DISPOSITIVOS NA PRÁTICA
ARTÍSTICA CONTEMPORÂNEA #3
Edua da Ne es, Edi o a
Cen o de Es udos A naldo A aújo
Escola Supe io A ís ica do Po o
CEAA I
DISPOSITIVOS NA PRÁTICA
ARTÍSTICA CONTEMPORÂNEA #3
Edua da Ne es, edi o a
Ti ulo:
DISPOSITIVOS NA PRÁTICA ARTÍSTICA CONTEMPORÂNEA #3
Edi o :
Edua da Ne es
© os au o es e CESAP/CEAA, 2016
Design g á ico:
Jo ge Cunha Pimen el
Edição:
Cen o de Es udos A naldo A aújo da CESAP/ESAP
Apoio:
P op iedade:
Coope a i a de Ensino Supe io A ís ico do Po o
R. do In an e D. Hen ique, 131
4050-298 PORTO, PORTUGAL
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Fax: +351 223 392 101
Imp esso em:
LITOPORTO A es G á icas Lda
P imei a edição, Po o, Julho de 2016
Ti agem: 300 exempla es
ISBN: 978-972-8784-74-4
Depósi o Legal: 416687/16
Cen o de Es udos A naldo A aújo
Escola Supe io A ís ica do Po o
La go de S. Domingos, 80
4050-545 PORTO PORTUGAL
Tele .: 223392130 / Fax.: 223392139
e-mail: [email p o ec ed]
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NOTA INTRODUTÓRIA
Edua da Ne es
O SILÊNCIO DO TEMPO DO SILÊNCIO
Fe nando José Pe ei a
TECNOCULTURA SÓNICA
E no- ecnologia, música e Polí ica
Hugo Paque e
REFLEXÕES RAPSÓDICAS SOBRE ESPAÇOS
SONOROS E CRIAÇÃO MUSICAL
Isabel Pi es
7
9
13
33
Índice
(I) O silêncio do empo do silêncio, (II) Re lexões apsódicas sob e espaços
sono os e c iação musical, (III) Tecnocul u a sónica. E no- ecnologia,
música e Polí ica, espec i amen e de Fe nando José Pe ei a, Isabel Pi es e
Hugo Paque e, con igu am mais uma edição do li o Disposi i os # 3.
Na sequência do p ojec o que deu o ma à edição Disposi i os # 2, cada um
des es con ibu os dá con inuidade, no e i ó io das a es plás icas, da música
e da a e sono a, ao p og ama de uma es é ica in ínseca dos modos de
exis ência como úl ima dimensão dos disposi i os, equacionada po Gilles
Deleuze.
Re lec indo sob e a p á ica a ís ica, os au o es desen ol em uma
ap oximação c í ica e singula à con empo aneidade, assim nos con on ando
com os seus múl iplos desdob amen os.
Edua da Ne es
NOTA INTRODUTÓRIA
15
“on ological”, “p agma ic” e “phenomenological”, pa a uma análise da
ecnologia, e ap esen ando um caso de aplicabilidade c í ica des a
3
me odologia na análise de uma ob a a ís ica, in i ulada De il music , 1985 de
4
Nicolas Collins , como ambém do ci cui o cul u al da ecnologia que se
ca ac e iza po ês p incípios: in e ação, conhecimen o e expe iência.
Me odologias que se o nam undamen ais pa a a cla i icação do impac o da
ecnologia na cul u a e na cons ução de no os pa adigmas e e o mulação de
no os obje os de es udo como a ecno-e nologia.
Pala as-cha e: E nomusicologia, Tecnologia, Tecnocul u a, E no-
ecnologia, Música.
E no- ecnologia
O conjun o de a igos ap esen ados no li o Music and Technocul u e (2013)
de René Lyslo e Leslie Gay são um impo an e con ibu o pa a o ap o unda
do impac o da ecnologia na música e na cul u a, açando um conjun o de
p oblemá icas ine en es ao enómeno musical. Es e documen o p o ém do
encon o o ganizado em 1995, na Reunião da Sociedade de E nomusicologia
(SEM), e en o desen ol ido nos Es ados Unidos, em Los Angeles, que inha
como obje i o ap esen a um conjun o de e lexões sob e o impac o dos
con ex os in o ma i os ecnológicos e de comunicação da sociedade dos
media, em pa icula no áudio e na p á icas cul u ais que en ol em o
enómeno musical. Es e documen o ap esen a uma in e essan e expansão do
obje o de es udo da e nomusicologia, ala gando o en endimen o de “cul u a”
e da “cul u a musical” numa cons ução que possibili a no as abo dagens
pelo impac o da globalização, ci culação de con eúdos, modelos e e e ência,
que e minam na pe inência de de ini , como os au o es mencionam, uma
e nomusicologia da ecnocul u a, que de e se en endida da seguin e
manei a: um es udo e nog á ico da cul u a musical endo como e o o
impac o da ecnologia na cul u a.
A ap esen ação do concei o de ecnocul u a e e como obje i o a
p ocu a de uma mudança de pa adigma, pa a que a e nomusicologia não
u ilizasse unicamen e como obje o de es udo as mani es ações a ís icas
“Folk”, ou mani es ações a ís icas mais conec adas com a an iguidade, “a o
p imi i o”, adicional da música. Numa ou a pe spe i a, um es udo da
ecnocul u a, do impac o da ecnologia na p odução cul u al musical,
possibili a a ambém um dis anciamen o com as discussões analí icas da
3. h p://www.nicolascollins.com/de ilse up.h m.
Acedido em 20 de Junho, 2016.
4. h p://www.nicolascollins.com/. Acedido em 20 de
Junho, 2016.
Não se ou ia um som, a não se o uído aba ado das u binas e a espi ação
ampli icada dos lu ado es.
-William Gibson, Neu omance : 1984
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“indús ia” musical e dos seus agen es mais adicionais, de di usão, egis o e
p og amação. Um dos p incipais concei os que se encon a p esen e no li o
é como a e nomusicologia se de e adap a às no as mani es ações cul u ais e
como esses enómenos, po impac o ecnológico, êm ans o mado o campo
de es udo, onde a e nomusicologia se con on a com enómenos é nicos
alimen ados pela ele icidade, ligados à co en e e em con ac o com
con ex os anscul u ais, em suma, globais. O e nomusicólogo de e
comp eende as implicações des as ans o mações na sua p á ica e nos seus
p ocessos, is o que a sua me odologia de abalho de campo en ol e
ecnologias cada ez mais so is icadas - g a ado es de áudio, ídeo,
compu ado , complexos so wa es de edição e dis ibuição de con eúdos no
espaço eal ou na web, en e ou os. É necessá io man e um olha a en o
sob e o mundo pa a que a disciplina da e nomusicologia possa ein en a -se,
analisando a ecnologia e a sua implicação na cul u a, sabendo que exis em
p ocessos em que a ecnologia é u ilizada endo em conside ação
pa icula idades locais, sendo conside ada libe ado a ou op essi a. É
impo an e e e i que o abalho do e nomusicólogo es á cons an emen e
mediado pelos meios de documen ação, que são ecnologias e, desse modo,
encon a-se semp e uma necessidade de egis o, pe pe uação e
documen ação dos e en os, obje os de es udo do “ ield”. O conjun o dos
ex os in eg ados nes a publicação acen uam es e a o e p ocu am e le i nas
suas implicações, in eg ando es a ac ualidade numa abo dagem concep ual
que designam como Tecnocul u a.
Des e modo, numa en a i a de encon a uma e imologia do e mo,
ap esen o o concei o de ecnocul u a de Ad ew Ross (1991) e René Lyslo
(1997), “ e e s o communi ies and o ms o cul u al p ac ices ha ha e
eme ged in esponse o changing media and in o ma ion echnologies, o ms
cha ac e ized by echnological adap a ion, a oidance, sub e sion, o e
esis ence.” (Lyslo , 1997). Os p ocessos de esis ência e adap ação são
impo an es elemen os de como no os mecanismos ecnológicos impõem
no as o ganizações concep uais, sob e os usos e con ex os cul u ais onde a
ecnologia ope a. Não comp eendo a ecnologia unicamen e como uma
imposição mecânica, “obje o”, nas nossas dinâmicas sociais, mas como um
p ocesso cul u al da “ação a i icial” que é o compo amen o humano po
oposição à “ação na u al”, da na u eza em es ado sel agem. A ecnologia hoje
encon a-se conec ada com múl iplos signi icados sociais que são
necessá ios analisa , po que a ecnologia no con ex o social dos g upos e suas
in e ações ganha uma dimensão simbólica que a ua o a dos seus
uncionamen os e obje i os. Digamos que o obje o ecnológico na
ecnocul u a não é somen e um obje o uncional, mas ambém um símbolo de
es a u o, p es ígio e elemen o de ep esen ação social numa polí ica de
economia de ocas.
Na a gumen ação de Ross, a e nomusicologia da ecnocul u a
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p eocupa-se com a o ma como a ecnologia implica p á icas cul u ais ligadas
à exp essão musical, a a essando odas as mani es ações e g upos, da
cul u a mais ele ada às con acul u as. A ecnologia a a essa, no espaço
con empo âneo, odo o social con ibuindo pa a no os compo amen os e
o mas de conhecimen o, discussão e ap o undamen o das mani es ações
musicais cul u ais, desde a cul u a dominan e a é às ins i uições. Digamos
que as ecnologias e a indús ia que as o necem, não se mani es am
simplesmen e na sua elação económica e écnica, são um impo an e
elemen o de ge a no as possibilidades: po um lado, meios écnicos pa a a
p odução musical que ans o mam a o ma como é concep ualizada e
p oduzida e, po ou o, a condição da indús ia cul u al con empo ânea que
undamen a o “ olk” ou ou as mani es ações musicais é nicas, como mais
um sis ema polí ico de ocas cul u ais, na cons ução de um géne o es é ico
“é nico”, mediado cul u almen e pela máquina dos agen es e ins i uições.
Os au o es e e em que exis e uma ensão cons an e en e ecnologia e
cul u a, p incipalmen e nos es udos mais “ adicionais” da e nomusicolo-gia,
mas demons am que no con ex o a ual é pe inen e uma mudança de
pa adigma, is o que a ecnologia não somen e co ela a as nossas a i idades,
como ambém az pa e in eg an e das nossas a i idades como um elemen o
p edominan e. Mas a e dade é que a e nomusicologia mais “ adicional”
semp e u ilizou a ecnologia como um meio de documen ação e o
e nomusicólogo é aconselhado a u iliza esses mesmos meios de egis o
documen al. A ecnologia pe mi e, nes e con ex o de documen ação, ge a
um espaço de dis anciamen o com o obje o es udado, pa a que num p ocesso
de di e ido seja analisado o a do seu con ex o e po in e mediação
ecnológica. A e dade é que ainda não emos uma ecnologia que consiga
egis a oda a complexidade da ealidade, são semp e egis os agmen ados
de odas as in e ações e ac ualidades do “ ield”. Os au o es azem e e ência
a algo que me pa ece impo an e salien a : Os documen os “objec os de
es udo” que o e nomusicólogo ex ai do seu campo, “ ield”, são semp e
agmen os ans o mados em obje os de es udo: isolados do caos uidoso da
ida eal, o nam-se analisá eis, manipulá eis e explo á eis. Po que a
ecnologia semp e e e um papel undamen al pa a o e nomusicólogo,
po que a e olução da sua disciplina acompanhou e oi mo ida pelo
desen ol imen o dos p ocessos po á eis e ixos de g a ação áudio. Es e
a o é la gamen e econhecido pela comunidade. Es es concei os do impac o
das ecnologias na p á ica do e nomusicólogo são ap esen ados com ecu so
aos concei os de Helen Mye s (1992:84), mencionando como a au o a apon a
a necessidade de cuidados especiais com os equipamen os de g a ação, pa a
que os egis os enham qualidade e sejam iá eis enquan o ep esen a i os
dos obje os de es udo. Pa a Maye , a qualidade da documen ação é
undamen al pa a a e nog a ia a desen ol e , in e e e na sua qualidade.
Tendo em is a es a obse ação, o e nomusicólogo e a sua p á ica são
in e dependen es da ecnologia po in luência di e a des a.
Um ou o concei o in e essan e que é desen ol ido, pa indo da
e lexão de Richa d Middle on (1990:146), é o de sob e i ência que mo e
uma necessidade bu guesa de documen a , p ese a a música do p imi i o e
do exó ico, as suas adições, des u ando dos p aze es do exo ismo no
negócio, numa abo dagem de polí icas de oca, onde o exó ico e o p imi i o
se ans o mam em mais um sis ema negociá el. Pa a Middle on, es a
abo dagem não passa de mais um p ocesso de colonialismo. Uma en a i a de
p ese ação do a o iniciá ico, ans o mado em p ocesso de oca económica
e cul u al pa a o mundo ociden al, no negócio de c ia exo ismo, seja nas
mani es ações cul u ais adicionais ociden ais ou nas p imi i as. É um
p ocesso mo ido pela necessidade de anula o desgas e do esquecimen o.
Não podemos exclui nes a eng enagem a p oblemá ica do au ên ico.
O que p ese a nes e sis ema cul u al? Os au o es colocam a ques ão de uma
o ma bas an e pe inen e, is o que é uma p eocupação do abalho do
e nomusicólogo o alo da au en icidade, mesmo que o e mo seja
cons an emen e e i ado. Tal ez es e enómeno seja mais e iden e po que a
ecnologia pe mi e a obse ação do obje o de es udo em di e ido e, po sua
ez, a sua alo ização e au en icidade, endo como base elemen os do seu
egis o, o og a ias, g a ações áudio e ídeo, en e ou as. Tal le a James
Cli o d a menciona que “cul u e a e e hnog aphic collec ions” (Cli o d,
1988:203). Todos es es p ocessos são acompanhados po uma elação com o
pode , no que diz espei o às polí icas de in es imen o, nas ecnologias e nos
p oje os de in es igação.
Um ou o elemen o que é apon ado é a elação da dis ância com o
obje o de es udo, dos na i os e do seu espaço geog á ico pa a com o
in es igado . A e nog a ia cons ói, des e modo, um e alho de mani es ações
cul u ais, e nog a ias que impõem uma isão da dis ância do in es igado
pa a com o obje o de es udo. Acompanhada pela ecnologia de g a ação é a
análise desses mesmos elemen os que, no inal, são con ex ualizados com
uma dis ância da nossa posição ociden alizada, con o á el e académica. O
que se suben ende nes a e lexão é que um olha inocen e não exis e e udo é
uma cons ução cul u al e polí ica. Po ou o lado, indica um ou o a o que é
a comp eensão do enómeno musical, obje o i ual num con ex o que não é
somen e musical, mas azendo pa e de uma dimensão mais simbólica da
cul u a. A música é mais um elemen o in eg ado num odo i ual que, quando
escu ada em di e ido do seu con ex o inicial, no con o o das nossas casas ou
ins i u os, nada em da complexidade da sua unção no con ex o de onde
p o ém. T ans o ma-se simplesmen e numa es é ica exó ica pa indo dos
nossos alo es ociden ais. Digamos que a dinâmica das ocas cul u ais é
ambém ela uma opção polí ica, ab e a possibilidade de um no o me cado que
se apoia numa es é ica-é nica, adia de uma máquina cul u al de agen es,
cu ado es, edi o as e ins i uições, ge ando um sis ema cul u al, onde se ec ia
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o é nico, o adicional e o ibal como “a -cul u al-sys em” (Cli o d,
1988:200). A a e como um sis ema cul u al associado à música é nica em
e le i o p oblema das simulações e a necessidade de esis ência con a o
esquecimen o dos i uais, e e en es iniciá icos cul u ais, pe pe uando po
um p ocesso de simulação, po ezes anscul u al, os aços cul u ais de uma
ci ilização, o que e ela o ca ác e in empo al da a e. O au ên ico dilui-se
nes e sis ema poli izado, em que se p ocu a pe pe ua o au ên ico, “pu o”, o
som au ên ico do a o inicial, mas esse p ocesso, além de en a imi a o
passado, ambém o ans o ma na en a i a de o en a pe pe ua , “simula ”,
deixando de conside a a sua e olução. En ão c is aliza-se o obje o de es udo
com o obje i o de o sal a po um p ocesso de encenação.
Ou o a o que os au o es apon am é a impo ância da ecnologia
assumi di e en es signi icações em di e gen es con ex os cul u ais,
subcul u as e classes, podendo a é exis i uma ap op iação das ecnologias
pa a ou os p opósi os uncionais e con ex os. Es e enómeno é e iden e no
mundo a ual, pela implan ação e mul iplicação dos meios ecnológicos que
a a essam odo o ecido social e suas in e ações, sendo nesse p ocesso que se
ge a a cul u a. Podemos u iliza como e e ência a u ilização do gi a-discos
po pa e dos dj. Es a ecnologia e oluiu pa a se o na um ins umen o, um
meio ecnológico que quando in eg ado no con ex o social me amo oseou-
se pa a se econ igu a como um ins umen o musical e não somen e um meio
de ep odução de discos de inil. Podemos a é apon a que es a me amo ose
ge ou oda uma no a es é ica musical, de agmen os, combinações e
ap op iações, colocando em causa a au o ia e os mé odos de composição e a
sua au en icidade. Michael Mense e S anley A onowi z (1995) e e em que
oda a cul u a na a ualidade, po impac o das ecnologias, são ecnocul u as,
exis indo uma di e si icação dessas mesmas ecnocul u as,
“T ucke s and cybe punks, ap musicians and conce pianis s,
e en hippies and Amish all employ echnologies in such a way he
cul u al ac i i y is no in elligibly sepa a e om he u iliza ion o
hese echnologies.” (Mense and A onowi z,1995:10)
Me odologia de análise c í ica sob e a ecnologia
Toda es a a i idade da u ilização das ecnologias e usabilidade em
implicações no con ex o social e não se podem sepa a das no as dinâmicas
cul u ais. Tendo em conside ação alguns dos a gumen os ap esen ados, ou
começa po en a cla i ica o impac o da ecnologia na sociedade,
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Os Mode nos e am me cená ios, amigos de p ega peças e ecno e ichis as.
-William Gibson, Neu omance : 1984
ap esen ando ês me odologias p opos as po René Lyslo e Leslie Gay pa a
a sua análise: “on ological”, “p agma ic” e “phenomenological” (2003).
A análise on ológica de e mina que a ecnologia cen a-se no obje o,
ádio, compu ado , , g a ado de som, CD, en e ou os.
A análise p agmá ica de e mina como a ecnologia é u ilizada, as
p á icas e o mas de ob enção de conhecimen o pa indo da sua u ilização,
ci cui bending, da amoching, u n ablism, compu e hacking en e ou os.
Po úl imo, a análise enomenológica cen a-se nos impac os da
ecnologia de o ma indi e a, na sua elação não uncional mas de signi icado.
Um p ocesso que pode se en endido na o ma como os a is as/músicos
concep ualiza am algumas das p á icas do pós-digi al, ques ionando os
p ocessos da máquina e da ecnologia, na en a i a de e idencia em
singula idades e e os nos seus uncionamen os, que não são mais do que
es ados de au onomia que e elam os uncionamen os in e nos e a saída do
seu p og ama uncional. Um exemplo que é ap esen ado po René Lyslo e
Leslie Gay é o do au omó el que se ans o mou, não somen e num eículo e
disposi i o ecnológico, mas ambém num elemen o de a i mação social,
moda e es a u o. Elemen os simbólicos que não azem pa e do au omó el
enquan o ecnologia.
Me odologia de análise c í ica sob e o ci cui o cul u al da ecnologia
A ecnologia é obse ada, nes e ex o, pa indo dos seus disposi i os como
um sis ema de múl iplas elações condensadas de cul u a, modos de
u ilização e signi icações simbólicas; é obse ada como é u ilizada,
ans o mada e ap op iada como um meio de ob e conhecimen o. Es a
ob enção de conhecimen o não acon ece de modo casual. É po que a
ecnologia não é simplesmen e um obje o, uma coisa, que ela pe mi e um
conjun o de in e ações que ge am expe iência e que se ajus am às
con eniências dos u ilizado es. Es e ajus a às necessidades pode se po
uncionalidade di e a ou po ans o mação po pa e do u ilizado , o que
implica um conhecimen o das suas ca ac e ís icas pa a as pode manipula ou
ques iona . Ge a um ci cui o cul u al de e minado de modus ope andi que se
ca ac e iza po ês p incípios: in e ação, conhecimen o, expe iência.
A in e ação implica uma elação di e a com a ecnologia, oca um
ins umen o, caixa de i mos, sample, en e ou os.
O conhecimen o en ol e sabe o signi icado do enómeno, concep u-
alizando o a o de in e ação, cons uindo uma dimensão dos seus limi es
uncionais, de u ilização, os seus usos e ambém a sua cons ução ísica,
Os olhos e am ansplan es Nikon, de cul u a, e de-ma inhos.
-William Gibson, Neu omance : 1984
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o ma, ma e iais e design.
E, po úl imo, a expe iência implica conhece a ecnologia no seu
p esen e, passado e u u o, explo ando a o ma como a ecnologia se encon a
p esen e na ida e como esse a o in luencia os modos como
comp eendemos a sua p og essão e e olução pela his ó ia da écnica, modos
de u ilização, e oluções o mais e a é in e p e ações e signi icações
simbólicas de es a u o ou de g upo, época e cul u a.
A u ilização des as me odologias de análise on ológica, p agmá ica e
enomenológica pe mi e conhece e ap o unda as implicações que a
ecnologia em na p odução cul u al, na cognição e usabilidade humanas po
in e médio das in e ações, conhecimen o e expe iência. Es es concei os são
undamen ais pa a comp eende mos como é que a ecnologia e sua
usabilidade podem muda em di e en es con ex os sociais, linguís icos e
cul u ais. Po ou o lado, a ecnologia sem u ilização po pa e dos agen es
humanos o na-se um elemen o obsole o, sem signi icado e es i uído a um
espaço de elicá io, “dead objec s” (Lyslo and G ay, 2003:8).
Langon Winne az sob e es a elação da ecnologia com a polí ica,
o ganização e pode uma in e essan e obse ação:
“I we examine social pa e ns ha comp ise he en i onmen s o
echnical sys ems, we ind ce ain de ices and sys ems almos
in a iably linked o speci ic ways o o ganizing powe and
au ho i y. (Lyslo and G ay ci Winne , 2003:7)
Análise c í ica da ob a De il music de Nicolas Collins e o seu se up.
Como odos os modelos eó icos de em se es ados, p oponho que
e e uemos uma análise c í ica da ob a De il music, 1985 de Nicolas Collins,
u ilizando o modelo ap esen ado po René Lyslo e Leslie Gay (2003), na
comp eensão do impac o da ecnologia na cul u a. Modelo esse que se di ide
em ês p oposições analí icas: on ológica, p agmá ica e enomenológica.
Es e modelo é ambém ala gado à comp eensão da ecnologia no seu modus
ope andi, que se ca ac e iza po ês p incípios: in e ação, conhecimen o e
expe iência. Es a análise do modelo ap esen ado em como obje i o, não só
analisa a componen e a ís ica, ecnológica e o mal da ob a mas, acima de
udo, en a encon a a sua dimensão simbólica, na manei a como a
ecnologia é u ilizada a ualmen e, como um sis ema de símbolos ou
disposi i os linguís icos, écnicos e o mais, pa a ca ac e iza um momen o
his ó ico, em que a écnica e as ecnologias se em um p opóso o ou sis ema
as ecnologias em expansão necessi a am de zonas o a da lei
-William Gibson, Neu omance : 1984
21
ilosó ico de abo da e ca ac e iza o eal e suas implicações. Es e p ocesso é
acompanhado po um sabe aze , manipula e ques iona a p óp ia
uncionalidade dos disposi i os ecnológicos, em unção de exp essões e
abo dagens mais pe sonalizadas. En enda-se 'pe sonalizadas' como uma
abo dagem à ecnologia, em que o usuá io manipula, al e a e ge a no os
uncionamen os na máquina, sendo es e ac o possí el pela democ a ização
das ecnologias, no con ex o i encial dos usuá ios. Es e enómeno em
impac os na p odução, dis ibuição e concep ualização da ecnologia como
um aço cul u al da manei a como a nossa sociedade se exp essa a is i-
camen e, comunica e se ap o unda de ce o modo. Em alguns casos, é uma
exp essão polí ica, po que os a is as u ilizam a ecnologia em p ocessos
e e si os, de ci cui bending ou ha dwa e hacking, como é o caso da ob a
De il music e o seu se up.
Es a elação de ex apolação polí ica encon a-se na sub e são dos
uncionamen os p é- de inidos nas máquinas, ecnologias, em a o de no as
manipulações nos ci cui os que ge am no os uncionamen os e e en os
únicos, pe sonalizados. A p ocu a nos disposi i os e nas ecnologias pa a
e ela no as uncionalidades é indiciado de uma insa is ação pa a com a
massi icação dos uncionamen os, mecanismos e es a i icação do “igual”
das ecnologias. P ocu a-se uma o u a, um no o sis ema de imp e isibili-
dade, agmen o e pe sonalização do “di e en e”. Es e concei o de di e en e,
é uma con a a gumen ação polí ica da o ma como a ecnologia é u ilizada de
o ma pe sonalizada, com o obje i o de con ibui pa a uma e lexão que
apon e as ligações da ecnologia com um sis ema de pode , o dem e anulado
das di e enças e da c ia i idade. Digamos, po ou as pala as, que a
ecnologia ende a pad oniza as sociedades, seus compo amen os,
consumos e ideologias, seja po in luência dos media ou dos obje os.
Alguns a is as como Nicolas Collins êm a pa icula idade de
comp eende es as ensões e, num p ocesso a ís ico e c í ico, ão
desen ol endo as suas e lexões e me odologias. Nicolas Collins nasceu em
No a Yo k (1954), mas passou g ande pa e da década de 1990 na Eu opa
como a is a e di e o do STEIM em Ams e dam e como composi o ,
in es igado e bolsei o do p oje o DAAD em Be lim. Na sua ob a, semp e
desen ol eu um p o undo in e esse po música ge ada po compu ado ,
mic ocompu ado es em con ex o de pe o mances musicais ou mul imédia.
O au o ambém u iliza écnicas como o ci cui bending a pa da u ilização de
ins umen os acús icos con encionais. Podemos ainda menciona que é
che e do jo nal Leona do Music Jo nal e p o esso do depa amen o de som
na School o he A Ins i u e o Chicago, e au o do li o Handmade
Elec onic Music: The A o Hacking (2009) segunda edição. O a is a,
p o esso e in es igado é uma e e ência na música expe imen al ele ónica
pelo seu con ibu o pa a um c uzamen o disciplina en e a e e ecnologia.
Tem um as o epo ó io de in e essan es ob as, ins umen os e aje o de
22
pe o mance e e en os no seu cu ículo.
A ob a De il music de 1985, de Nicolas Collins, se e pa a
analisa mos como a ecnologia pode se al e ada em unção de u ilizações
mais pe sonalizadas e como um sis ema de e lexão sob e a sociedade e suas
con a iedades se o na desse modo um aço cul u al que ai além da sua
u ilização uncional po subs i uição de uma elação simbólica. O au o
desc e e a sua ob a De il music como “ a pe o mance piece abou global
media, local cul u e and indi idual in e e ence.” (Collins, 2009). Podemos
cons a a que nes a pequena de inição se p e ende uma e lexão sob e a
sociedade dos media, cul u a local e in e e ência indi idual. Es es concei os
e idenciam um ní el de ins abilidade que é p opos o pela ob a: po um lado, a
elação com a media global, que é enca ada como um sis ema de massi icação
agmen ada de in o mação e con eúdos, mis u ados e agmen ados po
in e mediação ecnológica, como pode emos obse a pela u ilização de um
adio na pe o mance, que o au o u iliza pa a p ocu a equências e es ações
po um p ocesso quase de colagem, agmen á io e imp e isí el. Ou o
concei o p esen e encon a-se na pala a cul u a que implica udo o que não é
na u al, que é cul i ado den o da dimensão humana, ap eendido e que ganha
signi icado num de e minado g upo e con ex o. Encon amos ainda a
exp essão de in e e ência indi idual, que além de e o ça a componen e
pe o ma i a, suben ende ambém uma a i ude mais a i a nos p ocessos de
desen ol imen o da ob a e sua implicação simbólica, polí ica e da u ilização
da ecnologia como um elemen o de con a cul u a.
O au o menciona que es a ob a em a in luência do HipHop e da
cul u a DJ, e e indo ambém John Cage e o esplendo da ádio, das suas
ondas e ansmissões.
Ou o ac o impo an e mencionado é a acessibilidade dos g a ado es
de samples. Es e a o pe mi iu uma democ a ização das ecnologias e, po
conseguin e, da exp essão da sua u ilização. Pa a a ealização des a
pe o mance, o au o u ilizou os seguin es equipamen os ecnológicos:
Elec o-Ha monix's 16 Second Digi al Delay and Supe Replay),
and a simple home-made “s u e ing ci cui ” (inspi ed, pe haps, by
my yea s as a s uden o Al in Lucie .)” (Collins, 2006)
Na composição De il music, elabo a-se uma cons ução po camadas,
agmen adas de sinais de ádio, o pe o me p ocu a en e as di e en es
es ações ma e ial sono o de in e esse, g a a-o e epe e po um p ocesso de
acumulação e epe ição po in e médio de delays, cons uindo, como o au o
menciona, um e ei o de “ e- hy hmi izes” (Collins, 2006) dessinc onizado,
com a iações empo ais di e enciadas. Todo es e p ocesso de acumulação
po camadas ai sendo cons an emen e ans o mado pela cons an e
in odução de no os sons encon ados na ádio e g a ados, epe idos. O au o
23
explo a es a elação de inde e minismo com o ma e ial que encon a na única
on e ge ado a de som que é u ilizada na peça, que é o adio: ondas AM e FM
são pesquisadas e in eg adas na ob a, ep esen ando a sociedade dos media e
oda uma camada de in o mação que se encon a disponí el no mundo. A
u ilização do ádio pode e duas lei u as nes a composição. A p imei a
lei u a é que o au o u iliza uma ecnologia p esen e no quo idiano, de ácil
acesso, que não em nenhuma especi icidade enquan o ins umen o u ilizado
no con ex o musical. Encon a-se mais p óximo das ecnologias e obje os do
quo idiano, mas ao mesmo empo é ambém a ecnologia que impulsionou a
sociedade dos media e, desse modo, em um ca ác e simbólico. Po ou o
lado, o au o a i ma que o adio é:
“I ha e long assumed he adio o be he wo ld's cheapes , ye mos
powe ul syn hesize : you can ind any sound ou he e; he only
ques ion is, can you ind he sound you wan when you wan i ?”
(Collins, 2006)
Es a pe o mance não u iliza ma e ial g a ado, o que con ibui pa a
que seja uma ob a abe a.
Tendo ca ac e ís icas cons an emen e di e en es, dependendo dos
países, luga es e das es ações ádio que são cap adas pelo disposi i o
ecnológico “ adio”, podendo se caó ica, uidosa ou í mica, consoan e a
imp o isação e ma e ial ap op iado.
Es a composição, pe o mance e ob a em abe o, i e da cons an e
eap op iação de samples que ão sendo combinados, sob epos os po
a iações de pi ch, p ocu ando cons an emen e um con ínuo onde não se
pe ca o e e en e o iginá io da g a ação, in eg ando con e sas de áxi, de
ele one, música de dança, en e ou os elemen os. São ans o mados com
ecu so a a iações de pi ch e elocidade com a ajuda de um disposi i o
cons uído pelo au o que pe mi ia “using a joys ick I adap ed o coo dina e
he de uning o wo sample s” (Collins, 2006). O au o cons ói as suas
ecnologias como uma o ma de encon a meios de in e ação, sono os e
o mais di e en es. Es a a i ude demons a ambém uma necessidade de
p ocu a no os modelos pe sonalizados de ecnologias que, po sua ez,
ge am exp essões de con a iedade con a o me cado mais indus ializado
das ecnologias de p odução de áudio ou ins umen os mais con encionais.
Es a a i ude demons ada pelo au o pode se comp eendida como uma
oposição à dimensão polí ica da ecnologia, como o dem e pode , es ando a
sub e são des es p incípios em causa po uma exp essão mais pe sonalizada.
Ou a ques ão que se le an a é a ap op iação dos sons, elemen os musicais ou
linguís icos que são a ma e ialidade des a ob a e das suas in e ações. O au o
copia e u iliza sons de ou os a is as que es ão a se emi idos nas ádios. A
ques ão dos di ei os de au o pode ia se colocada, mas es a é ambém uma
24
Collins, Nicolas: “Handmade Elec onic Music: The A o Ha dwa e Hacking”;
Rou ledge. (2009)
Collins, Nicolas: “Some No es On The His o y O De il's Music”;
h p://www.nicolascollins.com/ ex s/de ilsmusichis o y.pd . (2009)
Cli o d, James: “The P edicamen o Cul u e”; Camb idge: Ha a d Uni e si y P ess.
(1988)
Gay, J ., e Lyslo , René: “Music and Technocul u e”; Wesleyan. (2003)
Gibson, William: “Neu omance ”; www.libe a ianismo.o g/li os/wgneu omance .pd .
(1984)
Middle on, Richa d: “S uding Popula Music”; Mil on Keynes: Open Uni e si y P ess.
(1990)
Winne , Lagdon: “Do A e ac s Ha e Poli ics?”; Open Uni e si y P ess. (1999)
31
33
P elúdio
Compo com sons e a a és deles, pode dispô-los no espaço, seja azendo
desloca os músicos das suas posições habi uais pa a ou as que melho
si am a ideia composicional, seja eco endo a ecnologia elec ónica e/ou
digi al, pa a desen ol e sons pa icula es, simula mo imen os, camadas,
anspa ências, p o undidades, ges os, densidades, ex u as... Ou i , analisa ,
obse a , expe imen a aquilo que o espaço, ísico conc e o, ago a ambém
i ual sono o, pe mi e em e mos de ma é ia pa a a composição musical, em
sido uma das nossas p eocupações. Assim, ap esen amos aqui alguns
exemplos do a amen o desse espaço, ísico e imaginá io, eal e i ual, mas
semp e de c iação musical.
Re e imos nes e ex o composi o es que o am pa a nós exemplos
inspi ado es, modelos a segui , in luências no ó ias, seja em e mos de
composição musical de sons no espaço, ou de écnicas, de concei os e ideias.
Be io, S ockhausen, Boulez, Va èse, que aqui ci a emos, são apenas alguns
desses, de en e an os ou os, composi o es, in en o es, engenhei os e
pensado es que nos ize am cogi a sob e os espaços sono os e a c iação
musical, e sob e os quais, a pequenez des e ex o não pe mi e que nos
alonguemos.
Um no o mundo sono o
A ida an igamen e e a silenciosa. No século XIX, com a in enção
das máquinas, nasceu o Ruído. Hoje o Ruído é iun an e, e eino
1
sup emo sob e a consciência dos homens.
Es e ambien e u bano do início do século XX, ao qual se e e e Russolo, é
cada ez mais sono o: aglome ados de gen e, áb icas, ea es mecânicos,
au omó eis, comboios, a iões... Es a no a ida uidosa le a a a e, nas suas
múl iplas o mas, a e le i e in eg a a ealidade des e no o mundo cada ez
mais ecnológico. No meio musical, o desen ol imen o de ins umen os
elé icos e de sis emas de egis o de sinal áudio são elemen os
REFLEXÕES RAPSÓDICAS SOBRE ESPAÇOS SONOROS
E CRIAÇÃO MUSICAL
Isabel Pi es
1. “Li e in ancien imes was silen . In he nine een h
cen u y, wi h he in en ion o machines, Noise was
bo n. Today Noise is iumphan , and eins sup eme
o e he senses o men.” Russolo,Luigi: “L'a des
B ui s”, in Mo gan, Robe , The Twen ie h Cen u y,
Sou ce Reading in Music His o y. pp.59.
34
desencadeado es de uma i agem concep ual, écnica e es é ica.
Todas as mani es ações da ida são acompanhadas po uído. O
uído é po conseguin e amilia aos nossos ou idos e em a
2
capacidade de nos elemb a imedia amen e da p óp ia ida.
A e olução da ecnologia do supo e, do cilind o ao disco de ce a, do
shellac ao inil, da i a magné ica ao digi al, pe mi em o desen ol imen o de
um conjun o de expe iências sono as que esul am an o em es udos de índole
écnica como a ís ica, de expe iências em psicoacús ica à eme gência de
géne os musicais.
Com e ei o, a ixação do som, e possibilidade de ep odução num
espaço- empo di e en e, é al ez o passo mais impo an e pa a o despon a de
algumas es é icas e p á icas musicais especí icas que hoje conhecemos,
assim como pa a o su gimen o de concei os como o de espaços sono os que
pa a lá da música, se p opaga à a e em ge al.
Enquan o músicos nós somos ine i a elmen e in luenciados pela
descobe a de no os ins umen os ou no as manei as de aze a
música. O impac o de uma expe iência des e ipo ai colo i ,
modi ica nossos p óp ios 'bancos de dados', ai al e a a nossa
memó ia cul u al e as ideias que nós emos sob e odas as
3
músicas.
Som, uído ou música
Es e uni e so no o e imenso, esul ou ao mesmo empo das po encialidades
do compu ado e de enómenos sociais como e e imos acima. Os
desen ol imen os cien í ico e ecnológico i e am uma g ande impo ância
na p og essi a acei ação dos uídos p oduzidos pela ci ilização indus ial e
na sua g adual in eg ação na música.
A pala a som, no en an o, é em si mesmo ambígua: se po um lado é
uma sensação p oduzida po ib ações mecânicas que ao p opaga -se a a és
do a é capaz de imp essiona o nosso ou ido, po ou o, endemos a
dis ingui de o ma con ex ual ou mesmo a bi á ia sons musicais e não-
musicais, sons e uídos. Com e ei o, é a nossa sensibilidade audi i a, a
a enção, o con ex o, a imaginação que nos pe mi em classi ica de al e al
o ma uma de e minada sensação audi i a.
Russolo, no mani es o u u is a de 1913, “L'a des b ui s”, demons a
de o ma simples como um som se pode ans o ma em uído: pa a ele se um
4
som é uma “sucessão egula e pe iódica de ib ações” enquan o que o uído
é uma amálgama de mo imen os i egula es, não só a ní el de du ação mas
2. “E e y mani es a ion o li e is accompanied by
noise. Noise is he e o e amilia o ou ea s and has
he powe o emind us immedia ely o li e i sel .”
ibidem, p. 62.
3. “En an que musiciens, nous sommes o cemen
in luencés pa la décou e de nou eaux ins umen s
ou de nou elles maniè es de ai e la musique.
L'impac d'une expé ience de ce ype a colo e ,
modi ie nos p op es banques de données, change
no e mémoi e cul u elle ainsi que les idées que nous
a ons su ou es les musiques.”O iz, Pablo,
"En e ien a ec Ma io Da ido sky", in
Con echamps Nº 11, "Musiques Élec oniques", p.
149.
4. Russolo, ci ado in Na iez, Jean-Jaques, “Som /
Ruído“, in A es: Tonal / A onal, Enciclopédia
Einaudi, Vol. 3, p. 219.
35
5. ibidem p. 222.
6. “Nous sommes des musiciens e no e modèle es
le son e non la li é a u e, le son e non les
ma héma iques, le son e non le héâ e, les a s
plas iques, la physique des quan as, la géologie,
l'as ologie ou l'acupunc u e” G isey, Ge a d, ci ado
em: Hu el, Philipe, “ Le phénomène sono e, un
modèle pou la composi ion”, em Ba iè e, 1991, p.
261.
ambém na in ensidade desses mo imen os, é possí el ans o ma um uído,
i egula e ha monicamen e deso denado, num som musical bas an e
uni o me. Mas é Edga d Va èse que dá um passo decisi o no sen ido da
in eg ação do « uído» no espaço musical, queb ando a dominação de sons
pe iódicos, ha mónicos dos ins umen os adicionais e in oduzindo, de
manei a sis emá ica, « uídos» da pe cussão, ou ou os obje os menos
con encionais, na o ques a.
Como a i ma Jean-Jaques Na iez, “o musical não é senão o sono o
5
acei e po um indi íduo, um g upo ou uma cul u a” ou seja, como quem
decide que ipo de sons de e ou não inco po a nas suas ob as é o composi o ,
é sob e udo a sua a i ude es é ica que ans o ma os uídos em música, ou os
espaços em elemen os es u u an es da ob a.
Nós somos músicos e o nosso modelo é o som e não a li e a u a, o
som e não as ma emá icas, o som e não o ea o, as a es plás icas,
6
a ísica quân ica, a geologia, a as ologia ou a acupunc u a.
O nosso modelo é o som, de ac o aquilo que ou imos e imaginamos
em e mos de sons musicais es á é undamen o: como se cons oem, como se
mo imen am, como se compo am num espaço de escu a, é a ualmen e um
uma das bases écnicas undamen ais à composição musical. Mais que de
uma combina ó ia de no as, a música i e de sons!
Música e espaço
A espacialização do som musical não é um enómeno no o no nosso século.
Já no século XVI a basílica de São Ma cos de Veneza e a palco de
expe iências acús icas des e ipo. As cúpulas bizan inas da ca ed al
a o eciam as essonâncias e unciona am como espaços acús icos quase
independen es. Es e ac o pe mi iu aos composi o es daquele pe íodo a
ealização de á ias expe iências sepa ando g upos ins umen ais e co ais
pelas di e en es zonas da basílica. As es u u as an i onais de mui as ob as
e am acen uadas po di e enças dinâmicas que ajuda am a c ia e ei os de
eco. Gio ani Gab ieli, Ad ian Willae e Cip iano de Ro e, assim como ou os
composi o es que passa am po São Ma cus naquele empo, esc e e am
ob as eligiosas polico ais, onde o dis anciamen o dos co os no espaço e a
calculado no a o da composição pa a que a ob enção de de e minados e ei os
acús icos osse op imizada.
Mas a espacialização sono a no século XX e es e-se de uma
impo ância es u u al, em mui os casos c ucial pa a a comp eensão das
ob as. Se assim não osse, não se jus i ica ia odo o empenho dos
composi o es na de inição da localização p ecisa e da mo imen ação do som,
6. Te mo anunciado po Roy Asco e que se de ine
como. “C oss-sec o al sensibili y A new c ea i e
p ac ice, unnamed and unbounded, c osses he
domains o a , science, echnology, and philosophy,
bu is cen ed in none. I s p incipal conce n is wi h
mind, s a es o being, and he p ocess o becoming.”
7. Acedido em 8 de Se emb o de 2014. h p://www-
pw.physics.uiowa.edu/plasma-
wa e/ u o ial/ oyage 1/jupi e /bowshock/28800.wa
36
an o na Música Elec oacús ica como na música ins umen al. A
espacialização sono a o nou-se, no século XX, um ac o impo an e na
es u u ação das ob as musicais.
A Música Elec oacús ica eio amplia as possibilidades de
espacialização do som, não só possibili ando a c iação de ecos e essonâncias
a i iciais, que podem se colocados nos mais a iados pon os de uma sala de
conce o, mas pe mi indo que enhamos a sensação do som em mo imen o. A
concepção e desen ol imen o écnico que le a am à dinamização do
mo imen o sono o no espaço, de em bas an e à p eocupação com o espaço
sono o demons ada po Ka lheinz S ockhausen. Dedicamos po an o as
linhas seguin es à e e ência de algumas das mui as ob as de S ockhausen,
nas quais o ac o espaço em uma ele ância pa icula . Escolhemos ob as
en e 1955 e 1972. Es a escolha é de ida unicamen e ao uso as ucioso que az
S ockhausen, do espaço como ac o de es u u ação da ob a nes e pe íodo.
Ou os composi o es o azem no mesmo pe íodo, mas em meno escala. A
pa i da década de 70, no en an o, es a é uma endencia que se gene aliza,
o nando-se imp a icá el, nes e cu o ex o, enume a sis ema icamen e
odas as ob as nas quais o ac o espaço é um elemen o es u u an e desde o
a o de compo . Assim, do pe íodo pós 1970 ci a emos apenas algumas ob as a
í ulo de exemplo.
Depois das p imei as en a i as de implemen a sis emas com dois
canais de escu a, inicialmen e pela mão de Clémen Ade , que ap esen a o
Théâ ophone em 1881, o ad en o do p imei o sis ema s é eo, é apenas
desen ol ido em 1931, po Alain Blumlein pa a a EMI. Um sis ema de mais
de um canal de escu a pe mi e, manipulando apli udes e ou os pa âme os do
sinal, simula posições á ias de on es sono as, ou seja, au onomiza a
sensação de posição sono a em elação à on e emisso a — posição ixa do
al i alan e, po exemplo.
No con ex o des a possibilidade, a expe imen ação com a manipula-
ção do espaço sono o desen ol e-se: desen ol em-se as ecnologias, aumen-
am as possibilidades, c escem as ideias.
Encon amos alguns composi o es que, endo encon ado na Música
Elec oacús ica um campo é il pa a o desen ol imen o das suas ideias
musicais, não deixa am de esc e e música ins umen al. Alguns deles, como
Ma io Da ido sky êm uma concepção cu iosa do espaço no qual o som se
mo e. Sejam em ob as pa a ins umen os ou elec ónicas, começa po pensa
sob e o espaço acús ico que o som ai ocupa como se es e osse um cubo.
Depois começa a molda esse 'cubo' de modo que ele adqui a a o ma e a
dimensão imaginada pelo composi o .
A mobilidade acús ica dos sons elec ónicos, a modulação do
espaço, que é ácil em Música Elec ónica, são po consequência
«encas amen os» num cubo que é ele mesmo a ep esen ação de
37
um espaço acús ico ins umen al. G aças aos meios elec ónicos
eu posso modi ica o almen e a con igu ação do cubo, o na-lo
imenso, mui o pequeno, cu o ou a é pon iagudo. O esul ado é
uma c iação híb ida que pode se ascinan e. A acús ica de e se
um pa âme o como a al u a ou a du ação. E pa a mim um
elemen o ísico, ác il não apenas quando esc e o pa a banda e
ins umen o, mas ambém quando componho pa a ins umen os
7
con encionais.
…algumas ob as…
Uma das p imei as expe iências em mais que dois canais, ealizada po
S ockhausen, é a ob a Gesang de Jüngling (1955-56): ob a elec oacús ica
compos a pa a cinco i as magné icas, onde se p e ende que os cinco
8
al i alan es se encon em à ol a do público . S ockhausen con inua a e ina
o seu abalho sob e a disposição de sons no espaço em Kon ak e (1958),
ob a pa a qua o bandas magné icas em i a pa a a g a ação da qual o
9
composi o desen ol e uma “mesa de o ação” de qua o canais, a qual
pe mi ia ge a sons que o necessem sensações de ealis a do mo imen o
sono o. Mas o abalho ealizado sob e os espaços sono os, nas ob as
musicais, não se limi a a ob as elec oacús icas ou mis as, mas es á p esen e
do mesmo modo em ob as exclusi amen e ins umen ais, nas quais, além de
disposições de ins umen os pa icula es, algumas deslocações dos p óp ios
músicos podes se pedidas de modo a que a disposição e e olução das on es
sono as no espaço con ibua pa a a es u u ação da p óp ia ob a.
Em G uppen pa a ês o ques as, compos a en e 1955-57,
S ockhausen abalha po es a os: a ob a, pa a g ande o ques a, com 109
execu an es o ganizados em ês g upos dis in os, cada um com o seu
maes o, colocados um cen ado em en e do público, ou o à sua esque da e
ou o à sua di ei a, pe mi em-lhe aze ci cula no espaço ag egados sono os
que se ão ans o mando, c ia e ei os de in e polação, de espos a e de eco
en e os ês g upos.
Se nós subdi idi mos uma es u u a de pon os em dois g upos e se
ize mos ou i simul aneamen e um g upo à esque da e ou o à
di ei a, o na emos assim pe ei amen e pe cep í eis dois es a os
10
de uma só e mesma es u u a sono a.
Segundo S ockhausen, a espacialização de uma ob a musical de e
ajuda a comp eende a sua es u u a. Uma ob a concebida endo em
conside ação o ac o espaço, em ca ac e ís icas especí icas que ão se
escla ecidas e cla i icadas pela dis ibuição do som no espaço. Que essa
7. “La mobili é acous ique des sons élec oniques, la
modula ion de l'espace qui es si acile en musique
élec onique, son pa conséquen encas ées dans un
cube qui es lui-même la ep ésen a ion de l'espace
acous ique ins umen al. G âce aux moyens
élec oniques, je peux change o alemen la
con igu a ion du cube, la endan immense, ès
pe i e, bancale ou enco e poin u e. Le ésul a es une
c éa ion hyb ide qui peu ê e ascinan e.
L'acous ique de ien un pa amè e, comme la hau eu
ou la du ée. C'es pou moi un élémen physique,
p esque ac ile, non seulemen quand j'éc is pou
bande e ins umen , mais aussi lo sque je compose
pou des ins umen s con en ionnels.” O iz, Pablo,
"En e ien a ec Ma io Da ido sky", in
Con echamps Nº 11, 1990, p. 149.
8. No conce o de es eia des a ob a, a 30 de Maio de
1956, no edi ício da Wes deu sche Rund unk
(WDR) em Colónia as condições e dimensão da sala
não pe mi i am essa en ol ência, sendo as cinco i as
magné icas lidas a pa i de magné o ones, cada um a
debi a pa a um al i alan e, icando dois deles lado a
lado em palco. Pos e io men e, oi ealizada uma
e são pa a 4 canais.
9. « ou -chanel ' o a ion able' » Maconie, 1990,
p.197.
10. “Si l'on subdi ise une s uc u e de poin s en deux
g oupes e si l'on ai en end e simul anémen un
g oupe à gauche e l'ou e à d oi e, on end ainsi
pa ai emen pe cep ibles deux s a es d'une seule e
même s uc u e sono e.” in Con echamp N:º 9,
1988, p. 81.
38
dis ibuição se ealize a a és da disposição de ins umen is as em locais
especí icos ou pela dis ibuição do som po um sis ema de al i alan es. A
p eocupação de S ockhausem com a espacialização do som é al que começou
a imagina no os audi ó ios onde as possibilidades de dispo e en ol e o
público com som se iam in ini as, como o “espaço es é ico na supe ície do
11
qual se iam dispos os os al i alan es.” D . K – Sex e (1969) pa a sex e o é
ou a ob a de S ockhausen em cuja composição a ideia do p ocesso de
deslocamen o p ocu a se uma me á o a de um mo imen o no espaço.
D , K é uma es u u a de oi os: As oi o ozes, oi o dinâmicas, oi o
di isões da es u u a de base do empo, o que co esponde a uma amos a
pe iodicamen e eno ada de um p ocesso con inuo, obse ado a uma
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elocidade cons an e, como uma o ma de onda num osciloscópio.
F esco, 1969, ambém de S ockhausen é uma ob a pa a qua o g upos
o ques ais, pa a se execu ada, os qua o g upos o ques ais se ão dispos os
em qua o salas sepa adas, mas no in e io do mesmo edi ício. Os ma e iais
musicais en e os qua o g upos são con as an es a ní el de ex u a e de
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imb e. Na dis ibuição do som pelos qua o g upos sepa ados no espaço , há
uma p eocupação com o mo imen o do som nes e espaço múl iplo de
pe o mance musical, abalhando dinâmicas e densidades de modo que as
sono idades sejam sen idas como deslocando-se de um espaço a ou o.
S e nklang, 1971, é a p imei a expe iência de S ockhausen na composição de
ob as musicais especi icamen e pa a se execu adas ao a li e. Pa a se
execu ada num pa que, a ob a oi esc i a pa a cinco g upos de execu an es,
pe cussionis a, e uma ampli icação que é opcional. Os cinco g upos de em
se dis ibuídos pelos espaço, di e enciam-se pelo ecu so a es u u a
ha mónica e de elocidades que são especí icas de cada um, sendo que a
busca de p odução de sono idades que se ap oximem de es u u as ocais
eco endo a a iações do imb e, é um elemen o ag egado dos cinco g upos.
Alphabe ü Liège, 1972, es a ob a oi esc i a pa a solis as e duplos, p e ende
se in e p e ada em duas salas sepa adas de um mesmo edi ício. Ylem,
ambém de 1972, é uma ob a pa a dezano e ins umen is as ou mais e/ou
can o es, des es ins umen is as, dez ou mais são a iá eis, a única condição
é que sejam po á eis. “Ylem” signi ica o p imei o luxo de pa ículas a pa i
do qual o uni e so se expandiu, e o seu e o no ao caos.
A música começa com li e almen e com um 'big bang' no am- am,
à ol a do qual os ins umen is as de ins umen os anspo á eis
se encon a am ag upados ( lau a, oboé, co ne inglês, cla ine e,
cla ine e baixo, ago e, ompa, ompe e, ombone, e iolino na
e são da London Sin onie a). Imedia amen e os ins umen is as
sal am pa a a ida e começam a lança um luxo de no as epe idas
a é ao máximo de in ensidade, escolhendo en e E3b ou A3, ou o
mesmo uma oi a a a cima. Os ins umen is as de ins umen os
11. “un espace sphé ique à la su ace duquel se aien
disposés des hau pa leu s.” ibidem, p. 79, [II].
12. “D , K is a s uc u e o eigh 's: eigh oices, eigh
dynamics, eigh di isions o he undamen al imes
ame, which co esponds o a pe iodically enewed
sample o a con inuous p ocess, scanned a a
cons an speed, like a wa e- o m on an
oscilloscope.” Maconie1990, p.203.
13. Ve esquema da disposição dos ins umen os em
ibidem, p. 208.
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po á eis dispe são g adualmen e a a és do audi ó io pa a
ocupa posições ao longo dos co edo es, onde con inuam a oca
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com os olhos echados.
É des e modo que Robin Maconie desc e e os p imei os mo imen os
dos ins umen is as no audi ó io ao execu a em Ylem e, po consequência, os
mo imen os do som. Após um ou o 'big bang' no am- am, o qual p o oca a
subida de um om no in e alo de í ono ocados pelos ins umen is as na
sala, es es ins umen is as começam a mo e -se de no o saindo g adual-
men e da sala, os p óp ios ins umen is as dos ins umen os que se encon am
no palco ão-se e i ando. Depois de odos e em saído ainda a oca , a ob a
e mina quando o som deixa de se ou i no ex e io da audi ó io.
Na u almen e S ockhausen não é um caso único, como se disse acima,
mui os ou os composi o es usa am e con inuam a usa a espacialização do
som como ac o impo an e ou mesmo essencial nas suas ob as. Podemos
mesmo a i ma que o uso do espaço sono o como elemen o na cons ução de
ob as musicais, se o nou ão essencial como qualque ou o pa âme o do
som. Va èse, mui o an es de S ockhausen, i e a já a p eocupação em
dis ibui o som no espaço. Embo a no seu empo, a ecnologia não pe mi isse
um g ande domínio do espaço acús ico, Va èse não desis iu de chega o mais
longe que lhe oi possí el nes a á ea com os meios que e e à sua disposição.
A dimensão espacial es e eo ónica da música de Va èse começa a delinea -se
em Hype p isme (1922-23) e encon a a sua maio exp essão em Poème
élec onique, di undido em 1958, na Exposição Uni e sal em B uxelas,
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a a és de ezen os al i alan es.
A dis ibuição do som no espaço, seja ela es e eo ónica, quad i ónica
ou ou a, acaba po se anspo ada pa a a música ins umen al, como aliás
oi já e e ido a espei o de S ockhausen.
Iannis Xenakis, po exemplo, é ou o composi o que dispõe os
ins umen os da o ques a de um modo não con encional, p e e indo
dis ibuí-los de uma o ma que se ap oxima da imagem es e eo ónica
espec al: Em ez da adicional disposição de ins umen os do agudo pa a o
g a e da esque da pa a a di ei a espec i amen e, Xenakis dispõe os
ins umen os de modo a e g a es e agudos an o à di ei a como à esque da
em á ias ob as. Jonchaies pa a g ande o ques a, é disso um exemplo. Em
O es eia (1965-66), pa a o ques a de câma a, co o mis o e co o in an il,
Xenakis pede que o co o ci cule en e o palco e a pla eia, p o ocando um
consequen e deslocamen o do som, em Nomos Gama (1965-67), a o ques a
es á espalhada po en e o público, le ando cada ou in e a e uma pe cepção
di e en e da ob a, a qual depende á, na u almen e, da localização de cada
ou in e indi idual em elação à localização dos ins umen is as.
Na ob as de Luciano Be io encon amos ambém com equência
ac o es de espacialização. Po exemplo, Ci cles (1960) pa a oz, ha pa e
14. “The music begins li e ally wi h a 'big bang' on
he am- am, ound which he playe s o po able
ins umen s a e g ouped ( lu e, oboe, co anglais,
cla ine , bass cla ine , bassoon, ho n, umpe ,
ombone, and iolin in he London Sin onie a
e sion). Immedia ely he playe s je k in o li e and
begin o pou ou s eams o epea ed no es a
maximum in ensi y, choosing ei he E3b o A3, o
he same an oc a e highe . The playe s o po able
ins umen s g adually dispe se ou in o he
audi o ium o ake up posi ions along he walls,
whe e hey con inue o play wi h eyes closed.”
ibidem, p. 218.
15. Ou ce ca de 400 al i alan es. As on es his ó icas
são con adi ó ias a es e espei o.
dois pe cussionis as. Os pe cussionis as, colocados de ambos os lados do
palco e a ha pa ao cen o. A oz eminina mo e-se no palco ocupando ês
pon os especí icos, em cada um desses pon os, pa a além do uso da oz, são
execu adas pequenos ins umen os de pe cussão. Ou a ob a de Be io com
uma dis ibuição especí ica dos ins umen is as é em Labo in us II. Nes a
ob a, o composi o dis ibui ins umen os no palco quase em ila, coloca um
pe cussionis as de cada lado, as ozes emininas a ás ao cen o, e os a o es
ambém a ás mas descaídos pa a a di ei a do palco. Na Sin onia, Be io
ealiza igualmen e uma dis ibuição espacial dos ins umen os mui o
me iculosa. Os músicos es ão dis ibuídos no palco de modo a e os agudos à
en e, na zona cen al do palco, de ambos os lados do maes o. Em en e ao
maes o encon a-se o piano. Pa indo des a espécie de cen o, Be io dis ibui
os músicos de modo a e uma e olução do agudo pa a o g a e à medida em
que se encon am mais a as ados da en e e do cen o do palco. Be io coloca
ês es ados no palco, cada um ele ado 80cm em elação ao an e io da modo
que não exis em ba ei as à passagem do som a é à audiência. Cada
ins umen is a es á acompanhado de um can o , exceção ei a ao pianis a e
aos pe cussionis as. Podemos dize que es a é uma dis ibuição es e eo ónica
com à qual não al a o ac o p o undidade.
De Pie e Boulez ci amos o Domaines (1968-69), Ri uel (1974-75) e
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Répons, (1981-84) , de en e as ob as o ques ais, mas o seu abalho de
espacialização de sons, nomeadamen e em ob as que incluem ins umen o
solis a e elec ónica, são ambém ep esen a i as des a explo ação do espaço:
…explosan e- ixe… (1970), pa a lau a e elec ónica, An hèmes 2 (1998),
pa a iolino e elec ónica ou Dialogue de l'omb e double pa a cla ine e e
elec ónica (1985), são disso exemplos. Nes as ob as, o cuidado do
composi o na in eg ação do ins umen o de ins umen o e elec ónica,
o nando ambos em elemen os pe o ma i os com igual peso, assim como o
cuidado com a o ma como compões a dis ibuição e e olução dos sons no
espaço, o na essas ob as em espaços sono os complexos, en ol en es, que
e oluem em o no do ou in e, anspo ando-o pa a o in e io da p óp ia ob a.
Embebida de um es udo ap o undado das ob as acima ci adas, mas
ambém de ou as, já clássicas, a nossa música é c iada essencialmen e de
ges o, anspa ência e ex u a, mo imen o in e no e ex e no. Nas ob as
elec ónicas p incipalmen e, mas ambém nas ob as pa a ins umen o e
elec ónica em empo eal, ge almen e compos as pa a 4 canais, os
mo imen os in e nos, a localização dos sons em pon os especí icos do espaço
imaginá io são uma cons an e. Desde Mo imen os Espaciais Pa a Plane as e
Sa éli es Imaginá ios (1999), ob a elec ónica pa a dois canais, que simula
mo imen os plane á ios, a disposição de sons e simulação de mo imen os
passou a se um elemen o cons an e e ele an e da nossa p óp ia composição.
O espaço in eg a o a o de compo desde o p imei o momen o. Side al (2006)
po exemplo, é uma ob a pa a 4 canais que p ocu a ansc e e em sons
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16. Mais in o mação em Macho e , 1984, p. 27.