Nº 60 | PRIMAVERA 2023 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 10.12795/Ambitos.2023.i60.07 134-148 Aproximações do Jornalismo Ambiental com o pensamento de Paulo Freire Approximations of Environmental Journalism with Paulo Freire’s thought Ilza Maria Tourinho Girardi Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Rua Ramiro Barcelos, 2777, 90035-007, Porto Alegre | Brasil 0000-0001-8766-7139 ·
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[email protected] Recepción: 19/10/2022 · Aceptación: 01/03/2023 · Publicación: 15/04/2023 Resumo Este texto apresenta reflexão sobre as aproximações existentes entre os pressupostos que fundamentam a perspectiva do Jornalismo Ambiental e o pensamento do educador e filósofo Paulo Freire, cujo nascimento completou 100 anos em 2021. Para tanto, realiza pesquisa bibliográfica para compreender a afinidade das ideias do intelectual brasileiro com aspectos epistemológicos que orientam esta prática jornalística de forma específica, como a responsabilidade com a mudança de pensamento, a ênfase na contextualização das informações e a pluralidade de vozes consultadas para a cobertura jornalística. Nesse sentido, observa-se uma interface a partir da crítica à colonialidade e do destaque dado à dialogicidade, à valorização da experiência, à emancipação e à libertação dos sujeitos. Tais elementos, fundamentais na obra do autor, também sustentam o Jornalismo Ambiental, jornalismo orientado para a cidadania planetária. Tais pontos de convergência reforçam o compromisso do Jornalismo Ambiental com a mudança paradigmática de pensamento, sobretudo no que tange à relação sociedade-natureza, valorizando o diálogo de saberes e sustentando a crítica decolonial na produção de informações qualificadas que possam emancipar os cidadãos. Conclui que a perspectiva dialógica freiriana pode contribuir para a prática do Jornalismo Ambiental, uma vez que a teoria que a fundamenta defende a transição para um mundo de proteção ambiental e justiça social. Palavras-chave: Jornalismo Ambiental, estudos decoloniais, Paulo Freire, dialogicidade, pesquisa bibliográfica.
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIENtAl coM o PENSAMENto dE PAulo FREIRE Ilza Maria tourinho Girardi / cláudia Herte de Moraes / Eloisa beling loose / débora Gallas Steigleder 135 ÁMbItoS. REVIStA INtERNAcIoNAl dE coMuNIcAcIÓN · Nº 60 · PRIMAVERA 2023 10.12795/Ambitos.2023.i60.07 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 134-148 Abstract This article reflects on the approximations between the assumptions that constitute the perspective of Environmental Journalism and Paulo Freire’s thought, who turned 100 in 2021. For this, it carries out bibliographical research to understand the affinity of Paulo Freire’s ideas with epistemological aspects that guide this journalistic practice in a specific way, such as the responsibility for the change in thinking, the emphasis on contextualizing information and the plurality of voices consulted for journalistic coverage. In this sense, it observes the adherence to the critique of coloniality in the Latin American context, and the emphasis given to dialogicity, to the appreciation of experience, and to emancipation and liberation, fundamental elements in the author’s work. Such points of convergence reinforce Environmental Journalism’s commitment to a paradigm change in thinking, especially with regard to the societynature relationship, valuing the dialogue of knowledge and sustaining decolonial criticism in the production of qualified information that can emancipate citizens. It concludes that Freire’s dialogic perspective can contribute to the practice of Environmental Journalism, since its theory defends the transition to a world of environmental protection and social justice. Keywords: Environmental Journalism, decolonial studies, Paulo Freire, dialogicity, bibliography research. 1. Introdução Em 1964, com o golpe militar no Brasil, Paulo Freire foi preso e em seguida buscou asilo político no Chile. Lá foi convidado a trabalhar em um projeto de alfabetização de jovens e adultos, podendo aperfeiçoar o que estava fazendo no Brasil, conforme lembra na obra “Pedagogia da Esperança - um reencontro com a Pedagogia do Oprimido” (Freire, 1992). Em acréscimo, Freire elaborou uma proposta metodológica para resolver o problema de comunicação entre agrônomos extensionistas e camponeses, já que o governo de Salvador Allende estava interessado em incrementar a produção agrícola no país, que passava pelo processo de reforma agrária. Para esse projeto, Paulo Freire escreveu uma de suas obras mais importantes e que influenciou os estudos de Comunicação, contribuindo com a mudança de perspectiva da Escola Latino-Americana de Comunicação. “Extensão ou Comunicação?”, publicada em 1969 (Freire, 2011a), faz uma crítica ao modelo de extensão rural da época que, seguindo as origens dos Estados Unidos, tratava os camponeses como se fossem seres ignorantes incapazes do diálogo, simples repositórios e objetos da política de extensão rural. A visão extensionista considerava que o agricultor não tinha conhecimento sobre o seu trabalho, desconhecia as técnicas de plantio e precisava ser ensinado. Eles não eram compreendidos pelos técnicos e nem tinham oportunidade de diálogo. Os agricultores tinham receio ou julgavam não saber dialogar com o “doutor”, pois pela ideologia estavam convencidos de sua ignorância. Já os extensionistas aprendiam na universidade ou na pós-graduação feita nos Estados Unidos que esse era o procedimento correto. Não havia questionamento. Recuperamos esse episódio da vivência e reflexão de Paulo Freire para ressaltar aspectos que são caros na discussão sobre o Jornalismo Ambiental: a crítica ao pensamento único (ou hegemônico) e a necessidade de pluralizar a cobertura e ouvir o outro a fim de permitir o cumprimento de suas funções informativa, pedagógica e política (Bueno, 2007), e, consequentemente, subsidiar decisões acertadas por parte dos cidadãos.
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIENtAl coM o PENSAMENto dE PAulo FREIRE Ilza Maria tourinho Girardi / cláudia Herte de Moraes / Eloisa beling loose / débora Gallas Steigleder 136 ÁMbItoS. REVIStA INtERNAcIoNAl dE coMuNIcAcIÓN · Nº 60 · PRIMAVERA 2023 10.12795/Ambitos.2023.i60.07 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 134-148 A reflexão aqui empreendida se relaciona com a adaptação das ideias de Freire ao campo jornalístico propostas por autores como Hochheimer (1992) e Meditsch (2003). Com base na posição de Freire sobre o jornalismo, Meditsch (2003, p.30) aponta a necessidade de um método de “aperfeiçoamento da prática real em condições limitadas”, aludindo à contradição entre o objetivo comercial da mídia hegemônica (evidente sobretudo no telejornalismo, segundo Freire) e a concepção de jornalismo enquanto forma de conhecimento para a transformação da realidade. Já Hochheimer (1992) adapta os pressupostos de Freire no ensino de futuros jornalistas, ressaltando a abordagem dialógica, a fim de fornecer uma visão crítica e permitir que eles possam transformar a mídia. A relação entre jornalismo e pensamento freiriano também é tratada por Oliveira (2017), que se debruça sobre a emancipação como elemento central para uma práxis jornalística. Portanto, ciente dos aportes anteriores, este trabalho almeja aprofundar as contribuições de Freire na área de Jornalismo Ambiental. Este texto, de caráter analítico-reflexivo, tem como objetivo geral verificar pontos comuns existentes entre o pensamento de Paulo Freire e os pressupostos desenvolvidos na área do Jornalismo Ambiental (Loose y Girardi, 2017, Girardietal., 2020). Tais pressupostos foram construídos no diálogo a partir de autores do campo Ambiental (e.g. Capra, 1996; Hannigan, 1997; Leff, 2001; Shiva, 2003; PortoGonçalves, 2006) com aqueles que se debruçam sobre a cobertura jornalística de meio ambiente (e.g.Frome, 1998; Fernández Reyes, 2004; Bueno, 2007; Girardietal., 2012). São eles: 1. Ênfase na contextualização – a expectativa de superar a fragmentação e a descontinuidade; destaque para uma contextualização ampla, profunda e crítica (tecendo relações de causas e consequências) e a perspectiva sistêmica. 2. Pluralidade de vozes – as notícias deveriam representar a pluralidade de vozes que estão envolvidas com a questão, inclusive aqueles que não detêm legitimidade científica, empresarial ou política. 3. Assimilação do saber ambiental – a compreensão disto propõe novos valores e uma nova consciência. 4. Cobertura próxima à realidade do leitor – trazer as questões ambientais para perto do cotidiano dos leitores e interconexão entre as escalas. 5. Comprometimento com a qualificação da informação – envolve engajamento e militância como atitudes críticas em defesa da sustentabilidade da vida. 6. Responsabilidade com a mudança de pensamento – o Jornalismo Ambiental assume seu papel de contribuir para mudar o pensamento. 7. Incorporação do princípio da precaução – amplia o tempo de ação do jornalismo, orientando-o para o futuro na tentativa de alertar e evitar consequências negativas (Girardietal., 2020, p. 284-285). O conceito de Jornalismo Ambiental, segundo Girardietal. (2012), não se refere a coberturas sobre meio ambiente. Trata-se de uma perspectiva transversal, capaz de cruzar as mais diversas pautas e
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIENtAl coM o PENSAMENto dE PAulo FREIRE Ilza Maria tourinho Girardi / cláudia Herte de Moraes / Eloisa beling loose / débora Gallas Steigleder 137 ÁMbItoS. REVIStA INtERNAcIoNAl dE coMuNIcAcIÓN · Nº 60 · PRIMAVERA 2023 10.12795/Ambitos.2023.i60.07 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 134-148 temáticas para evidenciar a complexidade dos fenômenos sociais. O Jornalismo Ambiental é, então, um olhar sobre a realidade, baseado na tomada de consciência ecológica. Imbuído de tal consciência, o sujeito mobiliza-se, de forma orgânica e autônoma e com base no diálogo, na incorporação de atitudes ecológicas. Portanto, também dialoga com a educação ambiental de orientação crítica, descrita por Carvalho (2017). Através do pressuposto da mudança de pensamento, o Jornalismo Ambiental assume a função pedagógica prevista por Bueno (2007) ao permitir que a sociedade tenha acesso a olhares sobre a realidade para além do pensamento hegemônico, rompendo com o fenômeno descrito por Shiva (2003) como monocultura da mente e aprimorando sua consciência social e ecológica, conforme incentiva a visão holística de Capra (1996). Na prática jornalística, esse comprometimento com a educação pode ser constatado na realização de reportagens contextualizadas que valorizam a diversidade de pensamentos e experiências, segundo Girardietal. (2021). As autoras realizaram busca de artigos sobre Jornalismo Ambiental relacionados ao pressuposto da mudança de pensamento disponíveis em bases de dados abertas1 e publicados em português e espanhol, recuperando cinco trabalhos que expõem a afinidade epistemológica entre Jornalismo Ambiental e educação ambiental. Conscientização, mudança social e criação de uma cultura ambiental são termos-chave que se sobressaem na literatura analisada e fundamentam essa relação entre ambas as áreas (Girardietal., 2021). As escolhas metodológicas deste trabalho partem de uma abordagem qualitativa, preocupando-se com a compreensão dos fenômenos que são objeto de estudo (Minayo, 1994). O movimento de análise realizado explorou aspectos comuns entre os pressupostos do Jornalismo Ambiental já apresentados e as obras de Freire. Utilizamos discussões teóricas já trabalhadas por outros pesquisadores (Stumpf, 2010), sendo esta a vantagem da pesquisa bibliográfica, pois o acesso aos dados se dá em fontes secundárias, que foram analisadas a partir do objetivo principal do artigo: compreender os pontos de cruzamento dos postulados de Freire com a prática jornalística mais plural, comprometida e crítica, voltados para uma outra conexão da humanidade com a natureza, prevista pelos estudos de Jornalismo Ambiental. Para tanto, adotamos procedimentos de identificação de textos de Freire e de Jornalismo Ambiental para, na sequência, realizar leituras voltadas para a detecção de pontos de convergência. O Jornalismo Ambiental parte de uma contestação do sistema hegemônico estabelecido, que reduz meio ambiente a recurso econômico, prioriza as vozes estabelecidas e quase não critica nosso modelo de desenvolvimento, o status quo, desta forma favorecendo a manutenção do discurso capitalista, colonialista, explorador. Assim como o pensamento de Freire, os pressupostos teóricos do Jornalismo Ambiental assumem uma posição diante dos segmentos da sociedade oprimidos, em específico no comprometimento com a qualificação da informação, de maneira a incentivar a autonomia dos sujeitos que acessam essas produções jornalísticas. Dessa forma, o Jornalismo Ambiental pode contribuir para a emancipação daqueles que não costumam ser ouvidos pelo sistema dominante. Aliás, além da construção de uma prática jornalística comprometida com as demandas e olhares dos oprimidos, são necessários sistemas que assegurem a participação do público nos processos comunicacionais, que seguem em disputa em nossa sociedade, sendo o jornalismo um deles. De forma semelhante ao que 1 A busca foi realizada nas bases Portal de Periódicos da Capes, Dialnet, SciELO e Latindex e retornou artigos publicados entre 2007 e 2020.
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIENtAl coM o PENSAMENto dE PAulo FREIRE Ilza Maria tourinho Girardi / cláudia Herte de Moraes / Eloisa beling loose / débora Gallas Steigleder 138 ÁMbItoS. REVIStA INtERNAcIoNAl dE coMuNIcAcIÓN · Nº 60 · PRIMAVERA 2023 10.12795/Ambitos.2023.i60.07 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 134-148 Freire propõe no campo da Educação, problematizamos as perspectivas e representações trazidas continuamente pelo Jornalismo, visando à emancipação social. Há no âmago da discussão sobre o Jornalismo Ambiental uma série de elementos que são oriundos do legado de Freire, ainda que isso não seja explícito, especialmente quanto à ampliação de saberes e conexões, tentando se afastar de uma visão não fragmentada da realidade, típica do que conhecemos por jornalismo hegemônico/ tradicional/mainstream. Também o Jornalismo Ambiental está fortemente guiado para ser um jornalismo “transformador, mobilizador e promotor de debate por meio de informações qualificadas e em prol de uma sustentabilidade plena” (Girardietal., 2012, p. 148). Tendo em conta as possibilidades de articulação entre o pensamento de Paulo Freire e o Jornalismo Ambiental, após leituras comparativas dos textos encontrados, trazemos uma reflexão teórica baseada em quatro eixos: crítica à colonialidade, dialogicidade, aprendizagem através da experiência e emancipação e libertação. 2. Crítica à colonialidade A crítica à questão colonial é algo presente na obra de Paulo Freire, mesmo que esse conceito não tenha sido explicitamente expresso em seus textos. Ao defender uma pedagogia a partir dos oprimidos e indicar caminhos para a transformação da realidade, Freire contesta a colonialidade estruturante da racionalidade moderna ocidental. Conforme Sousa Santos (2022, p.18), “a colonialidade é a ideia de que tudo que difere da visão eurocêntrica do mundo é inferior, marginal, irrelevante ou perigoso”. Este olhar nega e subjuga o que é diferente. Os estudos com foco na crítica colonial surgem em diferentes lugares, a partir dos anos 19502. Na América Latina, destaca-se o projeto chamado Modernidad/Colonialidad, que possui forte diálogo com as discussões do pós-colonialismo, dos estudos subalternos e com a perspectiva de sistema-mundo, desenvolvida por Immanuel Wallerstein, que questiona a base histórico-cultural e epistemológica da modernidade (Alimonda, 2011) e a desumanização decorrente do pensamento único homogeneizante. Este projeto emerge nos anos 1990 e “analisa o legado vivo do colonialismo” (Sousa Santos, 2022, p.22), verificando que as estruturas de ser, saber e poder derivadas do colonialismo histórico permanecem integradas às ordens sociais contemporâneas. O geógrafo brasileiro Carlos Walter Porto-Gonçalves (2006) destaca que a modernização surge a partir da colonização, apontando a “descoberta” da América como fator decisivo para consolidação da hegemonia europeia. O que ocorreu nesse período histórico delimitado, no qual houve exploração em múltiplas dimensões, persiste com outras roupagens até hoje, acarretando distribuição desigual de proveitos e rejeitos, e relações sociais permeadas por lógicas opressivas. A colonialidade é a herança do processo de colonização, um modo de manter as assimetrias e lógicas de exercício de poder a partir da inferiorização ou negação do Outro. Mesmo após a saída dos colonizadores dos territórios invadidos, houve a reorganização das estruturas de opressão por meio do que é chamado 2 Sousa Santos (2022) aponta que as três abordagens principais são o pós-colonialismo, que surge nos anos 1960 decorrentes das independências políticas das colônias europeias na Ásia e África, o decolonialismo, uma contraposição às práticas que marcam a colonialidade que emerge da América Latina, e as epistemologias do Sul, desenvolvidas a partir dos anos 2000 motivadas pela experiência do Fórum Social Mundial.
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIENtAl coM o PENSAMENto dE PAulo FREIRE Ilza Maria tourinho Girardi / cláudia Herte de Moraes / Eloisa beling loose / débora Gallas Steigleder 139 ÁMbItoS. REVIStA INtERNAcIoNAl dE coMuNIcAcIÓN · Nº 60 · PRIMAVERA 2023 10.12795/Ambitos.2023.i60.07 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 134-148 de “colonialismo interno”, de modo que a referência eurocêntrica seguiu demarcando a diferença colonial (Mignolo, 2005). Paulo Freire, ao propor formas pedagógicas libertadoras, não apenas refletia sobre o que faz perdurar a colonialidade, mas também apresentava alternativas ou mecanismos para se libertar desse processo (Loureiro, 2020). Em “Pedagogia do Oprimido” (2019), o educador convoca a busca de existência e humanização daqueles que historicamente foram subordinados por conta de classe social, gênero ou raça. Já em “Extensão ou Comunicação?” (Freire, 2011a), o autor discute o conceito de extensão, apontando que o camponês não é visto como sujeito, mas como objeto de um plano de desenvolvimento, no qual seria um depósito dos conhecimentos chamados modernos, ignorando os saberes apreendidos por meio das práticas experimentadas no campo. Ao avançar sobre a forma como a extensão é aplicada, sem espaço para o diálogo, Freire trata de uma das características próprias da teoria antidialógica, que nada mais é que uma forma de manter a colonialidade: a invasão cultural. Toda invasão sugere, obviamente, um sujeito que invade. Seu espaço histórico-cultural, que lhe dá sua visão de mundo, é o espaço de onde ele parte para penetrar outro espaço históricocultural, superpondo aos indivíduos deste seu sistema de valores. O invasor reduz os homens do espaço invadido a meros objetos de sua ação. As relações entre invasor e invadido, que são relações autoritárias, situam seus polos em posições antagônicas. (Freire, 2011a, p. 48-49) A invasão cultural é uma prática recorrente dos processos coloniais, já que há uma negação e inferiorização do Outro a fim de que o colonizador/invasor possa alcançar seus objetivos. Enquanto os colonizados/invadidos são silenciados, os invasores inculcam seu modo de perceber o mundo, a partir de seus contextos, descaracterizando suas formas de vida. Não há possibilidade de trocas, de partilhas. “O invasor prescreve; os invadidos são pacientes na prescrição”, afirma Freire (2011a, p. 49). Nesse processo, as estruturas sociais se tornam fundamentais. A implementação do pensamento único e da desumanização ou subalternidade ocorre a partir de um contexto amplo. Mecanismos políticos, econômicos, sociais e culturais são acionados simultaneamente a fim de reduzir a pluralidade de saberes ao que Shiva (2003) chama de “monoculturas da mente”. Isso fica explícito quando Freire (2011a) aponta que a recusa ao diálogo passa a ser um reflexo dessa colonialidade, na qual há uma parcela da população que nunca é considerada e já está, em alguma medida, condicionada à opressão persistente. Ao mencionar que muitos camponeses não se situavam em condição de conversar com os agrônomos detentores dos conhecimentos científicos, o educador ressalta o papel das macroestruturas, como é o caso do latifúndio nesse caso. O latifúndio, como estrutura vertical e fechada, é, em si mesmo, antidialógico. Sendo uma estrutura fechada que obstaculiza a mobilidade social vertical ascendente, o latifúndio implica uma hierarquia de camadas sociais em que os estratos mais “baixos” são considerados, regra geral, como naturalmente inferiores. Para que estes sejam assim considerados, é preciso que haja outros que desta forma os considerem, ao mesmo tempo que se consideram a si mesmos como superiores. A estrutura latifundista, de caráter colonial, proporciona ao possuidor da
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIENtAl coM o PENSAMENto dE PAulo FREIRE Ilza Maria tourinho Girardi / cláudia Herte de Moraes / Eloisa beling loose / débora Gallas Steigleder 140 ÁMbItoS. REVIStA INtERNAcIoNAl dE coMuNIcAcIÓN · Nº 60 · PRIMAVERA 2023 10.12795/Ambitos.2023.i60.07 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 134-148 terra, pela força e prestígio que tem, a extensão de sua posse também até os homens. (Shiva, 2003, p. 59) Desta forma, quando Freire propõe uma pedagogia a partir dos oprimidos, ele também está proporcionando insumos para romper com a colonialidade que se mantém, mesmo após o encerramento das atividades nos territórios que foram transformados em colônias. Tais questões podem ser amplificadas por meio do jornalismo que se propõe ser emancipatório, como defende Oliveira (2017). Para ele, os mecanismos de opressão, que perpassam uma cultura de silêncio, são herança do colonialismo, sendo o jornalismo um espaço possível para se construir um pensamento crítico e de superação da naturalização desses mecanismos. 3. Dialogicidade A dialogicidade, base do pensamento de Paulo Freire, é também a essência da democracia. Seu potencial altamente revolucionário, porque questiona e provoca rompimento nas relações de dominação, torna o pensador tão temido e combatido por aqueles que têm medo das relações dialógicas e da liberdade de pensamento. Numa sociedade democrática, o diálogo é bem-vindo, pois permite aos indivíduos indagarem, darem vazão à sua curiosidade, enxergarem o outro, trocarem percepções e construírem algo novo. As relações dialógicas são fundamentais no processo de aprendizagem, pois criam o espaço de liberdade para que o indivíduo supere as relações subalternas e assuma o protagonismo de sua história. O diálogo é um processo dialético problematizador, pois permite “olhar o mundo e a nossa existência em sociedade como processo, algo em construção, como realidade inacabada e em constante transformação” (Zitkoski, 2010, p. 117). A obra Extensão ou Comunicação? subverteu o sistema de crenças dominante, conforme destaca Beltrán (2011). Para Paulo Freire, o modelo de extensão era a própria invasão cultural, pois consistia na crença de que o conhecimento é uma prerrogativa exclusiva dos extensionistas, que trabalhavam na homogeneização das práticas agrícolas em nome da técnica e da ciência. Neste sentido, o saber dos camponeses sobre suas relações e seu território era desconsiderado. O homem, como um ser de relações, constrói o conhecimento através do diálogo, categoria que perpassa toda obra de Freire. Pela dialogicidade seria possível vencer a cultura do silêncio que pelo modelo colonizador, cria uma barreira que impede o questionamento da sociedade de classes e da estrutura fundiária (Freire, 2011a). Para Paulo Freire não basta fazer a reforma agrária ou desenvolver políticas de alfabetização de jovens e adultos se não houver uma revolução na educação, no modo de construir o conhecimento. A leitura da palavra deveria possibilitar a leitura da palavra mundo e isso se daria através da comunicação, cuja essência é a relação dialógica. A comunicação, pelo contrário, implica uma reciprocidade que não pode ser rompida. Por isso, não é possível compreender o pensamento fora de sua dupla função: cognoscitiva e comunicativa. Esta função, por sua vez, não é a extensão do conteúdo significante do significado, objeto do
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIENtAl coM o PENSAMENto dE PAulo FREIRE Ilza Maria tourinho Girardi / cláudia Herte de Moraes / Eloisa beling loose / débora Gallas Steigleder 141 ÁMbItoS. REVIStA INtERNAcIoNAl dE coMuNIcAcIÓN · Nº 60 · PRIMAVERA 2023 10.12795/Ambitos.2023.i60.07 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 134-148 pensar e do conhecer. Comunicar é comunicar-se em torno do significado significante. Desta forma, na comunicação, não há sujeitos passivos. Os sujeitos cointencionados ao objeto de seu pensar comunicam seu conteúdo. O que caracteriza a comunicação enquanto este comunicar comunicando-se é que ela é diálogo, assim como o diálogo é comunicativo. Em relação dialógica-comunicativa, os sujeitos interlocutores se expressam, como já vimos, através de um mesmo sistema de signos linguísticos. É então indispensável ao ato comunicativo, para que este seja eficiente, o acordo entre os sujeitos, reciprocamente comunicantes. Isto é, a expressão verbal de um dos sujeitos tem que ser percebida dentro de um quadro significativo comum ao outro sujeito. (Freire, 2011a. p. 88-89) Ao apresentar o livro Educação e Mudança, Moacir Gadotti (1979, p. 12) adverte que o diálogo em Paulo Freire não é um diálogo ingênuo. Para o autor, na sociedade de classes não há diálogo. Este pode ocorrer no interior das escolas, das universidades, em pequenos grupos, mas não na sociedade mais ampla. Para ele, o diálogo não exclui o conflito, sob pena de ser um diálogo ingênuo. O diálogo de que nos fala Paulo Freire não é o diálogo romântico entre oprimidos e opressores, mas o diálogo entre os oprimidos para a superação da sua condição de oprimidos. Esse diálogo supõe e se completa, ao mesmo tempo, na organização de classe, na luta comum contra o opressor, portanto no conflito. (Gadotti, 1979, p. 12) A advertência de Gadotti é necessária porque permite que se compreenda que a relação dialógica, que possibilita a auto-libertação do oprimido, permite também que o educador ou o extensionista liberte-se de sua visão conservadora e passe a atuar para a construção de uma sociedade com justiça social. Para isso, a política educacional deve contemplar a formação de profissionais capazes de compreender a importância do diálogo na sua relação com os cidadãos. Ao conhecer sua realidade, o homem pode transformar o mundo para que seja justo para todos. A compreensão da importância da dialogicidade restabelece a centralidade da educação em todas as atividades ou profissões que reconhecem sua dimensão educativa, que é o caso do próprio Jornalismo Ambiental. Este, através de sua prática, não neutra, compartilha saberes e contextos, quando contempla a diversidade de vozes, disponibilizando informações com potencial para desencadear processos dialógicos tão caros para que os cidadãos se libertem da ignorância. Lembramos que o Jornalismo é considerado uma forma de conhecimento, e que, conforme Meditsch (2003), inspirandose em Paulo Freire, tal saber não pode ser transmitido. O Jornalismo não apenas reproduz o conhecimento que ele próprio produz, reproduz também o conhecimento produzido por outras instituições sociais. A hipótese de que ocorra uma re-produção do conhecimento, mais complexa do que a sua simples transmissão, ajuda a entender melhor o papel do Jornalismo no processo de cognição social. (Meditsch, 2003, p.22, grifo do autor) Este processo permite ao público reconstruir a informação a partir de esquemas de interpretação e de informações prévias sobre o tema. O Jornalismo Ambiental também faz esse movimento, pois, pela sua prática engajada em busca da mudança de um pensamento colonizado/colonizador para um pensamento emancipado/emancipador, valoriza a contextualização e o diálogo de saberes tendo em vista a mudança de percepção e atitude dos seres humanos em relação à natureza.
APRoxIMAçõES do JoRNAlISMo AMbIENtAl coM o PENSAMENto dE PAulo FREIRE Ilza Maria tourinho Girardi / cláudia Herte de Moraes / Eloisa beling loose / débora Gallas Steigleder 142 ÁMbItoS. REVIStA INtERNAcIoNAl dE coMuNIcAcIÓN · Nº 60 · PRIMAVERA 2023 10.12795/Ambitos.2023.i60.07 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 134-148 4. Aprendizagem através da experiência A educação autêntica, segundo Freire (2019b), é baseada na práxis, processo em que a reflexão e a ação transformadora sobre a realidade se retroalimentam. Educar-se através da experiência, neste processo, é fundamental, mas é preciso consciência sobre a experiência para se descobrir sujeito do mundo. Em seu discurso de posse como secretário de Educação da Prefeitura de São Paulo, em 1989, Freire evidenciou esta relação: Estou totalmente convencido pela própria prática a que eu me tenho dado durante todos esses anos, que a melhor forma que a gente tem de se inferir num processo permanente de formação é pensar a prática que a gente tem, é compreender a prática da gente inserida numa prática maior, descobrir pensando sobre a prática da gente, distanciando-nos da prática da gente, objetivando a prática da gente, tomando-a nas mãos e descobrindo a teoria embutida nela. (Freire, 2019b, p. 51) Em “Pedagogia do Oprimido”, Freire relaciona a práxis libertadora com as condições de existência humana. A consciência opressora, por sua vez, corresponde a uma visão necrófila do mundo, segundo o autor. “Na medida em que, para dominar, se esforçam por deter a ânsia de busca, a inquietação, o poder de criar, que caracterizam a vida, os opressores matam a vida” (Freire, 2019b, p. 65). É possível dizer que o Jornalismo Ambiental compartilha dessa percepção, uma vez que, conforme Girardi (2018, p. 20), apresenta uma perspectiva engajada, que tem como horizonte “[...] defender a biodiversidade e a vida em sua plenitude, o que significa deixar de ser imparcial; assumir seu papel educativo, cidadão e transformador”. Entendemos, portanto, o Jornalismo Ambiental enquanto práxis que se aproxima da proposta pedagógica freiriana por defender a inserção crítica na realidade – realidade esta marcada por processos de degradação e de exploração verificados na relação entre sociedade e natureza. O Jornalismo Ambiental floresce em contextos mais propensos à reflexão sobre as questões ambientais, ressalta Belmonte (2020). A percepção sobre os riscos globais da emergência climática contribui para o processo de ambientalização da sociedade - ou seja, para a sensibilização dos sujeitos diante das tensões que envolvem a relação sociedade-natureza. Assim, expressar-se através do Jornalismo Ambiental significa contemplar possibilidades de abordagem dos fenômenos que têm proximidade com a vivência dos sujeitos e que remetem à experiência específica de comunidades invisibilizadas pela exploração que caracteriza a colonialidade. Ao pensarmos na função pedagógica do Jornalismo Ambiental postulada por Bueno (2007), podemos dizer que está alinhada, portanto, com a premissa da “politicidade da educação” prevista por Freire (2019a) para explicar a inexistência de neutralidade nas visões de mundo a serem comunicadas. 5. Emancipação e libertação O pensamento de Paulo Freire é fundador da corrente da educação crítica, que considera a educação como potencial transformador da sociedade. Nosso objetivo é aproximar este pensamento aos pressupostos do Jornalismo Ambiental (Girardietal., 2021; Loose y Girardi, 2017). Também aqui já