polí ica e as condicionan es pessoais de a uação, mesmo quando segue indicações con á ias aos seus spin doc o s. A u ilização da emoção em con aposição ao cinismo e à hipoc isia polí ica c ia uma an agem ace aos ad e sá ios, maio i a iamen e homens. Ao longo da sua aje ó ia polí ica há uma endência, c escen e, da pe sonagem em esconde , sublima ou p o issionaliza a Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 269 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 21 exp essão das emoções, p incipalmen e nos con on os polí icos públicos. No en an o, num con ex o de a i mação do pode , e numa democ acia esc u inada ao po meno , a pe sonagem lu a pa a man e a au en icidade, a é ica e a idelidade aos seus ideais. O papel dos spin doc o s na o ma ação da imagem polí ica, na alo ização de qualidades ou na con enção de es agos, cons i ui um dos enquad amen os cons an es da pe sonagem. Que seja homem (pe sonagem de Kaspe Juul) ou mulhe (pe sonagem de Ka ine Fønsma k), a unção do spin doc o é abalha e en abiliza poli icamen e a ida emocional de Bi gi e Nybo g pe an e os cidadãos elei o es. Com es e obje i o, e na busca de minimiza possí eis danos, p ocu am se eles a “con a a es ó ia” aos g andes media, p incipalmen e quando a ida amilia i ompe no espaço público, como no di ó cio, na elação com um aman e, no a amen o do cance ou na dep essão da ilha. O en edo demons a uma g ande p omiscuidade en e os media e a polí ica, com dois jo nalis as a al e na em es as unções com as de spin doc o s e um ex-polí ico a p esidi um g ande meio de comunicação. Es e cí culo polí ico-mediá ico ende a e o ça a media ização da polí ica a pa i da no malização de es a égias de en e enimen o e comunicação na polí ica e, po sua ez, a in e enção dos media como a o es polí icos de pleno di ei o. O abalho de con ôle, e en abilização das emoções, em uma elação di e a com a in o ainmen , e os di e os de ele isão, com que a p imei a-minis a é con on ada pe iodicamen e e einada cons an emen e pelos seus spin doc o s. 4 Discussão e conclusão: as escolhas das mulhe es na polí ica Nas sé ies que analisámos as p o agonis as emininas ap esen am es a égias con adi ó ias, embo a a cen alidade dos seus papéis não se al e e subs ancialmen e. Os emas con inuam a abo da as campanhas elei o ais; o uncionamen o das máquinas polí icas; os c imes polí icos e econónomicos ou pe sonalidades de go e nan es o es (Van Zoonen e W ing, 2012), emá icas que semp e cons i uem o co e business dessas p oduções. A di e ença es á no e o ço de algumas compe ências a ibuídas às mulhe es, ais como a capacidade eminina de ges ão, a iculando o espaço público e p i ado, como acon ece na pe sonagem de Bi gi e Nybo g em Bo gen. Nes a igu a de p imei a-minis a, mais que na da p esiden e Amélie Do endeu, de Le Ba on Noi , obse a-se a acilidade de comunicação com o público e com os media, bem como a habilidade em negocia e es abelece pon es en e ad e sá ios. Ambas as ob as e o çam a de esa da imagem p i ada — em Le Ba on Noi a p esiden e e ugia-se na solidão e, em Bo gen, es e equisi o es ende-se aos memb os da amilia — pe an e a Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 h p://dx.doi.o g/10.12795/RiCH.2021.i16.12 270 Polí ica, pode e géne o nas sé ies ele isi as eu opeias: Bo gen (Dinama ca) e Le ba on noi (F ança) Isabel Fe in-Cunha Isabel Fe in-Cunha Re is a in e nacional de His o ia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 22 igilância mediá ica e social, que é endencialmen e supe io ao exe cido ace aos seus colegas homens. Ins igan e é a análise esmiuçada das omadas de decisão e a explo ação da componen e emocional, p o agonizada pela p imei a-minis a Bi gi e Nybo g. Es as ques ões, que nunca cons i ui am um oco de in e esse na in es igação em Ciência Polí ica, põem em causa as no mas de compo amen o polí ico, no espaço público, iden i icadas com a ideia de sangue- io e acionalidade, ad indas dos ensinamen os de Maquia el (2012) e Webe (1998). As emoções exp essas pela p imei a-minis a dinama quesa são, des e modo, uma mensagem de espe ança e au en icidade à polí ica, em con as e com o quad o de c ise da democ acia, p o agonizado pela p esiden e ancesa. As duas pe sonagens emininas, jo ens e sensuais, dis inguem-se pelos con ex os cul u ais e polí icos em que se inse em, espe i amen e em F ança e na Dinama ca. Amélie Do endeu ci cula num uni e so masculino e pa idá io, onde impe a o machismo e a condescendência pe an e as mulhe es. A sua nomeação como p esiden e é a ibuída às a imanhas do seu spin doc o e à ideia de que se á acilmen e manipulá el. Só no inal da 3ª empo ada o seu ca ác e , e aços psicológicos, adqui em maio au onomia ace ao seu c iado , Philipe Rickwae . Bi gi e Nybo g, apesa de e chegado ao cen o do palco, po um acon ecimen o que lhe é ex e io , assume o seu luga de pleno di ei o mas, pa a ela, o desa io maio é concilia a polí ica com a ida p i ada (Roussele , 2018; Lé êque e Ma on i, 2020). Ambas as na a i as são uni e sais e cosmopoli as, quan o às es ó ias que con am, e os con li os que enunciam, a iculando os di e en es espaços da ida de uma mulhe na polí ica. Elas ob igam, ambém, e p incipalmen e em Po ugal, a desen ol e um pensamen o c í ico sob e a pa idade e as opo unidades da mulhe , quando ela p e ende concilia as idas p o issional e amilia , num mundo em que as a e as da ida p i ada ainda lhe são, maio i a ia e na u almen e, a ibuídas. Re e encias bibliog á icas AMAT, F., FALCÓ-GIMENO, A., ARENAS, A., MUÑOZ, J. (2020): Pandemics mee democ acy: Expe imen al e idence om he COVID-19 c isis in Spain. 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