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ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM?

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ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM?

Author: PINTO, Luísa Isabel da Costa; PALINHOS, Jorge Miguel Ferrão; CABRAL, Ivam
Publisher: CEAA/ESAP-CESAP
Year: 2021
Source: https://comum.rcaap.pt/bitstreams/c25eef06-8b91-417b-93d2-4f2bb3a875b0/download
ARTE INCLUSIVA?
QUEM INCLUI QUEM?
Luísa Pin o
Jo ge Palinhos
I am Cab al
Edi o es
CEAA
CEAA I Cen o de Es udos A naldo A aújo, 2021
ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM?
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ARTE INCLUSIVA?
QUEM INCLUI QUEM?
Luísa Pin o
Jo ge Palinhos
I am Cab al
Edi o es

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Tí ulo
ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM?
Edi o es
Luísa Pin o, Jo ge Palinhos e I am Cab al
© os au o es e CESAP/CEAA, 2021
Di eção g á ica
Jo ge Cunha Pimen el e Joana Cou o
Composição
Joana Cou o
Edição
CEAA | Cen o de Es udos A naldo A aújo da CESAP/ESAP
P op iedade
Coope a i a de Ensino Supe io A ís ico do Po o
Imp essão e Acabamen o
Se Sili o, Emp esa G á ica Lda
1s Edição, Po o, No emb o 2021
Ti agem: 300 exempla es
ISBN: 978-972-8784-94-2 [Supo e: Imp esso]
ISBN: 978-972-8784-95-9 [Supo e: Ele ónico]
Depósi o Legal:
Es a publicação é inanciada po undos nacionais a a és da FCT - Fundação
pa a a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbi o do p oje o UIDB/04041/2020
(Cen o de Es udos A naldo A aújo).
A ob enção dos di ei os de ep odução de ou as imagens é da exclusi a
esponsabilidade dos au o es dos ex os a que as mesmas es ão associadas, não
se esponsabilizando os edi o es po qualque u ilização inde ida e espec i as
consequências.
Cen o de Es udos A naldo A aújo
Escola Supe io A ís ica do Po o
La go de S. Domingos, 80
4050-545 PORTO, PORTUGAL
(+351)223392130
[email protected]
www.ceaa.p
5
NOTA INTRODUTÓRIA
Luísa Pin o, Jo ge Palinhos e I am Cab al
SOMOS TODOS DESIGUAIS? PEREGRINAR EM SI E ENCONTRAR
O OUTRO COMO ESTRANGEIRO, REVELAR SEGREDOS,
NOTÍCIAS, RECRIAR A MEMÓRIA DO MUNDO
Elen de Fa ima Londe o
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE
APRENDIZAGEM. A EXPERIÊNCIA DA SP ESCOLA DE TEATRO –
CENTRO DE FORMAÇÃO DAS ARTES DO PALCO
Elisabe h Sil a Lopes, I am Cab al e Joaquim C. M. Gama
ENCENAR A VIZINHANÇA: UMA EXPERIÊNCIA DE
PERFORMANCE SOCIAL NA ZONA URBANA PÓS-INDUSTRIAL DE
CAMPANHÃ
Jo ge Palinhos
O TEATRO NÃO CHEGA? UMA REFLEXÃO SOBRE ARTE,
INCLUSÃO E TRANSFORMAÇÃO POLÍTICA
José Soei o
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61
81
ÍNDICE
6
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA:
CAMINHOS DA ARTE PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA E EDUCAÇÃO
PROFISSIONAL TECNOLÓGICA
Lucilia Gue a
A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR. CRIAÇÃO ARTÍSTICA,
PRISÃO, REINTEGRAÇÃO
Luísa Pin o
PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL. PARA UMA CULTURA DA
DEMOCRACIA E DEMOCRACIA NA CULTURA
Sanna Ryynänen
QUEM SE INTERESSA POR “MEMÓRIAS AO SOL”? REFLEXÕES
SOBRE OS SENTIDOS DO TEATRO COM MULHERES
APRISIONADAS
Vicen e Concilio
AUTORES
RESUMOS
ÍNDICE
95
109
123
137
151
155
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ARTE INCLUSIVA?
QUEM INCLUI QUEM?
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ELEN DE FATIMA LONDERO
uma pos u a de imp o iso: a on ei a en e o mes e que sabe e o aluno que
igno a são ompidas inaugu ando assim, um p incípio de igualdade en e eles.
Ampa ados pela edição bilíngue da ob a As A en u as de Telêmaco, de F ançois
Fénelon, a en u a am-se na expe iência da ap endizagem, assim como a c iança
que ap ende a pa i da língua ma e na, sem a necessidade de um mes e,
mas a pa i da on ade e necessidade de exp essão. Assim, segundo Ranciè e,
es abelece-se inicialmen e en e p o esso e aluno uma elação de igualdade e a
iniciação oma o luga da explicação a pa i da expe iência.
Quem es abelece a igualdade como obje i o a se a ingido, a pa i da
si uação de desigualdade, de a o a pos e ga a é o in ini o. A igualdade jamais
em após, como esul ado a se a ingido. Ela de e semp e se colocada an es.
(Ranciè e, 2002, p.11)
A pa i des e caso, ap endemos que a expe iência de se encon a com uma
si uação dis in a e apa en emen e in ansponí el pode e oluciona um ideá io
pedagógico p edominan e do mes e explicado que ensina e do aluno que
igno a, pois, mais do que discu i mé odos educacionais e pedagógicos, com es e
ensinamen o Ranciè e suge e econhece inicialmen e uma condição polí ica
p é-es abelecida em que igualdade e desigualdade es ão en elaçadas em ações
ope an es de um discu so hegemônico e dominan e na qual es amos inse idos
his o icamen e.
Desen ol endo o concei o de pe eg inação, sendo es a uma iagem ao
desconhecido capaz de p opo ciona ine i a elmen e o encon o com o ou o,
aqui en endido como es angei o (de si), no a o pedagógico aquele em que se
encon a na si uação desigual, é necessá io no a o pedagógico desmobiliza -se
cons an emen e de si mesmo. A on ade de po ência, o de i , elabo a um es ado
“igno an e” no sen ido p opos o po Rancìe e pa a pe segui uma elação de
igualdade como obje i o e, consequen emen e, de libe dade na cons i uição
emancipa ó ia do conhecimen o. Nes e sen ido, mais do que um mé odo de

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SOMOS TODOS DESIGUAIS?
ensino, pa a Ranciè e a ação se o na uma con icção polí ica.
Pa indo des es ensinamen os, emos que se a educação oi dada como luga
genuíno de mani es ação da libe dade nas sociedades con empo âneas e como
um espaço possí el de se equaciona os p i ilégios e as desigualdades do mundo,
ac edi amos que é nela que de emos cen a nossos es o ços pa a que não seja
uma ex ensão de um mecanismo op esso e epe ido de o mas colonizado as
do pensamen o hegemônico na sociedade, mas de emancipação.
Pa a an o, se a ação é a on e mobilizado a, en endemos ambém que é p eciso
e le i sob e a subje i idade do sujei o a a és da ação e do discu so, uma ez
que jun os são o que nos colocam em uma condição humana uni e sal, o que
nos o na singula es na plu alidade. Pa a Hanna A end é na ação e no discu so
que os homens mos am quem são, po an o, desse pon o de is a podemos
conclui que a adição cul u al e a pala a alada é o que nos az se es polí icos.
Sem o discu so, a ação deixa ia de se ação, pois não ha e ia a o ; e o a o ,
o agen e do a o, só é possí el se o , ao mesmo empo, o au o das pala as. A
ação que ele inicia é humanamen e e elada a a és de pala as; e embo a
o a o possa se pe cebido em sua mani es ação b u a, sem acompanhamen o
e bal, só se o na ele an e a a és da pala a alada na qual o au o se
iden i ica, anuncia o que ez, az ou p e ende aze . (A end , 2007, p.191)
Do pon o de is a conjun u al, i emos a ualmen e em uma sociedade que é
impac ada po acon ecimen os deco en es do p ocesso de globalização, como
a c ise econômica expe imen ada pela economia mundial a pa i de 2008, as
econ igu ações dos Es ados nacionais em suas es u u as polí icas e sociais, c ises
ambien ais, en e ou os. No B asil, is o em se ap esen ado como um cená io de
ins abilidade, po exemplo, nas di e izes educacionais e nos caminhos u u os
que a educação pode i a se pau a den o de um p og ama go e namen al
nacional que a ualmen e em desp ezado o pensamen o c í ico e demonizado
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p á icas pedagógicas conside adas libe á ias1.
Es as si uações nos azem conside a os ensinamen os de Mil on San os
(1994), onde nos explica que a globalização a ende a dimensão do me cado,
ou seja, a um sis ema de elações hie á quicas cons uído pa a pe pe ua um
subsis ema de dominação sob e ou os subsis emas, em bene ício de poucos.
Pa a ele, a globalização a ende a lógica da compe ição, e não da coope ação e
co ompe, alsi ica, desequilib a e des ói. No en an o, o en en amen o des a
lógica se ope acionaliza na dimensão do “luga ”, onde eúne pessoas po suas
semelhanças, pela coope ação na di e ença, e onde se descob e no conjun o que
não se es á sozinho.
(...) o luga o na-se o mundo do e az e da espe ança, e o global, media izado
po uma o ganização pe e sa, o luga da alsidade e do engodo. Se o luga
nos engana, é po con a do mundo. Nessas condições o que globaliza sepa a; é
o local que pe mi e a união. De ina-se o luga como a ex ensão do acon ece
homogêneo ou do acon ece solidá io e que se ca ac e iza po dois gêne os de
cons i uição: uma é a p óp ia con igu ação e i o ial; a ou a é a no ma,
a o ganização os egimes de egulação. O luga , a egião não são mais o
u o de uma solida iedade o gânica, mas de uma solida iedade egulada
ou o ganizacional. Não impo a que es a seja e ême a (...). É pelo luga que
e emos o mundo e ajus amos a nossa in e p e ação, pois nele o ecôndi o, o
pe manen e, o eal iun am. (San os, 1994, p.20)
Con e gindo com o pensamen o de San os, Canclini (1997) a i ma que o
me cado ao eo ganiza a p odução e o consumo pa a ob e maio es luc os
e concen á-los ende a con e e a eunião de di e enças nacionais em
1 Nes e sen ido, No a K awcyk em “A Educação F en e à Pandemia e o Du o Fascismo: Du os Comba es
nos Agua dam” nos ale a sob e o mo imen o de desigualdade que ul apassa 200 anos de his ó ia,
nunca es e e ão e iden e nas ins i uições públicas, com a polí ica decla adamen e ascis a em que nos
encon amos. A nec opolí ica na base o ma i a do exe cício democ á ico e de cidadania.
ELEN DE FATIMA LONDERO
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desigualdades. E, subme e a polí ica às eg as do comé cio e da publicidade,
do espe áculo e da co upção. Assim, pa a Canclini, uma al e na i a a es a
imposição capi alis a se ia pensa mos sob e o núcleo daquilo que na polí ica
é elação social: o exe cício da cidadania – e sem des inculá-la das elações de
consumo, uma ez que
(...) se cidadão não em a e apenas com os di ei os econhecidos pelos
apa elhos es a ais pa a os que nasce am em um e i ó io, mas ambém com
as p á icas sociais e cul u ais que dão sen ido de pe encimen o. (Canclini ,
1997, p.22)
Depa ámo-nos em um aspec o c ucial pa a chega mos a es a noção de
pe encimen o como cí culo de po ência. Como se iden i ica e pe ence
a um espaço que é ma cado pela colonização e seus p ocessos iolen os de
aniquilamen o cul u al? Em Pode o Subal e no Fala ? (2014), a au o a Gaya i
Spi ak, escanca a a o ça op esso a do pensamen o hegemônico e nos ap esen a
a noção de uma decolonização da ação polí ica e in elec ual, com elação aos
es udos subal e nos, ao luga de ala e de ep esen ação do ‘Ou o’ – o sujei o
igno ado, explici ado pelos po os colonizados, em sua maio ia do Te cei o
Mundo. C i ica a noção de ep esen ação no âmbi o polí ico em que se ‘ ala
po ’ e a e-p esen ação no sen ido ilosó ico e a ís ico, de ep esen ação de
alguém. Nos dois exemplos, a igu a do subal e no ou do ou o é desquali icada
e silenciada, pois no sen ido de ep esen ação e ala, quem ala em ca egado
de mul iplicidade. A pa i do momen o em que se escolhe a ep esen ação no
luga do Ou o, es a se encon a sob a égide do Sobe ano em de imen o do
op imido. A au o a az ainda, uma di e enciação en e op imido e explo ado e
c i ica eemen e o luga do in es igado in elec ual na igu a dos ilóso os que
e o çam suas pe spec i as ociden ais e da sobe ania eu opeia colonizado a.
Assim, e omamos a na a i a inicial, em que somen e a pa i do inusi ado
encon o que iden i ica ba ei as undadas nas di e enças en e in e locu o
SOMOS TODOS DESIGUAIS?
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e ecep o e que a incapacidade de comp eensão do discu so en e mes e
e es udan e, p o ocou o deslocamen o, como no caso de Ranciè e, onde o
p o esso Joco o a pa i do seu luga de explicado - que pode se ap oxima da
igu a do colonizado no con ex o das elações hegemônicas his o icamen e p é-
es abelecidas - omen ado do emb u ecimen o cogni i o de seus alunos pa a,
imbuídos de uma expe iência c ia i a e i ica o p incípio de igualdade como
pon o de pa ida.
Olha pa a nossa ealidade his ó ica, colonizada e explo ada, a pa i da educação
como uma possibilidade de ompe on ei as é mais do que u gen e no p ocesso
emancipa ó io do conhecimen o, pois a educação a elada a um p incípio de
igualdade, não se con igu a á um p ocesso de di e enciação dos es udan es a
pa i da in eligência e a e ição da mesma, mas da on ade, como p incípio
iniciado de no os pe cu sos.
Des aca-se aqui a expe iência ea al a pa i do eco e da pe o ma i idade
como um possí el agen e p o ocado nos p ocessos educacionais, na en a i a de
es abelece um acesso, de o ma elacional, dialógico e a e i o com p o esso es
e es udan es.
Nes a análise, le amos em conside ação a expe iência pedagógica elabo ada pela
SP Escola de Tea o, localizada na cidade de São Paulo (B asil), que oi c iada
a a és dos pa adigmas “a is as que o mam a is as” e “ap ende-se ao aze ”.
Com uma es u u a pedagógica que se ap esen a em um modelo modula e
não hie á quico, a SP Escola de Tea o es á a ualmen e di ecionada em qua o
eixos: Pe sonagem e Con li o; Na a i idade; Pe o ma i idade e Au onomia.
Es a p opos a de ensino, segundo nos explica I am Cab al (2016, p.11),
possui um ca á e maleá el do sis ema, o que p opo ciona a possibilidade de
compa ilhamen o pa a qualque ins i uição
(...) uma ez que a a de um mé odo undamen ado po meio de p oje os, o
que pe mi e o es udo simul âneo de componen es o iundos dos mais di e sos
campos do conhecimen o.
ELEN DE FATIMA LONDERO
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A pe o ma i idade na medida em que abalha com a sensibilidade c í ica do
mundo dialoga ambém com a pedagogia ensinada po Paulo F ei e (2011),
pa a o qual é a a és da educação que educado e educando ans o mam-se em
sujei os eais da cons ução do sabe
(...) é p opicia as condições em que os educandos em suas elações uns com os
ou os e odos com o p o esso ensaiam a expe iência p o unda de assumi se...
Assumi -se como sujei o po que capaz de econhece -se como obje o... É a
ou edade do “não eu”, ou do u, que me az assumi a adicalidade do meu
eu. (F ei e, 2011, p.42)
Is o nos e ela que pa a F ei e, o ensinamen o exige não apenas a e lexão c í ica
sob e a p á ica, mas o econhecimen o pelos educandos enquan o sujei os
sociais, his ó icos, pensan es, ans o mado es, c iado es e capazes de muda
o mundo. A expe iência adical e c í ica da educação p opos a po F ei e nos
ale a, o abalho da educação ou a pedagogia nunca são neu as: ou elas libe am
o homem ou o domes icam.
Ampa ados pela linguagem pe o ma i a, que pode se lida pela noção de
acon ecimen o, colocamos os sujei os em cena em posição de igualdade onde a
o dem do discu so explicado e emb u ecedo se dissipa em con apon o en e o
dize e o aze em uma ensão en e discu so, co po alidade e compo amen o.
Encon amos no es udo de Jose e Fé al (2009) que o ea o pe o ma i o eme ge
do c uzamen o dos dois eixos de concepções de pe o mance desen ol ido a
pa i da década de 80 po Richa d Schechne e And eas Huyssen, pelo qual
pa a o p imei o a pe o mance dizia espei o an o aos espaços quan o às
di e sões popula es e, em seu sen ido mais amplo, a pe o mance e a é nica e
in e cul u al, his ó ica e a-his ó ica, es é ica e i ualís ica, ou seja, ele amplia a
a noção pa a odos os domínios da cul u a e oda o ma de mani es ação do
co idiano. Já pa a o segundo, a pe o mance ca ega ia um sen ido pu amen e
a ís ico, e não sociológico ou an opológico, ou seja, ele a ou a pe o mance
SOMOS TODOS DESIGUAIS?

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numa isão essencialmen e es é ica.
Es a in o mação é impo an e pa a comp eende mos que oi a pa i des es dois
eixos de concepções pos os em e lexão e deba e (pe o mance como expe iência
e compe ência e pe o mance como a e) que eó icos como o alemão Hans Thies
Lehmann es uda am a co en e es é ica conhecida po Tea o Pós-d amá ico,
que em uma de suas p incipais ca ac e ís icas que o a o ea al se con igu a
enquan o um acon ecimen o, ou seja, a si uação ea al se cons i ui du an e a
imedia a p esença en e a is as e seu público, ques ionando o impac o da a e
na ida e da ida na a e. Pa a Lehmann, po an o, o
(...) ea o signi ica empo de ida em comum que a o es e espec ado es
passam jun o no a que espi am jun o daquele espaço em que a peça ea al e
os espec ado es se encon am en e a en e. (Lehmann, 2007, p.18)
Ainda, ale menciona que no es udo de Fé al encon amos que é a a és do
ea o pe o ma i o que o ea o se dis ancia da ep esen ação e aspi a a p oduzi
e en o, acon ecimen o, eencon ando o p esen e, mesmo que es e não possa se
a ingido (Fé al, 2009).
Ace ca dis o, encon amos na ala de Bo iaud (2009, p.113) que “a a e em
po inalidade eduzi a pa e mecânica em nós...”, is o signi ica dize que a a e
pode es abelece um espaço de negociação en e as ealidades daquele que az e
daquele que ecebe e pe cebe a ob a. Po an o, uma dinâmica de ap oximação,
o ganização e mo i ação pa a o encon o en e p o esso es e alunos e de
mobilidade pe an e os modelos que endem a se c is aliza .
Se no ea o, especi icamen e na pe o ma i idade, os a o es en ol idos, agen es
da ação e na p odução de acon ecimen os, se conec am com sua exp essão –
discu so e ação no p ocesso de emancipação e pe encimen o de si e do con ex o
sociopolí ico, po que não se con amina dessa expe iência em p ocessos
educacionais?
Na cidade de São Paulo, a SP Escola de Tea o, a pa i do p oje o Es ação SP,
ELEN DE FATIMA LONDERO
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na qual a linguagem ea al oi le ada em p ocessos o ma i os de p o esso es às
Escolas Técnicas do Es ado de São Paulo (E ec), em uma aplicação do modelo de
p oje o polí ico pedagógico da ins i uição, como mul iplicado de expe iências
a ís icas em escolas de ensino básico, a expe iência oi colocada em p á ica
em 15 (quinze) polos de E ec, a endendo 216 (duzen as e dezesseis) cidades
do in e io paulis a em uma capaci ação pa a 600 (seiscen os) p o esso es. A
inicia i a se inco po ou em um espaço educacional onde as a es hipo e icamen e
não igu a am como uma á ea p io i á ia de o mação dos es udan es e,
consequen emen e, como possibilidade de esidi no ensino do ea o uma
al e na i a de ans o mação social2.
Nas ações oi possí el a e i que o cons an e deslocamen o p opo cionado pela
mani es ação a ís ica como elemen o p o ocado da ação pedagógica, c iou
expe iências, espaços de libe dade, in e esse e ap oximação en e p o esso es e
es udan es, uma ez que, do pon o de is a da o mação in elec ual e c í ica
daqueles alunos, p o esso es e ou as pessoas e en ualmen e en ol idas pode iam
a ua como em um p ocesso de despe a de suas espec i as sensibilidades pa a
um p ocesso de consciência indi idual pe an e acon ecimen os eais de seu
empo, espaço e cená ios em que i em.
A expe iência p opos a oi ealizada com p o esso es de odas as á eas: a es,
economia, sec e a iado, engenha ia, ma emá ica, jun amen e com seus
es udan es. Todas as ações o am elabo adas le ando em conside ação o Eixo
Pe o ma i o como linguagem, o Ope ado a pa i da ob a de Michel Foucaul ,
sob e “O Cuidado de Si e dos Ou os”, como e e encial es é ico, que nos
pe mi iu abo da a his ó ia dos es udan es, p o esso es e da ida em seu en o no,
bem como, exe ci a a o pensamen o c í ico, além das pala as esc i as e aladas,
2 Nes e sen ido, as Escolas Técnicas de São Paulo o e ecem os cu sos de ensino médio, ensino écnico
in eg ado ao médio em adminis ação, desen ol imen o de sis emas, desenho de cons ução ci il, e en os,
in o má ica, meio ambien e, anspo e me o iá io, u ismo ecep i o e ensino écnico de ele ônica.
Embo a enham po missão o ma cidadãos com amplos conhecimen os humanís icos, cien í icos e
ecnológicos, elas le am em conside ação as condições do me cado de abalho e ainda o e ecem cu sos
majo i a iamen e egula es nas á eas di e sas das humanas, po exemplo. Vide: www.e ecsaopaulo.com.b .
SOMOS TODOS DESIGUAIS?
22
na ação pe o ma i a. Como A is a Pedagogo, a aje ó ia do a is a b asilei o
A hu Bispo do Rosá io3 e sua mani es ação poé ica no mundo a pa i de uma
esc i a de si. Po im, como Ma e ial de T abalho, elegemos a ob a do di e o
ea al polonês Tadeusz Kan o , que essigni ica os obje os na cenog a ia ea al.
O obje o é, pa a Kan o , uma espécie de p ó ese do a o . Cada pe sonagem em o
seu p óp io obje o que, ligado a seu co po, o mando com ele um só se . Na cena
esses obje os ão mudando de signi icado. Ângulos e linhas que se modi icam no
con ex o da cena. A manipulação do obje o e suas elações com o pe sonagem
con e em ao obje o aspec os mágicos e inespe ados – a noção de “ob e so”. Em
nossa p opos a os obje os de iam se azidos pelos agen es do encon o, seus
obje os-memó ia, obje o- ida, obje o-mo e, obje o- e lexão, obje o- acasso,
obje o-so e, obje o-mo imen o, obje o-in e upção, obje o-sonho, obje o-
público, obje o- ansição, obje o- azio, obje o-sín ese. Obje os conside ados
inú eis, mas que ca egam em si, memó ia e his ó ias que se conec am aos a o es,
aqui en endidos como p o esso es e es udan es.
A ação p opos a po uma equipe de a is as pedagogos colocou em mo imen o
odos os en ol idos em uma ação de ec ia suas aje ó ias e seus papéis dian e,
p incipalmen e, da noção con eudís ica e ins umen al dos p og amas de ensino,
essigni icando o “luga ” comum de suas idas a pa i do encon o consigo e
com o ou o. Assim, de aco do com Elizabe h Lopes,
A alo ização dos p ocessos, que, mui as ezes, são mais p eciosos que os p óp ios
esul ados que o mulam os pensamen os em mo imen o, di e en emen e da
pe cepção de algo que i a no ma, ixa e imu á el. É uma o ma de o na
la en e um modo de pensa a elação homem e mundo em mo imen o,
em p ocesso, ligado ao inde e minado e à noção de “acon ecimen o”, como
3 A hu Bispo do Rosá io (1909/80), é um a is a plás ico b asilei o que ca ega a odos os es igmas
de ma ginalização social ainda igen es em nossa sociedade – neg o, pob e, louco, asilado em um
manicômio – consegue, na sua genialidade, sub e e a lógica excluden e p opondo, a pa i da sua ob a,
a essigni icação do uni e so, pa a se eunido e ap esen ado no dia do juízo inal. Mais sob e o a is a em
h ps://museubispodo osa io.com/ob a- ida/
ELEN DE FATIMA LONDERO
23
de ende o ilóso o ancês Jacques De ida. Pa a ele, esse é o modo como um
ex o az/diz a sua e dade. O “acon ecimen o”, em nossos p ocedimen os, es á
associado ao modo poé ico que as e amen as i uais e ecnológicas pe mi em
p ese a e à legi imação do ex o si uado en e a icção e a ealidade, po meio
da possibilidade de epe ição, ci ação, ans e ência e adução, con igu ando
a sua dimensão pe o ma i a. Dessa o ma, es ei amos de ini i amen e a
elação co po/men e ecusando as o mas con encionais c is alizadas de
pensa a educação com uma es abilização, p opondo, ao con á io, pensa
em/na educação como um pensamen o que pulsa como a ida. (Lopes, 2015,
p.18)
Podemos assim, c ia um pa alelo com a ação pedagógica pau ada pela
pe o ma i idade e essigni ica a ação e cons ução de um discu so emancipa ó io
do sujei o em elação a si e ao ou o, o es angei o – sendo o encon o pedagógico
um a o pe o ma i o, co po al, elacional, dialógico e pe cep i o, que es á
inse ido em um campo ep esen acional, mas não da ep esen ação. O espaço
escola /pedagógico como um luga de p odução de sen idos, dis anciando-se
das demandas de um mundo p odu i o em que ação é ab icação. A noção
pe o ma i a, aliando ação e discu so na p odução de acon ecimen os pode nos
ap esen a caminhos pa a uma pe cepção mais p o unda da condição humana,
sua in e e ência no campo social e posicionamen o c í ico em elação ao mundo
em que i emos e como nos p oje amos pa a o u u o.
É a pa i de encon os e pa ce ias como o do p oje o Es ação SP que a Escola
amplia suas elações a ís icas e pedagógicas es abelecendo encon os e ocas de
expe iências com ins i uições nacionais e in e nacionais de in e esses análogos
e ans e sais, po que, assim, consegue amplia o alcance das ações ealizadas,
ul apassando os mu os da Escola, c iando um campo de ação dila ado, jun o a
di e en es comunidades, inicia i as e o ganizações ci is.
Des e p opósi o, a Escola p omo e com equência di e sos encon os como
o ealizado em 2019 em pa ce ia com a Escola Supe io A ís ica do Po o/
SOMOS TODOS DESIGUAIS?
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DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO
NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM.
A EXPERIÊNCIA DA SP ESCOLA DE
TEATRO – CENTRO DE FORMAÇÃO
DAS ARTES DO PALCO
ELISABETH SILVA LOPES
IVAM CABRAL
JOAQUIM C. M. GAMA
Colonización - e i o io es ablecido po gen e que no es de ahí
Ao se obse a a de inição em espanhol da pala a ‘colonização’, emos a dimensão
de seu sen ido geog á ico, polí ico e cul u al. Is o é, o na-se impo an e
comp eende que o e mo ‘ e i ó io’ não é apenas aplicado às ques ões de
domínio geog á ico e polí ico, mas a odo o p ocesso his ó ico, social e cul u al
que a colonização eu opeia ge ou e impôs à Amé ica La ina. Fala de e i ó io
es abelecido po pessoas que não são do p óp io e i ó io equi ale a inclui
nas discussões sob e colonização aspec os a elados ao que podemos denomina
‘colonialidade do sabe ’ (Lande , 2000).
Há uma he ança eu ocên ica do conhecimen o, epis emológica, que
de e minou manei as de pensa , comp eende e o ganiza o mundo, e que não
é legí ima à colonizada e ao colonizado. Ao econhece , po exemplo, que os
g egos in en a am o pensamen o ilosó ico ociden al, não podemos ac edi a
que somen e eles enham a hegemonia do pensamen o.
Foi no âmbi o dessas pe spec i as de descons ução da hegemonia e da
epis emologia da cul u a eu ocên ica sob e o Ociden e que, en e julho e agos o
de 1998, oco eu o Cong esso Mundial de Sociologia, em Mon eal, pa ocinado
pela UNESCO. Pa iu-se da ideia de que a colonização e i o ial eu opeia
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ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
e a colonialidade do sabe são pa es cons i uin es de uma mesma moeda de
exp op iação, domínio e explo ação. Desde en ão, há uma p eocupação em
ecupe a a iden idade dos di e en es luga es, quan o ao modo de e e concebe
o mundo, con igu ando a ideia de que exis em múl iplos mundos, com sabe es
di e sos, e que de em coexis i , dialoga , e não se subjuga .
Especi icamen e, no B asil, essas p eocupações ize am eme gi ques ionamen os
sob e as pe spec i as eu opeias uni e sais, globalizan es, como undamen os do
conhecimen o disciplina sob e o mundo. Os es udos sob e o pós-colonialismo
b asilei o, o pensamen o c í ico à colonialidade, ouxe am à baila ambém
aspec os e e en es às ma izes ame índias e a icanas que azem pa e da base
cul u al b asilei a, e que o am e i adas dos cu ículos das escolas de educação
básica.
O a o de e oco ido o im do colonialismo não aca e ou o im da
colonialidade. Assim, pe du a sob e nós o legado cul u al, hegemônico, impos o
pelo colonizado eu opeu b anco, que ai desde ques ões econômicas às c ises
de iden idade, em seus múl iplos a o es, elacionadas aos indígenas e aos
a odescenden es.
Dessa manei a, na con empo aneidade, ao se pensa no cu ículo da escola
pública, e, po conseguin e, na o mação de indi íduos, o na-se p emen e
a necessidade de his o iciza essas ques ões e descoloniza o conhecimen o
sis ema izado, ensinado e disponibilizado pelas docen es e pelos docen es aos
discen es e às discen es. Comp eende-se, assim, o cu ículo ambém como campo
de ques ionamen o de sabe es hegemônicos, uni e sais, que desquali ica am e
desquali icam pe spec i as de mundo que não se enquad a am, e con inuam
não se enquad ando, nas con igu ações econômicas, pe e sas, e neolibe ais,
cujas o ças de pensamen o alo izam a na a i a his ó ica do conhecimen o
uni e sal, obje i o e cien í ico. Inclui-se ambém a necessidade de e isão do
es abelecimen o da cul u a judaico-c is ã como pad ão, inculada à ideia de
Deus (o sag ado), do indi íduo (o humano) e da na u eza. Essa íade cos uma
sepa a o co po da men e, e a azão do p ocesso de simbolização do mundo,
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DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
ge ando co pos azios de signi icados e a exclusão do pensamen o simbólico
como o ma de exp essão humana sob e a ida.
Nas ci ilizações ociden ais, a cisão en e o co po e a men e acabou po c ia uma
issu a epis emológica en e a azão e a na u eza. Não se conhece al sepa ação
em ou as cul u as (Lande , 2000).
É jus amen e buscando ompe com a base das sepa ações en e co po e men e
que se á possí el pensa num conhecimen o co po i icado e con ex ualizado
nas expe iências, cujo subje i o e obje i o não são uni e sais, e que de e se
comp eendido den o de um quad o c í ico, his ó ico e emancipa ó io. Assim,
são mui os os desa ios a se em en en ados.
Num mundo no qual pa ecem impo -se, po um lado, o pensamen o único, e po
ou o, a agmen ação da con empo aneidade, quais se iam as po encialidades
c í icas que se ab em ao con inen e do conhecimen o, en ol endo iden idade
e cul u a? Que pe spec i as educacionais e co en es concei uais su gem da
necessidade de da oz e sen ido às lu as dos po os his o icamen e excluídos,
como os po os neg os e indígenas? Como se ecolocam os elhos-no os emas
sob e a iden idade, a miscigenação e a expe iência his ó ica e cul u al de cada
g upo social? Como o cu ículo pode omen a discussões ace ca da ealidade
local e mundial, o pensamen o c í ico en e às imposições das sociedades
neolibe ais, e o conhecimen o hegemonizado, de e minado e impos o pelos
países di os desen ol idos? Como é possí el descoloniza o cu ículo das
pe spec i as da indús ia cul u al de massa? (Gama, 2017).
Sabe-se que a pio dominação é aquela que, na u alizada, deixa de se ques ionada,
pa a de se pe cebida como al, e é ele ada à exp essão de um mundo globalizado,
que desquali ica iden idades, sen imen os e pe cepções locais e indi iduais,
p óp ias de cada cul u a.
Den o desse quad o, é p eciso um comp omisso e e i o das educado as e
dos educado es pa a ques iona , imagina e pensa em o mas de supe a as
dispa idades educacionais.
É p eciso ha e um es o ço pa a que g upos excluídos - pob es; meninas e
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meninos de ua; abalhado as e abalhado es; mulhe es e/ou homens u banos
e/ou de zonas u ais; as nômades e os nômades mig an es; os po os indígenas;
as e ugiadas e os e ugiados, deslocadas e deslocados dos seus e i ó ios
po gue as, ques ões sexis as, é nicas e aciais - não so am qualque ipo de
disc iminação no acesso ao conhecimen o e no di ei o à educação.
O cu ículo p ecisa ompe com a con o mação colonial do mundo, na qual
exis e a cul u a uni e sal, eu opeia, e a cul u a dos ou os (Lande , 2000).
É p eciso encon a ou as o mas de o ganiza o conhecimen o, po meio
do qual a lógica eu ocên ica hegemônica seja comba ida, não só no p ocesso
epis emológico da colonização, mas ambém na pe manência de sua cosmo isão
de mundo, ainda p esen e em países como o B asil.
De aco do com Lande (2000), a cosmo isão de mundo es á apoiada na
ideia de mode nidade. T a a-se de comba e a cosmo isão baseada em qua o
dimensões, a sabe : 1. uni e salização da his ó ia a elada à ideia de p og esso,
cujos ideais es ão de e minados pela classi icação e hie a quização dos po os;
2. a sup emacia da sociedade libe al-capi alis a, como balizado a das elações
sociais; 3. a eliminação das múl iplas pe spec i as cul u ais e sociais, p óp ias
das inúme as sociedade que ocupam o mundo; e 4. a necessidade de de e mina
a supe io idade de de e minados conhecimen os de uma sociedade, em elação
a odos os ou os p oduzidos po di e sos po os.
As qua o dimensões ap esen adas po Lande indicam caminhos que de em se
epensados, ao se conside a a lógica eu ocên ica como o ma de o ganização
do pensamen o, do empo e do espaço pa a odos os po os. Nas o mulações
cu icula es, de emos le a em conside ação ou os pon os de is a, ansmu ando
as e e ências eu opeias, comp eendidas, acei as e di undidas como supe io es e
uni e sais.
Repensa os cu ículos das escolas públicas b asilei as implica ambém modi ica
a o ma de se da sociedade. Ao se ans o ma o disposi i o colonizado do
conhecimen o, em-se a opo unidade de ambém modi ica o se humano
e a sociedade. Dessa manei a, ou as o mas de pensa e concebe o mundo,
ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
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as di e sas possibilidades de o ganização da sociedade e os inúme os sabe es
p ecisam se obse ados, analisados e expos os às es udan es e aos es udan es.
Todos p ecisam se es imulados a encon a , na sua p óp ia cul u a, caminhos
que indiquem suas capacidades de p odução e o ganização do conhecimen o,
pa a que deixem de se a ados como di e en es, adados a pe manece den o
do g upo dos des a o ecidos, econômica e in elec ualmen e.
Um cu ículo que p i ilegia conhecimen os eu ocên icos acaba po legi ima a
missão ci ilizado a/no malizado a da colonização (Lande , 2000).
A educação em a ob igação de u iliza di e en es ecu sos pedagógicos e didá icos
que c i iquem os p ocessos his ó icos de e angelização e de ci ilização do humano
b anco sob e as demais pessoas. Não az sen ido ac edi a que um único pad ão
ci iliza ó io, sob o p e ex o de desen ol imen o do mundo con empo âneo,
globalizado, seja ainda enca ado como o ma supe io , na u al e necessá ia à
ele ação das capacidades cogni i as das es udan es e dos es udan es. To na-se,
assim, necessá io inse i nos cu ículos a concepção de comunidade, em que a
pa icipação popula e ambém o sabe popula sejam pa es cons i uin es da
o ganização e sis ema ização do conhecimen o, ao mesmo empo que ambém
seja possí el ques iona e desen ol e o pensamen o c í ico sob e a hegemonia
do conhecimen o uni e sal.
A elabo ação de um cu ículo menos p esc i i o e mais c í ico em como
ho izon e de expec a i as a ideia de emancipação po meio de p áxis, que
p essupõe a cons ução do pensamen o c í ico ol ado à desna u alização das
o mas canônicas de conhece e ap ende . De e-se ambém epensa o papel
social do conhecimen o, conside ando as elações en e o sujei o e o mundo, seu
ca á e his ó ico, ansi ó io, e a mul iplicidade de ozes sob e a ida e es e.
To na-se, ainda, undamen al minimiza as ensões en e mino ias e maio ias
hegemônicas, ab indo espaços pa a modos al e na i os de p oduzi e o ganiza
o conhecimen o. Po im, e e mé odos que se o na am co en es, ac í icos
e hegemônicos no modo de seleciona e a alia o conhecimen o (Mon e o, in
Lande , 2000).
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM

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Ao se deb uça sob e a ideia de um cu ículo con empo âneo b asilei o, se á
p eciso coloca ambém em discussão a o mação das docen es e dos docen es, e
inclui es o ços que implicam a descons ução do ubíquo, da desna u alização e
desuni e salização da mode nidade, pa a que haja o o alecimen o das ma cas
cul u ais pessoais.
Fa o es da economia que de e minam a p odução cul u al, a manei a de
p oduzi sujei os humanos e o dens sociais den o de um único pad ão, de em
se ques ionados pelos cu ículos. É p eciso in es i na comp eensão e na c í ica
aos mecanismos simbólicos e imaginá ios que o nam legí imos de e minados
domínios, azendo desapa ece as con adições e na u alizando o conhecimen o.
Nesse sen ido, as pe spec i as p agmá icas, ac í icas, jun amen e com as
p esc i i as, do cu ículo p ecisam se e is as, ab indo um espaço maio pa a os
p ocessos de cons ução e exe cício do imaginá io, pois é po meio da cons ução
e ep esen ação simbólica que o sen ido de comunidade – nacional, é nica e
sexual – adqui e o ma e con eúdo, e pode se econhece como al.
Em ace dessas ques ões, o cu ículo con empo âneo de e não só sa is aze às
necessidades básicas de ap endizagem e acesso ao conhecimen o sis ema izado,
como ambém es abelece um campo de deba e e ques ionamen o. De e
undamen almen e conside a os e i ó io de sabe es que acompanham cada
pessoa – po exemplo, sabe es o ais, sabe es ances ais, sabe es adqui idos na
escola e compõem sua ede conhecimen os e olha es sob e o mundo. Assim,
o cu ículo p ecisa es a abe o a iden i ica emá icas que êm como oco a
di e sidade e o mul icul u alismo, si uando-se no âmbi o dos deba es,
di ecionado pa a uma educação em oposição ao e nocen ismo. T a a-se de um
cu ículo pau ado em no os pa adigmas, en e eles as eo ias pós-coloniais e
es udos cul u ais. Nesse sen ido, não se a a apenas de c ia leis que legi imem
os cu ículos das escolas b asilei as ou a p esc ição de mé odos e didá icas a
se em abalhados em sala de aula.
ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
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A inse ção no cu ículo de emá icas é nicas po o ça de lei, po si só, não
dá con a de eduzi o osso que sepa a a escola, no B asil, da comunidade da
qual ela az pa e e dos sujei os que a compõem na sua di e sidade. (A aújo;
Ba os, 2015, p.2)
Faz-se, assim, necessá ia a ampliação dos es udos, isando acompanha
p opos as, pa âme os e o ien ações de on es o iciais, de cole i os de educado es
e da academia, pa a que se possa descons ui paula inamen e a concepção
epis emológica eu ocên ica, que em disciplinado os co pos e pe pe uado
a condição b asilei a de colonizados. Ou seja, os cu ículos, e aquilo que se
ensina po meio deles, êm pe pe uado a imagem de po os subal e nos, polí ica,
econômica e cul u almen e. E, simul aneamen e, ambém em di undido a ideia
de homogenia cul u al e iden i á ia, excluindo ou desquali icando ou os ma cos
p óp ios das cul u as locais b asilei as.
Pa a a e icácia des e olha sob e o cu ículo con empo âneo b asilei o, não bas a
inclui um ol de con eúdo a se desen ol ido em sala de aula, ou olclo iza
ques ões ligadas à expe iência a o e à di e sidade egional b asilei a, po exemplo,
p omo endo ei as cul u ais nas escolas. É p eciso agi mais p o undamen e pa a
al e a a manei a de concebe e exe ce p á icas cu icula es. Além da lógica
de o ganização eu ocên ica, p agmá ica e hegemônica, é necessá io ambém
a alia o p óp io cu ículo, a manei a como es á es u u ado, a que in e esses ele
esponde, e em quais alo es ci iliza ó ios e humani á ios es á pau ado. Somen e
dessa manei a se á possí el epensá-lo, não apenas como caminho pa a ep oduzi
e eduzi o p ocesso de ensino e ap endizagem a p á icas me odológicas, mas
en endendo-o como a e a o cul u al e impo an e ins umen o polí ico
des inado à o mação social dos indi íduos.
A escolha de de e minadas disciplinas em p ejuízo de ou as acabou po legi ima
a desigualdade social, p i ilegiou de e minadas o mas de sabe , e calou inúme os
segmen os cul u ais e his ó icos. De e-se en ende o cu ículo escola como uma
cons ução comuni á ia, po meio da qual es ão en ol idas ques ões de sabe e
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
38
pode . Po essas azões, de ende-se a cons an e e isi ação c í ica dos cu ículos e
a busca po uma p opos a que e li a a dinâmica e a di e sidade social b asilei a
(A aújo; Ba os, 2015).
Além das ques ões epis emológicas, eu opeias e coloniais p esen es na educação
e cul u a b asilei as, não se pode deixa ambém de des aca a in luência da
li e a u a educacional no e-ame icana na consolidação da educação de massa
b asilei a. No início do século XX, os EUA passa am a pon ua os deba es ace ca
dos cu ículos b asilei os, p opondo uma educação des inada a o ma sujei os
pa a a economia ou pa a a democ acia. Dessa manei a, associa-se a escola e
seus ins à dinâmica indus ial e adminis a i a do capi alismo. O cu ículo
passa a especi ica , po meio dos planos de ensino, os obje i os p e endidos, os
esul ados a se em alcançados, a me odologia a se aplicada e a mensu ação dos
esul ados, de inindo aquelas e aqueles que es ão ap as ou ap os pa a o me cado
(A aújo; Ba os, 2015).
O dilema ace ca dos obje i os dos cu ículos do século XX - o ma pessoas pa a a
economia ou pa a a democ acia – ouxe à ona eo ias c í icas sob e o cu ículo,
colocando em oposição eo ias adicionais que p io iza am os elemen os écnicos
na sua cons i uição e a aliação. O modelo adicional acabou po ge a alunas
e alunos desin e essados, p o esso as e/ou p o esso es desmo i ados, ime sos
em um cu ículo con eudis a e em uma educação ac í ica. Ou seja, uma escola
dis an e da dinâmica da ida e da sociedade, incapaz de exe ci a a al e idade
das en ol idas e dos en ol idos no p ocesso educacional, inap a pa a lida com
as ques ões é icas e polí icas, e pa a epensa a sociedade b asilei a den o das
pe spec i as da di e sidade de gêne o, mul ié nica, mul i acial e mul icul u al.
Pa a as eo ias c í icas, o mais impo an e não e am as écnicas de como aze o
cu ículo, mas o desen ol imen o de concei os que pudessem comp eende as
ques ões polí icas, sociais e cul u ais p esen es na sua cons i uição (Sil a, 2011).
Nesse âmbi o, ganha am des aque as pe spec i as cu icula es que aziam
maio p oximidade com o co idiano das alunas e dos alunos, que alo iza am as
discussões é nicas e de gêne o, as his ó ias locais e os sabe es popula es.
ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
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Esse pe cu so his ó ico e pedagógico colocou o cu ículo das escolas públicas
b asilei as dian e da necessidade de e o mula a p óp ia escola e seus cu ículos,
po meio de p áxis pedagógicas e eo ias ligadas à educação, capazes de
p oblema iza e inclui o mul icul u alismo, a al e idade e a di e sidade.
Ressal a-se que o mul icul u alismo es á embasado em es udos eó icos
epis emológicos, ao mesmo empo que se a a ambém de uma p á ica
social. Ou seja, p ecisa se pe cebido como um ins umen o de lu a polí ica,
con es ado a, que comba e os p econcei os e as disc iminações de indi íduos
e g upos cul u ais his o icamen e subme idos a p ocessos de ejeição e/ou
silenciamen o. O mul icul u alismo em na sua base a de esa do pe encimen o
iden i á io dis in o de pad ões hegemônicos, alidados e acei á eis po
de e minados segmen os sociais, que que em impo suas pe spec i as de mundo
sob e as ou as pessoas, sejam ais imposições no espaço escola ou no con ex o
social mais amplo (A aújo; Ba os, 2015).
Dessa o ma, os cu ículos p ecisam es a em pe manen e p ocesso de a aliação
e cons ução, endo em is a que eles de em con empla pe spec i as dos
Es udos Cul u ais. Es es, po sua ez, eme gem con a a adição dominan e,
que legi ima apenas a cul u a a elada às g andes ob as li e á ias e a ís icas, ou
com o imaginá io de uma de e minada sociedade econhecida pelos seus alo es
uni e sais. Os cu ículos b asilei os p ecisam se is os como espelhamen o
do mul icul u alismo, como exp essão da expe iência humana, e como um
impo an e campo de signi icação social.
Mesmo comp eendendo o cu ículo como uma de i ação do pensamen o
c í ico, e apoiado no econhecimen o das p oblemá icas sociais b asilei as, é
p eciso que as p o esso as e os p o esso es sejam incen i adas e incen i ados a
comp eende o p ocesso de ensino e ap endizagem po meio de conhecimen os
mul idisciplina es, ansdisciplina es e in e disciplina es, conside ando o
espei o à condição humana, o di ei o à exis ência em suas múl iplas o mas de
exp essão, e o di ei o ao p ocesso de ap endizagem. Dessa o ma, a educação se á
o caminho pa a a
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
46
são espaços pa a con e ências, e o a se con igu am como salas pa a as esidências
a ís icas. Assim, es a unidade em ca ac e ís icas de um cen o cul u al, com
a i idades aos domingos e segundas- ei as.
Com base em múl iplas expe iências e encon os com a is as que es ão na lida,
a escola ponde a o papel social das A es Cênicas em módulos que alo izam a
emancipação c iado a, o pensamen o c í ico e a con luência absolu a de alen os
e poé icas, des iando-se da elação hie á quica e homogeneizado a que cos uma
es a p esa às bases educacionais.
Os p essupos os do cu ículo da Escola são:
• Ensino não hie á quico: a Escola se baseia em um modelo de ensino
que ompe com o egime de subo dinação das pedagogias adicionais.
O conhecimen o a ança de aco do com abalhos p á icos e e lexi os,
le ando em conside ação o i mo de ap endizagens das es udan es e dos
es udan es.
• Ensino não cumula i o: busca dilui comple amen e o pa âme o de
que a es udan e e o es udan e no qua o semes e são mais a ançados do
que aqueles e aquelas no es ágio inicial. Compa imen a o conhecimen o
a ís ico é uma con adição imp odu i a, pois ele de e se abalhado
como um mecanismo de expansão, desdob amen o na u al do aze
a ís ico, e não de acumulação.
• Ensino modula : um módulo co esponde à unidade de con eúdos
e p á icas daquele semes e. A es udan e e o es udan e da SP Escola de
Tea o equen am qua o módulos independen es em uma das linhas
de es udo que compõe as a es do palco, cada um com a du ação de um
semes e e iden i icado po uma co : e de, ama elo, azul e e melho.
Assim, o na-se possí el cons ui aje ó ias indi iduais no p ocesso de ensino
e ap endizagem, no qual a ques ão da acessibilidade, como já oi pon uado,
o na-se um dos p incípios no eado es do sis ema pedagógico. Dessa o ma,
o concei o de inclusão social é edimensionado. Em ge al, p essupõe-se que
ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA

47
as pessoas que es ejam o a de algum sis ema – seja de bem-es a social ou
abundância econômica – necessi am se inco po adas po uma e cei a ou po
um e cei o.
Aquelas e aqueles supos amen e excluídas e excluídos podem se ans o ma ,
assim, em se es sem au onomia, ma ione es ine es, em uma elação de
ansi i idade que ex apola seu pode de escolha singula .
A SP Escola de Tea o p opõe subs i ui a noção de inclusão social po
acessibilidade, em odos os nossos p oje os a ís icos e pedagógicos. E i a-se,
assim, a obje i icação das pessoas, que p ecisa iam, po sua condição de op imida,
op imido, excluída ou excluído do cí culo de opo unidades socioeconômicas,
se em inse idas den o de algo, po o ças ex e nas alheias às suas condições
exis enciais. Ao con á io, as pessoas de em se comp eendidas como se es a i os,
que azem escolhas de aco do com os e i ó ios que almejam acessa , em ez de
se conside adas obje os que p ecisam se incluídas po alguém. As pessoas em
si uação de ulne abilidade social não p ecisam se inco po adas po agen es
exógenos. Necessi am, sim, de um ambien e sociopolí ico que lhes p opo cione
boas escolas, biblio ecas e espaços cul u ais, associados a in aes u u a e icien e,
sis ema de saúde e emp ego (Aquiles; Cab al; Ga cía, 2018).
Com es e p essupos o, o acesso à SP Escola de Tea o oco e po di e sas ias.
Inicialmen e, um p ocesso que ga an a uma escola mul icul u al, habi ada
po odos os pe is é nicos, polí icos, de gêne o, o ien ação sexual ou o igem
socioeconômica. Em segundo luga , o acesso é ga an ido po meio dos cu sos
g a ui os. Além disso, exis em bolsas de es udo que p o êm supo e pa a a é
me ade das es udan es e dos es udan es. Sem a Bolsa-Opo unidade, uma
g ande pa cela, o iunda de amílias economicamen e desp i ilegiadas, não e ia
condições de a ca nem mesmo com o anspo e a é a escola. Finalmen e,
um p og ama de in e câmbios in e nacionais ga an e o acesso a impo an es
uni e sidades o a do B asil.
A chamada “inclusão social” pode se elacionada a he anças de subo dinação
colonial, como esc a idão, dogma ismo eligioso, in ole ância é nica, ganância
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
48
pela iqueza ma e ial e pode polí ico, pa ia cado e he e ono ma i idade. Esses
pad ões de subo dinação subes imam e minam alen os e capacidades indi iduais.
Spi ak (1988) abo da a ques ão do chamado subal e no, e e indo-se à ação de
encon a uma oz “den o e o a do ci cui o de iolência epis êmica da no ma
impe ialis a e da educação” (p.283). Quando enxe gamos a acessibilidade como
aje ó ias abe as pa a que qualque um possa iaja a é qualque e i ó io, a
au onomia indi idual e o li e-a bí io se expandem, ao in és de se em limi ados
po ba ei as econômicas, sociais, é nicas ou bio ísicas. Assim, o que se p opõe
é uma no a abo dagem concei ual e p agmá ica, e não simplesmen e uma
modi icação semân ica. O obje i o é p omo e o ala gamen o das discussões
sob e esses alo es na sociedade. Con udo, isso de e se semp e en endido como
uma a enida de mão dupla, pa a que se assegu e o diálogo. Com isso, a oca e a
po osidade são componen es cen ais do sis ema pedagógico da Escola (Aquiles;
Cab al; Ga cía, 2018).
Uma igu a cen al no desen ol imen o da pedagogia da escola oi o geóg a o
b asilei o Mil on San os (2009). Pa a ele, o e i ó io é a u ilização que os
se es humanos azem do espaço geog á ico, e a o ma como se c iam as edes
de elações no mesmo. A globalização, em seu pensamen o, de e se en endida
como uma das dimensões da cons ução das elações sociais.
Ao ala da “na u eza do espaço”, San os a i ma que es e
(...) se impõe a a és das condições que ele o e ece pa a a p odução, pa a
a ci culação, pa a a esidência, pa a a comunicação, pa a o exe cício da
polí ica, pa a a exp essão das c enças, pa a o laze como condição do ‘ i e
bem’. (San os, 2009, p.55)
Le ando adian e essas ideias, um dos obje i os da escola é u iliza o ea o pa a
ocupa e ans o ma o e i ó io. Po an o, en ende como o aze ea al, as
a is as e os a is as podem in e agi nes e e i ó io é undamen al pa a de ini o
p óp io p ocesso de ap endizagem das es udan es e dos es udan es.
ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
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Ou o p essupos o eó ico que em ap imo ado o cu ículo da Escola, na busca
da descolonização do sabe e da hie a quia do conhecimen o, é a noção de
“pedagogia da au onomia”, c iada pelo pedagogo b asilei o Paulo F ei e. Es e
concei o é undamen al, pois e i a um olha colonizado sob e o p ocesso de
c iação e ap endizagem ea al. Pa a as a is as e os a is as docen es, o in ui o
não é ansmi i conhecimen os. An es, e sob e udo, há mui o o que ap ende
com as jo ens e os jo ens es udan es. Assim, o eixo de nosso p ocesso pedagógico
pode se esumido na ase de Paulo F ei e:
Ninguém igno a udo. Ninguém sabe udo. Todos nós sabemos alguma coisa.
Todos nós igno amos alguma coisa. Po isso ap endemos semp e. (F ei e,
1983, p.39)
Desse modo, não exis e conhecimen o p é io ob iga ó io a se ensinado an es
da p á ica. Ao con á io, o sabe é cons uído a pa i de expe iências eais; é
cons uído a pa i de p oje os cênicos escolhidos odo semes e, e de e minados
como pa âme os às es udan es e aos es udan es. Consequen emen e, a
ap endizagem acon ece an o a pa i do singula quan os das conexões
elacionais es abelecidas en e odas as en ol idas e odos os en ol idos no
abalho a ís ico. O conhecimen o é compa ilhado de di e en es manei as,
en e odas e odos que pa icipam do p ocesso de ensino e ap endizagem.
Finalmen e, o e cei o p essupos o undamen al pa a a elabo ação do p oje o
pedagógico da SP Escola de Tea o oi o concei o de ‘pensamen o sis êmico’ de
F i jo Cap a, a pa i do con ex o, que é adicalmen e opos o ao pensamen o
analí ico. Segundo o au o ,
(...) análise signi ica isola algo com o in ui o de en endê-lo; o pensamen o
sis êmico signi ica coloca esse algo em um con ex o de um odo maio .
(Cap a, 2000, p.41)
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
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Sua abo dagem sis êmica en a iza os p incípios de o ganização, em de imen o
do uncionamen o de elemen os indi iduais. Como co olá io, es udan es são
enco ajadas e enco ajados a expe imen a á ios p ocessos de ap endizagem,
como pa e de um sis ema a iculado de pensamen o e ação.
Dessa o ma, a Escola é semp e sensí el aos concei os de hib idação e cul u a
poli alen e. O B asil em uma complexa o ma de in e agi , nega e disc imina
hábi os sociais e linguís icos. Os b asilei os compa ilham, num mesmo
e i ó io, ances alidades eu opeias, a icanas e ame índias. Mas isso não
signi ica que essas pe spec i as cul u ais es ejam in eg adas, apaziguadas ou em
diálogo. Ao con á io, olha-se mui o mais pa a a Eu opa do que pa a a p óp ia
Amé ica La ina, quando se pensa em ea o ou na o ganização do pensamen o
eó ico sob e as a es cênicas. São Paulo é uma cidade po oada an o po
imig an es como po mig an es de ou as egiões do país. Ao se conside a os
con ex os aqui ap esen ados, o na-se undamen al uma abo dagem pedagógica
não hie á quica, dando igual alo às o igens e ca ac e ís icas singula es de odas
e odos que i em e compa ilham o e i ó io b asilei o.
Is o diz espei o especialmen e ao modo de p odução da educação ea al, que
é ocada na c iação de no os ma e iais e e e ências (ou sua essigni icação), ao
in és de acei a sem c í icas o cânone ociden al como um modelo e e encial e
uni e sal. Po an o, o obje i o não é ep oduzi as “g andes” na a i as, nem
eina as es udan es e os es udan es à exaus ão pa a dominá-las. Ao con á io,
a in enção é c ia aje ó ias au o ais, e é po isso que odos os p oje os ea ais
(Expe imen os) ap esen am d ama u gia o iginal desen ol ida pelas es udan es
e pelos es udan es.
Na SP Escola de Tea o não há ex os d ama ú gicos “clássicos” a se encenados
pelas u mas de es udan es; em ez disso, o oco es á ol ado às pe spec i as da
con empo aneidade. Assim como não há disciplinas acadêmicas a se em cu sadas,
não há aulas no cu so écnico em ea o que se concen em na d ama u gia
g ega, shakespea iana ou de Becke , po exemplo. No en an o, esses con eúdos
podem se acessados como ma e iais de pesquisa ou como o icinas especiais nos
ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
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cu sos de ex ensão, mas nunca enquad ados como on e ex ual p imá ia pa a a
encenação. A adição clássica é de in e esse cen al, apenas se e quando es i e
associada a uma p opos a con empo ânea de mon agem.
Como exemplo dessa pe spec i a, uma es udan e pode ia p ocu a mais
in o mações a espei o de um d ama u go como Eu ípides ou Tchekho , pa a
esc e e suas p óp ias peças. No en an o, esses au o es se i iam apenas como
e e ência em e mos de p ocedimen o, con eúdo ou o ma. Es a abo dagem ai
além do simples desman elamen o do cânone ea al al amen e eu ocên ico; em
ez disso, ep esen a a oxigenação da p odução de no os concei os al e na i os
e ma e iais ea ais. O mesmo se aplica a ou as e e ências. Na escola, o
eó ico mais so is icado nos es udos pós-coloniais é ão impo an e quan o o
a is a local, que é um d ama u go e in é p e e au odida a. As es udan es e os
es udan es êm au onomia pa a decidi se seu desen ol imen o pessoal como
a is as se á mais balizado po um ou ou o ipo de conhecimen o, ao longo do
desen ol imen o de qualque p oje o especí ico (Aquiles; Cab al; Ga cía, 2018).
Todo esse p ocesso o na signi ica i as noções como plu alidade e al e idade.
Elas são is as como on es de ene gia e po encial c ia i o, bem como elemen os
que queb am pa adigmas anac ônicos e p o ocam ans o mações sociocul u ais.
Na SP Escola de Tea o, po exemplo, as es udan es e os es udan es lidam
cons an emen e com ques ões como iden idade de gêne o e empode amen o
social, de ido à conexão his ó ica da ins i uição com a comunidade ansexual e
ma ginalizada da p aça Roose el (Cab al; Vázquez, 2016). Essas ques ões não
es ão apon adas no cu ículo apenas como discussões ans e sais ao seu p ocesso
de o mação. A p opos a é mais ampla, e é pa e cons i uin e dos emas que
são le ados à cena, du an e os expe imen os cênicos desen ol idos pelas e pelos
jo ens a is as dos cu sos. No p ocesso de pesquisa, du an e as in es igações
cênicas e nas abe u as das salas de ensaio, as es udan es e os es udan es êm
espaço pa a discu i ques ões de gêne o, aça e classe, apoiados em pe spec i as
de au o as e au o es con empo âneos que êm se dedicados a e le i sob e
esses emas. Também es ão em cena as expe iências pessoais que cada jo em
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM

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ca ega consigo ou que o am i enciadas den o da p óp ia escola. Assim, não
se a a de apenas descoloniza conhecimen os nem ampouco ans o ma a
ques ão em emas de es udos. Ao con á io, a a-se de cons ui dia iamen e
a i udes e posicionamen os que conduzam à i ência de pos u as an icoloniais,
an i acismo e con a qualque p econcei o iden i á io. São expe iências que
de em es a p esen es na es u u ação das p opos as pedagógicas e a ís icas
da Escola, na condução do abalho de c iação e nas p opos as cênicas das
es udan es e dos es udan es. Essas expe iências oco em de mui as manei as no
co idiano da Escola. Elas es ão p esen es nas escolhas dos ma e iais didá icos,
nas a is as con idadas e a is as con idados pa a as mesas de discussão e ó uns
de deba es, nas elações es abelecidas en e os en ol idos no p ocesso de ensino
e ap endizagem e, undamen almen e, no modo de es a e se pe cebe numa
Escola plu al, ho izon al, que em in e esse pela pesquisa, pela ino ação e pela
cons ução de elações in e pessoais saudá eis, pau as na polissemia de ozes e
cul u as. Nesse sen ido, a escola busca di imi a dis ância en e comp eende
eo icamen e os p opósi os da con i ência plu al e a ealização da ans o mação
social pela A e e com o Tea o. Po meio de uma abo dagem pedagógica e
a ís ica, que es á em cons an e e lexão, o desejo deixa de se um pa adigma
concei ual e passa a se con igu a como o p imei o passo pa a a consolidação
de uma p opos a de ap endizagem mú ua, cujas expe iências i idas no âmbi o
da Escola e, po an o, du an e o p ocesso de c iação ea al, são capazes de
edimensiona a ida humana, ampliando pe spec i as undadas em hie a quias
aciais e descons uindo a sup emacia de uma de e minada cul u a sob e ou as
cul u as e e i ó ios que endem a sepa a “nós”, “elas” e “eles”.
Um álbum musical pa a ilumina alguns caminhos
No segundo semes e de 2015, como semp e oco e na Escola, um g upo de
a is as docen es es a am empenhadas e empenhados em de ini uma au o a
con empo ânea pa a se i de base às discussões do módulo que i ia oco e
em 2016. Jun amen e com es a escolha, esse g upo ambém busca a seleciona
ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
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ma e iais (imagens, ex os, ou ma é ias jo nalís icas) pa a inicia as pesquisas
cênicas, bem como a eleição de uma a is a pedagoga pa a que as es udan es e
os es udan es pudessem encon a na aje ó ia dessa a is a a inspi ação pa a as
in es igações es é icas do semes e.
Em ge al, essas discussões semp e le am em con a o que es á o bi ando en e as
es udan es e os es udan es, e deco em ambém, mui as ezes, dos p oblemas
encon ados nos abalhos de semes es an e io es. E acon eceu que, naquele
momen o, segundo semes e de 2015, eio à ona um expe imen o cênico que
ala a da mulhe , da ques ão do empode amen o, e da iolência; ainda uma
iolência su il, po que acon ecia num casamen o em que o ma ido não que ia
que a mulhe abalhasse o a, e insis ia, a odo cus o, que ela se o nasse dona
de casa. Esse expe imen o oi bas an e con unden e, e apon a a pa a algumas
ques ões que sabíamos que e iam que se ecupe adas em algum momen o. Em
uma eunião pedagógica, J. C. Se oni, coo denado de Cenog a ia e Figu ino e
Técnicas de Palco, ouxe a in o mação de que, em 2016, se ia comemo ado o
cen ená io do samba. Hugo Possolo, coo denado de A uação, ez co o, dizendo
que se ia in e essan e abalha com le as de samba. Imedia amen e, pe cebeu-
se que as le as de samba, p incipalmen e dos mais an igos, aziam uma dose
o e de machismo e in ole ância.
Foi ine i á el lemb a do machismo de canções como “Ai! Que saudade da
Amélia”, de A aul o Al es e Má io Lago:
Você só pensa em luxo e iqueza / Tudo o que ocê ê, ocê que / Ai meu
Deus que saudade da Amélia / Aquilo sim é que e a mulhe / Às ezes passa a
ome ao meu lado / E acha a boni o não e o que come / E quando me ia
con a iado / Dizia “meu ilho, o que se há de aze ?” / Amélia não inha a
meno aidade / Amélia é que e a mulhe de e dade (1942).
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
54
“Mulhe indiges a”, de Noel Rosa:
Mas que mulhe indiges a / Me ece um ijolo na es a / Essa mulhe não
namo a / Também não deixa mais ninguém namo a / (...) Ela é mais
indiges a do que p a o / De salada de pepino à meia-noi e / Essa mulhe
é ladina / Toma dinhei o, é a é chan agis a / A ancou- me ês den es de
pla ina / E oi logo ende no den is a (1932).
E “Emília”, de Wilson Ba is a e Ha oldo Lobo:
Que o uma mulhe que saiba la a e cozinha / Que de manhã cedo me
aco de na ho a de abalha / Só exis e uma / E sem ela eu não i o em paz/
Emília (1941).
E, nessa eunião, mais uma ez o expe imen o do Módulo Ve melho, aquele da
cena do casamen o, eio à baila. Po an o, e a undamen al se conec a com o
nosso empo, com as ques ões que nossas es udan es e nossos es udan es inham
apon ando.
Em azão disso, a ideia de celeb a o cen ená io do samba pe deu o ça. Mas,
naquele momen o, um CD azia bas an e sucesso en e as a is as e os a is as da
Escola: “A mulhe do im do mundo” (2015)2, de Elza Soa es, p oduzido pelo
selo Ci cus.
Assim, a pa i daquele momen o, es a a escolhido o ma e ial de abalho.
Fal a a, no en an o, de ini Ope ado e A is a Pedagogo.
2 O CD de Elza Soa es, com 11 canções, p oduzido po Guilhe me Kas up e E ns on Bönninghausen
(o álbum é de músicas compos as, em sua maio ia, po homens b ancos), mis u a á ios gêne os musicais,
como samba, ock, ap e ele ônica, com emas como iolência domés ica, ansexualidade, u banidade
e acismo, en e ou os. Em 2016, o álbum ecebeu o p êmio G ammy La ino, na ca ego ia Álbum de
Música Popula B asilei a. A icha écnica do CD eúne os seguin es composi o es: José Miguel Wisnik,
Rômulo F óes, Alice Cou inho, Douglas Ge mano, Kiko Dinucci, Clima, Celso Sim, Joana Ba ossi,
Fe nanda Diaman , Rod igo Campos, Cacá Machado, Ma celo Cab al e Albe o Tassina i.
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ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA
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Com o CD “A mulhe do im do mundo”, oi p eciso busca e e ências eminis as
que dialogassem com o nosso empo. Fo am dias pesquisando, indo a ás de
e e ências, a é que chegou a nossas mãos o abalho da nige iana Chimamanda
Ngozi Adichie, especialmen e um li o chamado “Sejamos odos eminis as”
(2014), u o de uma con e ência ealizada pela undação no e-ame icana
Sapling, na qual a esc i o a ap esen ou uma ideia pa a o eminismo do século
21, a pa i de suas expe iências pessoais, e de endeu a inclusão e consciência da
mulhe na con empo aneidade.
Nesse momen o, ambém ci cula a nas edes sociais Twi e e Facebook a
hash ag #meup imei oassedio. Um mo imen o po in e médio do qual as
mulhe es começa am a desc e e expe iências de assédios que ha iam so ido
em suas idas.
Assim, a pe spec i a con empo ânea de Chimamanda começa a a aze sen ido.
En im, inha-se o Ma e ial de T abalho (o CD “A mulhe do im do mundo”3) e
o Ope ado (o li o “Sejamos odos eminis as”); mas ainda e a necessá io busca
a A is a Pedagoga, alguém que pon uasse o diálogo en e esses dois luga es.
E a p eciso de ini quem se ia essa a is a. Tínhamos, de an emão, uma única
ce eza: de e ia se uma mulhe . O nome da a iz, encenado a e d ama u ga
espanhola Angélica Liddell imedia amen e oi lemb ado e de inido.
Angélica é uma das g andes ozes emininas na esc i a ea al con empo ânea.
Ela inha indo ao B asil em 2014, du an e a Mos a In e nacional de Tea o de
São Paulo (MITsp), pa a ap esen a a pe o mance “Eu não sou boni a” – um
abalho con essional sob e um abuso sexual que ha ia so ido.
3 As canções des e CD azem uma d ama u gia sono a que ai do samba ao ock, passando pelo ap,
ele ônico e punk ock. Uma a iedade mui o ampla pa a as in es igações cênicas das es udan es e dos
es udan es. Elza Soa es é uma mulhe neg a, de 80 anos, com uma his ó ia de ida cu iosa e que pa ecia
me ece um olha mais a en o. De amília pob e, Elza i eu na pe i e ia do Rio de Janei o, oi mãe aos
14 anos, e, p ecisando da con a da ma e nidade, começou a can a nessa época, quando pa icipou do
p og ama de A y Ba oso na Rádio Tupi. Aos 15 anos, já inha sido mãe pela segunda ez e pe dido os
dois ilhos, e o ma ido adoece a de ube culose. Viú a aos 21 anos, com cinco ilhos, abalhou como
emp egada domés ica e axinei a. No início dos anos 1960, en im, o nou-se conhecida e, após qua o
elacionamen os, en ol eu-se com o jogado de u ebol Ga incha. Te e que en en a odos os ipos de
p econcei o po se pob e, neg a e mulhe .
DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
62
JORGE PALINHOS
O p oje o conseguiu ob e inanciamen o eu opeu pa a a sua conc e ização
e, g aças a isso, ealizou uma sé ie de inicia i as locais em cada uma das á eas
en ol idas, que deco iam den o de um p ocesso con ínuo de in e câmbio com
as ou as companhias, e i ia e mina com uma pa ada in e nacional no co ação
da União Eu opeia, em B uxelas, às po as do Pa lamen o Eu opeu.
Nes a a iculação en e companhias e egiões, o p oje o p ocu a a conjuga duas
dimensões apa en emen e con adi ó ias: uma dimensão local, em que cada
companhia abalha a com uma comunidade local especí ica, e uma dimensão
in e nacional, em que se es abeleciam pon os de con ac o en e os di e sos
países, companhias, comunidades e aspi ações. Com es a apa en e con adição o
p oje o acaba a po econhece ambém a na u eza pa adoxal do p óp io p oje o
eu opeu, que p ocu a enquad a di e en es comunidades, com iden idades,
cul u as e his ó ias mui o di e sas, den o de um âmbi o mul inacional e a é
con inen al.
Adicionalmen e, o Reclaim he Fu u e p ocu a a ambém a icula uma dimensão
social da a e com as p eocupações a ís icas he e ogéneas das á ias en idades
a ís icas en ol idas, na sua elação com as múl iplas ealidades sociais de países
ão di e en es como a Suécia, a Escócia, a F ança, a Li uânia e Po ugal.
É jus amen e nes e pon o que i á incidi o p esen e abalho, que p ocu a
desc e e o p ocesso a ís ico, a sua elação com a sociedade en ol en e, as
opções omadas e alguns dos esul ados. I ei oca -me p incipalmen e sob e um
dos e en os des e p oje o, a Pa ada Desa ada, que se ealizou na cidade do Po o
em Julho de 2017. I ei iden i ica como es e p oje o en ou in e i socialmen e
numa comunidade segundo uma pe spe i a a ís ica e pa a an o i ei apoia -me
nos abalhos sob e p á ica social de Shannon Jackson (2011) e Clai e Bishop
(2012), na o ma como es a p ocu am mapea , e c i ica , o c escen e papel di e o
dos a is as nas elações sociais.
Nes e ex o p ocu a ei da con a do p ocesso, escolhas e esul ados da e en e
po uguesa desse p oje o, lide ada pela companhia Visões Ú eis. Em p imei o
luga , i ei desc e e o his o ial do p oje o in e nacional, o p ocesso de cons ução

63
ENCENAR A VIZINHANÇA
e as suas di e en es aces no que diz espei o à sua implemen ação na eguesia
de Campanhã. Em seguida p ocu a ei da con a de di e en es isões e p opos as
no que diz espei o ao papel des e ipo de in e enção a ís ico-social, as suas
po encialidades e di iculdades ou p oblemas, e en a ei conclui p ocu ando
a alia os esul ados p á icos do mesmo no con ex o social em que o mesmo
deco eu em Po ugal.
A e e Sociedade
A dimensão social da a e é cada ez mais deba ida na a ualidade, sendo um
assun o con o e so. Es a dimensão con e e um u ili a ismo à a e que é ejei ada
po aqueles que de endem o p incípio da au onomia da a e, enquan o campo
de expe imen ação da écnica e de libe dade de exp essão do p óp io a is a,
mas de endida po eó icos e a is as apologis as da he e onomia da a e e o
seu papel enquan o in e enien e e ans o mado a da ealidade social, o que
ambém esponsabiliza a a e enquan o campo con ibu i o pa a a expe iência
social humana.
Não i ei deba e nes e a igo ambas as abo dagens, embo a seja ine i á el
ponde á-las pa a aze o es udo de caso de um p oje o de in e enção a ís ica
que me p oponho, is o que uma p á ica social da a e ge a opções es é icas
e polí icas que a e am an o a ob a de a e como a sociedade que com ela se
en ol e.
Como de inição de p á ica social soco o-me da de inição de Shannon Jackson,
de que uma p á ica social é uma in e enção a ís ica que ge a e lexão sob e as
in aes u u as de supo e an o de obje os es é icos como de se es i os (2011,
p.39). E o p oje o Reclaim he Fu u e, e nomeadamen e a Pa ada Desa ada, endo
como pon o de pa ida uma inicia i a de a is as na elação com comunidades
ma ginalizadas, pa ece enquad a -se nes a de inição. Apesa da ab angência de
al desc ição, que pode engloba uma quan idade bas an e g ande de p á icas
a ís icas, ambém pe mi e sus en a o lado he e onómico de ce as ob as de a e
sem lhes impo o ma os ou ideologias.
64
Toda ia, é indesmen í el que uma p á ica social e li a uma ideologia, an o
nos seus p incípios es é icos como na o ma como e le e sob e a in aes u u a
do p óp io obje o es é ico ou sob e as idas humanas que en ol e. Tal e lexão
pode passa an o pela elação do a is a com as pessoas e ma e iais não-a ís icos
en ol idos na o ma como es es são ap esen ados na ob a de a e e como in luem
na sua conceção ou execução. De ac o, o en ol imen o de não-a is as não é
legi imado da ob a de a e nem de qualque ei indicação de ealidade, mas
pelo con á io o ça a ob a de a e a conside a uma dimensão não-a ís ica e
não- écnica de como es á a in lui na ealidade e como es a a ec a a p óp ia
p odução da ob a de a e e, em úl imo caso, que ep esen ação da ealidade es á
a cons ui , com base no uso dos ma e iais da p óp ia ealidade.
His o ial do p oje o Reclaim he Fu u e
O p oje o in e nacional Reclaim he Fu u e e e a sua génese num p oje o
an e io in i ulado PACE – Pe o ming A s o C isis in Eu ope, o iginalmen e
concebido como um g upo de e lexão em o no do impac o da c ise económica
de 2008 e cons i uído po companhias de a es pe o ma i as de á ios países
eu opeus, que se p opunham discu i o mas a ís icas de lida com essa mesma
c ise.
A pla a o ma de e lexão g adualmen e começou a p ocu a o mas de le a
à p á ica as suas ideias, es abelecendo um p oje o consis en e que pudesse se
implemen ado no e eno. Es a busca e e como p imei a o ma o p oje o
“Cul u al Rese a ion”, cujo p incipal p opósi o e a a p omoção das ca ei as de
jo ens a is as. Toda ia al e são inicial i ia e olui pa a o p oje o “Seeds”, mais
amplo e ambicioso, que p e endia omen a o dinamismo a ís ico de g upos
he e ogéneos de pessoas, desde jo ens a is as a é g upos amado es de ea o,
cidadãos ma ginalizados ou mesmo in es igado es, a im de p omo e no os
âmbi os a ís icos, numa lógica de coope ação e inclusão que não echasse o
p oje o à simples alo ização a ís ica, mas que incen i asse a alo ização social
a a és da a e.
JORGE PALINHOS
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O decu so p á ico da elabo ação da candida u a a undos eu opeus, a en ada e
saída de en idades pa icipan es, bem como a cons an e e olução do pensamen o
sob e o p oje o ize am com que “Seeds” se ans o masse em “Reclaim he
Fu u e – Nomadic Ca ni als o Change”, o p oje o com que o conjun o de
companhias inalmen e ob e e apoio eu opeu pa a emp eende a sua expe iência
a ís ico-social.
Es e no o p oje o su gia da con inuidade de que e emp eende a i idades que
p omo essem maio inclusão social e elação en e as a es e a mudança social, e
o in e esse da companhia líde do p oje o, Thea e maskinen, em explo a a ideia
do des ile de Ca na al como momen o dis up i o do sis ema social es abelecido,
que se pudesse cons i ui como oco pa a o desejo de ans o mação social,
pela simbologia de união, libe dade social e inclusão da di e ença. Tal in e esse
elaciona a-se ambém com o ac o de a companhia na al u a es a a explo a a
écnica do bu ão, em a iculação com o a is a Al edo Angelici.
O bu ão, a igu a de ea o medie al associada à ideia da i acionalidade, da
libe dade, da explosão dos sen idos, ep esen a a ambém, pa a a men alidade
medie al, a ideia do mundo in e ido, em que os mais ma ginalizados da
sociedade podiam ques iona a o dem e o pode es abelecidos, e elando ou o
lado do eal: o g o esco, o dis o me, mas ambém aquilo que há de ma e ial e
obscu o na p óp ia exis ência, que em ez de se ma ginalizada pa a as anjas
da sociedade, inha a opo unidade de se azida pa a a p aça cen al da
comunidade.
Desse modo, o ca na al p opos o, na o ma de pa ada, inha como ideia base
a sub e são da o dem de pode es abelecida na Eu opa, usando a igu a do
des ile ca na alesco como o ma de in e pela esse mesmo pode e ap oxima
dele comunidades ma ginais e des a o ecidas, que pudessem mos a -se na sua
ealidade, a i ando as p óp ias comunidades nas suas expe a i as e ambições, e
mos ando-lhes o po encial que inham de se ap esen a ao pode .
Mesmo podendo não se delibe ado, pela ligação ao ca na al, o p oje o pa ecia
demons a a inidades com o Tea o O icina de São Paulo. Es a companhia, uma
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das mais an igas companhias de ea o b asilei as ainda em a i idade, lide ada
pelo encenado Zé Celso, usa o des ile de ca na al como ma iz d ama ú gica
do seu ea o com o in ui o de encon a modos de libe a os seus espec ado es
da acionalidade di a apolínea e p omo e uma lógica de comunhão do g upo,
dissol endo os limi es da iden idade indi idual e expandindo o conhecimen o
dos sen idos pa a lá da azão ins i uída.
Es e pa ecia se o concei o subjacen e ao p oje o Reclaim he Fu u e, e desse
modo o des ile ca na alesco cons i uía-se como hipó ese pa a um “ u u o
pa ilhado”, de sub e são do pode cen al e celeb ação do comunal, na sua
junção de companhias e egiões da anja se en ional da Eu opa, unidas pela sua
noção de pe i e ia, de es a e de igualdade.
A companhia líde do p oje o e a a Thea e maskinen, uma companhia
sueca sedeada nas lo es as de Ridda hy an, uma an iga egião minei a que
a ualmen e se econ e eu num des ino de laze ecológico e ese a da Na u eza.
A sua a i idade cen a-se em p oje os comuni á ios, educa i os e de coope ação
in e nacional, acolhendo di e sas esidências a ís icas.
As es an es companhias e am Visões Ú eis, na qual es e a igo se oca, uma
companhia de ea o sedeada no Po o, uma an iga cidade indus ial em
p ocesso de econ e são em des ino u ís ico pa imonial e de e en os. A
companhia cen a-se p imo dialmen e em p oduções de ea o de ex o o iginal,
com o e engajamen o polí ico, in e caladas com pe o mances de âmbi o mais
expe imen al e um c escen e in e esse na p á ica social.
Ru al Na ions, sedeada em S o noway, nas Héb idas Ex e io es, na Escócia, uma
zona o emen e ag á ia e de laze na u al, cons i ui-se como uma pla a o ma
mul ia es de dinamização cul u al, pe o ma i a e cinema og á ica.
Di y Deal Tea o é uma companhia de ea o independen e sedeada em Riga,
na Le ónia, um an igo país da es e a so ié ica em p ocesso de ociden alização. A
companhia é o emen e in es ida na ino ação es é ica e no omen o de jo ens
c iado es, e cen ada an es de udo no o ma o do palco.
Compagnie des Me s du No d es á sedeada em Dunque que, uma an iga
JORGE PALINHOS
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zona de indús ia pesada a econ e e -se às no as ecnologias e aos se iços. A
companhia é ocacionada pa a a d ama u gia de ex o o iginal e o omen o de
no os públicos.
São, po an o, na sua globalidade companhias bas an e di e en es,
maio i a iamen e sedeadas em locais pe i é icos – com a exceção de Di y Deal
Tea o, si uada na capi al – mas unidas po se encon a em em paisagens humanas
e geog á icas de inidas pelo abandono da indus ialização e econ e são em
se iços e ou as a i idades ípicas da e a pós-indus ial que pe passa pelo mundo
ociden al, em que os cole i os de abalhado es se desag egam em indi íduos
que se iden i icam como emp eendedo es ou abalhado es libe ais, a i e em
si uações de p eca iedade económica, mas que buscam abalhos socialmen e
e pessoalmen e sa is a ó ios, que pe mi am uma u opia de ealização pessoal,
numa al u a em que as u opias cole i as pa ecem e desapa ecido do ho izon e
das expe a i as de ida.
A conc e ização do Reclaim he Fu u e
O p oje o, na sua globalidade, deco eu en e Junho de 2017 e Junho de 2018,
da as escolhidas pa a coincidi em com o sols ício as onómico, um pode oso
símbolo mís ico e cul u al da eno ação e do enascimen o, mas ambém
egula men e associado às es as popula es, de que são exemplo as Fes as de São
João que acon ecem em á ias localidades do no e de Po ugal.
Cada uma das en idades en ol idas icou incumbida de o ganiza di e sas
inicia i as locais (o icinas, con e ências, espec áculos) em a iculação com a
comunidade, de que a ace a mais isí el se ia uma pa ada em cada egião, que
jun a ia o ças e comunidades locais.
O i o de pa ida do mesmo oi dado em Ridda hy an, na Suécia, pelo
Thea e maskinen, com uma pa ada que deco eu nos bosques em o no daquela
localidade. Seguiu-se o des ile Pa ada Desa ada, em Campanhã, p omo ido
po Visões Ú eis, depois em Riga, na Le ónia, pelo Damn Deal Thea e, nas
Héb idas Ex e io es, na Escócia, pelo Ru al Thea e, em Dunque que, na F ança,
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pela Compagnie do Me du No d, e inalmen e em B uxelas, no des ile inal,
ealizado em pa ce ia com o cen o de o mação a ís ica b uxelense, CIFAS.
Nessa úl ima pa ada, in e nacional, os pa icipan es ize am uma ma cha len a,
em á ias e apas, e com á ias pe o mances, que e minou no Pa lamen o
Eu opeu como sinal da chegada da pe i e ia ao cen o do pode , do local à sede
do in e nacional, daqueles que es ão sujei os à suas ci cuns âncias sociais a ba e
à po a dos que podem in lui decisi amen e nas ci cuns âncias da sociedade.
Embo a osse de g ande in e esse pode analisa odos os des iles e o seu esul ado
inal, e o p oje o con emplasse, inclusi amen e, o acompanhamen o dos
in es igado es Michael Gus a sson e Ma s Hy önen ao longo das suas e apas, a
im de o pode em u iliza como ala anca de pesquisas e conhecimen os, a é ao
momen o desconheço se exis e algum esul ado publicado dessa in es igação, e
só me oi possí el acompanha de pe o um desses des iles, pelo que me i ei oca
nele enquan o exemplo de um p oje o de in e enção social de p oximidade.
Salien o que no âmbi o des a e apa no Po o, i e ambém um pequeno papel
de colabo ação em o ganiza um encon o de deba e sob e o papel da a e na
in e enção social, in i ulado “Da mesma laia: con e sas e emba aços sob e a e
e comunidade”. Nesse encon o2, que acon eceu a 13 de Julho de 2017, no Mi a
Fó um, em Campanhã, pa icipa am in es igado es de cen os de in es igação
de cul u a e sociedade, a is as a dinamiza p oje os sociais, assis en es sociais
e an igos pa icipan es desses p oje os de in e enção social. Es i e am
ainda p esen es os a is as das á ias companhias en ol idas, bem como os
in es igado es no uegueses e inlandeses que es a am a acompanha o p oje o,
além de algum público. Foi um colóquio que p e endeu omen a a e lexão
em o no do p óp io p oje o Reclaim he u u e e ajudou a con ex ualiza as
suas possibilidades segundo di e en es pe spe i as, con ando com a in e enção
dos sociólogos Albe ino Gonçal es (Uni e sidade do Minho) e Cláudia
2 É possí el assis i a pa e do egis o ídeo desse encon o em:
h ps://www.you ube.com/wa ch? =yZoGk8maE g
JORGE PALINHOS
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Pa o de Ca alho (Uni e sidade de Coimb a), a is as e in es igado es, como
Ma a Lei ão (ESMAE e Uni e sidade de A ei o), Joana B aga (ISCTE-IUL e
Baldio), Sónia Passos (ESMAE), e a is as como a encenado a A eLina Pé ez, o
músico Lino Mo ei a e o baila ino B uno Dias, es es úl imos ambém enquan o
pa icipan es em p oje os de in e enção a ís ica em zonas ca enciadas.
Es a pa ilha de expe iências apon ou á ias pis as e possibilidades da A e e
comunidade que con ibuí am pa a o pensamen o em o no des e a igo.
Da inicia i a po uguesa cons ou ainda um p ocesso de in e câmbio en e
companhias, em que a companhia Visões Ú eis ap esen ou a ins alação
pe o ma i a “C’es Tou ”, baseada numa ob a o iginal da companhia
Tea e maskinen, e es a companhia ap esen ou “ ans/mission”, que adap a a
uma ob a o iginal da companhia Visões Ú eis. Es e oi um p ocesso de
con aminação a ís ico, mas que não e e in e enção social. De menciona
ainda ou as inicia i as, como um p oje o de ca og a ia social, uma expe iência
de geo e e enciação em São Vicen e de Paulo e ainda o documen á io Reclaim
he Fu u e/Exige o Fu u o, sob e o p oje o, ealizado po Nuno San os, Sa a Allen
e Alexand a Allen3, e ainda o li o Ficou udo ao deus-da á, de Má cia And ade,
que compila memó ias de an igos habi an es do Bai o de São Vicen e de Paulo,
bem como um wo kshop de Pe o mance em Comunidade que deco e ia
pos e io men e.
De odas es as inicia i as i ei abo da apenas a Pa ada Desa ada, que deco eu
em Campanhã, sob a di eção de Inês de Ca alho.
A Pa ada Desa ada
Em elação à Pa ada Desa ada, o e en o cen al e aquele que maio exp imia
a ligação à comunidade, es a deco eu com a pa ce ia do P oje o Cul u a em
Expansão, da Câma a Municipal do Po o e en ol eu a Jun a de F eguesia de
3 Disponí el em: h ps:// imeo.com/264895491
ENCENAR A VIZINHANÇA
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Campanhã, a gale ia de a e Mi a Fó um, a associação cul u al e ec ea i a
Malmeque es da Noêda e o seu g upo de danças u banas MK, o espaço cul u al
Po o d'A es, o es údio de dança Belly S udio, Associação ecológica Te a Sol a,
a O ques a Comuni á ia Mundo em Campanhã/Te a Sol a, Ce ca - e E6G,
“E a uma ez ea o”, da Associação Po uguesa de Pa alisia Ce eb al, “Rugas
de Exp essão” G upo de Tea o da Associação Bené ica e P e iden e / Casa das
Glicínias; Ba ucada Radical, Gimnoce co do Po o, Mo ado es da T a essa do
Mon e da Bela, No e ida, Con umil / Sine gias e Associação Columbó ila
In ic a, IEFP – Cen o de Fo mação do Ce co, Cen o Social e Pa oquial Nossa
Senho a do Cal á io.
Todas es as são cole i idades sedeadas em Campanhã e com uma o e a iculação
e en osamen o com as populações locais, algumas das quais p ocu am já u iliza
p á icas a ís icas como o ma de omen o cul u al e social, ou as anco adas em
p oje os de o mação, de abalho ou dinamização de populações ca enciadas.
Mas o ecu so a es as cole i idades pa ece aduzi uma on ade de mobilização
da população que passe pelos se o es mais a i os dessa. E iden emen e, pa a
a sua pa icipação na Pa ada hou e odo um p ocesso p epa a ó io de á ios
meses, que en a ei esumi em seguida.
Após a iden i icação e con ac o e es abelecimen o das pa ce ias com es as
en idades, ealiza am-se á ias o icinas lide adas po Inês de Ca alho, com o
apoio de ou os colabo ado es. O concei o p incipal des as o icinas e a “linhas
com que se cose uma comunidade”, e o obje i o e a o de iden i ica e mapea
os ios sociais e de imaginá io que pudessem uni odas es as en idades locais a
im de os usa como undamen o da Pa ada e e o çá-los. Uma dessas o icinas
e a a das Fo os do Fu u o, em que cada pa icipan e e a o og a ado com uma
a dósia onde ha ia esc i o o que que ia le a pa a o u u o ou o que deseja a pa a
es e, o og a ias essas que não só se i am de base pa a as in e enções locais em
Campanhã, como depois o am usadas pa a uma exposição em Halles Sain -
Ge y, em B uxelas, já na e a inal do p oje o.
Toda ia, nes e p ocesso, e i icou-se que, apesa da p oximidade geog á ica e
JORGE PALINHOS
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u bana, a maio ia des as en idades man inha pouco con ac o e a iculação en e
si, uncionando an es como uni e sos au ónomos, cen ados na sua p óp ia
comunidade p óxima e nas a i idades que desen ol iam. Desse modo, um
abalho impo an e, e possi elmen e um esul ado bas an e ele an e des a
inicia i a, oi o es abelece de pon es de con ac o en e algumas das cole i idades
mencionadas a ás, que pude am assim e a opo unidade de es abelece
pa ce ias de u u o.
Ou a das p imei as o icinas do p oje o cen ou-se em explo a possibilidades
pa a o des ile, en e an o in i ulado “Pa ada Desa ada”, pa a p opo ciona aos
pa icipan es an o uma ideia da libe dade ca na alesca que se p ocu a a, como
ab i o espaço pa a deba e as ais linhas in isí eis que se p e endia que pudessem
uni a zona u bana.
Hou e ainda uma segunda o icina cen ada em con e i capacidades de
conceção e p odução às di e en es en idades. O concei o cen al da pa ada e a
a ejeição de uma imposição hie á quica em que os a is as di igissem os não-
a is as, mas acul a a cada cole i idade a possibilidade de desen ol e a sua
au onomia a ís ica, an o p opo cionando-lhes e amen as a ís icas que al ez
não de i essem, como con e indo-lhes a capacidade de decidi em aquilo que
p e endiam ap esen a den o da d ama u gia global da pa ada.
A e cei a o icina, de in e nacionalização, p opo cionou às á ias en idades locais
a possibilidades de conhece em e in e agi em com ep esen an es dos pa cei os
in e nacionais, a im de c ia em laços en e di e en es pe i e ias eu opeias e
ganhando uma mais cla a consciência da dimensão eu opeia do e en o, que e a
ambém um dos obje i os do apoio eu opeu a es e.
A qua a o icina oi uma o icina de bu ões, o ien ada po Ana Aze edo. A écnica
do bu ão inha sido escolhida pa a se comum a odas as pa adas, não só pela
associação do bu ão à dimensão ca na alesca do des ile, como po ep esen a a
sub e são da o dem apolínea social, e a libe dade das pulsões humanas con a
as con enções sociais e polí icas. Se ia ambém um dos elemen os a ís icos
comuns a odas as pa adas, que con e issem iden idade ao p oje o in e nacional.
ENCENAR A VIZINHANÇA
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cada cole i idade, mas sub ilmen e omen ou a ideia de cole i o como sendo
do ada de capacidade pa a ans o ma o empo u ópico do u u o a a és de
uma ação comum e conscien e, assen e nas aspi ações indi iduais, e ambém
no po encial do g upo. A p opos a de comunidade que o p oje o suge ia segue
em con aco en e com ideias mais ecen es de comunidade, p oje ando-se num
ideal de ha monia possí el en e o g upo e o indi íduo, que não chega a a se
ques ionado. A p óp ia elação en e o abalho a ís ico e a elação social não
e a ques ionado, mas na u alizado, es abelecendo-se um p olongamen o en e
écnicas a ís icas como o bu ão e o can o lí ico, com p á icas comuni á ias e
sociais como as danças u banas e é nicas, o ado popula , a columbo ilia, e c.
Nesse aspe o, mesmo sem ques iona essas elações, o p oje o ambém não cai
naquilo que é a p incipal c í ica de Clai e Bishop (2012, p.219) às p á icas
sociais, de se em um ou sou cing de au en icidade, is o é, de delega em em
e cei os um simulac o de eal e hones idade que con i a legi imidade ao papel
do a is a. Is o po que a in e enção a ís ica des ina-se jus amen e a po encia
e e le i a na u eza do social, omen ando ainda a au onomia cole i a e a
au o ep esen ação ins i ucional do cole i o.
Nes e a igo p ocu ei desc e e e ap esen a uma sé ie de e lexões sob e um
p oje o de in e enção comuni á ia numa eguesia em Po ugal, a Pa ada
Desa ada, do Visões Ú eis, enquad ado den o do p oje o eu opeu “Reclaim
he u u e”, um p oje o que na egou de o ma conscien e en e as a madilhas da
con ingência social e da con ingência es é ica, que não sendo capaz de escapa
a limi es ela i amen e ins i uídos de concei o de comunidade, sem dú ida
le an ou á ias ques ões sob e a elação en e a a e e a comunidade, e ainda
dú idas e possibilidades sob e a p óp ia na u eza e possibilidades do que é a
comunidade hoje e de que caminhos de u u o pode á i a pe co e .
Ag adecimen os
Es e abalho é inanciado po undos nacionais a a és da FCT – Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia,
I.P., no âmbi o do p oje o UIDB/04041/2020
JORGE PALINHOS

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Re e ências bibliog á icas
BISHOP, Clai (2012). A i icial Hells: Pa icipa o y A and he Poli ics o Spec a o ship. London: Ve so.
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NANCY, Jean-Luc (2014). La Communau é Désa ouée. Pa is: Galilée.
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Visões Ú eis – Exige o Fu u o (p og ama online) h p:// isoesu eis.p /p /c iacoes/i em/1922-exige-o-
u u o-/- eclaim- he- u u e (Acedido a 10 de Maio de 2020).
ENCENAR A VIZINHANÇA
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O TEATRO NÃO CHEGA?
UMA REFLEXÃO SOBRE ARTE,
INCLUSÃO E TRANSFORMAÇÃO
POLÍTICA
JOSÉ SOEIRO
1. Inclusão, Exclusão, T ans o mação
Há ce amen e á ias dimensões que in e pelam um olha c í ico sob e o papel
da a e em p ocessos de pa icipação e sob e o impac o que as p á icas de c iação
a ís ica podem e no comba e às múl iplas o mas de desigualdade, de op essão
e de exclusão. Na o igem des a e lexão que a Luísa Pin o suge iu que pa ilhasse
no colóquio “A e Inclusi a? Quem inclui quem?”, ealizado no Po o, es ão pelo
menos ês inquie ações.
A p imei a p ende-se com o ca á e p oblemá ico do p óp io concei o de
inclusão. In ocada de o ma quase indisc iminada, a p eocupação com a
“inclusão” – na economia, na sociedade, na educação, na cul u a, na a e...
– pa ece cons i ui uma espécie de consenso social, um p essupos o que não
se ia polémico ou obje o de dispu a, assumindo-se an es como um obje i o
la gamen e pa ilhado, a pa i do qual se discu i ia mas que não es a ia, em si
mesmo, em deba e. O a, como em sido assinalado, o pa adigma da “inclusão”
na análise sociológica a i mou-se pelo ac o de en a iza , po um lado, a na u eza
mul idimensional dos p ocessos de exclusão – mui o pa a além das dimensões
ma e iais ap eendidas a a és da ca ego ia da “pob eza”, po exemplo, ou das
dimensões económicas associadas à ca ego ia de “explo ação” – e, po ou o,
82
JOSÉ SOEIRO
po acen ua a na u eza p ocessual dessas dinâmicas. No en an o, ao insis i
na necessidade de econs ui o “elo social” e ao con oca as p á icas a ís icas
pa a o p opósi o de “ aze sociedade”, o discu so da inclusão co e o isco de
elega pa a segundo plano um olha a pa i do con li o en e “excluídos” e
“excluido es” e de, assim, sub alo iza o desígnio de “ ans o ma a sociedade”,
essa mesma que “exclui incluindo” (Ga nie , 1998, pp.77-80). Não po acaso,
a in lação e ó ica em o no da “inclusão” pôde con i e , nas úl imas décadas,
com o ag a amen o da desigualdade. Essa “ideologia da inclusão”, pa a usa
os emos de José Albe o Co eia (2003), pode ia assim con ibui , mais
conscien e ou inconscien emen e, pa a uma “despoli ização” e “pedagogização
dos p oblemas sociais e, consequen emen e, pa a o e o ço das pe spec i as
compo amen alis as e psicologizan es da p oblemá ica da desigualdade e da
injus iça social”, p omo endo uma “cul u a da ole ância, suscep í el de espei a
a di e ença, mas ocul ando o ac o de es a se , ge almen e, uma exp essão de uma
p o unda desigualdade e injus iça social” (Co eia, 2003, p.46).
Em segundo luga , pa ece se impossí el pensa es as p á icas a ís icas sem as
si ua no con ex o em que oco em e sem as insc e e no ema anhado de elações
que as a a essam. Se não i e mos da a e uma concepção que a en ende como
uma es e a o almen e sepa ada da ida, uma espécie de zona au ónoma imune
às elações de pode que es u u am o mundo social, en ão o p oblema da elação
en e “a e e inclusão” con oca ambém uma e lexão sob e as possibilidades
eais de ans o mação de um mundo em que a desigualdade e a exclusão, longe
de se em uma exceção ou uma exc escência do sis ema, se encon am insc i as
no âmago das suas lógicas de ep odução. Is o é, con ida-nos a e oma o deba e
sob e a capacidade de a a e in e e i e con a ia p ocessos de exclusão que se
si uam na lógica ín ima de uncionamen o do sis ema ou, se quise mos dize de
ou a o ma, con on a-nos com a ques ão de sabe a é que pon o a a e pode se
inclusi a num mundo que não o é.
Po udo is o, e em e cei o luga , a e lexão que se p e ende pa ilha pa e de um
desassossego que assal a p o a elmen e odos e odas aquelas que se en ol e am
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O TEATRO NÃO CHEGA?
já nes es p ocessos a ís icos e que p ocu am pensa quais os seus impac os eais:
a ques ão da con inuidade des as p á icas e das elações que elas es abelecem
com ou os epe ó ios de lu a e com ou os p ocessos de ans o mação social
que es ão, necessa iamen e, aquém e além dos p óp ios momen os, p oje os,
inicia i as e p ocessos c ia i os. Fá-lo-emos a pa i da expe iência com o Tea o
do Op imido (TO) e pa indo de uma ideia que nos pa ece cen al na p opos a
do seu c iado , Augus o Boal: a de que o ea o não chega. Ou seja, a hipó ese de
que, a ando-se o Tea o do Op imido de um “ensaio” da ans o mação, ele é
semp e um p ocesso que eclama a ação o a de si p óp io.
2. Boal e a incomple ude pe manen e de um p oje o a ís ico
Uma das azões pelas quais o Tea o do Op imido pode se um luga in e essan e
a pa i do qual pensa o po encial e as limi ações das p á icas a ís icas que
se que em in e enien es e ans o mado as é pela audácia e ambição (ainda
que equen emen e i ealizadas) com que Boal o mula o seu p oje o poé ico-
polí ico.
A p imei a o ma como pode íamos pensa a “inclusão” no Tea o do Op imido
é a de inição des e como uma linguagem uni e sal que odos os se es humanos
já possuem:
(...) mesmo quando inconscien es, as elações humanas são es u u adas em
o ma ea al: o uso do espaço, a linguagem do co po, a escolha das pala as e
a modulação das ozes, o con on o de ideias e paixões, udo que azemos no
palco azemos semp e em nossas idas: nós somos ea o! (Boal, 2019, p.420)
Es e “Tea o Essencial” an ecede assim o “ aze ea al” como um o ício
especializado dos a o es (San os, 2015). Um pouco à manei a de Jaco o ,
o pedagogo cujas lições o am e omadas po Ranciè e (2010), e ce amen e
inspi ado em Paulo F ei e (2018), pa a Boal o conhecimen o do ea o como
linguagem não é an o um obje i o da ação cul u al, mas sim um p essupos o. Is o

84
é, cons i uiu algo que já lá es á e que se a a de abalha pa a, ao mesmo empo,
“des amiliza iza ”, “desmecaniza ” e o na conscien e.
Po isso mesmo, o Tea o do Op imido pa e de duas hipó eses cen ais: a de
que “ oda a gen e pode aze ea o, a é os a o es” (Boal, 2008, p.ix) e a de que
é p eciso “de ol e ao po o os meios de p odução ea al”. É a pa i des as
hipó eses que Boal ques iona á a di isão social do abalho que, no ea o, a ibui
a uns o monopólio da ação (os a o es) e a ou os a condição de obse ado es do
que acon ece no “espaço es é ico” (os espec ado es). Pa a supe a essa di isão,
que exis e an o no ea o quan o na sociedade, Boal p opõe que se ein en e
o p óp io disposi i o ea al, ompendo a qua a pa ede que sepa a “palco” e
“pla eia”. A ca ego ia de espec -a o es assen a ia na possibilidade de, num p ocesso
e num e en o ea al, odos os p esen es combina em a obse ação dos con li os
ea ais com a capacidade de ans o ma em esses mesmos acon ecimen os e
p ocessos a a és da in e enção em cena.
Se a base do TO é a explo ação de si uações de op essão e a alo ização da
capacidade c iado a e c ia i a de odas as pessoas, ele oma como pon o de
pa ida uma inquie ação p o unda: se á possí el es i ui a odos a capacidade
de se simul aneamen e espec ado c í ico do que acon ece e c iado a i o da
ealidade? No âmago do Tea o do Op imido es á, po isso, a ideia de que cada
um e cada uma em não apenas o di ei o de ala (o que se ia uma o ma pob e
de inclusão), mas ainda o de ejei a os papéis sociais a que somos con inados,
aqueles que a o dem exis en e nos ese a e que ep oduzem as es u u as
de pode da sociedade. Ou seja, o di ei o não apenas de nos inclui mos nos
guiões, nos luga es e nos papéis que exis em, mas de ejei a mos essa “inclusão
subo dinada”. No undo, o di ei o de nos exclui mos dela pa a in en a mos
cole i amen e ou as cenas.
Es a des-especialização, es a aspi ação de undo de uma democ a ização
adical dos meios de p odução simbólica da ealidade implica uma eo ia e
uma p á ica da libe ação que pa ece es a além de uma me a “ideologia da
inclusão”, p ecisamen e po que p essupõe uma con iança na capacidade de
JOSÉ SOEIRO
85
au o-emancipação dos op imidos. Na ealidade, ela epousa numa combinação
dialé ica en e, po um lado, uma eo ia da op essão capaz de explica os
mecanismos de ep odução da o dem social e das suas di isões; e, po ou o,
uma eo ia da emancipação capaz de encon a as b echas a pa i das quais os
op imidos, em luga de se em apenas submissos con o mados com o sis ema,
e iam ambém in e esses e condições pa a po em em causa essa mesma o dem
que os inclui em papéis subal e nos.1
Pensada assim, a “inclusão” desejada não pode desliga -se de um p ocesso de
emancipação que é, com e ei o, al amen e con a-in ui i o. Ao con á io das
eo ias da ep odução que desc e em a op essão como uma espécie de cí culo
echado, o Tea o do Op imido pa e da hipó ese de que os op imidos êm
capacidade pa a comp eende esse sis ema e êm um in e esse em ans o má-
lo. O p óp io ea o, ao p essupo a capacidade de nos obse a mos em ação,
se ia um ins umen o p i ilegiado pa a essa análise c í ica, po pe mi i essa
ope ação de deslocamen o ela i amen e a nós p óp ios, a possibilidade de
se mos ou os, de desna u aliza mos a p óp ia condição de op imido e de
ensaia mos a ans o mação. Nes e sen ido, aos p ocessos a ís icos cabe ia
esga a as o mas de cul u a popula , desen ol e esse bom senso emancipa ó io
e in e ompe a ep odução da op essão. Não p op iamen e po e ei o de uma
omada de consciência mágica, mas po ia de um abalho de descons ução
da insc ição das es u u as de op essão nos co pos e nas ins i uições – es u u as
que mecanizam os sujei os, que p ocu am encaixá-los em de e minadas elações
sociais e que buscam a sua adesão às es u u as de pensamen o e às ca ego ias de
classi icação do mundo dos op esso es.
É in e essan e, po ou o lado, como es a decla ada ambição do p oje o poé ico
e polí ico de Boal não absolu iza a expe iência ea al. Uma das de inições mais
popula es do Tea o do Op imido, e do ea o ó um em pa icula , é que ele é
1 Es e a gumen o sob e que concepção de iden idade, al e idade e de emancipação es á subjacen e à
p opos a poé ica e ao abalho d ama ú gico do Tea o do Op imido é desen ol ida num ou o luga ,
num ex o conjun o com Julian Boal (c . Boal e Soei o, 2019).
O TEATRO NÃO CHEGA?
86
um “ensaio da e olução” (Boal, 2013, p.163). Es a exp essão suge e duas ideias
o es. A p imei a é que no ea o ó um se p epa a alguma coisa que acon ece
nou o luga e nou o empo, o a do espaço es é ico – e po isso se a a de um
ensaio e não da peça em si. A segunda ideia é que esse ensaio p epa a não apenas
uma pequena mudança mas uma ans o mação p o unda – uma e olução.
Comecemos pelo ensaio. No Tea o do Op imido os espec a-a o es omam con a
da cena e agem pa a muda a ep esen ação da ealidade. Po que exis em den o
e o a do espaço es é ico, como a o es e como pessoas, no momen o em que os
espec -a o es ans o mam a icção, es ão já a p epa a -se pa a agi na sua p óp ia
ealidade. No ea o, analisam-se os mecanismos de op essão, expe imen am-se
o mas de a con es a , exe ci am-se modos de esis ência e einam-se écnicas de
comba e. A a és dele e ela-se a o ça e a agilidade dos op esso es e descob e-se
a po ência dos op imidos. O Tea o do Op imido assume assim com humildade
o po encial do seu p oje o mili an e. O ea o é mais um momen o do abalho
dos op imidos pa a a sua libe ação. Não se esgo a em si mesmo, não é me a
celeb ação da a e pela a e, não é a busca de acon ecimen os sublimes que se
bas a iam a si p óp ios, não se con en a em se apenas um espaço de exp essão
daqueles a quem a oz, a pala a e o ges o são no malmen e con iscados. Pode
ce amen e se udo isso (o que já não se ia pouco!), mas é semp e um ea o
inacabado. Como dizia Boal, o Tea o do Op imido
(...) em ez de i a algo do espec ado , pelo con á io, in unde nele o desejo de
p a ica na ealidade o a o ensaiado no ea o. A p á ica des as o mas ea ais
c ia uma espécie de insa is ação que necessi a complemen a -se a a és da
ação eal. (Boal, 2008, p.148)
Es e en endimen o de uma p á ica a ís ica (o Tea o do Op imido ou ou a)
como o ensaio incomple o de uma ans o mação na sociedade con ida-
nos pois a aze mos as necessá ias ligações en e os di e sos ní eis nos quais a
op essão ope a: o ní el da inco po ação subje i a (a “in asão dos cé eb os” ou a
JOSÉ SOEIRO
87
chamada op essão in e nalizada), o das in e ações en e os sujei os (as elações
in e pessoais, o desempenho dos papéis, as o mas de u ilização do co po), a escala
das ins i uições (a escola, a emp esa, o hospi al, a p isão, a amília...), o ní el das
es u u as sociais e económicas (as elações en e as classes, os géne os, os g upos
sociais), a supe es u u a polí ica e legal (as ins i uições de ep esen ação, as leis,
o Es ado). Es imula-nos, ambém, a pensa as p á icas a ís icas no quad o mais
as o de um p oje o e de uma es a égia de ans o mação polí ica. Se acei a mos
a ideia de que o ea o não chega, en ão as en a i as de a iculação com as ou as
modalidades de lu a – os mo imen os sociais e as suas o mas de ação, o comba e
ins i ucional e a dispu a pela hegemonia, as es a égias legais e ansg essi as de
mobilização, o abalho de cons ução de comunidades polí icas a i as – podem
ambém aze pa e da in e enção que en ol e as p á icas c ia i as, que não se
esgo am nas pa edes de uma o icina, de um p oje o ou de um e en o ea al. Aí
apenas começa um caminho, no malmen e longo, de ans o mação.
3. O “ ea o como polí ica”
A expe iência do Tea o Legisla i o é um exemplo des a en a i a de in eg a
p ocessos a ís icos num quad o mais amplo de in e enção polí ica. Com e ei o,
o es o ço de desinsc ição da op essão não pa ece se nes e caso pensada apenas
a pa i da soma de “epi anias” e de “momen os mágicos” que a expe iência
es é ica p oduz (e sabemos que o az!), mas sim do modo como essas expe iências
se aliam com ou as p á icas e pa icipam de p ocessos mais con inuados no
empo.
F equen emen e ap esen ado como uma “ écnica” do Tea o do Op imido, uma
das úl imas ami icações do mé odo desen ol ido po Augus o Boal, con ém
lemb a que o Tea o Legisla i o oi na e dade o esul ado de uma espos a
conc e a a um p oblema e a um con ex o especí icos (Boal, 1996). Após o seu
exílio na A gen ina (1971-1976), em Po ugal (1976-1978) e em F ança (1978-
1986), Boal eg essa inalmen e ao B asil, em 1986, a con i e de Da cy Ribei o
que e a, na época, o ice-go e nado do Rio de Janei o. Da cy c ia a os Cen os
O TEATRO NÃO CHEGA?
94

95
1. Educação Pública do Cen o Paula Souza – Diálogos com a A e
O Cen o Paula Souza é uma au a quia do Go e no do Es ado de São Paulo,
com mais de 50 anos, que o e ece Educação Básica de Ní el Médio, Educação
P o issional de Ni el Médio e de Ní el Supe io Tecnológico. Es á p esen e em
322 municípios do Es ado de São Paulo, a ende a mais de 300 mil es udan es e
o e ece ainda cu sos de pós-g aduação, a ualização ecnológica e ex ensão.
Mesmo que sua o e a educacional es eja dis ibuída po odo o Es ado de São
Paulo, em 223 escolas écnicas p óp ias e 74 aculdades de ecnologia, mui as
pessoas ainda não conseguem uma opo unidade pa a es uda nessas escolas.
O Cen o Paula Souza, en ão, em con ênio com as p e ei u as de mui os
municípios, que não dispunham de unidades de educação p o issional,
possibili ou a inclusão de es udan es das escolas locais pa a amplia as
possibilidades de o mação p o issional des es. Ainda que, po meio des as
es a égias se enha conseguido aumen a o a endimen o aos es udan es, ainda
há mui o a aze , mui o a amplia .
A p eocupação em e uma educação de qualidade, acessí el aos di e sos
pe is p esen es na sociedade do Es ado de São Paulo, que do pon o de is a
socioeconômico, que do pon o de is a das p e ensões p o issionais, ez com
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO
NO CENTRO PAULA SOUZA:
CAMINHOS DA ARTE PARA A
EDUCAÇÃO BÁSICA E EDUCAÇÃO
PROFISSIONAL TECNOLÓGICA
LUCILIA GUERRA
96
que, ao longo do empo, a Ins i uição conseguisse ealiza a o e a de mais de
150 cu sos écnicos de ní el médio e 80 cu sos de ní el supe io ecnológico.
Es a ab angência é pa a que se a enda aos a anjos p odu i os locais de
o ma adequada, p epa ando as pessoas pa a o abalho, com qualidade e em
a endimen o aos anseios dos es udan es.
Pa a ga an i que a excelência es eja p esen e nas salas de aulas de odas as
unidades escola es, alguns p ecei os são seguidos de o ma obje i a e igo osa,
em especial quan o à o mação do co po docen e.
Especi icamen e na á ea de A es, a ins i uição já em um di e encial bas an e
impo an e, que é a exigência de o mação adequada pa a que as aulas de A e
sejam minis adas aos es udan es da Educação Básica, ou seja, 100% dos docen es
des e componen e cu icula em o mação em A e, no Cen o Paula Souza,
o que di e e do índice de 7,7% que co esponde aos docen es que lecionam
a e e que possuem o mação especí ica no B asil1. Es e cená io absolu o em
elação à p epa ação do co po docen e, ambém se con i ma nos cu sos da
o mação p o issional. Na Ins i uição é exigida habili ação dos docen es nas
á eas elacionadas aos cu sos o e ecidos.
Es a ques ão é de g ande ele ância, pois inse e, na pon a, um p o issional
p epa ado pa a ealiza o acolhimen o dos es udan es e p opo ciona uma
digna expe iência educacional a eles, em odas as dimensões da cons ução do
conhecimen o.
A Educação Básica de ní el médio, bem como a o mação p o issional ecnológica
o e ecida pelo Cen o Paula Souza em como p emissa a isão ab angen e em
elação aos es udan es que a ende.
Obse a-se es a a enção já no acesso aos cu sos, que p e ê uma pon uação
ac escida aos eg essos das escolas públicas e a odescenden es, pa a ga an i
maio igualdade em opo unidades en e odos que buscam a con inuidade dos
es udos na ins i uição.
1 Dados do Censo Escola 2013 que o am compilados pela ONG Todos Pela Educação.
LUCILIA GUERRA
97
Pa a além do ing esso, o es udan e p ecisa se is o em oda a sua complexidade
e necessidades, an o de o mação escola como pa a a ida de o ma cidadã e
p oposi i a, pa a que, na sociedade, seja um agen e de ans o mação.
Desde os cu ículos, me odologias e demais ações didá ico-pedagógicas, o
es udan e é amplamen e a endido po equipes mul idisciplina es e docen es,
com p oje os desa iado es pa a que o es udan e se desen ol a da melho
manei a possí el e, assim, possa descob i suas po encialidades e amplie suas
possibilidades p o issionais.
Nes e cená io, de ges ão p eocupada com o desen ol imen o dos es udan es de
o ma global, o Cen o Paula Souza se es abelece com um pe il bas an e eclé ico
na o e a de cu sos e, na á ea de A es, cons i ui-se como a maio o e a pública
do B asil.
O e ecendo cu sos écnicos em Can o, Comunicação Visual, Dança, Design
de In e io es, Design de Mó eis, Fab icação de Ins umen os Musicais,
Ins umen o Musical, Modelagem do Ves uá io, Mul imídia, Museologia,
Paisagismo, P ocessos Fo og á icos, P odução de Áudio e Vídeo, Regência e
Tea o, em o obje i o de quali ica p o issionais pa a a ua na á ea de A es
com as compe ências e habilidades necessá ias pa a que p ossigam suas ilhas
p o issionais com maio e udição e pa indo de expe iências es é icas impo an es
pa a seus epe ó ios.
Dian e des a o e a ab angen e de cu sos, é signi ica i o obse a a in luência da
Ins i uição na o mação de p o issionais pa a as ca ei as a ís icas, pois os cu sos
são amplamen e p ocu ados.
2. E ec de A es – Espaço de Desen ol imen o P o issional pa a as A es
A necessidade de se e um espaço de desen ol imen o p o issional a ís ico
se impôs ao longo da aje ó ia da Ins i uição e, em 2008, o Cen o Paula
Souza inaugu ou a E ec de A es, escola écnica localizada em uma es u u a
emanescen e do an igo Complexo Peni enciá io do Ca andi u.
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA
98
Esse luga emblemá ico, conhecido po iolência e mo e, deu, po im, espaço
pa a o desen ol imen o de pessoas, em á ias dimensões e, em especial no campo
a ís ico em di e en es exp essões e linguagens.
A do de an as idas pe didas pa a a c iminalidade, em um local que não
sua izou o so imen o, hoje, pela música, dança, design, o og a ia e ea o
exo ciza pensamen os e sen imen os, de ou o a, pensados e sen idos.
Mui os es udan es encon a am mais do que uma ilha p o issional, encon a am
um sen ido, uma o ma de se exp essa e de se comunica com a ida.
A p opos a pedagógica da E ec de A es é di e enciada pois não exige p é-
equisi os comuns a mui as escolas de a es. Conhecimen o p é io em lei u a
musical, pa a os cu sos de Música, i ências e p epa o co po al pa a os cu sos
das á eas de Dança e de Tea o são no malmen e pedidos ao ing essa em cu sos
dessas modalidades.
En e an o, na E ec de A es, os es es de ap idão aplicados são pa a apoia a
Figu a 1. P édio da Escola Técnica de A es, Ca andi u, São Paulo, SP, B asil
h p://www.po al.cps.sp.go .b
LUCILIA GUERRA
99
seleção de pessoas que possuem musicalidade, mínima consciência co po al e
pa a, de a o, descob i em, nes e momen o, se que em ealiza uma ime são
nos conhecimen os a ís icos nos quais se ão desa iados, sem que conside em
es a aje ó ia complicada ou inadequada pa a seus pe is de pe sonalidade e
p e ensões. É mais um momen o de au oconhecimen o e em nada excluden e.
Es e di e encial da escola é de suma impo ância, pois não impede o acesso
àqueles que não i e am como es uda música, dança, ea o e ou as linguagens
em en a in ância, mas ecepciona os que que em encon a , nessas á eas,
opo unidades pa a se exp essa em, in es iga em e se p o issionaliza em. É
abe o a odos que quei am.
Mui os ing essan es seque conhecem as no as musicais, nos cu sos de música,
nunca o am en ol idos em cu sos de ins umen o musical, mas em exíguo
pe íodo de empo conseguem se in oduzidos nes e uni e so com ní el
elemen a de e udição, mas que os p epa a am pa a uma jo nada de descobe as
no campo da música, inclusi e pa a sen i em-se con ian es pa a a con inuidade
dos es udos em ní el supe io .
O mesmo oco e com os eg essos dos cu sos de Dança, Tea o, Fo og a ia e
Design.
Um espaço de expe iências e educação em A es em que man e os acessos
abe os, pois a o mação em A e é u gen e e necessá ia e odos de em se bem
ecepcionados e e em a ga an ia da li e exp essão, o mação digna e com ní el
de p op iedade que os p epa e pa a pe co e no os caminhos, busca p ocessos
c ia i os que os mobilizem a soluciona p oblemas com uso de sensibilidade,
empa ia e c ia i idade.
Pa a ci a um caso em especial, que demons a a g ande ans o mação que
a educação pela a e pode aze pa a a ida de um indi íduo, ap esen a-se a
aje ó ia de um ex-p esidiá io do Complexo do Ca andi u, que ha ia cump ido
pena no p édio onde hoje é a E ec de A es e que conseguiu ing essa no cu so
Técnico em Design de In e io es.
Foi pa a ele mui o signi ica i o e o na ao espaço ísico num ou o con ex o,
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA

100
em edenção com a sociedade e buscando mobilidade p o issional e social.
Em mui as aulas den o do espaço, que mesmo essigni icado, oi sua an iga
cela, ao con á io do p imei o momen o, e a sim um sinal de libe dade, de
independência.
Te minou o cu so e ouxe seu pai, que ambém inha sido p esidiá io no
Complexo, pa a e seu abalho inal. A edenção oi pa a oda a amília.
O olha de g a idão pela opo unidade, po e sido a ado com equidade e
acolhimen o. Educação ans o mado a, a e como ans o mação e idas que
ecebem es a in luência posi i a.
A apa en e ulne abilidade p esen e nes e caso pode se conside ada sim um
pon o de o ça. O es udan e, a pa i das e e ências que inha, sen iu-se
enco ajado a ab aça suas chances e a abandona as ma cas do so imen o. Es as
al e na i as que a educação az e impulsiona são essenciais pa a a mudança
posi i a e quali icada da sociedade.
A o mação p o issionalizan e no B asil é mui o pouco explo ada, a é mesmo
po que se comp eende que es e ipo de o e a é pa a indi íduos que não
conseguem cu sa o ensino supe io , em especial po a o es socioeconômicos.
Es e ipo de e lexão causa um eno me p ejuízo ao desen ol imen o econômico
do país e eduz as opo unidades de o mação de jo ens e adul os em á eas
especí icas pa a o mundo do abalho.
Menos pessoas o nam-se p epa adas pa a execu a unções no me cado,
começam a e opo unidades de se desen ol e em em á eas di e en es e exe ce
unções que, inclusi e, podem p o oca mobilidade social pa a suas idas e de
suas amílias.
Mesmo que hou esse uma sé ia p opos a de o mação de pessoas pa a ou as
a i idades, o que já se ia um ganho es a égico pa a o país, ainda al a ia a
p epa ação pa a as a i idades a ís ico-cul u ais, pois con igu a-se ou o passi o
no B asil. Em mui os casos, são obse ados discu sos sob e a eal necessidade de
o ma pa a as ca ei as a ís icas, sob o mi o de que o alen o é ina o e nada há
pa a se ap endido na educação o mal.
LUCILIA GUERRA
101
Es e é um g ande engano, pois, pa a além das écnicas que podem se ensinadas,
as ime sões es é icas, as expe iências indi iduais e cole i as em cu sos de a es,
con igu am-se elemen os-cha e pa a a educação da sensibilidade, ão essencial
pa a a p epa ação de pessoas em odas as dimensões de suas idas.
Em mui os casos, os es udan es espe am que a escola só pe mi a que se conec em
com sua c ia i idade, emoções e capacidade de exp essão. Uma escola inclusi a
é aquela que é sensí el às necessidades e aspi ações dos es udan es, espei ando
oda a sua complexidade e di e sidade.
Além da o mação, a escola de e assumi seu papel de agen e desa iado e
p o ocado , com me odologias que p i ilegiem o lo esce dos alen os a se iço
do po encial c ia i o e da exp essão a ís ica.
Educa a sensibilidade como es a égia que a o ece o desen ol imen o do
ap eço pelo conhecimen o é undamen al pa a a sociedade, pois indi íduos que
são es imulados em sua capacidade de pesquisa, em sua cu iosidade e on ade de
ap ende se o nam a en os à ealidade onde i em e es abelecem uma elação de
esponsabilidade pa a con ibui de o ma p oposi i a.
3. A expe iência es é ica é pa a odos?
Pa a Deleuze (2010), “alguém só se o na ma cenei o o nando-se sensí el aos
signos da madei a e médico o nando-se sensí el aos signos da doença.” Nes as
analogias p opos as po Deleuze, se pode e le i o quan o é indispensá el que
os indi íduos c iem in imidade com a A e pa a conhece seus signos e aze
elações, con ex ualizações e lei u as.
As escolas e os espaços cul u ais p ecisam es a p epa ados pa a c ia
opo unidades de ime são a ís ica de modo que os indi íduos possam descob i
suas po encialidades e cons uam signi icados a pa i de seus pe cu sos.
As linguagens a ís icas se ab em à explo ação de possibilidades e cada um em o
p i ilégio de o ná-las únicas, a pa i de seu epe ó io indi idual em in e aces
o almen e no as a cada pessoa.
G ande pa e do p oblema é a al a de acesso elemen a às linguagens a ís icas e
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA
102
à ausência de polí icas públicas de cul u a pa a odos e odas.
Mui as ezes, a isão ma ginal da a e em seu p incípio na educação que não
econhece o alo da expe iência es é ica e desp eza a po ência da educação da
sensibilidade pa a que, odos que inco po em seus ap endizados, e oluam no
sen ido da cons ução de pon es pa a o conhecimen o. A escola que de e ia
o na seus p ocessos pedagógicos signi ica i os, igno a possibilidades de g ande
ele ância.
Po ou o lado, os espaços de uição cul u al p epa am-se pa a o ma público,
aze as linguagens a ís icas pa a o con í io da sociedade e ap esen a
opo unidades pa a diálogos luídos, mas encon am ba ei as na al a de
epe ó io e impo ância de mui os, que seque se expõem aos p ocessos c ia i os,
po não comp eende o bene ício e o p aze que pode se o e ecido.
Es es desencon os p ecisam se solucionados e o papel da educação se es abelece
como decisi o.
Con o me Vigo ski (2010),
(...) a educação nunca começa no azio, não se o jam eações in ei amen e
no as nem se conc e iza o p imei o impulso.... Nesse sen ido, oda educação é
a eeducação do já ealizado.
Des a o ma, a A e dialoga com o que os indi íduos azem. O conhecimen o
se cons ói a pa i do indi íduo e pa a o ou o.
Os pon os de conexão se o ganizam pela sensibilidade e as linguagens a ís icas
azem es ímulos di e en es pa a os indi íduos, espei ando seus epe ó ios
indi iduais.
Se conside a que a “A A e de e se a base da Educação”, como az Pla ão,
ci ado po Read (2001), pa a que se possa de ende esse p incípio, pa a além
dos elemen os ca ac e ís icos da A e, de e-se en ende o impac o des a nas
p o ocações que ealiza, es anhamen os e econhecimen os que cada um
pa icula iza em seus p ocessos de expe imen ação.
LUCILIA GUERRA
103
Segundo Egle on (2011),
(...) se a c ia i idade ago a podia se encon ada na a e, e a po que não
podia se encon ada em nenhum ou o luga ? Tão logo cul u a enha a
signi ica e udição e as a es, a i idades es i as a uma pequena po ção de
homens e mulhe es, a ideia é ao mesmo empo in ensi icada e empob ecida.
Nes a e lexão pode-se pe cebe que es a dualidade de o ças se man ém e,
embo a subjugada na educação à uma á ea de meno in e esse pa a in es igação
e ap op iação, ambém se coloca sob e os omb os da A e um s a us de ele ância
e exclusi ismo. Como aze planejamen o conscien e pa a a sala de aula? Qual a
abo dagem adequada pa a a o mação de pessoas, dian e disso?
Deixando de lado ap eensões eli is as e dis an es, pe cebe-se que o p aze da
ilha e as possibilidades que a A e pode aze pa a as pessoas, se sob epõe
aos julgamen os daqueles que não a conside am impo an e, pois os e ei os das
expe iências es é icas na educação o mal e não o mal são de g ande des aque.
Es as e lexões são mui o impo an es pa a que sejam de inidas polí icas de
acesso que ga an am que a escola ac edi e na capacidade ans o mado a da
Educação pela A e e como ela pode se iden i icada no co idiano das pessoas
em múl iplas o mas de ap esen ação e com g ande o ganicidade em elação a
ida de cada uma.
Po que se eli is a e inacessí el se a A e es á na ida? Se es á na ida, po
que não es á na escola? A a e não se es inge aos obje os museológicos e
de ele ada e udição. Os bens cul u ais que compõe o uni e so das pessoas,
de em se azidos e in e p e ados na sala de aula. Os es udan es po sua ez se
econhece ão ci cundados po eles, pode ão assim aze compa ações com ou as
cul u as, ou os momen os c onológicos e o pensamen o a iculado se a á, de
modo indi idual. Nes e pe cu so, a e udição, em p imei o momen o dis an e,
se es abelece á na u almen e.
De aco do com as pala as do c í ico de a e inglês John Ruskin (1819-1900),
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA
110
LUÍSA PINTO
nos dois es abelecimen os p isionais de San a C uz do Bispo em Ma osinhos
(Po ugal), pe cebi apidamen e, após o é mino do p imei o abalho nos
e e idos EPs, que a ans o mação pessoal nos pa icipan es en ol idos inha
oco ido ela i amen e à aquisição de conhecimen os, desen ol imen o de
compe ências e ecupe ação de au oes ima. No en an o, no momen o da
despedida, pa a mim le an a a-se a seguin e ques ão: Qual o eal impac o do
esul ado no ex e io , endo em is a a ein eg ação social dos eclusos/as?
Foi es a inquie ação que me mo i ou a ol a a es e assun o e a p ossegui a
in es igação e nes a á ea, cen ando des a ez a e lexão no p oje o O Filho
P ódigo-Filme conce o, que p e endeu mais uma ez ompe as on ei as da
p isão; abalha a ein eg ação o al na sociedade sem es igma de eclusos e
eclusas; en ol endo eclusos (en e eles inimpu á eis) e eclusas de dois
es abelecimen os p isionais de San a C uz do Bispo em Ma osinhos ( Po ugal),
ala eminina e masculina, bem como músicos, a o es e a izes p o issionais. A
odagem do e e ido ilme oco eu o a dos mu os da p isão, assim como a
es eia do mesmo, que acon eceu na Casa das A es de Famalicão (Po ugal)
com a p esença dos eclusos/as pa icipan es, do público em ge al, amilia es,
ins i uições en ol idas e o es ado ep esen ado pela Minis a da Cul u a G aça
Fonseca.
Sabemos que as ins i uições o ais, nes e caso a p isão, são conside adas
es igma izan es, consequência da sepa ação e di e enciação en e os eclusos e
a es an e sociedade. Segundo o sociólogo E ing Go man, a ins i uição o al
pode-se de ini como um luga onde o indi íduo é subme ido a uma igilância
cons an e, echado, isolado da sociedade, e onde odos os aspe os da ida do
sujei o são e e uados num mesmo local na companhia de um g upo de pessoas
que ecebem o mesmo a amen o e que são ob igados a aze em as mesmas
coisas sob a mesma au o idade, le ando o indi íduo à mo i icação do “eu”.1
1 E ing Go man, Manicómio, P isões e Con en os. São Paulo: Pe spec i a, 2005, p.18.

111
A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR
Também na análise que Foucaul az sob e as p isões na sua ob a ”Vigia e Puni ”,
a p isão pode se en endida como “(…) uma ins i uição disciplina c iada pa a
exe ce o pode de puni pela p i ação de libe dade, pa a p oduzi docilidade e
u ilidade median e o exe cício de coação educa i a o al sob e o condenado”.2
Pe cebemos, po an o, que odo o p ocesso de despe sonalização p o ocado no
indi íduo que en a na p isão, le a à pe da de iden idade que se á mui o di ícil
es abelece no u u o. Impo a não esquece que embo a es as pessoas es ejam
numa ase de eclusão azem pa e da sociedade e o que se obje i a é que enham
a se is os como cidadãos de co po in ei o após o cump imen o da pena.
Face ao expos o, a einse ção do indi íduo de e se a p io idade das polí icas
go e namen ais, obje i ando-se a possibilidade de opo unidades iguais nas
polí icas de inclusão social.
Impo a en ão e le i sob e aspe os de eabili ação do ecluso, en e eles, a a és
de p ocessos c ia i os e de humanização, e que de em inicia -se logo após a
en ada do sujei o na p isão, assim como e le i sob e a a e como e amen a
de abalho de campo no p ocesso de c iação a e i a das elações in e pessoais.
Da p axis ea al na p isão à odagem do ilme O Filho P ódigo no ex e io
Ao longo de qua o meses os ensaios das cenas a ilma pos e io men e do
p oje o O Filho P ódigo-Filme conce o oco iam duas ezes po semana no
es abelecimen o p isional eminino pa a ês ho as de abalho em cada dia en e
as 14h00 e as 17h00. Só e a possí el es e ho á io po azões que conce nem
às ocupações labo ais que são emune adas, assim como aos cu sos que alguns
equen am.
De salien a que o p imei o ensaio com odo o elenco, (homens e mulhe es,
a o es p o issionais e eclusos/as), oi mui o signi ican e, e esul ou numa g ande
alo ização no compo amen o e na au oes ima dos eclusos/as, endo em con a
que o p oje o p opo ciona a a es a população uma opo unidade excecional,
2 Michel Foucaul , Vigia e Puni , Nascimen o da P isão. Pe ópolis: Vozes, 2004, p.154.
112
pois o con ac o com o sexo opos o po pessoas que se encon am em medidas
p i a i as de libe dade, po no ma, não é pe mi ido, o que con ibui pa a a
mo i icação do eu como e e e Go man: ”(…) nas p isões, a negação de
opo unidades pa a elações he e ossexuais pode p o oca o medo da pe da da
masculinidade. (…) Mas, numa p isão o indi íduo p ecisa de a i idades cujas
consequências simbólicas são incompa í eis com a sua conceção do eu”.3
Impo a e e i que os di igen es de cada um dos EPs, assim como os écnicos
de educação a e os ao p oje o, desde o início mani es a am on ade em
acolhe a inicia i a, no en an o, alguns gua das p isionais eagiam com alguma
descon iança e eceio, pelo simples ac o de pe u ba mos as o inas e as eg as
da ins i uição.
3 E ing Go man, Manicómios, P isões e Con en os, T adução Dan e Mo ei a Lei e. São Paulo: Pe spec i a,
2005, p.31.
LUÍSA PINTO
Figu a 1. Fo og a ia de cena que in eg a o ilme. C édi os: Paulo Pimen a
113
Po es a azão, a i mou-se a necessidade de conquis a a con iança de odos
(di eção, écnicos e gua das) de o ma abe a e em diálogo cons an e.
Os ensaios se i am pa a le e analisa o ex o, que, ainda que o conhecessem
po que o le ámos à cena em 2017 com o mesmo elenco, e i o-me à peça de
ea o O Filho P ódigo de João Ma ia And é e Helde Was e lain, des a ez,
es a a adap ado pa a cinema sendo po isso necessá io ajudá-los a comp eende
udo o que ainda não inha sido pe cebido no e e ido ex o, ago a anspos o
pa a a ela. Es e empo se iu ambém pa a con ex ualiza o ilme, analisa no as
pe sonagens e aze um le an amen o de cenas a abalha pos e io men e nos
deco s selecionados pa a o e ei o, com o obje i o de acili a o p ocesso quando
iniciássemos a odagem do ilme.
Como encenado a e co- ealizado a do ilme em causa, i i es a in es igação em
campo, numa si uação de c iado a/obse ado a/pa icipan e, e es a elação oi
c ucial pa a o enquad amen o e o desen ol imen o da expe iência emocional e
da cons ução do obje o a ís ico.
Nes e caso e den o des e con ex o, pa ece-me signi ica i o menciona ambém a
obse ação dos a o es eclusos aos a o es p o issionais e ice- e sa. Es a oca de
obse ação desen ol eu-lhes a capacidade exp essi a do co po; pois aze ea o
com um g upo sociológico, ainda sem au onomia, implica a di iculdades, na
medida em que os a o es eclusos não conseguiam esponde da mesma o ma
que os a o es p o issionais, dada a inexpe iência da p á ica da ep esen ação.
Com e ei o, a inocência e a espon aneidade do não a o o e eciam uma emoção
especial na o ma de aze , a isca ia um aze genuíno e que me conduziu a
B ech , que nos seus úl imos anos de ida su p eendeu os colabo ado es, quando
a i mou que o ea o de ia se ingénuo.4
Nes e p ocesso c ia i o, a ingenuidade, inexpe iência a ís ica e as quase
inexis en es habili ações li e á ias dos eclusos/as pa icipan es não impedi am o
4 Be ol B ech a pa i de Pe e B ook, O Espaço Vazio, T adução Rui Lopes. Lisboa: O eu Neg o,
2008, p.109.
A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR
114
alcance dos esul ados desejados no p oje o. Aqui ez-se p esen e a impo ância
dos aspe os não cogni i os, como os a e os e emoções, izemos exe cícios
ea ais en ando mo i á-los e incen i á-los a cons uí em uma no a ealidade/
possibilidade, desejando azê-los sen i enamo ados pelo p oje o. Conco do
com Albe oni, quando diz: “(…) quando es amos enamo ados, adqui imos uma
ex ao diná ia capacidade de e , de ou i , de pa icipa . As co es são mais i as,
as músicas mais in ensas, os sen imen os mais ib an es, acolhemos odas as
coisas boas que êm ao nosso encon o, es amos es upe ac os dian e da beleza,
da in eligência, da c ia i idade e ecebemo-las com aleg ia”.5
É esse es ado de enamo amen o que en á amos p o oca pa a, em conjun o,
consegui mos c ia um obje o a ís ico, pela simples azão de es a mos
apaixonados po ele.
Du an e os ensaios, ainda no es abelecimen o p isional, p ocedeu-se a uma
simulação igo osa do espaço cénico a implemen a em cada déco no ex e io
pa a ilmagens. Se os a o es não i essem expe ienciado an e io men e um
disposi i o cénico p óximo da implemen ação inal nos locais de ilmagens, a
elação do co po (se ) no espaço não e ia acili ado a habi abilidade, nem o
esul ado da pe o mance e ia sido ão ico.
Du an e o p ocesso oco e am á ios momen os signi ican es e um deles p ende-
se com a en ada dos músicos Edua do Sil a e Rui Lace da. Es es sabiam, desde
o início, que exis ia no elenco uma eclusa, a Ad iana, que can a a e esc e ia
le as, com o desejo de i em a se musicadas. Logo no p imei o dia de abalho
com os músicos, su giu uma eno me empa ia en e os ês elemen os. Es e
momen o e elou-se num jogo de admi ação mú ua e cumplicidade a ís ica
en e músicos/can o a. T a a a-se de uma ci cuns ância a a, que na ida da
eclusa pa icipan e que na dos músicos. Numa a mos e a de cama adagem
5 F ancesco Albe oni, Os In ejosos, adução Ma ia Sa men o. Venda No a: Be and Edi o a, 5ª Edição,
2000, p.217.
LUÍSA PINTO
115
en e uma can o a amado a e músicos expe ien es, encon a am-se a c ia , em
conjun o, dois emas que i iam a in eg a a banda sono a do ilme, pa ilhando
écnicas e me odologias pa a as e e idas composições musicais. Es as duas
canções o iginais, cujos ex os es ão elacionados com a na a i a de O Filho
P ódigo-Filme conce o, êm a pa icula idade de e em sido esc i as pela Ad iana,
o que lhe p o ocou um c escendo na sua au oes ima, pelo simples ac o de
consegui es a naquele momen o de c iação em ci cuns ância igual aos músicos
p o issionais.
Os es emunhos de eclusos ela i os a es a expe iência e elam os bene ícios da
a i idade a ís ica pa a os que nela pa icipam e mos am como pode con ibui
pa a c ia uma subje i idade nos mesmos.
A eclusa Ad iana Mau ício, na p imei a saída ao ex e io pa a g a a os emas
musicais em es údio, disse ao Jo nal Público “(…) es e é um daqueles dias que
me du a pa a um ano de p o eção den o da cadeia, lá é um en o camen o, aqui
A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR
Figu a 2. Ensaio de composição musical, no ex e io , no dia de g a ação da cena. C édi os: Paulo Pimen a

116
é espe ança dá-me a capacidade de cons ui e econs ui a minha ida. Lu a
con a quem me puxa pa a o lado neg o. Só que o sai como uma no a Ad iana,
esquece o passado. Quando can o, é pa a acende algo que se apagou den o
de mim há mui o empo”. E a Paula Gonçal es, eclusa pa icipan e na peça
an e io e que nes e ilme já se encon a a em libe dade condicional, ac escen a
ao Jo nal Público com odo o en usiasmo “(…) num dia deco ei o ex o, iz um
papelão. Es a aqui muda udo”.6
Pa a sus en a es es es emunhos, eco o a Albe oni, quando diz que “(…) a
pala a en usiasmo em do g ego en heós, exis i em Deus, p esença de Deus,
inspi ação di ina. O en usiasmo é, po conseguin e, ene gia ex ao diná ia,
ímpe o, é. É uma o ça que nos empu a pa a o que é ele ado, pa a o que em
alo . Uma po ência que nos le a a supe a a nossa ida diá ia, a i pa a além
daquilo que somos habi ualmen e. É um es ímulo na di eção do u u o, uma é
na p óp ia me a, nas p óp ias possibilidades. O en usiasmo é uma explosão de
espe ança”.7
De aco do com Albe oni ac edi o que o en usiasmo, a espe ança e o sen imen o
de libe dade, ainda que in amu os, se enquad em nas p incipais p emissas
pa a a supe ação e consequen emen e pa a a aquisição de au oes ima dos
eclusos. Po quê? A isca ia á ias azões, en e elas: po que sabemos que a a e
é um espaço de libe dade de c iação, que se opõe àquela da ida da p isão,
de cons angimen o, de anulação; po que começam a ecupe a o seu “eu” de
an es, na medida em que são chamados pelo nome e não po um núme o;
po que o espaço da a e é um espaço de pa ilha; po que nos p oje os os eclusos
abandonam o sen imen o de ma ginalização social adqui indo au oes ima;
po que no espaço da a e é pe mi ida a a e i idade e, po úl imo, po que nes e
espaço os eclusos descob em possui aculdades impensá eis.
6 Ma iana Pin o, “Quando a A e Rompe os Mu os da P isão, a Mudança Acon ece-se” in Jo nal Público,
Po o, 06/10/2019.
7 F ancesco Albe oni, A Espe ança, T adução Jo ge Valen e. Lisboa: Be and Edi o a, 3ª edição, 2002,
p.63.
LUÍSA PINTO
117
A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR
Os dias de odagem do ilme no ex e io e ela am-se num u bilhão de emoções;
a opo unidade de i encia momen os de libe dade du an e dias consecu i os
e a enca ada como uma espécie de p ecá ia p olongada e is o p o oca a-lhes uma
eno me ansiedade. No en an o, a esse empo, o sen imen o da ins i uição e dos
p óp ios a o es inclusos e exclusos já e a de e dadei a con iança, po que es a am
es abelecidas en e as pa es as condições necessá ias pa a o desen ol imen o do
p ocesso. Com e ei o, a saída de eclusos/as dos dois es abelecimen os p isionais
ao ex e io , po á ios dias consecu i os, esul ou numa complexa e igo osa
ope ação em e mos de ia u as, au o izações judiciais, igilância e ecu sos
humanos da Di eção-Ge al de Reinse ção e Se iços P isionais.
Po odas as expe iências p óp ias que ealizei an e io men e em con ex o
p isional, a isco a i ma que, na maio pa e dos p oje os a ís icos com a
comunidade eclusa, o que es á em jogo é a passagem da sala de ensaios pa a o
palco, que pela possibilidade de con on o com o público do ex e io , que pela
Figu a 3. Filmagem no ex e io . C édi os: Paulo Pimen a
118
LUÍSA PINTO
possibilidade de ap oximação às suas amílias.
No momen o da es eia da exibição do ilme o olha dos ou os/público es á
ocado no que oi c iado. Pa a os a o es eclusos, é o momen o pa a pode em
mos a e p o a ao público/sociedade que se é capaz! Ac edi o que, nesse
momen o/ap esen ação pública, o que es á em jogo é uma o e ei indicação
ao econhecimen o e ao espei o. São inúme os os es emunhos de eclusos
ela i os às di e sas expe iências ealizadas nas úl imas décadas em á ios países
que demons am que a au oes ima se o na uma compe ência cada ez mais
impo an e, uma ez que em um papel ele an e no uncionamen o saudá el
do sujei o, con ibuindo pa a o sucesso a ní el a pessoal e p o issional e podemos
comp eende ainda, que os esul ados mais impac an es nos eclusos pa icipan es
es ão elacionados com os p oje os que incluem ap esen ações públicas.
Nes as expe iências, o aze ea al acon ece enquan o abalho a ís ico e ao
mesmo empo abalho elacional com o ex e io , con aminando o g upo pa a
um mesmo obje i o, a “es eia”. Nas pala as de Pe e B ook “(…) Não há dú ida
que o ea o pode se um luga mui o especial. É di e en e da ida quo idiana,
po an o ambém pode acilmen e se sepa ado da ida. (…) Pa a uma pessoa, é
di ícil e um só obje i o na ida. No ea o, po ém, o obje i o é mui o simples.
A pa i do p imei o ensaio, o obje i o es á semp e à is a, p óximo e en ol endo
oda a gen e. Conseguimos e di e sos modelos de pad ões sociais em ação: a
p essão da es eia, com as suas inequí ocas exigências, p oduz um espí i o de
g upo, dedicação, ene gia e p eocupação com as necessidades dos ou os – udo
o que qualque go e no gos a ia de consegui inspi a em empo de paz”.8
En ão, podemos conside a que a einse ção do indi íduo de e se a p io idade
das polí icas go e namen ais, obje i ando-se a possibilidade de opo unidades
iguais nas polí icas de inclusão social.
8 Pe e B ook, O Espaço Vazio, T adução Rui Lopes. Lisboa: O eu Neg o, 2008, p.139.
119
A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR
Conside ações inais
Es a expe iência p e endeu ques iona a inalidade obje i a do aze a ís ico no
p ocesso educacional do ecluso/a, endo em con a a necessidade de no u u o
ap esen a o indi íduo à sociedade como um se capaz.
Es a expe iência demons ou cla amen e que é possí el a conjugação en e a
ins i uição e um g upo do ex e io que pelo ac o de e em sublinhado no dia de
es eia uma on ade cla a na con inuidade de p opos as semelhan es, que pelo
ac o de e em assinado um p o ocolo es abelecido en e a minha companhia
Na a i ensaio-AC e a Di eção-Ge al de Reinse ção e Se iços P isionais com
o obje i o de ma e ializa p opos as ea ais/pe o ma i as de o ma egula e
con inuada.
En endo que es a e lexão é u gen e, conduzindo a uma pa icipação a i a da
sociedade na p omoção da einse ção e cidadania e que a p oblema ização do
p ocesso c ia i o e educacional em con ex o p isional me ece se discu ida.
Figu a 4. Es eia da exibição de O Filho P ódigo - Filme Conce o, ocado ao i o. C édi os: Paulo Pimen a
126
no plane a, em um sen ido amplo. Sendo assim, a pedagogia social pode se
comp eendida como um modo de se posiciona en e a uma ação pedagógica,
ao in és de um campo especí ico de a uação, e p o issionais de á eas dis in as
podem u iliza a pedagogia social como uma o ien ação eó ico-p á ica. Nesse
sen ido, a c ia i idade e as a es em um papel undamen al.
A pe spec i a especi ica suge ida nes e ex o, a pedagogia a e-social, se si ua
no con ex o da in e p e ação ampla da pedagogia social, com oco no papel
das a es e dos demais p ocessos c ia i os no desen ol imen o humano e social.
Con ex ualizamos essa ques ão abo dando a democ acia como um modo de
i e jun os. Depois, discu imos a ques ão da p esença das expe iências a ís icas
na ida co idiana, u ilizando a noção de democ a ização da cul u a, o que le a a
pensa , especi icamen e, na ques ão do acesso às a es. Nos ap oximamos das a es
e dos demais p ocessos c ia i os ambém como uma abo dagem da educação –
um p ocesso pedagógico em si – u ilizando a pe spec i a da democ acia cul u al,
que en a iza a impo ância do aze a ís ico, em ez de ica somen e na posição
de espe ado . Finalizamos o ex o com um exemplo de um p oje o que en elaça
ea o e ciências sociais pa a discu i como pode ia se a “pedagogia a e-social”
na p á ica.
Democ acia como um modo de se no mundo
A capacidade de imagina di e en es ealidades e a anjos sociais é cen al
pa a a ealização da democ acia. […] A democ acia é o exe cício cole i o da
imaginação. (Eskelinen, 2019, pp.85-86)
Começamos a e lexão nes e ópico com uma p eocupação azida po Nussbaum
(2012) sob e a diminuição da ca ga ho á ia dedicada às a es no cu ículo
escola . Subjacen e a isso, es á a p eocupação com a e osão da i alidade da
democ acia. Pa a aseando Nussbaum, há a p eocupação de que a educação no
mundo neolibe al apoie o c escimen o das ge ações endo-as como peças ú eis
SANNA RYYNÄNEN

127
de máquina, em ez de educa cidadãos capazes de pensa , e le i e colabo a
(ibid.).
A democ acia é uma o ma de go e no e uma o ganização de omada de
decisões, mas acima de udo, é um a modo de sociedade baseado em uma ideia
adical de igualdade das pessoas e de suas capacidades de decidi em jun as os
assun os em comuns. Em A enas, chamada de be ço da democ acia, as condu as
democ á icas de go e no e de ida e am conside adas inex ica elmen e ligadas.
O es ado democ á ico ga an ia as condições pa a uma boa ida (jun os), o que
e a possibili ado pelo a o de que os cidadãos inham c escidos com ce os ipos
de i udes, como po exemplo, co agem, acionalidade, azoabilidade e jus iça
(Alhanen, 2016).
Quando a democ acia é en endida como um modo de ida comuni á io, a
sociedade é is a como um odo, na qual não apenas há in e esses indi iduais,
mas, acima de udo, ques ões e in e esses em comuns. A democ acia, en ão,
não apenas oco e em ní el do apa elho do Es ado e nas assembleias de o o,
mas sob e udo a a és das p óp ias pessoas e de suas associações, a o es da
sociedade ci il. A i alidade da democ acia, po sua ez, eque pessoas que
es ejam comp ome idas com a cons ução e o desen ol imen o de uma
sociedade iguali á ia e jus a, e que ambém se sin am pa e da sociedade e
de suas comunidades. O desen ol imen o dessas habilidades es á associado,
pa icula men e, com as humanidades e as a es (Nussbaum, 2012).
Podemos dize que a democ acia é um componen e undamen al de uma
sociedade iguali á ia, jus a e humana – mas só unciona quando a democ acia é
como de e ia se , quando não é en endida somen e como um modo de go e na ,
mas como um modo de i e jun o, cuja i alidade depende de cada um de
nós. A democ acia, assim en endida, é pública e comunica i a e, ambém, um
p ocesso sem im. “Em ez de de ende a democ acia exis en e, ela de e se
le ada adian e” (Eskelinen, 2019, p.11).
O pensamen o c í ico, a capacidade de en en a ou a pessoa em espí i o de
diálogo e a imaginação, po exemplo, são conside ados ap idões pa icula men e
PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL
128
impo an es pa a a i alidade da democ acia (Nussbaum, 2012). A imaginação
apoia a capacidade de empa ia, ou seja, a capacidade de assumi a posição de
uma ou a pessoa, e ambém ajuda a imagina di e en es ipos de ealidade e suas
possibilidades. O diálogo, po sua ez, é a habilidade de conhece , ou i e e
a ou a pessoa – uma manei a de e a alma do ou o, como coloca Nussbaum
(ibid.). Nesse caso, não se a a de qualque con e sa, mas de um encon o en e
se es no qual não emos o ou o como um ins umen o pa a alguma coisa, mas
buscamos acessá-lo em sua in eg idade, comp eendendo como o mesmo es u u a
o mundo. Comp eende , po ém, não signi ica que udo de a se acei o, ou que
odas as o mas de es u u a o mundo de am se alo izadas do mesmo jei o.
O diálogo como um ideal é ico signi ica um comp omisso com os p incípios
undamen ais de uma sociedade iguali á ia e jus a, na qual ninguém es á, em
p incípio, excluído desses di ei os (Alhanen, 2016; Ni ala & Ryynänen, 2019).
Uma elação dialógica com as ou as pessoas e com o mundo não su ge po si
mesma, mas somen e po meio do diálogo, que é ap endido a a és da p á ica. É
ambém uma habilidade que p ecisa se p a icada e p o egida – especialmen e no
mundo a ual que, mui as ezes, segue a con aco en e. O ilóso o inlandês Kai
Alhanen (2016) a i ma que, o desen ol imen o e o exe cício de compe ências
essenciais pa a dialoga , são ques ões polí icas c uciais pa a a i alidade das
democ acias. Ele ci a cinco habilidades, pa icula men e impo an es pa a o
nosso modo de ida a ual, e que, po an o, de em ecebe a enção. São elas:
a inação ou sin onização, imaginação, a o de b inca , e lexão ou delibe ação, e
espe ança.
Essas habilidades são moldadas pelo e ei o combinado das endências de um
indi íduo e de suas condições no con ex o social. No con ex o do p esen e
a igo, concen amos nas ês p imei as habilidades, po que elas êm uma ligação
especialmen e in e essan e com a c ia i idade e as a es. A inação ou sin onização
é a capacidade de alcança as expe iências de ou as pessoas, essonando a si
mesmo nelas, is o é: es abelece elações de empa ia. A imaginação amplia os
ho izon es do cí culo imedia o da expe iência e é uma capacidade de imagina
SANNA RYYNÄNEN
129
algo que não sabemos pela p óp ia expe iência. E um a o de b inca é uma
capacidade de expe imen a , hipo e icamen e, algo que ainda não exis e e que
ajuda a desen ol e si uações al e na i as (Alhanen, 2016).
Democ a ização da cul u a
Há uma g ande a iedade de es udos mos ando que, as o mas na a i as de a e,
em pa icula a icção e o ea o, alimen am e ampliam a nossa capacidade de
empa ia, ou seja, de nos posiciona em elação ao ou o, seja ele um ep esen an e
da humanidade ou do mundo animal (Nussbaum, 2012; Aal ola & Ke o,
2017). A a e em a capacidade de ab i pe spec i as sob e ou as ealidades
possí eis, bem como no as o mas de comp eende e lida com o mundo. Se
analisa mos ce as expe iências da a e da sob a pe spec i a das habilidades de
diálogo desc i as po Alhanen (2016), como po exemplo a lei u a de icção ou
a expe iência de assis i a uma ap esen ação do ea o, es as encon am-se, acima
de udo, no eino da a inação/sin onização e da imaginação. As o mas na a i as
de a e azem à imaginação as ealidades de ou as pessoas e podem ajuda a
sensibiliza a ida do ou o, a apoia a capacidade de ê-lo como um se digno,
a espei á-lo e a cuida dos mesmos. Isso acon ece especialmen e com his ó ias
nas quais as pe sonagens ic ícias con idam a cons ui conexões com pessoas e
e en os eais, ou seja, pe mi em o econhecimen o e a iden i icação (Nussbaum,
2012; Aal ola & Ke o, 2017).
Esses são alguns a gumen os que, po exemplo, Nussbaum usa pa a en a iza a
impo ância das possibilidades de se e con a o com as a es, an o nos con ex os
da educação o mal e não- o mal, quan o nas ou as es e as da ida. Em ou as
pala as, os a gumen os des acam a impo ância da democ a ização da cul u a,
ou seja, uma melho di usão das a es, um melho acesso, um desen ol imen o
das “cul u as de cul u a”.
Quando pensamos na educação, as a i idades c ia i as e as a es podem se
inco po adas aos cu ículos e demais con ex os educacionais o mais e não-
o mais de di e en es manei as, se en a izando a expe iência ou o aze . No
PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL
130
en an o, do pon o de is a de p a ica as habilidades de diálogo, po exemplo,
as ob as ou abalhos a ís icos não são igualmen e pedagógicos. Pa a os sê-los,
eles de em, de uma o ma ou de ou a, es a ligados a uma isão de mundo
que ca egue em si a ideia do alo indi isí el da dignidade dos se es humanos,
dos ou os animais e dos ambien es na u ais. Po ém, há uma ques ão sob e a
impo ância da sele i idade das ob as de a e a se em u ilizadas nos con ex os
educacionais. T aze uma dimensão pedagógica à expe iência a ís ica ambém
signi ica es imula e o ien a a e lexão sob e quais ipos de “pon os cegos” as
ob as de a e podem con e como p odu os de sua época e de seu con ex o social
(Nussbaum, 2012; Ni ala & Ryynänen, 2019).
No con ex o das polí icas cul u ais, a abo dagem da democ a ização da cul u a
é mui as ezes c i icada po se baseada no concei o de cul u a es i o ao campo
das a es consag adas e ol ada, especi icamen e, pa a a di usão da cul u a de eli e
ou da chamada “al a cul u a”. Quando aplicamos a democ a ização da cul u a
como um concei o analí ico nos con ex os da educação o mal e não- o mal, em
ez de um concei o (sócio)polí ico no con ex o social mais amplo, conseguimos
ul apassa alguns desa ios – mas pa a a a das expe iências e sá eis é p eciso
uma e lexão c í ica e cuidadosa. O educado em que e uma capacidade de
ul apassa os mu os en e a “al a cul u a” e àquelas o mas de a e que icam às
ma gens, e econhece os pe igos da colonização cul u al (Ni ala & Ryynänen,
2019). Mesmo assim, pode-se dize que a pe spec i a da democ a ização da
cul u a não é su icien e, como em sido a i mado ambém no con ex o da
polí ica cul u al (Souza, 2017). Ademais, é necessá io inclui a pe spec i a da
democ acia cul u al que não é somen e ol ada à di usão da cul u a exis en e
(e mui as ezes “de eli e”) e à ideia de um público consumido das a es e da
cul u a, mas que ambém econheça a c ia i idade e a agência de odos e que,
além disso, en a ize o econhecimen o da p odução au ônoma que lemb e que
as a es ão mui o além das suas o mas ins i ucionalizadas. No amen e, não se
a a somen e de uma ques ão de polí ica cul u al, mas ambém em a e com
con ex os educacionais.
SANNA RYYNÄNEN
131
Democ acia cul u al
A ideia de democ acia cul u al az o espec ado ou lei o se mo imen a pa a
o luga do au o , pa icipando e azendo. O pon o de pa ida é a ideia de que
odos são c ia i os a sua p óp ia manei a e é impo an e nu i essa c ia i idade
e imaginação pa a o alece o agenciamen o. É assim que chegamos ambém na
e cei a habilidade de diálogo, num a o de b inca .
B inca é, em suma, a capacidade de aze expe imen os conc e os u ilizando a
imaginação. O a o de b inca não é apenas pa a c ianças, mas de e se man ido
de o ma conscien e ao longo da ida e se incluindo em di e en es ambien es
educacionais, desde a p imei a in ância na escola a é em a i idades com adul os
e idosos. O psicólogo Donald Winnico (1896–1971) en a izou a impo ância
do b inca pa a o desen ol imen o da c iança e pa a a o mação da cidadania
democ á ica. Como algo cen al pa a man e a capacidade de b inca , mesmo no
mundo adul o, Winnico conside a a as a es em suas á ias o mas (Nussbaum,
2012).
O jogo a ís ico pode desen ol e a imaginação e as habilidades emocionais,
es imula e amplia a empa ia, acili a ou c ia encon os, ge a no as o mas de
comunicação, o alece a expe iência da comunidade e ab i no as pe spec i as
sob e as ealidades co idianas. O oco não es á an o nas habilidades e know-
how, ou seja, na capacidade de a ua no palco ou oca um ins umen o
pe ei amen e, mas no me gulho no p ocesso c ia i o, que é pa icipação na
c iação. Isso é impo an e po si só, assim como a aleg ia e o p aze que esul am
do compa ilhamen o dos p ocessos a ís icos.
Pa a e mina a nossa e lexão em o no das noções de democ a ização da cul u a
e de democ acia cul u al como meios que isam des aca a impo ância das
expe iências e dos p ocessos a ís icos e c ia i os na ida humana, azemos um
exemplo p á ico de um p oje o que en elaça ciências sociais e ea o, como
en a i a de p a ica pedagogia a e-social na es e a pública.
PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL

132
Pedagogia a e-social na es e a pública: Puhekupla, ou Balão de Fala
No início de 2017, um g upo de cien is as sociais e p o issionais de dança e
ea o começa am a o ganiza e en os com emas de imig ação em ba es de
um subú bio de Helsinque, Finlândia. O cole i o denominou-se Puhekupla1
(Balão de ala), que deu o mesmo nome pa a os e en os. A ideia oi a de abo da
um ópico que é polêmico, o da imig ação, po meio de ea o pa icipa i o e
discussão, com o obje i o de ompe on ei as, p oduzi encon os imp o á eis
e ab i no as pe spec i as pa a odos os pa icipan es. Ao planeja os e en os
(que com o empo i a am ambém um p oje o de pesquisa) pensamos num
e o no ao ideal de ea o, aquele que c ia um espaço de discussão conjun a
(O’Conno & Ande son, 2015). P e endemos, com as e amen as do ea o
pa icipa i o e do Tea o Fó um (Boal, 2000), c ia um espaço público pa a
p a ica , conjun amen e, as habilidades do diálogo.
Puhekupla se assemelha à adição do ea o social de ua, em que o obje i o
das peças ou cenas indi iduais le adas a um luga público é o de p o oca um
deba e sob e algum ema socialmen e canden e. Nesse caso, o ea o a uou como
um es imulado da p odução colabo a i a de in o mações, po meio de cenas
baseadas em si uações eais, aduzidas em d ama. O ea o ai a luga es onde as
pessoas já es ão, ou seja, as ap esen ações não são especi icamen e seguidas, como
em um ea o adicional. Que íamos a ingi públicos que nós, como cien is as e
a is as, não pode íamos acilmen e alcança de ou a o ma e cuja oz não es á,
necessa iamen e, no cen o dos deba es na sociedade.
O nosso p oje o ap esen a-se como uma en a i a de abalha com a ques ão
de como p o ege as capacidades de diálogo e man ê-las i as em um con ex o
social que, mui as ezes, unciona exa amen e ao con á io das pessoas e de seus
elacionamen os sociais. Mesmo que o p oje o não enha sido in encionalmen e
pensado pa a inco po a as habilidades do diálogo con o me o desc i o po
Alhanen, é possí el econhece as dimensões de sin onização, imaginação, a o
1 Em inlandês.
SANNA RYYNÄNEN
133
de b inca , e lexão ou delibe ação, e espe ança. O ea o pa icipa i o pode
ap oxima as pessoas de uma manei a que simpa iza com os emas a ados,
a é mesmo nas o mas co po ais, e ab e espaço pa a hesi ações, pe cepções e
emoções con li an es. A abo dagem das a es cênicas a ua como um queb a-gelo,
ab e espaço pa a discussões conjun as e a ua como uma chamada pa a b inca ,
como é insc i a nas écnicas do Tea o Fó um.
Conside ações inais
Iniciamos o p esen e a igo com a p eocupação exp essa po Nussbaum (2012)
em o no do es aziamen o das humanidades e das a es dos cu ículos e dos
demais p ocessos educacionais a ando, inclusi e, das consequências disso,
po encialmen e de as ado as, pa a a democ acia. U ilizamos as e amen as da
pedagogia social, especi icamen e a noção das habilidades de diálogo necessá ias
pa a uma ida democ á ica. Suge imos uma abo dagem especí ica, a que
Figu a 1. P imei o e en o do Puhekupla em um ba no subú bio de Helsinque, Finlândia, em dezemb o
de 2017. Os clien es do ba pa icipando da elabo ação de uma cena. Fon e: ace o da au o a do ex o
PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL
134
chamamos de pedagogia a e-social, pa a analisa as ligações possí eis en e a
i alidade da democ acia e o i encia ou aze a e, buscando des aca meios
pedagógicos que ca egam em si a p o unda impo ância das a es pa a a ida
humana. Com os concei os de democ a ização da cul u a e democ acia cul u al,
p ocu amos mos a caminhos necessá ios pa a se pensa o ‘luga ’ das a es na
educação o mal e não- o mal.
Podemos conclui que o signi icado das a es na ida humana e na sociedade
ai mui o além da expe iência imedia a. As a es de em se conside adas como
pa e algo maio quando buscamos soluções pa a a a ual c ise da democ acia.
Po ém, não é su icien e pensa que amplia as possibilidades de i e e de aze
a e é uma solução ácil pa a a complexa ques ão de como de ende e a ança
a democ acia po meios pedagógicos. Mas ale essal a que, as compe ências
necessá ias pa a uma democ acia i a, são, a inal de con as, as compe ências de
como i e jun o na sociedade. As a es podem alimen a e amplia a capacidade
de empa ia, e possibili a expe iências pa icipa i as de posições es igma izadas
e ma ginalizadas. Eis a impo ância de ga an i o acesso às a es em odas as
ases da ida. Inclusi e, é necessá io pensa no acesso às a es e à cul u a de duas
pe spec i as que são c is alizadas nos concei os de democ a ização da cul u a
e democ acia cul u al. Con udo, a coisa mais impo an e pa a se lemb a
é: a educação pa a a democ acia acon ece melho pelas ias dos p ocessos
democ á icos.
Ag adecimen os
Es e abalho oi inanciado po Kone Founda ion (Finlândia), no âmbi o do p oje o 201903968 (2020–
2022). Ag adeço à P o .ª D .ª Hosana Celes e pelo abalho de e isão do a igo.
SANNA RYYNÄNEN
135
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PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL
142
inse ida em um disposi i o de igilância e con ole – pa ece-me que con abula
o im das p isões é necessá io pa a que a a e não se assujei e ac i icamen e aos
desígnios colocados pelo discu so “ essocializado ”, que imp ega e jus i ica a
exis ência da p isão desde seus p imó dios a é hoje.
Ob iamen e, hoje eu obse o meu li o, publicado em 2008, e penso que ele
é uma ob a com qualidades, mas não consigo deixa de me incomoda com
algumas ausências que me sal am aos olhos.
A ob a ainda é uma das pouquíssimas publicações sob e a e a ás das g ades
em o ma de li o no B asil. E eu alo isso sem nenhuma aleg ia – se ia mui o
bom que mui as pesquisas i essem sido publicadas en ol endo ea o e p isão
em nosso país.
Ac edi o ambém que ui capaz de ealiza uma desc ição hones a dos p ocessos
analisados, sob e udo po comp eende como as aulas de ea o que cons uíamos,
pau adas em uma elação ho izon alizada na omada de decisões, con ibuía pa a
que as pessoas en ol idas no p ocesso econhecessem a impo ância da e omada
de sua au onomia, edescob indo seu papel de sujei as da p óp ia his ó ia e
ol assem a de ini um p oje o de ida – em oposição ao sis ema p isional, que
es á es u u ado pa a que as pessoas, que a ele es ão sujei as, apenas obedeçam a
eg as p e iamen e es abelecidas, es u u adas em nome da o ganização, con ole
e segu ança.
Além disso, elabo ei um esboço da his ó ia de abalhos ea ais em unidades
peni enciá ias paulis anas, buscando inse i o abalho que ealizá amos em uma
aje ó ia de p á icas de esis ência do ea o den o de cadeias. Tomei como
e e ência mais an iga a expe iência que F ei Be o ela ou a Paulo F ei e no
li o Essa escola chamada ida, quando menciona expe imen os ea ais po
ele ealizados, en e 1969 e 1971, quando cump ia pena como p eso polí ico,
í ima da di adu a mili a . Hoje, já sabemos, po meio da ese5 de Vi iane
5 Vi iane Becke Na aes, O Tea o do Sen enciado de Abdias Nascimen o: Classe e Raça na Mode nização do
Tea o B asilei o, Tese (Dou o ado em A es Cênicas) – Escola de Comunicações e A es da Uni e sidade
de São Paulo. São Paulo, 2020, p.309.
VICENTE CONCILIO

143
Na aes, p o esso a da Uni io, que Abdias Nascimen o, quando es e e p eso
no Ca andi u (olha o Ca andi u de no o aqui!), en e 1941 e 1943, ealizou
uma sé ie de expe imen os cênicos que ele denomina a Tea o do Sen enciado,
que inclusi e an ecede am o Tea o Expe imen al do Neg o, ma co pelo qual o
a is a e pensado é econhecido.
Ainda sob e o li o, penso ambém que consegui es u u a uma comp eensão
do sis ema p isional a pa i dos es udos clássicos de Michel Foucaul 6 e E ing
Go man7, co ejando a esses dois au o es, undamen ais pa a a cons ução de
um pon o de is a c í ico sob e a p isão, alguns pesquisado es que con ibuí am
com uma abo dagem his ó ica e c í ica das especi icidades do sis ema ca ce á io
b asilei o. Nesse sen ido, o í ulo da ese de Luiz Ca los da Rocha, A p isão
dos pob es8, esume exa amen e uma e idência que hoje é ampli icada quando
unimos a ques ão econômica, a pob eza, ao ma cado acial: a p isão é um
ins umen o de con ole que pune e ap isiona a população p e a e pob e.
É jus amen e aqui que eu começo a en a e le i sob e aquilo que eu en endo
como “ausências” da minha pesquisa. Não que seja necessá io eesc e ê-la, mas
é undamen al olha pa a ela como uma pesquisa u o de um momen o em
que não le á amos em conside ação pon os que hoje, a pa i das mudanças
discu si as pos as sob e udo pelo pensamen o eminis a, pelo pensamen o
eminis a neg o, se iam undamen ais pa a amplia os sen idos p oduzidos po
aquelas p á icas.
Na pesquisa, a pa i do concei o de “implicação”, ca o à pesquisa-ação al
qual p econizada po René Ba bie (1988), busquei demons a da o ma mais
explíci a possí el a quan idade de p i ilégios que dema ca am o meu olha sob e
aquele uni e so odo. Nesse sen ido, sin o que o que hoje comp eendemos po
6 Michel Foucaul , Vigia e Puni . O Nascimen o da P isão. Pe ópolis: Vozes, 2004.
7 E ing Go man, Manicômios, P isões e Con en os. São Paulo: Pe spec i a, 2001.
8 Luiz Ca los da Rocha, A P isão dos Pob es, Tese (Dou o ado em Psicologia Social) – Ins i u o de
Psicologia, Uni e sidade de São Paulo, São Paulo, 1994, p.279.
QUEM SE INTERESSA POR “MEMÓRIAS AO SOL”?
144
“luga de ala”9 es a a e iden e – mui o embo a esse concei o nem onda a nossa
á ea naquele momen o. Ainda assim, cabe ia ali uma e lexão sob e os papeis de
gêne o – alunas mulhe es enca ce adas, p o esso es homens em libe dade – que
ce amen e ende iam ques ões que não apa ece am na ocasião.
Também conside o que a ia bem ao abalho uma busca po au o as mulhe es
que se deb uça am sob e o sis ema penal e seus e ei os sob e a ida das mulhe es
enca ce adas. As especi icidades do ap isionamen o das mulhe es an o no
âmbi o subje i o quan o nos e ei os da p isão sob e seus con ex os amilia es
e am al o de es udos impo an es, como a ob a de Juli a Lemg ube , cujo
li o Cemi é io dos i os: análise sociológica de uma p isão de mulhe es (1983)
já e a uma e e ência. No en an o, naquele momen o eu não me a en ei pa a
essas ques ões – e hoje é p a icamen e impossí el pensa em abo da aquelas
p á icas sem le a em con a os aspec os colocados em p imei o plano pelos
es udos eminis as, no adamen e os elabo ados po pesquisado as neg as, que
demons am que a in e seccionalidade10 en e gêne o, aça e classe é c ucial pa a
en ende mos a complexidade das op essões p esen es em nossa sociedade, da
qual o ap isionamen o az pa e.
Essa dig essão, a e omada do li o de 2008 não es á aqui como uma en a i a de
e isá-lo. O que acon ece é que, passados 14 anos desde a úl ima ez que en ei
em uma unidade p isional (saímos da Peni enciá ia Feminina do Ta uapé em
2003), eu inalmen e consegui e oma um abalho a ís ico e pedagógico em
uma unidade p isional.
Isso acon eceu a pa i agos o de 2017, ago a no P esídio Feminino de
Flo ianópolis, cidade onde i o desde 2008. Vol ei a abalha em uma unidade
penal eminina, po meio de uma ação de ex ensão que coo deno na unidade, após
9 Sob e esse ema, o es udo de Djamila Ribei o, O Que é: Luga de Fala? Belo Ho izon e: Le amen o,
2017.
10 O concei o de in e seccionalidade emon a aos es udos eminis as neg os e ganhou popula idade na
década de 90, sob e udo a pa i dos es udos in e disciplina es de Kimbe lé C enshaw, que mescla am
as ca ego ias de aça, gêne o e classe pa a es u u a a análise das expe iências de mulhe es neg as. Pa a
conhece mais, sugi o a lei u a de Ca la Ako i ene, In e seccionalidade. São Paulo: Jandaí a, 2019.
VICENTE CONCILIO
145
mui as negociações e a conquis a de apoio jun o à Sec e a ia de Adminis ação
P isional e Socioedica i a do Es ado de San a Ca a ina. Fo am os esponsá eis
pela á ea educacional das p isões que decidi am que meu p oje o de e ia oco e
nessa unidade, e po an o mais uma ez eu me i dian e de um con ex o em
que oi necessá io comp eende e me elaciona com as especi icidades do
enca ce amen o de mulhe es.
Ao longo dos anos de 2017, 2018 e 2019 o p oje o oi se consolidando jun o
à unidade, en en ando ob iamen e as ad e sidades que eu já imagina a que
acon ece iam: a elu ância inicial das agen es p isionais, incomodadas pela
inse ção de uma a i idade a mais pa a elas igia em; as dispu as co idianas
pa a que as aulas ossem conquis ando maio du ação (em 2019, conseguímos
encon os de 3 ho as semanais com nossas alunas, empo que conside á amos
ó imo pa a nossas p opos as) e pa a que pudéssemos le a pa a os nossos ensaios
obje os como cade nos, cane as, igu inos e maquiagem, com o in ui o de
inc emen a nossas p opos as cênicas. Também conquis amos au o ização pa a
que pudéssemos ealiza egis os o og á icos e ilmagens de alguns encon os,
undamen ais pa a documen a nossa expe iência.
Quando, em julho de 2018, um juiz au o izou a saída de 7 de nossas alunas
pa a a ealização de uma pe o mance em um e en o ins i ucional11, pudemos
inalmen e demons a pa a mui as das pessoas que abalha am na unidade que
nosso abalho, embo a osse conside ado pouco sé io e incapaz de le a às alunas
alguma o mação que es i esse no alo izado âmbi o da “p o issionalização”, inha
e ei os signi ica i os na ida delas. A pa i dessa ap esen ação, e a pe cep í el
uma mudança posi i a na o ma com que eu e Yu i Lima Cab al, en ão meu
o ien ando de mes ado e que minis a a as aulas comigo, é amos ebidos pelas
agen es da unidade. Esse econhecimen o oi, pa a mim, uma p o a de que há,
en e as agen es peni enciá ias, pessoas ealmen e in e essadas em ealiza um
11 Sob e essa ap esen ação, e : <h ps://www.udesc.b /cea /no icia/p oje o_da_udesc_e_ap esen ado_
na_2__mos a_labo al_do_sis ema_p isional_b asilei o>. Acesso em: 08 de no . de 2020.
QUEM SE INTERESSA POR “MEMÓRIAS AO SOL”?
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abalho que a enda aos di ei os das pessoas p esas.
Foi a pa i desse ano ambém que a o icina oi conside ada a i idade educacional
complemen a , e passou a aze pa e das polí icas de emissão de pena (a cada
12 ho as de pa icipação nas aulas de ea o, descon a a-se um dia de pena). A
con apa ida a essa conquis a oi que i emos que e o ça alguns aspec os que
já es a am p esen es em nossa p á ica, mas que pude am se ap o undados ao
longo do ano de 201912: desde o início dos encon os nes e ano, in oduzimos o
egis o esc i o como pa e de nossas a i idades, inc emen ando a p á ica ea al
com p opos as de esc i a c ia i a, coo denadas pela en ão mes anda Ca oline
Ve o i de Souza.
Ao longo daquele ano, a coo denação do p ocesso oi compa ilhado po cinco
pessoas: além de mim e Ca oline, in eg a a o p oje o Naguissa Takemo o Viegas
(es agiá ia e aluna da Udesc) e, a pa i de maio, nós ambém acolhemos a
p esença de Thuanny Paes e Alexand a Melo, in eg an es do Cole i o Nega,
g upo de ea o o mado po in eg an es neg as que desen ol iam um p oje o
chamado Mulhe es Neg as Resis em.
Ou seja, à p opos a com a qual iniciamos o ano, que oi coo denada sob e udo
pela pesquisa en e cena e esc i a coo denada po Ca oline Ve o i, ac escen ou-
se o deba e acial azido pelas a izes do Cole i o Nega. Fo am elas que
en a iza am a impo ância de acializa mos o deba e sob e a p isão, um deba e
que e a in isibilizado quando nossas conside ações es a am es i as a nossas
alunas que e am, em sua g ande maio ia, b ancas.
Vale aqui uma no a: o pano ama do ma cado acial é ligei amen e di e en e na
egião Sul do B asil, em compa ação com o pano ama nacional. Embo a nos
ês es ados (Pa aná, San a Ca a ina e Rio G ande do Sul) a maio ia das pessoas
ap isionadas seja b anca, ainda assim a p opo ção de pessoas neg as nas p isões é
maio que a média populacional.
12 Sugi o a lei u a de Vicen e Concilio e Ca oline Ve o i, Rela o Sol o de uma O icina A ás das G ades:
um P ocesso de Esc i a Tea al den o do P esídio Feminino de Flo ianópolis, 2019. Disponí el em: <h ps://
pe iodicos.uni ap.b /index.php/iaca/a icle/ iew/5088> Acesso em: 08 de no . de 2020.
VICENTE CONCILIO
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No en an o, hoje me pa ece impossí el não deba e mos a p isão e as es a égias
de comba e ao enca ce amen o em massa sem en ende mos o papel undamen al
do acismo es u u al no o alecimen o desse disposi i o. O acismo e seu papel
desumanizado sob e a exis ência das idas p e as (e ambém indígenas, e mais
ecen emen e ambém sob e pessoas de o igem la ina) oi uma o ça undamen al
na cons ução desse apa elho puni i o, que é peça e iden e da nec opolí ica
(Mbembe, 2018).
Foi ao longo de 2019 que cons uímos, a pa i dos diá ios esc i os po nossas
alunas, o espe áculo Es endemos nossas memó ias ao sol. O ex o nasceu de um
p ocesso que sua au o a, Ca oline Ve o i de Souza, de iniu como “d ama u gia
da escu a”13. Nosso papel ali oi de ap ende a ou i , an es de p opo . Tínhamos
que en ende que o ea o é ação, mas que há mui as coisas sendo explici adas
quando conseguimos comp eende o epouso. Naqueles encon os, semp e aos
sábados à a de, cu ucá amos com delicadeza a co agem de nossas alunas em
expo seus pon os de is a e, uma ez es abelecida nossa elação de con iança
mú ua, as memó ias ocadas pude am se enca adas como ma é ia-p ima pa a
uma ob a de icção (mas nem ão icção, no im).
Foi ali que nasceu a His ó ia da Chu a, em uma imp o isação que p opunha
a cons ução cole i a de uma ábula, quando em oda cada in eg an e de e ia
comple a a na ação da pessoa que o an ecedeu. Essa his ó ia se ans o mou em
um espe áculo, ap esen ado no Fes i al Flo ipa Tea o – Isna d Aze edo, o maio
e en o da á ea na cidade, e do qual elas pude am aze pa e.
Quando acon ece uma ap esen ação desse ipo, há uma guinada nos sen idos
do nosso abalho. Essas ap esen ações ex e nas ep esen am uma conquis a
mui o o e pa a nossas a izes: po meio delas, elas pude am e e amilia es
e amigos, e essas pessoas amadas po nossas alunas pude am ê-las não mais
ajando um uni o me la anja. O que as pessoas p esencia am o am a izes em
13 Pa a ap o undamen o, sugi o consul a a disse ação de mes ado de Ca oline Ve o i de Souza,
chamada Es endemos Nossas Memó ias ao Sol: Caminhos pa a uma D ama u gia da Escu a com Mulhe es
em P i ação de Libe dade.
QUEM SE INTERESSA POR “MEMÓRIAS AO SOL”?

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seus igu inos, es indo pe sonagens que elas mesmas in en a am e pude am
en ão compa ilha , comp o ando que elas são mui o mais do que aquilo que o
sis ema p isional as en a encapsula .
Essa lu a pa a e oma a humanidade das pessoas p esas não é uma ques ão
pequena na lu a con a o enca ce amen o em massa. Pa a desmon á-lo, é p eciso
muda a pe cepção que a sociedade em das p isões e das pessoas que as habi am.
É p eciso mais uma ez que o ema enha a público de o ma saudá el e c í ica,
que o deba e sob e as p isões aga a dimensão eal de seu cus o humano e
econômico. Os discu sos de comba e ao c ime p ecisam se dimensionados de
o ma à elabo ação de polí icas públicas que o e i em, pa a que eles pa em de
se i de jus i ica i a pa a o o alecimen o sis emá ico de polí icas conse ado as
que espondem ao c ime sem en endê-lo de o ma ab angen e.
Que papel o ea o em nesse pano ama? O ea o cabe nesse deba e? Sigo
ac edi ando que as espos as pa a esses emas ainda não es ão dadas. Mas gos a ia
de ajuda a cons uí-las.
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Re e ências bibliog á icas
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AUTORES
ELEN DE FATIMA LONDERO
A iz, pesquisado a e p odu o a cul u al.
Mes anda em Pedagogia do Tea o na Escola de
Comunicação e A es na Uni e sidade de São
Paulo/ECA-USP. Es udou bacha elado em A es
Cênicas, na Uni e sidade Fede al de San a Ma ia
(RS), e g aduou-se em Tecnologia em P ocessos
Ge encias, no Cen o Uni e si á io Senac São
Paulo. A uou no espe áculo "Mademoiselle
Chanel", es elado po Ma ília Pê a, sob di eção
de Jo ge Takla e com ex o de Ma ia Adelaide
Ama al. É a iz undado a e in eg an e da Cia.
Veneno do Tea o, onde coo dena a Mos a
Cul u al Exp essões da Les e. Foi uma das
o ganizado as do li o “P oje o Es ação SP:
Pedagogias da Expe iência”, e do li o “O Sujei o
His ó ico do Tea o de G upo na cidade de SP
e g ande SP”, ambos edi ados pelo Selo Lucias
da Adaap. Colabo ado a da SP Escola de Tea o
desde 2010, a ualmen e é esponsá el pelos
P oje os Especiais da ins i uição.
ELISABETH SILVA LOPES
Licenciada em Educação A ís ica e A es Cênicas
pela Uni e sidade Fede al de San a Ma ia (1979),
Especialização em A e-Educação (1987) na
Uni e sidade de São Paulo; Mes ado em A es
Cênicas pela Uni e sidade de São Paulo (1992)
com o ien ação de Rena a Pallo ini; Dou o ado
em A es Cênicas pela USP (2001) com
o ien ação de Jacó Guinsbu g; Pós-dou o ado no
P og ama de Pós-G aduação em Linguís ica da
Uni e sidade Fede al de San a Ma ia (UFSM) na
linha de pesquisa de Análise do Discu so, sob e a
memó ia do a o (2006), supe isão de Amanda
Sche e ; e um segundo Pós-dou o ado sob e
pe o mance oi ealizado na Tisch School o he
A s, na New Yo k Uni e si y (2009-2010), com a
supe isão de Richa d Schechne . Tem expe iência
como p o esso a de ea o de 1º e 2º g aus (1977-
1978), e uni e si á ia desde 1980, du an e 18
anos na UFSM e ou os 21 na USP. A ualmen e
é P o esso a Sênio , aposen ada do Depa amen o
de A es Cênicas, e inculada apenas ao PPGAC.
Exe ceu a unção adminis a i a de Coo denado a
do cu so de G aduação e do P og ama de Pós-
G aduação em A es Cênicas, da Escola de
Comunicações e A es, na USP. Foi ambém
Vice-di e o a do TUSP - Tea o da Uni e sidade
de São Paulo. É associada e memb o da di e o ia
do Hemisphe ic Ins i u e o Pe o mance and