Nº 60 | PRIMAVERA 2023
ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733
10.12795/Ambi os.2023.i60.07
134-148
Ap oximações do Jo nalismo Ambien al com o
pensamen o de Paulo F ei e
App oxima ions o En i onmen al Jou nalism wi h Paulo F ei e’s hough
Ilza Ma ia Tou inho Gi a di
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Cláudia He e de Mo aes
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Eloisa Beling Loose
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Débo a Gallas S eiglede
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Recepción: 19/10/2022 · Acep ación: 01/03/2023 · Publicación: 15/04/2023
Resumo
Es e ex o ap esen a e lexão sob e as ap oximações exis en es en e os p essupos os que undamen am a
pe spec i a do Jo nalismo Ambien al e o pensamen o do educado e ilóso o Paulo F ei e, cujo nascimen o
comple ou 100 anos em 2021. Pa a an o, ealiza pesquisa bibliog á ica pa a comp eende a a inidade das ideias do
in elec ual b asilei o com aspec os epis emológicos que o ien am es a p á ica jo nalís ica de o ma especí ica, como
a esponsabilidade com a mudança de pensamen o, a ên ase na con ex ualização das in o mações e a plu alidade
de ozes consul adas pa a a cobe u a jo nalís ica. Nesse sen ido, obse a-se uma in e ace a pa i da c í ica à
colonialidade e do des aque dado à dialogicidade, à alo ização da expe iência, à emancipação e à libe ação dos
sujei os. Tais elemen os, undamen ais na ob a do au o , ambém sus en am o Jo nalismo Ambien al, jo nalismo
o ien ado pa a a cidadania plane á ia. Tais pon os de con e gência e o çam o comp omisso do Jo nalismo
Ambien al com a mudança pa adigmá ica de pensamen o, sob e udo no que ange à elação sociedade-na u eza,
alo izando o diálogo de sabe es e sus en ando a c í ica decolonial na p odução de in o mações quali icadas que
possam emancipa os cidadãos. Conclui que a pe spec i a dialógica ei iana pode con ibui pa a a p á ica do
Jo nalismo Ambien al, uma ez que a eo ia que a undamen a de ende a ansição pa a um mundo de p o eção
ambien al e jus iça social.
Pala as-cha e: Jo nalismo Ambien al, es udos decoloniais, Paulo F ei e, dialogicidade, pesquisa bibliog á ica.
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIEN Al coM o PENSAMEN o dE PAulo FREIRE
Ilza Ma ia ou inho Gi a di / cláudia He e de Mo aes / Eloisa beling loose / débo a Gallas S eiglede
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Abs ac
This a icle e lec s on he app oxima ions be ween he assump ions ha cons i u e he pe spec i e o En i onmen al
Jou nalism and Paulo F ei e’s hough , who u ned 100 in 2021. Fo his, i ca ies ou bibliog aphical esea ch o
unde s and he a ini y o Paulo F ei e’s ideas wi h epis emological aspec s ha guide his jou nalis ic p ac ice in a
speci ic way, such as he esponsibili y o he change in hinking, he emphasis on con ex ualizing in o ma ion and
he plu ali y o oices consul ed o jou nalis ic co e age. In his sense, i obse es he adhe ence o he c i ique o
coloniali y in he La in Ame ican con ex , and he emphasis gi en o dialogici y, o he app ecia ion o expe ience,
and o emancipa ion and libe a ion, undamen al elemen s in he au ho ’s wo k. Such poin s o con e gence ein o ce
En i onmen al Jou nalism’s commi men o a pa adigm change in hinking, especially wi h ega d o he socie y-
na u e ela ionship, aluing he dialogue o knowledge and sus aining decolonial c i icism in he p oduc ion o quali ied
in o ma ion ha can emancipa e ci izens. I concludes ha F ei e’s dialogic pe spec i e can con ibu e o he p ac ice
o En i onmen al Jou nalism, since i s heo y de ends he ansi ion o a wo ld o en i onmen al p o ec ion and social
jus ice.
Keywo ds: En i onmen al Jou nalism, decolonial s udies, Paulo F ei e, dialogici y, bibliog aphy esea ch.
1. In odução
Em 1964, com o golpe mili a no B asil, Paulo F ei e oi p eso e em seguida buscou asilo polí ico
no Chile. Lá oi con idado a abalha em um p oje o de al abe ização de jo ens e adul os, podendo
ape eiçoa o que es a a azendo no B asil, con o me lemb a na ob a “Pedagogia da Espe ança -
um eencon o com a Pedagogia do Op imido” (F ei e, 1992). Em ac éscimo, F ei e elabo ou uma
p opos a me odológica pa a esol e o p oblema de comunicação en e ag ônomos ex ensionis as
e camponeses, já que o go e no de Sal ado Allende es a a in e essado em inc emen a a p odução
ag ícola no país, que passa a pelo p ocesso de e o ma ag á ia.
Pa a esse p oje o, Paulo F ei e esc e eu uma de suas ob as mais impo an es e que in luenciou os
es udos de Comunicação, con ibuindo com a mudança de pe spec i a da Escola La ino-Ame icana
de Comunicação. “Ex ensão ou Comunicação?”, publicada em 1969 (F ei e, 2011a), az uma c í ica
ao modelo de ex ensão u al da época que, seguindo as o igens dos Es ados Unidos, a a a os
camponeses como se ossem se es igno an es incapazes do diálogo, simples eposi ó ios e obje os
da polí ica de ex ensão u al.
A isão ex ensionis a conside a a que o ag icul o não inha conhecimen o sob e o seu abalho,
desconhecia as écnicas de plan io e p ecisa a se ensinado. Eles não e am comp eendidos pelos
écnicos e nem inham opo unidade de diálogo. Os ag icul o es inham eceio ou julga am não
sabe dialoga com o “dou o ”, pois pela ideologia es a am con encidos de sua igno ância. Já os
ex ensionis as ap endiam na uni e sidade ou na pós-g aduação ei a nos Es ados Unidos que esse
e a o p ocedimen o co e o. Não ha ia ques ionamen o.
Recupe amos esse episódio da i ência e e lexão de Paulo F ei e pa a essal a aspec os que são
ca os na discussão sob e o Jo nalismo Ambien al: a c í ica ao pensamen o único (ou hegemônico)
e a necessidade de plu aliza a cobe u a e ou i o ou o a im de pe mi i o cump imen o de suas
unções in o ma i a, pedagógica e polí ica (Bueno, 2007), e, consequen emen e, subsidia decisões
ace adas po pa e dos cidadãos.
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIEN Al coM o PENSAMEN o dE PAulo FREIRE
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A e lexão aqui emp eendida se elaciona com a adap ação das ideias de F ei e ao campo jo nalís ico
p opos as po au o es como Hochheime (1992) e Medi sch (2003). Com base na posição de F ei e
sob e o jo nalismo, Medi sch (2003, p.30) apon a a necessidade de um mé odo de “ape eiçoamen o
da p á ica eal em condições limi adas”, aludindo à con adição en e o obje i o come cial da mídia
hegemônica (e iden e sob e udo no elejo nalismo, segundo F ei e) e a concepção de jo nalismo
enquan o o ma de conhecimen o pa a a ans o mação da ealidade. Já Hochheime (1992) adap a
os p essupos os de F ei e no ensino de u u os jo nalis as, essal ando a abo dagem dialógica, a im
de o nece uma isão c í ica e pe mi i que eles possam ans o ma a mídia.
A elação en e jo nalismo e pensamen o ei iano ambém é a ada po Oli ei a (2017), que se
deb uça sob e a emancipação como elemen o cen al pa a uma p áxis jo nalís ica. Po an o, cien e
dos apo es an e io es, es e abalho almeja ap o unda as con ibuições de F ei e na á ea de
Jo nalismo Ambien al.
Es e ex o, de ca á e analí ico- e lexi o, em como obje i o ge al e i ica pon os comuns exis en es
en e o pensamen o de Paulo F ei e e os p essupos os desen ol idos na á ea do Jo nalismo Ambien al
(Loose y Gi a di, 2017, Gi a die al., 2020). Tais p essupos os o am cons uídos no diálogo a pa i
de au o es do campo Ambien al (e.g. Cap a, 1996; Hannigan, 1997; Le , 2001; Shi a, 2003; Po o-
Gonçal es, 2006) com aqueles que se deb uçam sob e a cobe u a jo nalís ica de meio ambien e
(e.g.F ome, 1998; Fe nández Reyes, 2004; Bueno, 2007; Gi a die al., 2012). São eles:
1. Ên ase na con ex ualização – a expec a i a de supe a a agmen ação e a descon inuidade;
des aque pa a uma con ex ualização ampla, p o unda e c í ica ( ecendo elações de causas e
consequências) e a pe spec i a sis êmica.
2. Plu alidade de ozes – as no ícias de e iam ep esen a a plu alidade de ozes que es ão
en ol idas com a ques ão, inclusi e aqueles que não de êm legi imidade cien í ica, emp esa ial
ou polí ica.
3. Assimilação do sabe ambien al – a comp eensão dis o p opõe no os alo es e uma no a
consciência.
4. Cobe u a p óxima à ealidade do lei o – aze as ques ões ambien ais pa a pe o do co idiano
dos lei o es e in e conexão en e as escalas.
5. Comp ome imen o com a quali icação da in o mação – en ol e engajamen o e mili ância como
a i udes c í icas em de esa da sus en abilidade da ida.
6. Responsabilidade com a mudança de pensamen o – o Jo nalismo Ambien al assume seu papel de
con ibui pa a muda o pensamen o.
7. Inco po ação do p incípio da p ecaução – amplia o empo de ação do jo nalismo, o ien ando-o pa a
o u u o na en a i a de ale a e e i a consequências nega i as (Gi a die al., 2020, p. 284-285).
O concei o de Jo nalismo Ambien al, segundo Gi a die al. (2012), não se e e e a cobe u as sob e
meio ambien e. T a a-se de uma pe spec i a ans e sal, capaz de c uza as mais di e sas pau as e
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emá icas pa a e idencia a complexidade dos enômenos sociais. O Jo nalismo Ambien al é, en ão,
um olha sob e a ealidade, baseado na omada de consciência ecológica. Imbuído de al consciência,
o sujei o mobiliza-se, de o ma o gânica e au ônoma e com base no diálogo, na inco po ação de
a i udes ecológicas. Po an o, ambém dialoga com a educação ambien al de o ien ação c í ica,
desc i a po Ca alho (2017).
A a és do p essupos o da mudança de pensamen o, o Jo nalismo Ambien al assume a unção
pedagógica p e is a po Bueno (2007) ao pe mi i que a sociedade enha acesso a olha es sob e a
ealidade pa a além do pensamen o hegemônico, ompendo com o enômeno desc i o po Shi a (2003)
como monocul u a da men e e ap imo ando sua consciência social e ecológica, con o me incen i a
a isão holís ica de Cap a (1996). Na p á ica jo nalís ica, esse comp ome imen o com a educação
pode se cons a ado na ealização de epo agens con ex ualizadas que alo izam a di e sidade de
pensamen os e expe iências, segundo Gi a die al. (2021). As au o as ealiza am busca de a igos sob e
Jo nalismo Ambien al elacionados ao p essupos o da mudança de pensamen o disponí eis em bases
de dados abe as1 e publicados em po uguês e espanhol, ecupe ando cinco abalhos que expõem
a a inidade epis emológica en e Jo nalismo Ambien al e educação ambien al. Conscien ização,
mudança social e c iação de uma cul u a ambien al são e mos-cha e que se sob essaem na li e a u a
analisada e undamen am essa elação en e ambas as á eas (Gi a die al., 2021).
As escolhas me odológicas des e abalho pa em de uma abo dagem quali a i a, p eocupando-se
com a comp eensão dos enômenos que são obje o de es udo (Minayo, 1994). O mo imen o de análise
ealizado explo ou aspec os comuns en e os p essupos os do Jo nalismo Ambien al já ap esen ados
e as ob as de F ei e.
U ilizamos discussões eó icas já abalhadas po ou os pesquisado es (S ump , 2010), sendo es a
a an agem da pesquisa bibliog á ica, pois o acesso aos dados se dá em on es secundá ias, que
o am analisadas a pa i do obje i o p incipal do a igo: comp eende os pon os de c uzamen o dos
pos ulados de F ei e com a p á ica jo nalís ica mais plu al, comp ome ida e c í ica, ol ados pa a
uma ou a conexão da humanidade com a na u eza, p e is a pelos es udos de Jo nalismo Ambien al.
Pa a an o, ado amos p ocedimen os de iden i icação de ex os de F ei e e de Jo nalismo Ambien al
pa a, na sequência, ealiza lei u as ol adas pa a a de ecção de pon os de con e gência.
O Jo nalismo Ambien al pa e de uma con es ação do sis ema hegemônico es abelecido, que eduz
meio ambien e a ecu so econômico, p io iza as ozes es abelecidas e quase não c i ica nosso modelo
de desen ol imen o, o s a us quo, des a o ma a o ecendo a manu enção do discu so capi alis a,
colonialis a, explo ado . Assim como o pensamen o de F ei e, os p essupos os eó icos do Jo nalismo
Ambien al assumem uma posição dian e dos segmen os da sociedade op imidos, em especí ico no
comp ome imen o com a quali icação da in o mação, de manei a a incen i a a au onomia dos sujei os
que acessam essas p oduções jo nalís icas. Dessa o ma, o Jo nalismo Ambien al pode con ibui
pa a a emancipação daqueles que não cos umam se ou idos pelo sis ema dominan e. Aliás, além da
cons ução de uma p á ica jo nalís ica comp ome ida com as demandas e olha es dos op imidos, são
necessá ios sis emas que assegu em a pa icipação do público nos p ocessos comunicacionais, que
seguem em dispu a em nossa sociedade, sendo o jo nalismo um deles. De o ma semelhan e ao que
1 A busca oi ealizada nas bases Po al de Pe iódicos da Capes, Dialne , SciELO e La index e e o nou a igos publicados en e
2007 e 2020.
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F ei e p opõe no campo da Educação, p oblema izamos as pe spec i as e ep esen ações azidas
con inuamen e pelo Jo nalismo, isando à emancipação social. Há no âmago da discussão sob e o
Jo nalismo Ambien al uma sé ie de elemen os que são o iundos do legado de F ei e, ainda que isso
não seja explíci o, especialmen e quan o à ampliação de sabe es e conexões, en ando se a as a de
uma isão não agmen ada da ealidade, ípica do que conhecemos po jo nalismo hegemônico/
adicional/mains eam. Também o Jo nalismo Ambien al es á o emen e guiado pa a se um
jo nalismo “ ans o mado , mobilizado e p omo o de deba e po meio de in o mações quali icadas
e em p ol de uma sus en abilidade plena” (Gi a die al., 2012, p. 148).
Tendo em con a as possibilidades de a iculação en e o pensamen o de Paulo F ei e e o Jo nalismo
Ambien al, após lei u as compa a i as dos ex os encon ados, azemos uma e lexão eó ica
baseada em qua o eixos: c í ica à colonialidade, dialogicidade, ap endizagem a a és da expe iência
e emancipação e libe ação.
2. C í ica à colonialidade
A c í ica à ques ão colonial é algo p esen e na ob a de Paulo F ei e, mesmo que esse concei o não enha
sido explici amen e exp esso em seus ex os. Ao de ende uma pedagogia a pa i dos op imidos e
indica caminhos pa a a ans o mação da ealidade, F ei e con es a a colonialidade es u u an e da
acionalidade mode na ociden al. Con o me Sousa San os (2022, p.18), “a colonialidade é a ideia de
que udo que di e e da isão eu ocên ica do mundo é in e io , ma ginal, i ele an e ou pe igoso”.
Es e olha nega e subjuga o que é di e en e.
Os es udos com oco na c í ica colonial su gem em di e en es luga es, a pa i dos anos 19502.
Na Amé ica La ina, des aca-se o p oje o chamado Mode nidad/Colonialidad, que possui o e
diálogo com as discussões do pós-colonialismo, dos es udos subal e nos e com a pe spec i a de
sis ema-mundo, desen ol ida po Immanuel Walle s ein, que ques iona a base his ó ico-cul u al
e epis emológica da mode nidade (Alimonda, 2011) e a desumanização deco en e do pensamen o
único homogeneizan e. Es e p oje o eme ge nos anos 1990 e “analisa o legado i o do colonialismo”
(Sousa San os, 2022, p.22), e i icando que as es u u as de se , sabe e pode de i adas do
colonialismo his ó ico pe manecem in eg adas às o dens sociais con empo âneas.
O geóg a o b asilei o Ca los Wal e Po o-Gonçal es (2006) des aca que a mode nização su ge a
pa i da colonização, apon ando a “descobe a” da Amé ica como a o decisi o pa a consolidação
da hegemonia eu opeia. O que oco eu nesse pe íodo his ó ico delimi ado, no qual hou e explo ação
em múl iplas dimensões, pe sis e com ou as oupagens a é hoje, aca e ando dis ibuição desigual
de p o ei os e ejei os, e elações sociais pe meadas po lógicas op essi as. A colonialidade é a
he ança do p ocesso de colonização, um modo de man e as assime ias e lógicas de exe cício de
pode a pa i da in e io ização ou negação do Ou o. Mesmo após a saída dos colonizado es dos
e i ó ios in adidos, hou e a eo ganização das es u u as de op essão po meio do que é chamado
2 Sousa San os (2022) apon a que as ês abo dagens p incipais são o pós-colonialismo, que su ge nos anos 1960 deco en es
das independências polí icas das colônias eu opeias na Ásia e Á ica, o decolonialismo, uma con aposição às p á icas que ma -
cam a colonialidade que eme ge da Amé ica La ina, e as epis emologias do Sul, desen ol idas a pa i dos anos 2000 mo i adas
pela expe iência do Fó um Social Mundial.
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de “colonialismo in e no”, de modo que a e e ência eu ocên ica seguiu dema cando a di e ença
colonial (Mignolo, 2005).
Paulo F ei e, ao p opo o mas pedagógicas libe ado as, não apenas e le ia sob e o que az
pe du a a colonialidade, mas ambém ap esen a a al e na i as ou mecanismos pa a se libe a
desse p ocesso (Lou ei o, 2020). Em “Pedagogia do Op imido” (2019), o educado con oca a busca
de exis ência e humanização daqueles que his o icamen e o am subo dinados po con a de classe
social, gêne o ou aça. Já em “Ex ensão ou Comunicação?” (F ei e, 2011a), o au o discu e o concei o
de ex ensão, apon ando que o camponês não é is o como sujei o, mas como obje o de um plano de
desen ol imen o, no qual se ia um depósi o dos conhecimen os chamados mode nos, igno ando os
sabe es ap eendidos po meio das p á icas expe imen adas no campo.
Ao a ança sob e a o ma como a ex ensão é aplicada, sem espaço pa a o diálogo, F ei e a a de
uma das ca ac e ís icas p óp ias da eo ia an idialógica, que nada mais é que uma o ma de man e a
colonialidade: a in asão cul u al.
Toda in asão suge e, ob iamen e, um sujei o que in ade. Seu espaço his ó ico-cul u al, que
lhe dá sua isão de mundo, é o espaço de onde ele pa e pa a pene a ou o espaço his ó ico-
cul u al, supe pondo aos indi íduos des e seu sis ema de alo es.
O in aso eduz os homens do espaço in adido a me os obje os de sua ação.
As elações en e in aso e in adido, que são elações au o i á ias, si uam seus polos em
posições an agônicas. (F ei e, 2011a, p. 48-49)
A in asão cul u al é uma p á ica eco en e dos p ocessos coloniais, já que há uma negação e
in e io ização do Ou o a im de que o colonizado /in aso possa alcança seus obje i os. Enquan o os
colonizados/in adidos são silenciados, os in aso es inculcam seu modo de pe cebe o mundo, a pa i
de seus con ex os, desca ac e izando suas o mas de ida. Não há possibilidade de ocas, de pa ilhas.
“O in aso p esc e e; os in adidos são pacien es na p esc ição”, a i ma F ei e (2011a, p. 49).
Nesse p ocesso, as es u u as sociais se o nam undamen ais. A implemen ação do pensamen o único
e da desumanização ou subal e nidade oco e a pa i de um con ex o amplo. Mecanismos polí icos,
econômicos, sociais e cul u ais são acionados simul aneamen e a im de eduzi a plu alidade de
sabe es ao que Shi a (2003) chama de “monocul u as da men e”. Isso ica explíci o quando F ei e
(2011a) apon a que a ecusa ao diálogo passa a se um e lexo dessa colonialidade, na qual há uma
pa cela da população que nunca é conside ada e já es á, em alguma medida, condicionada à op essão
pe sis en e. Ao menciona que mui os camponeses não se si ua am em condição de con e sa
com os ag ônomos de en o es dos conhecimen os cien í icos, o educado essal a o papel das
mac oes u u as, como é o caso do la i úndio nesse caso.
O la i úndio, como es u u a e ical e echada, é, em si mesmo, an idialógico. Sendo uma
es u u a echada que obs aculiza a mobilidade social e ical ascenden e, o la i úndio implica
uma hie a quia de camadas sociais em que os es a os mais “baixos” são conside ados, eg a
ge al, como na u almen e in e io es. Pa a que es es sejam assim conside ados, é p eciso que
haja ou os que des a o ma os conside em, ao mesmo empo que se conside am a si mesmos
como supe io es. A es u u a la i undis a, de ca á e colonial, p opo ciona ao possuido da
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e a, pela o ça e p es ígio que em, a ex ensão de sua posse ambém a é os homens. (Shi a,
2003, p. 59)
Des a o ma, quando F ei e p opõe uma pedagogia a pa i dos op imidos, ele ambém es á
p opo cionando insumos pa a ompe com a colonialidade que se man ém, mesmo após o
ence amen o das a i idades nos e i ó ios que o am ans o mados em colônias. Tais ques ões
podem se ampli icadas po meio do jo nalismo que se p opõe se emancipa ó io, como de ende
Oli ei a (2017). Pa a ele, os mecanismos de op essão, que pe passam uma cul u a de silêncio, são
he ança do colonialismo, sendo o jo nalismo um espaço possí el pa a se cons ui um pensamen o
c í ico e de supe ação da na u alização desses mecanismos.
3. Dialogicidade
A dialogicidade, base do pensamen o de Paulo F ei e, é ambém a essência da democ acia. Seu po encial
al amen e e olucioná io, po que ques iona e p o oca ompimen o nas elações de dominação, o na
o pensado ão emido e comba ido po aqueles que êm medo das elações dialógicas e da libe dade
de pensamen o. Numa sociedade democ á ica, o diálogo é bem- indo, pois pe mi e aos indi íduos
indaga em, da em azão à sua cu iosidade, enxe ga em o ou o, oca em pe cepções e cons uí em
algo no o.
As elações dialógicas são undamen ais no p ocesso de ap endizagem, pois c iam o espaço de
libe dade pa a que o indi íduo supe e as elações subal e nas e assuma o p o agonismo de sua
his ó ia. O diálogo é um p ocesso dialé ico p oblema izado , pois pe mi e “olha o mundo e a
nossa exis ência em sociedade como p ocesso, algo em cons ução, como ealidade inacabada e em
cons an e ans o mação” (Zi koski, 2010, p. 117).
A ob a Ex ensão ou Comunicação? sub e eu o sis ema de c enças dominan e, con o me des aca
Bel án (2011). Pa a Paulo F ei e, o modelo de ex ensão e a a p óp ia in asão cul u al, pois consis ia
na c ença de que o conhecimen o é uma p e oga i a exclusi a dos ex ensionis as, que abalha am
na homogeneização das p á icas ag ícolas em nome da écnica e da ciência. Nes e sen ido, o sabe dos
camponeses sob e suas elações e seu e i ó io e a desconside ado.
O homem, como um se de elações, cons ói o conhecimen o a a és do diálogo, ca ego ia que
pe passa oda ob a de F ei e. Pela dialogicidade se ia possí el ence a cul u a do silêncio que pelo
modelo colonizado , c ia uma ba ei a que impede o ques ionamen o da sociedade de classes e da
es u u a undiá ia (F ei e, 2011a).
Pa a Paulo F ei e não bas a aze a e o ma ag á ia ou desen ol e polí icas de al abe ização de jo ens
e adul os se não hou e uma e olução na educação, no modo de cons ui o conhecimen o. A lei u a
da pala a de e ia possibili a a lei u a da pala a mundo e isso se da ia a a és da comunicação, cuja
essência é a elação dialógica.
A comunicação, pelo con á io, implica uma ecip ocidade que não pode se ompida. Po isso,
não é possí el comp eende o pensamen o o a de sua dupla unção: cognosci i a e comunica i a.
Es a unção, po sua ez, não é a ex ensão do con eúdo signi ican e do signi icado, obje o do
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Ilza Ma ia ou inho Gi a di / cláudia He e de Mo aes / Eloisa beling loose / débo a Gallas S eiglede
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10.12795/Ambi os.2023.i60.07 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733
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pensa e do conhece . Comunica é comunica -se em o no do signi icado signi ican e. Des a
o ma, na comunicação, não há sujei os passi os. Os sujei os coin encionados ao obje o de seu
pensa comunicam seu con eúdo. O que ca ac e iza a comunicação enquan o es e comunica
comunicando-se é que ela é diálogo, assim como o diálogo é comunica i o. Em elação
dialógica-comunica i a, os sujei os in e locu o es se exp essam, como já imos, a a és de um
mesmo sis ema de signos linguís icos. É en ão indispensá el ao a o comunica i o, pa a que
es e seja e icien e, o aco do en e os sujei os, ecip ocamen e comunican es. Is o é, a exp essão
e bal de um dos sujei os em que se pe cebida den o de um quad o signi ica i o comum ao
ou o sujei o. (F ei e, 2011a. p. 88-89)
Ao ap esen a o li o Educação e Mudança, Moaci Gado i (1979, p. 12) ad e e que o diálogo em
Paulo F ei e não é um diálogo ingênuo. Pa a o au o , na sociedade de classes não há diálogo. Es e
pode oco e no in e io das escolas, das uni e sidades, em pequenos g upos, mas não na sociedade
mais ampla. Pa a ele, o diálogo não exclui o con li o, sob pena de se um diálogo ingênuo.
O diálogo de que nos ala Paulo F ei e não é o diálogo omân ico en e op imidos e op esso es,
mas o diálogo en e os op imidos pa a a supe ação da sua condição de op imidos. Esse diálogo
supõe e se comple a, ao mesmo empo, na o ganização de classe, na lu a comum con a o
op esso , po an o no con li o. (Gado i, 1979, p. 12)
A ad e ência de Gado i é necessá ia po que pe mi e que se comp eenda que a elação dialógica,
que possibili a a au o-libe ação do op imido, pe mi e ambém que o educado ou o ex ensionis a
libe e-se de sua isão conse ado a e passe a a ua pa a a cons ução de uma sociedade com jus iça
social. Pa a isso, a polí ica educacional de e con empla a o mação de p o issionais capazes de
comp eende a impo ância do diálogo na sua elação com os cidadãos. Ao conhece sua ealidade, o
homem pode ans o ma o mundo pa a que seja jus o pa a odos.
A comp eensão da impo ância da dialogicidade es abelece a cen alidade da educação em odas as
a i idades ou p o issões que econhecem sua dimensão educa i a, que é o caso do p óp io Jo nalismo
Ambien al. Es e, a a és de sua p á ica, não neu a, compa ilha sabe es e con ex os, quando
con empla a di e sidade de ozes, disponibilizando in o mações com po encial pa a desencadea
p ocessos dialógicos ão ca os pa a que os cidadãos se libe em da igno ância. Lemb amos que o
Jo nalismo é conside ado uma o ma de conhecimen o, e que, con o me Medi sch (2003), inspi ando-
se em Paulo F ei e, al sabe não pode se ansmi ido.
O Jo nalismo não apenas ep oduz o conhecimen o que ele p óp io p oduz, ep oduz
ambém o conhecimen o p oduzido po ou as ins i uições sociais. A hipó ese de que oco a
uma e-p odução do conhecimen o, mais complexa do que a sua simples ansmissão, ajuda
a en ende melho o papel do Jo nalismo no p ocesso de cognição social. (Medi sch, 2003,
p.22, g i o do au o )
Es e p ocesso pe mi e ao público econs ui a in o mação a pa i de esquemas de in e p e ação e
de in o mações p é ias sob e o ema. O Jo nalismo Ambien al ambém az esse mo imen o, pois,
pela sua p á ica engajada em busca da mudança de um pensamen o colonizado/colonizado pa a um
pensamen o emancipado/emancipado , alo iza a con ex ualização e o diálogo de sabe es endo em
is a a mudança de pe cepção e a i ude dos se es humanos em elação à na u eza.
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4. Ap endizagem a a és da expe iência
A educação au ên ica, segundo F ei e (2019b), é baseada na p áxis, p ocesso em que a e lexão e a
ação ans o mado a sob e a ealidade se e oalimen am. Educa -se a a és da expe iência, nes e
p ocesso, é undamen al, mas é p eciso consciência sob e a expe iência pa a se descob i sujei o do
mundo. Em seu discu so de posse como sec e á io de Educação da P e ei u a de São Paulo, em 1989,
F ei e e idenciou es a elação:
Es ou o almen e con encido pela p óp ia p á ica a que eu me enho dado du an e odos esses
anos, que a melho o ma que a gen e em de se in e i num p ocesso pe manen e de o mação
é pensa a p á ica que a gen e em, é comp eende a p á ica da gen e inse ida numa p á ica
maio , descob i pensando sob e a p á ica da gen e, dis anciando-nos da p á ica da gen e,
obje i ando a p á ica da gen e, omando-a nas mãos e descob indo a eo ia embu ida nela.
(F ei e, 2019b, p. 51)
Em “Pedagogia do Op imido”, F ei e elaciona a p áxis libe ado a com as condições de exis ência
humana. A consciência op esso a, po sua ez, co esponde a uma isão nec ó ila do mundo, segundo
o au o . “Na medida em que, pa a domina , se es o çam po de e a ânsia de busca, a inquie ação, o
pode de c ia , que ca ac e izam a ida, os op esso es ma am a ida” (F ei e, 2019b, p. 65).
É possí el dize que o Jo nalismo Ambien al compa ilha dessa pe cepção, uma ez que, con o me
Gi a di (2018, p. 20), ap esen a uma pe spec i a engajada, que em como ho izon e “[...] de ende a
biodi e sidade e a ida em sua pleni ude, o que signi ica deixa de se impa cial; assumi seu papel
educa i o, cidadão e ans o mado ”. En endemos, po an o, o Jo nalismo Ambien al enquan o
p áxis que se ap oxima da p opos a pedagógica ei iana po de ende a inse ção c í ica na ealidade
– ealidade es a ma cada po p ocessos de deg adação e de explo ação e i icados na elação en e
sociedade e na u eza.
O Jo nalismo Ambien al lo esce em con ex os mais p opensos à e lexão sob e as ques ões
ambien ais, essal a Belmon e (2020). A pe cepção sob e os iscos globais da eme gência climá ica
con ibui pa a o p ocesso de ambien alização da sociedade - ou seja, pa a a sensibilização dos sujei os
dian e das ensões que en ol em a elação sociedade-na u eza.
Assim, exp essa -se a a és do Jo nalismo Ambien al signi ica con empla possibilidades de
abo dagem dos enômenos que êm p oximidade com a i ência dos sujei os e que eme em à
expe iência especí ica de comunidades in isibilizadas pela explo ação que ca ac e iza a colonialidade.
Ao pensa mos na unção pedagógica do Jo nalismo Ambien al pos ulada po Bueno (2007), podemos
dize que es á alinhada, po an o, com a p emissa da “poli icidade da educação” p e is a po F ei e
(2019a) pa a explica a inexis ência de neu alidade nas isões de mundo a se em comunicadas.
5. Emancipação e libe ação
O pensamen o de Paulo F ei e é undado da co en e da educação c í ica, que conside a a educação
como po encial ans o mado da sociedade. Nosso obje i o é ap oxima es e pensamen o aos
p essupos os do Jo nalismo Ambien al (Gi a die al., 2021; Loose y Gi a di, 2017). Também aqui já