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De um iluminismo colonial ou outros aspectos da ilustração no Brasil: circulação de ideias, identidades locais e historiografias brasílicas

Abstract

O presente artigo aborda a construção de identidades regionais na sociedade colonial da América portuguesa. Através da análise do valor discursivo das crônicas luso-brasileiras confeccionadas ao longo do século XVIII, busca-se traçar tal panorama e os planos de integração do Brasil a Portugal nessas narrativas. Destaca-se, também, as invenções genealógicas locais frente à miscigenação sociorracial desta formação histórica.

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De um iluminismo colonial ou outros aspectos da ilustração no Brasil: circulação de ideias, identidades locais e historiografias brasílicas

Author: Silva, Bruno
Publisher: Universidad de Sevilla
Year: 2021
DOI: 10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.09
Source: https://idus.us.es/bitstreams/a0f21ab8-4bb7-4d3c-99f4-d8e29537240c/download
B uno Sil a
De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da
ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais
e his o iog a ias b asílicas
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09
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DE UM ILUMINISMO COLONIAL OU OUTROS ASPECTOS DA ILUSTRAÇÃO
NO BRASIL: CIRCULAÇÃO DE IDEIAS, IDENTIDADES LOCAIS E
HISTORIOGRAFIAS BRASÍLICAS
A COLONIAL ENLIGHTENMENT OR OTHER ASPECTS OF
ENLIGHTENMENT IN BRAZIL: CIRCULATION OF IDEAS, LOCAL
IDENTITIES AND BRAZILIAN HISTORIOGRAPHIES
B uno Sil a
Uni e sidade Fede al do Sul e Sudes e do Pa á
O cid: 0000-0002-9517-0197
Resumo: O p esen e a igo abo da a cons ução de iden idades egionais na sociedade
colonial da Amé ica po uguesa. A a és da análise do alo discu si o das c ônicas luso-
b asilei as con eccionadas ao longo do século XVIII, busca-se aça al pano ama e os
planos de in eg ação do B asil a Po ugal nessas na a i as. Des aca-se, ambém, as
in enções genealógicas locais en e à miscigenação socio acial des a o mação his ó ica.
Pala as-cha e: iden idades coloniais; c ônicas luso-b asilei as; século XVIII.
Abs ac : This a icle discusses he cons uc ion o egional iden i ies in he colonial socie y
o Po uguese Ame ica. Th ough he analysis o he discu si e alue o Po uguese-B azilian
ch onicles made h oughou he 18 h cen u y, we seek o ou line such a pano ama and he
plans o in eg a ing B azil o Po ugal in hese na a i es. Also no ewo hy a e he local
genealogical in en ions in he ace o he socio- acial miscegena ion o his his o ical
o ma ion.
Keywo ds: colonial iden i ies; Po uguese-B azilian ch onicles; XVIII cen u y.
B uno Sil a
De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da
ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais
e his o iog a ias b asílicas
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al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172
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O í ulo do p esen e a igo é ambém uma jus a homenagem. Em 1968, a Re is a do
Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o (IHGB) es ampa a o ex o da his o iado a Ma ia
Odila da Sil a Dias, no qual a p o esso a apon a a alguns aspec os conce nen es ao
pensamen o ilus ado que, segundo o obje i o de endido, emanados da Eu opa do século das
Luzes, e iam a a essado o A lân ico e se adap ado, a a és das lei u as dos le ados locais,
às condições ine en es ao mundo colonial. A ese de endida pela au o a, em aços bem ge ais
aqui e omada, e a de que “a no a é ica” do Iluminismo, pelo menos aquela ab açada pela
ge ação de luso-b asilei os que ansi a am en e as duas ma gens do Impé io po uguês e se
o ma am em uni e sidades eu opeias, oi aquela da p a icidade; esponsá el po dob a a
ciência ao sabo da “ elicidade na e a”; ou seja, “a exal ação do sábio e do cien is a como
o homem p á ico e de ação: cabe ia a eles cons ui a elicidade dos homens, com in en os
e descobe as ú eis ao bem-es a e à saúde e p o ei o da sociedade”.
1
Conquan o Sil a Dias não negue a elação desses indi íduos da colônia com as ideias
secula es, as c í icas ao s a us quo do An igo Regime e o que ela designa como mani es ações
e olucioná ias e epublicanas nas anjas do Impé io po uguês, seus obje i os são bem
ou os, ou seja, a p a icidade dos colonos ins uídos pa a u iliza em das ideias ilus adas a
im do aze unciona a p odução econômica do B asil. No p esen e ex o o in ui o é
di e en e. Mas, como pa e subs ancial dos his o iado es que se deb uçam, no B asil, na
emá ica aqui p opos a, não me u o de pa i do clássico ex o publicado em 1968. Con udo,
buscando a ea pelos caminhos abe os po pesquisado es que abo dam as ideias e as ob as
dos le ados b asílicos do século XVIII, peço licença pa a ap esen a , em e mos de ibu o,
pa e do í ulo assinalado como ou os aspec os da ilus ação no B asil.
Isso signi ica que sou um dis in o ipo de con ado de his ó ias e, na e lexão a segui ,
in en o ea e esc i os p oduzidos em e as coloniais b asilei as ao longo do século XVIII,
p incipalmen e nas capi anias de Pe nambuco e São Paulo, ecupe ados e classi icados como
c ônicas e ob as de cunho linhagis a, pa a obse a o alo discu si o desses documen os na
p odução do que designo como iden idades in en adas. Desse modo, deb uço-me sob e essa
a adís ica com o in ui o de demons a que, imbuídos po discussões desen oladas em
1
Ma ia Odila Lei e da Sil a Dias, “Aspec os da Ilus ação no B asil”, Re is a do Ins i u o His ó ico e
Geog á ico B asilei o (Rio de Janei o: IHGB, 1968, . 278, p. 105-170), p. 106.
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di e en es pa es do mundo no século do chamado Iluminismo, sob e udo a espei o de no as
écnicas e mé odos pa a eesc e e sob e o passado dos impé ios e das di e en es pa es que
os compunham, os le ados aqui apon ados esc e e em seus egis os. Pa indo de espaços
especí icos dos domínios po ugueses na Amé ica, co ejo as esc i as de di e en es c onis as
e genealogis as luso-b asilei os com compêndios publicados na Eu opa e àqueles esc i os a
p opósi o de ou as pa agens do as o con inen e ame icano pa a en a sinaliza que, a
despei o de não nega em a eligião ca ólica e as bases sociocul u ais e polí icas cujo empenho
consis ia em cos u a as di e en es es u u as do impé io po uguês, ainda assim esses ex os
são undamen ais pa a se comp eende a cons ução de iden idades egionais na colônia.
O in ui o é ambém e i ica como a essi u a desses egis os do século XVIII, que
indicam a busca po uma o ja de iden idades cul u ais egionais – que não i aliza am com
a po uguesa, mas, busca a ea i má-la, malg ado a necessidade da ei u a de adap ações,
pelos colonos, na pesada “bagagem” cul u al azida da Eu opa –, se i am-se das his ó ias
locais como meio pa a suas cons uções. Se os genealogis as se emb enha am po e aze as
aje ó ias das amílias que chega am ao B asil a pa i do século XVI pe ilando-as em
luxos nob es mui as ezes emon ados a oncos nobiliá quicos medie ais – limpos de
sangue e de senho es i endo à moda da nob eza
2
–, as c ônicas que p ocu a am eesc e e
a his ó ia dos an epassados das egiões conhecidas como Pe nambuco e São Paulo se
ale am do in en á io de nomes, a os e acon ecimen os. Tais elemen os, egis ados sob o
c i o de uma me odologia ípica do século das Luzes – aquela das p o as documen ais –,
ap esen a am como escopo a alo ização das his ó ias locais e, desse modo, a conexão com
os desígnios do impé io.
Não obs an e, a ama dessas iden idades egionais se iu às ol as com a
miscigenação socio acial daquelas pa agens, o que é inques iona elmen e o aspec o mais
impo an e da nossa o mação his ó ica. A inal, como bem salien ou Ronaldo Vain as, “os
es a u os de pu eza de sangue não o am capazes de impedi as uniões mis as, o mais ou
não, no p óp io eino luso, quan o mais nas colônias”.
3
Assim, dian e da miscigenação local,
2
C. : E aldo Cab al de Mello, O nome e o sangue: uma pa ábola genealógica no Pe nambuco colonial (São
Paulo: Companhia das le as, 2009).
3
Ronaldo Vain as, “Ap esen ação”, Genealogias Mazombas: cas as luso-b asilei as em c ônicas coloniais,
B uno Sil a (Ni e ói: EDUFF, 2016).
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da p esença de neg os, mula os e an os ou os ipos humanos, como de ende uma unidade?
Adian o que se os indígenas, sob e udo a pa i da segunda me ade do século XVIII – e nisso
as e o mas pombalinas em o seu quinhão de impo ância –, o am elencados como
pa ícipes dessas cons uções cul u ais nas lei u as dos linhagis as. Neg os e mula os, ao
con á io, são excluídos com mais acilidade, mui o embo a apa eçam como elemen os de
amálgama iden i á io quando – ia p oje os pessoais ol ados aos desígnios eligiosos e o
suo e ido du an e con li os que chama am à gue a os homens locais pa a a de esa do
impé io – eles conseguissem ilus a o sangue e se a as assem da subs ância das quais e am
ei os, ou seja, uma e iden e alusão aos ca ac e izados de ei os de o igem, como de alha am
os le ados aqui e omados.
Essas iden idades não i alizam com Lisboa. Ao in és disso, pe cebo uma busca po
ap oximações. Di o de ou a o ma, não se encon a á aqui um acúmulo de in e p e ações
que isem associa as esc i as desses le ados luso-b asilei os com mo imen os esponsá eis
po apon a pa a a au onomia de suas egiões ou mesmo da colônia. A lei u a aqui
p econizada é a de que, em nenhum momen o, aqueles indi íduos se iam o a da
con igu ação social possí el pa a eles. Qualque aço de sen imen os nacionais, seque
coloniais, podem se mapeados nessas a adís icas.
Assim, o alo discu si o das c ônicas e das ex ensas ob as genealógicas
acompanha á meu pe cu so ao longo desse ex o. Meu empenho en a iza á p incipalmen e
as capi anias de Pe nambuco e São Paulo, embo a o a ou ou a buscando compa ações
elucida i as com ou os documen os an o eu opeus quan o de ou as pa es da Amé ica. O
se ecen os se á o oco da análise, apesa de es a cien e que a discussão, no caso do espaço
luso-b asilei o aqui abo dado, não se limi a ao século das Luzes, pois es ende-se ao longo
de g ande pa e do oi ocen os, sob e udo a pa i da inda da amília eal pa a a colônia, em
1808. O espaço que enho me pe mi e ci cunsc e e à análise de poucos le ados e, po es a
azão, iz a escolha po : F ei An ônio de San a Ma ia Jaboa ão (1695-1779); Gaspa Teixei a
de Aze edo, ei Gaspa da Mad e Deus (1715-1800); Ped o Taques de Almeida Paes Leme
(1714-1777); José Vic o iano Bo ges da Fonseca (1718-1786); e Domingos de Lo e o Cou o
(C.a 1696/1700-1757).
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Pa a além das iden idades in en adas, pano de undo que baliza á o a igo, busca -se-á
abo da , ao co eja os esc i os escolhidas de cada le ado, os seguin es emas e ques ões: a)
esses luso-b asilei os podem se conside ados, a pa i da ap eciação de seus ex os e das
e e ências eó ica-me odológicas po eles emp egadas, como ep esen an es daquilo que,
com ce a equência, se in i ula como “p é-his ó ia da his o iog a ia b asilei a”? b) se ia
ace ado ca ac e izá-los como a í ices de uma epis emologia ame icana que, dian e dos
compêndios de a o es dos homens e da na u eza do No o Mundo, ao longo do século das
Luzes, se puse am a esponde com suas análises cien í icas locais àqueles ela os is os
como eu ocên icos? E c) e am os ex os desses le ados, ao im e ao cabo, simples
ep oduções no âmbi o do que, po mui o empo, con encionou-se chama de pe i e ias,
4
de
modelos de esc i as e da p odução de conhecimen o o jados na Eu opa?
***
No século XVIII, os e udi os das mais dis in as pa es do impé io po uguês se
deb uça am sob e a ei u a de no os egis os que dessem con a das p incipais in o mações
daqueles incões pe encen es à mona quia lusa. Puse am a esc e e o que eles chama am
de e dadei as his ó ias de suas “pá ias”, seus luga es de nascimen o ou aqueles escolhidos
pa a se em seus la es.
5
Diziam que, po mais de dois séculos, in o mações equi ocadas
o am en iadas à Eu opa e, po an o, naquele momen o, e a p eciso eesc e e a his ó ia da
Amé ica, especialmen e a das capi anias do B asil.
Esses le ados ambém demons a am que es a am cien es das discussões en ão
p oduzidas em di e en es pa es da Eu opa a espei o da manei a como se de ia eesc e e
ais his ó ias. Ou, po ou o lado, no século das Luzes, os pensado es e le i am sob e no as
o mas de esc i a nas quais, com obje i idade, se pudesse ugi das in o mações que,
4
Aqui, e omo os deba es de Edwa d Shils, em ob a que emon a a 1972, minha edição é Cen o e Pe i e ia
(Lisboa: Di el, 1992), não pa a acampa a ideia de cen os decisó ios do pode , e no ema do p esen e a igo,
e elado es da p odução cul u al, mas pa a indica que é p eciso ques iona a ideia de pe i e ias, uma ez que
es as podem exe ce unções de cen o em elação a ou os e i ó ios. Ou seja, al binômio cen o-pe i e ia,
aplicado aos es udos sob e a Amé ica po uguesa, pode se bem educionis a con o me apon am os di e en es
ex os publicados em Daniels, Ch is ine e Michael V. Kennedy (eds.), Nego ia ed Empi es: Cen e s and
Pe iphe ies in he Ame icas, 1500–1820 (New Yo k: Rou ledge, 2002).
5
As pá ias de em se comp eendidas, con o me nos lemb a Ronaldo Vain as, com a mesma acepção que
possuía o pad e An ônio Vie a, pa a quem “os po ugueses êm um pequeno país pa a be ço e o mundo odo
pa a mo e em”. Ou seja, as pá ias aziam pa e do imenso Po ugal. C. : Ronaldo Vain as, An ônio Viei a
(São Paulo: Companhia das Le as, 2011), p. 295.

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segundo eles, e iam sido azidas de o ma equi ocada pelos p imei os homens que
chega am ao con inen e ame icano, mui os deles sem expe iência com a esc i a, como
ma inhei os e eligiosos.
Os acon ecimen os do século XIX, no B asil e no mundo, já es a am a ançados
quando inalmen e os agmen os dos esc i os do genealogis a luso-b asilei o Bo ges da
Fonseca passa am a ci cula pa a além dos limi es dos a qui os. Embo a enham sido
pensados a pa i de 1748, le ando in e e no e anos pa a sua o ganização e esc i a,
Nobilia chia Pe nambucana icou desconhecida do público em ge al po mais de um século.
As di iculdades pa a conclui os omos, segundo o p óp io Fonseca, es a am in imamen e
elacionadas à al a de in o mações con iá eis sob e a capi ania da qual ele cuida a em seus
esc i os. Bo ges da Fonseca essal a a que
Lei o , se és e udi o como suponho e ens lição dos li os genealógicos que co em
imp essos, não deixa ás de epa a em que con ando a Po oação de Pe nambuco só
240 anos, pouco mais, po que p incipiou no ano de 1535, sejam ão escassas as
Memó ias e ão pob es de no ícias os A qui os e Ca ó ios que deixem du idosos
algumas das que nos e am p ecisas dos p imei os nob es que ie am a es a
capi ania.
6
Filho ilus e de conhecida amília pe nambucana, com ex ensa olha de se iços
p es ados à mona quia lusa, Bo ges da Fonseca pe encia à Academia B asilei a dos
Renascidos, undada em 1759, e da qual a his o iado a I is Kan o des aca es a no âmbi o
“da o mação da his o iog a ia acadêmica luso-ame icana se ecen is a”.
7
De a o,
Nobilia chia Pe nambucana o nece dados impo an es a espei o das pa agens daquela
capi ania em elação às “in o mações biog á icas, sociais, psicológicas, econômicas e
aciais”, como en a iza o his o iado José Honó io Rod igues.
8
Além de aça o pe il da
6
An ônio Jose Vic o iano Bo ges da Fonseca, Nobilia chia pe nambucana (Rio de Janei o: Biblio eca
Nacional, 1935, .1), p. 07.
7
Í is Kan o , Esquecidos e enascidos: his o iog a ia luso-ame icana 1724-1759 (São Paulo: Edi o a Huci ec,
2004,), p. 17.
8
José Honó io Rod igues, His ó ia da his ó ia do B asil: his o iog a ia colonial (B asília: Minis é io da
Educação e Cul u a - MEC: Companhia da Edi o a Nacional, 1979, . 1), p. 471.
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sociedade de Pe nambuco ao longo dos séculos, Bo ges da Fonseca elenca as especi icidades
daquela egião e en a iza a lu a que os daquela “pá ia” a a am pa a ence os in aso es
ba a os, man endo-se iéis aos desígnios do eino po uguês.
A pa i de São Paulo, ou o genealogis a e c onis a, Ped o Taques de Almeida Paes
Leme, na esc i a de His ó ia da Capi ania de São Vicen e, compêndio encomendado a
pedido do conde de Vimiei o pa a legi ima a posse de suas e as en e à amília dos
Monsan o, o le ado apon a a a necessidade das pesquisas em a qui os pa a a esc i a da
his ó ia. Na ap esen ação do manusc i o, ele indica a que
oi V. Exª se ido incumbi -me o necessá io exame do a qui o da Câma a des a
cidade pa a se descob i em os documen os que i assem oda a dú ida do legí imo
senho e dona á io da di a capi ania. [...]. Ca ecendo, po ém V. Exª de maio
in o mação a undamen os, desde o p incípio da undação des a capi ania a é o ano
de 1714, que se inco po ou à Co oa (po concei o e ado e con a oda a e dadei a
in eligência), me oi p eciso sac i ica ao indispensá el abalho de passa aos olhos
o copioso ca ó io da p o edo ia da Fazenda. Apliquei-me a es es exames com an a
adiga, quan a não cabe na exp essão do maio enca ecimen o, po que as le as dos
li os de egis os são o almen e de di e sa igu a dos ca ac e es do p esen e
al abe o, ob igando-me es a dessemelhança a gas a mui as ho as de aplicação pa a
e e uma só lauda: con udo a ene ação espei osa que a V. Exª consag o ez sua e
odo aquele excessi o des elo, mui o à is a dos meus anos e a aque in e e ado da
enxaqueca, cujas do es azem pô em desp ezo o uso de le e esc e e .
9
Ambos os le ados e idencia am que es a am bem-in o mados no século XVIII, em
elação a uma no a manei a de esc e e a his ó ia. Naquele momen o, homens p oeminen es
de dis in as egiões da Amé ica esol e am eesc e e a his ó ia de suas pá ias,
p incipalmen e dian e da in ensi icação das iagens ao edo do mundo, com a missão das
expedições eu opeias – em pa e inanciadas pelos go e nos impe iais ou pelas ins i uições
de pesquisas – de eelabo a a his ó ia daquelas egiões do globo. Ped o Taques, ao esc e e
a His ó ia da capi ania de São Vicen e, hoje São Paulo, essal a a a impo ância das on es
9
Ped o Taques de Almeida Paes Leme, His ó ia da capi ania de São Vicen e (São Paulo: Melho amen os,
1928), p. 66.
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documen ais pa a p o a que ele es a a apon ando a e dade. Ao des aca a azão pela qual
os paulis as e iam ei o gue a con a os na i os da egião demons a a, com os egis os
aos quais e ia acesso, que o a algo necessá io desde o momen o inicial dos p imei os
con a os, caso con á io, os eu opeus que se es abeleciam naquelas pa agens se iam
dizimados e a emp ei ada da conquis a se e ia a uinada. Dessa manei a, Taque sublinha a
que
Es a ma é ia cons a melho no a qui o da Câma a da cidade de S. Paulo, no li o
í . 1585 que acaba em 1586 na pág. 12 ., onde se lê que os po os das ilas de San os
e de S. Vicen e eque e am no ano de 1585 a Je ônimo Lei ão, capi ão-mo
go e nado loco- enen e do dona á io Ped o Lopes de Sousa, que se izesse gue a
aos índios gen ios de nação Ca ijós, que em qua en a anos inham mo o mais de
cen o e cinquen a eu opeus assim po ugueses como espanhóis; [...].
10
Há que se no a que os dados ap esen ados po Taques busca am lança luz sob e o
que se en endia po e dade a espei o da his ó ia da capi ania e jus i ica a lu a con a os
indígenas, sob e udo dian e dos ela os que a ibuíam aos paulis as a pecha de maus assalos.
Com a ascensão das academias le adas esponsá eis pelo acúmulo de documen os que
p opiciassem a esc i a da his ó ia do impé io, como apon a I is Kan o , “os acadêmicos
pa eciam e cla a consciência da necessidade de egis a os ei os glo iosos dos
po ugueses, mesmo os que abalha am em a o de ou os p íncipes. A nação po uguesa
de e ia inco po a os po ugueses de odos os quad an es do mundo, o sen imen o de
pe ença anscendia as on ei as polí icas do impé io luso”.
11
E a colônia não icou imune a esse ipo de egis o. Fosse em Pe nambuco ou em São
Paulo, pa ece e iden e que, de alguma o ma, esses homens esc e iam basicamen e a
espei o dos mesmos assun os, sob e os quais dialoga am en e eles assiduamen e. Ao en a
comp o a a impo ância da gue a jus a pa a a capi ania de São Vicen e, Ped o Taques
e e encia a ou os abalhos esc i os a p opósi o daquele incão da colônia, en a izando:
10
Ibid., p. 72.
11
Í is Kan o , Esquecidos e enascidos: his o iog a ia luso-ame icana 1724-1759 (São Paulo: Edi o a Huci ec,
2004), p. 58.
B uno Sil a
De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da
ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais
e his o iog a ias b asílicas
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172
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É ce o que da ila de S. Vicen e saí am em 24 de agos o de 1554 os pad es jesuí as
Ped o Co eia e João de Sousa pa a a missão dos gen ios Tupis e Ca ijós dos Pa os,
e ambos o am mo os pela ba ba idade des es índios, como esc e e o pad e Simão
de Vasconcelos na C ônica do B asil, li . 1º, pág. 147, onde mos a que Ped o
Co eia e a sujei o de nob eza conhecida, e se ize a opulen o na ila de S. Vicen e
[...].
12
Os acon ecimen os do século XVIII, em São Paulo, con o me apon am os es udos
13
,
e iam sido ma cados po pe pe a em g andes di iculdades pa a os paulis as. Os
desdob amen os do con li o denominado com Gue a dos Emboabas (1707-1709) é um
exemplo dessa esc i a, às ezes essen idas dos paulis as, na qual busca am se eabili a em
enquan o súdi os iéis do ei de Po ugal.
Ainda na busca pela ecupe ação da imagem de São Paulo, o ei benedi ino Gaspa
da Mad e de Deus ea i ma a que e a p eciso esponde com dados e documen ação às
calunias es angei as que ci cula am a espei o da his ó ia de São Paulo, en a izando que “os
paulis as i e am a desg aça (se al nome con ém) de se emba aça em com os jesuí as do
Pa aguai e da Capi ania; e, po consequência, de o ende em a oda a Sociedade cujos Esc i os
oa am po oda a pa e a deneg i-los à ace do Uni e so”.
14
A pa i de Pe nambuco, Lo e o Cou o ap esen a a seus esc i os em 1757,
denominados Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco, almejando uma his ó ia
e dadei a da egião na qual se des acasse os g andes ei os dos pe nambucanos na de esa
da eligião ca ólica e das bases do impé io po uguês, endo “ou o maio es ímulo, que oi
a alia como ob igação p ecisa, e u a alguns e os, e calúnias, com que alguns au o es, que
em esc i o do B asil, mancha am a opinião dos nossos Índios, e de algumas pessoas
benemé i as, sem mais undamen o”.
15
12
Ped o Taques de Almeida Paes Leme, His ó ia da capi ania de São Vicen e (São Paulo: Melho amen os,
1928), p. 72.
13
C. : Ad iana Rome o, Paulis as e emboabas no co ação das Minas (Belo Ho izon e: Edi o a da UFMG,
2008).
14
Gaspa de Mad e de Deus, Memó ias pa a a his ó ia da capi ania de São Vicen e hoje chamada São Paulo
(São Paulo; Rio de Janei o: Weisz log Edi o a, 1920).
15
Domingos Lo e o de Cou o, Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco (Pe nambuco, Reci e: Fundação
Cul u al de Reci e, 1981).
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cobiçosos, e dados ao inho. Finalmen e uns aunos, uns semicap os, uns sá i os”.
30
Lo e o
Cou o espondia que ha e ia de p o a que os índios encon ados em e as b asílicas,
especialmen e os de Pe nambuco, não e am sel agens degene ados que em nada se iam ou,
an es, a apalha am o es abelecimen o da ci ilização eu opeia em e as ame icanas.
O genealogis a Bo ges da Fonseca ambém se p eocupa a em ocul a a miscigenação
em Pe nambuco, en e b ancos e indígenas. Ainda assim, ao aça a iden idade que
compunha as amílias da capi ania, demons ou, documen almen e, que o ei de Po ugal
acena a pa a o acei e de consó cios en e os colonizado es e as pa es mais nob es dos na i os
b asílicos, a inal, des aca a o le ado que
Tendo em meu pode a p o a da legi imação que no ano de 1561 concedeu o ei Dom
Sebas ião aos ilhos na u ais de Je ônimo de Albuque que; es á ela de al so e que
se não pode le os seus nomes e mui os apenas se pe cebe alguma coisa. É ce o que
os pe ilados o am só 13 e que des es só 8 o am ha idos em Dona Ma ia do Espí i o
A co e de [...].
31
Do expos o acima, há dois mo imen os que de em se des acados: p imei o, na
ab icação de uma iden idade pe nambucana, o genealogis a busca a se esqui a das bodas
en e colonizado es b ancos eu opeus e mulhe es indígenas, o que aca e a ia a impu eza de
sangue e, consequen emen e, na desg aça das amílias locais. En e an o, dian e da
impossibilidade de azê-lo po comple o, não deixa a de e u a a impu eza e a degene ação
dessas amílias, já que ais uniões e iam oco ido com ilhas de nob eza indígena o que
lus a a, ainda mais, o sangue eu opeu. Po ou o lado, a ecolha de documen os en e
ca ó ios, a qui os e dados pessoais demons a a que não ha ia azões pa a conside a ais
súdi os como in e io es se compa ados aos eu opeus.
Em São Paulo, Mad e de Deus sublinha a que
30
Domingos Lo e o de Cou o, Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco (Pe nambuco, Reci e: Fundação
Cul u al de Reci e, 1981), p. 37.
31
An ônio Jose Vic o iano Bo ges da Fonseca, Nobilia chia pe nambucana (Rio de Janei o: Biblio eca
Nacional, 1935, .1), p. 381.

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Não é só daquela capi ania e das mais do B asil que alam os mesmos au o es com
an a alsidade e ex a agância; é ambém de odos os mais po os exis en es o a da
Eu opa polida. Relações alsas, pelas quais se guiam, ânimo de me e a idículo e
de desp eza udo o que não é con o me aos cos umes anceses; e, inalmen e, a
p esunção de que e em decidi no gabine e aquelas mesmas cousas que cus a iam a
pe cebe -se com exames ocula es, são causa de an os e os g ossei os que inundam
a República das Le as.
32
Ped o Taques, em suas ob as genealógicas, ambém e az o pe cu so das p incipais
amílias que e iam chegado e undado a capi ania de São Vicen e. Na esc i a de Taques,
Ma im A onso de Sousa e seu séqui o e iam ido papel basila na colonização daquela
egião de Pi a ininga. E a de amília nob e e, dessa o ma, a o igem dos paulis as, desde o
momen o inicial, es a ia ligada a esse onco amilia que, sob a benção eal, desemba ca a
em e as do No o Mundo.
Em elação à miscigenação com os neg os, a di iculdade de conside á-la e a mui o
maio . Os es udos de Ronald Raminelli indicam que isso acon ecia po que “no eino e na
Amé ica po uguesa, o ca á e ina o dos cos umes e da mo al e a a ibuído à na u eza, ao
sangue e à aça”.
33
Po an o, a cons ução de iden idades locais, ao longo da eesc i a das
his ó ias dessas capi anias b asílicas, quase semp e, en a am dis a ça a p esença do sangue
neg o no p ocesso de cons ução dessas na a i as. Gaspa de Mad e de Deus se deb uça a
sob e dados que podiam comp o a que, na undação de São Paulo, a p esença de neg os e
mula os não e a possí el. Se Ped o Taques, o genealogis a, explica a cla amen e que o
consó cio en e b ancos e indígenas se iu pa a enob ece ainda mais o sangue po uguês,
Mad e de Deus p ecisa a encon a saídas pa a esponde às c í icas, sob e udo dos jesuí as,
de que a capi ania e a compos a po um bando de mula os desde o início. Pa a o eligioso
“como há de p o a [...] que mula os o agidos conco e am pa a a undação de São Paulo,
se na e a, em que ela e e seu p incípio, ha ia poucos p e os da Á ica no B asil [...]?”.
34
32
Gaspa de Mad e de Deus, Memó ias pa a a his ó ia da capi ania de São Vicen e hoje chamada São Paulo
(São Paulo; Rio de Janei o: Weisz log Edi o a, 1920), p. 237.
33
Ronald Raminelli, Nob ezas do No o Mundo: B asil e ul ama hispânico, séculos XVII e XVIII (Rio de
Janei o: FGV, 2015) p. 236.
34
Gaspa de Mad e de Deus, Memó ias pa a a his ó ia da capi ania de São Vicen e hoje chamada São Paulo
(São Paulo; Rio de Janei o: Weisz log Edi o a, 1920), p. 234.
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Ao con á io dos a í ices das his ó ias de São Paulo, pode-se e i ica que, em
mui os le ados, a eligião oi uma das manei as de inco po ação dos neg os e mula os à
essas iden idades ab icadas. Ou seja, a ap oximação com o ca olicismo ajuda a a edimi
os de ei os de sangue e da subs ância da qual aqueles indi íduos e am ei os. Ou a o ma
de conside a os neg os na cons ução dessas iden idades es a a elacionada com a
pa icipação desses g upos em a i idades mili a es em de esa dos locais e da in eg idade do
impé io. Em elação a eligião como i ude ab açada po alguns desses indi íduos, ei
Jaboa ão lemb a a que
Aqui se nos o e ece ansplan a en e an as lo es cândidas de san idade, uma de
co p e a, mas mui cla a nas i udes, com que in ome endo-se no ja dim se á ico
do B asil, assim como se iu de esmal e às demais, soube ilus a -se a si, ou pa a
dize mos sem ugi da me á o a de es elas ap op iada, os ilhos de F ancisco nes e
seu No o O be, oi ele um, a quem com mais analogia lhe coube o nome de es elinha
nebulosa, já pela pouca cla idade, que emos das suas i udes, e mui o mais pela
da sua co p e a, que de alguma so e se iu de nu em às suas boas ob as.
35
No amos assim que, embo a a co da pele não osse undamen al do pon o de is a
acial pa a impedi a mo imen ação social de neg os, índios e mes iços, ela ambém
unciona a como um dos c i é ios pa a, no assun o aqui abo dado, quali ica ou desquali ica
os indi íduos quando da cons ução das iden idades locais.
De odo modo, neg os e mula os ambém pode iam se elencados como
ep esen a i os do mal que se sucedia naquelas pa agens do impé io. F ei Jaboa ão e Lo e o
Cou o são unânimes ao essal a em a igu a il e aiçoei a, segundo eles, do mula o Calaba .
Cou o chega a passa inúme as páginas desc e endo-o como manhoso e aido , sendo es a
a única mancha que se di isa a no céu c is alino de Pe nambuco. Ao im, e a p eciso que se
i esse cuidado com os mula os po que pode iam se con e e em aido es. Po isso,
segundo Lo e o Cou o “é necessá ia nes a cas a mui a i ude pa a se econcen a no seu
nada, is o não soube am aze os anjos no céu, e nem os homens no pa aíso, como a á um
35
An ônio de San a Ma ia Jaboa ão, “Se mão da es au ação de Pe nambuco do domínio hollandez”, Re is a
do Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o (Rio de Janei o: Imp ensa Nacional, 1860, . 23), p. 690-691.
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mula o no B asil, endo comumen e um emo de espí i o, que em mui os nem com a misé ia
do ca i ei o se aba e?”
36
De a o o c onis a de Pe nambuco, Lo e o Cou o, en a iza a que e a ex emamen e
complicado pe cebe , naquelas egiões, quem e a nob e e quem e a plebeu e isso, em pa e,
oco ia po que aqueles que inham a co p e a não se emenda am ao se e em com libe dade,
azendo pa ece com os b ancos nos modos e o mas de agi . Logo, “pela expe iência, que
em da condição des e ulgo a i mam os Go e nado es, e Minis os, que só as pessoas des a
es e a dão ao que aze ao seu go e no, po ém ambém é ce o, que en e pa dos, e p e os se
acham mui os que cuidam em ob a bem, e com ações i uosas se azem me ecedo es da
es imação a que aspi am”.
37
Ao im, os neg os pode iam se i uosos se en egues aos
caminhos da eligião ou das gue as, mui o embo a Cou o apon e neg os e mula os dis in os
em di e en es á eas de conhecimen o. Con udo, os p oblemas ad indos dos umul os que
chega am aos go e nan es locais, quase semp e, e am azidos po , segundo Cou o, neg os
e mes iços.
Essa ônica e a comum nos esc i os eu opeus a espei o dos ame icanos. Em 1719,
ao esc e e sob e as habilidades humanas pa a o emp ego da a e, na ob a Ré lexions
c i iques su la poésie e su la pein u e, o au o Jean‑Bap is e Dubos des aca a a di iculdade
que os go e nan es espanhóis inham em con ola suas possessões na Amé ica e isso se
da a po con a da miscigenação e da degene ação dos homens que ali apo a am,
p incipalmen e po con a do clima do No o Mundo.
38
No a-se, dessa o ma, que in o mações anga iadas em di e en es pon os do No o
Mundo le a am os eó icos da di e sidade humana, embo a es es quase semp e não
ques ionassem a exis ência de uma única aça de se es humanos, a ea i ma em que os
homens ad indos da na u eza inóspi a do No o Mundo, sob e udo aqueles p odu os da
miscigenação, e am di íceis de se em go e nados e, ge almen e, aziam p oblemas pa a os
eu opeus e o go e no ge al dos impé ios. Ao que pa ece, a cons ução dessas iden idades
36
Domingos Lo e o de Cou o, Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco (Pe nambuco, Reci e: Fundação
Cul u al de Reci e, 1981), p. 134-135.
37
Ibid., p. 227.
38
Jean‑Bap is e Dubos, Ré lexions c i iques su la poésie e su la pein u e (Pa is: chez Jean Ma ie e, 1719),
p. 260. Disponí el na In e ne em: h ps://gallica.bn . /a k:/12148/bp 6k62699556. ex eImage
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locais dialoga a com essas eses indas da Eu opa e que ci cula am pelo mundo. Mui o
embo a não se possa pe de de is a que, na cons ução dessas iden idades, os le ados luso-
b asilei os ambém isa am às me cês que pode iam anga ia da sala do ono.
39
Mas quem sabe osse mais in e essan e e le i sob e essas ob as caminhando em
mais sen idos e não em um único. Penso que ao ins umen aliza em dados e a os pa a se
con apo em aos compêndios con eccionados na Eu opa e na Amé ica, que de a a am os
nascidos no No o Mundo, mui o deles possí eis po con a das iagens ao edo do globo no
século XVIII, esses ilus ados luso-b asilei os ap esen a am uma epis emologia al e na i a
àquela colocada em p á ica, p incipalmen e pelos eu opeus; e conside o que, nisso, eles
o am elizes, caso con á io eu não es a ia aqui esc e endo sob e eles e suas ob as. Mas es e
pon o não se esume a isso. Oco e que ais ab icações de iden idades ambém essal a am
os ei os colocados em p á icas, pelos súdi os do ei de Po ugal, na de esa do impé io.
Mesmo quando, ao longo do empo, su gi am p o as que demons assem exa amen e o
opos o. Lo e o Cou o, de o ma exaus i a, essal ou a lealdade dos súdi os de Pe nambuco
ao longo da gue a con a os holandeses, no século XVII.
40
O his o iado Diego Ramada Cu o, ao analisa a o mação de uma cul u a le ada de
eli e na colônia, especialmen e aquela desen ol ida em academias ilus adas, ende a e as
ob as de homens como Lo e o Cou o, Mad e de Deus e an os ou os mais como uma
“ ep odução na pe i e ia de modelos o jados na Eu opa do que uma qualque esis ência
das ma gens em elação ao cen o”.
41
Ou seja, o au o ambém comp eende que essas
academias locais e am como a anjos que se ol a am pa a a cópia do que se passa a nas
academias eu opeias e, em nada, a ança am no sen ido de cons ução de o es iden idades
locais; mui o embo a Ramada Cu o en a ize que, “po ou o lado, o mesmo obje i o de
anscende o cí culo local e ela que ‘pela p imei a ez b uxuleou uma aga consciência de
in eg ação in elec ual do B asil’”.
42
39
Ronald Raminelli, Viagens ul ama inas: mona cas, assalos e go e no à dis ância (São Paulo: Alameda,
2008), p. 20.
40
Domingos Lo e o de Cou o, Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco (Pe nambuco, Reci e: Fundação
Cul u al de Reci e, 1981), p. 96.
41
Diego Ramada Cu o, Cul u a impe ial e p oje os coloniais: séculos XV a XVIII (Campinas: Edi o a da
UNICAMP, 2009), p. 425.
42
Ibid.
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Se ia possí el pensa , pa a aquela con igu ação, uma Ilus ação – ainda que acilan e
–, po pa e desses homens ilus ados do século XVIII, no sen ido que nos le em a en ende
como gênese de uma iden idade in elec ual nacional? Não es ou bem ce o a espei o dessa
hipó ese. Po ou o lado – e aqui e omo as ad e ências ei as po An oine Lil i ap esen adas
acima, que nos le am a e le i sob e o papel dos his o iado es da his ó ia cul u al quando se
deb uçam nesses documen os do passado –, pe gun o-me se e e i amen e a ideia de e o
conjun o das ob as daqueles c onis as como ac-símile de me odologias eu opeias, somen e,
seja o mais ace ado.
A inal, o que se ia, con o me asse e a Ramada Cu o, um modelo genuinamen e
eu opeu? Como pe cebe esse odo coe en e? A eunião dos le ados luso-b asilei os aqui
abo dados em academias b asílicas, bem como os desdob amen os de suas ob as, penso eu,
e a um ou o modelo em dispu a. Com e ei o, po que azão esses ilus ados p opo iam algo
que, de an emão, não e ia alidade, pos o que simples cópia? Des aca que ais ob as e
au o es não se en e eda am pelo caminho de cons uções iden i á ias esponsá eis po
p essiona o chamado cen o, pode pa ece eleológico, pois lhes do a da consciência de que
o impé io do qual aziam pa e es a a com os dias con ados.
Não há como dize que e am a asados, pe i é icos, pois eles es a am na dispu a. Não
al a a a eles um mé odo his o iog á ico, ampouco exala a daqueles homens o gé men da
his o iog a ia b asilei a. Não se pode dize que es a am engol ados em cópias eu opeias;
hoje, ica mais ácil admi i al asse i a po que sabemos que um modelo se canonizou. Mas
os le ados luso-b asilei os es a am na dispu a. Assim, nunca é demais lemb a No be
Elias, com o qual inalizo es a e lexão, ad e indo que as “in es igações his ó icas
cos umam so e de he e onomia de seus juízos de alo ”.
43
Po im, ainda que seja a eando mais no e eno das pe gun as do que, e e i amen e,
colocando con o nos de ini i os, enho e le ido sob e os e udi os/esc i as aqui abo dados
como pa ícipes da cons ução de iden idades locais que se ap oxima am de uma his ó ia
43
No be Elias, A sociedade de co e: in es igação sob e a sociologia da ealeza e da a is oc acia de co e
(Rio de Janei o: Jo ge Zaha Edi o , 2001), p. 53, em que des aca: “Mui as ezes igo a um al o g au de
imp ecisão em dis ingui en e aquilo que pa ece impo an e pa a o pesquisado , com base na escola de alo es
de seu p óp io empo, especialmen e em unção de seus p óp ios ideais, e aquilo que é impo an e no con ex o
da época pesquisada – po exemplo, o que ocupa a posição supe io ou in e io na escala de alo es de quem
es a a i o naqueles dias”.

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mais ge al, ao sabo do cânones do Iluminismo; iden idades es as que não nega am a pá ia-
mãe, mas, quase semp e, quando não conseguiam jus i ica a p esença de neg os, índios e
mes iços nesse esc i os, se u a am de en en a a miscigenação acial ine en e àquelas
sociedades; po ém, al ez o mais impo an e: não e am li e a u as cons i u i as de um
impé io em apu os, com os dias con ados, ampouco uma cópia ipsis li e is da p odução
le ada eu opeia. Ao con á io, e am esc i os conco en es, com uma epis emologia p óp ia,
mazomba, signi ica i a em suas p opos as e, al ez, pe encen es a um ou o ipo de
Ilus ação, quem sabe um Iluminismo colonial.