scieee Science in your language
[pt] (orig)

Direitos em bytes: estratégias de comunicação mediadas por tecnologias para a mobilização em prol de direitos humanos

Read accessible full text

Direitos em bytes: estratégias de comunicação mediadas por tecnologias para a mobilização em prol de direitos humanos

Author: Costa Lima da Rocha, Heitor; Queiroz Lima, Nataly de
Publisher: Equipo de Investigación de Análisis y Técnica de la Información, Universidad de Sevilla
Year: 2015
Source: https://idus.us.es/bitstreams/decfd3d2-7a2e-4b2e-8fb6-ba893b7b3d52/download
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
Capí ulo 44
Di ei os em by es:
es a égias de comunicação mediadas po
ecnologias pa a a mobilização
em p ol de di ei os humanos
Hei o Cos a Lima da Rocha *
Na aly de Quei oz Lima **
1. COMUNICAÇÃO E PODER:
MOVIMENTOS SOCIAIS NA ERA DAS REDES.
exis ência de mo imen os e mobilizações sociais é um impo an e
e môme o da democ acia. Is o po que exp essam, den e ou os
a o es, as possibilidades exis en es de deba e en e os cidadãos sob e
as suas ealidades, e en e es es e as ins i uições do Es ado com oco na ga an ia
de di ei os humanos e do bem es a comum, a uando pa a equilib a as elações
de pode exis en es em um de e minado con ex o his ó ico. Tais a o es es ão
in imamen e elacionados ao agi comunica i o enquan o possibilidade de ação
cole i a sob e o eal (Habe mas, 2012). As o mas de in e ação en e es es
sujei os são de e minan es pa a se pensa as es u u as de pode igen es na
sociedade e em uma ins ância mac opolí ica pa a le a a cabo es a égias de
mudança social isando a p omoção de uma ida digna e jus a pa a mulhe es e
homens.
“A his ó ia social ensina que não exis e polí ica social sem um
mo imen o social capaz de impô-la, e que não é o me cado, como se
en a con ence hoje em dia, mas sim o mo imen o social que ci ilizou a
* P o eso en la Uni e sidad Fede al de Pe nambuco (UFPE), B asil, e in es igado en la
Uni e sidad de Bei a In e io , Po ugal,
** P o eso a en el Cen o Uni e si a io Mau ício de Nassau, B asil, e in es igado a en la
Uni e sidad Fede al de Pe nambuco (UFPE), B asil.
A
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
economia de me cado, con ibuindo ao mesmo empo, eno memen e, pa a
sua e iciencia” (Bou dieu, 2001: 19).
Nes e con ex o, os p ocessos comunica i os es ão no ce ne das
possibilidades dos cole i os sociais incidi em sob e a ealidade. Pensa as
es a égias de comunicação ado adas pelos mo imen os na sociedade em ede é
pa e essencial pa a en ende o sen ido polí ico das econ igu ações
socioeconômicas e o p óp io signi icado do que é aze mo imen o social na
a ualidade. Es á-se dian e de um cená io complexo, pa adoxal e em cons an e
mudança, o que o na o es udo das elações an e io men e ci adas desa ian e e
necessá io.
“As no as mídias sociais, ope adas on-line, com des aque pa a a
mediação da in e ne , es ão mudando a o ma das pessoas se
elaciona em, ab indo acesso a on es de conhecimen o e a o mas de
cons ui a democ acia, mas ambém o necem odos os elemen os pa a a
cons ução de no as o mas de con ole social. Em e mos de empo
his ó ico, é mui o cedo pa a a i mações apocalíp icas, celeb ando ou
negando (ou igno ando) o po encial que essas mídias colocam pa a a ação
humana em ge al e ação cole i a em especial” (Gohn, 2013:52).
Salien a-se que o edesenho das o mas de in e ação social mediadas po
ecnologias, sob e as quais nos de emos nes e es udo, são eminen emen e
sociocul u ais, e não me amen e écnicos. Pa imos do p essupos o que as
e amen as i uais e ecnológicas não são eden o as: são supo es es u u ados
pa a a conexão en e os sujei os. Toda ia os usos e sen idos são dados pelas
sociedades onde se inse em.
A e a das edes sociais, como pos ula Cas ells (2013), se cons i ui em um
pe íodo de eo denamen o das es u u as de pode na sociedade. É um desa io
necessá io e u gen e analisa a mo ologia e as demandas polí icas dos no os
mo imen os que b o am, em odo o mundo, a pa i de edes i uais e
assegu am mobilizações de ua de indi íduos, na sua maio ia jo ens, se
au o ep esen ando. No Reci e, 9ª cidade mais populosa do B asil, o mo imen o
Ocupe Es eli a em ealizado acampamen os e ações on e o line de epe cussão
in e nacional. Pa a al elenca am o Cais José Es eli a, á ea cen al e his ó ica do
Reci e, como um signo da dispu a pela ges ão do espaço público de uma cidade
inchada, que p i ilegia a mobilidade ealizada po ca os indi iduais em
de imen o do anspo e público e i encia uma o e especulação imobiliá ia
com espigões ol ados pa a a classe média, e a consequen e ma ginalização das
comunidades pob es.
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
Uma das p incipais ca ac e ís icas des e modelo de sociedade é a
o ganização em edes. “O nosso modelo comunicacional dominan e es á
cons uído em o no: 1) da globalização da comunicação; 2) da ligação em ede
dos media de massa e in e pessoais e, consequen emen e, da mediação em ede;
3) e de di e en es g aus de uso de in e a i idade” (Ca doso, Espanha & A aújo,
2009, p. 21). Segundo Cas ells, a p óp ia es u u a nodal das edes es á adap ada
à dissolução dos pad ões an e io es de o ganização social:
“A mo ologia da ede pa ece es a bem adap ada à c escen e
complexidade de in e ação e aos modelos imp e isí eis do
desen ol imen o de i ado do pode c ia i o dessa in e ação. [...] Essa
lógica de edes, con udo é necessá ia pa a es u u a o não es u u ado,
po ém p ese ando a lexibilidade, pois o não es u u ado é o ça mo iz
da ino ação na a i idade humana” (Cas ells, 2009a: 108).
As edes sociais e as pla a o mas i uais de in e ação possibili a am um
eo denamen o das es u u as de pode na sociedade: ab i am espaços pa a a
p odução e ep odução de con eúdos hegemônicos e con a-hegemônicos, pa a a
eme gência de no os sujei os polí icos, amplia am o leque emá ico da agenda
pública, inclusi e impulsionando mudanças es u u ais no jo nalismo (como o
jo nalismo-cidadão) e se ap esen am como ins umen os impo an es pa a a
consolidação da democ acia. Is o po que a pa icipação social, elemen o-cha e
da democ acia, se cons ói na es e a pública, na capacidade de diálogo de um
de e minado g upamen o humano. Os p ocessos comunica i os ei e am sua
impo ância: “o pode na sociedade em ede é o pode da comunicação”
(Cas ells, 2009b: 85).
No cen o des a discussão, na qual Cas ells inse e a eme gência dos Mass
sel communica ion (2009b)
1
e de no os sujei os p omo o es de mudanças
1
Pa a Cas ells, os Mass sel communica ion ou a au o comunicación de masas: “Es
comunicación de masas po que po encialmen e puede llega a una audiencia global, co no
cuando se cuelga un ídeo em YouTube, un blog con enlaces RSS a una se ie de webs o un
mensaje a una lis a eno me de di ecciones de co eo elec ónico. Al mismo iempo, es
au ocomunicación po que uno mismo gene a el mensaje, de ine los posibles ecep o es y
selecciona los mensajes conc e os o los con enidos de la web y de las edes de comunicación
elec ónica que quie e ecupe a . Las es o mas de comunicación (in e pe sonal,
comunicación de masas y au ocomunicación de masas) coexis en, in e ac úan y, más que
sus i ui se, se complemen an en e sí. Lo que es his ó icamen e no edoso y iene eno mes
consecuencias pa a la o ganización social y el cambio cul u al es la a iculación de odas las
o mas de comunicación en un hipe ex o digi al, in e ac i o y complejo que in eg a, mezcla
y ecombina en su di e sidad el amplio abanico de exp esiones cul u ales p oducidas po la
in e acción humana” (Cas ells, 2009b: 88).
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
sociais, as elações de pode seguem o emen e inculadas a ês en es
conhecidos: o me cado, que c ia as bases ecnológicas e es u u as hegemônicas
da sociedade em ede; os Es ados que as de em egula e, em alguns casos,
inanciam a cons ução de ecnologias que possibili em o acesso uni e sal dos
cidadãos a elas; e os cidadãos comuns que ambém podem c ia pla a o mas
i uais com códigos abe os, se a icula em comunidades ainda que seus
memb os não se conheçam o line, e a ua massi amen e na p odução de
con eúdos in e e indo di e amen e na agenda pública, ansg edindo o
monopólio da G ande Mídia sob e a isibilidade pública, embo a o sucesso de
seus obje i os con inuem dependendo, em g ande medida, dos signi icados
mediados pelo jo nalismo nes e espaço denominado po S ua Hall (1999) de
idioma público, ago a democ a icamen e ampliado, ou menos ameaçado de ido
à edução da dis o ção que a es u u a de pode sis ema icamen e exe ce pa a
ba a o acesso dos indi íduos, especialmen e da pe i e ia, à discussão pública.
“T adicionalmen e, a noção de es e a pública es e e associada a
ambien es conc e os, ais como ca és, salões li e á ios e assembleias, nos
quais as pessoas negocia am desejos, planeja am ações e ealiza am o
chamado “jo nalismo li e á io”. En e an o, desde a publicação de
Mudança Es u u al na Es e a Pública (g i o do au o ), o concei o em
sendo e o mulado, de modo a assimila não apenas as con ibuições dos
c í icos e eó icos, como ambém as ans o mações dos sis emas
polí icos democ á icos e das no as ecnologías” (Doimo, Mi e & Maia,
2009: 109).
Es a maio possibilidade de pa icipação cidadã na es e a pública, no
en an o, ambém man ém esquícios dos pad ões es u u ais clássicos de
dispa idades e pode . Nes e con ex o, es ão p esen es as p essões das emp esas
ansnacionais pela des egulamen ação dos me cados mundiais e os “sis emas
de comunicação que anscendem e i am de jogo a an iga es u u a do Es ado-
nação” (Hall, 2008: 35). De o ma ampla, alguns au o es como Canclini (2006)
ale am pa a o p ocesso de eo denamen o das di e enças sem sup essão das
desigualdades, ques ionando assim as supos as possibilidades uni e sais
inculadas à popula ização das TICs.
A ambiguidade das ecnologias comunica i as, como ins umen o de
ep odução da es u u a de pode ou como a o de emancipação de iolências
simbólicas, já e a islumb ado po John Dewey há já quase um século a ás.
“Hoy disponemos, como nunca lo hicimos an es, de las he amien as
ísicas de la comunicación. Pe o, los pensamen os y las aspi aciones
cong uen es com ellas no se comunicam y, po an o, no son comunes.
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
Sin esa comunicación el público segui á ensomb ecido e in o me, pe dido
en una búsqueda espasmódica de sí mismo, pe o aba cando y sos eniendo
su somb a en ez de su sus ância. Mien as la G an Sociedad no se
con ie a en una G an Comunidad, el Público segui á eclipsado. Sólo la
comunicación puede c ea una g an comunidade. Nues as Babel no es de
lenguas, sino de unos signos y símbolos sin los cuales es imposible la
expe iência compa ida” (Dewey, 2004: 134).
Pa a Dewey, po an o, az-se necessá io que os mo imen os
con a ac uais que se mobilizam pela mudança social ocupem espaço na
maquina ia comunica i a pa a ajus á-la à sa is ação de suas necessidades e não
pe manece como me o ins umen o da es u u a de pode .
“No hemos hecho más que oca le emen e y de pasada las condiciones
que se deben cumpli pa a que la G an Sociedad se con ie a en una G an
Comunidad; una sociedade en la que las consecuencias en expansión
cons an e y complejamen e ami icadas de las a i idades asociadas se
conozcan en el pleno sen ido da pala a, de mane a al que su ja un
Público o ganizado y a iculado. El ipo más ele ado y di ícil de
in es igación jun o con un a e de la comunicación que sea ingenioso,
su il, i o y pe cep i o debe án oma posesión de la maquina ia ísica de
ansmisión y ci culación e insu la le ida. Así, cuando la e a mecánica
haya pe eccionado su maquina ia, es a se á un médio de ida y no su
amo despó ico. La democ acia alcanza á su pleno sen ido, pues
democ acia es una pala a que deno a una ida de comunión li e e
en iquecedo a” (Dewey, 2014: 156).
O enômeno de agmen ação das consciências e iden idades de e se
conside ado nes e con ex o, is o que e le e na segmen ação dos con eúdos
midiá icos, bem como na c iação de uma in inidade de comunidades i uais, as
quais êm a uado como eículos de comunicação p óp ios de indi íduos ou
cole i os, com g aus dis in os de sazonalidade de seus pa icipan es, e de uma
econ igu ação das es a égias de pa icipação polí ica dos indi íduos. Mas é
inegá el as b echas exis en es nes e modelo socie á io e comunicacional, e
de idamen e ocupadas po cidadãos na de esa de di ei os.
“El auge de la au ocomunicación de masas, que aumen a la capacidad de
que noso os, la audiencia, p oduzcamos nues os p opios mensajes,
po encialmen e desa ía el con ol emp esa ial de las comunicaciones y
puede cambia las elaciones de pode en la es e a de la comunicación”
(Cas ells, 2009b: 542).

------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
Segundo Cas ells (2013), esses no os mo imen os êm em comum
ca ac e ís icas como: a) c iam comunidades de p oximidade; b) escolhem
espaços ca egados de alo simbólico que ão além do p óp io a o; c)
conec am cibe espaço e espaço u bano c iando um no o espaço polí ico; d) são
simul aneamen e globais e locais uncionando num empo a empo al; e) êm
ca ac e ís icas i ais; ) “São mo imen os p o undamen e au o e lexi os”,
apesa de a amen e se em p agmá icos; g) Possuem líde es, mas esis em à
ideia de lide ança adicional, ma e ializada no ideal de uma pessoa se capaz de
ep esen a odo o g upo; g) p ocu am a mudança dos alo es da sociedade,
ei indicando a mudança do Es ado, mas sem que e se apode a des e
u ilizando as mesmas es a égias de ocupação do es ado a pa i do modelo
igen e. De o ma ge al, “o que es es mo imen os sociais em ede es ão
p opondo em sua p á ica é uma no a u opia no ce ne da cul u a da sociedade
em ede: a u opia da au onomia do sujei o em elação às ins i uições da
sociedade” (Cas ells, 2013: 170).
No conjun o, as ca ac e ís icas des es no o mo imen os, além de
e idencia em um p ocesso de busca po no as p á icas democ á icas, pela
essigni icação dos mo imen os sociais, pa ecem e le i um no o s a us pa a a
pa icipação social, no qual a comunicação em papel p eponde an e no
eo denamen o das es u u as de pode , sendo o ce ne de oda a ação cole i a de
mobilização e de di ulgação, ou seja, da sua p óp ia exis ência polí ica.
Po isso, es e a igo, esul ado de uma pesquisa de dou o ado em
andamen o, se ol a a analisa as es a égias de comunicação do #OcupeCom,
g upo de comunicação do Ocupe Es eli a, du an e a ocupação de e i ó io que
acon eceu en e maio e junho de 2014. Pa a al, o am en e is ados memb os
do cole i o de comunicação e ealizada uma e isão bibliog á ica que
con emplasse a comp eensão des e enômeno ainda ecen e.
2. DIREITO AO RECIFE: EM CENA O OCUPE ESTELITA.
Reci e é um município do No des e B asilei o que exp essa bem o quad o
de con adições e inchaços das g andes cidades do mundo. A capi al
pe nambucana é iminen emen e u bana, possui um e i ó io de 217km², onde
esidem, segundo Censo 2010 do Ins i u o B asilei o de Geog a ia e Es a ís ica
(IBGE), 1.537.704 de pessoas. Em e mos de densidade demog á ica is o esul a
em pouco mais de se e mil habi an es po quilome o quad ado.
Es á-se alando da 3ª maio economia do No e e No des e e do 14º maio
P odu o In e no B u o do país, que pa alelamen e, a pa i de um c escimen o
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
pau ado no modelo adicional de desen ol imen o, em no seu desenho u bano
os aços da pe sis en e desigualdade social, apesa dos in es imen os em
p og amas de ans e ência de enda e inclusão social ealizados pelas ês
es e as de go e no. Os bai os mais icos, com os mais luxuosos edi ícios e com
as maio es endas es ão ao lado de a elas.
Segundo o Censo 2010 do IBGE, o amo da cons ução ci il é o e cei o
que mais emp ega mão-de-ob a local, o que deno a um se o aquecido, mas a
P e ei u a da Cidade do Reci e es ima que o dé ici habi acional es eja em o no
de 70 mil esidências. Nes e caso, se abo da a ealidade de um con ingen e
social que, di icilmen e, consegui ia e acesso a maio pa e das unidades
esidenciais cons uídas pelo se o imobiliá io, ainda que haja p og amas de
c édi o pa a a baixa enda.
“No Reci e, a es ei a con i ência en e icos e pob es, ma cada nas
paisagens de odos os seus bai os, e le e as o es mobilizações sociais
da população de baixa enda e os mo imen os de mo adia pela
pe manência na e a onde cons uí am suas comunidades. En e 1940 e
1970, esses mo imen os sociais lu a am con a as polí icas
go e namen ais de es u u ação do espaço (polí icas o iciais de
e adicação de mocambos, a ela e a expulsão pa a as pe i e ias). Nas
úl imas décadas, a lu a ca ac e izou-se pela demanda de p o isão de
in aes u u a, egula ização u banís ica e undiá ia, pa a melho a as
condições de habi abilidade dos assen amen os p ecá ios onde
consegui am esis i e pe manece ” (Mi anda, 2005: 07).
Dos mo imen os popula es comuni á ios de i a am p opos as de polí icas
públicas que assegu a am a pe manência de comunidades de baixa enda em
á eas cen ais e in es imen os em melho ias es u u ais nes as localidades.
T a a-se de p og amas e polí icas como a Lei de Uso e Ocupação do Solo, de
1983, que esul ou na c iação das Zonas Especiais de In e esse Social (Mi anda,
2005).
Nes e sen ido, se essal a a exis ência de uma lu a his ó ica pela mo adia,
po melho es condições de habi abilidade que, de o ma ge al, de i a na pau a
do di ei o à cidade. Tal mo imen o inha como p incipais a o es e a izes,
pessoas de baixa enda, com consequen e limi ado acesso a bens e se iços, que
a pa i de laços de solida iedade man inham ações de esis ência às incu sões
do capi al p i ado e dos go e nos isando a egula ização undiá ia e
pe manência no local com condições dignas de ida.
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
“[…] A ideia do di ei o à cidade não su ge undamen almen e de
di e en es cap ichos e modismos in elec uais (embo a eles exis am em
g ande núme o, como sabemos). Su ge basicamen e das uas, dos bai os,
como um g i o de soco o e ampa o de pessoas op imidas em empos de
desespe o” (Ha ey, 2014: 15).
A pau a do di ei o à cidade no Reci e ganhou no o ôlego em 2012 com a
o mação do Ocupe Es eli a, um cole i o mo ológicamen e dis in o dos
mo imen os an e io men e ci ados e conec ado com as mobilizações mundiais
que a icula am milha es de pessoas a pa i de edes i uais de comunicação.
O Ocupe se o ganiza a pa i da esis ência de seus mili an es ao p oje o No o
Reci e - um emp eendimen o de um g upo de cons u o as que p e ende
cons ui 12 o es com a é 40 anda es no Cais José Es eli a em uma p opos a
que des oa do en o no his ó ico, com seus casa ios cen ená ios, bem como da
ealidade das comunidades izinhas de baixa enda e que, segundo alguns
especialis as c í icos da p opos a, pode aze impac os ambien ais nega i os à
Bacia do Pina, um dos p incipais es uá ios da capi al pe nambucana. O Cais
ambém é uma á ea es a égica pa a o capi al imobiliá io, pela sua localização,
is o que es á no cen o da cidade, em um dos p incipais echos his ó ico e
u ís ico, e p óximo do bai o de Boa Viagem, um dos mais nob es do
município.
Vale salien a que o Cais José Es eli a se cons i ui em um conjun o de
a mazéns de açúca – legado da explo ação da cana-de-açúca no No des e –
que es a am abandonados e um pá io e o iá io, o alizando mais de 100 mil
m² de á ea. O e eno es a a sob posse da an iga Rede Fe o iá ia Fede al
(RFFSA). A sua comp a, de aco do com lide anças do Ocupe Es eli a e ações
mo idas pelo Minis é io Público Fede al (MPF), es á ce cada de i egula idades
ju ídicas, como a ausência de es udos de impac o local das ob as e a p óp ia
ansação de enda da p op iedade.
“Não são poucos os p oblemas do p oje o No o Reci e. De aco do com o
MPF, o p imei o deles é que o leilão da á ea nunca pode ia e sido ei o.
Isso po que oda ez que a União ai ende uma p op iedade pública é
necessá io consul a ou os ó gãos públicos que e en ualmen e enham
in e esse na á ea. O Ins i u o do Pa imônio His ó ico e A ís ico Nacional
(Iphan) de Pe nambuco ha ia mani es ado on ade de se esponsabiliza
pela á ea, mas mesmo assim o leilão oco eu e só o Consó cio No o
Reci e se mos ou in e essado no Cais José Es eli a. Nenhuma ou a
emp esa apa eceu pa a dispu a a comp a da á ea. Com isso, o g upo
imobiliá io pagou o alo mínimo es ipulado pelo go e no ede al pa a a
p op iedade. Como desembolsou 55 milhões de eais po pouco mais de
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
100 mil me os quad ados, o Consó cio No o Reci e pagou pouco menos
de 500 eais pelo me o quad ado. Isso em uma das capi ais b asilei as
mais ca as pa a se mo a no País. De aco do com índice Fipe/Zap
(Fundação Ins i u o de Pesquisas Econômicas/Zap Imó eis), que
acompanha os p eços dos imó eis à enda anunciados na in e ne , o p eço
médio do me o quad ado na capi al pe nambucana é de 5.673 eais”
(T u i, 2014).
O Ocupe Es eli a se cons i ui em um mo imen o não ins i ucionalizado,
onde se a iculam ep esen ações de o ganizações da sociedade ci il, de pa idos
polí icos, de ó uns, de edes mo imen alis as, mas p incipalmen e de
indi íduos sem ínculos com nenhuma o ganização e/ou en idade o mal, que
pa icipam dos a os e mobilizações ( i uais ou p esenciais) de o ma au ônoma.
São ca ac e ís icas ma can es da sua o ganização a au onomia dos sujei os, a
ausência de um cen o de lide ança e a negação das o mas adicionais de
polí ica ep esen a i a. A ase de um dos mili an es du an e a ocupação, apesa
de cu a, dá a dimensão da up u a p e endida: “Ninguém aqui que um no o
Che Gue a a” (Gue an, P., en e is a concedida aos au o es, 2014).
Há um ní ido eco e de classe: obse a-se que a maio pa e dos a i is as
são de classe média, di e en emen e dos mo imen os comuni á ios, e possuem
ensino supe io (comple o ou em andamen o). Não se es á a i mando que não há
pa icipação de pessoas de baixa enda e de lide anças comuni á ias, mas não
são necessa iamen e es as que apa ecem como as p incipais mobilizado as e
p odu o as de sen idos do mo imen o.
O Ocupe Es eli a é um ca alisado de demandas sociais e e en es ao
di ei o à cidade. O Cais José Es eli a é um símbolo da dispu a po uma
u banidade mais humana e acessí el às pessoas de di e en es classes sociais e
iden idades. Sob e a iden idade do mo imen o, um dos in eg an es do
#OcupeCom, g upo de comunicação, des aca que o Ocupe é:
“[…] Um ag egado de emá icas: LGBT, do mo imen o neg o, do
comé cio do cen o da cidade, do di ei o à mo adia popula , dos
mo imen os cul u ais. E udo isso é o almen e comp eensí el. Todas
essas ins âncias so em com o modelo de ep odução do capi al e a cidade
é o p incipal e eno do con on o com o capi al” (Pin o, L. C., en e is a
concedida aos au o es, 2014).
A ocupação do e eno oco ida no p imei o semes e de 2014 oi p o a
dis o. No dia 21 de maio, os a mazéns começa am a se demolidos. Um
publici á io a uan e no #OcupeCom, ao passa pelo local, a isa a ou os
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
adicionais pelo oligopólio exis en e, as g andes emp esas e o p óp io sis ema
polí ico.
No en an o, embo a decisi amen e a ma ca maio das ações
comunica i as se pau a pela au onomia e apidez, o que se adap a às
ca ac e ís icas das edes au omedia izadas po sujei os au ônomos nas edes
sociais i uais, as es a égias de comunicação do mo imen o não se apa am
o almen e da agenda dos mass media adicionais. Há en a i as de incu são na
pau a jo nalís ica ia assesso ia de imp ensa e, mesmo, a i idades pa a inse i a
e são do mo imen o nos comen á ios dos si es no iciosos. Es e a o e idencia
uma ce a consciência de que é p eciso o ça os meios de comunicação de
massa a abo da em o assun o, pois, pa a a ingi o g ande público, o ema em
que passa pela abo dagem con o e sa da mídia.
Nes e aspec o o mo imen o pa ece pe segui o modelo de delibe ação no
espaço público concebido como de inicia i a ex e na à es u u a de pode
(Habe mas, 1997), quando a o es da sociedade ci il, a é en ão negligenciados,
assumem um papel su p eenden emen e a i o e pleno de consequências,
o mando opinião e on ade polí ica e mobilizando a solida iedade das pessoas
na ua a pon o de o ma um pode comunica i o com na u eza ma e ial capaz
de modi ica a pos u a da adminis ação do Es ado e o ça delibe ações
legisla i as a o á eis às suas demandas, como oi is o no B asil em junho de
2013. Também no caso do Cais José Es eli a, os p o es os e a desobediência
ci il, com a ocupação da á ea, su i am alguns e ei os jun o ao Pode Público
Municipal, o qual e e que ab i canais de diálogo com o mo imen o,
suspende , ainda que empo a iamen e, a licença de demolição dos a mazéns e
p opo ao Consó cio No o Reci e uma e isão do p oje o u banís ico ocada na
mi igação dos seus impac os socioambien ais.
“O ce o é [...] que nas es e as públicas polí icas, mesmo nas que o am
mais ou menos abso idas pelo pode , as elações de o ças modi icam-se
ão logo a pe cepção de p oblemas sociais ele an es susci a uma
consciência de c ise na pe i e ia. E se nesse momen o a o es da sociedade
ci il se euni em, o mulando um ema co esponden e e o p opaga em na
es e a pública, sua inicia i a pode e sucesso po que a mobilização
endógena da es e a pública coloca em mo imen o uma lei, no malmen e
la en e, insc i a na es u u a in e na de qualque es e a pública e semp e
p esen e na au ocomp eensão no ma i a dos meios de comunicação de
massa, segundo a qual os que es ão jogando na a ena de em a sua
in luência ao assen imen o da gale ía” (Habe mas, 1997: 116).

------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
Des a manei a, os p ocessos de comunicação do mo imen o Ocupe
Es eli a apa ecem mais como es u u an es pa a uma e olução democ á ica de
luxo cen ípe a, da pe i e ia pa a o cen o, com emas especí icos ao co idiano
da cidade, do que com encaminhamen os pa a emas ge ais ela i os às polí icas
de comunicação que agua dam ap eciação pelo Cong esso Nacional, como
solução o mal de luxo cen í uga, do cen o pa a a pe i e ia.
Nes e sen ido, ambém o posicionamen o de Dewey, segundo Ramón Del
Cas illo (2004), já e idencia a que o alcance de uma comunidade de alo es,
mesmo que ainda seja po encialmen e, pode se semp e maio que o da
sociedade polí ica, pois um “g upo ou conjun o de g upos sociais pode
cons i ui ida pública, pode cons i ui -se como um cole i o mui o an es de que
seja capaz de cons i ui -se como Es ado”. Assim, Dewey já an e ia a
impo ância dos mo imen os di usos e não ins i ucionalizados pa a a mudança
social.
“Dewey no ue an i-in elec ualis a, pe o dio mucha impo ância a los
hábi os, a es uc u as de compo amen o a médio caminho en e lo
acional y lo emocional, lo delibe a i o y lo inconscien e. Em ealidade -
di á aqui em OP– la o mación de ida pública, e incluso su
es uc u ación como Es ado, no dependen p ima iamen e del diseño de
ins i uiciones, sino de una inculcación de alo es, modos de sen i y
pensa que ma quen la di e encia, incluso de un desa ollo del a e y o os
médios imagina i os que ayuden a pensa qué classe de ida se que ía
lle a , qué modos de elación social pod ían sa is ace mejo cie as
necessidades o como se pod ía da o ma a cie os deseos ela i amen e
agos. Si la democ acia enía u u o, end ía que ein en a se como eso:
como isión uni á ia de la ida, como algo que da apoyo y di ección a los
indi íduos, aunque no sea ni de o ma de ini i a ni homogénea” (Cas illo,
2004: 19).
Po e ca ac e ís icas ex emamen e mó eis e ágeis, di usas e, a é ce os
pon o aná quicas, os impac os des a condução polí ica ainda são di íceis de
p e e , mas é necessá io pe manece acompanhando seu desen ol imen o como
o ma de ans o mação de um modelo de planejamen o e ges ão do espaço
público u bano cen alizado, eli is a e au o i á io implan ado no B asil desde
1964, po ocasião do Golpe Mili a .
A in e enção polí ica de inspi ação ascis a in e ompeu um pe íodo de
uma década de adminis ações p og essis as e democ á icas da chamada “F en e
do Reci e” (1955-1964), coalisão de o ças de esque da, da qual ize am pa e
os go e nos de Pelópidas da Sil ei a e Miguel A aes, bem como do
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
Mo imen o de Cul u a Popula (MCP). Es e mo imen o, que con ou com a
pa icipação do educado Paulo F ei e e ou os in elec uais, a is as e es udan es,
com o comp omisso de con ibui pa a a mudança social e a e e i ação dos
di ei os humanos de um con ingen e de excluídos de mais da me ade da
população, desen ol eu um as o p og ama de comunicação, na época com
p og amas de ádio, isando a al abe ização e conscien ização da população
ca en e. Po an o, é possí el iden i ica nes a e e encia his ó ica do MCP
algumas ca ac e ís icas do mo imen o Ocupe Es eli a, como o en ol imen o de
in elec uais e a is as com as comunidades e associações popula es na discussão
sob e a melho u ilização do espaço u bano do Cais José Es eli a, ago a com as
possibilidades ampliadas em ace da disponibilidade de ecu sos das no as
mídias digi ais.
5. REFERÊNCIAS.
Bou dieu, P (2001). Con a ogos 2: po um mo imen o social eu opeu.
Rio de Janei o: Jo ge Zaha Edi o .
Canclini, N.G (2006). Consumido es e cidadãos: con li os mul icul u ais
da globalização. Rio de Janei o: Edi o a da UFRJ.
Ca doso, G., Espanha, R. & A aújo, V. (2009). Da comunicação de
massa à comunicação em ede. Po o: Po o Edi o a.
Cas ells, M.:
* (2009a). A sociedade em ede. São Paulo: Edi o a Paz e Te a.
* (2009b). Comunicación y pode . Mad id: Alianza Edi o ial.
* (2013). Redes de indignação e espe ança: mo imen os sociais na e a
da in e ne . Rio de Janei o: Zaha .
Cas illo, R. (2004). É ase una ez en Amé ica: John Dewey y la c isis de
la democ acia. Em: DEWEY, J. La opinión pública y sus p oblemas, pp. 11-55.
Mad id: Ediciones Mo a a.
Dewwy, J. (2004). La opinión pública y sus p oblemas. Mad id:
Ediciones Mo a a.
Doimo, A., Mi e, M. & Maia, R. (2007). Mo imen os sociais, in e ne e
no os espaços públicos: o caso do DH Ne . Em: Dias, L. C., Sil ei a, R. L. L.
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
(O g). Redes, sociedades e e i ó ios, pp. 107 – 130, 2. ed. San a C uz do Sul:
EDUNISC.
Gohn, M. G.:
* (2010). Mo imen os sociais e edes de mobilizações ci is no B asil
con empo âneo. Pe ópolis: Vozes.
* (2013). Sociologia dos mo imen os sociais: indignados, Occupy Wall
S ee , P ima e a Á abe e mobilizações no B asil. São Paulo: Co ez.
* (2014). Mani es ações de junho de 2013 no B asil e P aça dos
Indignados no Mundo. Pe ópolis: Vozes.
G1 (2013). P e ei u a não em me a de inida pa a eduzi dé ici
habi acional. Recupe ado em 24 de no emb o de 2014 de
<h p://g1.globo.com/pe nambuco/no icia/2013/08/p e ei u a-nao- em-me a-
de inida-pa a- eduzi -de ici -habi acional-do- eci e.h ml>.
Gue an, P. (2014). En e is a concedida aos au o es sob e a
pa icipação no Ocupe Es eli a.
Habe mas, J.:
* (1997). Di ei o e Democ acia: en e ac icidade e alidade. Rio de
Janei o: Tempo B asilei o.
* (2012). Teo ia do agi comunica i o: sob e a c í ica da azão
uncionalis a. São Paulo: Ma ins Fon es.
Hall, S.:
* (1999). A p odução social da no ícia. In: T aquina, N. Jo nalismo:
Ques ões, eo ias e “es ó ias”. Lisboa: Vega Edi o a.
* (2008). Da diáspo a: iden idades e mediações cul u ais. Belo
Ho izon e: Edi o a UFMG.
Ha ey, D. (2014). Cidades ebeldes: do di ei o à cidade à e olução
u bana. São Paulo: Ma ins Edi o a.
Mi anda, L. (2005). Desen ol imen o humano e habi ação no Reci e.
A las do desen ol imen o humano no Reci e [CD-ROM]. Reci e: Sec e a ia de
Planejamen o Pa icipa i o, Ob as e Desen ol imen o U bano e Ambien al.
------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 ---------
Mo aes. S. U. (2014). En e is a concedida aos au o es sob e a
pa icipação no Ocupe Es eli a.
Pinhei o, J. M. (2014). En e is a concedida aos au o es sob e a
pa icipação no Ocupe Es eli a.
Pin o, L.C. (2014). En e is a concedida aos au o es sob e a
pa icipação no Ocupe Es eli a.
T u i, M. (2014). A ba alha pelo Cais José Es eli a. Recupe ado em 23
de no emb o de 2014 de <h p://www.ca acapi al.com.b /sociedade/a-ba alha-
pelo-cais-jose-es eli a-8652.h ml>.