179
Double Sel -Po ai , p oduzido em1979, cons i ui o segundo e úl imo au o-
e a o de Je Wall (1946 -) e, al como em Pic u e o Women,* o a is a inclui-se
na imagem, di igindo o olha pa a o espec ado . En e as duas pa es da caixa de
luz no a-se uma cos u a simulada que di ide a imagem. As linhas do papel de pa ede
e os cí culos da cadei a se em pa a elidi essa cos u a, a qual se con igu a como
me á o a do p ocesso o og á ico.
Wall, duplamen e p esen e nes e au o- e a o, p oduz uma imagem di idida em
duas pa es (a a és do ângulo da sala) si uando-se ao cen o o p óp io au o .
Na pa e esque da da imagem, Wall apa ece de pé, em pose e es uá io mais o mal,
encos ado a um so á disc e o. Ao cen o da imagem es á uma cadei a com design
em o ma de cí culo concên ico, po oposição às linhas ec as e es ei as das
pa edes, ou às o mas simples do en ilado e do so á (no qual Wall, igualmen e de
pé, mas com pose e es uá io mais in o mal, apoia uma mão).
* Es a ob a, igualmen e de 1979 (um dos dois au o- e a os que Je Wall p oduziu e nos quais a sua igu a apa ece) cons i ui uma homenagem à ob a de Edoua d Mane Un ba
aux Folies-Be gè e, de 1882.
JEFF
WALL
Double Sel -Po ai . Edua da Ne es
“Facilmen e acei amos a ealidade, al ez po
in ui mos que nada é eal.”
Jo ge Luís BORGES – “O Imo al” in O Aleph.
Lisboa: Edi o ial Es ampa, Colecção Ficções, nº 7, 1988, p. 20.
“A linha do ex e io é o nosso duplo, com oda a
al e idade do duplo.”
Gilles DELEUZE – Con e sações. Lisboa: Fim de Século, 2003, p. 152.
180
Apesa de nos depa a mos com uma encenação o ganizada, depu ada e apa en emen e
sób ia, Wall ba alha as duas pa es da imagem, e ocando a unção duplicado a das
imagens ou o jogo de espelhos. Es a imagem “apa ece, na con inuidade especial de um
mesmo déco , dos au o- e a os do a is a: olha es di e gen es, que acompanham a
colagem des es dois empos, ecusa do cliché, do ins an e, mon agem em simul âneo
de duas si uações do o og á ico. O co po de un o do au o , do signa á io, oi dali
e acuado.”*
D ois Walls, cujos olha es não se c uzam, olham pa a o obse ado que se ê
impossibili ado de, simul aneamen e, olha pa a os dois: “ ace à imagem, a mon agem
e iden e sepa a a o og a ia em dois; os olha es não con e gem e ab em um espaço
neu o que desiquilib a oda a ap eensão. A cons ução isual não ole a nenhum
es emunho, o seu dis uncionamen o o ça a en a na acção, a oma posição.**
Ba alhando a na a i a, Wall con on a-nos nes a imagem (…) com a iden idade da
ob a, a iden idade do au o , e a do empo o og á ico. T a a-se de dois momen os
sucessi os ou de duas a i udes possí eis?” ***
Como adian e e emos, es amos ace à Iden idade na mul iplicidade: uma ob a
é semp e ap op iação de ou as ob as, ou os au o es, ou os empos. É o espaço da
in e ex ualidade que se cons i ui como luga de diálogo: “o olha in e ex ual
é en ão um olha c í ico: é isso que o de ine.**** (…) A in e ex ualidade designa
não uma soma con usa e mis e iosa de in luências mas o abalho de ans o mação
e assimilação de á ios ex os ope ado po um ex o cen alizado , que de ém o
comando do sen ido.”*****
O olha in e ex ual pe mi e-nos en ende de que o ma uma ob a se cons ói
pela e e ência explíci a, ou não, aos seus modelos a que ípicos que abso e,
ans o ma ou ansg ide, g aças a uma no a a iculação dos sis emas signi ica i os,
con e indo-lhes uma ou a posição.
A ob a a ís ica de Je Wall e ambém es a imagem em análise, enquad a-se
nessa noção de ex o o og á ico de que nos ala Vic o Bu gin: “ A in eligibilidade
da o og a ia não é uma ques ão sensí el; as o og a ias são ex os insc i os nos
e mos do que podiamos chama “discu so o og á ico”, mas es e discu so, como
qualque ou o, o igina discu sos que ão mais longe. O “ ex o o og á ico”,
como qualque ou o, é o que odeia uma “in e ex ualidade” complexa, uma sé ie de
ex os p é ios sob epos os que se dão “ po adqui idos” numa conjun u a his ó ica
e cul u al de e minada.”******
A inquie an e es anheza, e e ida habi ualmen e a p opósi o des e au o-
e a o, a icula-se com a imagem da i edu í el al e idade, do sujei o descen ado,
que a iloso ia con empo ânea omou como objec o de discu so.
* F édé ic MYGAROU – Je Wall. Simple indica ion. B uxelles: la le e olée, 1995, p. 12.
** F édé ic MYGAROU – Je Wall…, p. 56.
*** F édé ic MYGAROU – Je Wall…, p. 100.
**** Lau en JENNY – “A es a égia da o ma” in In e ex ualidades. Coimb a: Li a ia Almedina, 1979, p.10.
***** Lau en JENNY – “A es a égia…”, p. 14.
****** Vic o BURGIN – “Mi a o og a ias” in Indi e encia y Singula idad. Glò ia Picazo e Jo ge Ribal a (eds). Ba celona: Edi o ial Gus a o Gili, SA, 2003, p. 25.
181
Esgo ado o cogi o ou a ele esis indo, ou os p ocessos de subjec i ação
eme gem nos discu sos do co po, da ca ne, do inconscien e, da al a, do desejo, do
Ou o, da p ó ese, do pós-humano, de um sujei o imp o á el: “O sujei o não mo eu,
deslocou-se.”*
A noção de iden idade (que nas úl imas décadas e em di e sos quad os
geog á icos, c í icos e cul u ais, assumiu uma impo ância ele an e) encon a
no ema do Duplo uma das suas a iações, uma espécie de epe ição na di e ença à
manei a deleuziana.
A ques ão do Duplo associa-se à ances al c ença na mo e e unciona**
como mecanismo ilusó io da imo alidade. A sua eliminação signi ica o e o no à
mo alidade, à ini ude, à mo e como eencon o do sujei o consigo mesmo.
O Duplo em sido en endido como desdob amen o do sujei o. No en an o, ambém dele
se au onomiza pois, enquan o di e ença, a i ma-se como o Ou o do sujei o.
O Duplo pode ainda se comp eendido como uma espécie de suplemen o ac escen ado
ao modelo do qual ele se con igu a como seu Duplo. Não se a a de uma oposição
biná ia de uma oposição Eu/ Duplo, pois es e ac escen a-se e subs i ui o Eu.
Pode iamos dize , com De ida, que cada um é a di é ence do ou o de si mesmo
ou, como disse Ba hes: “a Fo og a ia é o apa ecimen o de eu p óp io como ou o,
uma dissociação a i iciosa da consciência de iden idade. E ainda mais cu ioso:
oi an es da Fo og a ia que os homens mais ala am da isão do duplo. Ap oxima-se
a heau oscopia de uma alucinose; du an e séculos, ela oi um g ande ema mí ico.”***
A associação “en e a es anheza da imagem do Eu e o des a io da iden idade,
é um dos jogos p e e enciais de alguns a is as con empo âneos. (…) Es e aspec o
da duplicação, ou duplicidade, ai se adicalmen e acen uado com o su gimen o
da o og a ia: o desen ol imen o do disposi i o especula ai aí encon a a sua
écnica de eleição, já que a o og a ia pe mi e ge a ep esen ações de si mesmo com
ca ac e ís icas de ealidade. Assim, a es a égia duplican e do sujei o exp ime um
descen amen o de si, um mo imen o pa a o a, que agonis icamen e p ocu a denega /
esol e uma di isão in e na.”****
Assim, os dois Walls ansmi em uma ce a maldade in imida ó ia que pa ece
ca ac e iza o Duplo. Nas pala as de Deleuze, Foucaul semp e se in e essou
pelo ema do Duplo, não como uma qualque p ojecção do in e io mas como “uma
in e io ização do de- o a.
* Hélène VÉDRINE – Le suje écla é. Pa is: Lib ai ie Géné ale F ançaise, 2000, p.184.
** “A noção de duplo designa uma ep esen ação do Eu que pode oma di e sas o mas encon adas no animismo p imi i o como ex ensão na císica e ga an ia de imo alidade.
O o Rank – com o seu ensaio sob e o duplo (1914)- oi o p imei o a desen ol e essa noção no campo psicanalí ico. (…) O mo i o do duplo é e omado po F eud e in eg ado
na noção de “inquie an e es anheza”, essa a iedade pa icula do pa o oso que emon a pa a além do que é desde há mui o empo conhecido, desde há mui o empo amilia ”,
mas que se o nou pa o oso po que co esponde a algo ecalcado que e o nou.(…) Um con li o psíquico c ia o duplo, p ojecção da deso dem ín ima; o p eço a paga pela
libe ação é o medo do encon o.(…) eco da emos que F eud e Lacan ac edi am que o sujei o nada que sabe sob e a al a no Ou o, po que eme e à p óp ia al a e, po
conseguin e, à dolo osa expe iência da cas ação.Esse duplo ou sinis o es ão no luga des e Ou o que e lec e o que o nosso (des)conhecimen o não se cansa de nega .(…) Fal a
ao Ou o es e olha , es e objec o que dele se des acou e- ao mesmo empo – e iu, ma cou o ou o sujei o em sua passagem mí ica, me eó ica e idílica.” Nájla ASSY – O duplo na
li e a u a: e lexão psicanalí ica. Dezemb o, 2007 (consul a disponí el em h p://www.c onopios.com.b /si e/ensaios.asp?id=2931, (consul ado em 18.12.09, 14h42m)
*** Roland BARTHES – A Câma a Cla a. Lisboa: Edições 70, 1998, p.28.
**** Ma ga ida MEDEIROS – Fo og a ia e Na cisismo. O au o- e a o con empo âneo. Lisboa: Assí io e Al im, 2000, p. 104-105.
182
Não é um desdob amen o do Um, é uma eduplicação do Ou o. Não é uma
ep odução do Mesmo, é uma epe ição do Di e en e. Não é a emanação de um EU, é
a imanen ização de um semp e ou o ou de um Não-eu. Não é nunca o ou o que é um
duplo – na eduplicação, sou eu que me ejo como duplo do ou o: eu não me encon o
no ex e io , eu encon o o ou o em mim.”*
Desde As Pala as e as Coisas que Foucaul mos a a que o Ou o é ambém o
P óximo.
Se pa a Michael Newman, “a imagem de Wall es á menos p eocupada com a elação
do sujei o com o seu duplo – e, em qualque dos casos, a elação dos seus duplos
pa ece se mais a de alienação do que a de sublime al e idade - do que com a elação
do obse ado com o pa que su ge da o ma como su ge numa o og a ia”** pa ece-nos
no en an o, que o ema do duplo*** é bem plausí el nes a imagem, sendo e e enciado
pelo au o que a i ma: “Sin o que exis iu semp e um sen ido do “imp o á el” nas
minhas imagens e nos meus pe sonagens. (…) Fiz um “duplo” em 1979 (Double Sel -
Po ai ). (…) Semp e en endi o meu abalho “ ealis a” como po oado com pe sonagens
espec ais cujo es ado de se não e a assim ão ixo. Isso é ambém um aspec o ou
e ei o ine en e do que designo como “cinema og a ia”: as coisas não êm que exis i
ou e exis ido ealmen e pa a su gi na imagem.”****
Assinala C aig Owens que nes e au o- e a o, Wall ep esen a a cisão do
sujei o pois o a is a posou, não uma ez, mas duas “ duplas-ex-posições – como que
pa a ilus a a duplicidade undamen al de oda a pose. Po an o, a p ópia imagem
di ide-se ao longo da cos u a cen al que pa ece ep esen a la bi-pa ição que
so e o sujei o quando assume uma imagem.”*****
Na ob a O Tea o e o seu Duplo, A aud desen ol e uma das mais o es c í icas
ao ea o ociden al, a oda a adição dos agedióg a os desde a G écia An iga.
Lamen a o excesso de linguagem em de imen o da imagem, dos sons, do ges o, do
mo imen o, da ida, a excessi a on ade de ealismo.
* Gilles DELEUZE – Foucaul . Lisboa: Edi o a Vega, 1987, p.132.
** Michael NEWMAN – Je Wall: Wo ks and Collec ed W i ings. Ba celona: Ediciones Políg a a, 2007, p. 44. Ainda pa a es e au o , es a ob a de Wall “não é apenas uma imagem
algo sinis a, na qual as duas igu as pa ecem ao mesmo empo and oginamen e sedu o as e passi as-ag essi as, há ambém nela uma a mos e a de dep essão, sendo o ambien e
nega i o do qua o como que um es ádio ap op iado pa a os so umbá icos duplos.Is o é combinado com uma sensação de agi ação, em que o u bulen o e ei o op da pa ede az
eco da in e mi en e luz luo escen e sublimina que conduz a anspa ência da imagem pa a a isibilidade – al ez e lec indo a diluição “cinema og á ica” das di e enças, às quais
Gi a d se e e e. O pa adoxo é o de que is o em luga no o ma o mui o especí ico e in ensamen e de alhado de uma anspa ência de g ande escala.”p.48. A ob a de Gi a d a que
Michael Newman se e e e na ci ação an e io é: René GIRARD – Violence and he Sac ed. London: Con inuum, 2005.
*** Embo a não nos in e esse nes e abalho uma lei u a do ipo psicanalí ico, que nos pa ece demasiado es a ada no que à análise do au o- e a o diz espei o, (sob e udo as
lei u as que associam o au o- e a o ao na cisismo) julgamos pe inen es as pala as de Sla oj Zizec: ca ac e izando o duplo segundo Lacan “o duplo inco po a a Coisa de ipo
an asma em mim; ou seja, a dissime ia en e mim e o meu duplo é, em úl ima análise, aquela que oco e en e o objec o(comum) e a Coisa( sublime). No meu duplo eu não
apenas me encon o a mim p óp io (a imagem-espelho) mas, p imei o que udo, o que “es á em mim mais do que eu p óp io: o duplo é o eu p óp io” con udo…concebido sob
ou a modalidade, sob a modalidade do ou o co po e é eo, sublime, uma pu a subs ância de p aze isen a do ci cui o de ge ação e co upção”. (Sla oj ZIZEC – Enjoy You
Sym om!: Jacques Lacan in Hollywood and Ou . London: Rou ledge, 2001, p. 125).
**** Je Wall apud A ielle PELENC – “Co espondence wi h Je Wall” in Je Wall: Selec ed Essays and In e iews. New Yo k: The Museum o Mode n A , 2007, p. 254.
***** C aig OWENS – “Posa ” in E ec o eal. Deba es posmode nos sob e o og a ía. Jo ge Ribal a (ed.) Ba celona: Edi o ial Gus a o Gili. S.A., 2004, p.208. Re e e ainda o au o
que posa é “uma o ma de imi a ; como assinala Lacan na elação com o enómeno da i alidade mimé ica da na u eza, “ o se decompõe-se, de um modo ex ao diná io,en e
o seu se e o seu semblan e, en e si mesmo e esse ig e de papel que mos a ao ou o. (…) O se dá de si mesmo, ou ecebe do ou o, algo que é másca a, duplo, en ol u a, pele
desp endida (...). Po conseguin e, a imi ação le a a uma ce a escisión do sujei o: odo o coe po se sepa a de si mesmo, o na-se imagem, apa ência.” (Idem, p. 208).
183
O eal iccionado de Wall, sem ei indica a on ade de e dade ou de ealismo
a qualque p eço, ap oxima es e Double Sel -Po ai das pala as de A aud que,
a p opósi o da ep esen ação ea al no Bali, e e e: “E aos amado es de ealismo
a odo o p eço, que pode iam acha exaus i as es as pe pé uas alusões a a i udes
sec e as inacessí eis ao pensamen o, es a a ep esen ação ealis a do duplo que se
apa o a com as apa ições do Além. Nes e duplo, a eme e a be a como uma c iança,
nes e calcanha a ba e no chão em cadências que são jus amen e consequência do
inconscien e em libe dade, no seu ocul a momen âneo po de ás da sua p óp ia
ealidade, há uma desc ição do medo que é álida em odas as la i udes”.*
A despe sonalização cons a ada po A aud nes as ep esen ações, e que êm
as ca ac e ís icas das ope ações mágicas, é associada a um es ado que an ecede a
linguagem e à u ilização do espaço cénico em odas as suas dimensões ou planos
possí eis.
Tal como nes a ob a de Je Wall o a is a não se ap esen a com o mesmo
es uá io nas duas pa es da imagem, ambém A aud encon a no es uá io um
pa icula sen ido na ca ac e ização do duplo: “Aqueles que conseguem da um
sen ido mís ico à simples o ma de uma es e e que, não sa is ei os po coloca em
jun o ao homem o seu Duplo, con e em a cada homem na sua es e um duplo cons i uído
pelo p óp io es uá io”.**
A ea alização p esen e no au o- e a o do a is a, à semelhança da que
encon amos na sua ob a, se bem que de na u eza di e en e da que encon a A aud no
ea o de Bali, não deixa de eme e pa a a p esença de uma ce a pose encenada do
gue ei o que, con on ando a a és do olha o espec ado , ocul a o duplo: “ E po
de ás do Gue ei o, e içado po aquela o midá el empes ade cósmica es á o Duplo,
a pa onea -se dum lado pa a o ou o, empenhado in an ilmen e nos seus sa casmos de
ga o o e que, embo a despe ado pela e e be ação do umul o se mo e, inconscien e,
no meio de so ilégios dos quais nada ap eendeu.”***
Duplos sem semelhança, não uma cópia que indique um ou o e dadei o, um
possí el ou o e único: “Não um ou em, mas um ou o do ou em. Não uma éplica,
mas um Duplo. Ins au a o mundo sem ou em, eendi ei a mundo (…) é e i a o
des io”.****
É possí el lin e p e a es a ob a de Wall como Robinson quando eencon a
Sex a- ei a na ob a de Michel Tou nie : “E a is o ou em: um possí el que se
obs ina em passa po eal.”*****
* An onin ARTAUD – O Tea o e o seu Duplo.Lisboa: Fenda, 1989, p. 54.
** An onin ARTAUD – O Tea o…, .p. 61.
*** An onin ARTAUD – O Tea o…, p. 66. Diz A aud ainda que “o ac o em de conside a o se humano como um Duplo, como o Ka dos Embalmasados, no Egip o, espec o
pe ene de onde i adiam as po ências da a ec i idade.” (Idem, p.130).
**** Gilles DELEUZE – Lógica do Sen ido. São Paulo: Edi o a Pe spec i a, 1998, p.326.
***** Apud Gilles DELEUZE – Lógica do Sen ido…, p. 319.
184
Também em Aleph, Jo ge Luís Bo ges, no ex o Os Teólogos, e lec e sob e a
iden idade pessoal,” aquela passagem do Sé imo Li o, de Plínio, que ponde a não
ha e no uni e so duas aces iguais. João de Panónia decla a a que ambém não há
duas almas iguais e que o pecado mais il é ão p ecioso como o sangue que po ele
de amou Jesus C is o. (…) O empo não e az o que pe demos; a e e nidade gua da-o
pa a a gló ia e ambém pa a o ogo. O a ado e a límpido, uni e sal; não pa ecia
esc i o po uma de e minada pessoa, mas po um homem qualque ou, al ez, po odos
os homens.”*
Iden idade queb ada, sem e e ência a um eu pessoal, mas a um uni e so
inde inido, sem sujei o; exis ência impessoal, o po i , pa a ala com Deleuze.
Nes e úl imo au o- e a o – ce amen e não po acaso o úl imo – al ez possamos
encon a o Ou o Je Wall, não em simples oposições mas na sua supe ação concep ual
ígida, au ên icos duplos que semp e o acompanha ão: a is a-espec ado , a e-
ecnologia, ema- o ma, adição-con empo aneidade, documen o- icção, o iginal-
cópia, eu-ou o, ida-mo e, onde nenhum dos e mos é p i ilegiado.
Double Sel -Po ai pa ece consubs ancia g ande pa e das coo denadas
c í icas da sua ob a, mul iplicidades que se mani es am na sua iden idade: o au o-
e a o enquan o me á o a das es a égias e do p ocesso a ís ico do au o .
Podemos dize sob e a ob a de Je Wall o que, a p opósi o das icções de
Blancho , diz Foucaul : “o ic ício não es á nunca nas coisas nem nos homens, mas
na impossí el e osimelhança do que es á en e eles: encon os, p oximidade do mais
longíquo, absolu a dissimulação lá onde nós es amos. A icção consis e, po an o,
não em mos a o in ísi el, mas em mos a o quan o é in isí el a in isibilidade
do isí el.” T a a-se dessa es u u a de icção p esen e na e dade.
É sabido que a ap op iação da his ó ia da pin u a se mani es a na maio pa e
do abalho de Je Wall (1946-) conco endo o uso da o og a ia pa a um p ocesso
mais complexo de ab icação da imagem.
Como sublinha Dominique Baqué, a noção de o o-quad o ou quad o o og á ico,
a i ma-se nos anos oi en a “em a is as como o canadiano Je Wall ou o ancés
Jean-Ma c Bus aman e; e encon a o seu êxi o c í ico com Jean-F ançois Che ie
quem designa de es e modo uma ce a o ma o og á ica concebida em elação ao
modelo pic ó ico, sem que po isso in e enha o p óp io ges o de pin a . Supõe-se
que a o ma-quad o esponde aos seguin es c i e ios: delimi ação cla a de um plano,
on alidade e cons i uição de um objec o au ónomo.”**
* Jo ge Luís BORGES – – “O Imo al”…, p. 41.
** Dominique BAQUÉ – La o og a á plás ica. Ba celona: Edi o ial Gus a o Gili, 2003, p. 45.
185
No seu p ojec o a ís ico, com ecu so a écnicas digi ais desde os anos
no en a, e eco endo a um disposi i o de ap esen ação que pe ence ao domínio
da publicidade mas que não é publicidade, cinema ou pin u a (como é o caso das
g andes imagens o og á icas, anspa ências de g ande o ma o em caixas de luz),
Wall expe imen a a econ igu ação, composição pic ó ica, ea alidade, encenação,
icção e subjec i ação dos emas que ca ac e izam a sua ob a e mani es am a
ecusa do papel do o óg a o como es emunha ou o o-jo nalis a, an es expandido
o papel adicional da imagem pa a lá do seu uso como documen o ou epo agem: a
cinema og a ia pessoal de Wall.*
O o e impac o isual das suas caixas de luz,** (que não obedecem à lógica do
géne o, pois não são pin u a, cinema, o og a ia) in e ogam a cul u a de massas:
“Je Wall p e ende con on a o que denomina como high a com a cul u a de massas,
e es a úl ima com as adições concep uais, es é icas e polí icas da angua da. A
caixa de luz (…) põe em cena a “ dissociação “ como sin oma maio da exis ência nas
sociedades ociden ais a ançadas.”***
As suas imagens assemelham-se a ins an âneos que e ec i amen e esul am de uma
sob eposição de á ias o og a ia i adas em empos dis in os:”O aze a ís ico de
Je Wall, (…) as e e ências à his ó ia da a e são mani es as e ealizadas de o ma
os ensi a. Je Wall ac ua com os luga es (os cená ios na u ais), as pe sonagens e
as si uações que põe em imagens, como um ealizado de cinema. Mas é o óg a o na
sua explo ação da cidade como espaco público de encon os, como ea o. Ac uando
des e modo, p ojec a o espec áculo dos d amas da sociedade con empo ánea (de inida
po uma ci culação de signos num espaço de concen ação u bana) sob e uma his ó ia
da pin u a igu a i a(e na a i a) como ea o pin ado.”****
A simulação e ansg essão e iden e da o og a ia di ec a, sublinha a e e ência
ao en endimen o da imagem como ealidade cons uída, ma cadamen e ea al, ausência
de imagem pu a.
A imagem o og á ica a i ma-se como meio pa a pensa a p óp ia his ó ia da
imagem, com ecu so pa icula à pin u a (como e elam as suas imagem-quad o com as
quais e oma o ableau- i an ) al como oi desen ol ido pelos pin o es do século
XVII como Ca a aggio, a é pin o es da p imei a me ade do século XIX como Goya ou
Ge icaul .
* “Além disso, pa a mim o ascínio des a ecnologia é pa ece que ela, sózinha, pe mi e aze quad os à manei a adicional. Po que, basicamen e, é isso que eu aço, embo a enha
espe anças de o aze p oduzindo um e ei o opos o ao dos quad os ecnicamen e adicionais. A ideia é ecupe a o passado – a g ande a e dos museus – e ao mesmo empo
pa icipa , com um e ei o c í ico, na mais ac ualizada espec acula idade. É isso que dá à minha ob a a sua elação especial com a pin u a. Gos o de pensa que os meus quad os
são um opos o especí ico da pin u a”. (Je Wall (e Els BARENT (En e is a) – “Typology, Luminescence, F eedom. Selec ions om a con e sa ion wi h Je Wall, in Je Wall.
T anspa encies. Munique: Schi me /Mosel, 1986) apud “O Pe cu so. Rein enção do medium” in A Fo og a ia. De e amen a a pa adigma. Po o: Fundação de Se al es, 2005, p.
119.
** Je Wall i ia a admi i que ez uma pausa nas suas caixas de luz de ido ao ac o de e em excesso de luminosidade au á ica.
*** Dominique BAQUÉ – La o og a á plás ica…, p. 45.
**** Jean-F ançois CHEVRIER – La o og a ía en e las bellas a es y los medios de comunicación. Ba celona: Edi o ial Gus a o Gili, S.A., 2006, p. 164.
186
Diz o a is a que a o og a ia não se consegue sub ai à desc ição igu a i a
na medida em que a ep esen ação cons i ui um dos seus aços dis in i os: “ Pa a
pode pa icipa na espécie de e lexi idade que se inha impos o na a e mode na,
a o og a ía só podia pô em jogo a sua condição p ópia e impe a i a de se uma
ep esen ação-que-cons i ui-um-obje o.”*
Wall, elendo a His ó ia da A e, mos a que es a não é um ma e ial que apenas
se de a con oca a a és da ci ação. Pa a o a is a cada ob a se pode ans igu a
e ac i a a pa i daquele que a pensa e a econs ói (ao con á io dos pin o es
adicionais que e oma am sem cessa as mesmas ipologias pic ó icas).
U ilizando a ecnologia digi al pa a a composição e manipulação das imagens,
plani icando e cons uíndo cada uma delas, o abalho de Wall cons i ui-se po
e e ência aos modos de o ganização espacial na pin u a, em cená ios complexa e
abalhosamen e elabo ados.**
As suas imagens o og á icas, g aças ao e ei o cinema og á ico e ao momen o
ensional que c is aliza a acção, in e pelam o espec ado pa a o olha c í ico do
au o ace à con empo aneidade.
Como de ende Che ie , podemos cons a a na ob a de Je Wall “ uma omada
de consciência da ealidade ( enomenológica ou social) ompendo os limi es de uma
iden idade cons i uida e alienan e. Pa a isso, e a necessá io não só ans o ma a
ep esen ação das coisas a a és de uma boa isão, mais jus a, mas ambém in e i
sob e la p ópia es u u a das apa ências, p oduzi a apa ência de ou o modo.”***
O quo idiano, as elações sociais, iolência u bana, pob eza, acismo,
solidão, modos de ida, momen os inusi ados, cenas bélicas e polí icas cons i uem-
se como documen os iccionados ou encenações e osímeis.
A escolha do eal e da imagem como e i ó ios de in es igação e de
expe imen ação con e em as suas p oduções em g andes “ ames”do p esen e: “Não ia
à Eu opa há uns qua o ou cinco anos depois de lá e i ido no início dos anos 70.
En ão, em 1977 ui lá passa umas é ias com a minha amília. En e ou os museus
isi ei o P ado pela p imei a ez e i Velasquez, Goya, Ticiano.
* Je WALL – “‘Senales de indi e encia’: aspec os de la o og a ia en el a e concep ual” in Indi e encia y singula idad. Glò ia Picazo/Jo ge Ribal a(eds.) Ba celona: Edi o ial
Gus a o Gili, SA, 2003, p. 214.
** Num a igo “publicado em Ma ço de 2001 na e is a A o um (…) o c í ico de a e Jan Tumli , in oduz de o ma edi ican e uma en e is a ealizada com Je Wall sob e The
Flooded G a e, na qual o a is a abalha en e 1998 e 2000. Começa po si ua a en e is a no seu con ex o ge al, em Vancou e , suge indo desde a p imei a ase uma compa a-
ção com Los Angeles, a capi al legí ima do cinema e da o og a ia. Oau o con a em seguida o pe cu so de Je Wall, sublinhando os seus laços biog á icos,e po an o ín imos,
com Vancou e .De passagem, o nece alguns de alhes sob e os di e en es qua ei ões da cidade, no seu aspec o caó ico e, po consequência, es imulan e pa a a c ia i idade.Daí
chegamos di ec amen e a uma ap esen ação do meio en ol en e imedia o do a elie . A o ganização do a elie é desc i a em duas ases, onde o con as e com o pos o de abalho
in o má ico imaculado e ese ado a acessó ios suge e um pa alelo com os mé odos de Je Wall. O c í ico eco da que Je Wall a sua écnica de mon agens o og á icas há uma
dezena de anos (um pe íodo undamen al na elabo ação da sua e lexão) de o ma a aze a ligação com a en e is a. A in odução bas an e p o issional assim ob ida, enquad a-se
na p odução das o og a ias de Je Wall.(…) Con a qualque expec a i e, suge e-nos o au o , o seg edo de Wall não é ou o a não se o abalho.(…)O a igo sob e Je Wall,
cujas o og a ias são a amen e publicadas, e a mo i ado pela “p imei a” da ob a em qus ão: “ The Flooded G a e ez a sua en ada na cena pública no p incípio do ul imo mês
em O awa, no quad o da exposição Elusi e Pa adise no Museu de Blas-A es do Canadá “. O ac o de a gale is a Ma ian Goodman e ap o ei ado pa a anuncia uma exposição
pessoal de Je Wall em plena página de publicidade, é mui o e elado .A c í ica de a e, a documen ação,a exposição e a p omoção comme cial do a is a o ma am uma mis u a
apa en emen e lógica de ab andamen o da in enção do espec ado .” Lioba REDEKKER – “‘Making o ’ – A elie s e a chi es dans la dynamique de la p oduc ion documen ai e”,
in Les A is es Con empo ains e l`a chi e. In e oga ion su le sens du emps e de la memoi e a l`e e de la nume isa ion. Ac es du Colloque, 7-8 Decemb e, 2001, Rennes:
P esses Uni e si ai es de Rennes, 2004, p.24.
*** Jean-F ançois CHEVRIER – La o og a ía…, p.165.
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Lemb o-me de eg essa a Vanco e e pensa mais uma ez que esses quad os
inham uma o ça eno me, que gos a a an o deles. E ambém que con inham inúme os
es ígios da sua p óp ia mode nidade. Mas sen i igualmen e que e a igualmen e
impossí el eg essa a qualque coisa que se pa ecesse com a ideia do “pin o da
ida mode na”, como dizia Baudelai e. E no en an o penso que, em mui os aspec os,
esse é um e mo undamen al pa a o mode nismo, “ o pin o da ida mode na”. Po que
não exis e ocupação mais ap op iada.”*
A p esença do eal não signi ica a a i mação do ealismo mas a de esa de uma
poé ica onde é na encenação e alsi icação/ ab icação da ealidade que encon amos
a e dade da imagem, a e dade na apa ência, ou, à manei a Nie zscheana, di ia Wall
que não há ou a e dade que não seja a apa ência.
Nas pala as de Ranciè e, “o eal de e se iccionado pa a se pensado. Es a
p oposição dis ingue-se de odos os discu sos – posi i os ou nega i os – segundo
os quais udo se ia “ na a i a” com al e nâncias en e “g andes “ e “pequenas”
na a i as. A noção de “na a i a” con ina-nos às oposições en e o eal e o
a i icial, nas quais se pe dem posi i is as e descons ucionis as. Não se a a
de a i ma que udo é icção. Mas, an es, de cons a a , em p imei o luga , que a
icção da idade es é ica de iniu modelos de conexão en e ap esen ação de ac os
e o mas de in eligibilidade que o na am inin eligí el a on ei a en e a azão
dos ac os e a azão da icção”.**
O ecu so à na a i a pa a cons ui icções de base documen al e a habi ual
e e ência às aízes pic ó icas, como já e e imos, es á pa en e em Double Sel -
Po ai .
Pa a Blake S imson é cla a a e e ência aos Abs ak es Kabine *** de Lissi sky
de meados dos anos 20 do século XX: “O papel de pa ede às iscas, de Wall,
a eng açada cadei a em o ma de ces o, deslocada pa a o cen o da imagem em
desaco do com a disposição do qua o e sem a sua almo ada, a mudança conspícua de
apa ência en e sessões o og á icas(da oupa diá ia ao aje de noi e) assinalando
di e en es o mas de co po ização ou, al ez mesmo o en ilado HVAC a ás do Je
da esque da, odos suge em uma espécie de jogo com os qua os de Lissi sky (ou
pelo menos as o og a ias des es qua os que acaba am po sob e i e ).(…) É cla o
que es a pode ou não e sido a sua in enção mas a compa ação ab e um pa alelo que
conside o cen al na sua ealização.”****
* “Na al u a sen i com mui a o ça que e a impossí el ol a a ás, po que a pin u a enquan o o ma de a e não en en ou de modo su icien emen e di ec o o p oblema do
p odu o ecnológico que usu pa a ão comple amen e o seu luga e a sua unção na ep esen ação da ida quo idiana. É in e essan e po que, cla o, isso acon eceu exac amen e na
al u a em que mui os a is as jo ens es a am a edescob i a pin u a. Lemb o-me de, na época, me encon a numa espécie de c ise, a pensa no que ha ia de aze . P ecisamen e
nesse momen o i um anúncio luminoso algu es e sen i com mui a o ça que ali es a a a ecnologia sin é ica ideal pa a mim. Não e a o og a ia, não e a cinema og a ia, não
e a pin u a, não e a p opaganda, mas inha o es ligações a odas elas. E a uma coisa ex emamen e abe a.(…) Sa is azia a p incipal condição do p odu o da ecnologia, que
é ep esen a a a és de espec áculo.“ Je Wall (e Els BARENT (En e is a) – “Typology, Luminescence, F eedom. Selec ions om a con e sa ion wi h Je Wall, in Je Wall.
T anspa encies. Munique: Schi me /Mosel, 1986) apud “O Pe cu so. Rein enção do medium” in A Fo og a ia. De e amen a a pa adigma. Po o: Fundação de Se al es, 2005, p.
118.
** Jacques RANCIÈRE – Es é ica e Polí ica. A Pa ilha do Sensí el.Po o: Da ne Edi o a, 2010, p.45.
*** Abs ak es Kabine em usso e que cons i ui o í ulo da ob a de Lissi zky.
**** Blake STIMSON – The Pho og aphy o Social Fo : Je Wall and The Ci y as Subjec Condi ion. disponí el em www.macba.es/uploads/20070716/QP 09 S imson.pd . (consul-
ado em 16.12.09, 22h ), p.13.