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Jardim de Inverno e Ambiente Tropical: Um estudo comparado

Abstract

O Ciclo DISPOSITIVOS NA PRÁTICA ARTÍSTICA CONTEMPORÂNEA #2, foi co-organizado pelo Grupo de Arte e Estudos Críticos do CEAA, Departamento de Artes Visuais, Licenciaturas de Artes Plásticas - Intermedia, Artes Visuais-Fotografia e Teatro, da ESAP. As comunicações Utopia y Disfuncionalidad, Jardim de Inverno e Meta-escuta - objeto-sonoro espectro, imanência-vibrátil e restocognitivo, então apresentadas e aqui publicadas, pretendem de alguma forma contribuir para repensar a prática artística contemporânea à luz da noção de Dispositivo.

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Jardim de Inverno e Ambiente Tropical: Um estudo comparado

Author: RODRIGUES, Nuno
Publisher: CEAA/ESAP-CESAP
Year: 2015
Source: https://comum.rcaap.pt/bitstreams/a7b63143-bc54-485c-baab-59e788cb7aab/download
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1. O í ulo da ob a alude aos ja dins de in e no em
oga no século dezano e. O ja dim de in e no é uma
es u u a de me al e id o que se des ina a acomoda
plan as exó icas e a expandi o espaço domés ico.
Com uma uncionalidade híb ida, en e a es u a
p i ada e a ex ensão do espaço in e io , eles si uam-
se como que a meio caminho en e o espaço in e io
da casa e o espaço ex e io do ja dim.
Duas Ob as
T opicália (1967) é o í ulo de uma ins alação de Hélio Oi icica inicialmen e
concebida pa a a exposição No a Objec i idade ealizada no Museu de A e
Mode na, Rio de Janei o. Ela é compos a po dois Pene á eis (PN 2 e PN 3),
es u u as de madei a que se assemelham a cabines ou cons uções
empo á ias o madas po painéis ec angula es. O PN2 é cons i uído po 5
painéis de co es di e en es uncionando um deles como po a de en ada da
cons ução. Den o da es u u a, encon a-se pendu ado um saco de plás ico
anspa en e cheio de a eia. Num ou o painel es á esc i o “A pu eza é um
mi o” (o í ulo des e Pene á el). O chão da cabine es á cobe o de g a ilha. O
PN3 é mais labi ín ico e o seu espaço cons ói-se median e o uso de 10
painéis. Alguns dos painéis são cobe os com ecido sin é ico deco ado com
mo i os lo ais ou de co es sa u adas (la anja e azul), ou os de ecido de
algodão e ou os pin ados de b anco ou p e o. A a és de co edo es es ei os,
o isi an e ai en ando na cons ução que se o na cada ez mais escu a. No
ambien e escu o do in e io do Pene á el encon a-se um ele iso a p e o-e-
b anco colocado no chão, semp e ligado e a ansmi i um canal de ele isão
gene alis a. O espaço en ol en e da ins alação é a anjado com plan as
opicais, sacos com essências odo í e as, gaiolas com papagaios, poemas de
au o ia de Robe a Salgado, ijolos e chapas de me al. No chão da ins alação
são c iados ilhos a a és do uso de a eia e g a ilha. A á ea da ins alação
ocupa ap oximadamen e 6 po 3 me os.
Ma cel B ood hae s p oduziu Un Ja din d'Hi e (1974) pa a uma
1
exposição colec i a ealizada no Museu de Belas-A es, B uxelas . Es a
ins alação az pa e de um conjun o de ob as da úl ima ase da ca ei a do
a is a belga (B ood hae s mo e em 1975) que ele designa po Déco s e
esul a da composição cénica de ce ca de 16 cadei as me álicas de ja dim, 25
a 30 palmei as plan adas em asos de plás ico, 6 o og a ias que ep oduzem
em amanho ala gado es ampas do século dezano e que nos mos am animais
(insec os, camelos, ele an es e pássa os exó icos) ou plan as. Na ins alação
es ão colocadas duas i ines que con êm á ios ca álogos da exposição,
abe o nas páginas dedicadas a B ood hae s, e as g a u as o iginais que
se em de modelo às ep oduções pendu adas na pa ede. Encima das i ines
JARDIM DE INVERNO E AMBIENTE TROPICAL:
Um es udo compa ado
Nuno Rod igues
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2
encon a-se um molho de olhe os . B ood hae s ins ala um ci cui o echado
de com a câma a colocada sob e um ele iso e a apon a pa a o cen o da
ins alação. O ele iso ansmi e as imagens cap adas em empo eal. Con a
uma das pa edes do museu, B ood hae s posiciona uma ca pe e e melha
en olada. Passados poucos meses B ood hae s ec ia á a peça no mesmo
museu, mas com algumas al e ações: a ele isão em ci cui o echado se á
subs i uída pela p ojeção de um ilme em 35 mm que inha sido odado
aquando da ins alação da p imei a e são da ob a. O ilme, in i ulado Un
Ja din d'Hi e (ABC), mos a B ood hae s a le o ca álogo da exposição
sen ado numa cadei a de ja dim, igual àquelas que se encon am na
ins alação. O ilme é mudo e em como 'banda sono a' uma peça de música
popula que os isi an es, caso a quei am ou i , e ão que pô a oca no gi a-
discos que es á ins alado ao lado da p ojeção.
En e o ado no e o ade eço
O que êm es as ins alações em comum? Logo à pa ida, o uso de ege ação
'quen e', que nos eme e pa a os espec i os í ulos das ob as indicando, no
caso de B ood hae s, a inse ção de lo a inda de longe no espaço domés ico,
ão ao gos o da bu guesia eu opeia impe ial e, no caso de Oi icica, a sua
p o eniência local, opical. Sendo es e o pon o de ligação mais imedia o,
pe cebemos que nem as palmei as en azadas de B ood hae s nem as de
Oi icica se deixam acomoda à igu a de bucolismo exó ico ou à
ep esen ação da na u eza opical. Jus apos as às cadei as de ja dim ou
colocadas ao lado dos ilhos desenhados pela g a ilha, elas pon uam o
espaço da ins alação com um oque de i onia de exo ismo enxe ado, no caso
do Ja dim, e opicalismo de en ei e, em T opicália. A ege ação sal a à is a,
nes as duas ins alações, não an o pela sua exube ância e ical, mas po que,
plan adas em azos que podem se mo idos e emo idos a bel-p aze ,
cons i uem ade eços cuja pe ença e colocação no espaço pe manece
a bi á ia, mesmo que apa en emen e con ocadas pelas ' emá icas' que os
í ulos das espec i as ob as pa ecem in oca .
Com T opicália, ob a que en a conju a um ambien e o al onde o
espec ado é ime so numa en ol en e mul i-senso ial que o con oca a
in e agi com os objec os que o odeiam, Oi icica conclui o p og ama de “a e
ambien al” que inha iniciado na década de 60. Po inco po a g ande pa e do
abalho que Oi icica ealizou du an e o pe íodo “ambien al” e assinala a sua
conclusão, podemos de ce a o ma e em T opicália o lança de um olha
e lexi o e e ospec i o sob e a ajec ó ia p og amá ica que le a à sua
3
ealização. Mas como o uso de ege ação e de ou os elemen os indicia,
Oi icica não p e ende u iliza o mecanismo exposi i o da ins alação pa a nos
mos a de o ma condensada, qual boî e en alise em amanho eal, o
2. Nos olhe os pode-se le o seguin e ex o: “UN
JARDIN D'HIVER
Ce se ai un A.B.C.D.E.F...du di e issemen , un a
du di e issemen ....
G.H.I.J.K.L.M.N.O.P.Q.R.S.T.U.V.W.X.Y.Z...
Pou oublie . Pou do mi , se ein, bien pensan . De
nou eaux ho izons se dessinen . Je ois eni à moi
de nou eaux ho izons e l'espoi d'un au e alphabe
( oi ca alogue).
Éc i à B uxelles, le 7-1-74 à l'occasion d'une
exposi ion collec i e au Palais des Beaux-A s à
laquelle je pa icipe a ec ce ja din.”
3. Pa a uma b e e de inição do p og ama ambien al
de Oi icica e Nuno Rod igues “The Sc ew:
Be ween Wea ing and Wa ching” in Edua da Ne es,
Nuno Rod igues, Susana Caló (ed.) C i ical S udies
No es: A , Becoming and Pa icipa ion #13. Po o:
Edições Casei as 22, 2014, pp 30-1.
23
abalho p oduzido desde a década de 60 a é ao momen o da ealização da
peça. O ac o de pô -em-ins alação a ajec ó ia “ambien al” do a is a passa
pela encenação de um ambien e ' opical' onde os elemen os/ob as que
compõem a peça es ão dispos os de o ma in eg ada e são inco po ados numa
mesma en ol en e a a és do uso deco a i o de uma a iedade de objec os,
como o ele iso , os papagaios ou os ijolos, que ma cam de o ma
descon ínua os á ios enquad amen os senso iais e de in e acção. Os
objec os que pon uam o espaço da ins alação man êm assim uma dupla
unção, oscilando en e o ade eço que posiciona o espec ado como
in e enien e num espaço de pe o ma i idade e o o namen o que,
desp o ido de unção ú il, pincela o espaço com apon amen os de egis o
' opical'. Pela sua posição equí oca, os objec os que po oam a ins alação
acen uam a a i icialidade dum ambien e que, na sua he e ogeneidade e
ambiguidade, nunca acomoda a noção de opicalidade, e os di e sos modos
de a ep esen a , de o ma pací ica e conclusi a.
Es a dupla dimensão, cenog á ica e deco a i a, apa ece de o ma
ainda mais ma cada na selecção e disposição inusi ada das componen es que
o mam o Ja dim de In e no. A p opósi o, B ood hae s inse e o Ja dim num
g upo de abalhos que classi ica como déco s, azendo alusão di ec a à
deco ação de espaços in e io es e aos decó s do cinema e ea o. Essa e a de
ninguém, onde o que nos é amilia se mos a como es anho e alhean e, nasce
da ensão que se ab e a a és do en ol imen o ecíp oco do espaço domés ico
e a si uação cenog á ica, do desdob amen o mú uo do domínio da ida
p i ada bu guesa e o campo pe o ma i o da acção pa a a con emplação de
ou em. A ec iação a ís ica do ja dim de in e no ence ada po B ood hae s
apon a p ecisamen e pa a o posicionamen o do espaço domés ico enquan o
4
palanque, onde um dado jogo cénico de ca ác e público oma luga . A
ambi alência c iada pela sob eposição do espaço p i ado do la e o espaço
social de encenação é exace bada pela o ma como a ins alação não p opõe
nem pô em cena a es u a domés ica nem, po ou o lado, aze pa a o
domínio p i ado da casa a cena ou o palco. Não encenando o e i ó io
domés ico nem domes icando o espaço cenog á ico, o ja dim de in e no
unciona como ópico supe icial, como uma espécie de signi ican e azio,
sob o qual odo um conglome ado de ma cado es são dispos os como
ade eços-o namen os, equí ocos ela i amen e ao espaço p i ado da casa e
ao campo social da pe o mance. Não é de es anha pois que o Ja dim de
In e no se assemelhe a uma ia e anónima sala de espe a de um qualque
esc i ó io ou consul ó io e e oque ambém os ecan os de espi ação bucólica
que se podem encon a nos g andes cen os come ciais.
Tal como em T opicália, es a ensão plasma-se no modo como o
espec ado se posiciona no espaço da ins alação. Ainda que no meio da
en ol en e a ís ica, ele é posicionado como um obse ado ex e no que
con empla a dimensão es é ica ou deco a i a de pa es da peça, desenhando
4. Não podemos deixa de menciona a o ma como
o ja dim de in e no, um pa ilhão em pequena escala
echeado de mo i os na u ais exó icos, az pa a o
domínio da casa o espí i o das G andes Exposições
eu opeias do século XIX.
24
5. Ao con á io de Oi icica, B ood hae s não p e ende
que as suas ins alações sejam comple adas a a és da
manipulação e pa icipação do espec ado , eme endo
es e pa a um papel mais passi o. No en an o o
Ja dim de In e no, po ia do pô -em-cena que a
ins alação implica, acaba po insc e e o espec ado
numa si uação de in e pelação pe o ma i a, onde
agi , mas ambém con empla , azem pa e de um
ac ua pa a a con emplação de ou em. Nes e sen ido,
conside amos a dimensão cénica que a ins alação
p essupõe como a base a pa i da qual a
possibilidade de in e agi ou pa icipa na ob a se
coloca. Den o da si uação engend ada pela
ins alalção não há, des e pon o de is a, pa icipação
que não seja ambém ac uação.
assim zonas de ex e io idade no seio da ob a; po ou o lado, e median e a
solici ação ence ada pelo campo cenog á ico e os seus ade eços dispa es, ele
con igu a-se como um p o agonis a de uma si uação que o con oca a agi e
5
decidi . O espec ado encon a-se ao mesmo empo den o e o a de um meio
a ís ico cuja consis ência es á no limia da desag egação.
Ambien e: agmen o e o alidade
As emá icas sob e as quais o Ja dim de In e no e T opicália se o mam se e
de mo i o ópico pa a á ios egis os indi iduais e desconec ados,
alimen ando uma ambi alência que ica po esol e . Como é que, com base
em múl iplos agmen os e di ecções con á ias, es as ob as azem a a ena da
ins alação aguen a -se po si? Como é que o mam um odo consis en e?
Como nos já oi possí el a lo a , o p og ama de a e ambien al de Oi icica
o e ece-nos uma pis a pa a pensa o espaço cons uido po T opicália e o
Ja dim como ambien es a ís icos que conju am a uni icação expe iencial da
peça como um odo de en ol ência e subme são. Des e modo, a composição
do espaço da ins alação p ocessa-se a a és do pe cu so expe iencial ilhado
pelo espec ado , pela o ma como es e desenha linhas conec an es sob um
plano esqua ejado em zonas senso iais pa cialmen e es anques, como é o
caso em T opicália, ou se con on a com a mudez absu da, senão hie á ica, da
'es u a' de B ood hae s. O ambien e esul a do conjun o das in e ações que o
espec ado es abelece com o meio a ís ico, sendo ele o cen o ac i o e elo de
ligação de oda a en ol en e. Sob es e ângulo podemos coloca o uso do
ele iso no Pene á el ou o ci cui o echado de ídeo u ilizado no Ja dim de
In e no como con a-pon os semió icos às palmei as, ou seja, como signos
que se si uam do ou o lado da opicalidade e exo ismo de enxe o, sendo
inco po ados no espaço o al da peça po ia da ajec ó ia açada pelo
espec ado , o conec o subjec i o dos elemen os e zonas de expe iência
dispa es. Como uma supe ície de decalque, na sua dimensão ambien al a
ins alação cimen a o odo de in ol ência a a és das di e sas geome ias que
se ão desenhando, mas deixa a equi ocidade uncional e semiológica das
peças in ac a, man endo-se es a como um p edado 'cul u al' e semió ico que
acompanha o aça 'espon âneo', semp e p on a a in e ompe a con inuidade
e linea idade da expe iência do espec ado , p es es a sacá-lo da ealidade
na u al do ambien e e insc e ê-lo num ou o mundo mais agmen á io e
a i icial, a cena.
A i mamos an e io men e que a dupla unção de ambas as ins alações,
o a deco a i a o a cenog á ica, si ua a espec i amen e o espec ado , ou
como sujei o con empla i o ex e io à peça ou como ac o insc i o numa
si uação de pe o ma i idade. Pa ece-nos con udo que a ins alação é, no seu
se a ís ico mais p imo dial, a cons ução ma e ial e opológica de um pô -
25
em-cena que sob epõe necessa iamen e a dimensão cenog á ica sob e a
con empla i a, ans o mando es a úl ima num ac o pe o ma i o onde
obse a passi amen e é, pa adoxalmen e, ac ua sob e a a ena si uacional da
peça. No balanço en e a deco ação e a encenação de gos o ' opical' ou
'exó ico', ins ala-se um espaço de insc ição cenog á ico que cap u a o
espec ado pa a o seio de uma si uação onde ele é in e pelado como agen e e
ac o . Independen emen e daquilo que aça ou deixe de aze , ele az pa e da
a ena cénica que, po um lado, já lá es á e, po ou o, só exis e
e dadei amen e na sua p esença. Con a iamen e ao que acon ece na
en ol en e a ís ica, o espec ado deixa de se o cen o subjec i o de
sedimen ação do odo ambien al e ê-se acossado po uma ealidade
agmen ada e animis a, que o con oca opicamen e. Do pon o de is a do
sujei o, a cena posiciona-se como uma a ena de con on o com a ealidade
'objec i a' da ob a, sendo es a po oada po uma a iedade de elemen os
indi iduais de solici ação, po objec os subjec i ados que o in e pelam.
Como cena, cada ins alação mon a o seu espaço cenog á ico p óp io, uma
única si uação de ansiedade e pe o ma i idade que passa, na sua
'ma e ialidade animis a', po uma mul iplicidade de momen os que
e ec i amen e põem em palco um e i ó io de en en amen o en e a
o alidade si uacional e cénica e o agmen o (pon o in e pela i o). Seja nas
á ias zonas senso iais desenhadas a égua e esquad o po Oi icica ou na ia
opacidade dos ade eços de B ood hae s, que ade em du idosamen e ao gos o
'exó ico' da bu guesia clássica, a o alidade ambien al ê-se sob a cons an e
ameaça de um ag egado cénico que se mani es a desinco po ado e
caleidoscópico, onde cada componen e é um agmen o de um odo que não é
mais que uma ilusão, ainda assim necessá ia à mon agem da si uação cénica.
A ilusão de um odo cénico é, nes e sen ido, o que é p imei amen e pos o em
cena pela ins alação.
A imagem- ei a
No seu es udo sob e cinema, e a p opósi o de uma discussão em o no da c ise
do cinema clássico que se e como de an ecâma a ao cinema mode no, o
ilóso o Gilles Deleuze e e e-se ao conjun o cinema og á ico elabo ado
du an e es e pe íodo ansicional como “lacuná ia” e “dispe sa” po con as e
à plena consis ência das imagens p oduzidas na des anescen e época
6
clássica. Nes e con ex o, Deleuze ê nos clichés que po oam a cena um
elemen o de ligação do conjun o que, pe dida a consis ência do esquema
sensó io mo o que supo a a imagem do cinema do p é-gue a, encon a-se
sob a ameaça de se agmen a . Es a é uma imagem pode osa do cliché que se
adequa ao nosso es udo.
O que são as palmei as en azadas, as ep oduções de es ampas de
6. C . Gilles Deleuze, Cinema 1 - a imagem-
mo imen o. Lisboa: Edi o a Assí io & Al im, 2009,
pp. 280-2.

animais e os papagaios em gaiolas, senão clichés? Ambas as ins alações são
po oadas po imagens- ei as que, na sua amilia idade e imedia ez de
signi icação, o mam um p imei o ní el de consis ência subjec i a.
T opicália, pela pon uação do espaço en ol en e com mo i os supos amen e
' opicalis as', e o Ja dim de In e no que, num ce o sen ido, não é mais que a
cons ução de um ecin o ob uso cons uido com base em imagens- ei as
insc i as num déco ic ício e i ónico, azem do cliché o elemen o que,
pa adoxalmen e, cola os elemen os dispe sos das e e idas peças,
cons uindo um odo abe o mas consis en e. Sob es e ângulo, as duas
ins alações sedimen am uma ce a solidez emá ica, mas apenas po ia da
uni o midade amilia e o ges o i ónico ealizado pelo disposi i o do cliché.
O pu a i o ema da peça o na-se assim num plano signi ican e onde odo um
uni e so compos o po áceis econhecimen os e signi icações dadas se dá a
e , si uando o espec ado no con o á el e eno ípico da ep esen ação
ideológica e me can ilização cul u al. Daí que os ade eços opicais e
exó ico-bu gueses uncionem de o ma ão e icaz como imagens i ónicas.
Com e ei o, ha e á algum cliché que, na sua ob iedade e edundância de
signi icação, não aga consigo uma conside á el dose de i onia? Mas como
nos lemb a Deleuze, po si só, a i onia ine en e ao cliché não nos le a mui o
longe is o se ela o e eno é il sob o qual os elhos clichés se alimen am e
de onde ou os no os b o a ão. Ainda que deses abilize momen aneamen e a
unidade supe icial do demasiado amilia , o om sa cás ico de T opicália e
do Ja dim de In e no não pode se i como mecanismo de edenção do
espaço da ins alação, unindo emá ica cul u al e con eúdo a ís ico, nem ão
pouco das imagens- ei as que lhes se em como de supo e, ainda que seja a
pa i des a supe icialidade inicial que a cons ução de uma no a o ça
imagé ica se o na possí el. Pa a onde nos le a pois a imagem- ei a?
De ol a à ege ação quen e. Pela pa en e a i icialidade do en aza-
men o, ba a o no caso da ins alação de B ood hae s, e necessa iamen e
desen aizado, con on amos a p óp ia alsidade que o mo i o opical e o
exo ismo domés ico p opõem, ou seja, en en amos uma ealidade ei a a
pa i da noção de alsidade mas ambém a possibilidade de acede à e dade
7
que só o cená io ei o de ca ão pode conju a . Pode-se a gumen a , com
alguma legi imidade, que as palmei as e os ou os o namen os des azem,
a a és da sua i onia de pechisbeque, a noção de au en icidade e pu eza da
p oximidade opical e dis ância exó ica, desmon ando a ela ideológica e a
ixação e ichis a que as cob e e mos ando-as como as me cado ias que
ealmen e são. Nes e sen ido, elas põem a nu a c ua ma e ialidade dum
sis ema capi alis a endencialmen e global e luido, onde os mecanismos de
anco agem local e de ep esen ação do longe são me os mo i os de e i o i-
alização ideologica e come cial. Es a é uma in e p e ação que se ap oxima da
p oblemá ica sócio-his ó ica que o abalho de Oi icica e B od hea s alen am,
sejam as con adições que o ápido p ocesso de mode nização do B asil
7. Deleuze in oduz a noção de cliché no con ex o do
su gimen o do neo- ealismo i aliano po
con aposição ao ealismo 'c u' do cinema ame icano
clássico. Po ia do cliché, a imagem ' ealis a' de
uma no a ealidade, dupla e secundá ia, o ma-se:
“O aze also o na-se o signo de um no o ealismo,
po oposição ao aze e dadei o do an igo.”
(Cinema 1, p. 282)
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en ol e, azidas à luz po peças como T opicália, sejam os escomb os da
subjec i idade bu guesa clássica sob e os quais a ob a do a is a belga se
cons ói.
O cliché não é po an o o sinal de e elação da ealidade c ua que se
esconde do ou o lado da sua epidé mica alsidade. O que nos o ien a pa a um
ou o caminho, que se e de an ecâma a pa a a cons ução de uma a ena
a ís ica de ansiedade e con on o, e ambém de abe u a e explo ação, é o
modo como es e se inse e na si uação cénica. Não pois é o des elamen o das
elações sócio-ma e iais que se escondem po de ás da me cado ia de
imagem 'na u al', mas cus o ba a o, e de p odução indus ial (o papagaio-
me cado ia ou a plan a-me cado ia), nem seque o econhecimen o do
ca ác e ilusó io e p oblemá ico da ideia de opicalidade mode na ou a noção
de subjec i idade impe ial bu guesa que o cliché con adi o iamen e nos dá a
possibilidade de acede . Pelo con á io, a e dade que o cliché nos dá a e
não é o mundo ' eal' que se ocul a po de ás da alsidade da imagem- ei a,
mas a sua comple a supe icialidade. O cliché nada esconde. Ele não possui
um in e io ou uma alma p o unda que nos mos a como as coisas ealmen e
são. Ele é pele e ácuo e po de ás de si es a somen e a imagem dum azio
monumen al. É esse azio que, insc i o no espaço cenog á ico da ins alação,
nos con on a e in e pela em p imei o luga . A pa i da supe icialidade
p imo dial e edundan e da imagem- ei a um mo imen o con adi ó io, mas
necessá io, se inicia. Es e mo imen o nasce da pa alisia es á ica c iada pelo
con on o com um objec o que, po nada nos dize , pe manece enigmá ico e
hie á ico, e pelos azos comunican es que, pa indo desse silêncio, se
es abelecem en e os á ios clichés. Po nada nos e em a dize , eis que as
imagens- ei as começam ala . Pelo cliché en amos pois numa ou a
ealidade onde o papagaio se i a e começa a ala com a ege ação que po
sua ez esponde ao ele iso ou, no caso do Ja dim de In e no, onde as
es ampas iniciam um diálogo com as palmei as que se ol am pa a a
p ojecção do ilme Un Ja din d'Hi e (ABC) debi ando qualque coisa. Mas
es a ealidade é ambém ei a de monumen os es anques e que nos en en am
e nos azem pa a e es emece . Ou seja, é a pa i do uni e so dos clichés que
a cena se o ma como zona de pe o ma i idade e êx ase, como si uação de
delibe ação e acção. En e a caco onia comunican e de uma ealidade
'objec i a' que se anima e se subjec i iza e o en en amen o 'subjec i o' de
uma monumen alidade muda e ge-se a ealidade da ins alação como
si uação-cená io.
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