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Direitos em bytes: estratégias de comunicação mediadas por tecnologias para a mobilização em prol de direitos humanos

Costa Lima da Rocha, Heitor; Queiroz Lima, Nataly de

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------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- Capí ulo 44 Di ei os em by es: es a égias de comunicação mediadas po ecnologias pa a a mobilização em p ol de di ei os humanos Hei o Cos a Lima da Rocha * Na aly de Quei oz Lima ** 1. COMUNICAÇÃO E PODER: MOVIMENTOS SOCIAIS NA ERA DAS REDES. exis ência de mo imen os e mobilizações sociais é um impo an e e môme o da democ acia. Is o po que exp essam, den e ou os a o es, as possibilidades exis en es de deba e en e os cidadãos sob e as suas ealidades, e en e es es e as ins i uições do Es ado com oco na ga an ia de di ei os humanos e do bem es a comum, a uando pa a equilib a as elações de pode exis en es em um de e minado con ex o his ó ico. Tais a o es es ão in imamen e elacionados ao agi comunica i o enquan o possibilidade de ação cole i a sob e o eal (Habe mas, 2012). As o mas de in e ação en e es es sujei os são de e minan es pa a se pensa as es u u as de pode igen es na sociedade e em uma ins ância mac opolí ica pa a le a a cabo es a égias de mudança social isando a p omoção de uma ida digna e jus a pa a mulhe es e homens. “A his ó ia social ensina que não exis e polí ica social sem um mo imen o social capaz de impô-la, e que não é o me cado, como se en a con ence hoje em dia, mas sim o mo imen o social que ci ilizou a * P o eso en la Uni e sidad Fede al de Pe nambuco (UFPE), B asil, e in es igado en la Uni e sidad de Bei a In e io , Po ugal, ** P o eso a en el Cen o Uni e si a io Mau ício de Nassau, B asil, e in es igado a en la Uni e sidad Fede al de Pe nambuco (UFPE), B asil. A ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- economia de me cado, con ibuindo ao mesmo empo, eno memen e, pa a sua e iciencia” (Bou dieu, 2001: 19). Nes e con ex o, os p ocessos comunica i os es ão no ce ne das possibilidades dos cole i os sociais incidi em sob e a ealidade. Pensa as es a égias de comunicação ado adas pelos mo imen os na sociedade em ede é pa e essencial pa a en ende o sen ido polí ico das econ igu ações socioeconômicas e o p óp io signi icado do que é aze mo imen o social na a ualidade. Es á-se dian e de um cená io complexo, pa adoxal e em cons an e mudança, o que o na o es udo das elações an e io men e ci adas desa ian e e necessá io. “As no as mídias sociais, ope adas on-line, com des aque pa a a mediação da in e ne , es ão mudando a o ma das pessoas se elaciona em, ab indo acesso a on es de conhecimen o e a o mas de cons ui a democ acia, mas ambém o necem odos os elemen os pa a a cons ução de no as o mas de con ole social. Em e mos de empo his ó ico, é mui o cedo pa a a i mações apocalíp icas, celeb ando ou negando (ou igno ando) o po encial que essas mídias colocam pa a a ação humana em ge al e ação cole i a em especial” (Gohn, 2013:52). Salien a-se que o edesenho das o mas de in e ação social mediadas po ecnologias, sob e as quais nos de emos nes e es udo, são eminen emen e sociocul u ais, e não me amen e écnicos. Pa imos do p essupos o que as e amen as i uais e ecnológicas não são eden o as: são supo es es u u ados pa a a conexão en e os sujei os. Toda ia os usos e sen idos são dados pelas sociedades onde se inse em. A e a das edes sociais, como pos ula Cas ells (2013), se cons i ui em um pe íodo de eo denamen o das es u u as de pode na sociedade. É um desa io necessá io e u gen e analisa a mo ologia e as demandas polí icas dos no os mo imen os que b o am, em odo o mundo, a pa i de edes i uais e assegu am mobilizações de ua de indi íduos, na sua maio ia jo ens, se au o ep esen ando. No Reci e, 9ª cidade mais populosa do B asil, o mo imen o Ocupe Es eli a em ealizado acampamen os e ações on e o line de epe cussão in e nacional. Pa a al elenca am o Cais José Es eli a, á ea cen al e his ó ica do Reci e, como um signo da dispu a pela ges ão do espaço público de uma cidade inchada, que p i ilegia a mobilidade ealizada po ca os indi iduais em de imen o do anspo e público e i encia uma o e especulação imobiliá ia com espigões ol ados pa a a classe média, e a consequen e ma ginalização das comunidades pob es. ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- Uma das p incipais ca ac e ís icas des e modelo de sociedade é a o ganização em edes. “O nosso modelo comunicacional dominan e es á cons uído em o no: 1) da globalização da comunicação; 2) da ligação em ede dos media de massa e in e pessoais e, consequen emen e, da mediação em ede; 3) e de di e en es g aus de uso de in e a i idade” (Ca doso, Espanha & A aújo, 2009, p. 21). Segundo Cas ells, a p óp ia es u u a nodal das edes es á adap ada à dissolução dos pad ões an e io es de o ganização social: “A mo ologia da ede pa ece es a bem adap ada à c escen e complexidade de in e ação e aos modelos imp e isí eis do desen ol imen o de i ado do pode c ia i o dessa in e ação. [...] Essa lógica de edes, con udo é necessá ia pa a es u u a o não es u u ado, po ém p ese ando a lexibilidade, pois o não es u u ado é o ça mo iz da ino ação na a i idade humana” (Cas ells, 2009a: 108). As edes sociais e as pla a o mas i uais de in e ação possibili a am um eo denamen o das es u u as de pode na sociedade: ab i am espaços pa a a p odução e ep odução de con eúdos hegemônicos e con a-hegemônicos, pa a a eme gência de no os sujei os polí icos, amplia am o leque emá ico da agenda pública, inclusi e impulsionando mudanças es u u ais no jo nalismo (como o jo nalismo-cidadão) e se ap esen am como ins umen os impo an es pa a a consolidação da democ acia. Is o po que a pa icipação social, elemen o-cha e da democ acia, se cons ói na es e a pública, na capacidade de diálogo de um de e minado g upamen o humano. Os p ocessos comunica i os ei e am sua impo ância: “o pode na sociedade em ede é o pode da comunicação” (Cas ells, 2009b: 85). No cen o des a discussão, na qual Cas ells inse e a eme gência dos Mass sel communica ion (2009b) 1 e de no os sujei os p omo o es de mudanças 1 Pa a Cas ells, os Mass sel communica ion ou a au o comunicación de masas: “Es comunicación de masas po que po encialmen e puede llega a una audiencia global, co no cuando se cuelga un ídeo em YouTube, un blog con enlaces RSS a una se ie de webs o un mensaje a una lis a eno me de di ecciones de co eo elec ónico. Al mismo iempo, es au ocomunicación po que uno mismo gene a el mensaje, de ine los posibles ecep o es y selecciona los mensajes conc e os o los con enidos de la web y de las edes de comunicación elec ónica que quie e ecupe a . Las es o mas de comunicación (in e pe sonal, comunicación de masas y au ocomunicación de masas) coexis en, in e ac úan y, más que sus i ui se, se complemen an en e sí. Lo que es his ó icamen e no edoso y iene eno mes consecuencias pa a la o ganización social y el cambio cul u al es la a iculación de odas las o mas de comunicación en un hipe ex o digi al, in e ac i o y complejo que in eg a, mezcla y ecombina en su di e sidad el amplio abanico de exp esiones cul u ales p oducidas po la in e acción humana” (Cas ells, 2009b: 88). ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- sociais, as elações de pode seguem o emen e inculadas a ês en es conhecidos: o me cado, que c ia as bases ecnológicas e es u u as hegemônicas da sociedade em ede; os Es ados que as de em egula e, em alguns casos, inanciam a cons ução de ecnologias que possibili em o acesso uni e sal dos cidadãos a elas; e os cidadãos comuns que ambém podem c ia pla a o mas i uais com códigos abe os, se a icula em comunidades ainda que seus memb os não se conheçam o line, e a ua massi amen e na p odução de con eúdos in e e indo di e amen e na agenda pública, ansg edindo o monopólio da G ande Mídia sob e a isibilidade pública, embo a o sucesso de seus obje i os con inuem dependendo, em g ande medida, dos signi icados mediados pelo jo nalismo nes e espaço denominado po S ua Hall (1999) de idioma público, ago a democ a icamen e ampliado, ou menos ameaçado de ido à edução da dis o ção que a es u u a de pode sis ema icamen e exe ce pa a ba a o acesso dos indi íduos, especialmen e da pe i e ia, à discussão pública. “T adicionalmen e, a noção de es e a pública es e e associada a ambien es conc e os, ais como ca és, salões li e á ios e assembleias, nos quais as pessoas negocia am desejos, planeja am ações e ealiza am o chamado “jo nalismo li e á io”. En e an o, desde a publicação de Mudança Es u u al na Es e a Pública (g i o do au o ), o concei o em sendo e o mulado, de modo a assimila não apenas as con ibuições dos c í icos e eó icos, como ambém as ans o mações dos sis emas polí icos democ á icos e das no as ecnologías” (Doimo, Mi e & Maia, 2009: 109). Es a maio possibilidade de pa icipação cidadã na es e a pública, no en an o, ambém man ém esquícios dos pad ões es u u ais clássicos de dispa idades e pode . Nes e con ex o, es ão p esen es as p essões das emp esas ansnacionais pela des egulamen ação dos me cados mundiais e os “sis emas de comunicação que anscendem e i am de jogo a an iga es u u a do Es ado- nação” (Hall, 2008: 35). De o ma ampla, alguns au o es como Canclini (2006) ale am pa a o p ocesso de eo denamen o das di e enças sem sup essão das desigualdades, ques ionando assim as supos as possibilidades uni e sais inculadas à popula ização das TICs. A ambiguidade das ecnologias comunica i as, como ins umen o de ep odução da es u u a de pode ou como a o de emancipação de iolências simbólicas, já e a islumb ado po John Dewey há já quase um século a ás. “Hoy disponemos, como nunca lo hicimos an es, de las he amien as ísicas de la comunicación. Pe o, los pensamen os y las aspi aciones cong uen es com ellas no se comunicam y, po an o, no son comunes. ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- Sin esa comunicación el público segui á ensomb ecido e in o me, pe dido en una búsqueda espasmódica de sí mismo, pe o aba cando y sos eniendo su somb a en ez de su sus ância. Mien as la G an Sociedad no se con ie a en una G an Comunidad, el Público segui á eclipsado. Sólo la comunicación puede c ea una g an comunidade. Nues as Babel no es de lenguas, sino de unos signos y símbolos sin los cuales es imposible la expe iência compa ida” (Dewey, 2004: 134). Pa a Dewey, po an o, az-se necessá io que os mo imen os con a ac uais que se mobilizam pela mudança social ocupem espaço na maquina ia comunica i a pa a ajus á-la à sa is ação de suas necessidades e não pe manece como me o ins umen o da es u u a de pode . “No hemos hecho más que oca le emen e y de pasada las condiciones que se deben cumpli pa a que la G an Sociedad se con ie a en una G an Comunidad; una sociedade en la que las consecuencias en expansión cons an e y complejamen e ami icadas de las a i idades asociadas se conozcan en el pleno sen ido da pala a, de mane a al que su ja un Público o ganizado y a iculado. El ipo más ele ado y di ícil de in es igación jun o con un a e de la comunicación que sea ingenioso, su il, i o y pe cep i o debe án oma posesión de la maquina ia ísica de ansmisión y ci culación e insu la le ida. Así, cuando la e a mecánica haya pe eccionado su maquina ia, es a se á un médio de ida y no su amo despó ico. La democ acia alcanza á su pleno sen ido, pues democ acia es una pala a que deno a una ida de comunión li e e en iquecedo a” (Dewey, 2014: 156). O enômeno de agmen ação das consciências e iden idades de e se conside ado nes e con ex o, is o que e le e na segmen ação dos con eúdos midiá icos, bem como na c iação de uma in inidade de comunidades i uais, as quais êm a uado como eículos de comunicação p óp ios de indi íduos ou cole i os, com g aus dis in os de sazonalidade de seus pa icipan es, e de uma econ igu ação das es a égias de pa icipação polí ica dos indi íduos. Mas é inegá el as b echas exis en es nes e modelo socie á io e comunicacional, e de idamen e ocupadas po cidadãos na de esa de di ei os. “El auge de la au ocomunicación de masas, que aumen a la capacidad de que noso os, la audiencia, p oduzcamos nues os p opios mensajes, po encialmen e desa ía el con ol emp esa ial de las comunicaciones y puede cambia las elaciones de pode en la es e a de la comunicación” (Cas ells, 2009b: 542). ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- Segundo Cas ells (2013), esses no os mo imen os êm em comum ca ac e ís icas como: a) c iam comunidades de p oximidade; b) escolhem espaços ca egados de alo simbólico que ão além do p óp io a o; c) conec am cibe espaço e espaço u bano c iando um no o espaço polí ico; d) são simul aneamen e globais e locais uncionando num empo a empo al; e) êm ca ac e ís icas i ais; ) “São mo imen os p o undamen e au o e lexi os”, apesa de a amen e se em p agmá icos; g) Possuem líde es, mas esis em à ideia de lide ança adicional, ma e ializada no ideal de uma pessoa se capaz de ep esen a odo o g upo; g) p ocu am a mudança dos alo es da sociedade, ei indicando a mudança do Es ado, mas sem que e se apode a des e u ilizando as mesmas es a égias de ocupação do es ado a pa i do modelo igen e. De o ma ge al, “o que es es mo imen os sociais em ede es ão p opondo em sua p á ica é uma no a u opia no ce ne da cul u a da sociedade em ede: a u opia da au onomia do sujei o em elação às ins i uições da sociedade” (Cas ells, 2013: 170). No conjun o, as ca ac e ís icas des es no o mo imen os, além de e idencia em um p ocesso de busca po no as p á icas democ á icas, pela essigni icação dos mo imen os sociais, pa ecem e le i um no o s a us pa a a pa icipação social, no qual a comunicação em papel p eponde an e no eo denamen o das es u u as de pode , sendo o ce ne de oda a ação cole i a de mobilização e de di ulgação, ou seja, da sua p óp ia exis ência polí ica. Po isso, es e a igo, esul ado de uma pesquisa de dou o ado em andamen o, se ol a a analisa as es a égias de comunicação do #OcupeCom, g upo de comunicação do Ocupe Es eli a, du an e a ocupação de e i ó io que acon eceu en e maio e junho de 2014. Pa a al, o am en e is ados memb os do cole i o de comunicação e ealizada uma e isão bibliog á ica que con emplasse a comp eensão des e enômeno ainda ecen e. 2. DIREITO AO RECIFE: EM CENA O OCUPE ESTELITA. Reci e é um município do No des e B asilei o que exp essa bem o quad o de con adições e inchaços das g andes cidades do mundo. A capi al pe nambucana é iminen emen e u bana, possui um e i ó io de 217km², onde esidem, segundo Censo 2010 do Ins i u o B asilei o de Geog a ia e Es a ís ica (IBGE), 1.537.704 de pessoas. Em e mos de densidade demog á ica is o esul a em pouco mais de se e mil habi an es po quilome o quad ado. Es á-se alando da 3ª maio economia do No e e No des e e do 14º maio P odu o In e no B u o do país, que pa alelamen e, a pa i de um c escimen o ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- pau ado no modelo adicional de desen ol imen o, em no seu desenho u bano os aços da pe sis en e desigualdade social, apesa dos in es imen os em p og amas de ans e ência de enda e inclusão social ealizados pelas ês es e as de go e no. Os bai os mais icos, com os mais luxuosos edi ícios e com as maio es endas es ão ao lado de a elas. Segundo o Censo 2010 do IBGE, o amo da cons ução ci il é o e cei o que mais emp ega mão-de-ob a local, o que deno a um se o aquecido, mas a P e ei u a da Cidade do Reci e es ima que o dé ici habi acional es eja em o no de 70 mil esidências. Nes e caso, se abo da a ealidade de um con ingen e social que, di icilmen e, consegui ia e acesso a maio pa e das unidades esidenciais cons uídas pelo se o imobiliá io, ainda que haja p og amas de c édi o pa a a baixa enda. “No Reci e, a es ei a con i ência en e icos e pob es, ma cada nas paisagens de odos os seus bai os, e le e as o es mobilizações sociais da população de baixa enda e os mo imen os de mo adia pela pe manência na e a onde cons uí am suas comunidades. En e 1940 e 1970, esses mo imen os sociais lu a am con a as polí icas go e namen ais de es u u ação do espaço (polí icas o iciais de e adicação de mocambos, a ela e a expulsão pa a as pe i e ias). Nas úl imas décadas, a lu a ca ac e izou-se pela demanda de p o isão de in aes u u a, egula ização u banís ica e undiá ia, pa a melho a as condições de habi abilidade dos assen amen os p ecá ios onde consegui am esis i e pe manece ” (Mi anda, 2005: 07). Dos mo imen os popula es comuni á ios de i a am p opos as de polí icas públicas que assegu a am a pe manência de comunidades de baixa enda em á eas cen ais e in es imen os em melho ias es u u ais nes as localidades. T a a-se de p og amas e polí icas como a Lei de Uso e Ocupação do Solo, de 1983, que esul ou na c iação das Zonas Especiais de In e esse Social (Mi anda, 2005). Nes e sen ido, se essal a a exis ência de uma lu a his ó ica pela mo adia, po melho es condições de habi abilidade que, de o ma ge al, de i a na pau a do di ei o à cidade. Tal mo imen o inha como p incipais a o es e a izes, pessoas de baixa enda, com consequen e limi ado acesso a bens e se iços, que a pa i de laços de solida iedade man inham ações de esis ência às incu sões do capi al p i ado e dos go e nos isando a egula ização undiá ia e pe manência no local com condições dignas de ida. ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- “[…] A ideia do di ei o à cidade não su ge undamen almen e de di e en es cap ichos e modismos in elec uais (embo a eles exis am em g ande núme o, como sabemos). Su ge basicamen e das uas, dos bai os, como um g i o de soco o e ampa o de pessoas op imidas em empos de desespe o” (Ha ey, 2014: 15). A pau a do di ei o à cidade no Reci e ganhou no o ôlego em 2012 com a o mação do Ocupe Es eli a, um cole i o mo ológicamen e dis in o dos mo imen os an e io men e ci ados e conec ado com as mobilizações mundiais que a icula am milha es de pessoas a pa i de edes i uais de comunicação. O Ocupe se o ganiza a pa i da esis ência de seus mili an es ao p oje o No o Reci e - um emp eendimen o de um g upo de cons u o as que p e ende cons ui 12 o es com a é 40 anda es no Cais José Es eli a em uma p opos a que des oa do en o no his ó ico, com seus casa ios cen ená ios, bem como da ealidade das comunidades izinhas de baixa enda e que, segundo alguns especialis as c í icos da p opos a, pode aze impac os ambien ais nega i os à Bacia do Pina, um dos p incipais es uá ios da capi al pe nambucana. O Cais ambém é uma á ea es a égica pa a o capi al imobiliá io, pela sua localização, is o que es á no cen o da cidade, em um dos p incipais echos his ó ico e u ís ico, e p óximo do bai o de Boa Viagem, um dos mais nob es do município. Vale salien a que o Cais José Es eli a se cons i ui em um conjun o de a mazéns de açúca – legado da explo ação da cana-de-açúca no No des e – que es a am abandonados e um pá io e o iá io, o alizando mais de 100 mil m² de á ea. O e eno es a a sob posse da an iga Rede Fe o iá ia Fede al (RFFSA). A sua comp a, de aco do com lide anças do Ocupe Es eli a e ações mo idas pelo Minis é io Público Fede al (MPF), es á ce cada de i egula idades ju ídicas, como a ausência de es udos de impac o local das ob as e a p óp ia ansação de enda da p op iedade. “Não são poucos os p oblemas do p oje o No o Reci e. De aco do com o MPF, o p imei o deles é que o leilão da á ea nunca pode ia e sido ei o. Isso po que oda ez que a União ai ende uma p op iedade pública é necessá io consul a ou os ó gãos públicos que e en ualmen e enham in e esse na á ea. O Ins i u o do Pa imônio His ó ico e A ís ico Nacional (Iphan) de Pe nambuco ha ia mani es ado on ade de se esponsabiliza pela á ea, mas mesmo assim o leilão oco eu e só o Consó cio No o Reci e se mos ou in e essado no Cais José Es eli a. Nenhuma ou a emp esa apa eceu pa a dispu a a comp a da á ea. Com isso, o g upo imobiliá io pagou o alo mínimo es ipulado pelo go e no ede al pa a a p op iedade. Como desembolsou 55 milhões de eais po pouco mais de ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- 100 mil me os quad ados, o Consó cio No o Reci e pagou pouco menos de 500 eais pelo me o quad ado. Isso em uma das capi ais b asilei as mais ca as pa a se mo a no País. De aco do com índice Fipe/Zap (Fundação Ins i u o de Pesquisas Econômicas/Zap Imó eis), que acompanha os p eços dos imó eis à enda anunciados na in e ne , o p eço médio do me o quad ado na capi al pe nambucana é de 5.673 eais” (T u i, 2014). O Ocupe Es eli a se cons i ui em um mo imen o não ins i ucionalizado, onde se a iculam ep esen ações de o ganizações da sociedade ci il, de pa idos polí icos, de ó uns, de edes mo imen alis as, mas p incipalmen e de indi íduos sem ínculos com nenhuma o ganização e/ou en idade o mal, que pa icipam dos a os e mobilizações ( i uais ou p esenciais) de o ma au ônoma. São ca ac e ís icas ma can es da sua o ganização a au onomia dos sujei os, a ausência de um cen o de lide ança e a negação das o mas adicionais de polí ica ep esen a i a. A ase de um dos mili an es du an e a ocupação, apesa de cu a, dá a dimensão da up u a p e endida: “Ninguém aqui que um no o Che Gue a a” (Gue an, P., en e is a concedida aos au o es, 2014). Há um ní ido eco e de classe: obse a-se que a maio pa e dos a i is as são de classe média, di e en emen e dos mo imen os comuni á ios, e possuem ensino supe io (comple o ou em andamen o). Não se es á a i mando que não há pa icipação de pessoas de baixa enda e de lide anças comuni á ias, mas não são necessa iamen e es as que apa ecem como as p incipais mobilizado as e p odu o as de sen idos do mo imen o. O Ocupe Es eli a é um ca alisado de demandas sociais e e en es ao di ei o à cidade. O Cais José Es eli a é um símbolo da dispu a po uma u banidade mais humana e acessí el às pessoas de di e en es classes sociais e iden idades. Sob e a iden idade do mo imen o, um dos in eg an es do #OcupeCom, g upo de comunicação, des aca que o Ocupe é: “[…] Um ag egado de emá icas: LGBT, do mo imen o neg o, do comé cio do cen o da cidade, do di ei o à mo adia popula , dos mo imen os cul u ais. E udo isso é o almen e comp eensí el. Todas essas ins âncias so em com o modelo de ep odução do capi al e a cidade é o p incipal e eno do con on o com o capi al” (Pin o, L. C., en e is a concedida aos au o es, 2014). A ocupação do e eno oco ida no p imei o semes e de 2014 oi p o a dis o. No dia 21 de maio, os a mazéns começa am a se demolidos. Um publici á io a uan e no #OcupeCom, ao passa pelo local, a isa a ou os ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- adicionais pelo oligopólio exis en e, as g andes emp esas e o p óp io sis ema polí ico. No en an o, embo a decisi amen e a ma ca maio das ações comunica i as se pau a pela au onomia e apidez, o que se adap a às ca ac e ís icas das edes au omedia izadas po sujei os au ônomos nas edes sociais i uais, as es a égias de comunicação do mo imen o não se apa am o almen e da agenda dos mass media adicionais. Há en a i as de incu são na pau a jo nalís ica ia assesso ia de imp ensa e, mesmo, a i idades pa a inse i a e são do mo imen o nos comen á ios dos si es no iciosos. Es e a o e idencia uma ce a consciência de que é p eciso o ça os meios de comunicação de massa a abo da em o assun o, pois, pa a a ingi o g ande público, o ema em que passa pela abo dagem con o e sa da mídia. Nes e aspec o o mo imen o pa ece pe segui o modelo de delibe ação no espaço público concebido como de inicia i a ex e na à es u u a de pode (Habe mas, 1997), quando a o es da sociedade ci il, a é en ão negligenciados, assumem um papel su p eenden emen e a i o e pleno de consequências, o mando opinião e on ade polí ica e mobilizando a solida iedade das pessoas na ua a pon o de o ma um pode comunica i o com na u eza ma e ial capaz de modi ica a pos u a da adminis ação do Es ado e o ça delibe ações legisla i as a o á eis às suas demandas, como oi is o no B asil em junho de 2013. Também no caso do Cais José Es eli a, os p o es os e a desobediência ci il, com a ocupação da á ea, su i am alguns e ei os jun o ao Pode Público Municipal, o qual e e que ab i canais de diálogo com o mo imen o, suspende , ainda que empo a iamen e, a licença de demolição dos a mazéns e p opo ao Consó cio No o Reci e uma e isão do p oje o u banís ico ocada na mi igação dos seus impac os socioambien ais. “O ce o é [...] que nas es e as públicas polí icas, mesmo nas que o am mais ou menos abso idas pelo pode , as elações de o ças modi icam-se ão logo a pe cepção de p oblemas sociais ele an es susci a uma consciência de c ise na pe i e ia. E se nesse momen o a o es da sociedade ci il se euni em, o mulando um ema co esponden e e o p opaga em na es e a pública, sua inicia i a pode e sucesso po que a mobilização endógena da es e a pública coloca em mo imen o uma lei, no malmen e la en e, insc i a na es u u a in e na de qualque es e a pública e semp e p esen e na au ocomp eensão no ma i a dos meios de comunicação de massa, segundo a qual os que es ão jogando na a ena de em a sua in luência ao assen imen o da gale ía” (Habe mas, 1997: 116). ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- Des a manei a, os p ocessos de comunicação do mo imen o Ocupe Es eli a apa ecem mais como es u u an es pa a uma e olução democ á ica de luxo cen ípe a, da pe i e ia pa a o cen o, com emas especí icos ao co idiano da cidade, do que com encaminhamen os pa a emas ge ais ela i os às polí icas de comunicação que agua dam ap eciação pelo Cong esso Nacional, como solução o mal de luxo cen í uga, do cen o pa a a pe i e ia. Nes e sen ido, ambém o posicionamen o de Dewey, segundo Ramón Del Cas illo (2004), já e idencia a que o alcance de uma comunidade de alo es, mesmo que ainda seja po encialmen e, pode se semp e maio que o da sociedade polí ica, pois um “g upo ou conjun o de g upos sociais pode cons i ui ida pública, pode cons i ui -se como um cole i o mui o an es de que seja capaz de cons i ui -se como Es ado”. Assim, Dewey já an e ia a impo ância dos mo imen os di usos e não ins i ucionalizados pa a a mudança social. “Dewey no ue an i-in elec ualis a, pe o dio mucha impo ância a los hábi os, a es uc u as de compo amen o a médio caminho en e lo acional y lo emocional, lo delibe a i o y lo inconscien e. Em ealidade - di á aqui em OP– la o mación de ida pública, e incluso su es uc u ación como Es ado, no dependen p ima iamen e del diseño de ins i uiciones, sino de una inculcación de alo es, modos de sen i y pensa que ma quen la di e encia, incluso de un desa ollo del a e y o os médios imagina i os que ayuden a pensa qué classe de ida se que ía lle a , qué modos de elación social pod ían sa is ace mejo cie as necessidades o como se pod ía da o ma a cie os deseos ela i amen e agos. Si la democ acia enía u u o, end ía que ein en a se como eso: como isión uni á ia de la ida, como algo que da apoyo y di ección a los indi íduos, aunque no sea ni de o ma de ini i a ni homogénea” (Cas illo, 2004: 19). Po e ca ac e ís icas ex emamen e mó eis e ágeis, di usas e, a é ce os pon o aná quicas, os impac os des a condução polí ica ainda são di íceis de p e e , mas é necessá io pe manece acompanhando seu desen ol imen o como o ma de ans o mação de um modelo de planejamen o e ges ão do espaço público u bano cen alizado, eli is a e au o i á io implan ado no B asil desde 1964, po ocasião do Golpe Mili a . A in e enção polí ica de inspi ação ascis a in e ompeu um pe íodo de uma década de adminis ações p og essis as e democ á icas da chamada “F en e do Reci e” (1955-1964), coalisão de o ças de esque da, da qual ize am pa e os go e nos de Pelópidas da Sil ei a e Miguel A aes, bem como do ------------------------------------------------------------------ Capí ulo 44. Págs. 636 a 655 --------- Mo imen o de Cul u a Popula (MCP). Es e mo imen o, que con ou com a pa icipação do educado Paulo F ei e e ou os in elec uais, a is as e es udan es, com o comp omisso de con ibui pa a a mudança social e a e e i ação dos di ei os humanos de um con ingen e de excluídos de mais da me ade da população, desen ol eu um as o p og ama de comunicação, na época com p og amas de ádio, isando a al abe ização e conscien ização da população ca en e. Po an o, é possí el iden i ica nes a e e encia his ó ica do MCP algumas ca ac e ís icas do mo imen o Ocupe Es eli a, como o en ol imen o de in elec uais e a is as com as comunidades e associações popula es na discussão sob e a melho u ilização do espaço u bano do Cais José Es eli a, ago a com as possibilidades ampliadas em ace da disponibilidade de ecu sos das no as mídias digi ais. 5. REFERÊNCIAS. Bou dieu, P (2001). Con a ogos 2: po um mo imen o social eu opeu. Rio de Janei o: Jo ge Zaha Edi o . Canclini, N.G (2006). Consumido es e cidadãos: con li os mul icul u ais da globalização. 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