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De um iluminismo colonial ou outros aspectos da ilustração no Brasil: circulação de ideias, identidades locais e historiografias brasílicas

Silva, Bruno

Abstract

O presente artigo aborda a construção de identidades regionais na sociedade colonial da América portuguesa. Através da análise do valor discursivo das crônicas luso-brasileiras confeccionadas ao longo do século XVIII, busca-se traçar tal panorama e os planos de integração do Brasil a Portugal nessas narrativas. Destaca-se, também, as invenções genealógicas locais frente à miscigenação sociorracial desta formação histórica.

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B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 151 DE UM ILUMINISMO COLONIAL OU OUTROS ASPECTOS DA ILUSTRAÇÃO NO BRASIL: CIRCULAÇÃO DE IDEIAS, IDENTIDADES LOCAIS E HISTORIOGRAFIAS BRASÍLICAS A COLONIAL ENLIGHTENMENT OR OTHER ASPECTS OF ENLIGHTENMENT IN BRAZIL: CIRCULATION OF IDEAS, LOCAL IDENTITIES AND BRAZILIAN HISTORIOGRAPHIES B uno Sil a Uni e sidade Fede al do Sul e Sudes e do Pa á O cid: 0000-0002-9517-0197 Resumo: O p esen e a igo abo da a cons ução de iden idades egionais na sociedade colonial da Amé ica po uguesa. A a és da análise do alo discu si o das c ônicas luso- b asilei as con eccionadas ao longo do século XVIII, busca-se aça al pano ama e os planos de in eg ação do B asil a Po ugal nessas na a i as. Des aca-se, ambém, as in enções genealógicas locais en e à miscigenação socio acial des a o mação his ó ica. Pala as-cha e: iden idades coloniais; c ônicas luso-b asilei as; século XVIII. Abs ac : This a icle discusses he cons uc ion o egional iden i ies in he colonial socie y o Po uguese Ame ica. Th ough he analysis o he discu si e alue o Po uguese-B azilian ch onicles made h oughou he 18 h cen u y, we seek o ou line such a pano ama and he plans o in eg a ing B azil o Po ugal in hese na a i es. Also no ewo hy a e he local genealogical in en ions in he ace o he socio- acial miscegena ion o his his o ical o ma ion. Keywo ds: colonial iden i ies; Po uguese-B azilian ch onicles; XVIII cen u y. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 152 O í ulo do p esen e a igo é ambém uma jus a homenagem. Em 1968, a Re is a do Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o (IHGB) es ampa a o ex o da his o iado a Ma ia Odila da Sil a Dias, no qual a p o esso a apon a a alguns aspec os conce nen es ao pensamen o ilus ado que, segundo o obje i o de endido, emanados da Eu opa do século das Luzes, e iam a a essado o A lân ico e se adap ado, a a és das lei u as dos le ados locais, às condições ine en es ao mundo colonial. A ese de endida pela au o a, em aços bem ge ais aqui e omada, e a de que “a no a é ica” do Iluminismo, pelo menos aquela ab açada pela ge ação de luso-b asilei os que ansi a am en e as duas ma gens do Impé io po uguês e se o ma am em uni e sidades eu opeias, oi aquela da p a icidade; esponsá el po dob a a ciência ao sabo da “ elicidade na e a”; ou seja, “a exal ação do sábio e do cien is a como o homem p á ico e de ação: cabe ia a eles cons ui a elicidade dos homens, com in en os e descobe as ú eis ao bem-es a e à saúde e p o ei o da sociedade”. 1 Conquan o Sil a Dias não negue a elação desses indi íduos da colônia com as ideias secula es, as c í icas ao s a us quo do An igo Regime e o que ela designa como mani es ações e olucioná ias e epublicanas nas anjas do Impé io po uguês, seus obje i os são bem ou os, ou seja, a p a icidade dos colonos ins uídos pa a u iliza em das ideias ilus adas a im do aze unciona a p odução econômica do B asil. No p esen e ex o o in ui o é di e en e. Mas, como pa e subs ancial dos his o iado es que se deb uçam, no B asil, na emá ica aqui p opos a, não me u o de pa i do clássico ex o publicado em 1968. Con udo, buscando a ea pelos caminhos abe os po pesquisado es que abo dam as ideias e as ob as dos le ados b asílicos do século XVIII, peço licença pa a ap esen a , em e mos de ibu o, pa e do í ulo assinalado como ou os aspec os da ilus ação no B asil. Isso signi ica que sou um dis in o ipo de con ado de his ó ias e, na e lexão a segui , in en o ea e esc i os p oduzidos em e as coloniais b asilei as ao longo do século XVIII, p incipalmen e nas capi anias de Pe nambuco e São Paulo, ecupe ados e classi icados como c ônicas e ob as de cunho linhagis a, pa a obse a o alo discu si o desses documen os na p odução do que designo como iden idades in en adas. Desse modo, deb uço-me sob e essa a adís ica com o in ui o de demons a que, imbuídos po discussões desen oladas em 1 Ma ia Odila Lei e da Sil a Dias, “Aspec os da Ilus ação no B asil”, Re is a do Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o (Rio de Janei o: IHGB, 1968, . 278, p. 105-170), p. 106. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 153 di e en es pa es do mundo no século do chamado Iluminismo, sob e udo a espei o de no as écnicas e mé odos pa a eesc e e sob e o passado dos impé ios e das di e en es pa es que os compunham, os le ados aqui apon ados esc e e em seus egis os. Pa indo de espaços especí icos dos domínios po ugueses na Amé ica, co ejo as esc i as de di e en es c onis as e genealogis as luso-b asilei os com compêndios publicados na Eu opa e àqueles esc i os a p opósi o de ou as pa agens do as o con inen e ame icano pa a en a sinaliza que, a despei o de não nega em a eligião ca ólica e as bases sociocul u ais e polí icas cujo empenho consis ia em cos u a as di e en es es u u as do impé io po uguês, ainda assim esses ex os são undamen ais pa a se comp eende a cons ução de iden idades egionais na colônia. O in ui o é ambém e i ica como a essi u a desses egis os do século XVIII, que indicam a busca po uma o ja de iden idades cul u ais egionais – que não i aliza am com a po uguesa, mas, busca a ea i má-la, malg ado a necessidade da ei u a de adap ações, pelos colonos, na pesada “bagagem” cul u al azida da Eu opa –, se i am-se das his ó ias locais como meio pa a suas cons uções. Se os genealogis as se emb enha am po e aze as aje ó ias das amílias que chega am ao B asil a pa i do século XVI pe ilando-as em luxos nob es mui as ezes emon ados a oncos nobiliá quicos medie ais – limpos de sangue e de senho es i endo à moda da nob eza 2 –, as c ônicas que p ocu a am eesc e e a his ó ia dos an epassados das egiões conhecidas como Pe nambuco e São Paulo se ale am do in en á io de nomes, a os e acon ecimen os. Tais elemen os, egis ados sob o c i o de uma me odologia ípica do século das Luzes – aquela das p o as documen ais –, ap esen a am como escopo a alo ização das his ó ias locais e, desse modo, a conexão com os desígnios do impé io. Não obs an e, a ama dessas iden idades egionais se iu às ol as com a miscigenação socio acial daquelas pa agens, o que é inques iona elmen e o aspec o mais impo an e da nossa o mação his ó ica. A inal, como bem salien ou Ronaldo Vain as, “os es a u os de pu eza de sangue não o am capazes de impedi as uniões mis as, o mais ou não, no p óp io eino luso, quan o mais nas colônias”. 3 Assim, dian e da miscigenação local, 2 C. : E aldo Cab al de Mello, O nome e o sangue: uma pa ábola genealógica no Pe nambuco colonial (São Paulo: Companhia das le as, 2009). 3 Ronaldo Vain as, “Ap esen ação”, Genealogias Mazombas: cas as luso-b asilei as em c ônicas coloniais, B uno Sil a (Ni e ói: EDUFF, 2016). B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 154 da p esença de neg os, mula os e an os ou os ipos humanos, como de ende uma unidade? Adian o que se os indígenas, sob e udo a pa i da segunda me ade do século XVIII – e nisso as e o mas pombalinas em o seu quinhão de impo ância –, o am elencados como pa ícipes dessas cons uções cul u ais nas lei u as dos linhagis as. Neg os e mula os, ao con á io, são excluídos com mais acilidade, mui o embo a apa eçam como elemen os de amálgama iden i á io quando – ia p oje os pessoais ol ados aos desígnios eligiosos e o suo e ido du an e con li os que chama am à gue a os homens locais pa a a de esa do impé io – eles conseguissem ilus a o sangue e se a as assem da subs ância das quais e am ei os, ou seja, uma e iden e alusão aos ca ac e izados de ei os de o igem, como de alha am os le ados aqui e omados. Essas iden idades não i alizam com Lisboa. Ao in és disso, pe cebo uma busca po ap oximações. Di o de ou a o ma, não se encon a á aqui um acúmulo de in e p e ações que isem associa as esc i as desses le ados luso-b asilei os com mo imen os esponsá eis po apon a pa a a au onomia de suas egiões ou mesmo da colônia. A lei u a aqui p econizada é a de que, em nenhum momen o, aqueles indi íduos se iam o a da con igu ação social possí el pa a eles. Qualque aço de sen imen os nacionais, seque coloniais, podem se mapeados nessas a adís icas. Assim, o alo discu si o das c ônicas e das ex ensas ob as genealógicas acompanha á meu pe cu so ao longo desse ex o. Meu empenho en a iza á p incipalmen e as capi anias de Pe nambuco e São Paulo, embo a o a ou ou a buscando compa ações elucida i as com ou os documen os an o eu opeus quan o de ou as pa es da Amé ica. O se ecen os se á o oco da análise, apesa de es a cien e que a discussão, no caso do espaço luso-b asilei o aqui abo dado, não se limi a ao século das Luzes, pois es ende-se ao longo de g ande pa e do oi ocen os, sob e udo a pa i da inda da amília eal pa a a colônia, em 1808. O espaço que enho me pe mi e ci cunsc e e à análise de poucos le ados e, po es a azão, iz a escolha po : F ei An ônio de San a Ma ia Jaboa ão (1695-1779); Gaspa Teixei a de Aze edo, ei Gaspa da Mad e Deus (1715-1800); Ped o Taques de Almeida Paes Leme (1714-1777); José Vic o iano Bo ges da Fonseca (1718-1786); e Domingos de Lo e o Cou o (C.a 1696/1700-1757). B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 155 Pa a além das iden idades in en adas, pano de undo que baliza á o a igo, busca -se-á abo da , ao co eja os esc i os escolhidas de cada le ado, os seguin es emas e ques ões: a) esses luso-b asilei os podem se conside ados, a pa i da ap eciação de seus ex os e das e e ências eó ica-me odológicas po eles emp egadas, como ep esen an es daquilo que, com ce a equência, se in i ula como “p é-his ó ia da his o iog a ia b asilei a”? b) se ia ace ado ca ac e izá-los como a í ices de uma epis emologia ame icana que, dian e dos compêndios de a o es dos homens e da na u eza do No o Mundo, ao longo do século das Luzes, se puse am a esponde com suas análises cien í icas locais àqueles ela os is os como eu ocên icos? E c) e am os ex os desses le ados, ao im e ao cabo, simples ep oduções no âmbi o do que, po mui o empo, con encionou-se chama de pe i e ias, 4 de modelos de esc i as e da p odução de conhecimen o o jados na Eu opa? *** No século XVIII, os e udi os das mais dis in as pa es do impé io po uguês se deb uça am sob e a ei u a de no os egis os que dessem con a das p incipais in o mações daqueles incões pe encen es à mona quia lusa. Puse am a esc e e o que eles chama am de e dadei as his ó ias de suas “pá ias”, seus luga es de nascimen o ou aqueles escolhidos pa a se em seus la es. 5 Diziam que, po mais de dois séculos, in o mações equi ocadas o am en iadas à Eu opa e, po an o, naquele momen o, e a p eciso eesc e e a his ó ia da Amé ica, especialmen e a das capi anias do B asil. Esses le ados ambém demons a am que es a am cien es das discussões en ão p oduzidas em di e en es pa es da Eu opa a espei o da manei a como se de ia eesc e e ais his ó ias. Ou, po ou o lado, no século das Luzes, os pensado es e le i am sob e no as o mas de esc i a nas quais, com obje i idade, se pudesse ugi das in o mações que, 4 Aqui, e omo os deba es de Edwa d Shils, em ob a que emon a a 1972, minha edição é Cen o e Pe i e ia (Lisboa: Di el, 1992), não pa a acampa a ideia de cen os decisó ios do pode , e no ema do p esen e a igo, e elado es da p odução cul u al, mas pa a indica que é p eciso ques iona a ideia de pe i e ias, uma ez que es as podem exe ce unções de cen o em elação a ou os e i ó ios. Ou seja, al binômio cen o-pe i e ia, aplicado aos es udos sob e a Amé ica po uguesa, pode se bem educionis a con o me apon am os di e en es ex os publicados em Daniels, Ch is ine e Michael V. Kennedy (eds.), Nego ia ed Empi es: Cen e s and Pe iphe ies in he Ame icas, 1500–1820 (New Yo k: Rou ledge, 2002). 5 As pá ias de em se comp eendidas, con o me nos lemb a Ronaldo Vain as, com a mesma acepção que possuía o pad e An ônio Vie a, pa a quem “os po ugueses êm um pequeno país pa a be ço e o mundo odo pa a mo e em”. Ou seja, as pá ias aziam pa e do imenso Po ugal. C. : Ronaldo Vain as, An ônio Viei a (São Paulo: Companhia das Le as, 2011), p. 295. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 156 segundo eles, e iam sido azidas de o ma equi ocada pelos p imei os homens que chega am ao con inen e ame icano, mui os deles sem expe iência com a esc i a, como ma inhei os e eligiosos. Os acon ecimen os do século XIX, no B asil e no mundo, já es a am a ançados quando inalmen e os agmen os dos esc i os do genealogis a luso-b asilei o Bo ges da Fonseca passa am a ci cula pa a além dos limi es dos a qui os. Embo a enham sido pensados a pa i de 1748, le ando in e e no e anos pa a sua o ganização e esc i a, Nobilia chia Pe nambucana icou desconhecida do público em ge al po mais de um século. As di iculdades pa a conclui os omos, segundo o p óp io Fonseca, es a am in imamen e elacionadas à al a de in o mações con iá eis sob e a capi ania da qual ele cuida a em seus esc i os. Bo ges da Fonseca essal a a que Lei o , se és e udi o como suponho e ens lição dos li os genealógicos que co em imp essos, não deixa ás de epa a em que con ando a Po oação de Pe nambuco só 240 anos, pouco mais, po que p incipiou no ano de 1535, sejam ão escassas as Memó ias e ão pob es de no ícias os A qui os e Ca ó ios que deixem du idosos algumas das que nos e am p ecisas dos p imei os nob es que ie am a es a capi ania. 6 Filho ilus e de conhecida amília pe nambucana, com ex ensa olha de se iços p es ados à mona quia lusa, Bo ges da Fonseca pe encia à Academia B asilei a dos Renascidos, undada em 1759, e da qual a his o iado a I is Kan o des aca es a no âmbi o “da o mação da his o iog a ia acadêmica luso-ame icana se ecen is a”. 7 De a o, Nobilia chia Pe nambucana o nece dados impo an es a espei o das pa agens daquela capi ania em elação às “in o mações biog á icas, sociais, psicológicas, econômicas e aciais”, como en a iza o his o iado José Honó io Rod igues. 8 Além de aça o pe il da 6 An ônio Jose Vic o iano Bo ges da Fonseca, Nobilia chia pe nambucana (Rio de Janei o: Biblio eca Nacional, 1935, .1), p. 07. 7 Í is Kan o , Esquecidos e enascidos: his o iog a ia luso-ame icana 1724-1759 (São Paulo: Edi o a Huci ec, 2004,), p. 17. 8 José Honó io Rod igues, His ó ia da his ó ia do B asil: his o iog a ia colonial (B asília: Minis é io da Educação e Cul u a - MEC: Companhia da Edi o a Nacional, 1979, . 1), p. 471. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 157 sociedade de Pe nambuco ao longo dos séculos, Bo ges da Fonseca elenca as especi icidades daquela egião e en a iza a lu a que os daquela “pá ia” a a am pa a ence os in aso es ba a os, man endo-se iéis aos desígnios do eino po uguês. A pa i de São Paulo, ou o genealogis a e c onis a, Ped o Taques de Almeida Paes Leme, na esc i a de His ó ia da Capi ania de São Vicen e, compêndio encomendado a pedido do conde de Vimiei o pa a legi ima a posse de suas e as en e à amília dos Monsan o, o le ado apon a a a necessidade das pesquisas em a qui os pa a a esc i a da his ó ia. Na ap esen ação do manusc i o, ele indica a que oi V. Exª se ido incumbi -me o necessá io exame do a qui o da Câma a des a cidade pa a se descob i em os documen os que i assem oda a dú ida do legí imo senho e dona á io da di a capi ania. [...]. Ca ecendo, po ém V. Exª de maio in o mação a undamen os, desde o p incípio da undação des a capi ania a é o ano de 1714, que se inco po ou à Co oa (po concei o e ado e con a oda a e dadei a in eligência), me oi p eciso sac i ica ao indispensá el abalho de passa aos olhos o copioso ca ó io da p o edo ia da Fazenda. Apliquei-me a es es exames com an a adiga, quan a não cabe na exp essão do maio enca ecimen o, po que as le as dos li os de egis os são o almen e de di e sa igu a dos ca ac e es do p esen e al abe o, ob igando-me es a dessemelhança a gas a mui as ho as de aplicação pa a e e uma só lauda: con udo a ene ação espei osa que a V. Exª consag o ez sua e odo aquele excessi o des elo, mui o à is a dos meus anos e a aque in e e ado da enxaqueca, cujas do es azem pô em desp ezo o uso de le e esc e e . 9 Ambos os le ados e idencia am que es a am bem-in o mados no século XVIII, em elação a uma no a manei a de esc e e a his ó ia. Naquele momen o, homens p oeminen es de dis in as egiões da Amé ica esol e am eesc e e a his ó ia de suas pá ias, p incipalmen e dian e da in ensi icação das iagens ao edo do mundo, com a missão das expedições eu opeias – em pa e inanciadas pelos go e nos impe iais ou pelas ins i uições de pesquisas – de eelabo a a his ó ia daquelas egiões do globo. Ped o Taques, ao esc e e a His ó ia da capi ania de São Vicen e, hoje São Paulo, essal a a a impo ância das on es 9 Ped o Taques de Almeida Paes Leme, His ó ia da capi ania de São Vicen e (São Paulo: Melho amen os, 1928), p. 66. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 158 documen ais pa a p o a que ele es a a apon ando a e dade. Ao des aca a azão pela qual os paulis as e iam ei o gue a con a os na i os da egião demons a a, com os egis os aos quais e ia acesso, que o a algo necessá io desde o momen o inicial dos p imei os con a os, caso con á io, os eu opeus que se es abeleciam naquelas pa agens se iam dizimados e a emp ei ada da conquis a se e ia a uinada. Dessa manei a, Taque sublinha a que Es a ma é ia cons a melho no a qui o da Câma a da cidade de S. Paulo, no li o í . 1585 que acaba em 1586 na pág. 12 ., onde se lê que os po os das ilas de San os e de S. Vicen e eque e am no ano de 1585 a Je ônimo Lei ão, capi ão-mo go e nado loco- enen e do dona á io Ped o Lopes de Sousa, que se izesse gue a aos índios gen ios de nação Ca ijós, que em qua en a anos inham mo o mais de cen o e cinquen a eu opeus assim po ugueses como espanhóis; [...]. 10 Há que se no a que os dados ap esen ados po Taques busca am lança luz sob e o que se en endia po e dade a espei o da his ó ia da capi ania e jus i ica a lu a con a os indígenas, sob e udo dian e dos ela os que a ibuíam aos paulis as a pecha de maus assalos. Com a ascensão das academias le adas esponsá eis pelo acúmulo de documen os que p opiciassem a esc i a da his ó ia do impé io, como apon a I is Kan o , “os acadêmicos pa eciam e cla a consciência da necessidade de egis a os ei os glo iosos dos po ugueses, mesmo os que abalha am em a o de ou os p íncipes. A nação po uguesa de e ia inco po a os po ugueses de odos os quad an es do mundo, o sen imen o de pe ença anscendia as on ei as polí icas do impé io luso”. 11 E a colônia não icou imune a esse ipo de egis o. Fosse em Pe nambuco ou em São Paulo, pa ece e iden e que, de alguma o ma, esses homens esc e iam basicamen e a espei o dos mesmos assun os, sob e os quais dialoga am en e eles assiduamen e. Ao en a comp o a a impo ância da gue a jus a pa a a capi ania de São Vicen e, Ped o Taques e e encia a ou os abalhos esc i os a p opósi o daquele incão da colônia, en a izando: 10 Ibid., p. 72. 11 Í is Kan o , Esquecidos e enascidos: his o iog a ia luso-ame icana 1724-1759 (São Paulo: Edi o a Huci ec, 2004), p. 58. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 159 É ce o que da ila de S. Vicen e saí am em 24 de agos o de 1554 os pad es jesuí as Ped o Co eia e João de Sousa pa a a missão dos gen ios Tupis e Ca ijós dos Pa os, e ambos o am mo os pela ba ba idade des es índios, como esc e e o pad e Simão de Vasconcelos na C ônica do B asil, li . 1º, pág. 147, onde mos a que Ped o Co eia e a sujei o de nob eza conhecida, e se ize a opulen o na ila de S. Vicen e [...]. 12 Os acon ecimen os do século XVIII, em São Paulo, con o me apon am os es udos 13 , e iam sido ma cados po pe pe a em g andes di iculdades pa a os paulis as. Os desdob amen os do con li o denominado com Gue a dos Emboabas (1707-1709) é um exemplo dessa esc i a, às ezes essen idas dos paulis as, na qual busca am se eabili a em enquan o súdi os iéis do ei de Po ugal. Ainda na busca pela ecupe ação da imagem de São Paulo, o ei benedi ino Gaspa da Mad e de Deus ea i ma a que e a p eciso esponde com dados e documen ação às calunias es angei as que ci cula am a espei o da his ó ia de São Paulo, en a izando que “os paulis as i e am a desg aça (se al nome con ém) de se emba aça em com os jesuí as do Pa aguai e da Capi ania; e, po consequência, de o ende em a oda a Sociedade cujos Esc i os oa am po oda a pa e a deneg i-los à ace do Uni e so”. 14 A pa i de Pe nambuco, Lo e o Cou o ap esen a a seus esc i os em 1757, denominados Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco, almejando uma his ó ia e dadei a da egião na qual se des acasse os g andes ei os dos pe nambucanos na de esa da eligião ca ólica e das bases do impé io po uguês, endo “ou o maio es ímulo, que oi a alia como ob igação p ecisa, e u a alguns e os, e calúnias, com que alguns au o es, que em esc i o do B asil, mancha am a opinião dos nossos Índios, e de algumas pessoas benemé i as, sem mais undamen o”. 15 12 Ped o Taques de Almeida Paes Leme, His ó ia da capi ania de São Vicen e (São Paulo: Melho amen os, 1928), p. 72. 13 C. : Ad iana Rome o, Paulis as e emboabas no co ação das Minas (Belo Ho izon e: Edi o a da UFMG, 2008). 14 Gaspa de Mad e de Deus, Memó ias pa a a his ó ia da capi ania de São Vicen e hoje chamada São Paulo (São Paulo; Rio de Janei o: Weisz log Edi o a, 1920). 15 Domingos Lo e o de Cou o, Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco (Pe nambuco, Reci e: Fundação Cul u al de Reci e, 1981). B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 166 cobiçosos, e dados ao inho. Finalmen e uns aunos, uns semicap os, uns sá i os”. 30 Lo e o Cou o espondia que ha e ia de p o a que os índios encon ados em e as b asílicas, especialmen e os de Pe nambuco, não e am sel agens degene ados que em nada se iam ou, an es, a apalha am o es abelecimen o da ci ilização eu opeia em e as ame icanas. O genealogis a Bo ges da Fonseca ambém se p eocupa a em ocul a a miscigenação em Pe nambuco, en e b ancos e indígenas. Ainda assim, ao aça a iden idade que compunha as amílias da capi ania, demons ou, documen almen e, que o ei de Po ugal acena a pa a o acei e de consó cios en e os colonizado es e as pa es mais nob es dos na i os b asílicos, a inal, des aca a o le ado que Tendo em meu pode a p o a da legi imação que no ano de 1561 concedeu o ei Dom Sebas ião aos ilhos na u ais de Je ônimo de Albuque que; es á ela de al so e que se não pode le os seus nomes e mui os apenas se pe cebe alguma coisa. É ce o que os pe ilados o am só 13 e que des es só 8 o am ha idos em Dona Ma ia do Espí i o A co e de [...]. 31 Do expos o acima, há dois mo imen os que de em se des acados: p imei o, na ab icação de uma iden idade pe nambucana, o genealogis a busca a se esqui a das bodas en e colonizado es b ancos eu opeus e mulhe es indígenas, o que aca e a ia a impu eza de sangue e, consequen emen e, na desg aça das amílias locais. En e an o, dian e da impossibilidade de azê-lo po comple o, não deixa a de e u a a impu eza e a degene ação dessas amílias, já que ais uniões e iam oco ido com ilhas de nob eza indígena o que lus a a, ainda mais, o sangue eu opeu. Po ou o lado, a ecolha de documen os en e ca ó ios, a qui os e dados pessoais demons a a que não ha ia azões pa a conside a ais súdi os como in e io es se compa ados aos eu opeus. Em São Paulo, Mad e de Deus sublinha a que 30 Domingos Lo e o de Cou o, Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco (Pe nambuco, Reci e: Fundação Cul u al de Reci e, 1981), p. 37. 31 An ônio Jose Vic o iano Bo ges da Fonseca, Nobilia chia pe nambucana (Rio de Janei o: Biblio eca Nacional, 1935, .1), p. 381. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 167 Não é só daquela capi ania e das mais do B asil que alam os mesmos au o es com an a alsidade e ex a agância; é ambém de odos os mais po os exis en es o a da Eu opa polida. Relações alsas, pelas quais se guiam, ânimo de me e a idículo e de desp eza udo o que não é con o me aos cos umes anceses; e, inalmen e, a p esunção de que e em decidi no gabine e aquelas mesmas cousas que cus a iam a pe cebe -se com exames ocula es, são causa de an os e os g ossei os que inundam a República das Le as. 32 Ped o Taques, em suas ob as genealógicas, ambém e az o pe cu so das p incipais amílias que e iam chegado e undado a capi ania de São Vicen e. Na esc i a de Taques, Ma im A onso de Sousa e seu séqui o e iam ido papel basila na colonização daquela egião de Pi a ininga. E a de amília nob e e, dessa o ma, a o igem dos paulis as, desde o momen o inicial, es a ia ligada a esse onco amilia que, sob a benção eal, desemba ca a em e as do No o Mundo. Em elação à miscigenação com os neg os, a di iculdade de conside á-la e a mui o maio . Os es udos de Ronald Raminelli indicam que isso acon ecia po que “no eino e na Amé ica po uguesa, o ca á e ina o dos cos umes e da mo al e a a ibuído à na u eza, ao sangue e à aça”. 33 Po an o, a cons ução de iden idades locais, ao longo da eesc i a das his ó ias dessas capi anias b asílicas, quase semp e, en a am dis a ça a p esença do sangue neg o no p ocesso de cons ução dessas na a i as. Gaspa de Mad e de Deus se deb uça a sob e dados que podiam comp o a que, na undação de São Paulo, a p esença de neg os e mula os não e a possí el. Se Ped o Taques, o genealogis a, explica a cla amen e que o consó cio en e b ancos e indígenas se iu pa a enob ece ainda mais o sangue po uguês, Mad e de Deus p ecisa a encon a saídas pa a esponde às c í icas, sob e udo dos jesuí as, de que a capi ania e a compos a po um bando de mula os desde o início. Pa a o eligioso “como há de p o a [...] que mula os o agidos conco e am pa a a undação de São Paulo, se na e a, em que ela e e seu p incípio, ha ia poucos p e os da Á ica no B asil [...]?”. 34 32 Gaspa de Mad e de Deus, Memó ias pa a a his ó ia da capi ania de São Vicen e hoje chamada São Paulo (São Paulo; Rio de Janei o: Weisz log Edi o a, 1920), p. 237. 33 Ronald Raminelli, Nob ezas do No o Mundo: B asil e ul ama hispânico, séculos XVII e XVIII (Rio de Janei o: FGV, 2015) p. 236. 34 Gaspa de Mad e de Deus, Memó ias pa a a his ó ia da capi ania de São Vicen e hoje chamada São Paulo (São Paulo; Rio de Janei o: Weisz log Edi o a, 1920), p. 234. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 168 Ao con á io dos a í ices das his ó ias de São Paulo, pode-se e i ica que, em mui os le ados, a eligião oi uma das manei as de inco po ação dos neg os e mula os à essas iden idades ab icadas. Ou seja, a ap oximação com o ca olicismo ajuda a a edimi os de ei os de sangue e da subs ância da qual aqueles indi íduos e am ei os. Ou a o ma de conside a os neg os na cons ução dessas iden idades es a a elacionada com a pa icipação desses g upos em a i idades mili a es em de esa dos locais e da in eg idade do impé io. Em elação a eligião como i ude ab açada po alguns desses indi íduos, ei Jaboa ão lemb a a que Aqui se nos o e ece ansplan a en e an as lo es cândidas de san idade, uma de co p e a, mas mui cla a nas i udes, com que in ome endo-se no ja dim se á ico do B asil, assim como se iu de esmal e às demais, soube ilus a -se a si, ou pa a dize mos sem ugi da me á o a de es elas ap op iada, os ilhos de F ancisco nes e seu No o O be, oi ele um, a quem com mais analogia lhe coube o nome de es elinha nebulosa, já pela pouca cla idade, que emos das suas i udes, e mui o mais pela da sua co p e a, que de alguma so e se iu de nu em às suas boas ob as. 35 No amos assim que, embo a a co da pele não osse undamen al do pon o de is a acial pa a impedi a mo imen ação social de neg os, índios e mes iços, ela ambém unciona a como um dos c i é ios pa a, no assun o aqui abo dado, quali ica ou desquali ica os indi íduos quando da cons ução das iden idades locais. De odo modo, neg os e mula os ambém pode iam se elencados como ep esen a i os do mal que se sucedia naquelas pa agens do impé io. F ei Jaboa ão e Lo e o Cou o são unânimes ao essal a em a igu a il e aiçoei a, segundo eles, do mula o Calaba . Cou o chega a passa inúme as páginas desc e endo-o como manhoso e aido , sendo es a a única mancha que se di isa a no céu c is alino de Pe nambuco. Ao im, e a p eciso que se i esse cuidado com os mula os po que pode iam se con e e em aido es. Po isso, segundo Lo e o Cou o “é necessá ia nes a cas a mui a i ude pa a se econcen a no seu nada, is o não soube am aze os anjos no céu, e nem os homens no pa aíso, como a á um 35 An ônio de San a Ma ia Jaboa ão, “Se mão da es au ação de Pe nambuco do domínio hollandez”, Re is a do Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o (Rio de Janei o: Imp ensa Nacional, 1860, . 23), p. 690-691. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 169 mula o no B asil, endo comumen e um emo de espí i o, que em mui os nem com a misé ia do ca i ei o se aba e?” 36 De a o o c onis a de Pe nambuco, Lo e o Cou o, en a iza a que e a ex emamen e complicado pe cebe , naquelas egiões, quem e a nob e e quem e a plebeu e isso, em pa e, oco ia po que aqueles que inham a co p e a não se emenda am ao se e em com libe dade, azendo pa ece com os b ancos nos modos e o mas de agi . Logo, “pela expe iência, que em da condição des e ulgo a i mam os Go e nado es, e Minis os, que só as pessoas des a es e a dão ao que aze ao seu go e no, po ém ambém é ce o, que en e pa dos, e p e os se acham mui os que cuidam em ob a bem, e com ações i uosas se azem me ecedo es da es imação a que aspi am”. 37 Ao im, os neg os pode iam se i uosos se en egues aos caminhos da eligião ou das gue as, mui o embo a Cou o apon e neg os e mula os dis in os em di e en es á eas de conhecimen o. Con udo, os p oblemas ad indos dos umul os que chega am aos go e nan es locais, quase semp e, e am azidos po , segundo Cou o, neg os e mes iços. Essa ônica e a comum nos esc i os eu opeus a espei o dos ame icanos. Em 1719, ao esc e e sob e as habilidades humanas pa a o emp ego da a e, na ob a Ré lexions c i iques su la poésie e su la pein u e, o au o Jean‑Bap is e Dubos des aca a a di iculdade que os go e nan es espanhóis inham em con ola suas possessões na Amé ica e isso se da a po con a da miscigenação e da degene ação dos homens que ali apo a am, p incipalmen e po con a do clima do No o Mundo. 38 No a-se, dessa o ma, que in o mações anga iadas em di e en es pon os do No o Mundo le a am os eó icos da di e sidade humana, embo a es es quase semp e não ques ionassem a exis ência de uma única aça de se es humanos, a ea i ma em que os homens ad indos da na u eza inóspi a do No o Mundo, sob e udo aqueles p odu os da miscigenação, e am di íceis de se em go e nados e, ge almen e, aziam p oblemas pa a os eu opeus e o go e no ge al dos impé ios. Ao que pa ece, a cons ução dessas iden idades 36 Domingos Lo e o de Cou o, Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco (Pe nambuco, Reci e: Fundação Cul u al de Reci e, 1981), p. 134-135. 37 Ibid., p. 227. 38 Jean‑Bap is e Dubos, Ré lexions c i iques su la poésie e su la pein u e (Pa is: chez Jean Ma ie e, 1719), p. 260. Disponí el na In e ne em: h ps://gallica.bn . /a k:/12148/bp 6k62699556. ex eImage B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 170 locais dialoga a com essas eses indas da Eu opa e que ci cula am pelo mundo. Mui o embo a não se possa pe de de is a que, na cons ução dessas iden idades, os le ados luso- b asilei os ambém isa am às me cês que pode iam anga ia da sala do ono. 39 Mas quem sabe osse mais in e essan e e le i sob e essas ob as caminhando em mais sen idos e não em um único. Penso que ao ins umen aliza em dados e a os pa a se con apo em aos compêndios con eccionados na Eu opa e na Amé ica, que de a a am os nascidos no No o Mundo, mui o deles possí eis po con a das iagens ao edo do globo no século XVIII, esses ilus ados luso-b asilei os ap esen a am uma epis emologia al e na i a àquela colocada em p á ica, p incipalmen e pelos eu opeus; e conside o que, nisso, eles o am elizes, caso con á io eu não es a ia aqui esc e endo sob e eles e suas ob as. Mas es e pon o não se esume a isso. Oco e que ais ab icações de iden idades ambém essal a am os ei os colocados em p á icas, pelos súdi os do ei de Po ugal, na de esa do impé io. Mesmo quando, ao longo do empo, su gi am p o as que demons assem exa amen e o opos o. Lo e o Cou o, de o ma exaus i a, essal ou a lealdade dos súdi os de Pe nambuco ao longo da gue a con a os holandeses, no século XVII. 40 O his o iado Diego Ramada Cu o, ao analisa a o mação de uma cul u a le ada de eli e na colônia, especialmen e aquela desen ol ida em academias ilus adas, ende a e as ob as de homens como Lo e o Cou o, Mad e de Deus e an os ou os mais como uma “ ep odução na pe i e ia de modelos o jados na Eu opa do que uma qualque esis ência das ma gens em elação ao cen o”. 41 Ou seja, o au o ambém comp eende que essas academias locais e am como a anjos que se ol a am pa a a cópia do que se passa a nas academias eu opeias e, em nada, a ança am no sen ido de cons ução de o es iden idades locais; mui o embo a Ramada Cu o en a ize que, “po ou o lado, o mesmo obje i o de anscende o cí culo local e ela que ‘pela p imei a ez b uxuleou uma aga consciência de in eg ação in elec ual do B asil’”. 42 39 Ronald Raminelli, Viagens ul ama inas: mona cas, assalos e go e no à dis ância (São Paulo: Alameda, 2008), p. 20. 40 Domingos Lo e o de Cou o, Desag a os do B asil e gló ias de Pe nambuco (Pe nambuco, Reci e: Fundação Cul u al de Reci e, 1981), p. 96. 41 Diego Ramada Cu o, Cul u a impe ial e p oje os coloniais: séculos XV a XVIII (Campinas: Edi o a da UNICAMP, 2009), p. 425. 42 Ibid. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 171 Se ia possí el pensa , pa a aquela con igu ação, uma Ilus ação – ainda que acilan e –, po pa e desses homens ilus ados do século XVIII, no sen ido que nos le em a en ende como gênese de uma iden idade in elec ual nacional? Não es ou bem ce o a espei o dessa hipó ese. Po ou o lado – e aqui e omo as ad e ências ei as po An oine Lil i ap esen adas acima, que nos le am a e le i sob e o papel dos his o iado es da his ó ia cul u al quando se deb uçam nesses documen os do passado –, pe gun o-me se e e i amen e a ideia de e o conjun o das ob as daqueles c onis as como ac-símile de me odologias eu opeias, somen e, seja o mais ace ado. A inal, o que se ia, con o me asse e a Ramada Cu o, um modelo genuinamen e eu opeu? Como pe cebe esse odo coe en e? A eunião dos le ados luso-b asilei os aqui abo dados em academias b asílicas, bem como os desdob amen os de suas ob as, penso eu, e a um ou o modelo em dispu a. Com e ei o, po que azão esses ilus ados p opo iam algo que, de an emão, não e ia alidade, pos o que simples cópia? Des aca que ais ob as e au o es não se en e eda am pelo caminho de cons uções iden i á ias esponsá eis po p essiona o chamado cen o, pode pa ece eleológico, pois lhes do a da consciência de que o impé io do qual aziam pa e es a a com os dias con ados. Não há como dize que e am a asados, pe i é icos, pois eles es a am na dispu a. Não al a a a eles um mé odo his o iog á ico, ampouco exala a daqueles homens o gé men da his o iog a ia b asilei a. Não se pode dize que es a am engol ados em cópias eu opeias; hoje, ica mais ácil admi i al asse i a po que sabemos que um modelo se canonizou. Mas os le ados luso-b asilei os es a am na dispu a. Assim, nunca é demais lemb a No be Elias, com o qual inalizo es a e lexão, ad e indo que as “in es igações his ó icas cos umam so e de he e onomia de seus juízos de alo ”. 43 Po im, ainda que seja a eando mais no e eno das pe gun as do que, e e i amen e, colocando con o nos de ini i os, enho e le ido sob e os e udi os/esc i as aqui abo dados como pa ícipes da cons ução de iden idades locais que se ap oxima am de uma his ó ia 43 No be Elias, A sociedade de co e: in es igação sob e a sociologia da ealeza e da a is oc acia de co e (Rio de Janei o: Jo ge Zaha Edi o , 2001), p. 53, em que des aca: “Mui as ezes igo a um al o g au de imp ecisão em dis ingui en e aquilo que pa ece impo an e pa a o pesquisado , com base na escola de alo es de seu p óp io empo, especialmen e em unção de seus p óp ios ideais, e aquilo que é impo an e no con ex o da época pesquisada – po exemplo, o que ocupa a posição supe io ou in e io na escala de alo es de quem es a a i o naqueles dias”. B uno Sil a De um iluminismo colonial ou ou os aspec os da ilus ação no B asil: ci culação de ideias, iden idades locais e his o iog a ias b asílicas Dossie His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX) Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 151-172 DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.09 172 mais ge al, ao sabo do cânones do Iluminismo; iden idades es as que não nega am a pá ia- mãe, mas, quase semp e, quando não conseguiam jus i ica a p esença de neg os, índios e mes iços nesse esc i os, se u a am de en en a a miscigenação acial ine en e àquelas sociedades; po ém, al ez o mais impo an e: não e am li e a u as cons i u i as de um impé io em apu os, com os dias con ados, ampouco uma cópia ipsis li e is da p odução le ada eu opeia. Ao con á io, e am esc i os conco en es, com uma epis emologia p óp ia, mazomba, signi ica i a em suas p opos as e, al ez, pe encen es a um ou o ipo de Ilus ação, quem sabe um Iluminismo colonial.